A água é uma bênção no deserto, mas o homem que se afoga amaldiçoa-a

Esther Un*

 

Era uma vez um imperador chinês que discutia política com os  seus cortesãos . À  sua pergunta  sobre a razão da queda de uma certa dinastia, um ministro responde: “ Porque o imperador perdeu o apoio do povo.” O imperador pergunta: “Como é a relação entre um imperador e o seu povo?” O ministro responde: “ O imperador é um barco e o povo é a água.  O barco só pode avançar na água.  A água pode aguentar o barco, mas também pode afundá-lo.”

O imperador questiona então: “Como é que se distingue  um  governante inteligente de um governante tolo?” “Aquele que ouve com a mente aberta é sábio, aquele que ouve de forma tendenciosa é tolo. Ouvir com a mente aberta permite não ser enganado pelos vilões.”

 

Esta história serve para recordar o governante que deve ouvir e governar sempre com o bem-estar do povo em vista.

Mas o  governante  não deve apenas ouvir com a mente aberta, deve saber fazê-lo com inteligência. Em 1999, existiam mais de duas mil organizações sociais em Macau. Hoje, o número aumentou para 5400 .

 

Algumas  actuam de acordo com a tendência política e têm  influência na sociedade. Antes da transferência de Administração as organizações sociais serviam de ponte entre o povo e o Governo nas questões de direitos de trabalho e serviços sociais. Depois de 1999, o status social de certas organizações aumentou. No gabinete de Edmund Ho, o primeiro Chefe do Executivo, três das cinco secretarias foram originadas a partir de organizações sociais, e oito dos dez membros do Conselho de Administração trazem-nas no seu currículo.

 

Significa esta miríade de organizações sociais que diferentes opiniões podem chegar aos decisores políticos? Será que os líderes fizeram chegar a opinião pública eficazmente aos governantes? Não parece ser o caso.

 

Tendo em conta a actual legislatura e a consulta sobre a reforma do sistema político no ano passado, estas organizações, que muito beneficiaram do Governo, fizeram uso das suas redes para servir como porta-voz do Governo, em vez de ouvir a opinião pública, mascarando a vontade oficial como vontade pública. Deputados eleitos pela via indirecta e nomeados alinham normalmente com as posições do Governo. As pessoas comuns praticamente não têm uma palavra a dizer nestas principais organizações sociais. Nas sessões de consulta, estes líderes são participantes activos que falam como se fossem membros do Governo.

 

À medida que a sociedade avança, as pessoas têm expectativas mais elevadas face ao Governo e para o trabalho das organizações sociais que recebem financiamento público. Recentemente, o porta-voz do Governo defendeu o aumento dos salários dos principais titulares de cargos públicos para “lhes atribuir o respeito que merecem”. No entanto, os rendimentos anuais do Chefe do Executivo são maiores do que os do presidente dos Estados Unidos. De acordo com outra lei, o Chefe do Executivo eleito e ex-Chefe do Executivo podem receber subsídios (90 por cento e 70 por cento, respectivamente) e apoio administrativo, no caso do Chefe do Executivo em exercício. E no entanto,  esta conduta de permutar acções de alta prioridade por tarefas de menor prioridade está além do nosso controlo.

 

Sendo o administrador do dinheiro público, o Governo deveria ser orientado para o povo e entender o significado de “água é uma bênção no deserto, mas o homem que se afoga amaldiçoa-a”. Nesta realidade de crescimento económico, onde  os problemas sociais ainda não vieram totalmente à tona, o Governo deveria manter-se atento e abster-se de gastar de forma extravagante. Para manter a sua governança , o Governo não deve apostar apenas em manter a estabilidade social resolvendo problemas antigos; deve, sim, dar um passo para a frente e fazer  melhor uso de seus funcionários. O governante não deve beneficiar aos seus comparsas; deve, sim,  estabelecer mecanismos de avaliação quantitativa no serviço público e de consulta pública científica. Este último permite que a opinião pública seja ouvida. Deste modo, o governante pode manter uma estreita relação com o seu povo e ser por isso prestigiado.

* assitente social

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2014 a galopes

Márcia Souto*

 

 

Encontra-se aberta a temporada dos decálogos retrospetivos e prospetivos, conforme a natureza do “listador”. A risco de ser repetitiva, senão mesmo ‘dejá vu’, faço também aqui estas viagens entre o ponto de partida e o porto, algures e alhures, de alguma chegada.

 

Aos que gostam de olhar pelo retrovisor, é comum listarem as principais realizações do ano que se finda, sendo elas um impulso para animar o próximo Ano Novo: bons negócios, diplomas, projetos bem-sucedidos, conceções, criações… Já os de natureza futurista, estes fazem exercícios de antevisão: sonham com um ano novo prodigioso e se deliciam em ver o dia de amanhã como uma oportunidade irrevogável de sucesso.

 

Sendo eu, tal qual Pessoa (e as demais pessoas), múltipla e diversa, destacaria no meu decálogo estes seguintes teres e haveres:

 

  1. Ter conhecido o Oriente, onde, da nossa perspetiva, nasce o sol
  2. Ter criado, com Filinto Elísio, a Rosa de Porcelana Editora
  3. Ter editado o mais recente livro de António Correia e Silva
  4. Ter mudado, qual pássaro de voo largo, para o poiso Lisboa
  5. Ter visto meus pais juntos em Salvador, na Bahia
  6. Haver iniciado uma interlocução com Macau por este jornal
  7. Haver sofrido pelas desgraças na Síria, no Iraque e, agora, no Sudão do Sul
  8. Haver publicado, com indecisão de primeira viagem, meu primeiro livro
  9. Haver vivido em Cabo Verde, descobrindo o ying e o yang das terras
  10. Haver chorado, com serenidade mineira, a morte de Nelson Mandela

 

 

Do particular para o universal, sabendo o mundo dentro de mim, revejo a lista sem gosto por ordenar temporalmente ou por ordem de importância, mas por lembrança e o caos de que a memória é composta. As ditaduras da cronologia e da relevância matariam, no ovo, a poesia pretendida. E sendo a memória um misto de passado e desejo de futuros, lembro-me agora da boneca de trapos, Emília, personagem de Monteiro Lobato, que, aquando da escrita de suas memórias, depois de ser defrontada com as críticas de que não estava a narrar a verdade dos fatos ao contar mirabolantes aventuras, assim conceitua ela: “a mentira é a verdade que se esqueceu de acontecer”.

