Céu Azul de Veneza

Márcia Souto

Cena 1 – O céu de Veneza

Surpreende-me o céu de Macau, branco, baço, redondo céu de ilha, tão oposto ao azul-eterno-dia do Venetian Hotel.

Entro neste pedaço do mundo via Fórum Macau, pelas portas e céu da Itália. Estranho. Realmente estranho, ou melhor, inegável perfeição artificial. Se bonito ainda não sei…

Atravesso a ponte e Macau se descortina entre néons que cegam e desconcertam. Mesas e mais mesas de jogo dinamizam a economia local. Roletas, fichas, cartas de baralhos e o frio condicionado a soprar os ouvidos e a ressecar minhas retinas tão fatigadas.

O Pato Cantonês não era para meu bico. Salvo alguns peixes e mariscos que não entram no meu inconfesso conceito de reino animal, não me alimento de carnes. Meus amigos, que desconfio onívoros, estavam ávidos pela iguaria. Escolhemos um bonito e rubro restaurante que exibia um dragão fulgurante em pedras preciosas na parede central.  Gulosos, o p(r)ato da mesa contígua abriu-lhes ainda mais o apetite. A comunicação, que mais tarde se descobrirá falha, fez-se em língua inglesa, portuguesa, mandarim e gestual: e se pede o tal pato, que acabou por não ser nem metade do que se desejava. Ainda assim valeu a noite, não sendo nós da geração dos jovens casais que, nas mesas ao lado, não trocavam palavras tão ocupados que estavam com os telemóveis e suas inacreditáveis funções. Conversamos e rimos muito. Pagamos o pato.

 

 

Cena 2 – Águas que dançam

 

Crianças, jovens e velhos se hipnotizam pelo balé das águas que, a cada 30 minutos, brindam os visitantes de um grande hotel de Macau. Aquela liquidez tão plástica quanto mágica me fez sentir de novo no útero, em memória freudiana tal como em Paris, ou melhor, em Versailles.

A pressa em atravessar a rua e os círculos insistentemente mutantes da fachada do Casino Lisboa me fizeram perder o lenço azul que trazia ao pescoço, acessório indispensável a uma filha obediente como eu, mesmo anos depois da constante recomendação: “Pode ser que esfrie, proteja a garganta!” Mas deve ser o destino daquele lenço made in China comprado em Lisboa ser sepultado em solo macaense.

E por falar em pressa, lembrei-me que o autódromo já estava quase totalmente pronto para a corrida do 60º Grande Prémio, embora, ainda lânguida pelas águas bailarinas, eu não tenha conseguido absorver o metal protetor que ladeava as ruas do centro da cidade.

 

 

Cena 3 – O autocarro

 

O autocarro de Macau me pareceu bom, ágil e com preço justo. Recheado de pessoas reais a pensarem na vida e no tanto a fazer, tive a alegria de compartilhar uns minutos ali dentro de um ônibus linha 32. A minha amiga, a vovó mais bonita da região, explicou-me direitinho a ética e a estética do autocarro macaense, assim como os gestos adequados que eu deveria fazer ao motorista (e também cobrador), indicando a quantidade de patacas que eu depositava no cofre junto à porta de entrada. Como não havia forma de dar troco, aprendi que, se eu não tivesse o valor exato, deveria pagar ora um bocadinho a mais ora um bocadinho a menos, num equilibrado ajustes de contas.

 

No capítulo transporte público, já é famosa a angústia linguística que assola os incautos viajantes que se aventuram na odisseia de voltar para casa de táxi. Comigo não foi diferente: ou é meu rosto ocidentalizado ou algum trejeito revelador da minha ignorância em língua cantonesa que afastava de mim qualquer possibilidade de conseguir um táxi. O certo é que após longos 50 minutos em pé quase a desacreditar que algum taxista pararia para mim, leria meu bilhete com a indicação do endereço e me aceitasse levar a casa, um deus sensível aos meus pés em bolhas fez surgir um taxista paciente, que sorriu e me permitiu entrar em seu táxi. Era um senhor alto, de óculos com grossos aros e de muito fino trato. Vai aqui meu xìe xìe, que certamente não foi compreendido ao final da corrida, sendo eu marinheira de primeira viagem.

No dia seguinte, sendo muitos os taxistas e nenhum com ares de salvador, de saltos mais baixos e saco às costas, aderi ao autocarro. Não vou abusar da sorte.

 

Cena 4 – Lusofonia

 

Babélica, a cidade encanta e atordoa. Perdidos na esquina da rua Luís Gonzaga Gomes com a alameda Dr. Carlos d´Assumpção, procurávamos, esperançosos, um rosto português para nos indicar a direção da Pastelaria Caravela. Não demorou muito e, como sentira Camões – como é bom ver gente amiga em terra estranha – uma cadência lusíada revelou um informante perfeito. E assim chegamos ao café português em que, a radicalizar o dito camoniano, ouço um agradável sotaque brasileiro: era a Alice, uma mineira trigueira e alegre que atendia aos pedidos dos clientes. Tamanha coincidência quase me fez pedir uma porção de pão-de-queijo. Já dizia o Filinto: mineira é fogo!

E Macau se fez minha casa. Da Caravela à Rádio Macau, dali até a sede deste jornal foi um pulo. A nossa língua, tanto sua quanto minha, abriu-me as portas deste país. E o céu, neste sétimo dia, fez-se menos baço e um azul discreto e cativante surgiu.

