Das turvas águas

Filinto Elísio

escritor

 

Ressalva

Sempre que escrevo para o leitor de Macau, vivo o dilema de o fazer com pertinência do texto e seu eventual risco hermético. Hoje, por exemplo, escrevo sobre Cabo Verde, aparentemente sobre assunto de interesse localizado, mas que, visto com abertura de espírito, talvez interesse a todos. Em verdade, atrevo-me a questionar a configuração dos modelos parlamentares, introduzindo não a variável, mas a vertente cidadania de forma mais evidente. Outrossim, esboço a problemática do bilinguismo e do multilinguismo que, se travada, implica o domínio cultural e outros que lhe vão subjacentes. Ao público de Macau interessa? Admitamos que sim.

Turva água do banho

A classe política cabo-verdiana experimenta uma fase crítica. Será que o poder, mesmo em conformidade legal, pode tudo, extravasando a legitimidade? Trata-se de gerir uma água que, já usada, precisa ser descartada, senão mesmo tratada. Refiro-me ao que vai na ordem do dia ou, melhor, ao que está na boca do povo em Cabo Verde. Dum lado, o novo Estatuto dos Titulares dos Cargos Políticos (ETCP), aprovado no Parlamento, introduziu uma forte vertente de incompatibilidades e de responsabilidades aos titulares, o que contribui para a melhoria do desempenho e da transparência no exercício das funções políticas. E, convenhamos, é sempre salutar o incremento da transparência e a redução das margens da corrupção. Doutro lado, o quadro dos salários e das regalias, especialmente na lógica da retroatividade e do porte de armas – tudo isso implícito, não parece ter sido gerido de forma prudente. Neste particular, saltou à vista que o novo ETCP foi aprovado sem o suficiente diálogo societário que deve anteceder a uma decisão tão estrutural quão gravosa. Perante isso, e sem indesejáveis autoflagelações, não seria recomendável destrinçar o trigo do joio e, seguindo a metáfora aquosa, jogar a água turva do banho, salvando, tanto quanto possível, a criança?

Por uma outra República 

O crescente mal-estar, por sinal profuso e difuso, não se resume à desaprovação tout court perante a eventual “aprovação unânime” da classe política, mas, em suas insondáveis raízes, terá a ver com o paternalismo partidário como “vanguarda da sociedade” e/ou “política para as pessoas”, quando o que se reclama são as pessoas para a política. As questões são bem mais profundas. O que se demanda é o “eu sou porque nós somos”, matriz da filosofia Unbuntu, plasmada na harmonia individual e social, como propôs um jovem. O desconforto, dizia de forma ainda mais insidiosa, terá a ver com a não instauração da sociedade como “força dirigente dos partidos”, invertendo as disjunções da I e da II Repúblicas, depois de já cumpridas as suas funções históricas. Quem sabe não estejamos na antecâmara de uma III República, podendo esta surgir da desconstrução da hegemonia dos partidos e da proliferação dos círculos sociais da cidadania?  Continuará de todo importante que o Parlamento cumpra as suas funções legislativa, de fiscalização e de controlo, mas começa a ser questionável se deva ser ocupado só pelos partidos políticos. Estaremos perante a oportunidade de promover a participação da sociedade e refletir sobre a matriz do nosso Estado de Direito Democrático. Podemos? Devemos.

Bilinguismo estrutural

Em Cabo Verde, a Cultura é sempre uma questão central. Aliás, ela é dorsal em quaisquer nações, países, regiões e localidades. Nesta premissa, sendo a língua um pilar matricial da Cultura, ela não deve ser relegada ao segundo plano, especialmente em se tratando da língua materna, como amiúde defende a UNESCO. Não se fala apenas na competência da língua materna,  se oficializada, para ampliar os fatores do Desenvolvimento, mas aborda-se a relação virtuosa entre o bilinguismo, a inteligência e a criatividade. Mais: os nossos legisladores (e executivos) devem fazer jus aos benefícios não só cognitivos, psicológicos e culturais, mas também sociais e económicos da promoção e da oficialização das nossas duas línguas, em coabitação e paridade, situação por sinal prevista na Constituição Nacional. Naturalmente que precisamos ensinar mais e melhor as nossas duas línguas, que, em última instância, somos nós próprios. Definitivamente, impõe-se-nos sair da “zona de complexo”, onde moram o elitismo besta, o bairrismo burro e o cosmopolitismo pavão, e assumirmos a riqueza integral da língua cabo-verdiana e da língua portuguesa como nossos patrimónios inalienáveis.