 

Esquecidas de acontecer, desejo que as mentiras que criamos para sobreviver ao nietzschiano excesso de realidade floresçam com viço e cor real no próximo ano.

 

Mas a propósito de decálogos… eu bem queria que em meu Ano Novo ocorresse o seguinte (desta sem os espartilhos dos verbos redutores):

 

  1. Reconhecer-me nesse Oriente, mais de meditação que de competição
  2. Editar, pela Rosa, o Prémio Camões Cabo-verdiano, Arménio Vieira
  3. Ler livros, os inumeráveis, que não se esquecem
  4. Sentir Lisboa de Pessoa, apreender-me da mátria (livre e solta que nem o Brasil) que é a Língua Portuguesa
  5. Ver nossos filhos, juntos, em Campo de Ourique
  6. Revisitar Macau e, podendo, sorver a primavera em Pequim
  7. Comemorar, em cravos jogados à rua, os 40 anos de Abril
  8. Pensar a gestação de um outro livro, sem pressa
  9. Querer: igualdade, liberdade, fraternidade – sem guilhotina
  10. Brindar sempre (em jus ao vinho) a nós e a quem goste de nós

 

Há horas do final do ano conforme o calendário ocidental, não posso deixar de me lembrar que, para o ano novo chinês, faltam mais algumas semanas, e me ponho a perceber que em todo o mundo anexa-se às comemorações uma listagem prospetiva e retrospetiva. Dessa forma, a memória e o desejo, marcas próprias do ser humano, esteja ele onde estiver, unem-se em fogos de artifícios.

 

Desejo ao leitor de/em Macau que, no ano que se aproxima, “oriente-se pela constelação do Cruzeiro do Sul”.

 

* cronista

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Aniversário

Maria Caetano

O tempo, às vezes, não serve mesmo para nada. Só para estragar as nossas ilusões. A quem conheceu Macau há oito anos – é pouco tempo, eu sei – foi dito que, não obstante as especificidades do sistema, havia um rigoroso e sustentável quadro de garantias, uma boa vontade na governação e nas gentes, e uma lei fundamental que podia bem candidatar-se à perfeição dos regimes jurídico-políticos, a par com um inovador e sedutor princípio – um país, dois sistemas – que tornava tudo isto possível.

A verdade é que passaram oito anos e, hoje, não acredito em nada disto. Sei que não há princípio que se conserve muito tempo quando as pessoas não o querem, que a boa vontade é um lampejo que nunca é completamente honesto e também que as garantias não são para todos, são cada vez mais só para alguns. Nada é garantido, nunca, nem sequer um período de transição.

Como também não há garantias da observação da autonomia local, da liberdade e intervenção dos media, do direito à habitação, do bilinguismo oficial, da justiça, da igualdade, da qualidade da educação, da protecção contra a violência, ou também de um rendimento mínimo para quem trabalha. Simplesmente, porque nada disto depende exclusivamente da existência de leis, mas muito mais da vontade das pessoas que administram e zelam por estas garantias. E há bastante tempo que quem decide se demitiu das suas funções, encolhendo os ombros, e alegando que nada pode contra uma enorme quantidade de interesses instalados.

A actual situação é absolutamente insustentável. A Administração e o Governo dizem-se reféns de umas boas mãos cheias de empresários e organizações para justificarem todas as omissões e atrasos. Desculpas não aceites. Afinal todo o poder é concentrado (e mal) na pessoa do Chefe do Executivo para que, precisamente consiga agir, tomar decisões. De que serve esta estrutura de poder anti-democrática se, nem que seja em termos da mera eficácia, falha equivocamente, nunca sendo o que é suposto ser? Para que serve abdicar da representação em favor de alguém que se escusa ao dever?

Desde 2010 que se discute o salário mínimo na concertação social para nada. Uma perda de tempo que, felizmente, ainda dá emprego e ocupação a funcionários, mas que lamentavelmente não produziu nada de efectivo até aqui. Houve mais estudos, mais uma consulta pública, mais reuniões e muitas opiniões e, finalmente, nada! Tratava-se apenas de escolher um valor, entre 23 e 30 patacas! O mesmo em todas as discussões, da revisão da lei laboral às contribuições para a segurança social. Absoluta perda de tempo. Os patrões não quiseram. Não vale a pena insistir.

Na educação, a revisão dos currículos e condições do ensino não superior não sai dos projectos-piloto. A avaliação das universidades não sai da gaveta. As escolas não querem. Não vale a pena insistir.

Nos assuntos de justiça, tratava-se de garantir um lei que protegesse as vítimas de violência doméstica. Ah, o Chefe do Executivo não quis. E mais uns quantos não identificados. Não vale mesmo a pena insistir.

A lei de imprensa ia ser revista e houve até quem achasse que era para valorizar a profissão, eventualmente regular e reconhecer a liberdade e responsabilidade dos trabalhadores dos media. Não, a maior parte dos jornalistas e o Governo não quiseram juntar nada, apenas eliminar. Não vale a pena insistir.

A gente queria ter direito a um mercado de habitação regulado, não ficar dependente de habitação pública, queria poder arrendar com justiça. Há tanta gente que não quer! Não valerá de nada insistir.

A língua portuguesa ia ser uma mais-valia, uma oportunidade de diferença, uma opção estratégica até com muita estima de Pequim. Mas há quem não queira valorizar realmente quem é bilingue. E há até quem não queira ter intérpretes nas suas conferências de imprensa. Temos nós de insistir com eles?

A região administrativa especial de Macau comemora hoje mais um aniversário. Este ano não há grandes motivos para celebrar.

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Jogo Perigoso

Paulo Rego 

Quando se olha para o mapa da Lusofonia há uma circunstância que não pode ser menorizada: o mar; esse espaço vital disputado por todo e qualquer projeto de afirmação política, económica e militar. Para além do potencial geoestratégico da língua portuguesa, no contexto da nova ordem multipolar, as longas milhas de costa que esses países detêm, cobrindo os cinco continentes, representam um valor acrescido que os torna muito mais relevantes do que a soma aritmética dos seus recursos naturais, das suas influências regionais ou dos seus mercados de consumo. Não é também por acaso que os Estados Unidos e o Japão reagem de forma tão violenta e musculada às ambições de Pequim nos mares do Sul da China. O que está em causa é uma luta de afirmação à escala planetária que tem os contornos clássicos da medição global de forças, expondo velhos discursos nacionalistas para consumo interno. É esse o jogo natural do equilíbrio de forças, mas é também esse o contexto que muitas vezes foge ao controlo de quem o manipula, escrevendo-se nessas alturas as das páginas mais negras da história da humanidade.