A hora do passeio à Macau de arquitetura portuguesa ladeada de telhados orientais me encantou. E o dia terminou no restaurante Petisqueira, com os amigos cabo-verdianos a esbanjarem simpatia crioula, entre picardias, bacalhaus, gargalhadas e brindes. Não me vou esquecer do simpático João Chaves que, em sábio multiculturalismo, transformou-se em John Keys.

Despedi-me de Macau com desejo de regressar.

 

 

Cena 5 – O lenço azul

 

No barco, já a avistar Hong Kong, acena-me ao longe um tecido azul e não consigo evitar os versos de Drummond: “as coisas findas muito mais que lindas, essas ficarão.”

 

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Novos atores e novas estratégias

Paulo Rego

Há dois novos atores na geoestratégia global para os quais vale a pena olhar com interesse renovado: o Papa Francisco e o novo presidente iraniano, Hassan Rohani. Sou insuspeito de ser fã do Vaticano ou de defender qualquer poder assente na religião. Tenho todo o respeito pela fé das pessoas e pelo seu direito individual de se deixarem embalar pelo dogma; mas olho com frieza e cultura de exigência para as fundações do poder cristão, seja ele católico ou protestante, cuja cauda histórica – talvez mais num caso do que no outro – é de bradar aos céus.

Francisco tem um discurso claro e uma postura discreta. É difícil imaginar que, com ele no poder, o Banco do Vaticano ande a traficar armas ou a lavar dinheiro. Bem… Se tudo continuar na mesma; se tudo não passar de uma encenação, então é ainda mais urgente pôr os olhos no homem, cortando-lhe o espaço para crescer. Mas é preciso ser rebuscado e os sinais mais fortes são os de que há alguma consistência formal e teórica na mudança de atitude. O problema deste Papa poderá ser o de defender o espaço que lhe quiserem cortar nos próprios corredores do Vaticano.

Francisco pode vir a ter uma importância ainda maior porque do lado do radicalismo islâmico nasce outra nova estrela disposta aos consensos e à negociação global, abrindo as portas do Irão ao diálogo com o resto do mundo. O recente acordo para o desenvolvimento do programa nuclear iraniano vale muito mais do ponto de vista politico do propriamente medido em unidades de energia, embora haja aparentemente também um consenso em torno da tese de que as energias alternativas jamais serão capazes de resolver a migração para a economia sustentável. Mas essa é outra questão.

A presença da China em qualquer negociação relevante é hoje em dia incontornável e uma prova de afirmação de Pequim em praticamente todos os palcos estratégicos da nova ordem mundial. Já a reação de Banjamim Netanyahu, essa, afasta os conservadores israelitas do círculo dos cavaleiros do diálogo; para além do tiro no pé das declarações inenarráveis sobre a invasão que vem de África ou a ameaça emigrante ao espírito judaico. Não sendo Barack Obama propriamente um rapaz louro e judeu, a estratégia de Telavive cheira a isolacionismo. Veja-se, por exemplo, a atitude radicalmente diferente que teve Rabat: os jornais sauditas criticaram o acordo, dando eco do espírito da nação, mas o discurso diplomático foi ponderado e construtivo, deixando a corte saudita a salvo de qualquer exclusão.

Estas movimentações são essenciais para se perceber o mundo na próxima década, mas servem também para vislumbrar a estratégia chinesa e, quiçá, as suas repercussões em Macau. Serão exageradamente conspirativas as teses sobre a influência política dos operadores de casino, quer nos Estados Unidos quer em Israel. Mas homens como Sheldon Adelson e Seteve Wynn, para citar dois nomes badalados em Macau, valem certamente alguma coisa, nomeadamente em Israel, onde têm acesso a círculos de decisão relevantes. Contudo, olhando para as última rodada da tabula global, ou muito me engano ou a lógica que estes operadores representam está a perder gás e relevância. Por mero vício de raciocínio, sem qualquer informação que o permita afirmar, diria que essa circunstância diminui também o papel que poderiam desempenhar como ponte da China para alguns dossiers internacionais. Nunca me passaria pela cabeça que Xi Jinping chamasse um operador de jogo para discutir uma decisão a esse nível, mas parece-me claro que Macau não é uma ponte só para a lusofonia…

A fragilização desse poder potencial por parte dos investidores norte-americanos resulta da ascensão de teses contrárias às suas, que necessariamente carregam consigo atores mundiais com perfil bem diferente. Será que as novas tendências serão lidas em Macau? Ou seja, irão os atuais atores readaptar a sua estratégia? Ou será que as novas estratégias implicarão a mudança de alguns atores?

Espaço viral

O nacionalismo e a xenofobia fervem no velho caldo da boçalidade, temperado com manias de sangue nobre e paranoias geográficas. O vírus comporta-se como o da gripe: está em constante mutação e resiste aos tempos intelectualmente manipulados, cuspindo discursos de sedução oportunista. As crises económicas e as lutas de poder nas superestruturas politicas são propícias à força da peste, que salta da Caixa de Pandora grunhindo direitos da identidade contra quem “abusa” do fato de sendo de fato gente, recusando ser filha de um deus menor.