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Orçamento discreto

Patrícia Silva Alves

Nos últimos anos, as previsões das receitas do jogo em Macau têm sido uma espécie de Ovo Kinder: não se sabe bem o que está lá dentro. Mas com base na experiência passada, a oferta tem sido agradável. Deixou de ser. Este ano, as receitas não cumpriram com o esperado e, apesar de se contar já com uma contracção das receitas, esta foi maior do que a esperado, pelo menos se tivermos em consideração as estimativas apresentadas em Novembro do ano passado pelo antigo secretário para a Economia e Finanças, Francis Tam, que foram revistas há uma semana.

A revisão pode ser, como apontou o economista Albano Martins, o resultado da mudança de secretário. Afinal, Lionel Leong apontou já que um dos seus objectivos para este mandato era criar “um modelo de previsão científico sobre o estudo das receitas do jogo e da economia” com o objectivo de “obter informações sobre as tendências económicas de uma maneira mais acurada, incluindo uma previsão para as receitas do jogo”.

Comparando com as previsões falhadas dos últimos anos, ter um modelo que se diz científico de previsão de receitas é positivo, ainda que peque pelo seu atraso. Mas espantou-me sobretudo a forma como foi anunciado.

É que ao mesmo tempo que o Chefe do Executivo fazia afirmações generalistas sobre o sector do jogo durante a apresentação das Linhas de Acção Governativa aos jornalistas, o Gabinete de Comunicação Social distribuiu discretamente através do seu site uma novidade que o Chefe do Executivo não deu – de que afinal seria preciso rever o orçamento preparado há menos de seis meses porque as receitas afinal vão descer.

A notícia de que será preciso um orçamento rectificativo, em si, não é uma surpresa (apesar de achar que deve ser lida com atenção, pois nem mesmo o Governo parece saber até onde as quebras das receitas podem ir). O que me surpreendeu foi o facto de a notícia ter sido dada de forma desleal – todos os jornalistas tinham os seus microfones estendidos ao Chefe do Executivo durante aquela tarde e, no entanto, não foi capaz de avançar com uma informação importante – de que afinal as quebras das receitas do jogo estão já contabilizadas e que o saldo orçamental esperado deve encolher mais de 60 por cento em relação ao que se esperava há menos de seis meses.

Pelo bem da transparência era necessário que esta informação tivesse sido dada de forma clara aos jornalistas e, através deles, à população. O Chefe do Executivo, como rosto do Governo, deveria ter anunciado essa proposta de revisão do orçamento e deveria ter sido sujeito às questões dos repórteres. Se não, de que serve ter um microfone estendido se as verdadeiras questões são enviadas por comunicado sem direito a perguntas?

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Velhos são os trapos

Água mole em pedra dura

Catarina Mesquita

Há poucos dias deparei-me com um artigo que, com um tom alarmante, noticiava que a mão-de-obra na China está a decrescer significativamente.

“Uma crise de mão-de-obra na China? Significará isto que deixaremos um dia de ter camisolas, ténis, tudo e mais um par de botas a dizer Made in China?”, questionei-me num rasgo absolutamente consumista.

A questão que se impõe não será deixar de ter coisas a baixo custo produzidas aos milhões pela China, mas antes o facto de o grande fornecedor do mundo estar a atravessar um sério problema quando o número de pensionistas está a aumentar e a taxa de natalidade não cresce.

No mesmo artigo Zheng Bingweng, director do Centro Mundial de Estudos Previdenciais, explicava que adiar a reforma em um ano seria uma medida que resultaria no aumento de quatro mil milhões de renminbis (cerca de 5,148 milhões de patacas) no fundo de segurança social.

Todavia, apesar do adiamento da reforma de milhões de cidadãos chineses parecer ser uma forma eficaz de poupar os cofres do Estado, o problema da mão-de-obra não se resolverá enquanto a natalidade for controlada com a política do filho único.

É fundamental que na grande China se encorajem os pais a terem mais crianças de modo a que estas sejam adultos daqui a cerca de 18, 20, anos e estejam aptos a ingressar no mundo do trabalho ao invés de se pedir à população trabalhadora que aguente mais um aninho.

