Caminho de Integração

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A caminho da Celebração da Páscoa, a grande manifestação da Vida, os Evangelhos apresentam-nos  situações de fragilidade humana extrema que em contacto com Jesus Cristo são transformadas e ultrapassadas. No passado Domingo, o texto deu-nos a conhecer a figura daquela mulher, de coração ‘perdido’, à  busca de “companheiros” ou “maridos” que, afinal,  só lhe trazem desilusão e vazio. Este Domingo, o Quarto da Quaresma, traz-nos, desta feita, a experiência de um homem, cego de nascença, mendigo, totalmente dependente dos outros, deixado à porta do templo. No próximo Domingo somos convidados a meditar Lázaro que morre. Perante tais casos, o Senhor Jesus é sinal de Esperança.

O que mais chama a atenção em todos estes episódios é que todas as pessoas intervenientes,  homem ou mulher,  são levados a encarar e reconstituir , antes de mais, todos os diversos elementos que compõem a sua própria personalidade. Feito este trabalho,  tornam-se seres humanos muito mais integrados, equilibrados e abertos aos outros, para, em seguida, serem capazes de se tornarem  radicais nas suas atitudes, criativos e originais no seu pensamento e audazes  e corajosos  nas suas iniciativas. E mesmo darem a vida por um ideal.

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Tomemos o caso do cego de nascença, o homem do Evangelho do 4º Domingo desta Quaresma de 2017. A sua situação é deplorável. É cego e de nascença. Não vê, nem entende. Como se a cegueira física fosse como que o embotamento da sua inteligência, incapaz de compreender tantas coisas ou chegar a razões mais profundas.

O coração ao ver-se, durante tantos anos cronicamente limitado, não admira que esteja inundado de tristeza e resignado a ser todos os dias levado para certos lugares estratégicos e aí lançar as  suas  lamentações à procura de uns tostões

Mendigar é a única coisa que pode ou aprendeu a fazer.  Pedir ou pedinchar é a sua profissão. Onde está o seu poder criador? Como contribuir para o bem da comunidade ?

Sempre dependente dos outros, por mais esforços que faça. Sem nenhuma autonomia, mesmo das funções mais básicas. Subjugado a ser submisso ao sentir, ao pensar e ao agir dos outros. E o dom preciosíssimo da liberdade?

A transformação que se processa neste homem, cego, dependente e pedinte, é um exemplo de excelência da pedagogia de Deus perante o ser humano que se apresenta diante d’Ele. Jesus Cristo é a Revelação e a Encarnação desse caminho de libertação, de integração e de realização pessoal.

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O Senhor Jesus e Mestre, com o acto de recuperar a vista àquele homem, traz consigo uma inteligência arguta, de lógica cerrada e de dialéctica exuberante, corajosa e convincente. Vejamos a força da argumentação dele, o pobre mendigo, perante os sábios, os intelectuais e os políticos da cidade!  Deixa-os sem palavras. A eles apenas resta o insulto : «Tu nasceste inteiramente em pecado».

Aquele coração que, outrora, era frágil, sensível e subserviente a todos,  muda de maneira espectacular. Torna-se forte. Por isso é  que não nos surpreende ouvir os pais dele a afirmar: «Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego; mas não sabemos como é que ele agora vê, nem sabemos quem lhe abriu os olhos. Ele já tem idade para responder; perguntai-lho vós». Ele  já não precisa nem do paizinho, nem da mãezinha para se defender ou, ao contrário, para afirmar-se.  Livre, finalmente, dos outros, daquelas dependências afectivas infantis ou pouco consistentes.

Por fim, aquele, considerado fraco, assume-se de modo desassombrado, perante os outros, particularmente, perante aqueles em autoridade. Faz o que tem que fazer. Diz o que tem a dizer, mesmo com perigo de vida!

Inteligência fina, coração destemido e cheio de gratidão e vontade firme, mostram um homem transformado.

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Contudo, neste processo de transformação, chama-nos ainda a atenção certos aspectos muito particulares que confirmam a profundidade de integração que teve lugar naquele que, pouco tempo atrás, não passava de um ‘pobre entre os mais pobres’.

É notável o sentido de humor do cego que Jesus curou. No meio do intenso debate, com tantas questões e tantas repetições, ele salta, com uma ironia devastadora, dizendo: «Já vos disse e não destes ouvidos. Porque desejais ouvi-lo novamente? Também quereis fazer-vos seus discípulos?». Claro, ficaram furiosos.