Um turco moderno serve a um alemão tradicional porque dá o corpo ao trabalho e paga impostos; mas também é bode expiatório se é preciso expurgar as culpas da baixa produtividade ou da taxa de desemprego ariana. A doença é conhecida e a cura está identificada, mas muito boa gente prefere enganar a realidade com poções mágicas e genéricas em vez de um plano de vacinação racional.

O “nazismo” como outros radicalismos nas franjas mais tristes do islamismo ou do sionismo, são alvos incontornáveis da crítica que cumpre a missão de apontar o dedo ao Mefistófeles de sorriso amarelo. É mesmo assim; faz parte do jogo e não merece perdão. Mas o combate humanista feito em prol do bom senso também não pode ser cega nem surdo. Ou seja, importa perceber por que razão uma deputada de tão tenra idade, ainda por cima filha de imigrantes, dispara o fantasma dos não-residentes; como é também essencial desmontar os motivos que a levam a fazê-lo.
Chan Meng Kam concorda com ela, o que só por si já explica muita coisa. Mas há muito mais do que isso: como se o Universo me quisesse enviar um alerta, no preciso dia em que Song Pek Kei soltou a língua para um rol de asneiras, saía eu à noite de uma discoteca onde a nata da noite local bebe copos embevecida com pandas romenas e filipinas quando uma cena banal ganhou contornos de um choque de lucidez. Um grupo de jovens do Continente entrou no elevador num excesso de diversão proporcional aos copos a mais que traziam no bucho. Riam-se em mandarim, como se não houvesse amanhã. Duas jovens chinesas de Macau, com excesso de indignação, disparam em cantonense. “Estes turistas da ‘Mainland’ são mesmo estúpidos!”. Não, minhas lindas… Estão apenas bêbados. E, que eu saiba, o whisky é escocês; não é uma poção venal destilada pela dinastia Han, como facilmente de verifica quando um macaense bebe demais ou um português revira os olhos a cantar no meio da rua.

Minha cara Song Pek Kei: não são os não-residentes que fazem disparar o preço das rendas de casa; são os especuladores imobiliários com dinheiro de Xangai, Pequim e Fujian; é a lavagem de dinheiro onde não há bolsa de valores nem diversificação económica; é um Executivo paralisado, que não sabe – ou não quer saber – como proteger o cidadão comum da inflação desmesurada nem enfrenta a oligarquia local – da qual faz aliás parte o ícone político que a menina agora segue. Também ninguém vem tirar emprego a ninguém, porque como sabe – ou devia saber – não há desemprego em Macau mas sim uma constrangedora escassez de massa crítica; já para não falar de um mercado semi-escravo onde os não-residentes, submissos, ganham mal e porcamente com o pavor de que um dia o ´sponser´ acorde mal disposto e os recambie para uma miséria ainda maior. Por fim, pense duas vezes nesse espaço que pensa que é seu e que tanto a perturba ver ocupado por outros. Se antes dos seus pais terem cá chegado fosse essa a tese dominante a menina teria de viver Fujian – ou talvez nem tivesse nascido, porque no império do filho único as meninas ocupam o espaço do filho varão. De fato, o super povoamento na China é um problema e faz sentido promover o planeamento familiar, temperando a natalidade. Mas não com desrespeito pelos direitos humanos e pelas liberdades individuais. Os chineses do Continente que imigram para Macau procuram precisamente o nível de vida, o grau de liberdade e o multiculturalismo que não têm do lado de lá. Como os seus pais quiseram, tendo seno bem acolhidos. Como quiseram todos os seus conterrâneos, que já são tantos que já elegem três deputados. É claro que a imigração tem de ser controlada. Mas com bom senso e com humanidade – não nos termos que põe.
Concordo consigo quando enumera problemas sobre os quais temos de refletir, pressionando o Executivo na busca de soluções. Estarei ao seu lado, como grande parte da população, na luta por um mercado de arrendamento nos limites da decência, como aplaudo a denúncia de que modelo económico corporativo que esmaga a classe média. Também me incomoda o excesso de turistas – mas não os desconsidero – como discordo do excesso de não-residentes; porque se os queremos cá a trabalhar devíamos dar-lhes direitos de residência – como aliás tiveram os seus pais.

Apesar de tudo, agradeço que diga o que pensa, porque assim posso pensar no que diz, discordando em absoluto da forma como coloca a questão. Intuo também o faro político de uma jovem que diz o que muita gente quer nesta altura ouvir. E essa tese viral é a que mais me preocupa; porque sei que está a proliferar e conheço bem as suas consequências. Mas tenha cuidado: os termos que usa têm um rasto de má memória e são próprios de um conflito entre os povos que fere a identidade de Macau. Um residente, que é o que a menina pretende representar, tem outro respeito pelo acolhimento e pela interculturalidade. Pode hoje parecer que não, porque se sente pressionado pela queda do nível de vida e por um regime corporativista que não serve. Mas se tivermos o devido cuidado podemos tratar das dores de crescimento preservando uma das mais nobres mais-valias deste território, que é precisamente o de ter sido feita de muitas gentes e de muitas cores, muito antes da menina cá chegar. Caso contrário, se a sua tese vingar, amanhã alguém ainda se lembra de que nem menina nem Chan Meng Kam são propriamente daqui. Nessa altura, a linha que traça entre os não-residentes e os imigrantes pode ser ténue para salvar o espaço que hoje pensa que ocupa.