Em Macau, a população com menos de 15 anos rondava no final de 2014 os 11,4 por cento enquanto os cidadãos com mais de 65 anos ocupavam uma fatia de 8,4 por cento.

Num território absolutamente claustrofóbico como Macau a taxa de natalidade rondava até ao ano transacto os 11 por cento, não sendo um problema para a região. Porém, no que toca aos pensionistas a saga é outra.

Chui Sai On anunciou na semana passada, no âmbito das Linhas de Acção Governativa, um estudo para o aumento do subsídio para idosos para 7500 patacas, numa “política de longo prazo” na qual afirma que virá a “beneficiar a população mais velha”. Veremos finalmente os idosos da região serem recompensados?

Em qualquer país tudo o que se tem foi construído pelo trabalho dos nossos antecessores. Não deveriam eles merecer todo o respeito e atenção? Não adiemos aqui, no Continente ou em qualquer outro lugar, dar-lhes o merecido descanso e a segurança que precisam depois de tantos anos a arregaçar as mangas e a fazer a máquina mexer.

Por vezes cruzo-me na rua com idosos – que me parecem saídos de um filme e parecem ter já completado 100 anos de idade – carregando caixas, ocupados e, aparentemente ou não, com mais força do que eu. Afinal o ditado – também ele já idoso – diz e com razão que “velhos são os trapos”. Contudo, não nos deveríamos aproveitar dessa genica que é característica dos idosos como solução para uma poupança nos cofres aos quais nem todos os jovens e adultos têm acesso.

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Ser um defensor da teoria do colapso

[Olho mágico]

 

Eric Sautedé

Politólogo

Na véspera da reunião da Assembleia Popular Nacional, em Março, a publicação de um artigo de opinião por um dos mais reputados especialistas em China contemporânea dos Estados Unidos, que previa o desmoronamento do poder comunista, criou uma convulsão em muitos círculos de observadores da China. Estava em causa o ‘timing’, naturalmente, já que antecedeu a ocasião em que o regime exibe a sua determinação e força e o artigo criava assim uma espécie de quiasmo cognitivo, tal como o meio de difusão: o Wall Street Journal (WSJ) é um diário com autoridade e construiu uma reputação de excelência no que diz respeito aos assuntos da China, e não apenas no sector financeiro.

Depois, a personalidade do autor acrescentava mais um nível de destaque ao que tinha como intenção ser uma chamada de atenção. David Shambaugh é professor de Ciências Políticas na Universidade George Washington, e goza de um alto grau de reconhecimento tanto internacionalmente como na própria China, tendo inclusivamente sido recentemente distinguido por um think-tank do Governo chinês como o segundo mais influente perito em China nos Estados Unidos. Para além disso, o Professor Shambaugh é um convidado habitual da Academia de Ciência Sociais da China e da Escola do Partido Comunista em Pequim. Um dos seus recentes livros, publicado em 2008, descrevia efectivamente a forma como o partido tinha dado “um número de passos adaptativos para se legitimar, voltar a institucionalizar-se e salvar-se”, em grande parte devido a lições aprendidas com a queda da União Soviética e regimes sósias vizinhos.

Na verdade, o Professor Shambaugh não pertence à longa tradição de defensores da “teoria do colapso” e, inclusivamente, alerta no seu texto no WSJ que “prever o desmoronamento de regimes autoritários é algo arriscado”. Claramente, aquilo que ele pretende dizer com a palavra “arriscado” tem que ver essencialmente com o fracasso total em observar e caracterizar um marco emergente – a queda do Muro de Berlim em 1989 ou a Primavera Árabe de 2011 –, com o não ver o óbvio, apesar de reconhecer oportunamente que desde “a experiência de quase morte do regime na Praça de Tiananmen em 1989, […] vários sinólogos experientes arriscaram a sua reputação profissional ao afirmarem que o colapso do poder do PCC era inevitável.” O termo “colapsista” deriva de um famoso livro de 2001, de Gordon Chang, um advogado americano, intitulado “The Coming Collapse of China”, no qual o autor defendeu que o poder comunista na China iria desintegrar-se em 2011 devido às ineficiências económicas provocadas pelo Estado e à incapacidade de o regime se reformar para uma sociedade mais aberta. Chang tentou convencer os seus leitores em 2011, por ocasião de uma reedição, que a sua previsão estava errada em apenas um ano, mas mais uma vez falhou o alvo.

