A propósito da lusofonia na Região Administrativa Especial de Macau (RAEM)

 No actual contexto das reconfigurações e mudanças que Macau vai tecendo no seu período pós-transição, ainda faz sentido falar num espaço de influência lusófona?

Partindo do pressuposto que as relações bilaterais entre a Republica Popular da China (RPC) e os países de expressão/língua portuguesa (PLP’s) se centrarem, no seio da RAEM, com base nas particularidades do Fórum Macau aí sediado, tudo leva a crer que o peso da influência da lusofonia também seja aí colocado.

Esta situação tem sido enaltecida, essencialmente, do ponto de vista económico e politico, o que nos sugere novas equações no quadro das relações internacionais, fazendo emergir outros possíveis parceiros nessa caracterização, nomeadamente a versão Latina de Macau onde uma boa parte da América do Sul se vai posicionando e a versão Africana que vai incorporando outros países não falantes do português numa lógica negocial que se expande com os próprios parceiros internos dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP’s).

Assim sendo, a “esfera” lusófona bem pode acautelar a sua pretensa exclusividade neste contexto e começar a procurar outras forças de aglutinação da sua singularidade que não sejam as estritamente económicas e politicas, (se bem que também não as deva desprezar) para dar voz e sentido ao seu espaço na RAEM.

De entre elas saliento, obviamente, a matriz cultural e simbólica que o legado lusófono impregna no quotidiano de Macau e que continua a ser uma marca de referência, abarcando quer o chamado mercado lusófono, mas também o quadro simbólico e cultural que a matriz da lusofonia traz como referencial de diferenciação.

Um dos traços distintivos que marca a diferença da RAEM de outras zonas da RPC, continua a ser essa referência patrimonial, linguística e populacional da “esfera” lusófona, isto, apesar desta última ser bem menor hoje que outrora, o que nos leva a equacionar o peso da presença dos portugueses no território como componente da complementaridade simbólica que o vector da lusofonia possa ter nesta região em particular, e para a Republica Popular da China, em geral.

Várias foram as alterações no quadro adaptativo à nova realidade emergente da transição formal do poder no território, isto apesar do processo ter sido quase que imperceptível no seu quotidiano, no entanto, os acontecimentos foram sucedendo e os “modos de vida” foram-se também alterando.

Em termos das mudanças visíveis na malha social e no que respeita aos protagonistas, a mesma é marcada essencialmente pela ruptura entre a lógica dos “interlocutores” sociais privilegiados para uma lógica de proliferação de actores sociais ampliados, nomeadamente, com o surgimento de outros estratos de estrangeiros residentes em torno do ponto de convergência do poder e da sociedade civil chinesa, alargando assim a malha de relacionamentos e a visibilidade de outros grupos até então mais ignorados, entre os quais podemos salientar por exemplo os franceses, os australianos, os ingleses e os filipinos, entre outros potencialmente emergentes. A triangulação preferencial entre “portugueses, macaenses e chineses” deixou de ser um facto relevante.

A convergência manifesta pelo poder instituído na Região Administrativa e Especial de Macau com o apoio da Republica Popular da China em perpetuar a diferenciação pela esfera da lusofonia no território é por enquanto um facto, a sua consequência dependerá em grande medida do que formos capazes de fazer, cabendo-nos, a nós (portugueses), estarmos atentos.

A questão que podemos colocar neste panorama é a de tentar perceber se faz (ou não) sentido definir uma estratégia de perpetuação da visibilidade da comunidade portuguesa como protagonista na vida social na RAEM nesta nova fase e como referenciá-la num espaço mais ampliado, matéria de reflexão que deixarei para uma outra ocasião.

 

Carlos Piteira

Investigador do Instituto do Oriente

Docente do Instituto Superior de Ciências Socias e Politicas / Universidade de Lisboa

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