Variações em Si

 

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Κρανιου Τοπος

Chegados a uma espécie de variante, três cruzes na Golgotha. A do meio, presume-se a Redenção. O mais, assim à beira do martírio, lampejo das coisas sagradas e profanas, as escadas que se galgam para a grande interrogação e os caminhos, todos os caminhos, que vão dar a Roma. Podem (e devem) as coisas mudar sempre, pois a roda da História não para e a dialética, mesmo que os néscios, e tardos de coração, a recusem, se dispõe das nossas horas. O GPS anuncia as saídas da próxima rotunda. Nesta dúvida, tal como fizera Lucas, escolhe-se a que leva à libertação. E quem tem sede, sigamos juntos. As epístolas  continuam…

Localizarmo-nos

Há dias, uma amiga dizia que a localização, sendo estática, pode ter interpretação dinâmica. Efetivamente, ao longo do tempo, assiste-se à deriva da localização de Cabo Verde. Sentimo-lo aquando do Tratado de Tordesilhas, puxando o arquipélago para o Atlântico Médio. Sentimo-lo também, aquando os colonizadores quiserem que fosse uma região mais adjacente a Portugal, por isso um pouco mais ao Norte. Sentimo-lo ainda, aquando da “africanização” dos espíritos, de o aproximar à Guiné-Bissau. Não terá sido inocente a interpretação de “aproximação/afastamento” geográfico do continente africano, ora por ditame da soberania, ora por interesse geoestratégico. O condicionamento das fronteira é antes de mais uma opção interpretativa, com alguma intencionalidade e subjetividade. Pessoalmente, há que buscar a objetividade, saindo do registo de Mais África/Menos África, dilema esquizofrénico das nossas elites, e geolocalizar o país, em abono da sua geomorfologia, climatologia e dinâmicas hidrológicas, da sua dinâmica ecológica da paisagem, dos seus riscos naturais e dos seus suportes físicos do ordenamento do território.

Vamos à Regionalização 

Vendo para a macrocefalia, perturbadora da satisfação geral, e do centralismo, indutora da frustração das populações, as soluções para a nossa realidade insular não parecem apontar para uma segunda macrocefalia e um outro centralismo. Será que uma eventual autonomia administrativa da ilha de São Vicente pode e deve ser escrutinada fora da ampla e genérica reforma administrativa do Estado? Será que tal pode e deve ser tratada apenas como assunto de campanha eleitoral e à margem de um modelo adotado para a Regionalização do País? Já agora, utilizando o mesmo registo, porque não a autonomia administrativa de Santiago Norte, de Santo Antão, do Fogo, da Brava e das demais regiões do Arquipélago? E o que terá a ver a Constituição Nacional com isso? E a vontade da maioria dos cabo-verdianos, a propósito? Sem que me repugne a Regionalização (venha daí um modelo coerente), tenho alguma reserva sobre soluções avulsas e soluções contrárias ao objeto da unidade nacional e da coesão territorial. O resto pode. E deve…

Cidadania 

Acredito que todo o cidadão seja (sem inferência subjetiva) político, não necessariamente partidário. Não sendo neutro, isento e/ou alheio às coisas da Polis, defende-se a necessidade da lucidez e da soberania do pensamento. Gosto da postura do Frei Betto: ING (Indivíduo Não-Governamental).

 

 

 

 

 

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O Sopro de Pak Tai: Poliglota e filólogo

Foto PAK TAI

Desde o início das viagens transoceânicas, e pelo menos até ao século XVIII, o português foi a língua franca entre os europeus e os povos das regiões costeiras da Ásia. Esse facto, contudo, não significa que os nossos avoengos tenham desdenhado a aprendizagem dos idiomas locais. Antes pelo contrário. Aplicavam-se nesse capítulo os religiosos – nacionais ou estrangeiros – das diferentes ordens patrocinadas pelo Padroado Português do Oriente, assumindo particular destaque os jesuítas, cuja estratégia missionária passava pela adaptação às diferentes culturas contactadas. Ora, como se sabe, era em Macau que esses homens se preparavam para tão árduas tarefas, embora muitas das vezes, nas inúmeras investigações históricas produzidas, se sonegue tão relevante informação.

