Olhar ao Redor: O Humano e o Divino

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O Evangelho deste Trigésimo Primeiro Domingo do Ano Litúrgico conta-nos o episódio  de  Zaqueu.  Este encontro é um daqueles que deixam  bem  patente e claro a interacção do humano com o divino na existência do homem ou da mulher neste mundo, mas,  particularmente,  quando tocados ou desafiados pela presença de Deus. Toda experiência espiritual ou religiosa implica  sempre a acção de Deus e a participação do ser humano.

Nesse sentido,  na narrativa evangélica pode ler-se:  «Um homem rico chamado Zaqueu… procurava ver quem era Jesus» Por outro lado, continua  o mesmo  texto sagrado dizendo que, «quando Jesus chegou ao local, olhou para cima e disse-lhe: ‘Zaqueu, desce depressa, que Eu, hoje, devo ficar em tua casa».  Como que Jesus e Zaqueu sentíssem  um  movimento do mais profundo do ser de  cada um  para buscar o outro: «Zaqueu procurava ver;   Jesus… devo ficar em tua casa…»

Que Deus nos criou, que nos conhece até ao mais ínfimo pormenor, que continuamente nos acompanha,  é uma constante do Antigo Testamento. Que Jesus Cristo, nosso Deus,  nos deseja,  nos quer,  nos ama intensamente  ao ponto de morrer por nós na Cruz constitui uma verdade inabalável,  de que não há que duvidar. A questão  não está em Deus,  mas, sim, no ser humano e, concretamente, na sua resposta. No caso de Zaqueu, apesar de pequeno e ignorante, mas desejoso de conhecer Jesus, avança destemido e sem vergonha e,  acima de tudo, põe os meios capazes de o ajudar a conseguir «ver quem era Jesus». Assim, «porque era de pequena estatura correu mais à frente e subiu a um sicómoro». A  participação nossa,  na procura de Deus ou na maior intimidade com Ele,  é fundamental e imprescindível.

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Agora, um outro aspecto e de uma outra perspectiva na compreensão da presença íntima de Deus nas nossas vidas. Como se, desta vez, o divino viesse ao encontro do humano. É o próprio Jesus que nos faz compreender esta dimensão. Jesus aproxima-se de todos quantos o procuram, segundo as características da personalidade ou do temperamento de cada um.  É a delicadeza de Deus.

Ele é o Mestre Divino, conhece os seus. Como o Senhor trata cada um como ele ou ela é! Neste contexto, sinto gosto em olhar para Jesus a escolher os seus futuros apóstolos: com Pedro, o líder, por exemplo, revela-se exigente e rigoroso. Passa-o  mesmo por  um longo escrutínio na maturação da sua vocação. A princípio, é um simples ‘vem e vê’. Despois, questiona as razões do seu seguimento: “Que dizes tu que Eu sou?’ Tu conheces-me verdadeiramente?”. Na ocasião, Jesus  até o chamou Satanás, tais eram os disparates que dizia. Por fim, avança mais afectuosamente: ‘Tu amas-me?’

Mas neste trato personalizado de Jesus, faz-nos sorrir a maneira como o Senhor trata Filipe, o intuitivo, e Natanael ou Bartolomeu, o racional. O primeiro é chamado e salta logo atrás do Senhor. Sente-se bem, e imediatamente, sem pensar muito, reage. Ao segundo, à maneira do racional, o Mestre responde, calmamente, ao seu Como? Quando? Tantas perguntas!

Finalmente, não podemos esquecer a fineza do Senhor com aquela mulher, tímida, que,  às escondidas, quer tocar-lhe no manto. Cura-a, mas ajuda-a também a ter confiança em si mesma e  a enfrentar a multidão.

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Ainda podemos perceber um outro nível da relação do Divino com o humano.  Quanto é proclamado, vezes sem conta, nos escritos da Bíblia e recitado nas orações do povo hebreu que Deus, o Senhor de Israel, escuta ‘o clamor dos pobres’, ‘o lamento do aflito.’

Tomemos, asgora, e meditemos mais profundamente o  Novo Testamento. Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, encarna, pela Sua morte na Cruz, a dor dilacerante da Angústia que, de muitas e variadas maneiras,  termina com a morte do ser humano. Contudo, Ele, o Filho de Deus Ressuscitado,  no Seu corpo glorioso, liberta tudo e todos dos ‘grilhões da morte e do Mal’.  O Deus de Bondade e de Misericórdia, revelado em Jesus Cristo, escuta e entende ‘os gemidos’ mesmo os mais  imperceptíveis do ‘coração humano’.