O presidente norte-americano, Barack Obama, parece ceder à tentação infantil de querer provar que não é um ator fraco na cena internacional; o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, corporiza a memória mais triste da arrogância nipónica; Xi Jinping, que se apresenta como modernista e fraturante em matéria de reconversão económica, parece incapaz de o fazer sem o embalo pobre do discurso nacionalista para controlo das massas. Os três parecem de certa forma inebriados pela regra simples de fazer política. O problema maior é que nenhum deles deu ainda provas suficientes da sofisticação revelada por gerações anteriores de mestres na arte de esticar a corda sem a deixar partir. Melhor seria que o mundo não dependesse disso, mas nesta altura está mais à mercê do bom senso – que nem sempre existe – do que seria confortável para o comum dos mortais.

Independentemente das razões de Direito Internacional que possam assistir a um ou a outro lado, por exemplo no caso das ilhas Diayou, Pequim tem razão num ponto fundamental: faltam neste momento plataformas internacionais de diálogo e de negociação que suprimam o desgaste das Nações Unidas. O fato é que a nova ordem mundial está aí, com novos polos de conflito, novos atores e velhos protagonistas que vivem hoje realidades de dimensão diferente. Mas a nova forma de gerir a realidade ainda não chegou. A China continua focada nas teses de não-ingerência e apostada em acordos bilaterais que, no fundo, fogem à sua própria lógica do multilateralismo; os Estados Unidos engolem mal o sapo da sobrevivência da ditadura comunista em pleno voo capitalista, tentando cercar a China através da velha influência junto dos países da ASEAN e de uma aliança com o Japão que recua às circunstâncias do pós-guerra; Tóquio reage ao crescimento económico chinês com um saudosismo que mete medo ao susto.

É só teatro, dizem alguns analistas. Mas este é também um guião negro com raízes profundas que podem desnutrir o adubo da paz mundial. O mundo novo precisa de novas lógicas, de novas instituições e de novos exercícios de diplomacia e de bom senso. Mas as três maiores economias mundiais, por natureza as que têm mais poder e interesse em criá-los, parecem ainda distraídas em jogos do velho mundo. Esperemos que por pouco tempo, porque a realidade já deu muitas vezes provas de ultrapassar quem não sabe lidar com ela.

A pressão que vem do Norte 

Na visita oficial que esta semana efetuou a Pequim, O Chefe do Executivo voltou a ouvir recados sobre a necessidade de diversificação económica e de planificação de longo prazo, mas também sobre a importância da plataforma comercial com os países de língua portuguesa. A julgar pelas suas declarações, Chui Sai On parece agora mais rendido ao tema e consciente do significado político do recente anúncio da criação de três centros lusófonos em Macau: um de serviços comerciais para as pequenas e médias empresas, outro de convenções e exposições – nomeadamente para albergar feiras temáticas – e um centro de distribuição de produtos alimentares. Desde que Pequim lançou a estratégia, há cerca de uma década, várias vozes têm denunciado a distância entre a clareza do discurso continental e as sombras da prática local. Nos seus dez anos de consulado, Edmund Ho multiplicou visitas oficiais aos países de língua oficial portuguesa, dando relevo ao desenho de Pequim; mas também foi sempre incapaz de convencer a oligarquia local a uma adesão de corpo inteiro ao real potencial dessa plataforma. Chui Sai On afastou-se ainda mais desse desígnio, deixando-o praticamente abandonado a menções de circunstância e inscrições vagas nas Linhas de Ação Governativa. Mas algo está a mudar – para melhor.

A primeira geração de dirigentes da RAEM tem o segundo mandato de Chui Sai On para demonstrar que soube de alguma forma fundir o projeto lusófono com outro desígnio da diversificação económica: a integração na região do Delta no Rio Das Pérolas. Por um lado, existe o risco teórico de um assalto ao poder regional por parte das forças económicas de Cantão, hipótese adensada pelo papel liderante que Xi Jinping atribuiu a Wang Yang, estrela ascendente do partido em Guangdong e que chegou a vice-primeiro-ministro do governo central; por outro, a desconfiança e a lentidão com que a autonomia especial vai aderindo à ideia contrasta com a longa experiência da capital da província na internacionalização da economia chinesa; finalmente, a dificuldade que Macau demonstra na afirmação de uma identidade para além da indústria do jogo complica ainda mais a sua posição na correlação regional de forças. Contudo, pensar numa cidade tão pequena sem integração regional seria um autismo semelhante ao de projetar o Estado de Goa esquecendo a Federação Indiana; ou mesmo o de Timor-Leste – país independente – menosprezando o mercado indonésio. O que verdadeiramente importa é garantir a manutenção de relações diretas com Pequim, evitando que as forças continentais de proximidade menorizem o potencial político e geoestratégico atribuído a Macau, por força da conjugação das circunstâncias históricas com uma ambição de afirmação internacional do chamado segundo sistema.

Na primeira visita oficial ao Continente depois do Fórum Macau – e a caminho de se recandidatar – Chui Sai On volta com a oportunidade de se tornar mais lusófono. O discurso parece agora mais assumido, restando-lhe conjugar a integração regional com as relações lusófonas. Conjugar ambos os desígnios é o que faz sentido. Salvaguardadas as devidas diferenças, as relações de Portugal com o mundo lusófono devem também ser entendidas como uma mais-valia no contexto da União Europeia. Um projeto francês ou alemão pode vingar em Angola ou no Brasil sem qualquer mão de Lisboa; mas os portugueses terão vantagens naturais; como aliás se prova com o exemplo da TAP, que soube aproveitar a falência da Varig para liderar a ponte aérea entre o Brasil e a Europa.

A economia planificada chinesa reserva funções de exclusividade para cada realidade geográfica, independentemente das interconexões de proximidade. Há mais dinheiro de Hong Kong e do Continente investido na indústria do jogo e na especulação imobiliária e Macau do que propriamente oriundo de famílias locais. O que não retira à oligarquia residente as vantagens relativas que lhe são administrativamente garantidas. Logo, uma vez que a fábrica do mundo está do lado de lá da fronteira, faz todo o sentido que venha também de lá ´know-how´ e músculo financeiro percorrer os caminhos da lusofonia. O medo não resolve nada; já a visão política e a inteligência estratégica podem solucionar muita coisa. Sejam quais forem as catarses locais a fazer, Chui Sai On faz bem em assumir definitivamente a plataforma lusófona como um desígnio político e uma mais-valia diferenciadora no plano de integração regional.

