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O Sopro de Pak Tai: Neurastenia oitocentista e o mito ariano

 

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Na sua obra Entre chineses e malaios, o cardeal José Costa Nunes, bispo de Macau, responsável pelas missões de Malaca, Singapura e Timor, nas primeiras décadas do século XX, dá-nos prova da vitalidade das comunidades cristãs aí existentes, sobretudo as de Serembam e Kuala Lumpur, para onde viajou na companhia de “um português de Malaca chamado Lopes”. Ali o esperavam 200 luso-descendentes, entre os quais funcionários do governo inglês, médicos, advogados, professores, negociantes, proprietários, empregados bancários e de companhias comerciais, “muitas senhoras e homens”, enfim, toda uma população eurasiana exprimindo-se em papiá kristang e vangloriando-se dos seus apelidos e da sua ascendência lusitana.

Talvez devido a essa experiência no terreno, o prelado açoriano insurgiu-se contra a posição, nesta matéria, de uma das mais importantes figuras da intelectualidade portuguesa do final do século XIX, o historiador, político e cientista social Joaquim Pedro de Oliveira Martins. Costa Nunes escreve o seguinte: “Quando os escritores de qualquer país procuram reivindicar glórias nacionais, Oliveira Martins parece sentir um prazer cruel negando-as, como acontece, por exemplo, na questão da prioridade do descobrimento da Austrália atribuído a Manuel Godinho de Erédia, natural de Malaca”.

Assumindo uma toada derrotista e sofrendo da neurastenia que afectou os homens da sua época, Oliveira Martins atribuía a posse de Macau a “um bando de piratas portugueses”, sendo que, em sua opinião, Malaca não passava de “um convento e um quartel onde os frades e os soldados mercadejavam”, considerando miseráveis as populações mestiças da cidade e, classificando-as de “degeneradas, simiescas e abjectas”. Eis alguns dos seus mimos: “Sobre todos se levanta o português, com a sua Erx, templo ou fortaleza, que devia ser de civilização ou extermínio, e que por fim, lástima é dizê-lo, foi apenas a nau que nos levou, aos portugueses de Malaca, a descermos à condição de degenerados, poluindo o nosso sangue ariano, esquecendo as nossas tradições europeias. Já disse com melancolia que ainda hoje há «portugueses» em Malaca, mas que esses portugueses são como os orangbemas. Em contacto com a caducidade venenosa do Extremo Oriente, intoxicámo-nos.”

Iria mais longe o reputado escritor, assumido “vencido da vida”, ao perfilhar as apreciações de um antropólogo, um tal Dr. Yvan, que teria analisado a compleição física dos cristãos portugueses de Malaca, afirmando que estes “são fisicamente horrendos e moralmente abjectos, que têm feições bestiais, que são uns degenerados morais, que são inferiores aos malaios e que já se lhes apagou da memória a tradição, essa saudade das raças decaídas”. Enfim, um pensamento protofascista muito na linha do filósofo francês Arthur de Gobineau, autor do Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas (1855) e inventor de um dos grandes mitos do racismo contemporâneo, o mito ariano, sendo dele a célebre frase: “Não creio que viemos dos macacos mas creio que vamos nessa direcção.”

Recorde-se que foi em homens como Gobineau, e mais tarde no inglês Houston Stweart Chamberlain, que Adolf Hitler buscou inspiração para pôr em prática a sua tristemente célebre “solução final”.

Tal como Gobineau, Oliveira Martins era declaradamente racista, pois defendia a tese de que os povos formados a partir do negro e do índio eram incapazes para o tão desejado progresso. Parece óbvio que o insigne historiador nunca pôs os pés no Extremo Oriente, se alguma vez chegou a sair do rectângulo ibérico, que tanto admirava, pois era um convicto iberista.

Persistentes, cônscios das suas tradições centenárias, os habitantes do bairro, os tais orangbemas de que falava Oliveira Martins, felizmente sobreviveram a todas essas teses e continuam a celebrar o Natal, o Entrudo, a Páscoa e, sobretudo, a Festa de São Pedro, padroeiro dos pescadores, em finais de Junho, incluída no calendário oficial dos serviços de Turismo da Malásia. A mais concorrida festividade do país, o San Pedro, como lhe chamam, é excelente pretexto para reencontros entre residentes e seus familiares de Singapura, Kuala Lumpur e demais províncias malaias.  Mas a respeito dessa festa falaremos em futuras crónicas.