Algo ainda mais extraordinário deste ignorante, cego e pedinte, é a sua capacidade de discernimento da presença e da acção de Deus. Eis as suas palavras tão repletas do espírito divino: «Isto é realmente estranho: não sabeis de onde Ele (Jesus) é, mas a verdade é que Ele me deu a vista. Ora, nós sabemos que Deus não escuta os pecadores, mas escuta aqueles que O adoram e fazem a sua vontade». Quando Deus transforma alguém fá-lo ‘ à imagem e semelhança de Deus’.

Por fim, voltemos a Jesus, Senhor nosso Deus. Ele nunca abandona  os seus, principalmente, quando são fiéis  nos  tempos de perseguição : «Jesus soube que o tinham expulsado e  foi ao seu encontro».

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Cabral no topo do mundo

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Saído das nuvens, o Boeing 757 aproximava-se primeiro dos picos verdes, depois dos nevados, dos verdes de novo, e, finalmente, apenas rectângulos de água acastanhada. O vale de Yarlung, contornado pelo rio Tsangpo – que no subcontinente indiano muda de nome e passa a designar-se Bramaputra – surgia por debaixo de nós, a poucas centenas de metros. O avião estava a menos de dois minutos da pista de Gongbar, o único aeroporto do Tibete, a 70 quilómetros de Lhasa.

Dois dos passageiros, soldados do Exército Popular de Libertação, colocaram-se à minha frente, junto a uma das saídas de emergência, abriram a bagageira, retiraram as suas réplicas de Samsonites fabricadas na China e, muito descontraidamente, começaram a trocar de roupa.

Lhasa, tong ma! Em Lhasa está frio – alertou um deles, ao constatar a minha estupefacção. As hospedeiras há muito que estavam sentadas, uma vez recolhidos os tabuleiros das “refeições” frias e adocicadas a que as companhias aéreas chinesas nos habituaram nos seus voos domésticos.

Não era todos os dias que se sobrevoava o Tecto do Mundo, e assim aproveitei os últimos minutos da viagem para tirar foto atrás de foto, tal como alguns elementos de uma equipa de televisão de Pequim, sentados no banco detrás, acompanhados pelas mulheres e filhos. Às 8:30, duas horas depois de termos deixado o céu cinzento de Chengdu, as rodas do 757, repleto de passageiros, tocavam finalmente no macadame da pista de aterragem. Nessa manhã, seguir-se-iam ainda outros dois voos, procedentes da capital da província de Sichuan. No Verão era assim: três voos matinais, espaçados trinta minutos entre si, duas vezes por semana, provenientes de Chengdu, Xian, Chongqing e Pequim. Lhasa não era mais uma remota cidade perdida no reino dos Himalaias.

Transitar de uma altitude a escassos metros acima do nível do mar para os 3600 metros registados na cidade dos lamas em pouco mais de vinte e quatro horas, é um factor a ter em conta e, certamente, a não desprezar. No entanto, antes da náusea, das fortes dores de cabeça e da dificuldade em respirar, sintomas inevitáveis quando não há aclimatização, vivem-se momentos de euforia, uma vez transposta a portinhola da aeronave. Soube-me bem respirar o ar fresco e rarefeito e ver surgir o sol rompendo as ameaçadoras nuvens de monção que vagueiam pelo planalto durante todo o Verão, responsáveis por cerca de 90 por cento da precipitação anual registada no Tibete.

Era a terceira vez que visitava essa região, desta feita com o intuito de procurar saber algo mais acerca dos padres e leigos jesuítas,  que após o baptismo oriental em Goa, passavam, muitos deles, longos períodos em Macau antes de rumarem a diferentes paragens do Extremo Oriente.

O nome mais sonante é o do padre João Cabral, um dos mais destacados evangelizadores do Tibete. Este religioso chegou a Macau depois de uma breve passagem por Cochim. Aqui viveu entre 1645-46 e 1649-53, chegando mesmo a ser reitor do Colégio da Madre de Deus. Foi  Visitador da China e Japão durante o ano de 1650 tendo morrido em Goa, a 4 de Julho de 1669. O relato das suas aventuras no Tibete compiladas na “Relaçam copiosa dos trabalhos grandes que padeceo na Missão do Tibeth” anda perdido num qualquer arquivo de Portugal.

Estabelecida a missão no Tibete Oriental, o padre António de Andrade propôs a penetração no Tibete central através do reino de Bengala, actual Bangladesh, que era o caminho mais próximo e pertencia à província missionária do Malabar.