Luís Sequeira. Sacerdote e antigo superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

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O Sopro de Pak Tai: A senhora Yu Cheng

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Continuamos esta semana na companhia de Leonardo Veiga, aliás Wei Nai, cidadão chinês que pugna pela obtenção da nacionalidade portuguesa. (Ver crónica da semana passada).

Antes de me levar a casa para jantar, Leonardo vai buscar a mãe, a senhora Yu Cheng, a uma zona residencial da cidade: “Tenho sorte, ela mora perto”, diz. Depois de tantos anos de separação tem os entes mais queridos à mão de semear: a mulher, a mãe e ainda o seu melhor amigo, “um engenheiro inglês”.

É-me difícil acreditar que a senhora que vejo entrar para o banco de trás do automóvel de Leonardo Veiga tem mais de oitenta anos. “So, you´re a Portuguese!”, exclama, com um misto de surpresa e satisfação. Depois, enceta amigável conversa, num inglês impecável, como se me conhecesse há muitos anos.

Mei Fen, a mulher de Leonardo, é uma bonita dançarina de trinta e um anos que partilha com ele um pequeno apartamento onde coabitam também um gato, alguns peixes de aquário e um piano de parede. Distribuídas pelas quatro paredes da casa, diversas fotografias de Mei Fen, todas elas da autoria de Leonardo. Feitas as apresentações, o luso-descendente apressa-se a tirar do frigorífico uma garrafa de vinho branco Great Wall que bebemos antes do jantar enquanto o ouvimos interpretar ao piano um belo trecho de Sebastian Bach.  

Regressemos, entretanto, à nossa história.

Continuamos na década de 1950. O jornalista José Veiga e Yu Cheng mantêm-se em contacto através de profusa correspondência. Volvidos os caóticos anos, agora já com possibilidades de viajar, a chinesa prefere manter-se em Pequim junto da família em vez de regressar ao convívio do português: “É provável que ao fim desse tempo algo tinha morrido na relação entre os dois”, conclui Leonardo. “Penso que a minha mãe não voltou a Cantão porque receava enfrentar de novo a sogra”.

Entretanto, José Veiga conhece em Hong Kong outra mulher, Lo Piu Mui, e decide casar com ela. Para concretizar o seu intento (levado a cabo em 1952) recorre a uma estratégia que ainda hoje choca Leonardo: “O meu pai teve o descaramento de pedir à minha mãe que simulasse a sua própria morte”, exclama, visivelmente revoltado. “Sugeriu que uma amiga dela escrevesse uma carta dirigida ao senhor José Veiga dizendo que Yu Cheng tinha falecido”. Assim, poderia casar-se de novo sem recorrer ao divórcio, que a sua condição de católico proibia. E não é que Yu Cheng concorda! Porém, em troca do favor, exige uma contrapartida: a partir da data de redacção da falsa carta, José Veiga devia comprometer-se a enviar dinheiro até que os filhos atingissem a maior idade. Promessa que o português cumpriu. Não só enviou dinheiro, como também roupa e alimentos. Isto, até ao fim da década de 1960.

Apesar de tudo, Leonardo considera que teve uma infância feliz. A casa do avô era espaçosa e tinha um grande pátio interior com um jardim, como nas casas tradicionais de Pequim. Aos seis anos de idade a mãe quis que aprendesse piano. No início não gostava, mas a mãe forçava-o. E chegava a bater-lhe, se necessário fosse. Aos 10 anos ganha um prémio numa competição. Nessa altura sentia já “um enorme prazer em tocar”.

Na sua vida o pai não tinha lugar. Por isso mesmo, aquando do fortuito encontro em Hong Kong tudo o que sentiu foi uma certa simpatia. Afecto, não. Desconhecia que o jornalista tinha voltado a casar e não lhe dedicava muitos pensamentos.

À medida que Wei Nai (Leonardo) e a irmã Wei Mei cresciam, Yu Cheng leccionava numa escola secundária para ajudar no sustento familiar: “Por que não casou ela de novo?”, pergunto. “No fundo, acho que a minha mãe sempre amou o meu pai, e ainda hoje o ama, apesar de tudo”, responde Leonardo.

Em 1958, na sequência da purga “anti-direitista”, pouco tempo antes do desastroso “Grande Passo em Frente”, Yu Cheng foi despedida, acusada de pertencer a uma família reaccionária. Sobreveio o desprezo e o isolamento. Ninguém se aproximava dela, com receio das represálias das autoridades. Talvez tenha sido esse ostracismo a principal razão para que não voltasse a casar. Não que isso a tenha afectado grandemente. Yu Cheng continuava uma pessoa positiva, bem disposta, de sorriso no rosto, sempre pronto.