IIM LOGOTIPO - 2015 (15)

Joaquim Magalhães de Castro, Escritor e investigador da Expansão Portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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O retorno dos imbecis

 

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De repente, as redes sociais, com toda a sua parafernália tecnológica, não são exatamente um espaço da liberdade e da modernidade. E, muito menos, espaço de tolerância e de humanização. As opiniões, quando postadas, passam pelo escrutínio dos moralistas de serviço e dos que, à esquerda e à direita, como se tudo se resumisse a gregos e a troianos a que se devam agradar, transformam um simples post no passaporte para o inferno astral.

E, se calhar não tão de repente assim, depois das denúncias de Edward Snowden, ninguém mais se sentiu livre e imune de ser vigiado e caçado no e pelo World Wide Web, havendo para cada um de nós os limites de uma grande censura e, certamente, de uma insidiosa autocensura, menos aparente, mas mais formidável do que o Muro de Berlim.

Todavia, tanto como as grandes agências que espiam e escutam, classificam, catalogam e indexam nossas informações – tudo o que acionarmos  nos smartphones, iPads, Blackberrys e os demais aparelhos dos vários sistemas operacionais -, quer estejamos no  Google, Apple, Facebook, Microsoft ou simplesmente a telefonar das nossas casas ou a usar um cartão de crédito no restaurante da esquina, as pequenas entidades, às vezes grupos de opinião e tribos de interesse pela net fazem as vezes da antiga Santa Inquisição.

As patrulhas do pensamento, cada vez mais profusas e difusas, por vezes mais próximas do que julgamos, com ares da moral e dos bons costumes, quando não armados em donos das verdades, impõem-nos condicionamentos à livre expressão, baseados no ditame das novas razões. Isto me remete ao que se sabe da Idade Média Europeia, aos hediondos regimes autoritários ainda pelo mundo e ao presente radicalismo religioso que pretende sacralizar o terror.

Tudo isso, que é presente e é recorrente, me veio a propósito da polémica criada e empolada em torno do jornalista português Joaquim Vieira, quando escreveu serem os jogos paralímpicos um espetáculo grotesco. A opinião foi tomada em contextos profusos e o jornalista entrou num turbilhão de críticas assanhadas e pedradas morais. Bem que Umberto Eco havia alertado (ele também recebera seu quinhão de pancada) sobre a contingência do “direito à palavra” a uma legião de imbecis que, do palco particular da tasca ou do café da esquina, ascendeu a um palanque global e tecnológico desta Ágora moderna.

Preocupa-me o inexorável retorno da dominação, trazendo à ribalta, hoje dos timelines, o drama de Galileu e, mais recentemente, de Rushdie, ambos perseguido pelo karma do silêncio. Os imbecis de ontem e hoje incomodam-me pelo prospeto do mito do eterno retorno.

À parte o “direito à palavra” dos imbecis e a responsabilidade que tal direito tem como consequência, incomoda-me extremamente a violência com que muitos reagem nas redes sociais. Em verdade, nem se trata de um direito à palavra, mas de uma pulsão pelo julgamento. E estou a me referir não apenas aos que se escondem em comentários “anónimos”, mas aos que, assumindo “corajosamente” sua identidade real,  covardemente  escrevem horrores, agem agressiva e deselegantemente quando se deparam com murais contendo afirmações com as quais não concordam, remetendo à fogueira e/ou à decapitação os detentores de opiniões divergentes.

Joaquim Vieira, que a mim não parece estar no circuito dos imbecis referido por Eco, talvez tenha extrapolado às redes sociais o que no café ou em casa seria melhor contextualizado e compreendido.  A síntese do seu post gerou uma celeuma que poderia ter sido evitada se mais fundamentada, o que veio a fazer dias depois, após ter sido agredido e ameaçado pelos justiceiros de plantão na rede.

Ainda assim, parece-me que foi muito positivo o comentário de Joaquim Vieira, que desencadeou um aceso debate sobre os jogos paralímpicos e levou aos “mansos de espírito” a coragem de se perguntarem a que aplaudimos quando aplaudimos um campeão paralímpico?  O que dizer do nosso desejo de não nos “incomodar” ver, viver ou conviver com as pessoas portadoras de deficiências? Serão os jogos, pela maneira como são produzidos e disseminados, elementos vitais e estruturantes para o afrontamento da discriminação a que os “portadores afinal da diferença” estão votados?