Tendo como ponto de partida a cidade de Hugli, uma expedição de dois missionários – Estevão Cacela e João Cabral – encetou caminho, a 5 de Setembro de 1626, rumo ao planalto tibetano, também eles na esperança de encontrarem o mítico Cataio, identificado desta vez como o Shambala dos relatos dos lamas.

Seriam eles os primeiros europeus a pisar quatro das mais inacessíveis regiões do planeta: o reino do Butão, o protectorado indiano do Sikkim, o reino do Nepal e a região central do Tibete conhecida como U Tsang.

Ao longo do trajecto foram muitos os imprevistos e os perigos. O padre Cabral esteve mesmo entre a vida e a morte atacado por fortes febres. No Butão, Cabral e Cacela ergueram uma capela e traduziram para butanês as orações e os preceitos religiosos mais relevantes. As informações que forneceram, embora distorcidas, deram a conhecer ao mundo ocidental o budismo lamaísta. O nome de Chescamoni (Sakyamuni) surgiu pela primeira vez, em 1617, pela pena de Estevão Cacela.

Saíndo do Butão a 28 de Dezembro de 1627, Cabral chegaria a Xigatsé a 20 de Janeiro do ano seguinte. Aguardava-o lá Cacela, que partira anteriormente. Apesar das hostilidades dos lamas, os religiosos tiveram algum, reduzido, sucesso junto do monarca local e estabeleceram em Xigatsé uma missão. Com o objectivo de encontrar uma rota alternativa, Cabral deixou Xigatsé em finais de Janeiro de 1628, rumo ao Nepal e daí regressou a Bengala. Chegado a Hugli concluiu que essa era melhor rota que a do Butão. Dois anos mais tarde, na companhia do padre Manuel Dias Sénior, João Cabral rumou ao U Tsang utilizando uma terceira rota: o reino do Sikkim. A missão de Xigatsé, contudo, não teria grande futuro. Terá encerrado antes de 1635, altura em que Cabral, em Carta Ânua, admitia o malogro. Por três razões: as dificuldades da viagem, a incerteza do êxito da missionação e o facto da curiosidade do rei tibetano se sustentar apenas no valor dos presentes que lhe levavam os missionários.

IIM LOGOTIPO - 2015 (15)

Joaquim Magalhães de Castro, escritor e investigador da expansão portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

 

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Coração perdido e encontrado

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«A Samaritana» é a figura central do episódio narrado no Evangelho deste Terceiro Domingo da Quaresma. Profundamente humano,  profundamente divino! A fragilidade humana da mulher de Samaria, tocada pela poderosa acção transformadora do divino, manifestado em Jesus Cristo.  Uma mulher com um coração completamente destroçado que reencontra,  por fim e de modo impensável,  a sua grandeza, bondade  e beleza original. Com Jesus, é mais um caso a confirmar de que toda a transformação da realidade humana, desde o mais pessoal e íntimo ao mais social e público, passa,  imprescindivelmente, pela consciência não só da importância do coração e do seu mundo afectivo  no processo  como também da necessidade duma conversão radical do mesmo coração.

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A importância do conhecer-se a si mesmo ou de conhecer o seu coração, hoje, diria, é uma questão civilizacional. Os homens e as mulheres do começo deste Terceiro milénio  evitam cada vez mais fazer ‘o caminho interior’ até ao fundo de si mesmos, tal como, na mesma ordem de ideias,  temem o silêncio, o recolhimento e a soledade. Em contrapartida, deixam-se dominar, quase como por epidemia avassaladora,  pela  racionalidade fria e dura, pela tecnocracia tirana e manipuladora e pelo consumismo degenerador.

Insisto neste ponto, particularmente, entre adultos. Todos, muito fácil e airosamente, se dizem conhecedores ‘de si mesmos’. Porém, um olhar mais atento e penetrante e a experiência de acompanhar pessoas de todas as culturas e raças,  revelam que uma coisa é ‘o conhecimento racional’ de si mesmo,  outra é ‘o conhecimento afectivo’, existêncial  e íntimo. Já Santo Inácio de Loiola dizia: ‘Não é o muito conhecimento (e informação) que satisfaz a alma, mas sim o conhecimento íntimo (do coração) da realidade. Uma questão é, por exemplo, conhecer e descrever ‘intelectualmente’ a experiência da Angústia, outra é  ter ‘conhecimento afectivo e existencial’ da Angústia. Até os profissinais, quando chegam a esses momentos, dão consultas de cinco minutos e, depois …   fármacos.