Em 1954 foi a vez do pai de Yu Cheng sofrer perseguições, pelo simples facto de ser um intelectual: “O meu avô era um estudioso do clássico “O Sonho da Mansão Vermelha”. Mao Zedong chegou a escrever-lhe uma carta acusando-o de ser capitalista e inimigo do povo”, diz Leonardo.

Continuaremos a falar da saga de Leonardo Veiga no próximo Sopro de Pak Tai.

IIM LOGOTIPO - 2015 (15)

Joaquim Magalhães de Castro, Escritor e investigador da Expansão Portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

 

 

 

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A ingratidão

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Há silêncios que nos envergonham, que nos vestem a todos como uma mácula. É o caso do silêncio a que a comunidade portuguesa – e as comunidades expatriadas de um modo geral – se remete face à clamorosa discriminação a que são condenados os trabalhadores não-residentes por uma visão da sociedade manifestamente nativista, entronizada por um discurso institucional que roça demasiadas vezes a xenofobia e por uma quadratura jurídica que impulsiona um apartheid de facto entre trabalhadores de primeira e trabalhadores de segunda.

A diferença entre uma autorização de residência e uma autorização de trabalho, entre um Bilhete de Identidade de Residente (BIR) e um “bluecard” pauta um apartar de águas entre o usufruto quase pleno de direitos de cidadania – o direito à saúde e à educação, por exemplo – e a ausência absoluta dela, num exercício que se complicou ao longo dos últimos anos, quase na exacta proporção em que o território se foi tornando mais próspero.

Se o crescimento das receitas de jogo, até ao início do Verão de 2014, acarretou um sem fim de oportunidades para quem dispunha de capacidade de investimento, para todos os restantes – parte significativa da classe média, mas também o exército invisível de trabalhadores não-residentes que mantém a máquina oleada e os bastidores da economia do território à tona – o esplendor e a pujança dos anos de ouros dos casinos amplificaram, em grande medida, problemas antigos. As rendas encareceram, os vegetais e a carne nos supermercados atingiram valores proibitivos e a vida em Macau tornou-se para muitos uma acrobacia sem rede, obrigando-os a uma sequência de jogos de cintura mais ou menos lícitos e à opção por soluções desumanizantes: onde dormiam seis, agora dormem dez ou doze, a carne que se comia duas ou três vezes por semana passou a ser um privilégio domingueiro e nem assim o dinheiro poupado para se enviar para a família deixou de emagrecer.

Com a mudança de paradigma no seio da indústria do jogo e o necessário reajustamento da economia do território, adivinham-se tempos ingratos para os trabalhadores não-residentes. Pouco protegidos por uma legislação que mais do que os apoiar, os demoniza, os titulares de autorizações de trabalho, portadores dos chamados “bluecard”, são carne para canhão no seio de uma sociedade que criou um “zeitgeist” tal que o despedimento colectivo de duas centenas de trabalhadores (noticiado por este jornal na semana passada), à luz do discurso oficial de sublimação dos direitos dos residentes locais, não é recebido com qualquer alarme. Pelo contrário. É tido como uma espécie de movimento de reposição de uma certa (e mui maquiavélica) justiça, uma decisão agraciante face à política oficial, embandeirada pelo Governo, de garantir que as melhores oportunidades sorriam aos residentes locais, sejam ou não eles competentes.

O Governo, melhor do que ninguém, sabe que para garantir a incumbente diversificação económica que tanto apregoa não pode contar apenas com o contingente laboral local, que, além de curto, se habituou, por obra e graça de um certo establishment, a fazer bluff (ou não fosse Macau a terra do jogo) e a exigir para si certos privilégios sem atender às responsabilidades que lhes estão associadas.

Os tempos que se perfilam adivinham-se ingratos também por isso: com as eleições legislativas à distância de um ano é de esperar que os trabalhadores não-residentes – os operários do Continente, as domésticas filipinas ou indonésias ou os seguranças nepaleses – se transformem em saco de pancada de grupos tradicionalistas como os kaifong ou os Operários por motivos meramente eleitoralistas, num processo onde os trabalhadores não-residentes não têm voz, nem têm aparentemente quem os defenda. Os deputados ditos pró-democratas afinam pelo mesmo diapasão que as forças pró-governamentais no que ao estatuto dos imigrantes diz respeito e outros deputados – Pereira Coutinho entre eles –  teriam eventualmente mais a perder do que a ganhar se adoptassem a causa dos não-residentes, tal é o estigma emanado contra eles pelo discurso institucional  do Governo. Um estigma que é também, de resto, cultivado, sem qualquer pudor, no hemiciclo do Lago Nam Van.