Obrigada, Joaquim Vieira, o seu post, polémico ou não, mostrou o incómodo de certos assuntos, quando afrontados fora do viés estabelecido, e que podem ser discutidos e “tematizados” em tascas e cafés. E, apesar dos censores de serviço, também no engodo e engano das redes sociais. Ou, ainda que não concorde com sua ideia, uma coisa é certa: você tem todo o direito de expressá-la.

 

Márcia Souto. Cronista brasileira radicada em Cabo Verde. Escreve neste espaço uma vez por mês.

 

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Portugueses em Macau: Um olhar distanciado

 

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Concluído que está o segundo documentário sobre a temática da singularidade de Macau por via dos “olhares” de quem a viveu e a vive através duma linguagem (ou gramática social) que se expressa em português, cumpre-me tecer algumas considerações e mesmo alguma antevisão sobre o tema.

 

A razão deve-se ao facto da possibilidade de ter tido acesso à visualização antecipada do original (ainda não estreado) do documentário “Portugueses em Macau: O outro lado da história”, da Produtora LivreMeio com a assinatura de Carlos Fraga e Helena Madeira na realização e produção, autores que já nos deram há bem pouco tempo, uma visão sobre os Macaenses em Lisboa: Ilusão ou realidade e que mobilizou uma sala cheia no anfiteatro do Museu do Oriente na sua ante-estreia.

 

A contextualização da comunidade portuguesa em Macau alicerça-se na própria fundação de Macau e mistura-se na história do seu passado longínquo assim como nas vivências de um presente recente que incorpora a nova RAEM (Região Administrativa e Especial de Macau), marcando o quotidiano dessa terra, tão longínqua e tão próxima, onde as memórias se misturam com as emoções e as vivências produzem os afectos que continuamos a sentir por ela, permitindo de alguma forma que o seu enquadramento na vida social se vá ainda demarcando pelo direito à diferença relativamente a outras presenças que por lá (aí) vão salpicando.

 

A particularidade da abordagem que agora o documentário nos traz, fala-nos pois um pouco desse sentimento e desse direito de pertença, daí a importância dos relatos que fundamentam hoje a presença dos Portugueses em Macau, já não é só pela sua herança histórica, por demais justificada, mas também pela forma como os Portugueses em Macau absorvem o sentimento de pertença fazendo com que sejam também eles elementos dessa singularidade.

 

As declarações e os depoimentos visualizados no documentário que agora se apresenta, conferem ao tema dos Portugueses em Macau um sentido genuíno das suas vivências e dos seus sentimentos, pelas suas palavras e pelos seus rostos, percorremos um caminho que pode marcar a perpetuação de um futuro onde a sua presença é elemento estruturante da sociedade e não apenas uma presença fugaz de elementos dispersos ou meramente assente na vã busca de uma emigração de uma vida melhor.

 

Os testemunhos relatados saem informalmente e sem a pretensão de um discurso estudado ou cuidado para justificar o que quer que seja, apenas nos contam pontos de vista de portugueses que vivem em Macau e como sentem a terra que também é deles mesmo que oficialmente estejamos hoje, em território chinês com a denominação de uma Região Administrativa Especial, integrada na República Popular da China chamada de Macau.

 

Esta nova forma de abordar o tema de Macau leva-nos para um patamar onde a questão da inclusão desta comunidade como elemento “vivo” da realidade social deva ser tratado como elemento de diferenciação e de caracterização e que, ao contrário do que possa parecer ou transparecer, não se vai ancorar na base economicista dos seus actores (apesar da mesma poder estar presente) mas sim na estruturação (ou pelo menos numa das razões) do modelo social que a torna singular.

 

Macau, sem a presença dos Portugueses (aqui incluindo o segmento dos macaenses filhos da terra) não será por certo a sociedade que hoje transparece, os depoimentos que o documentário nos traz são disso um exemplo, quer pela via institucional, associativa ou meramente individual, a alma de Macau ainda repousa nesta minoria que lhe vai dando o colorido que a distingue dos demais espaços da Asia no geral e da China em particular.