A maior rede de segurança é que este fôlego lusófono ultrapassa em muito a simples visão de proximidade. O Chefe do Executivo não acordou de repente lembrando-se de um projeto que nunca priorizou, mas que agora entenderá melhor. Está antes a reagir aos recados públicos e, presume-se, também privados, de Xi Jinping, na sequência das recentes mensagens das altas patentes chinesas que vieram à última reunião ministerial do Fórum Macau. Wang Yang e o vice-ministro do Comércio, Jiang Zengwei, foram muito claros: não só não se fez o que era suposto estar feito, como agora é preciso fazer mais do que eventualmente se previa fazer. A mensagem não é inédita, mas a circunstância de ser reforçada pela nova liderança – que está a mudar tanta coisa na China – e repisada em vésperas de um futuro mandato, cria um novo fato político para ser gerido por Chui Sai On: a ideia não cai; mas, sobretudo, Pequim deixa de fazer de conta que ela se ergue sem a pressão que vem do Norte. P.R.

O preço mudou

Meu caro. Estou a gerir uma crise entre os meus colaboradores mais próximos que me parece curial partilhar com os meus clientes estratégicos. Há muito percebi que olham para o Maserati que ofereci à minha secretária com um ar recriminador. Não por questões morais, pois nesta terra ninguém liga ao fato de termos amantes, mas porque esse meu gesto expôs uma capacidade financeira que ainda não viram refletida nos seus rendimentos. Veja lá ao que chegou a paranoia da ética patronal: primeiro tenho de garantir que a rapaziada pague uns BMWs às suas meninas para depois estar descansado com os meus próprios desvarios. O meu filho mais velho acha que eu devia ter optado por uma prenda mais discreta, mas quem tem cabelos brancos entende que há momentos em que o que está em causa é precisamente a exposição pública da relação, bem como o luxo que lhe está associado.

Como se não bastasse, o Chefe do Executivo acaba de anunciar para si mesmo e para os seus colaboradores mais próximos aumentos salariais na ordem dos dez por cento, com o argumento de que a governação é um exercício cada vez mais complexo e exigente. Não vou discordar de Chui Sai On. Primeiro, porque com a quantidade de asneiras a que se assiste talvez seja mesmo melhor pagar-lhes mais, a ver se atinam; depois, porque nunca foi o meu jeito criticar quem manda; por fim, porque toda a gente entende que, nesta altura, 300 mil patacas mensais não são suficientes para um oligarca que se preze.

O problema não está nos salários dos políticos. Aliás, é preciso ser muito ingénuo para se pensar que a elite de Macau se amanha por via destes aumentos. O fato é que esta decisão veio criar outros problemas. Ainda ontem, durante uma partidinha de golfe, alguns amigos comentavam a pressão que já sentem por parte dos seus colaboradores. Ainda se o chefe fosse consensual; tivesse ele a imagem de um trabalhador incansável, de um decisor corajoso… e já seria difícil recusar aumentos generosos ao nosso pessoal. Mas nas atuais circunstâncias o caso torna-se dramático. Ouvi ontem da boca de um dos meus homens de confiança: “Se ele merece mais dez por cento eu mereço pelo pelo cinquenta. E é por ser para si, e pelo respeito que tenho pelo seu saudoso pai; porque com esta inflação galopante e com o dinheiro que lhe dou a ganhar deveria exigir pelo menos o dobro.

A verdade é que percebo o Chefe do Executivo, mas tenho também de entender os meus homens. A única alternativa que me resta é a de aumentar o preço dos meus serviços. Dobrá-los parece-me bem. Verei depois em negociações individuais quanto darei a cada um, ficando com o resto para mim. Mas uma coisa parece incontornável. Se há quem não faz nenhum e merece aumentos destes, eu que vos dou tanto dinheiro a ganhar mereço pelo menos o dobro do que ganho.
Corrijo os valores na próxima fatura

Com os melhores cumprimentos,

O amigo de Macau

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O “espírito” do Natal

Rui Rocha*

Se eu mudar, o mundo inteiro muda
Mestre Zen Kouno Taistu (河野太通; 1930-)

A celebração do Natal, tendo embora a sua raíz profunda na tradição cristã associada ao nascimento do menino que, na perspetiva do Cristinanismo, viria a ser o Cristo Redentor de todos os seres humanos, na sua caminhada individual e colectiva para o Fim dos Tempos, tempo esse em que não existiria mais o Mal e a Injustiça, ultrapassou hoje largamente as fronteiras culturais e religiosas das suas origens para se transformar, laicizando-se, um pouco por todo o mundo, numa festa da Família.

Mas o espírito do Natal poderá ser também um momento de recolhimento e de reflexão, em jeito de “relatório de contas”, sobre tudo o que a cada um de nós aconteceu como pessoa e como família e do que aconteceu à nossa família humana global durante o ano que agora vai findar. Sem esta reflexão profunda e, diria, porventura “genuinamente cristã”, não é possível termos uma consciência real e clara do que importa ainda mudar em cada um de nós e nas instituições que constituem a sociedade em que vivemos.

Apenas tomados desta consciência nos é possível construir uma sociedade mais fraterna e mais justa, esforçando-nos por trilhar novos caminhos, individual e colectivamente, que nos tornem mais tolerantes e cada vez mais solidários, não apenas com todos os seres humanos deste planeta, que são todos antropologicamente nossos irmãos, uma vez que partilhamos o mesmo patrímonio genético, mas também com a outra parte essencial do planeta vivo – a Natureza, da qual mais longinquamente descendemos e sem a qual não sobreviveremos.

A mensagem transmitida pelos fundadores da maior parte das tradições religiosas que conhecemos, e das correntes humanistas não confessionais ou ateias, é invariavelmente a mesma: viver e praticar o profundo respeito pela Vida e pelo Outro, embora quantas vezes tais tradições, confessionais e não confessionais, tivessem sido na história humana cúmplices ou agentes do horror, da intolerância e da repressão dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, sendo elas próprias, muitas vezes, o poço das heresias contra a humanidade.

Costuma dizer-se que, na história humana, não há povos inocentes. Provavelmente não haverá.