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«Jesus cansado da caminhada, sentou-Se à beira do poço. Era por volta do meio dia. Veio uma mulher da Samaria para tirar água». Ir ao poço, ao meio dia, significa já que ela estava com dificuldade de se encontrar com as  outras mulheres da pequena cidade de Sicar. Era necessário passar despercebida, pois já ía no sexto ‘companheiro’. Vergonha! Complexo de culpa! Talvez! Mas, aqui o facto mais importante é, tal como Jesus, o Senhor e Mestre,  conseguir perceber, por todos elementos ou sinais externos,  que a pessoa está em profunda dor e com necessidade de ser ajudada.

A propósito, eu  não acredito que uma mulher que ande com ‘companheiros’ ou viva em certa roda livre nas suas relações afectivas, que, sinceramente, possa gabar- se de ser ‘madura e moderna’, ‘ser livre’, e afirmar, sem peias que  ‘o corpo é meu’ como se não sentisse algo mais dentro de si. De igual modo é uma perfeita e rotunda ilusão, os homens pensarem que são mais homens porque conhecem mais mulheres. Psicologicamente, são miúdos à procura da mãezinha. A Verdade incomoda e faz doer.

A consciência moral permanece sempre consciência. Reafirmo que, sejam quais forem as experiências humanas, ditas ‘naturais’, ao sabor apenas do instinto da sensibilidade e da sexualidade, sem o sentido profundo do Amor, o ’Espírito de Deus’ não deixará jamais de dar sinal no mais íntimo do coração. O ser humano é, estrutural e intrinsecamente, chamado à Verdade, ao Amor e à Perfeição

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Juntamente com essa percepção objectiva da situação do outro e, sobretudo, do seu coração,  há que ter, em seguida, a pedagogia própria para entrar nos lugares mais recônditos da alma humana, ter ‘a pedagogia do coração’.

O Senhor Jesus, primeiramente, toma iniciativa e pede um copo de água: «Dá-Me de beber». Apesar da Samaritana ser ríspida na resposta, o Senhor não se desconcerta e continua, respeitosamente, a  conversar com ela.  Aos poucos, quando Cristo  sente que a paz e a confiança aumentam  na relação entre os dois, Ele lança-lhe uma pergunta  mais íntima e deveras muito pessoal : «Vai chamar o teu marido e volta aqui».  Pouco tempo  decorrido, ouvimos  já  ela que exclama : «Senhor, vejo que és profeta».

Por fim, diz o texto evangélico : «A mulher deixou a bilha, correu à  cidade e falou a todos :’Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será Ele o Messias ?’»

Em conclusão, para ajudar seja quem for a mudar de vida, temos que entrar corajosamente nos segredos do coração e tocar, com verdade, respeito e delicadeza, as dores e as angústias que, constituem, tantas e inúmeras vezes, a raiz ou  a razão de ser das nossas  inclinações desordenadas, menos próprias, torpes, indignas e maldosas.

Toda a mudança, na pessoa de cada um de nós,  na sociedade onde vivemos e na humanidade e no cosmos  a que pertencemos, só é possível, para bem de todos, quando o coração está  livre

A Sagrada Escritura, no Antigo Testamento, é cristalina : «O coração é o que há de mais astucioso e incorrigível. Quem o pode entender ?»

             O Senhor Jesus remata, dizendo : «É do coração humano donde sai todo o bem e todo o mal».

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

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Rex Tillerson na Ásia

Key Speakers At Ceraweek 2012

A visita oficial do Secretário de Estado norte-americano à Ásia ocorre num momento de particular significado político, quer pela delicada situação de segurança que se vive nesta região do mundo, quer pela opacidade com que a política externa da administração Trump é olhada por aliados e adversários.

Não passaram ainda três meses sobre o juramento de Donald Trump como Presidente e apenas um mês e meio passou sobre o início de funções de Rex Tillerson. A primeira impressão com que se ficou foi de uma absoluta falta de coordenação entre o gabinete do Presidente e do Secretário de Estado. Os dois não terão conversado aquando do depoimento de Tillerson no Senado, sendo notório o desfasamento entre as posições do secretário indigitado e as anunciadas por Donald Trump na campanha eleitoral.

Rex Tillerson remeteu-se ao silêncio, evitando um contacto frequente com os jornalistas e sopesando as suas declarações públicas. Isto representa um rompimento com o estilo efusivo e palavroso de Hillary Clinton e John Kerry à frente do departamento de estado. Rapidamente se instalou a ideia que Tillerson estaria apagado (ou silenciado) pela equipa do Presidente e pouco contará na definição da política externa.