 

A ante-estreia (aqui em Portugal) apenas está prevista para meados de Janeiro de 2017, com a possibilidade de passagem em data a anunciar na RTP2. Nessa altura provavelmente voltarei ao tema mas, desde já fica o meu reconhecimento a todos aqueles que colaboraram no documentário dando as suas palavras e o seu rosto ou apenas em tarefas de bastidor, com especial nota de apreço à Casa de Portugal em Macau que partilhou desde cedo com o alinhamento desta faceta que marca a presença dos Portugueses em Macau.

 

 

“A presença dos portugueses residentes em Macau transparece a alma lusófona que legitima o próprio lugar, são eles que dão corpo, no dia-a-dia e no quotidiano que se vive, à singularidade que caracteriza o lugar, com eles vivemos as emoções e a pertença a um lugar que também é parte da sua vida”.

(extraído da cronica de 7/Outubro/2015 Ponto Final)

 

 

 

 

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Carlos Piteira

Investigador do Instituto do Oriente

Docente do Instituto Superior de Ciências Socias e Politicas / Universidade de Lisboa

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Tatyana McFadden has won medals at the Paralympic Games in 2004 and 2008. At this year's games in London, she's participating in every wheelchair race from the 100-meter sprint to the marathon.

Jogos Paraquê?

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Percebe-se o esforço do Comité Olímpico Internacional para dar aos Jogos Paralímpicos a mesma dignidade que têm os Olímpicos, e percebe-se igualmente o sentido de missão das televisões no assegurar de alguma informação sobre os mesmos. Mas logo neste ponto começam as diferenças, com uma emissão mais reduzida na RTP, uma transmissão da cerimónia de abertura onde foi notória a falta de informação (ao contrário do que acontece com os Olímpicos, aqui os atletas eram quase sempre apenas atletas e não nadadores, maratonistas, saltadores, etc) e a certeza de que, em casa, não poderemos vibrar tantas vezes com as provas como há um mês.
Haverá algum motivo para que Olímpicos e Paralímpicos decorram em separado? Há a logística, claro, mas não parece um argumento impossível de contornar. Desportivamente, o que leva um Comité a separar desportistas em função das suas capacidades, colocando uma fronteira absoluta a partir de determinado grau de incapacidade? Qual é o grau, quais são as capacidades, como se mede tudo isto para que possa tornar-se aceitável? Dir-me-ão que não é justo colocar na mesma prova alguém que usa as duas pernas para correr e alguém que corre sentado numa cadeira. Certo, do mesmo modo que não é justo colocar em combate um judoca de 50 kg e um de 100 kg, e é por isso mesmo que há categorias no judo – mas no fim, é tudo judo. Seria impossível termos uma prova olímpica onde os atletas fossem apenas atletas e competissem nas categorias apropriadas para que um mínimo de justiça assegurasse a competição? E onde os desportos fossem frequentados por quem quisesse, desde que as regras fossem iguais para todos? Por exemplo, basquete em cadeira de rodas só pode ser jogado por pessoas que não se locomovem sem a cadeira? E isso tem sentido? Se sentarmos um jogador com as duas pernas funcionando em pleno numa cadeira adaptada e o prendermos, damos-lhe as mesmas condições para jogar basquete em cadeira que a todos os outros. É um desporto, joga-se em cadeiras, não tem de ser um “desporto para incapacitados”. O mesmo acontece com o futebol, que nos Paralímpicos se joga sem o recurso à visão e com uma bola que tem dentro um sino. Veja-se o anúncio recente da UNICEF, em que a equipa do Barcelona defronta a equipa espanhola deste futebol num duelo de penaltis, usando, para assegurar a igualdade, vendas nos olhos. Não é preciso ser-se cego, basta que não se utilize a visão e esta pequena mudança de ângulo é a que, parece-me, podia juntar Olímpicos e Paralímpicos numa só competição.
A questão não é nova nem original, descubro depois de uma pesquisa rápida na internet. Os primeiros Jogos Paralímpicos aconteceram em 1960 e só em 1992 são organizados conjuntamente com o Comité Olímpico Internacional, associando-se aos Jogos Olímpicos. O que mudou nesse caminho não tem por que parar, pelo menos é o que pensam vários atletas, que defendem a junção das duas competições numa só. Outros há que acreditam ser essa junção uma má ideia, pelo protagonismo que roubará ao desporto praticado por atletas com alguma espécie de incapacidade física ou mental.
Com a prática desportiva deixada lá longe, numa biografia que passa mais pela biblioteca e o sofá, parece-me que na ânsia de atalharmos caminho para a inclusão, meta tão desejável, talvez nos esqueçamos que há coisas que não precisam de ser separadas para depois para elas reclamarmos igual estatuto. Os Jogos Olímpicos podiam ser apenas os Jogos Olímpicos, com atletas concorrendo em provas de diferentes categorias, como aliás já acontece. Poupávamo-nos aos discursos bem intencionados e à escandalosa diferença de tratamento (televisivo, de patrocínios, etc) entre as duas provas. Se calhar, assistiríamos a quatro atletas que concorreram nos Paralímpicos a ganharem o ouro nos 1500 metros, visto que correram mais depressa que os atletas dos Olímpicos. E ganhávamos em conhecer outros desportos e outros modos de alcançar objectivos semelhantes. Como inclusão, parece-me mais eficaz do que todos os anúncios feitos para dizer que os atletas com alguma espécie de incapacidade são iguais aos que não a têm. Ninguém é igual a ninguém, o que nos cabe é garantir que toda a gente tem acesso aos mesmos direitos, inclusive os desportivos. Isto digo eu a partir do sofá, onde me sinto tão incapaz de acompanhar Usain Bolt nos 100 metros como de projectar o judoca Miguel Vieira, que se classificou em 9º lugar nos Paralímpicos, no tapete.