Na Cochinchina, região que corresponde ao sul e à parte central do Vietname actual, os missionários não só foram pioneiros na aprendizagem da “fala do reino” como na alteração da sua morfologia, tornando-a de mais fácil aprendizagem. Merece nessa matéria especial menção o nome de Francisco de Pina, a quem se deve a introdução do alfabeto latino na língua local, que até então recorria aos caracteres chineses, embora no decurso de todo o período colonial francês se tenha consolidado a errônea ideia de que essa inovação se devera ao missionário francês Alexandre de Rhodes. Acontece que Pina era um nome praticamente desconhecido, enquanto Rhodes foi (e continua a ser) uma das figuras mais propaladas das missões no Oriente.

O equívoco prevaleceu durante décadas, e só as recentes investigações do filólogo francês Jacques Roland vieram repor a verdade. Após vários anos de pesquisa na biblioteca do Palácio da Ajuda, em Lisboa, em particular na colecção «Jesuítas na Ásia», Roland descobriu dois manuscritos importantes. Um deles, uma carta de sete páginas da autoria de Francisco de Pina e dirigida a Jerónimo Rodrigues, residente em Macau e Visitador das Missões do Japão e China. Datada de 1623, a referida missiva diz: «Estou ocupado a redigir um pequeno livro sobre o vocabulário e os acentos da língua vietnamita, e até comecei a escrever uma obra sobre a gramática. Pesquiso ainda sobre as histórias e os contos populares, e já encontrei alguém que me pode ajudar a transcrevê-los para português».

O outro documento é uma espécie de manual de aprendizagem de línguas intitulado «Manuductio ad linguam Tunckinensem».

Ambas essas obras, redigidas in loco pelo português, em 1632, ou seja, um ano antes da chegada de Alexandre de Rhodes à Cochinchina, provam que Pina foi o primeiro promotor da romanização da língua vietnamita.

Macau, uma vez mais, serviu de antecâmara preparatória, pois foi no território que Francisco de Pina deu continuidade aos estudos, iniciados em Goa. Mas não por muito tempo. Em 1614, ocorre a expulsão repentina e violenta dos missionários do Japão, impossibilitando assim o jesuíta de rumar a esse destino habitual. Como opção surge a Cochinchina, onde Pina chega no início de 1617, estabelecendo residência em Faifo (hoje Hoi An) – naquela época a cidade mais cosmopolita do reino – e em Cacham (hoje, Phuoc Kieu), uma aldeia nas proximidades, onde viria a desenvolver a maior parte de seu trabalho linguístico.

Faifo era um porto há muito frequentado pelos mercadores portugueses, e antes deles, pelos chineses e japoneses, como o comprovam as influências na arquitectura local.

Recordo-me bem das palavras do senhor Le Cheoung, proprietário de uma das muitas casas-museu locais, quando visitei essa cidade: «Toda a estrutura da casa mostra claramente a influência japonesa e chinesa, especialmente as vigas que se sobrepõem e suportam o telhado, um método de construção tipicamente japonês». Logo depois, chamando a atenção para a madeira do balcão que dava para o pátio, acrescentou: «As folhas de videira e cachos de uvas são elementos de importações europeias, muito provavelmente de origem portuguesa».

Terá sido numa casa similar que Francisco de Pina se empenhou na exigente e dificílima tarefa de simplificar uma língua que falava fluentemente e pela qual se apaixonara, devido aos contactos estreitos que sempre mantivera com a população local.

A sua morte ocorreu a 15 de Dezembro de 1625, ao largo da costa de Faifo. Pina estava a bordo de um barco que fora receber encomendas vindas de Macau, e que naufragou no decorrer de uma inesperada tempestade. Ironicamente, não muito longe dali, no delta do rio Mekong, por volta de 1560, naufragara também uma outra figura da nossa História, essa bem mais conhecida.

Pese o infortúnio de ambos, pode-se dizer que Camões acabou por ter bastante mais sorte do que Francisco de Pina. Não só salvou a vida, como também a obra que o tornaria imortal.