Na entrevista que concedeu ao PONTO FINAL e que é hoje publicada, Emer de Lina, dirigente da Associação Migrante Macau, traz de novo à luz do dia as dificuldades e os problemas com que se deparam os braços que nos embalam os filhos, que lhes enxugam as lágrimas, que lhes dão o tempo que muitas vezes não podemos – ignominiosamente – dispensar. São dificuldades e problemas que sabemos que existem, mas que preferimos, por conforto ou desleixo, enterrar sob uma cortina de fumo, sepultando pelo caminho a obrigação, que nos seria natural, de manter vivo o ideal humanista subjacente à ideia de um segundo sistema que, supostamente, deveria diferenciar a RAEM até 2049. Se todos fizéssemos a nossa parte, talvez o silêncio que rodeia o estatuto dos trabalhadores não-residentes em Macau não fosse tão ensurdecedor.

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A via da humildade

 

1.Luis Sequeira

Falar, nos nossos tempos, de Humildade é corrermos o risco de sermos chamados ’líricos’ ou ‘ingénuos´, para não dizer que seremos gozados, postos de parte e até desprezados e mesmo sermos vítimas de chacota e humilhação pública. Nos ambientes sociais e culturais onde se desenrola o nosso dia-a-dia,  nos meios de comunicação social,  no mundo das Artes, particularmente nas produções cinematográficas,  na política, na economia e até,  por  mais incrível que pareça, na própria Igreja,  comunidade dos crentes, os valores que são mais vincados, tanto no discurso como na prática, passam  pelo ser-se o mais forte,  o mais poderoso, o mais rico, o mais conhecido e aplaudido nas redes sociais ou nas sondagens.

Apesar disso, direi que o Senhor Jesus, como verdadeiro e  legítimo Mestre, continua, na parábola de « o Fariseu e o Publicano», a ser firme nas suas palavras acerca do valor e da necessidade de sermos humildes, dizendo  « … todo aquele que se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado.»

Mas, direi ainda que o Senhor, de forma contundente, vai  mais fundo na denúncia do engano do modo de proceder do orgulhoso. Ele descreve, antes de mais e como sempre, o que se passa no íntimo do coração humano. Põe a claro, de maneira finíssima, os imperscrutáveis caminhos do labirinto de sentimentos que ocupam  o seu interior.  Porque  todo comportamento, seja de homem  ou de mulher, tem o  seu início nos lugares mais escondidos e secretos do nosso ser. É aí que nasce o Bem e o Mal. É aí que têm origem as atitudes de bondade ou de maldade, correctas ou incorrectas, dignas ou vergonhosas. Aí começa o orgulho.

No texto evangélico, o Senhor, muito perspicazmente,  mostra que o convencido, o orgulhoso ou o arrogante, ao contrário do que se ouve dizer à nossa volta, é alguem bastante mais frágil, psicologicamente, do que aquilo que mostra por fora, na presença dos outros. É  como se estivesse a usar uma máscara. É o próprio Senhor que o declara:   « O fariseu, de pé, orava assim: ‘Meu Deus, dou-vos graças por não ser como os outros homens, como este publicano.» Um homem ou mulher que,  para se afirmar,  precisa de andar a comparar-se  com outros é,  estruturalmente,  fraco. Quem  está bem consigo mesmo, confiante do seu valor e, consciente e calmo,  perante os seus próprios defeitos, não precisa de se andar a comparar. Ele é quem é. Está feliz.

Ao seguir Jesus na sua exposição,  reparamos que o fariseu tem duas características que,  ao  tomá-las a sério, nos deixam boquiabertos, por a descrição ser tão penetrante e certeira. O texto sagrado apresenta o fariseu a dizer de si mesmo: «Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de todos os meus rendimentos.»     

Assim, aquele que o Senhor critica, como exemplo de falta de humildade, está, no primeiro caso, entre aqueles que vão ao Templo ou à Igreja, com todas as suas devoções cumpridas. Entre aqueles que pagam as taxas e os dízimos ao Governo, ao Estado, encontra-se a segunda classe de pessoas que o Senhor considera com falta de humildade. Incrivelmente, aqueles que se consideram piedosos e os justos, o Mestre desmascara-os na sua incoerência.

Na verdade, Jesus Cristo é fortíssimo nas suas palavras contra o ‘show off’ e a arrogância espiritual e religiosa dos fariseus, escribas e sumos  sacerdotes. Apenas querem prestígio, aceitação e, ao fim ao ccabo, poder e domínio. Por outro lado e num contexto da vivência do povo judeu, vemos o mesmo Cristo, em  termos bem cáusticos, a insurgir-se com aqueles, escrupulosamente, preocupados com dízimos, leis e costumes, mas sem o verdadeiro sentido de trazer a  liberdade e o bem estar ao povo.