Mas na história humana há muitas pessoas não inocentes que por um pequeno condado vendem a dignidade da sua condição de cidadãos, a troco de tornar menos digna a vida de outros. Da sua dificuldade de compreender a complexidade da vida que lhes escapa, como referiu Maffesoli, essas gentes de fato pardo assumem-se como ideólogos das certezas, a quem a dúvida não aflora. Têm a irrestível tendência de pensar o bem para e em lugar dos outros. São os mais perigosos, pois presumem-se de um magistério moral superior. Foi “em seu nome que se perpetraram [e continuam a perpetrar] as perseguições, os genocídios, os imperialismo económicos e políticos”; esses a quem Chomsky designou por “irmandade dos vendidos”. São os incondicionais recorrentes dos poderes, de quaisquer poderes, na conquista dos pequenos reinos pelos quais venderam a alma, nas palavras de Thomas More, e que sofrem de uma surdez congénita: quando ouviram dizer que a única forma democrática e humanista de exercer o poder é centrada sobre as pessoas, perceberam-na como sentada sobre as pessoas.

Aprendemos da teoria dos valores que a estrutura dos valores de cada um de nós avalia-se nos comportamentos e atitudes que deixamos perceber, implítica ou explicitamente, em relação ao mundo dos outros e das coisas.

Há, sempre houve, pessoas inocentes na história humana e pessoas de causas, independentemente da sua formação ideológica. Houve sempre pessoas que souberam “descolonizar” a imaginação sobre o outro. Por outras palavras, souberam conceber novas formas de representar os outros e desenvolver novos valores, atitudes e comportamentos com o seu semelhante diferente, edificando o direito à humanidade.

O ser humano possui o direito à humanidade. A qualidade de humano não se confunde com a qualidade de humanidade. Entre as duas há um salto qualitativo. A noção de humanidade implica a compreensão da maior riqueza do ser humano – a diversidade cultural criativa, a universalidade da razão, do sentimento e da dignidade da sua condição humana, por antinomia com a ideia de barbárie como escreveu Morabia.

Essas pessoas serão seguramente o exemplo e o “espiríto do Natal”, muitas vezes anónimas e ausentes da visibilidade mundana… e que até podem não saber nada de finanças nem terem biblioteca.

(o autor escreve segundo o novo acordo ortográfico)

*Diretor do Departamento de Língua Portuguesa e Cultura dos Países de Língua portuguesa da Universidade Cidade de Macau

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apontamentos japoneses

Catarina Domingues*

 

Em Tóquio. Akihiro vai todos os dias ao Santuário Yasukuni. Nunca deves passar o portão pelo centro, esse espaço está reservado aos deuses, diz. À frente do altar, Akihiro atira uma moeda para um pote gigante, inclina a cabeça para baixo, bate palmas uma vez, volta a fazer uma vénia, e volta a bater palmas. Na China, diriam que ao visitar o Yasukuni, Akihiro presta homenagem a criminosos de guerra, no Japão são divindades. A forma de Akihiro manifestar respeito pelos mortos é tratá-los como se estivessem vivos.

*

Virados para o palco do @home cafe estão dois otakus (pessoas com interesses obsessivos, pode ser por desenhos animados ou por manga). Um otaku joga `quatro em linha´ na companhia de uma abelha, de braços longos e fininhos, fininha é também a voz; o outro é solitário, e está colado a um livro de manga.

Akihiro não estranha quando uma empregada de saia rodada e meias de fio fino a meia-perna se ajoelha à nossa mesa, boa tarde meu senhor, boa tarde minhas senhoras. A bonequinha desenha um gato a chocolate à superfície do meu latte machiatto, depois leva as mãos à frente, junta-as em forma de coração e diz: moe moe kyun, mais uma vez, moe moe kyun, à quinta pede para repetirmos, moe moe kyun. E Akihiro fica agitado, e Akihiro cora porque sabe que estamos perdidas. Eu levo as mãos à frente, não quero deixar Akihiro ficar mal, e moe moe kyun, e outra vez, moe moe kyun. Isto é linguagem inventada, atira Akihiro, mas percebo que fala sem certezas. All the food is made with our big love, pode ler-se nos individuais rosa à mesa do @homecafe.

*

Por dia, mais de três milhões de passageiros passam pela estação de Shinjuku. Nas escadas rolantes, uma fila perfeita, bem vestida, e sempre alinhada à esquerda. Pequim fez-me acreditar que isto não era possível. No metro, muitos livros de bolso substituem muitos smartfones.

*

Meninos de uniforme saem da escola e vão à livraria. Livros de manga, e mais livros de manga pornográfica. Quando ainda vivia em Lisboa, na Almirante Reis, e tinha dez anos, e a minha irmã onze, tropeçámos numa colecção pornográfica volumosa no quarto da Cristina, a empregada. Nunca tínhamos visto aquilo nas prateleiras da Barata ou da Bertrand, razão pela qual decidimos manter a descoberta em segredo. Nessa altura, o conhecimento não era dado de mão beijada.

*

Às três da manhã, a terra treme. Epicentro a mais de 400 quilómetros de Tóquio, 7.1 graus na escala de Richter. Os nossos anfitriões têm tudo preparado, capacetes de protecção, estantes presas ao tecto. A cama anda de lá para cá, mas eu volto a adormecer.

*

Akihiro não tem especial interesse pela China, nem pelos chineses, porque ser japonês na China não foi fácil. Mas é a China que nos une, e é só em chinês que podemos comunicar. Ninguém mais fala mandarim no Santuário Yasukuni.

*

Tradução livre de parte do folheto que recebo no Yasukuni: “Anteriormente denominado por Shokonsha, o santuário foi construído em 1869. Quando o imperador Meiji visitou Shokonsha pela primeira vez, disse: `Asseguro que todos aqueles que lutaram e deram a sua preciosa vida pelo nosso país viverão para sempre neste espaço´. Actualmente, mais de dois milhões de divindades estão aqui consagradas, são almas de homens que fizeram um último sacrifício pela sua nação desde 1853, durante a Guerra de Boshin, a Guerra sino-japonesa, Primeira Guerra Mundial, o Incidente da Manchúria, Incidente da China ou a Grande Guerra do Leste Asiático”.