Sara Figueiredo Costa, jornalista e critica literária. Editora do suplemento “Parágrafo”, publicado uma vez por mês no PONTO FINAL.

 

 

 

 

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O sopro de Pak Tai: Yasuke, o samurai negro

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Num permanente comutar de um lado para o outro, o japonês é o protótipo do passageiro aborrecido, pronto a consumir tudo o que o ajude a matar o tempo, sendo por isso o alvo ideal de todas essas revistas de cordel que proliferam no mercado como cogumelos em terreno húmido, em todos os tamanhos e feitios. As revistas de banda desenhada (em japonês, “manga) são um negócio muito lucrativo. As mais populares saem semanalmente e contêm várias centenas de páginas, o que faz delas autênticas Páginas Amarelas impressas em papel de jornal de várias cores.

Revistas de “mangapodem ser adquiridas, ainda com o cheiro a tinta, nas bancas ou nos minimercados abertos 24 horas, junto às Noodle Cup, barras de Sneakers ou pacotes de saquê Tetra Pak. Podem obter‐se ainda, gratuitamente, em segunda, terceira ou quarta mão, nos caixotes do lixo, bancos de jardins públicos ou nos porta‐bagagens dos comboios, que funcionam como uma biblioteca itinerante.  

O conteúdo das histórias dessas bíblias de consumo fácil (lidas pela população masculina, sobretudo estudantil, embora exista um mercado paralelo, mais reduzido, destinado ao público feminino), a julgar pelas imagens – já que as palavras são um enigma para quem desconheça as três diferentes formas de escrita japonesa –, é banal e o desenho estereotipado. Os ingredientes são os habituais: violência, sexo, humor e desporto. Em todos os números surgem, fatais como o destino, as habituais historietas de basebol, o desporto‐rei; de sumo, o desporto nacional; e de golfe, a paixão do salaryman. Contudo, o que mais chama a atenção é a presença de um erotismo pornográfico bastante evidenciado. E aqui o «complexo de Lolita» – que aflige uma parte da população masculina, no Japão – transparece nitidamente. Mas, para que não os acusem de imorais, os censores puritanos encarregam‐se de ocultar as partes íntimas com um pequeno quadrado negro ou mesmo apagando a imagem, pois há uma lei no Japão que proíbe a exibição de pêlos púbicos em público.

Mas é claro que há excepções à regra e podemos encontrar “manga” de excelente qualidade. A acrescentar aos géneros atrás citados, ressalvo a “manga” de teor histórico, que me interessa de sobremaneira. Cito, a título de exemplo, a “Afro Samurai”, inspirada em Yasuke, pretenso primeiro e único samurai negro em terras do Sol Nascente. Arribou ali no distante ano de 1579, na condição de escravo, sendo seu senhor e mestre o jesuíta Alexandre Valignano, que o levou com ele à corte de Nobunaga, onde foi motivo de muita atenção e espanto, pois “era um homem negro nunca antes visto em Quioto”, e, por isso,“a multidão acotovelava-se para apreciá-lo”, como nos dá conta o jesuíta Luís de Fróis, o seu primeiro fisionomista, em carta enviada ao seu colega Lourenço Mexia.