 

Carta à prima imigrante

Cara prima:

Escrevo para que reconsidere a intenção que me anunciou de vir para Macau. Tenho-lhe dito maravilhas cá do burgo, como sei que a minha influência, nomeadamente para arranjar emprego e residência, pesou na sua decisão. Tenho saudades suas e compreendo que queira vir para perto dos seus filhos – aproveito para lhe dizer que estão ambos de boa saúde. O pai bate-lhes e a madrasta nem lhes fala, mas não se preocupe. Se é isso que a move deixe os rapazes sofrerem mais um pouco para aprenderem a enfrentar situações difíceis. Aliás, já me pediram que verifique as suas intenções nessa matéria, porque essa ideia de vir de fora intervir na harmonia familiar está a causar muito incómodo entre os nossos amigos comuns.

Quando lhe disse que viesse fi-lo de coração aberto. A verdade é que não tenho no escritório ninguém com a sua competência – muito menos um quadro superior que mereça a confiança que deposito em si. Quando me comunicou que estaria disposta a abandonar a gerência de uma multinacional em Pequim para vir trabalhar comigo fiquei entusiasmado com a ideia. Mas temos agora um problema e, como não quero ser eu a cortar-lhe as vazas, peço-lhe que seja a prima a desistir de vir.

Recebi ontem um telefonema de um cliente muito influente que me pede um plano de comunicação contra a vinda de gente do Continente. Parece que os não-residentes andam a respirar o pouco ar puro que nos sobra e isso deixa muita gente nervosa. Não percebo bem do que estão a falar, mas pedem-me um discurso coerente para explicar que a terra está cheia e não se recomenda a mais ninguém.

Neste contexto, compreende não posso ir buscá-la, porque com o que me vão pagar faz muito mais sentido contratar um estagiário qualquer com BIR e fingir que é uma opção muito mais inteligente. Toda a gente sabe que não é assim, mas como ninguém quer perder a face ninguém se vai queixar.

Há um ponto nesta tese tonta com o qual concordo, sobretudo porque me dá jeito. Por muito dinheiro que haja, por maiores que sejam as necessidades de massa crítica, não vamos agora distribuir rendimentos por toda a gente se podemos ficar com uma fatia maior para quem já cá está. Por muito que me custe, faz sentido. Se calhar é mesmo isso que vou explicar a toda a gente. Parece um pouco pueril, mas é o tipo de conversa que toda a gente entende.

Por fim, devo dizer-lhe que esta nova lógica está a tornar a terra cada vez mais entediante, sendo também cada vez mais difícil encontrar gente interessante e competente. A diversificação económica parece-me um mito e o nível de vida está a baixar drasticamente. Pensei que nunca sairia daqui, mas por este andar qualquer dia ainda me piro para uma cidade mais a sério. Nesse contexto, seria tonto da minha parte continuar a trazer gente para cá. Afinal, é mais importante que cresçam fora para depois me ajudarem a sair daqui.

Estou certo que a prima me compreende

Com toda a saudade do mundo

O amigo de Macau

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As palavras mágicas

Maria Caetano

Há palavras que são mágicas. Já sabíamos. “Abracadabra”, “Abre-te Sésamo”, e até “Supercalifragilisticexpialidocious”, usada quando não há nada para dizer, mas que realiza magicamente uma grande manobra de diversão das atenções e tem pelo menos o condão de quebrar o silêncio. À lista das palavras que comandam o pensamento mágico e delusional – que submete a percepção da realidade às ideações de quem profere a palavra, assumindo uma comunhão de ideias que raramente se verifica (embora, haja registo de alucinações colectivas) – junta-se uma outra nova: “talentos”.

A palavra mágica “talentos” foi, sem exagero e segundo ferramenta de edição de documentos em pdf, repetida 59 vezes pelo Chefe do executivo, Chui Sai On, na apresentação do relatório das Linhas de Acção Governativa para 2014. Isto foi a 12 de Novembro, uma terça-feira, e eis que, passados 13 dias, na última segunda-feira, já havia “talentos” para contar nas posições baixas, médias e elevadas de cargos de supervisão e chefia de seis concessionárias de jogo. E outros 150 estão na forja da formação para subirem na hierarquia das operadoras.

Francis Tam admitiu também que “o estatuto” dos trabalhadores locais nas concessionárias é passível de negociação na revisão das licenças de jogo, que deverá começar a ser preparada em 2015, segundo o secretário. Perante este tipo de raciocínio, a ideia de que este passe de magia esteja a ser imposto como condição para, por exemplo, aumentar o número de mesas de jogo, não é estranha. A ilusão é criada pelo Governo, mas não sem descredibilizar o mérito e competência da mão-de-obra local, vista como mera moeda de troca de negociações políticas e metida num estranho processo de alienação total do real valor do trabalho e do esforço.

Talvez seja esta a forma mais rápida e menos trabalhosa de gerar talentos de natureza espontânea, a fazer profissão de fé e conscientes do seu carácter “especial” e negociável na economia e na política. A tal ponto, neste processo de alucinação colectiva, os direitos especiais decorrentes da naturalidade atingiram uma hiper-valorização, que inundaram todo o debate politico recente e circunscreveram a acção governativa a meia dúzia de chavões (ou, bem assim, palavras mágicas). A espiral do proteccionismo resvalou, segundo alguns, para a xenofobia – a crença numa superioridade e em privilégios especiais adquiridos por nascimento, que exclui toda a população que, em condições iguais, não tem a marca mágica da naturalidade.