*

Os `maid cafe´ apareceram pela primeira vez nos finais da década de noventa como um espaço de descontracção para os otaku. Nessa altura, as empregadas vestiam-se de versão-maid-francesa-sexy de mini-avental, meias até ao joelho, e anáguas volumosas. Com a concorrência, surgiram novas tácticas para atrair mais clientela, apareceram abelhas listradas como as do @homecafe, e fadas rosa de ar inocente, e outras personagens de livros manga, e de jogos de consola. Os `maid cafe´ têm regras, não se pode tocar ou oferecer presentes às empregadas, nem fotografar sem pagar. As meninas tratam os clientes como donos na sua própria casa, meu senhor, minha senhora.

Segundo uma pesquisa que faço quando regresso a Pequim, a expressão `moe moe kyun´ apareceu pela primeira vez no quarto episódio da série de desenhos animados K-on, que conta a história de quatro estudantes do ensino básico que se juntam para fazer renascer a banda musical da escola. `Moe´ expressa a felicidade de um otaku quando exposto à manga, a um idolo ou outra paixão, `kyun´ é a reacção de alguém ao ver um homem ou mulher de quem gosta. `Moe moe kyun´ pode ser descrito como o orgasmo verbal de um otaku.

*

O Matsuo Basho é uma das melhores memórias do Japão. Pena que o pequeno museu do poeta não tenha uma única explicação em inglês. Fica um haiku para o mestre do haiku: no palácio/a chorar o inverno/o velho bonsai.

 

*Jornalista em Pequim

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Línguas e cidadanias

Maria Antónia Espadinha*

Há aqueles dias em que tudo acontece, outros em que não acontece nada… ou era melhor que nada acontecesse. Nunca se falou tanto de cidadania, de direitos do cidadão, direitos da mulher, direitos da criança, direitos e tudo e mais nada, mas falta o contraponto, ou seja, mostrar que, por cada “direito” há também, no mínimo, um “dever” que também é parte da cidadania. Na realidade, há mais do que um. Há muitos. Há todos aqueles que dizem respeito aos direitos dos outros.

O “fluxo”(?) do trânsito nas ruas de Macau obriga-nos, cada vez mais, a usar os transportes públicos. Apesar de tudo, acabamos, utilizando-os, por cumprir o dever de contribuir para a redução da poluição em Macau. Superlotados, lentos (como não?) os autocarros acabam por ser “a” solução. Mas a ausência de sentido cívico leva-nos a assistir a cenas pouco agradáveis, de idosos que entram e não conseguem sentar-se porque os lugares estão ocupados por jovens que se entretêm em jogos no telemóvel, ou ouvem música de olhos fechados, ou estão simplesmente distraídos.

Nem falo por mim. Ainda me seguro bem de pé e há quase sempre alguém que me oferece o lugar. E nem sempre é alguém que eu conheça. É, quase sempre, uma mulher que nem está a ocupar um dos bancos “especiais”. A “distracção” também é multicultural. Por acaso, quando se trata de desconhecidos, os nossos amigos chineses talvez sejam os mais atentos, e não só com os seus compatriotas. No fundo, o civismo tem de ser ensinado, e não só na escola. Eu acredito nos valores transmitidos na família e que a escola pode complementar, mas só complementar. Há coisas que se vão aprendendo desde o berço e se colam a nós. Não são matéria para exame. São “bagagem” para a vida.

Volto aos autocarros, mas agora a eles mesmos e às frases que os “enfeitam”, desde aquela das crianças carregadas à mão (um mimo!), às outras, igualmente pitorescas. Nesta cidade que tanta atenção presta à Língua Portuguesa (é o que se diz), não haverá ninguém que faça a revisão dos anúncios e avisos nos transportes públicos, nos edifícios onde os elevadores param nos “pisos parados”… Coitado de quem mora nos “pisos em movimento”. Nem sei como conseguem chegar a casa! Há pessoas, inclusive professores de Português que estão desempregados ou em empregos de sobrevivência mínima, alguns até em organismos e instituições com responsabilidades na área da divulgação da língua. Por que é que não há um revisor acreditado e firme de todo esse manancial de placas, inscrições, etc? Por que é que se vai, a pouco e pouco, eliminando o Português a favor do Inglês? Notem: não sou contra o Inglês. Acho é que, numa terra onde o Português também é língua oficial, este deve aparecer sempre no lugar que lhe compete, o segundo. Já agora: também acho “linda” a despedida simpática da voz portuguesa da CTM, quando nos dá uma informação que solicitámos: “Obrigada para perguntar”. Parece-me que chega de folclore. Vamos falar Português!?

*Professora Emérita da Universidade de Macau

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Lusofonia: das palavras aos negócios (II)

Fernando Dias Simões*

 

A proximidade entre sistemas jurídicos pode e deve ser entendida como uma mais-valia dos países lusófonos face aos desafios da globalização. O sistema jurídico português foi estendido a diferentes territórios em resultado do processo de colonização. Depois de alcançada a independência as ex-colónias continuaram a usar a língua portuguesa (pelo menos a nível governamental) e a inspirar-se nas suas instituições jurídicas e políticas. Os juristas lusófonos obtêm frequentemente parte da sua formação em Portugal. O curso de Direito é leccionado em português e os textos doutrinais e legais são publicados na mesma língua. Muitos juízes lusófonos frequentam cursos de formação judiciária em Portugal. Existem acordos de cooperação entre faculdades e instituições jurídicas. Não surpreende portanto que os juristas lusófonos olhem frequentemente para precedentes portugueses em busca de soluções para novos problemas. Muitas vezes os projectos de reforma legislativa seguem claramente os desenvolvimentos ocorridos em Portugal. Tendo em vista a necessidade de estabilização e continuidade dos sistemas jurídicos a preservação de laços estreitos com o Direito português parece ser mais uma questão de pragmatismo do que um sinal de fraqueza.

Como é evidente, os sistemas jurídicos lusófonos recebem também influências provindas de outros quadrantes. O processo de descolonização deu origem a um fenómeno significativo de interacção cultural e jurídica. Os países africanos de língua oficial portuguesa, por exemplo, estão cada vez mais expostos a novas influências provenientes de sistemas jurídicos anglófonos e francófonos. Este processo é normal à medida que estes países procuram transformar-se em economias de mercado capazes de competir num mundo globalizado. Em vez de estarem anexados ao sistema legal e cultural do ex-colonizador eles envolvem-se em várias relações económicas e culturais, sendo expostos a diferentes experiências, modelos e instituições. A “descolonização jurídica” é, portanto, parte do processo geral de descolonização cultural da África contemporânea.