Se até então os negros que integravam as guarnições da Nau do Trato e demais embarcações (bem os vemos retratados nos biombos namban) que mercadejavam entre Macau e os portos nipónicos não deixavam os navios, quando muito deambulavam pelos cais, Yakuse (de origem congolesa, para alguns historiadores; moçambicana, para outros; etíope, para os demais) teve o privilégio de visitar e conhecer o unificador do Japão e de tal modo o impressionou que este o convidou para a sua guarda pessoal, estatuto que honraria com tal lealdade e destemor ao ponto de lhe ter sido concedido, ao que parece, o estatuto de samurai. Tal era a empatia – reza ainda a história – que Nobunaga lhe concedeu em casamento uma das suas filhas adoptivas. Fosse ou não samurai, a verdade é que, desde então, a figura de Yasuke se impôs no imaginário popular do Japão.

Antes de virar trama de manga, a história deste gigante africano (consta que tinha quase dois metros de altura) vagabundeou como personagem de histórias infantis – o “Kuro-suke, lançado na década de 1940, com palavras de Yoshio Kurusu e ilustrações de Genjirou Minoda – e uma série televisiva da NHK, “Nobunaga, rei de Cipango” onde é chamado de Sotero.

Mas, “o que tem isto a ver com Macau?”, questionar-se-á, com toda a legitimidade, o caro leitor. Pois, tem tudo a ver, já que Valignano antes da partida para o Japão permaneceu em Macau durante um ano, e nessa altura acompanhava-o já o servo africano, se bem que não se conheça qualquer referência nos escritos do visitador. Assim sendo, Macau constituiu a primeira experiência do Extremo Oriente para o africano. Seria interessante saber quais as suas impressões sobre tão estranha realidade e como foi aqui recebido, se bem que já então fosse usual a presença de negros na cidade. Se não há qualquer registo conhecido da passagem de Yasuke por Macau, há-o nas crónicas japonesas da época que equiparam a cor da sua pele “à cor do carvão” e a sua força “à de um touro, maior do que a de dez homens”.

Luís de Fróis menciona por diversas vezes Yasuke nos relatórios que envia para Roma, relatando-nos um episódio que, pelo insólito, ficaria para a história. Quanto Nobunaga conheceu o escravo ficou de tal forma impressionado que “ordenou que lhe tirassem a roupa e o banhassem para ter a certeza que o seu tom de pele era natural”. Contudo, ao invés de perder a cor, quanto mais era era lavada mais “se tornava negra e luzidia” a pele de Yasuke.

IIM LOGOTIPO - 2015 (19)

Joaquim Magalhães de Castro, Escritor e Investigador da Expansão Portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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Ecos de Miguel de Arriaga

 