Este tipo de discurso é no entanto do domínio do sobrenatural, de magia ou crença de que homens e mulheres de condição igual na sua humanidade sejam separados entre os eleitos e os não-eleitos. A deputada Song Pek Kei, por exemplo, está entre os eleitos sufragados, embora não naturais. Mas a condição adquirida talvez a tenha feito ir mais longe, ao ponto de ver nos não-eleitos uma terrível ameaça. São eles, e não a ausência de controlo do mercado do arrendamento, quem faz as rendas subir. São também eles que ocupam os espaços de lazer dos locais, adianta. E estariam todos muito melhor se guettizados na ilha da Montanha , concretizando-se cabalmente a política ‘terras de Macau para as gentes de Macau’.

O perigo da magia é este, o de criar um universo delusional tão grande que, aos poucos, os argumentos vão sendo cada vez descolados do raciocínio verificável por instrumentos lógicos e deixa de haver referências comuns sabidas individualmente e partilhadas humanamente. A “verdade” fica então entregue a um líder ou escrita numa pedra, para nunca mais ser dedutível pelos padrões normais do raciocínio. E, a partir daí, tudo é possível.

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Lusofonia: das palavras aos negócios

Fernando Dias Simões*

A IV conferência ministerial do Fórum Macau teve lugar na RAEM nos dias 5 e 6 deste mês. Neste encontro foi debatido o plano de acção para a cooperação económica e comercial para o período 2013-2016. O plano de acção para o triénio 2010-2013 referia o acordo dos ministros participantes em “analisar o aproveitamento das vantagens comparativas de Macau no conhecimento dos sistemas jurídicos da China e dos Países de Língua Portuguesa, promovendo Macau como um dos locais de arbitragem para a resolução de eventuais conflitos decorrentes do intercâmbio comercial entre os empresários da China e dos Países de Língua Portuguesa”. Tanto quanto sabemos este propósito ainda não foi posto em prática. Desconhecemos igualmente se este será um dos vectores do Plano de Acção para os próximos três anos uma vez que o novo plano ainda não foi divulgado.

A existência de uma ligação linguística, cultural e jurídica entre os membros do fórum é um activo económico importante. A semelhança entre os sistemas jurídicos do mundo de língua portuguesa é inegável. Apesar de reunir países que têm um património jurídico comum, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) não tem, até agora, empreendido quaisquer projectos de harmonização jurídica. A promoção da língua portuguesa através de projectos de coordenação legislativa pode, no entanto, ser facilmente considerada dentro dos propósitos da CPLP. Na ausência de instituições com funções legislativas, a criação de grupos de trabalho e a redacção de projectos legislativos comuns pode oferecer uma boa oportunidade para alinhar o objectivo de promoção da língua com a reforma legislativa como instrumento de promoção do comércio internacional.

A ligação íntima entre a actividade económica e o Direito Comercial é irrefutável. O Direito Comercial visa promover o comércio de uma forma segura e eficaz, protegendo os direitos das partes e reduzindo a burocracia desnecessária. Este campo do Direito tem tudo a ver com produtividade, competitividade e segurança. Se as leis comerciais de um país não forem adequadas a esses fins ou não forem devidamente aplicadas o dinamismo económico é refreado. Os países que querem promover o crescimento económico e social devem portanto repensar e melhorar a sua legislação comercial. A maioria dos economistas concorda que as instituições jurídicas são uma condicionante do desenvolvimento económico mas há muito menos consenso sobre quais devem ser essas instituições. Nos últimos anos vários estudiosos têm dedicado o seu tempo a analisar a relação entre Direito e negócios. O seu trabalho tem-se centrado na análise, em termos empíricos, do efeito que as normas jurídicas e a sua aplicação têm no desenvolvimento económico dos países. Instituições como o Banco Mundial têm dado grande importância aos resultados destes estudos, baseando-se neles para avaliar a qualidade do sistema jurídico das diferentes economias mundiais.

A reforma jurídica é indispensável para a reorganização e melhoria das estruturas de mercado. O caminho normal para promover a reforma jurídica é aprender com outras jurisdições. Os chamados “transplantes legais” são a fonte mais fértil de renovação de um sistema jurídico. As leis dos diferentes países não são escritas a partir do zero mas sim transplantadas. É expectável que os países lusófonos continuem a inspirar-se nos sistemas legais que pertencem ao seu próprio “clã”: a família do Direito Civil. No entanto, para estas jurisdições a questão mais importante não é a de escolher entre “Common Law” e “Direito Civil” mas sim saber quais os instrumentos legais mais eficazes e confiáveis para regular as suas actividades comerciais. Os membros do Fórum Macau devem procurar aprofundar a afinidade no âmbito do sistema jurídico lusófono. A harmonização e afinação de normas legais no âmbito da comunidade podem trazer vantagens, por exemplo, nas áreas do Direito Comercial e da arbitragem internacional. O aprofundamento desta “comunidade jurídica” lusófona pode ser um estímulo positivo para o desenvolvimento económico dos seus membros, reduzindo os custos de transacção e promovendo o conhecimento entre empresários e juristas dos diferentes países. No fundo, o Direito e os negócios podem beneficiar de um discurso menos ideal e mais pragmático sobre o papel da lusofonia.

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Olhando o futebol local (1)

Agostinho Caetano*

O Bolão, designação popular por que é conhecido o Futebol de 11 em Macau desenvolve-se através de duas competições: o Campeonato de Macau e a Taça de Macau, conforme o regulamento de competições da Associação de Futebol.