Trata-se, contudo, de uma leitura precipitada. Rex Tillerson é um gestor internacional habituado a duras e prolongadas negociações e a medir as posições que veicula. É o que se chama um político “laid- back”, na antiga tradição conservadora que a mediatização da vida política por alguma forma fez esquecer. Como dizia Henry Kissinger quando perguntado sobre o novo secretário de Estado norte-americano, Tillerson é alguém que se gosta de informar por si próprio de todas as nuances e só depois tomar posição.

Neste caso, os contactos que está a ter com os líderes do Japão, da Coreia do Sul e da China são fundamentais para a consolidação de uma visão estratégica para os principais problemas que afligem a região e para a passagem de dois tipos de mensagens. Para os aliados –  Japão e Coreia do Sul – o reafirmar dos compromissos estratégicos dos Estados Unidos na defesa destes países que decorre dos tratados de defesa e assistência assinados à saída da Segunda Guerra Mundial. Uma reafirmação que irá exigir como contrapartida um maior envolvimento destes dois países na sua própria defesa e assim o crescimento dos seus orçamentos de defesa. Quanto à China, o aquietamento dos receios despertados pela retórica inflamada de Donald Trump durante a campanha eleitoral e mesmo depois da sua eleição, mas sobretudo a transmissão da ideia que os Estados Unidos estão dispostos a trabalhar com os líderes chineses no aprofundamento da relação bilateral.

Relação bilateral que é composta de três vertentes: a relação bilateral stricto sensu, na sua tripla valência de comércio, participação no sistema financeiro internacional, movimento de pessoas; a avaliação da ameaça colocada pela corrida nuclear norte-coreana em termos de desestabilização da península coreana e insegurança no Mar do Leste da China; o encontrar de novas áreas e modos de cooperação na luta anti-terrorista dada a nova sensibilidade americana em razão dos fluxos emigrantes e os receios da China com o Islão, o crescer da influência do Irão e a radicalização da minoria muçulmana em Xinjiang.

Destas três vertentes, a que parece mais acessível é a cooperação na luta anti-terrorista. Os dois lados têm uma visão que se pode dizer “realista” em termos da doutrina das relações internacionais, vendo na contenção do poder dos adversários e no reforço da sua projecção de força a forma de duplicar as suas valências internas e reequilibrar as balanças de poder em que participam. Xi Jinping apercebeu-se, há algum tempo, que a aposta no “soft-power” feita por Hu Jintao e antes dele por Jiang Zemin, não trouxe à República Popular da China os ganhos estratégicos que se previam. Sem que o diga expressamente, Xi Jinping não acredita na valência das Nações Unidas e na sua capacidade rebalanceadora. Tanto ele como Donald Trump acreditam que devem ser os “Grandes Poderes” a tratarem dos problemas internacionais, usando as nações mais pequenas como “carruagens”.

Os problemas de insegurança nos Mares do Leste e do Sul da China resultam da truculência chinesa através da construção de ilhas artificiais que visam consolidar a posição de Pequim nas disputas marítimas que opõem a RPC a outros estados asiáticos. É bom, contudo, lembrar que existem outras disputas territoriais entre o Japão e a Coreia do Sul (Takeshima) e entre a Rússia e o Japão (os Territórios do Norte ocupados pela Rússia a seguir à Segunda Guerra), o que quer dizer que as rivalidades e as disputas territoriais fazem parte da tessitura geopolítica desta região e apresentam várias nuances que importa ver em conjunto.

Também as relações comerciais China-Estados Unidos têm trazido vantagens aos dois lados e não é concebível que uma política mercantilista de imposição de direitos aduaneiros para ‘punir’ as importações chinesas resolva o “nó górdio” da perda de competitividade das empresas americanas, da deslocalização do processo industrial e dos custos elevados da mão-de-obra norte americana. As empresas funcionam pela maior optimização dos custos dos factores de produção e os apelos ao patriotismo são retoricamente interessantes, mas pouco virtuosos.

No essencial, caberá a Rex Tillerson preparar a visita de estado do Presidente Trump que poderá ter lugar no princípio de 2018, segundo especula a imprensa norte-americana. Depois de receber Xi Jinping na Casa Branca.

 

Arnaldo Gonçalves é jurista e professor de Ciência Política e Relações Internacionais. Escreve neste espaço quinzenalmente, sempre às quintas-feiras.

 

 

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Inéditos, divulgadores e plagiadores

 

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Para desespero dos nossos investigadores, grande parte dos escritos elaborados durante a época dos Descobrimentos manter-se-iam inéditos durante centenas de anos e só seriam publicados nas últimas décadas do século XX.