As estimativas do Professor Shambaugh são, claro, de uma natureza diferente e, deliberadamente, este não oferece um calendário preciso para aquilo que designa como “The Coming Chinese Crackup”. Porém, ele define “cinco indícios da vulnerabilidade do regime e da fraqueza sistémica do partido” que parecem ter-se tornado mais pungentes desde a ascensão ao poder do Presidente Xi Jinping. Primeiro, há a ideia de que as elites económicas perderam confiança no regime e “estão preparadas para desertar em massa caso o sistema comece realmente a desmoronar-se”. Em segundo lugar, acredita-se que o Governo está inseguro em razão da grave e multifacetada repressão que afecta de vários modos a sociedade civil – advogados, jornalistas, académicos, autores de blogues, militantes, etc. Da auto-confiança nasce a tolerância para com os outros. Em terceiro lugar, o apoio ao regime é caracterizado como sendo “simulado” ou de pura aparência, e por conseguinte os slogans já não estão nas mentes e corações dos quadros. Quarto: a luta contra a corrupção, ainda que o Professor Shambaugh reconheça plenamente a sua abrangência e profundidade sem precedentes, é uma batalha perdida uma vez que está relacionada com um problema sistémico, e assim requer o estabelecimento de mecanismos de transparência que pressupõem a governação de acordo com a lei. Finalmente, em quinto lugar, as reformas económicas propostas têm fracassado em materializar-se plenamente porque os seus objectivos ambiciosos desafiam grupos demasiado poderosos e profundamente instalados.

Numa entrevista ao formidável blogue sobre a China do The New York Times, o Sinosphere, o Professor Shambaugh explica mais aprofundadamente as motivações para o seu artigo e de alguma forma a sua desilusão face ao rumo de inversão observado após a saída de cena do vice-presidente Zeng Qinghong, em 2007. De facto, o endurecimento do regime não teve início em 2012, mas antes em 2009, quando aquilo que ele designa como “Quadrado de Ferro” – propaganda, segurança interna, Exército Popular de Libertação e Polícia Armada Popular, e empresas estatais – conseguiram convencer o Presidente Hu Jintao que haver maior controlo e repressão da sociedade era uma questão de sobrevivência do partido.

Há naturalmente limites – que são robustos – aos argumentos do Professor Shambaugh. Geremie Barme, um grande observador australiano da cultura política da China contemporânea, está absolutamente correcto ao assinalar que “os dirigentes estão sempre aborrecidos” e que “os trabalhos do líder nunca convencem” (acrescentaria propositadamente). Está também certo quando declara que “a China de Xi é mais feia, repressiva e estreita, porém, é mais confiante, fala melhor e está mais orientada do que em qualquer época posterior a Mao Tse Tung.”.

Além disso, conforme assinala um astuto blogger conhecedor da política chinesa, “o colapso da força política não significa necessariamente o colapso do PCC” e o partido apresenta-se afinal “como um polvo de muitos tentáculos […] e, dependendo do seu objectivo político num dado momento, decide quais o braços que devem ser duros e continua a usar outros braços”. No entanto, o alerta do Professor Shambaugh faz sentido, e não porque “o Ocidente” simplesmente falha em ver qualquer futuro político que esteja para lá da democracia, mas antes porque a repressão sistemática e não misericordiosa de tudo o que é considerado “anormal” ou “desviante” termina necessariamente numa forma de novo totalitarismo, e, isso, sabemos que entra em colapso.

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O fim das linhas

[Editorial]

Maria Caetano

A análise mais fria e desprendida dirá que as Linhas de Acção Governativa dos governos da RAEM nunca foram outra coisa que não aquela que são hoje – um maço maçador de papel. E juntará que, do ponto de vista do comando político, talvez, mas apenas talvez, já nada esteja nas mãos deste Governo – escolhido para abdicar de ser um Governo. A teoria é boa, porque até é razoável, mas não é verdadeiramente boa, no sentido de uma razão ética. O cenário é mau, péssimo.