Propor a Humildade,  na sociedade actual,  mais parece não uma ‘utopia’, mas ‘uma estupidez’ ou até  ‘uma loucura’, como  já observava S. Paulo, no seu tempo, quando se falava da Cruz.

Mas,  se não são suficientes o exemplo e o apelo do Senhor Jesus, para escolhermos o caminho da Humildade,  ‘ser humilde’, que sejam os efeitos e e os frutos da actuação dos nossos Chefes de Estados, Presidentes ou Primeiros Ministros, Reis ou Rainhas, nos ajudem a compreender essa tremenda necessidade .

Quem explica as situações calamitosas em que o mundo se encontra?  Por mais sofisticadas que sejam as suas respostas, não escapam a que, no fundo, se encontre sempre a diabólica questão do  ‘ser o maior’, ‘ser o mais poderoso, ‘ser o mais rico’.

São tantas as contradições do sistema político, económico, militar, social e jurídico. Tantas mentiras, em segredo! Descobrem-se tantas maquinações!

Tantos ‘piedosos’ e ‘justos’ que esquecem, escandalosamente, os imigrantes, os refugiados, os explorados, os pobres entre os mais pobres, a destruição da natureza.

Homens e Mulheres deste mundo que é o nosso, temos que fazer o nosso próprio  ‘Caminho Interior’ para entender o que está no profundo do nosso Coração que nos chama à Humildade e à Perfeição.

António Guterres aceitou os tremendos desafios das suas novas  resposabilidades, reconhecendo a necessidade de o procurar fazer «com humildade».

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

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O Sopro de Pak Tai: Um casamento proibido

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Hong Kong, 1981. À entrada do metro, um euro-asiático de trinta e tal anos, de visita à então colónia britânica para se encontrar com o primogénito que os azares da vida separaram quando tinha apenas dois anos, cruza com um velho que desce as escadarias. Sente um estranho sobressalto. Sem compreender bem porquê, volta-se e segue no seu encalço. As portas do metro quase se fecham nele. Foram necessárias várias paragens para que ganhasse coragem. Dirige-se ao velho e, em inglês, pergunta: “O senhor chama-se José da Veiga”. O velho, estupefacto, tira os olhos do jornal que estava a ler, e responde: “Sim, é verdade. Mas como sabe disso?”. O homem mantem-se, para espanto seu, bastante calmo. “É que eu sou seu filho, o Leonardo”.

Um simples episódio como este levado a película por um produtor de Hollywood seria suficiente para que esta se transformasse em imediato sucesso de bilheteira. Mas este pormenor é apenas o culminar de uma comovente história que percorre variados aspectos da história recente da China.

O mencionado Leonardo é o pianista Leonardo Veiga sobre quem já aqui falei e voltarei a falar em próximas crónicas: “A minha história começa em 1937”, diz. Esse foi o ano em que seu pai, José Rodrigues da Silva Veiga, português nascido no bairro de São Lázaro, Macau, em 1917, jornalista do South China Morning Post e correspondente da Reuters na cidade chinesa de Kunming, trava conhecimento, num bailarico de colectividade, com a jovem estudante Yu Cheng, originária de uma família de intelectuais da capital chinesa.

Do namorico ao casamento bastaram doze meses. Um casamento feito contra todos os padrões tradicionais da antiga China, e cujo registo ficou esquecido nos arquivos de uma pequena igreja da capital da província de Yunnan.

Se casar com um estrangeiro é ainda hoje pecado de lesa pátria, o que não seria naquela altura. Durante todo esse tempo Yu Cheng não visitou a família, mas escreveu por diversas ocasiões.

“A família perdoou a minha mãe”, explica Leonardo, “simplesmente porque segundo a tradição chinesa as mulheres não são assim tão importantes”.

(O casamento de José Veiga com Yu Cheng não é referido no livro «Famílias Macaenses» de Jorge Forjaz. Nessa obra vem indicado que José Veiga  —  na altura em que conheceu Yu Cheng e com ela teve dois filhos — estava casado com Margarida Maria de Sousa, de quem teve três filhos (um deles faleceu com poucos meses de idade) e que viveu com ela em Macau durante a guerra.

Dessa “união interdita” e vida em conjunto de dez anos vieram ao mundo dois seres. Leonardo, em 1946, e a sua irmã, Teresa, aliás Wei Mei, dois anos mais tarde. Depois… Bem, depois foi a longa separação.

Em Cantão, o casal viveu com a mãe de José Veiga, a senhora Bernarda Pópulo de Sousa. Mas a relação desta com a nora foi desde logo conflituosa: “A minha avô deu à luz José Veiga com apenas 15 anos e este tinha pouco mais de um ano quando o seu pai morreu”, recorda Leonardo. “Talvez se explique desse modo o facto da minha avô ser tão possessiva em relação ao filho”.