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A história ensina-nos que em períodos de mudança mais forte, o pêndulo oscila de um extremo para o outro sem nunca ficar no meio. Foi num desses períodos que o Ouvidor Miguel de Arriaga colocou a sua impressão digital nos destinos de Macau. Portugal, acossado pelas invasões napoleónicas, assistia à deslocação da Corte para o Brasil (criando as condições perfeitas para a futura independência da colónia), algo que também viria a aquecer o caldeirão de onde nasceria o liberalismo português. Por outro lado colocaria Portugal, desfeito o sonho unificador de Napoleão, na órbita da Grã-Bretanha que, durante décadas se tornou a grande potência mundial. Macau era apenas um porto que, no meio deste intenso xadrez político, económico e global, procurava sobreviver. Tendo nas suas costas o imenso, e aparentemente calmo, poder imperial chinês. Miguel de Arriaga viveu neste período labiríntico, onde era quase impossível lutar contra poderes mais vastos do que aqueles, longe do poder central, que detinha em Macau. Aliou táctica e estratégia e conseguiu criar um modelo para o território. Foi uma influência determinante num romance que escrevi há uma década, “O Navio do Ópio”, que o colocava como o cérebro de uma plantação experimental de ópio no Porto Santo (Madeira) com vista a conquistar o mercado americano. A empresa soçobraria devido aos interesses britânicos. Mas fiquei sempre fascinado pela sua figura e pela sua ascensão e triste ocaso em Macau. O desafio mais difícil para um político visionário é sempre sobreviver ao seu próprio êxito. Sobretudo para quando as memórias do passado se convertem numa moléstia permanente para quem lhe sucedeu.
Miguel de Arriaga fez com que um pequeno porto, que vivia do comércio e da diplomacia, sobrevivesse a todas estas vagas de águas turbulentas. Numa altura em que o império britânico buscava um polo permanente para a sua presença nos mares da China. Não era um acaso. A East India Company britânica tinha apetites monstruosos para sistematizar o seu negócio triangular entre a Índia, a China e a Grã-Bretanha. A zona de Cantão tinha vantagens naturais, na localização e também na topografia, que lhe conferiam um lugar de destaque para a possibilidade do comércio com o exterior. Os ventos da monção permitiam aos navios percorrer o Oceano Índico, os mares árabes e do sul da China. Quando a monção acabava em Outubro, os navios continuavam em Cantão para uma temporada de quatro meses de comércio, porque os ventos da monção de nordeste começavam em Janeiro e eram o fôlego necessário para o regresso à Índia e à Grã-Bretanha. A zona do rio das Pérolas era perfeita para o comércio. Hong Kong não nasceria de um acaso.
Nada de tudo isto, e da própria actividade de Miguel de Arriaga, podem ser dissociado da acção tentacular e predatória da East India Company que, no seu auge, tinha um exército particular de 200 mil homens, mais do que muitos Estados europeus. Monopólio independente do Estado britânico, mas ligado a ele por interesses dos seus próprios investidores, garantiu a acumulação de capital que as elites portuguesas, por exemplo, nunca aspiraram. São hoje conhecidas as actividades políticas da East India Company no exterior, para corromper líderes locais em troca de benefícios comerciais. Não só providenciava o Estado britânico com impostos, mas alargava a sua esfera de influência política tendo como base o comércio e funcionava como inovadora na arte de governar. A criação do conceito de funcionário público baseia-se em muito na forma como administrava o seu vasto império. O seu poder começou a eclipsar-se na altura em que Miguel de Arriaga governava Macau. A sofreguidão dos accionistas fez com que a East India Company começasse mais a pensar nos lucros do que no simples comércio. Adam Smith criticou-a como um monopólio pouco exemplar. Foi nesse momento de fraqueza da companhia britânica que Miguel de Arriaga viu a hipótese de Macau ganhar um quinhão no lucrativo negócio do ópio e do comércio entre a China, a Europa e a América. Faltou-lhe o músculo e sobrou-lhe o conhecido desinteresse com que a elite de Lisboa e Rio de Janeiro olhavam para Macau. Foi um personagem fascinante. A que, por certo voltarei um dia.
Fernando Sobral, jornalista e escritor. É o autor de “O Segredo do Hidroavião” e “As Jóias de Goa”.

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O Sopro de Pak Tai: As “peipeis” de Perckhammer

 

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Conheci Huang Zi, uma dessas esbeltas chinesas da região de Xangai, na recepção de um pequeno hotel em Lasa. Nos breves minutos em que trocamos impressões (nessa já longínqua década de 1990) deu-me a conhecer a sua paixão pela paisagem do planalto tibetano e pela sua gente. Com um sorriso cativante estampado no rosto mostrou-me o seu caderno de desenho com os esboços que tinha feito durante um mês de viagens efectuadas pela região. Estava de abalada. Voltamo-nos a encontrar um ano depois. Em Pequim. Acabara de se formar em gravura na Escola de Artes Plásticas Etching, a única do género em toda a China. Situada no centro de Pequim, numa travessa paralela à movimentada zona comercial de Wangfujing, aparentava ser apenas mais um dos muitos edíficios estatais deixados ao desleixo. No entanto, no fim de cada ano lectivo, licenciava-se aí a fina flor dos artistas plásticos chineses.

Huang Zi Tinha vários trabalhos seus – integrados numa mostra colectiva – expostos na galeria da escola. Falava-me do Tibete e dos tibetanos de uma maneira muito singular. Vi, com agrado, que a semente tinha germinado e dado um valioso fruto.