Entretanto, inúmeros foram os manuscritos que se perderam, foram roubados ou continuam ainda por publicar, arquivados em estantes poeirentas e de difícil alcance.

Dessas cartas, diários, relatos e relações, a maioria foi redigida, não em português, mas em latim, italiano, espanhol, francês, ou mesmo em línguas bem mais divorciadas da nossa, como o alemão ou até o flamengo.

Mesmo durante o apogeu da nossa história, sacrificámos o idioma nacional por deferência a Roma — no caso dos relatos dos jesuítas e religiosos de outras ordens —, ou à coroa espanhola, durante a ocupação dos Filipes. Vem de longe, como se vê, a subalternização do português em favor de outras línguas, sobretudo as latinas. O que não deixa de ser estranho, dado o protagonismo de Portugal na época, embora se saiba que o eixo do desenvolvimento científico, na Renascença, transitou para o seio da Europa e ali ficou. Pois era aí — em Nuremberga, Lovaina, etc… — que estavam os centros de impressão.

Inúmeras seriam as obras produzidas por portugueses que tiveram várias edições, nas mais variadas línguas europeias, antes de serem lidas, em português, pelos compatriotas de quem as escrevera. Portugal foi sempre, nesse aspecto, um país periférico. Muito por culpa nossa. Pois se nos tivéssemos apressado a publicar esses trabalhos, se os tivéssemos divulgado junto da população, quiçá o conhecimento sobre nós próprios fosse hoje uma realidade bem diferente. Exemplos são muitos, daí que tenhamos de localizar o assunto.

Reportemo-nos ao trabalho de jesuítas, no que esta parte do mundo diz respeito. Macau teria um importantíssimo papel divulgador. Na pessoa, por exemplo, do macaense Luís Gonzaga Gomes. Graças a ele seriam publicadas pela editora “Notícias de Macau”, em meados da década de 1950, trezentos anos depois de redigidos, dois testemunhos fundamentais para a compreensão das coisas do Império do Meio do século XVII. Eram eles a “Relação da Grande Monarquia da China”, do padre Álvaro Semedo, escrita em 1638-39, e a “Nova Relação da China” do padre Gabriel de Magalhães, datada de 1668. Esta última obra, curiosamente, tinha sido publicada em Paris em 1688, onze anos após o falecimento do autor, em Pequim. Oportuno, o padre belga Phillipe Couplet viajou de Macau para Europa, depois de ter estado preso em Pequim. Na sua bagagem levava os manuscritos do jesuíta português. Em Roma, o texto acabaria por ser traduzido do português para o francês pelo abade Bernou. Seria tão grande o sucesso da obra que nos anos seguintes conheceria uma segunda e terceira edições, e uma tradução para inglês sob o título “New History of China”, também em 1688.

Em Lisboa, ironicamente, seria publicada, em 1679, não a obra de Gabriel de Magalhães, mas um plágio do seu trabalho intitulado “Vergel de Plantas e Flores”, da autoria do franciscano macaense Fr. Jacinto de Deus, que copiou, frase por frase, partes fundamentais da obra do jesuíta. A fraude só viria a ser descoberta passados mais de dois séculos, em 1911, por Sousa Viterbo, que o denunciou na sua obra “O Oriente Portuguez”. Já nessa altura havia quem vivesse dos créditos alheios…

Quanto ao manuscrito de Álvaro Semedo, concluído em 1637, conheceu a primeira edição em castelhano (1642), várias edições em italiano (1643, 1653, 1667 e 1678) em inglês, (1655), em francês (1645,1667) e em holandês (1670). Provavelmente existirão edições noutras línguas. Em português, só em 1956, e por iniciativa de Luis Gonzaga Gomes. Porém, em 1731, dera ao prelo, em jeito de descargo de consciência, uma edição sintética da obra da responsabilidade de Manoel de Faria e Sousa. Registe-se aquilo que os ingleses sublinham logo após o título da obra de Semedo: «História da Grande e Reputada Monarquia da China… escrita em italiano por F. Alvarez Semedo, um português…. traduzida agora para inglês, por pessoa competente,…. com o objectivo de satisfazer os curiosos e engrandecer o comércio da Grã Bretanha». Sempre presente, o conhecido pragmatismo britânico.