 

Joaquim Magalhães de Castro, Escritor e Investigador da Expansão Portuguesa

 

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O Sopro de Pak Tai: O Souza de Mombaça

 

1.Joaquim Magalhães de Castro

Consta que foram os membros de uma obscura seita árabe, especializada no comércio de especiarias, ouro e marfim, profundos conhecedores do Oriente, pois na Índia compravam panos e na Pérsia e na China – nessa antiga e cosmopolita Cantão – porcelanas, quem primeiro assentou arraiais na ilha de Mombaça, no já distante século X. O manuscrito que comprova o facto terá caído em poder dos portugueses que sobre essa cidade acometeram, em 1505, desforrando-se assim da hostil recepção do sultão local à fragilizada armada de Vasco da Gama que rumava a Índia e ali aportara sete anos antes, esfumando-se assim (pelos menos no espírito dos lusitanos) as loas tecidas pelo berbere Ibn Battuta, incansável andarilho que em 1331 pernoitara em Mombaça uma única vez e dela só tinha palavras generosas para repartir, destacando nos seus apontamentos de viagem a «honestidade, religiosidade e acolhimento» dos seus habitantes.

Devido à sua posição geográfica, exposta aos errantes ventos do Índico, quase obrigatório porto de abrigo e de comércio, Mombaça foi-se impregnando de um Oriente cuja intensidade ainda hoje se sente no constante odor a caril e a incenso e no caótico cenário magistralmente rematado pelos riquexós motorizados que driblam a turba de diferentes castas e crenças que vive, convive ou sobrevive nessa península outrora ínsula.

A impressão que sente o forasteiro ao chegar a Mombaça é a de que África ficou lá para trás, como se estivesse no limiar de um certo promontório asiático, não rumo a um continente mas face a um mar oceano, posto avançado onde se mesclam diversas etnias disseminadas entre uma população maioritariamente negra de onde se destacam os ocasionais massais, altos e esquálidos, de sandália e cajado, que vemos nas ruas e jardins, algo deslocados da paisagem e que nos lembram que estamos mesmo no Quénia. Não obstante, o grosso dos negócios está nas mãos dos árabes e dos guzarates, sem esquecer a gente com ascendência portuguesa como são exemplo Martin Fernandes e Joseph Souza, com quem estabeleci amizade, quase por acaso, pois para mim não passavam de simples quenianos a quem fora pedir uma informação. «Fernandes e Souza, ao seu dispor!», exclamou teatralmente um deles, frisando os respectivos apelidos antes mesmo de se inteirar das minhas origens. Poderia simplesmente ter dito que se chamavam Martin e Joseph, mas não: fez questão de soletrar o Fernandes e o Sousa, com perceptível orgulho, como quem exibia os galões cosidos na manga do uniforme. É claro que logo me convidou a sentar à mesa com eles e mandou vir mais uma Tusker bem gelada, até porque o sol abrasador convidava a uma trégua na longa caminhada dessa tarde.

O Fernandes, sorriso cativo, mais falador, apontou de imediato em direcção ao imponente fortaleza que se estava à nossa frente, o Forte de Jesus, dizendo: «Foi construído pelos portugueses!».

Pelos vistos, insatisfeitos com as represálias de Francisco de Almeida, os homens de Seiscentos voltariam a atacar a cidade, e com particular violência em 1528, sob o comando de Nuno da Cunha, que ordenou o arrasamento de todo aquele belo património observado e elogiado, ainda no século XV, por Pêro da Covilhã, antes de ter partido rumo às terras de Prestes João e por lá ter ficado. A tomada daquele entreposto suaíli, que na prática transformou o sultão local em súbdito da coroa de Portugal, foi das tarefas mais esforçadas da gesta a Oriente. E o Forte de Jesus de Mombaça constitui hoje a sua marca mais visível. O Forte de Jesus, e os amigos Fernandes e Souza, já agora. Este último, pacato mas bom observador, olho rasgado a denunciar uma ancestralidade mar do Sul da China, manteve-se calado durante grande parte da conversa, sorvendo goles da sua Tusker, e só depois de me ter ouvido e se ter inteirado acerca daquilo que me movia, revelou a sua história. Era neto de «um Souza de Hong Kong» que, no dealbar do século XX, partira num vapor inglês rumo à costa Oriental de África em busca de perspectivas de negócio. Sabia que sim, que a família Souza viera de uma terra chamado Macau, pois disso lhe falara a avô, africana de origem, mas nada mais poderia acrescentar a respeito do seu antepassado que se finara novo e sem concretizar o seu sonho. No entanto, Souza e o seu colega Fernandes nutriam – nem eles próprios sabiam bem porquê – forte afinidade com gente com quem partilhava laços genéticos e – porque não – culturais. E por isso se dispuseram a oferecer todo o apoio que necessitasse durante a minha estada. Ambos insistiam para que não esquecesse de visitar as ilhas de Lamu, a norte de Melinde, «um verdadeiro paraíso». Assegurava Souza, agora bem mais conversador, que se lá fosse «dificilmente terá vontade de partir». E eu bem sabia que ele tinha razão.