Recebeu-me no modesto quarto que partilhava com sete colegas suas: quatro beliches, várias estantes com livros, uma mesa e algumas cadeiras. Aí viviam e conviviam as oito jovens. Não se pode dizer que as condições fossem as melhores. Na China dessa época a privacidade era um verdadeiro luxo.

Foi no decorrer dessa minha visita que Hung me falou do fotógrafo tirolês Heinz von Perckhammer, “conhecido pelos seus nus chineses e cenas de rua de Pequim”, algumas das quais de templos e monges budistas tibetanos, daí o interesse da pintora chinesa. Com a curiosidade espicaçada, logo  procurei saber mais sobre o mencionado artista austro-húngaro, que em 1928 publicou em Berlim dois volumes com fotografias suas: um deles, com as tais “cenas de rua de Pequim”; o outro, intitulado “a cultura do nu na China”, com mulheres chinesas inteiramente despidas, em poses cuidadosamente estudadas, e com uma particularidade. Todas elas viviam em Macau, ou melhor dizendo nos muitos bordéis de Macau.

Perckhammer nasce em Merano, império austro-húngaro (hoje cidade italiana), a 3 de Março de 1895. Em plena Primeira Grande Guerra, integra a guarnição do vapor “SMS Kaiserin Elisabeth” que participa no cerco de Tsingtao, tendo sido feito prisioneiro de guerra pelos japoneses na sequência da missão militar. Após a sua libertação, em 1919, Perckhammer permanece na China durante alguns anos e terá sido nessa altura que visita Macau, muito provavelmente as casas das “peipeis” da Rua da Felicidade, onde virá a imortalizar algumas das suas residentes. Nada mais se sabe acerca das suas vivências asiáticas, a não ser que consegue levar clandestinamente as arrojadas fotos, “de jovens mulheres chinesas, algumas quase adolescentes, em poses românticas”, para a Alemanha.

Um ano após a publicação da polémica obra, em 1929, Perckhammer, agora fotojornalista ao serviço do semanário ilustrado berlinense “Die Woche” acompanha o dirigível LZ 127 Graf Zeppelin na sua volta ao mundo. Sabe-se que em 1932 Perckhammer tem estúdio próprio em Berlim e se especializara em nus e fotografia de moda. No final de 1930 algumas de suas imagens são utilizadas como propaganda pela KdF (Kraft Durch Freude), movimento de massas patrocinado pelo partido nazi, e durante a Segunda Guerra Mundial Perckahmmer serve nas Waffen-SS como fotógrafo de guerra. Curiosamente, os nacional-socialistas acabam por colocar o seu livro no index, a denominada “lista de escritos nocivos e indesejáveis”, razão pela qual apenas algumas cópias sobrevivem intactas aos horrores da guerra. Outro dos factores que contribuem para a sua escassez é a técnica de encadernação utilizada. Com o passar do tempo, a apertada faixa de seda da lombada faz com que as páginas se rasguem sempre que o livro é totalmente aberto. Isto, apesar da qualidade de impressão ser excelente, como excelente era a escolha do papel.

Com o estúdio bombardeado (em 1942) e o fim da guerra, Perckhammer opta por regressar a Merano, onde vive até à sua morte, ocorrida a 3 de Fevereiro de 1965. Hoje, Heinz von Perckhammer é considerado um dos “grandes fotógrafos alemães desconhecidos”, e os seus livros verdadeiras raridades, sendo, por isso, muito procurados.

“Confesso que até gosto do seu trabalho, embora não suporte a arrogância que desde sempre manifestou, ao ignorar e desprezar a milenar arte erótica chinesa”, desabafava Huang Zi.

Recorde-se que Heinz von Perckhammer estava convencido de ter criado com as suas fotografias “algo de inteiramente novo e de valor na China”. De valor, sem dúvida que sim. Agora “novo”, nem por isso. Desde a antiguidade e até ao fim da dinastia Qing, a arte erótica sempre foi uma realidade na China, fosse na pintura, fosse na escultura. Não obstante, para o tirolês, as magníficas e hoje mui divulgadas ilustrações eróticas, mais conhecidas como “pinturas da Primavera”, não passavam de “caricaturas feias e sem interesse”.

 

Joaquim Magalhães de Castro, escritor e investigador da expansão portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

IIM LOGOTIPO - 2015 (15)

 

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