Documento valiosíssimo para o estudo das relações diplomáticas, comerciais e ideológicas entre a Rússia e a China nos finais do século XVII, também o diário do jesuíta Tomás Pereira, redigido em 1689, ficou inédito durante quatro séculos. Até hoje, os estudiosos recorriam ao diário elaborado pelo seu companheiro de jornada, o francês Francis Gerbillon. Esse sim, veria a sua prosa publicada em França ainda no século XVII. Quanto às minuciosas observações do português, teriam de aguardar que o jesuíta norte-americano Joseph Sebbes as ressuscitasse, em 1961, com a publicação do excelente livro “O Diário do Padre Tomás Pereira” que em boa hora o Instituto Cultural deu à estampa.

 

Joaquim Magalhães de Castro, escritor e investigador da Expansão Portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

 

 

 

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Ser Transformado

 

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«A Transfiguração» é a passagem da vida de Jesus Cristo que nos é narrada  neste Segundo Domingo da Quaresma. É um acontecimento presenciado apenas pelos apóstolos mais íntimos –  Pedro, João e Tiago – e de características tão particulares e extraordinárias que o próprio Jesus,  «ao descerem do monte, deu-lhes esta ordem:‘Não  conteis a ninguém esta visão, até o Filho do homem ressuscitar dos mortos.‘» Ao mesmo tempo e pelo mesmo texto,  podemos ainda entender  que  «a Transfiguração»  é como que uma antecipação daquilo que será, mais tarde,  «a Ressurreição ».

Contudo «a Transfiguração» e «a Ressurreição», embora sendo experiências da mesma natureza e ordem, elas, no seu contexto histórico,  revelam diferenças. A primeira acontece a meio da vida pública de Jesus e, depois do sucedido, Jesus e os seus três discípulos preferidos descem  ao vale, entram  na vida normal do dia a dia, convivendo com as pessoas do seu quotidiano. A   segunda, ao contrário, tem lugar ao fim da  vida de Jesus, após a sua morte e, em pouco tempo, Ele, o Senhor, sobe aos céus.

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Somos convidados a seguir o Senhor Jesus! Ele que é «o Caminho, a Verdade e a Vida». Em termos simples, diria que «a Transfiguração»  de Jesus Cristo é, para nós, a afirmação de que há momentos na história da nossa vida  que se tornam únicos, profundamente transformadores e criativos e que nos transportam a níveis da nossa existência de qualidade superior. Algo que, modestamente, podemos afirmar que se assemelha às palavras do texto sagrado quando descreve o Senhor : «O seu rosto ficou resplandecente como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz».  Mas, não foi com um «rosto resplandecente» que Moisés apareceu aos seus, depois de ter estado com Deus no monte Sinai?  Não foi Elias arrebatado «em luz e fogo»? Vindo à História da Igreja, quantos santos e santas ou quantos daqueles exímios em virtude que não conseguem esconder, no seu viver quotidiano, ‘o esplendor.. e… o odor de santidade’ de suas vidas ?

 

Na verdade,  há  momentos  privilegiados,  que são capazes de nos levar  a uma profunda transformação da nossa existência, dos nossos comportamentos e até das nossas características ditas temperamentais ou pessoais. Surgem situações na história das nossas vidas que são um verdadeiro ‘turning point’ na orientação do nosso estar neste mundo. Deparamo-nos  com experiências que,  finalmente,  provocam em nós uma verdadeira  «transfiguração» do nosso ‘ser e existir’. Mas, onde está a causa originária que torna possível que todos esses momentos, todas essas situações ou todas essas experiências de conseguirem  «a transfiguração» ou a transformação radical de uma pessoa ?

Voltemos à cena original, no cimo do monte. Num texto paralelo ao do texto deste Domingo, o de São Lucas,  Jesus é apresentado  a falar com dois homens. São eles Moisés e Elias, que, «tendo aparecido em glória, falavam da morte de Jesus, que ia consumar-se».  Aqui está a raiz daquela força regeneradora que é capaz de realizar «a transfiguração» de todo o homem ou mulher, sobretudo, de todos aqueles que acreditam no Senhor  Jesus : a Cruz, onde se encarna a Morte e a Ressurreição do Filho de Deus, Jesus Cristo.  Toda a Cruz, levada em nome de Jesus Cristo, apesar de nos fazer passar,  temporariamente,  pelo Sofrimento e pela e Morte – física, moral , espiritual – conduzir-nos-á sempre à «glória» da «Transfiguração»  e da      «Ressurreição ».  Aqui, mais uma vez,  recordo aquela frase do Senhor, tão conhecida, mas tão pouco compreendida e muito menos praticada : «Se alguém quiser vir após Mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua Cruz, dia após dia, e siga-Me.»