Aquilo a que assistimos nesta última semana pode ter muitos motivos – laxismo, falta de capacidade, insegurança, desnorte, falta de legitimidade real, etc. – mas aparece-nos desavergonhadamente como se afinal Chui Sai On estivesse como substituto num acto onde o elenco principal não compareceu, e fosse chamado para nos entreter. Foi doloroso ouvir o relatório do programa do Governo e duas míseras linhas que poderiam ter sido mais ao menos inócuas – o estudo dos órgãos municipais – foram a único ponto de interesse a despertar cidadãos e jornalistas adormecidos. E, sobre estes, ficou tudo por dizer.

Estávamos perante um Governo novinho em folha, cheios de aspirações. E eis que de repente suspeitamos que este pediu a demissão sem publicação em Boletim Oficial. O que é feito das caras novas e das suas intenções expeditas, que nada transpareceram no programa lido por Chui? Não partilharam o trabalho de casa? Ou este foi comido pelo cão? O que é que aconteceu entre a tomada de posse e o relatório das LAG?

Não vale a pena esperar por respostas. Vale para as nossas perguntas e para as dos deputados – que também acusam muita moleza nestes dias de Março. Não há respostas: há duas ou três manobras de diversão. Por exemplo, uma comissão para um plano quinquenal da cidade internacional de turismo e lazer; um grupo interdepartamental para um órgão municipal; uma comissão para estudar aplicações das reservas; um levantamento sobre o número de autocarros de casinos, sem compromissos quanto a qualquer limitação. Algum cidadão tinha pedido alguma destas coisas? Em dois casos não, de modo algum, e noutros dois, postas assim as coisas, também não.

Todas, todas as sondagens – mas mesmo todas – nos falaram da habitação. E toda a actualidade nos pôs em alarme quanto à situação de receitas públicas e produtividade da região. Os dois assuntos foram tão manifestamente evitados que chega a parecer que não existem. Mas estão lá: a extrema velocidade a que as receitas de jogo descem e absurda lentidão para que inflação e bolha imobiliária esvaziem um pouco. O descompasso será mais evidente ao longo dos próximos meses.

Chui Sai On – que durante a sua campanha prometeu terrenos para os promotores do imobiliário, recordemos por favor – insiste no aumento da oferta de habitação pública (quando houver zona A dos aterros, claro está). Ficam bem esse tipo de sentimentos. Mas lamenta-se o facto de ninguém querer evitar o total desperdício de dinheiro, tempo e energia com regulamentação eficaz. A habitação tem de deixar de ser um instrumento de especulação sem limites – para empresas e famílias (sim, nós também).

O que não se fez quando o mercado estava alta (impostos de selo não chegam) agora não será feito com a desculpa de que o mercado está um bocadinho menos em alta – quando a regulamentação não é um comprimido para a febre, tem de lá estar sempre, como a ginástica e a boa alimentação. E deve estar fixada algures nos limites da decência. Mas, aparentemente, vamos esperar mais uma vez para ver o que acontece e, depois, intervir casuisticamente onde dói menos.

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Está tudo errado

[Tapau no bufê]

Rodrigo de Matos

O Chefe do Executivo já apresentou as Lengalengas de Aborrecimentação Governativa (LAG) para 2015 e o Tapau no bufê, a crónica de análise sociopolítica preferida dos leitores do PONTO FINAL, apresenta aqui o balanço: está tudo errado. Ou quase tudo. Ainda fomos capazes de concordar com umas quatro vírgulas e dois acentos agudos. De resto, se fôssemos o professor de Chui Sai On, era chumbo na certa… Pensando melhor, se calhava passava, à rasca, mas era só para não ter de repetir o ano (credo!).

Então, vá. Para não dizerem que isto é só crítica gratuita, vamos mandar a factura… quer dizer, vamos passar a explicar porque é que as LAG estão todas mal concebidas.

“[…] Iremos, com um espírito reformador, acumular experiências, encontrar soluções para questões […]” foi a medida mais concreta que conseguimos isolar do discurso do Chefe do Executivo. Podem imaginar o grau de abstracção metafísica do resto das propostas. Ora, comecemos pelo “espírito reformador”. Na verdade, aquilo de que Macau precisava era de um reformador de carne e osso, um indivíduo que fizesse alguma coisa palpável para melhorar a nossa vida. Não é claro na proposta exactamente como é que o Governo irá invocar esse espírito, se irá mandar trazer o professor Karamba ou um outro pai-de-santo da Guiné, mas isso é uma hipótese que pode agradar aos seguidores de seitas espíritas e gente que acredita nessas fantochadas. Para um ateu como eu, não chega. É igual àqueles comprimidos para a sede que se tomam com dois copos de água.