Possessão que se viria a reflectir irremediavelmente no relacionamento com a nora. Pessoalmente, Leonardo não tem razões de queixa da avó Bernarda. Recorda o encontro que teve com ela, em 1981, na mesma altura em que viu o pai: “Senti que gostava de mim e eu também gostei dela. Lembro-me de ela ter dito que eu era o neto mais parecido com os Veigas. O problema da minha avó, era com as mulheres que andassem em torno do seu filho”, conclui.

Vítima de uma continuada hostilidade por parte de Bernarda Pópulo de Sousa, Yu Cheng, numa manhã de Verão, pegou nos dois filhos e embarcou no aeroporto de Cantão, rumo a Pequim. Fazia-o também porque há já dez anos que não via a família: “A única recordação que tenho do meu pai é de um senhor alto que me levou ao colo até ao avião. Foi a minha mãe que me disse que ele era o meu pai”, recorda Leonardo.

José Veiga, por sua vez, voltou a Hong Kong, ainda como jornalista da Reuters e do SCMP. “Inicialmente queria que eu e minha irmã o acompanhássemos, mas a minha mãe não deixou. Como é que um homem podia cuidar de duas crianças?”, pergunta.

Ainda hoje Leonardo não compreende o porquê da embaixada ter recusado, como comprovativo válido, uma cópia de um documento assinado pelo consulado português de Cantão, em 1948, e destinado ao responsável da representação diplomática em Pequim, pedindo-lhe que “cuidasse das crianças” pois eram “cidadãs portuguesas apesar de estarem acompanhados de uma mãe chinesa”.

“Que mais provas queriam eles?”, pergunta, com toda a legitimidade, Leonardo.

Entretanto o curso da história vem alterar toda a sua vida. Em 1949 é proclamada a República Popular da China. No período revolucionário que se segue, a mãe é incapaz de adquirir bilhete, de avião ou comboio, para voltar a juntar-se ao seu marido em Cantão. Como se isso não bastasse, adoece gravemente. Uma arteriosclerose que a prende ao leito ao longo de três anos. Yu Cheng não tinha ainda 30 anos. Arteriosclerose? Quem via a senhora Cheng não o diria. Parecia respirar saúde apesar dos oitenta quatro anos que já contava no activo. Mas sobre ela, e outros fascinantes contornos desta história,  falaremos no próximo Sopro de Pak Tai.

 

IIM LOGOTIPO - 2015 (17)

Joaquim Magalhães de Castro, Escritor e investigador da Expansão Portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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Sopro de Pak Tai:As peças de Bocarro

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Em Larantuca, na ilha indonésia das Flores, a residência do bispo, a San Dominggo, é conhecida por alguns pelo nome de Peça de Penha. Ali se assinala o local onde foi erguida a igreja de São Domingos. Sabe-se que foram achados vestígios arqueológicos, embora deles não haja qualquer registo.

Segundo a tradição local, existia aí uma pia seiscentista que terá sido trazida de Malaca. Ninguém me sabe dizer quando e quem a trouxe mas o certo é que a dita pia foi transportada do jardim do bispo para o interior da catedral onde seria cimentada ao chão. Como se não bastasse, poliram-na para que parecesse nova! E parece de facto nova. O granulado e as saliências do granito ancestral desapareceram. Eu já a tinha visto ali anteriormente, julgando-a de fabrico recente, longe de imaginar que fosse a pia de Malaca de que tanto ouvira falar. Como foi possível que um bispo, suposta pessoa de cultura e sensibilidade, autorizasse tal barbaridade?

A residência episcopal de San Dominggo situa-se à entrada de Larantuca, no número 1 da rua Miguel Rangel, assim denominada em honra do frade dominicano que em 1630 decidiu recuperar a fortaleza da ilha vizinha de Solor, abandonada pelos holandeses que a tinham conquistado aos portugueses em 1613. Tendo em vista o reforço da sua defesa, Rangel efectuou uma viagem a Macau, de onde trouxe inúmeras peças de artilharia. A respeito dessas peças, na descrição que faz da fortaleza, redigida e impressa em Malaca em 1635, nota que “as duas maiores dessas peças, que são fermosas, estão na couraça, uma das quais foi uma das primeiras peças que na China se fundiu, o qual o fundidor Manuel Tavares (Bocarro) ofereceu a Nossa Senhora de Solor, tornando-a por advogada daquela nova fundição de ferro tão necessária ao Estado e à religião de São Domingos.”

Após o abandono definitivo da fortaleza de Solor pelos portugueses em 1636 esses canhões, num total de quinze, foram levados para Larantuca e alguns deles encontram-se ainda hoje espalhados pela cidade.