Os países que passaram por processos de descolonização são frequentemente imitadores renitentes, como se os transplantes legais fossem perigosos para a sua identidade e autonomia. O sentimento anti-colonialista é bastante vivo em algumas jurisdições, o que as leva a desprezar a noção de continuidade legal e a encarar a tradição jurídica com ressentimento. É perfeitamente natural que estes países se esforcem por construir a sua própria identidade e não pretendam conceder qualquer espécie de “exclusivo” à tradição jurídica portuguesa. É também normal, no entanto, que estes países continuem a dar algum relevo à “tradição jurídica”. Com efeito, é impossível criar um novo sistema jurídico a partir do zero. Os sistemas e instituições dependem de um certo grau de continuidade. O sistema jurídico não funciona como um computador no qual se instala um novo tipo de software. As instituições jurídicas trabalham num determinado ambiente que não é imutável (pois acompanha a mudança social e política) mas não pode ser reformado de um dia para o outro. Os sistemas jurídicos são uma forma de cultura – e a cultura não pode ser totalmente erradicada, apenas gradualmente transmutada. Identificar nesta troca de experiências qualquer sinal de neo-colonialismo é ignorar a importância que a língua tem para o funcionamento do sistema jurídico e – pior – o papel que os transplantes desempenham na melhoria dos sistemas jurídicos. O Código Civil português, por exemplo, bebeu forte inspiração no Direito alemão – e no entanto ninguém se lembraria de ver em tal influência um sinal de colonialismo alemão ou de subserviência portuguesa.

Em busca de fontes apropriadas para a melhoria dos seus sistemas jurídicos, os países lusófonos devem aproveitar o laço linguístico que os une para debater as soluções mais ajustadas à sua realidade e ao seu contexto. A língua é um instrumento fundamental para os negócios. A existência de um sistema jurídico semelhante torna alguns aspectos do comércio mais familiares e facilita as transacções internacionais. Interessados em adoptar mecanismos legais confiáveis ​​e eficientes, os países lusófonos podem beneficiar dos desenvolvimentos do sistema jurídico português e, indirectamente, da legislação europeia. Esta pesquisa será decerto mais fácil se for usada a língua portuguesa do que se se beber influência do Direito anglófono ou francófono, cujo entendimento pressupõe o domínio de outro idioma. Trata-se, no fundo, de perspectivar a língua e o Direito de uma forma pragmática – como veículos de interacção, seja cultural ou comercial. E o pragmatismo é geralmente um dos ingredientes essenciais para um bom negócio.

 

* Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Macau

http://pearlriverdeltalaw.wordpress.com

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Macau numa questão

Maria Caetano

 

Este jornal publica hoje um dossier especial sobre Francisco Gonçalves Pereira, advogado e investigador que, no seu tempo, reflectiu sobre as questões do seu tempo. Alguém que, acreditamos, procurou ultrapassar a menoridade que constrange as consciências formatando-as ao que é admissível e plausível durante o seu tempo. Gonçalves Pereira reflectiu sobre o processo de transição, sobre a questão de Macau entre dois exercícios de soberania que, de forma tentada, procuraram dar-lhe garantias de autonomia.

Não o conhecemos, nem vivemos o seu tempo, aqui, nesta redacção de onde escrevo hoje. O jornal que escrevemos é também em parte uma herança dele. Mas, posta a declaração de interesse que nos exige também reconhecimento, não é apenas isso que nos leva a descobrir o que foi para o autor “a questão de Macau”. Uma questão que é o passado sobre o qual trabalhamos, o presente que vivemos e as expectativas de futuro quanto à terra e às pessoas que abraçamos na nossa profissão e no dia-a-dia.

Gonçalves Pereira aparece-nos, à primeira vista, como um visionário. Muito antes dos dias que correm soube reconhecer as circunstâncias que iam moldar o futuro e delas prever uma autonomia limitada, um desequilíbrio de poderes, um défice democrático e o exercício de uma distribuição de poderes determinada que transvaza das esferas política para a económica, e desta para toda a organização social de Macau. Terá sido dedução e não intuição, acessível a quantos estivessem disponíveis para reflectir as condições que se lhes apresentavam. Um raciocínio sobre as relações de necessidade que poucos arriscam, sob pena de inconveniência, e por isso arriscamos nós hoje chamar-lhe “o pensador de Macau”.

A instituição da Lei Básica, negociada entre Estados externos ao modo de vida local, bem como tudo o que esteve antes e virá depois, não é inquestionável, como nada é. Vemo-lo hoje nas interpretações móveis e díspares da lei cuja base fundamental parece-nos agora assentar em princípios que desconhecíamos – por exemplo, um alegado modelo de cooperação entre os poderes executivo e legislativo. Mais recentemente, vemo-lo, por exemplo, no afunilamento da cidadania, sem nunca termos desconfiado que a fórmula “gentes de Macau” continha em si o princípio de discriminação de todos os não-residentes permanentes.

O problema do não-reconhecimento dos direitos de cidadania é, exactamente o do não-reconhecimento dos direitos de cidadania. Essencialmente: desigualdade. Dizer que não há virtude num regime segregacionista é, essencialmente, verdade que se escusa a debate. Isto, porque, não há qualquer relativismo cultural que alguma vez nos permita duvidar que temos todos nós o céu sobre as nossas cabeças e uma qualquer lei moral dentro de nós, como constatou a modernidade do pensamento desde o século XVIII, e que, por isso mesmo, todos somos iguais. E que, só por isso, somos capazes de viver em paz em sociedades organizadas cientes de que, salvo na loucura, somos capazes de comungar de ideias, comunicar, persuadir, argumentar, chegar a acordos e tratados respeitáveis.

Mas, por esta mesma faculdade comum, não devemos escusar-nos a um debate. E será isso mesmo que o tempo de hoje nos pede: reflexão e debate.  A república em que nos inserimos, mesmo a popular, exige-nos, em definição, que saibamos separar os poderes. O estado legal em que vivemos exige-nos que persigamos a paz e não a mera harmonia que depende de cada um aceitar o seu estrato e conviver em armistício com o resto da sociedade. A vida comum em contexto jurídico-político exige a reciprocidade na relação entre direitos e obrigações para todos os elementos da população. Não se pode exigir a um indivíduo que cumpra a lei de determinado lugar, quando o que é para ele observado ao nível dos direitos é uma outra lei diferenciada.