O Campeonato de Macau é disputado em quatro divisões de seniores (1ª Divisão, designada Liga de Elite, 2ª, 3ª e 4ª) uma competição de juniores (até 18 anos), uma de juvenis (até 16 anos) e uma de veteranos (+ de 40 anos).

A Taça de Macau é uma competição que engloba as equipas da Liga de Elite, 2ª e 3ª Divisões e é disputada através de jogos com a duração de 60 minutos (30 + 30), num sistema de eliminatórias com exclusão à primeira derrota.

Tomando como exemplo as competições realizadas em 2013, várias situações tomam relevo imediato: o número reduzidíssimo de campos para tão elevado número de jogos (3+1) – Estádio da Taipa, Estádio da Universidade de Ciência e Tecnologia (M.U.S.T.), campo do Canídromo e campo do Colégio D. Bosco, este para a variante de 7; embora pertencendo ao quadro do Bolão, o facto de as competições da 4ª divisão e de veteranos serem disputadas na variante de 7; o reduzidíssimo número de equipas no escalão de juniores; a ausência de equipas inscritas no escalão de juvenis (???); a inexistência de competições para os escalões etários de iniciados (até 14 anos) e infantis (até 12 anos), para não falar dos inferiores; e a duração de 60 minutos nos jogos da Taça de Macau.

Compreendemos o quão difícil será organizar todas estas competições em tão poucos espaços. A colocação de relvados sintéticos, pelo menos no M.U.S.T. e no Canídromo viria facilitar imenso, permitindo uma utilização exaustiva destes espaços. No Estádio de Macau (Taipa), uma vez que é a “sala de visitas”  do território em termos desportivos, poder-se-á colocar a questão se sim ou não ao relvado sintético… Em termos de rentabilidade de utilização e devido à escassez de espaços seria muito útil, mas admito a sua preservação como relvado natural desde que bem cuidado. O “arrelvamento” sintético dos referidos campos e a criação de mais um de Futebol de 11 e outro de Futebol de 7, ou dois de 11, melhoraria imenso a situação. Apesar da escassez de espaços em Macau, penso ser possível.

A variante de 7 nas competições da 4ª Divisão e de Veteranos entendo-a como forma de contornar a falta de campos. Em 2013, participaram 93 equipas na 4ª Divisão, com as equipas dividas em séries (13 com 5 equipas e 7 com 4), que numa 1ª fase em Sistema de “Poule” (todos contra todos) a uma volta apuraram os dois primeiros classificados de cada série e uma 2ª Fase com Sistema de Eliminatórias com exclusão à 1ª derrota até ao apuramento do Campeão. Os quatro primeiros lugares desta competição têm acesso à 3ª Divisão. A variante de 7 e a fórmula competitiva adoptada fazem desta competição uma cópia da Bolinha, onde as únicas diferenças se registam ao nível do tempo de duração de cada jogo, no número de substituições permitidas, e no número de jogadores inscritos. Face às limitações existentes (número de campos), esta é uma forma de manter o sistema competitivo aberto à inscrição de novas equipas, pois seria absolutamente impensável qualquer limitação, e portanto confesso que dificilmente vejo outras alternativas.

Talvez se esta divisão fosse disputada na variante de 11 o número de equipas baixasse significativamente, mas não sei se o suficiente para permitir a organização da competição. Enquanto não houver relvados sintéticos, creio que não. A realização do Bolão e da“Bolinha em paralelo, eventualmente reduziria muito o número de equipas inscritas na 4ª Divisão, mas para além de provocar um enorme espaço sem competição por muito que se prolongassem os campeonatos, teria certamente a oposição da maioria das equipas e até mesmo dos jogadores, tal é a implantação e a preferência pela Bolinha relativamente ao Bolão. Foram motivos semelhantes e principalmente de defesa do Bolão que conduziram na década de 1950 à criação de épocas distintas para as duas variantes.

Na competição de veteranos, embora não vendo grandes inconvenientes na variante e fórmula competitiva adoptadas, poder-se-á equacionar uma reformulação que permita um maior número de jogos por equipa, e face às dimensões do Campo do Colégio D. Bosco onde é realizada (pequeno para a variante de 11, mas algo grande para a de 7), as variantes de 8 ou mesmo 9 seriam mais adequadas ao escalão etário em causa.

Penso que o reduzido número de equipas inscritas no escalão de juniores e a ausência de inscrições no escalão de juvenis são a consequência da não existência de competições nos escalões etários mais baixos. Mais uma vez, os poucos espaços existentes poderão ser uma desculpa, mas ao não ver competições aos sábados e domingos de manhã… Ah pois… a impossibilidade de utilização exaustiva dos campos. Lá iríamos cair de novo nos sintéticos.

A competição de juniores foi disputada por seis equipas, em sistema de “poule” a duas voltas, o que face ao reduzido número de inscrições proporcionou um escasso número de jogos por equipa (10). Poder-se-ia ter disputado a três ou mesmo quatro voltas. É uma solução utilizada frequentemente em casos semelhantes.

Há uma situação que me parece perfeitamente inadmissível, que é o facto de não ser permitida a inscrição de participantes estrangeiros nas equipas das competições de juniores e juvenis. Num território de características tão “internacionais” como é Macau, ainda por cima com o reduzido e mesmo inexistente número de equipas inscritas nos escalões etários mais baixos, uma medida desta natureza, para além de redutora e discriminatória, parece-me no mínimo absurda.