Um desses canhões, com dois manípulos na parte superior, foi pintado de preto e prateado e cimentado, mesmo junto à entrada da capela de Tuan Ma. Encontrei nele algumas semelhanças com o famoso meriah si djagur, canhão com 3,90 metros de comprimento fabricado em Macau na década de 30 do século XVI, também por Manuel Tavares Bocarro, o qual se encontra actualmente exposto no Museu Histórico de Jacarta, depois de ter estado durante séculos virado para o mar no cimo das muralhas da fortaleza holandesa de Batávia. Os habitantes locais ainda hoje acreditam que esse canhão tem poderes para favorecer a fecundidade nas mulheres, devido à figa que contém.

Cimentado foi ainda outro canhão, bem mais pequeno, desta feita à entrada da capela Tuan Ana. Também ele recebeu um banho de tinta prateada, “para o embelezar”, assim o entendem os habitantes locais na sua ingenuidade e ignorância.

Encontrei um terceiro canhão no chão do pequeno jardim que rodeia a estátua de Herman Fernandes, herói da luta contra o invasor japonês durante a Segunda Guerra Mundial. Nesse jardim uns quantos veados esfomeados sobrevivem à custa de uns ramos frescos que alguém para lá vai atirando. Para grande surpresa minha, esse canhão, de comprimento superior aos restantes, roído pela ferrugem e marcado com tinta branca, desapareceria do jardim passados alguns dias sem que ninguém me soubesse indicar o seu paradeiro.

Na rua principal, junto à capela de Santo Antonius de Padua (até nas Flores alteram a nacionalidade do nosso Santo António), há um edifício em cujo piso superior estão inscritos a tinta o apelido Da Costa e a data 1930. Ali perto vive Hilarius Benediktu Cesar Da Silva que descende directamente de Alfredo Da Silva, representante dos reis de Portugal na Ilha das Flores. Ele era um dos sersan buran (sargentos brancos), militares que representavam as autoridades e protegiam os padres que lideravam a comunidade reinol residente em Macassar que viria a estabelecer-se definitivamente nas Flores.

Em Sica ainda há que se recorde que durante a estadia do padre Rangel, quatro notáveis do reino deviam seguir para Timor para estudarem e ao mesmo tempo ficarem como penhor pela segurança do religioso.

Consta que Hilarius está a escrever a história dos seus antepassados. Não mo confirma, mas tem todo o gosto em mostrar-me os retratos de família e permite que o fotografe com a sua senhora e um dos filhos. As feições de Hilarius são claramente caucasianas. Tão pouco enganam os olhos verdes do seu vizinho, Luis Da Gomes. Famílias de Larantuca como as Da Gomes, Cesar Da Silva e Monteiro – todas elas ligadas as sersan buran de outrora – são de origem portuguesa directa. E muitas delas com ligação a Macau.

IIM LOGOTIPO - 2015 (15)

Joaquim Magalhães de Castro. Escritor e investigador da expansão portuguesa, escreve neste espaço às quartas-feiras.

 

 

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O Fórum e a língua

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1.No lugar de Chui Sai On faria o mesmo que têm feito os Papas para enganar o rebanho da Cristandade: perdia uns meses a aprender com afinco o alfabeto fonético para, de vez em quando, assinar um ou outro brilharete que muito certamente o fariam cair em graça junto da comunidade macaense e portuguesa que encontram poiso e (cada vez menos) tranquilidade no cândido reflexo do Espelho da Baía.

Por mim falo. Acho que se me marejariam os olhos no dia em que o Chefe do Executivo, com o afã que lhe é habitual sempre que sai à rua ou visita as criancinhas das escolas do território, apadrinhasse a inauguração do Festival da Lusofonia e perguntasse, num português foneticamente impecável: “Então, a bifanazinha está boa?”.

Exageros e lirismos à parte, era menino para aplaudir de pé Chui Sai On se, por exemplo, no final da mensagem de Natal que a TDM transmite todos os anos, o Chefe do Executivo se despedisse – com bom ou mau português, não importa – com um breve e simples “Feliz Natal e Bom Ano Novo”. Ou, se a meio da manhã de hoje, na mais importante das cerimónias realizadas este ano no território, Fernando Chui Sai ON acolhesse as delegações e os dignitários oriundo dos países lusófonos com um breve, mas significativo “Sejam bem-vindos a Macau”. Seria sinal de que há vida e consideração para além das prerrogativas políticas e que a aposta na língua portuguesa ultrapassa os predicados da missão confiada a Macau pelo Governo Central.