 

Joaquim Magalhães de Castro, Escritor e Investigador da Expansão Portuguesa

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A angústia da nossa existência

 

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Aproxima-se a ‘Semana Santa’.

Tempo em que se celebra o mistério mais profundo da fé cristã : A Morte e a Ressurreição de Jesus Cristo para Salvação da Humanidade e da Criação. Aí, no Cristo nú, crucificado e morto e, aparentemente, vencido pelo Mal revela-se a fragilidade extrema do homem. No Senhor ressuscitado, cheio de Vida, está, ao contrário,  afirmação categórica de que as cadeias da Dor e da Angústia, da Morte e do Mal foram despedaçadas e destruídas. O ser humano, homem ou mulher, decaídos, outrora, pela entrada do Mal e do pecado no Mundo, conquistam, em Jesus Cristo ressuscitado, a capacidade, mais uma vez, de ‘ser como Deus´. Eles que foram criados ‘ à imagem e semelhança de Deus.’

Lê-se na narrativa da Paixão do Senhor : «Cheio de angústia, Jesus pôs-se a orar mais instantemente e o suor tornou-se-lhe como grossas gotas de sangue, que caíam na terra.»

A Angústia faz parte da vida, embora poucos, com verdade, o admitam. É uma realidade que pertence à essência do ser humano. Toca o mais fundo do seu ser e do seu existir. Ela apresenta-se como a expressão vivíssima, cheia de sofrimento e dor, das nossas  necessidades intrínsecas   de Verdade (ser apreciado), de Amor (ser amado) e de Vida (estar seguro), quando não correspondidas.

Sem ela, por mais inacreditável que pareça, não crescemos. Experimentá-la é um convite à Liberdade. Desapega-nos de inúmeras prisões que nos tornam dependentes dos acontecimentos do passado. Destrói máscaras, figurinos e cenários com que a sociedade hodierna nos procura, primeiramente, enredar. Depois, subtilmente, deseja dominar e controlar. E, finalmente, escravizar.

Perante o futuro, ao desmascará-los e ao torná-los mais conscientes na nossa vida, a Angústia faz desmoronar, implacavelmente,  as nossas torres, os nossos baluartes e os nossos castelos, invadidos de medos, ansiedades pavorosas e fantasmas aterradores.

Surpreendentemente, através dela, podemos ir ainda mais longe.  Compreendemos também que a Angústia é ‘a porta’ e ‘o caminho’ estreitos de que, tempos a tempos, Jesus fala  como via necessária para a experiência de Deus. Dá acesso ao santuário íntimo do nosso ser, onde o humano e o divino se encontram. Aí mesmo,  ela nos chama, com veemência, a ir ao encontro de Jesus, o Homem-Deus e Ele, como frescura de manhã calma, nos fará despontar para horizontes novos no insondável Amor da Trindade Santíssima que tem a Sua morada na intimidade do nosso ser.  Alguém sintetizava este ‘Caminho Interior’ dizendo : ‘é como passar do fogo da Angústia ao fogo do Amor Divino.’

Entremos no coração do Senhor através da porta do nosso próprio. Fiel ao homem, Jesus Cristo, nos últimos momentos da Sua vida, desce aos recantos mais penosos da alma humana. Esmagado pela Angústia, sente «uma tristeza de morte» e entra em agonia.

Descobrimos que nessa Angústia Existêncial se manifestam três realidades intimamente relacionadas entre si que ajudam a sua compreensão. Primeira: Cristo é desprezado,  humilhado e morto na cruz como um malfeitor. Ele, o Filho de Deus. Deste modo, experimenta, no seu próprio corpo, a dor que todo ser humano experimenta quando aquela necessidade de ser apreciado, reconhecido e confirmado no seu valor e bondade é espezinhada:« Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem», dizia o Senhor, quando faziam troça d’Ele. É A Angústia da Verdade, do Valor, da Apreciação.