Para terminar,  a Palavra de Deus  transporta-nos à experiência íntima de Deus, que é, indubitavelmente, o fim último de toda a experiência de «transfiguração» : «Este  é o meu Filho muito amado, no qual pus todo o meu enlevo. Escutai-o »

Nós somos, por natureza, seres em contínua transformação. Somos, intrinsecamente, chamados à perfeição.  Somos, divinamente,  motivados a crescer como seres criados ‘à imagem e semelhança de Deus.’ Porém, não parece ser essa a conclusão que se tira ou a impressão com que se fica, quando entramos em muitos ambientes da nossa sociedade de Macau.

Luís Sequeira, sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

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O sândalo e a língua do nosso entendimento

FOTO pak tai desta semana (12)

 

  Um jovem da Peace Corps, essa guarda avançada dos interesses norte-americanos mundo fora disfarçada de organização não-governamental, argumentava – numa conversa que teve lugar na Dili Guest House, propriedade do timorense João da Costa, que também era taxista – que não havia razão para que o português fosse adoptado no território, uma vez que quase nenhum timorense dominava a língua. Não foi preciso responder-lhe. Um breve diálogo meu (em português) com o senhor João, com a sua mulher bastante mais nova, com o filho adolescente e a filha de sete anos, foi o suficiente para o desarmar. Mas o rapaz trazia a lição bem estudada, à semelhança de tantos outros, vítimas, conscientes ou não, de uma venenosa campanha orquestrada pelos média australianos tendo em vista desacreditar a língua de Camões. Essa é uma ameaça que vem de longe. Já em Maio de 2002, por ocasião das celebrações do aniversário da independência um artigo de opinião no jornal Age retratava Timor como “um Estado falhado” que herdara “o pior do fascismo português, do autoritarismo indonésio e do pós colonialismo marxista moçambicano”. Em Dezembro desse ano, na sequência dos motins na capital, a imprensa australiana voltava à carga, denotando uma redobrada ignorância acerca do sistema político e da sociedade timorense, com uma série de artigos que seriam reproduzidos nas páginas em inglês do jornal local Suara Timor Lorosae, contribuindo assim para a difusão de equívocos em todo o país. E o terreno era fértil, pois a ausência de efectivos meios de comunicação e de um sistema de transportes decente – que a ONU falhou em implementar –  propiciava a isso mesmo.

Aproveitando o embalo da conversa na pensão do senhor João, elenquei alguns factos históricos, começando por lembrar o rapazinho ianque que o período histórico de Timor começa precisamente com a chegada dos portugueses, em 1515, sendo então introduzida a escrita – do português, claro está – naquela que era até então uma sociedade animista de tradição oral.

Além do sândalo, o mel e a cera eram outros produtos locais bastante apetecíveis, trocados por objectos em algodão e metal, facas, espadas e machados. A ilha passaria a ser regularmente visitada por navios lusos, embora durante várias décadas não fosse considerada como um mercado abastecedor de Malaca. O panorama alterar-se-á após a segunda metade do século XVI, com a fundação de Macau. A China, via Macau, passa então a ser o principal consumidor de madeira de sândalo. Curiosamente, todo esse trato decorreu sem que houvesse qualquer estabelecimento estável de portugueses na ilha que, após a queda de Malaca (1641), começa cada vez mais a gravitar em torno da órbita da Cidade do Nome de Deus.

No Livro de Monções da Índia estão compilados uma série de documentos que nos elucidam acerca dessa íntima relação. Num decreto de 3 de Maio de 1672, o vice-rei Luís de Mendonça Furtado e Albuquerque “nomeia António Barbosa Lobo para capitão-general da cidade de Macau” lembrando que todo o procedimento “deve ter em conta o perigo holandês” e a importância das “viagens para Manila, Timor e ilhas associadas”. Numa missiva datada de 12 de Setembro desse mesmo ano, enviada ao vice-rei da Índia, o Príncipe Regente Dom Pedro menciona os “navios de André Pereira Reis indo para Macau”, mostrando satisfação com a nomeação do “mestre de campo Manuel de Melo como Capitão Geral das ilhas de Timor e Solor”.  Enviada a 10 de Dezembro de 1695, uma carta do vice-rei da Índia ao rei de Portugal explica “por que razão não se devem entregar as viagens a Solor e Timor aos residentes de Macau”, e numa outra, datada de 15 de Dezembro de 1698, coloca a possibilidade de “deixar o comércio de Macau, Timor e Solor” para a Coroa Portuguesa, que assim teria exclusividade nesse trato.

IIM LOGOTIPO - 2015 (17)

Joaquim Magalhães de Castro, escritor e investigador da Expansão Portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

 

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