Foram necessárias quatro conferências ministeriais e bem mais do que uma década para que a Língua Portuguesa – o elemento fulcral de diferenciação na pomposa nomenclatura oficial (Fórum de Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa) pelo qual é conhecido o Fórum Macau – se alçasse, pelo menos de um ponto de vista teórico, a um patamar de importância comparável ao que sempre foi assacado às noções de cooperação económica e comercial. Ainda que os frutos de uma tal visibilidade tardem a amadurecer, nunca como agora se falou – e, aparentemente, se investiu tanto – no ensino do português no território, numa aposta que, mais do que politicamente acertada, se prefigura tão empiricamente natural que se torna difícil entender porque razão não foi tomada mais cedo.

Não é necessário ser-se doutor em letras – para se utilizar uma expressão de antanho – para se compreender que uma língua, qualquer que ela seja, não subsiste no vazio, cristalizada em diplomas legais e com a itinerância mínima que lhe é concedida pela circulação, também ela institucionalizada, dos títulos dos jornais. Para que vingue e se fortaleça, um idioma tem, necessariamente, de ser cultivado nas escolas e semeado nos espíritos, se possível pela construção de pontes sólidas entre a componente linguística e a envolvente cultural. No caso de Macau, este casamento ter-se-á de fazer necessariamente pela inserção nos currículos escolares de textos de quem escreveu, em português, sobre o território, se possível no território: o cultivo da língua (mais do que o ensinar o idioma, importa cultiva-lo), para que vingue, terá também de ser feito pela mão de Henrique de Senna Fernandes, de Deolinda da Conceição, de Wenceslau de Moraes, de Maria Ondina Braga e de tantos outros que ao longo de quase cinco séculos testemunharam e registaram o pulsar de um território que sempre foi maior do que si mesmo.

Ensinar, porém, não basta. Há que zelar também pelas manifestações visíveis da língua e acarinhar a sua aplicação para que a propalada fortaleza aparentemente em construção não tenha alicerces de Taipa. Um erro ligeiro, uma pequena distracção – como “O Feliz Fiesta de La Luna”, no portal do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais – têm o condão de transformar o mais robusto dos baluartes num castelo de cartas. Deixar que certos erros passem incólumes é limitar, desde já, o potencial da língua, numa altura em que, paradoxalmente, chegam de Pequim sinais contraditórios em relação à importância da língua portuguesa como activo estratégico. A nomeação de Xu Yingzhen, especialista na América Latina e proficiente em castelhano, para a liderança do Fórum Macau não será um mero detalhe, dado o anúncio, que hoje deverá ser formalizado, de que o Governo Central deseja ver as competências de Macau com plataforma alargadas à promoção dos mecanismos de internacionalização do renminbi.

 

  1. Cumprida que está a primeira etapa da deslocação de António Costa ao Oriente, é por mais evidente que a missão do primeiro-ministro português por estes dias passa sobretudo pela captação e canalização do maior volume possível de investimento chinês para a ainda frágil e mui depauperada economia lusa. O porto de Sines voltou a entrar na equação do Governo português e deverá tornar-se um entreposto mais na estratégia de mercantilização da economia global a que Pequim deu o nome de “Uma Faixa, Uma Rota”. Das Lajes não consta de que se tenha falado na capital chinesa, mas custa a crer que a questão não tenha estado sobre a mesa, conhecido que é o interesse das autoridades chinesas num entreposto atlântico a meio termo entre a Europa e a América.

Aparentemente, Costa chega a Macau sem coelhos na manga e sem a promessa de grandes concretizações que tenham como denominador o território. A comunidade portuguesa cá radicada agradece. No passado, noutras visitas da índole, foram anunciados com certa pompa e circunstâncias projectos e infra-estruturas que nunca saíram do papel. Tornaram-se, isso sim, dragões de fumo que volta e meio assombram quem por cá vive e lembram que os interesses da República quase nunca se coadunam com as perspectivas de quem fez de Macau a sua casa. Em 1998, um ano e meio antes da transferência de soberania, o território foi palco, pela voz do então primeiro-ministro António Guterres, do anúncio do maior investimento até então feito por uma empresa portuguesa na República Popular da China, a construção por parte da Somague de uma ponte no Continente. O projecto nunca saiu do papel.

O mesmo fadário conheceu o Centro de Distribuição de Produtos Portugueses, anunciado há seis anos por José Sócrates. A estrutura, que deveria nascer em Zhuhai, afirmava-se como um entreposto avançado de colocação de produtos portugueses no maior mercado do mundo, mas a imperatividade do projecto rapidamente se dissipou por entre as brumas do esquecimento. O que em Macau se diz em Lisboa não se escreve e se António Costa não traz promessas, também não semeia desilusões.

Obrigado pela visita, Sr. Primeiro-Ministro. E boa viagem.

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