Segunda: Todo o homem ou mulher deseja ardentemente ser amado. Se tal não acontece, a rejeição provoca uma pena profundíssima, a Angústia do Amor. Jesus encarna essa experiênia chamando pelo « Pai» e clamando em voz alta: «Meu Deus, Meu Deus, porque me abandonaste?» O ódio à Sua pessoa era aterrador.

Terceira: Jesus vai oferecer «com grande clamor e lágrimas, orações e súplicas aquele que o podia salvar da morte». Como todo o ser humano sente o pavor de morrer. O popularmente chamado ‘instinto de sobrevivência’ lança-o na Angústia da Vida.

Cristo vai, porém, mais longe ainda. Revela a raiz da Angústia Existêncial na sua tríplice constituição de Verdade, Amor e Vida. Ele, ao experimentar no seu corpo as consequências do pecado, pretende destruir o Mal, livrando, assim, o homem das garras do seu poder. Ele entra na Angústia do Amor Divino que é a aspiração dolorosa ao Amor de Deus, quando se experimenta em nós a fraqueza, a imperfeição e o pecado. «Tenho sede», diz Jesus. Sede do Amor de Deus.

A profundidade  angustiante desta experiência de Jesus Cristo,  que brota do Amor, é confirmada pelas «grossas gotas de sangue, que caíam na terra», que são levadas às últimas consequências na morte bárbara na Cruz.

Perante o sucedido, qual ‘o caminho’que nos conduz, em Cristo, à solução? Consciente e compreendendo bem o Seu estado, Jesus dirige, primeiramente, a Sua oração a Deus Pai a quem pede auxílio e conforto.Depois, recebe a consolação de um anjo e dos seus amigos íntimos. Finalmente, Ele deseja a presença do pequeno grupo de companheiros ou conhecidos como os apóstolos no horto ou as mulheres junto à Cruz.

Reparemos que, na experiência da Angústia, Jesus orienta-se, em primeiro lugar, para Deus. Depois,ao amigo íntimo. Só, por fim, vai buscar o pequeno grupo ou a comunidade. Com muitíssima frequência fazemos exactamente o oposto. Vamos desabafar ao grupo de amigos e conhecidos. Em seguida, entramos em intimidades com amigos próximos. E tão frequentemente, vamos a Deus só ao fim.

Não! Primeiro Deus… e só Ele.Então, saborearemos o Amor.

 

 

 

Luís Sequeira, Jesuíta. Antigo superior da Companhia de Jesus em Macau.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Dançando o baile do medo

 

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Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno,
De nós, de vós: e de tudo.
Estou com medo da honra.

Assim nos criam burgueses,
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?

(Carlos Drummond de Andrade)

 

A crise político-social provocada pela operação Lava Jato, que pretende limpar, alegadamente, não só as mãos, mas a encorpada corrupção do cotidiano político do Brasil, tem levado muita gente a manifestar-se, revelando não apenas a compreensível e admirável revolta contra as práticas corruptas na política, como também aquela intoleranciazinha reprimida contra a inegável ascensão social de parte da sociedade brasileira, nem tão branca, nem tão fina, nem tão bem-educada… além da tentação antidemocrática.

A detenção do ex-presidente Lula da Silva, no passado dia 4 de março, a fim de que coercitivamente prestasse depoimento sobre as acusações de corrupção e lavagem de dinheiro e a descabida e ridícula possibilidade aventada pelo Governo  de nomear Lula para ministro da Casa Civil foram o estopim para reavivarem os protestos contrários à Presidência de Dilma Rousseff.

Surrealistas manifestações (convocadas, mobilizadas  e patrocinadas por quem?) marcaram o dia 13 de março. Além de alegres e bem-alimentados combatentes contra o Governo, “gente fina, elegante e sincera”,  era possível se notar, nas principais cidades capitais do Brasil, cães de companhia, pets fofos e vestidinhos, até maquilhados. Notável também que, talvez por ser domingo, era comum ver famílias unidas marchando atrás do trio elétrico: pai, mãe, filhos e a empregada (fardada, é claro! Deus os livre de uma baby sitter que não use o imaculado branco!).