Quanto à duração de 60 minutos dos jogos da Taça de Macau, compreendo que seja uma tentativa de  aproximar o desempenho competitivo das equipas das diversas divisões. No entanto, penso que existem outras soluções até quiçá mais competitivas, como por exemplo: nas duas primeiras eliminatórias competirem apenas as equipas da 3ª e 2ª divisões (12 + 10), na terceira eliminatória (5+1) entrararem já as equipas da Liga de Elite (10) o que fará um total de 16 equipas, já certamente com um desempenho competitivo não tão distanciado, que permita que os jogos tenham a sua duração “institucional” (90 minutos).

(continua)

*Licenciado em Educação Física e treinador de futebol

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Português, uma língua da moda na China?

Ana Paula Dias*

O Instituto Cervantes publicou um anuário relativo a 2012, intitulado “El español en el mundo. Anuario del Instituto Cervantes 2012”, que apresenta informações precisas e fiáveis sobre a língua e a cultura espanhola no mundo, que pode igualmente ser consultado em edição eletrónica no seu website.

São duas iniciativas a louvar: a primeira, e mais importante, é o facto de o Instituto Cervantes, como instituição pública que é, criada por Espanha em 1991 para a promoção e ensino da língua espanhola e para a difusão da cultura espanhola e hispano-americana, levar a cabo estudos anuais, sistemáticos, que permitem fazer projecções e planificar políticas de língua, assim como permitem ao público conhecer os dados concretos que ilustram o sucesso da sua missão e a situação efectiva e real da língua espanhola no panorama mundial. O segundo aspeto a louvar é permitir o acesso gratuito online a este material.

Veja-se então o seguinte: mais de 495 milhões de pessoas falam espanhol como língua materna, segunda e estrangeira. É a segunda língua do mundo por número de falantes nativos e o segundo idioma de comunicação internacional. O número atual de falantes de espanhol referido pelo Instituto Cervantes baseia-se em informação proveniente dos censos oficiais realizados entre 2000 e 2010, nas estimativas oficiais dos Institutos de Estatística de cada país e nas das Nações Unidas relativas a 2011 e 2012. As estimativas do número de falantes desta língua para 2030 apontam para 535 milhões de falantes e para 550 milhões no ano de 2050.

Informa-nos também o Instituto Cervantes que o espanhol é a terceira língua mais utilizada na Internet por número de utilizadores (cerca de 2.100 milhões): 7,8 por cento da totalidade dos internautas comunicam em espanhol e o uso desta língua cresceu 807,4 por cento de 2000 a 2011. Espanha e México, aliás, encontram-se entre os 20 países com maior número de utilizadores de Internet. Os dois idiomas que estão à frente do espanhol são o inglês e o chinês. Tendo em conta que o chinês é uma língua que, no geral, é falada apenas pelos seus nativos, o espanhol situar-se-á como a segunda língua de comunicação na Internet, atrás do inglês. Estes dados são relevantes na medida em que a procura de documentos em espanhol ocupa o quarto lugar em importância de entre as línguas do mundo.

Vêm estes dados introdutórios a propósito da situação do espanhol na China. Inmaculada González Puy analisa a situação do espanhol em áreas geopolíticas concretas, abarcando este ano a região asiática com quatro artigos dedicados ao estudo da situação da língua espanhola na China e em Hong Kong, no Japão e na Índia, por serem regiões que se concebem como prioritárias e estratégicas para a difusão linguística e cultural, associada ao reforço da imagem exterior de Espanha.

Segundo informação disponibilizada pela Secção de Educação da Embaixada de Espanha na República Popular da China, calcula-se que o número actual de estudantes de espanhol na China ronde os 25.000, o que configura um aumento importante, se comparado com os 1.541 alunos existentes em 2000. Há 35 academias espanholas e 90 universidades com cursos de espanhol no país. Em sete anos – de 2005 (quando havia 4.236 estudantes no país) a 2012 – o número quintuplicou e continua a aumentar ano após ano. Neste número não estão incluídos os alunos do Instituto Cervantes de Pequim (4.753 matrículas em 2011/2012) nem do sector emergente do ensino privado (academias, escolas de línguas abertas ao público e vinculadas a universidades públicas ou outros modelos de ensino não regulamentados), um nicho muito difícil de contabilizar, por se encontrar em constante expansão.

O Instituto Cervantes de Pequim posicionou-se, desde o início, como um dos mais importantes da rede de 77 centros em número de matrículas. O curso 2010-2011 terminou com 4.735 alunos, com um crescimento médio interanual de quase 60 por cento nos quatro primeiros anos. É evidente o interesse que existe pelo espanhol na China e a crescente procura de profissionais bilingues espanhol-chinês.

Quanto à vizinha Hong Kong, alguns exemplos: desde 2011 duas escolas do pré-escolar disponibilizam espanhol, quer para nativos, quer como atividade extracurricular (actualmente com 23 alunos). A Escola Rosaryhill, uma escola custeada pelo Governo, iniciou em 2012-2013 um programa de pré-escolar bilingue inglês-espanhol e os restantes alunos do pré-escolar também tiveram aulas de espanhol, embora com uma carga letiva diminuta. Um total de 600 alunos iniciará o estudo de espanhol em setembro de 2014 e no ensino primário, 300 alunos desta escola tem uma aula semanal de espanhol.