Adiante. “Acumular experiências”. Se há uma coisa de que ninguém precisa aqui é da continuação deste acumular de experiências. Todas elas más. Melhor do que isso seria apostar numa boa experiência. Bastava uma. Nem era preciso acumular. Ou, melhor ainda: tomava-se logo uma medida boa definitiva, sem estar a usar o povo como cobaia em experiências de governação frankensteiniana.

Por último, “encontrar soluções para questões”. Isto não chega. Porque muitas vezes, ou quase sempre, as soluções encontradas são questionáveis e chegamos a duvidar de que o Executivo seja mesmo capaz de encontrar soluções para questões mais complicadas. Comprovei no outro dia empiricamente que nem para questões simples, quanto mais para as outras. O meu sobrinho pediu-me ajuda para um trabalho que trouxe da escola em que a professora perguntava: “O João comprou seis sacos de laranjas, cada saco com 12 laranjas. Quantas laranjas comprou o João no total?”. Como no meu tempo esses problemas eram com batatas, não fui capaz de responder, mas resolvi pedir ajuda ao Governo. Secretaria para a Agricultura em Macau não há, então, achei que deveria ligar para a da Economia e Finanças, uma vez que a questão envolvia uma transacção financeira. Disseram-me para enviar a questão por fax e assim fiz. Estou há mais de um mês à espera da resposta.

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O duende nas tuas palavras

José Drummond

Artista plástico

“Experimentei esta liberdade: a de ver os dias moverem-se de um lado para o outro dentro das semanas, enquanto eu lia, olhava, imaginava e dormia, e voltava para trás, lembrando coisas de uns e outros, coisas dos dias, de tal modo que era tudo uma festa da confusão. Nessa altura a erva declarava-se por toda a parte, o céu parara no alto e as montanhas aproximavam-se depressa, logo pela manhã. Cá está algo de muito curioso – dizia eu, mas não me atrevia tocar nas montanhas. À noite pensava numa espécie de dor que deveria existir dentro de mim, num daqueles trocados dias das semanas, mas não sabia que dor era nem onde se encontrava.”

“Eu não durmo, respiro apenas como a raiz sombria / dos astros: raia a laceração sangrenta, / estancada entre o sexo / e a garganta. Eu nunca / durmo, / com a ferida do meu próprio sono.”

“A verdade é como um tigre que tivesse muitos cornos, ou então como uma vaca a que faltasse o rabo.”

Federico Garcia Lorca deu uma conferência em 1933, em Buenos Aires, intitulada “Jogo e Teoria do Duende”. Lorca explica o que é o ‘duende’ e como a sua origem no folclore espanhol é extensiva a outras obras. O poeta espanhol evoca o espírito feérico que faz com que determinadas composições musicais provoquem emoções. Esta magia, que Lorca associa a um particular estado de tristeza, pode encontrar-se em muitas das grandes obras musicais, poéticas e até em algumas peças artísticas.

‘Duende’ ou ‘ter duende’ é, por outras palavras, ‘ter alma’. É um estado emocional elevado fruto de uma expressão de autenticidade. É uma intensidade impetuosa de um espírito de evocação artística que provoca no interior de cada um de nós uma reacção física e emocional. É aquilo que na arte, e especialmente na música e na poesia, nos provoca calafrios ou nos deixa embebidos. É aquela força que nos faz sorrir ou chorar e que vive em estado puro onde o tempo por momentos se suspende em si próprio e se perde. E essa suspensão é o mais próximo sentido de uma ideia de eternidade.

‘Duende’ é em geral sobre a condição humana, e em particular sobre o sofrimento, sobre a tristeza, sobre a existência não existente, sobre uma irracionalidade qualquer, uma loucura imensurável, um falhanço inenarrável, um estado elevado sobre a morte, um golpe profundo de asa sobre o amor.