Era também notável o preconceito de certos dizeres discriminatórios, prontamente postos em ressonância por certa mídia, resquícios do anticomunismo primário, do machismo, do racismo e do fascismo, atributo do tempo da história não muito longínqua do Brasil, iniciado com o Golpe de 64, em que o ex-presidente Lula da Silva e a atual presidenta Dilma Rousseff foram perseguidos.

Os monocromáticos dois milhões de pessoas de verde-amarelo-azul-e-branco exibiam pálidas ideologias, transmitidas em cartazes que clamavam “enDireita Brasil”,  “intervenção militar constitucional já” ou “imposto é roubo”. A não esquecer a Musa do Impeachment, em trajes, digamos, muito sumários.  É de chorar…

Envergonhada com tudo isso, um bocadinho assustada também, temo que a crise ideológica por que passa meu país resvale nalgum autoritarismo ou num certo trumpnismo, que parece estar em voga (haja vista a “Alternativa” que cresce na Alemanha).  É claro que deve ser louvável o fato de haver uma classe média genuinamente (será?) indignada com o estado de expropriação dos recursos do Brasil. A mesma classe média, por sinal, não tão indignada assim de o país constar entre os mais desiguais do planeta, estando ainda socialmente disfuncional e com  o grosso da renda concentrado nos mais ricos. É claro que todos (todos, mesmo!) os culpados devem ser julgados e condenados. É claro e legítimo querer viver num país que se orgulhe dos serviços da classe política. Mas o perigo está no obscurantismo que subjaz às manifestações. Temerário é o apelo autoritário ao comando, a tentação do pensamento único ou a condenações em praças públicas.

Sabendo todos ser estruturalmente corrupta a prática política brasileira, a pergunta que não vi ser respondida nos festejos carnavalescos foi a seguinte: a quem interessa uma investigação voltada apenas para os partidos da base do Governo, quando em tal julgamento certos acusadores não serão inocentes?

“Dançando o baile do medo”, não digo mais nada, só olho…

Márcia Souto

 

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O sonho de Chico Rei

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Ao visitar o Estado de Minas Gerais há quem encontre nas serras do Curral, da Moeda, da Casa Branca e dos Macacos refúgios ideais para a prática de todo o tipo de desportos radicais – canoagem, rapel, bicicleta de montanha, escalada. Todavia, essa região brasileira além Mata Atlântica é reputada sobretudo pelo encanto das suas cidades históricas.

Ao rumar a Ouro Preto, a mais famosa de todas elas, confrontamo-nos inevitavelmente com a actividade mineira, o motor económico. Como escrevia Drummond de Andrade, no poema Confidência do Itabirano, esta terra é caracterizada «por noventa por cento de ferro nas calçadas e oitenta por cento de ferro nas almas». Os versos de Andrade brotaram do chão duro das jazidas desse metal. Itabira, a cidade onde nasceu, é hoje sede da Companhia Vale do Rio Doce, líder mundial da mineração e, também, responsável por uma série de desastres ambientais. Outro ilustre mineiro – o novelista Guimarães Rosa – costumava dizer que «Minas são várias», para melhor definir um Estado que devido à sua dimensão e variedade paisagística e sociocultural pode ser considerado um verdadeiro país. Comentava o escritor que «Minas principia de dentro para fora e do céu para o chão…». Na cidade onde nasceu, Cordisburgo, tudo está associado ao seu nome, sendo de realçar as jornadas eco literárias que combinam a sua obra – relembrada pelos contadores de histórias – com o meio ambiente. «O sertão está dentro da gente e em toda a parte», dizia Rosa.

Com o seu casario, as suas igrejas, ruas e becos, Ouro Preto apresenta-se como um decalque de uma vila portuguesa redesenhada no arvoredo subtropical do interior brasileiro. Fundada em 24 de Junho de 1698 por bandeirantes paulistas, foi a segunda capital de Minas Gerais, logo após Mariana, sua vizinha.

A cidade de Ouro Preto é, toda ela, uma obra de arte a céu aberto; uma amostra do barroco em todo o seu esplendor, de onde se destacam igrejas como a São Francisco de Assis da Penitência, no Largo de Coimbra, obra-prima do escultor António Francisco Lisboa, mais conhecido como «o Aleijadinho», ou a da Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no Largo do Rosário, a única onde os negros eram autorizados a entrar. E ao falarmos de negros falamos necessariamente de escravatura, o que nos leva ao sítio histórico que nos traz aqui: a Igreja de Santa Efigênia, ou Igreja de Santa Efigênia dos Pretos, ou ainda de Igreja de Nossa Senhora do Rosário do Alto da Cruz.