A English School Fundation também oferece espanhol como língua estrangeira extracurricular na primária desde 2002 e há cerca de 120 alunos no programa. Tem acampamentos de verão em espanhol para alunos do pré-escolar e da primária e o número de alunos varia anualmente entre os 50 e os 70.

Mais importante, a estrutura do novo sistema do ensino secundário de Hong Kong, que começou a implementar-se em 2009, comtempla o espanhol como língua de opção. Nas escolas internacionais, como a Escola Francesa, em 2011/12 houve 43 alunos a estudar espanhol como opção e 290 no programa para nativos. A Escola Inglesa teve 70 alunos, a Escola chinesa Internacional 65 e o Colégio internacional de Hong Kong também disponibiliza a língua. Há ainda 12 escolas com parcerias com a Universidade de Hong Kong que ofereceram cursos de espanhol coordenados por esta universidade em 2011-2012, abrangendo 605 alunos.

Quanto ao ensino superior, quase todas as universidades de Hong Kong têm atualmente cursos de espanhol: a Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong registou 45 matrículas em cursos curriculares e 195 em cursos extracurriculares, a Universidade Cidade de Hong Kong cerca de 600, a Universidade Politécnica de Hong Kong cerca de 450 e a Universidade de Hong Kong cerca de 200. Existem ainda escolas de formação contínua e profissional, das quais se destacam as seguintes: a De Columbus, com cerca de 250 alunos anualmente; a Viva Spanish, com 79 na sede e 130 nas escolas de secundárias onde partilham aulas; a Spanish World Amazing Languages, com cerca de 70; o Carabela Language Centre, com 40 alunos, a maioria menores de 10 anos.

Justifica-se assim a interrogação do título deste texto e expressa-se o desejo de ver estudos análogos e fundamentados em Portugal que permitam chegar a dados concretos que sustentem a euforia noticiosa a que assistimos ciclicamente sobre o “boom” do português na China…

 

*Doutoranda na Universidade Aberta

(a autora escreve segundo o novo acordo ortográfico) 

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Carta a um investidor

Paulo Rego 

Caro amigo. Bem sei que contratou os meus serviços para saber em primeira mão o que se passa nos bastidores da política local. Tenho-o informado com rigor e competência, para além da antecipação que é devida a quem decide escudado por dados que não são públicos. Por isso me paga uma pequena fortuna, mas temos de rever a avença. O problema é que a vida mudou e, nesta altura, se continuasse a dizer-lhe que controlo o que se passa estaria a enganá-lo a si e a mim próprio.

Já não falo só de nomes e de cargos; mas sim do próprio sistema e do equilíbrio entre poderes locais e continentais. Quem pensa que relações e circunstâncias do passado permitem continuar a prever o futuro corre sérios riscos de prejudicar todos quantos em si confiam e de si dependem. Nestas circunstâncias, como facilmente entenderá, se alguém souber o que está em curso é porque integra o núcleo duro que tem como primeiro desígnio garantir que mais ninguém sabe de nada.

Está assim em causa a minha própria credibilidade numa carreira feita de enriquecer promovendo o enriquecendo dos meus amigos. Por isso sinto a urgência de lhe explicar que já percebi que já nada sei. Prometem-me isto e aquilo nos corredores do Palácio, mas leio o contrário nos documentos que pões a circular; explicam-me este mundo e o outro nos escritórios, mas vendem-me coisas de outro planeta nos campos de golfe; passam-me relatórios a anunciar a bolha imobiliária, mas os conselheiros do poder cavalgam alegremente no mito do mercado livre; todos os casinos avançam para o Cotai, mas não há luz verde para importar mão-de-obra – muito menos para renovar as concessões (e subconcessões); tenho mais amigos convidados o governo do número de secretários que existe, mas nenhum deles foi sequer proposto para mandato do céu; já soltei vários nomes em Pequim, mas nenhum parece merecer bênção sem senão.

No seu lugar congelaria os investimentos em curso, pelo menos aqueles que dependem de promessas e de compromissos com quem hoje pensa que amanhã terá poder para fazer andar umas coisas em vez de outras. É claro que pode fazer precisamente o contrário: avançar com as suas apostas e cruzar os dedos; porque quem acertar antes do tempo vai ver do camarote os outros chegarem para o beija-mão.

O problema é que eu sei – ainda não lhe tinha confessado – que a massa que faz circular por aqui nem sequer é sua, pelo que a ainda lhe correr mal a vida se não tiver alguma prudência. Veja lá que até os advogados mais insuspeitos já atiram nomes para a lama do tribunal; anda muita gente importante a mudar de cadeira e outros sem saber onde se sentam; e até o Chefe já anda em público às turras com membros do seu Executivo… Isto já não é o que era.

Nestas condições extremamente difíceis certamente compreende a minuta que lhe envio em anexo, aumentando a minha avença em cerca de 25 por cento. Porque é muito mais difícil agora garantir que não tenho a certeza de nada. Se por acaso me distraio, por falta de meios, ainda corro o risco de acreditar em alguma coisa… E o amigo é que paga.

 

Sempre ao seu dispôr

O amigo de Macau

 

PS: Texto de ficção que, por mais verosímil que pareça, não deve ser confundido com a realidade

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