Herberto Helder foi um poeta com ‘duende’. Um poeta que ‘jogava’ e funcionava com as palavras como se elas fossem o arsénico dos seus dias. Um espírito único que incorporava na sua oficina todas as virtudes terrenas e todas as limitações do intelecto. Ler os seus poemas é ficar cara a cara com a verdade dos dias. É ficar cara a cara com a morte. É gemer o amor impossível. É encharcar o sexo e não dormir. É comunicar com o Criador, sendo este a imagem do poeta em si.

Os poemas de Herberto Helder têm, como Lorca refere, “esse misterioso poder que toda a gente sente mas nenhum filósofo consegue explicar”. E não se trata de virtuosismo, estilo, charme ou graça ou qualquer uma das normas líricas, dos estereótipos linguísticos. O ‘duende’ de Herberto Helder é tanto a revelação da espontaneidade como a revelação de um trabalho oficinal. O ‘duende’ que se encontra nas suas disposições líricas revela tanto um combate que lhe rói as entranhas como uma luta que requer consciência nenhuma. Apodera-se de nós e cresce, e cresce, e cresce até ao mais profundo e inexplicável dos sentimentos, porque existe pelo meio dos significados, nos silêncios e nos espaços em que respira, nas exaltações do corpo e da alma. E, não se pode dizer que é surreal ou irreal e muito menos real é porque até sobre estas definições a sua poesia se suspende.

Eu teria 16 ou 17 anos quando li pela primeira vez Herberto Helder e desde o primeiro momento que as suas palavras ecoaram em mim que lhe senti o ‘duende’. Foi a revelação desse contorno que exulta o presente e ultrapassa o infinito que me fez perceber, junto com outros autores, que existem formas e formas do ‘fazer’, mas se temos algo para dizer enquanto criadores, então que o façamos com alma. Foi ele um dos poetas que mais me marcou na minha formação, que me empurrou para escrever poesia e encarar a arte como forma poética. O ‘duende’ é esse sentimento negro onde eu posso encontrar beleza – a minha própria visão sobre a beleza, por mais cruel e prismática que ela se possa apresentar.

O ‘duende’ aparece sem se anunciar e apresenta-se como uma forma radical onde sentimentos desconhecidos se transformam em pequenos milagres. A mais profunda essência do Criador no seu total entusiasmo é o que move as propriedades etéreas do mundo. ‘Duende’ não tem resina nem patine, não tem dimensão porque existe para além da sua forma. Sentimos-lhe o desafio, a linha aguçada da faca, o cheiro do sangue. É assim com a poesia de Herberto Helder, onde as palavras aparecem como uma lista de ingredientes de uma poção mágica destinada a arrebatar-nos pela geometria das emoções.

E nos dias de hoje, onde somos hipnotizados pelo vírus do positivismo e pela aceleração brutal da tecnologia e das redes sociais, tanto mais sentido tem encontrar obras com ‘duende’, com essa inexplicável força da tristeza que nos faz sentir humanos. Tanto mais nos é necessário parar e abrir um livro e deixarmos as palavras afagar-nos. Tanto mais é necessário suspender o tempo a olhar para uma obra de arte ou simplesmente a olhar ao nosso redor, em vez de olhar para a nossa bengala digital. “Tristezas não pagam dívidas” e parece que tristeza não dá lucro, a avaliar pelas escolhas do mundo nas mais diversas áreas, mas são trabalhos com essa inquietude, essa melancolia trémula, essa excitação – zanga por vezes, essa revolta silenciosa, esse desencanto doloroso, esse desassossego da alma que nos elevam como seres. Porque na realidade devemos a nós próprios ser honestos e ninguém pode realmente ser apenas completamente feliz. Sem se conhecer o sofrimento e a tristeza, como reconhecer a alegria e a felicidade?

Se arte é para mim o cobertor onde eu encontro conforto para os sentimentos de perda e solidão. Se arte é para mim o lugar onde eu respiro e posso exprimir a minha inexplicável e inenarrável nostalgia – uma nostalgia tão dura e impiedosa que é composta de amor e morte, de sangue e lágrimas e sentimentos de ausência e saudade. Se arte para mim é aquilo que faz de mim quem sou e a poesia faz dos meus trabalhos o que são devo-o ao ‘duende’ da obra de forças subliminares como Herberto Helder. Obrigado.

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