Magistralmente situada, no alto de um morro, no bairro do Padre Faria, com excelente vista para a cidade, a Igreja de Santa Efigênia, construída entre 1733 a 1785, consta que é fruto da iniciativa de um tal Chico Rei, escravo originário do Congo, que lhe deu corpo – demonstrando assim a sua devoção à santa – graças aos dividendos obtidos pela extração do ouro de uma mina arrendada por ele – a Mina da Encardideira – onde previamente obtivera os proventos necessários à obtenção da carta de alforria.

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No interior do templo, além dos habituais elementos barrocos que caracterizam os monumentos da região – talha dourada, pinturas (representados quatro doutores da Igreja, sendo um deles um Papa negro) e estatuária vária, alguma dela em pedra sabão, destacam-se, numa parede, dois curiosos painéis que os guias turísticos locais asseguram ter origem asiática. Um deles representa, aparentemente, cenas urbanas da cidade de Macau, e o outro, algumas pessoas inseridas numa paisagem chinesa. Na verdade, após uma observação mais cuidada nada de muito óbvio, no cerne da pintura, nos remete para Macau: tão-só se revelam, num e noutro caso, figuras humanas, homens e mulheres, portadoras de sombrinhas, esse sim um elemento oriental. Todavia, o tipo de traço e, acima de tudo, os elementos decorativos laterais de um vermelho muito vivo e em forma de dragão não deixam quaisquer dúvidas quanto à sua origem. É bem possível terem sido executadas por alguém de Macau ou das províncias vizinhas.

Apesar de ser matéria pouco estudada, o facto é que a influência chinesa no Brasil foi, desde o século XVI ao século XIX, uma constante. Não esqueçamos que o Brasil era ponto de passagem das armadas que iam e vinham da Índia, e, por extensão, e a partir da segunda metade do século XVI, de Macau. Nesse navios viajavam residentes dessa cidade que foram ficando no novo continente, e que a partir das urbes costeiras em expansão se foram embrenhando por um interior ainda por desbravar. Minas Gerais, com os seus recursos auríferos, foi com certeza destino bastante apetecível.

O legado chinês está aí (e em muitos outros pontos do país) patente em numerosos usos e costumes, em certos detalhes arquitectónicos e artísticos, em modos de «pensar, viver, agir e sentir», e «em certos requintes da civilização material», na expressão do investigador José Roberto Teixeira Leite, para quem a influência chinesa no Brasil assumiu «formas específicas e conotações inconfundíveis, que se traduziriam no devido tempo em hábitos, modos de viver e fazer que mesmo hoje longe estão de se terem esgotado, fundamente arraigados como se acham na alma nacional».

Joaquim Magalhães de Castro. Escritor e Investigador da Expansão Portuguesa

 

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Quando o espiritual é uma máscara

 

Prostitutes from mainland China wait for customers inside the shopping mall of a hotel in Macau

«Os escribas e os fariseus apresentaram a Jesus uma mulher surpreendida em adultério.» O episódio deste Domingo da Quaresma, o quinto, põe a nu e descreve, com maestria,  um esquema extremamente refinado de fuga à verdade e de cobertura da maldade que, mais do que aquilo que possamos imaginar,  se revela muito presente no nosso viver de cada dia.

Homem ou mulher são capazes de usar a falta, o moralmente errado e, portanto, aquilo que é merecedor de repreensão para encobrir motivações torpes. Com a capa de se preocupar pelo bem, esconde manhosamente no seu íntimo um “ninho de víboras”. Ousa apontar o dedo, humilhar publicamente e destruir sofregamente a reputação de uma outra pessoa. Ele, porém, não tem a coragem de olhar de frente para a sua própria malícia.

«Moisés, na Lei, mandou-nos apedrejar tais mulheres. Tu que dizes?» perguntaram os fariseus. É muito mais frequente do que se imagina a argumentação deste tipo. Quantos vão à experiência, à Palavra e à Lei de Deus para daí encontrarem razões para acusarem os outros, fazendo-se eles mesmos arautos da moralidade pública, da exemplaridade e da  perfeição !? «Sepulcros branqueados», dirá o Mestre em determinada altura.