Mesmo pensando em aceitar a ideia  de que Macau recebe em passagem uma massa de trabalhadores não-residentes superior a 130 mil pessoas que, provisoriamente, vem prestar serviços sem nunca adquirir qualidades de cidadania, como se estivesse permanentemente em trânsito sem deixar o seu país, temos o princípio da hospitalidade.

Trata-se do direito à circulação e travessia da superfície terrestre por cada ser humano, independentemente de fronteiras entre Estados, com o qual se entende que, não havendo hostilidade, é devido um acolhimento pacífico. A hospitalidade universal é uma ideia muito posta em causa nos dias que correm. Mas terá sido esta que, de uma maneira ou de outra, permitiu o primeiro estabelecimento português na China – e a subsequente questão de Macau.

Devemos talvez perguntar-nos o que faz da transição de Macau uma transição pacífica, ou se no fundo não estamos em condições de falar antes de uma transferência harmoniosa em que cada qual reconheceu o seu lugar, com dúvidas, negligência ou entendimentos não declarados e não discutidos. Uma transmissão entre Estados em que, podemos alegar também, Macau e as suas gentes – quaisquer que elas fossem – terão sido objectivadas e não tidas na conta de sujeitos com determinação.

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Francisco Gonçalves Pereira

Rui Rocha*

 

O rito da celebração, de qualquer celebração, é sempre um ato cíclico de exorcizar o tempo e de o transformar em qualquer coisa de durável, ou mesmo de eterno, ao reatualizar a origem, ao fazer nascer de novo uma data, um acontecimento. É uma forma de resistência individual e coletiva ao tempo linear em que tudo é efémero e com o qual gerimos o nosso quotidiano e os nossos tempos de vida.

Mas a celebração é também um mecanismo social de exercitação da nossa memória coletiva em relação aos eventos, às ideias e aos princípios que marcaram a construção e o destino de uma nação ou de uma comunidade. É o que poderíamos designar um ato de solidariedade entre as diferentes gerações e que habitualmente se designa por tradição.

Manter a memória viva, individual ou coletiva, de acontecimentos ou de pessoas que, de um modo ou outro, marcaram, de facto, a nossa comunidade de destino é uma das condições de liberdade, pessoal e política e é uma responsabilidade social. Há um direito, um dever e uma necessidade de memória dos povos porque as ruturas da memória coletiva raramente, senão nunca, são fatores de liberdade, mas sempre fontes de violência e de barbárie, como afirmou a psicanalista francesa Dominique Bourdin.

Isto vem a propósito da aguardada e justa homenagem a Francisco Gonçalves Pereira realizada em Lisboa no dia 2 de dezembro no Centro Científico e Cultural de Macau, com o lançamento do seu trabalho de doutoramento editado em livro e intitulado Accommodating diversity: the People’s Republic of China and the ‘Question of Macao, iniciativa já assinalada neste jornal na sua edição de 5 de dezembro, assim como a que se irá realizar em Macau no próximo dia 15 de Dezembro na qual irá ser apresentada a versão chinesa da 2ª edição do livro Portugal, a China e a Questão de Macau, de Francisco Gonçalves Pereira, edição esta que tive o gratíssimo prazer em organizar e promover a sua difusão. Quem ainda não leu este livro deveria fazê-lo pelas razões que na altura, na nota de edição, invoquei e que se mantêm ainda atuais. E cito:

“Razões subsidiárias se anotam adiante para a necessidade de uma nova edição deste título da colecção Memória do Oriente. Porém, a razão primeira desta 2ª edição inscreveu-se no desejo da Direcção do IPOR prestar uma singela homenagem a Francisco Gonçalves Pereira, prematuramente desaparecido de entre nós, dando a conhecer às gerações mais jovens desta cidade o importante legado deixado como pensador político, investigador e cidadão português de Macau.

Publicada a sua primeira edição em Setembro de 1995, na altura uma raridade na bibliografia histórico-política portuguesa contemporânea sobre a “questão de Macau”, facilmente se transformou num livro de referência e de leitura obrigatória, porque consistente e de elevado apuro investigativo no âmbito da sociologia da vida política dos atores e instituições de poder de Macau, e também inovador no seu léxico político abundantemente reproduzido no comentário dos opinion makers; mas sobretudo, porque passados 15 anos da sua 1ª edição continua a ser o livro de divulgação porventura mais interessante e didaticamente mais bem sistematizado  que se editou desde então sobre “a questão de Macau” (a lembrar as publicações da coleção Que sais-je?). Daí a razão da sua grande procura por parte do público e, consequentemente, desta segunda edição.

De tal modo agradável é a sua leitura que o leitor conscientemente não se apercebe que corre apressadamente texto afora para chegar ao capítulo seguinte, ao ritmo de uma história interminável, quando, de repente, dá consigo debruçado sobre esse horizonte temporal finito do ciclo de presença portuguesa em Macau que é o ano de 1999.

Um livro onde convergem notáveis e difíceis virtudes numa só escrita: o rigor e a profundidade do saber a par da simplicidade e a fluência do dizer. Uma narrativa que nos conduz, em pouco mais de 180 páginas, através dos aproximadamente 450 anos de história das relações entre os Portugueses e o Império do Meio, informando-nos, também, com grande expressividade e clareza, sobre as duas (e por vezes mais) visões identitárias e políticas distintas de portugueses e chineses referentes ao poder e autoridade soberanos em Macau até à formalização de um consenso sobre a supracitada “questão de Macau” em 1979”.

Afirmei ainda que Portugal, a China e a Questão de Macau carecia de uma tradução para chinês, urgente e necessária. Essa vontade e essa necessidade foram entendidas pela Fundação Macau na altura, apoiando o projeto e em boa hora a atual direção do IPOR deu seguimento ao mesmo, pois o valor da sua divulgação em língua chinesa é inquestionável, quer junto da população da RAEM em geral quer, muito particularmente, da sua população docente e discente, maioritariamente não falante da língua portuguesa.

Outra razão do interesse da leitura deste belo livro escreveu-ma Francisco Gonçalves Pereira na 1ª edição que me ofereceu, para além da manifestação da sua amizade, e que reza o seguinte: “(…) uma clara suspeição – a de que reflectir sobre Macau, nas suas várias dimensões, nos conduz a uma incessante glosa de sábia asserção, constante de um memorial da Corte Imperial, de que ‘os acontecimentos passados servem como espelho da política presente’”.

 

*Diretor do Departamento de Língua Portuguesa e Cultura dos Países de Língua portuguesa da Universidade Cidade de Macau

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