Jesus Cristo não nega a gravidade do caso apresentado. Por isso diz, à despedida, «Vai e  não tornes a pecar.» Contudo, descobre falta de transparência nas atitudes daqueles que o interrogam. Detecta aquilo que eu, pessoalmente, chamo ‘máscara espiritual’. Pois, argumentando, muito devotamente, com a Sagrada Escritura, os homens, ditos, da Lei escondem-se sibilinamente por detrás da acusação à mulher acabrunhada pela sua queda degradante. É a máscara! Usam o espiritual para disfarçar motivos mais recônditos  que nada têm de espiritual. Antes pelo contrário, são bem pouco de Deus. Mas, ao Senhor ninguém engana. Ele penetra o mais profundo da inteligência humana. Conhece o santuário íntimo do coração. Não lhe escapam os planos do ser humano, homens ou mulheres.

De há muito que Cristo sabe que os judeus vivem roídos pela inveja. Desesperam raivosos contra Ele. Não têm paz. Não conseguem ver os ‘sinais’ da bondade encarnada de Deus. Consequentemente, as suas motivações estão longe de serem  puras. Assim, quando apresentam a pobre mulher, o evangelista São João afirma: «Falavam assim para Lhe armarem uma cilada e terem pretexto para O acusar.» Sabe-se igualmente que  «alguns deles queriam prendê-lo.» Mais. Perguntavam já em Jerusalém: «Não  é Este que procuram matar?»

Perante este quadro do ‘mundo interior’ dos seus interlocutores, Cristo deixa ‘as afeições desordenadas’ que os dominam seguirem o seu caminho. Elas são como areias movediças. São enganadoras. Confundem. Abrem-se aos  abismos cáusticos e angustiantes, onde falta a paz, a liberdade e o amor de Deus. Exclama apenas, dizendo: «Quem de entre vós estiver sem pecado atire a primeira pedra.» E permanece em silêncio. A consciência não se cala. Finalmente, «eles foram saindo um após outro, a começar pelos mais velhos».

O homem, a mulher da verdade perturba, desestabiliza, é incómodo como Jesus Cristo o foi. Tem olhar penetrante como o profeta. O seu coração permanece livre de atracções ilusórias. Dá-se sem esperar nada de volta. Só com Deus e n’Ele compreende  e ama tudo e todos.

Muitos, não todos, nos queixamos da degradação moral que avassala no território. Olhamos com algum sorriso ambíguo, ar de gozo, com desdém ou até desprezo as raparigas que servem em bares, clubes nocturnos, restaurantes chiques  e sofisticados, hotéis, casinos, saunas e massagens. São de Macau, vêm do Sul ou do Norte da China, da Tailândia, das Filipinas, do Vietname, até de Portugal, de França, de Inglaterra, do Canadá, dos Estados Unidos, da Austrália, da Rússia, do  Brasil, da Colômbia … Como é extensa a lista !

Primeiro pergunto a nós, comunidade cristã a viver em Macau, que fazemos? Admiráveis são aqueles que, persistentemente, ao longo de muitos anos e passo a passo, lutam  contra o tráfico e o comércio de jovens, sobretudo do sexo feminino. Também não podemos esquecer aqueles que, arduamente e sem grandes resultados,  fazem o seu máximo contra o flagelo da indústria da prostituição tão cheia de sangrentas e dolorosíssimas  feridas que, no mais profundo,  dilaceram  o coração e a alma de tantos  seres humanos,  seres criados ‘ à imagem e semelhança de Deus.’ E lembremos ainda aqueles que, sem serem  vistos ou reconhecidos, acompanham essas mulheres nos seus “vales de lágrimas” e nas suas terríveis ‘noites escuras’.

E os homens da Lei, da defesa dos interesses morais e sociais  que mais parecem não ter voz, afogados que estão nas suas artimanhas jurídicas e palavras falaciosas? As mulheres e os homens em autoridade que fazem ? E a polícia, em que  se conhecem ou se descobrem, de tempos a tempos, a existência de casos de conivência com redes de prostituição?

E os homens e mulheres de negócios, principalmente  os donos e gerentes de locais onde a mulher é explorada, drogada, violentada e violada?

É esta a Cidade do Nome de Deus?

Luís Sequeira

Jesuíta. Antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau.

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