CHAMADOS À CONSOLAÇÃO  

Escapar no momento difícil é uma constante do comportamento humano. Evitar, num primeiro instante, a cruz ou a dor da nossa existência quotidiana apresenta-se como algo natural, instintivo. Portanto, não é de admirar ver  «dois discípulos de Jesus… a caminho duma povoação chamada Emaús, que ficava a duas léguas de Jerusalém», depois de tomarem conhecimento ou terem assistido a tudo aquilo que por lá tinha sucedido, concretamente, «de como os sacerdotes e chefes do povo entregaram (Jesus de Nazaré) para ser condenado à morte e crucificado».

Embora, na circunstância, o abandonar tudo sem esperança se revele como uma inclinação muito forte,  irresistível,  não quer dizer que ela seja a mais correcta.  Assim nos parece dizer o texto do Evangelho deste Terceiro Domingo depois da Páscoa. O Senhor Ressuscitado vai utilizar toda uma outra pedagogia no sentido de ajudar os seus discípulos, em angústia profunda. a enfrentar essa sua reacção muito humana inicial de procurar evitar  a situação crítica, difícil e dolorosa e desaparecer. O Senhor Jesus vai, pelo contrário, procurar consolar os seus corações conturbados e aflitos.

Na verdade, consolar o coração é característica dos encontros de Jesus, depois da Sua Ressurreição. A experiência da Agonia, da Morte, do Túmulo a que o Senhor Jesus se sujeitou e, pior ainda, a experiência da aparente ausência de Deus em toda esta realidade tão cruel destroçou os corações dos seus amigos mais íntimos, quer apóstolos quer discípulos. Os dois que seguiam na estrada de Emaús nada mais são que a expressão viva do quanto os acontecimentos daquele fim de semana tocaram  os membros daquela  primeiríssima comunidade cristã: «Nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel. Mas afinal é já o terceiro dia depois que isto aconteceu». Esperança perdida! Corações tristes e desiludidos!

O facto histórico da Ressurreição, iluminado pelo dom da fé, por si só, pareceria ser suficiente para mostrar que Jesus Cristo venceu o Sofrimento, a Angústia, e a Morte. Mais. Pareceria ser convincente para que todos acreditassem que Ele, o Senhor Ressuscitado, tinha destruído, de facto, o poder do Espírito do Mal, raiz e a fonte de todo o Pecado que entrou e continua a afectar a Humanidade. Por outras palavras, ao tornar-se  verdadeiro Homem, vivendo  na sua própria carne todos esses passos da fragilidade humana, Jesus Cristo, ao terceiro dia, quando ressuscitou, conseguia, assim, essa poderosa e decisiva  vitória sobre todos esses limites e imperfeições da natureza humana. Constatamos, porém, que, deste tão proclamado Mistério Pascal, isto é, a Morte e a Ressurreição do Senhor Jesus, temos um conhecimento bastante mais intelectual e espiritual,  mas bem pouco  existencial. Não sabemos como encarná-lo na nossa vida de cada dia.

Jesus Cristo ao acompanhar os discípulos que deixam para trás, em penosa desilusão, a cidade de Jerusalém,  apresenta-nos uma verdadeira pedagogia de como ajudar um coração destroçado por uma Angústia mortal e com a terrível sensação de que nada de bom existe em si e que apenas o mal o domina. O acompanhamento que Jesus faz aos discípulos, perdidos e atarantados,  pode ser modelo para todos nós de como trazer alguém das profundezas da dor e da confusão até à experiência pessoal da «consolação», que se expressa em liberdade interior, paz, amor e, por fim, um novo entusiasmo…

 

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Jesus, primeiramente, caminha ao lado, em silêncio. Sem interferir, escuta. Esta é a regra de ouro, se queremos, com verdade, ajudar quem se sinta acabrunhado pelo desgosto. Ouvir, antes de tudo o mais, simpatizando com o coração em lágrimas… 

Mas, com frequência, a via escolhida, nesta nossa terra de Macau, é falar, falar, falar… tagarelar… desabafar… Tanto conselho, tanta explicação, tanto discurso… Calemo-nos…! Demos espaço ao outro que deseja partilhar o seu pesar e procura, acima de tudo, um espírito e um coração acolhedores.

 Num segundo momento, Jesus entra na conversa. Para começar, pergunta delicadamente:«Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?». Depois, é introduzido no assunto propriamente dito quando Lhe respondem ao seu inquisitivo «Que foi?». Inteirado, então, do problema que preocupa os discípulos, o Senhor ajuda-os a compreender o sentido mais profundo dos acontecimentos referentes à morte de Jesus de Nazaré. Fá-lo exclamando: «Não tinha o Messias de sofrer tudo isso para entrar na Sua Glória?… Depois, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito. » Este é um exemplo acabado de como se deve conversar com uma pessoa perturbada interiormente por acontecimentos dolorosos.

Ao princípio, entabular respeitosamente o diálogo. Estar bem esclarecido sobre a problemática em questão, é o passo que se segue. Por fim, com apurada consciência dos diferentes aspectos e acompanhado de uma boa visão de conjunto, procurar dar sentido aos factos aparentemente desconexos e chegar a uma compreensão mais profunda, que ultrapassa aquilo que, à primeira vista, parece contraditório.

Macau. Contemplemos a nossa praça pública. Escutemos os nossos diálogos. Diálogos? Que diálogos? Cada um fala de si e para si, com os seus botões. Procura impor a sua mercadoria. Quantos preconceitos, juízos apressados, esquemas mentais anquilosados! São meias verdades que encobrem mentiras. Ambições solapadas que, maquiavelicamente, arquitectam pôr e dispor, usar e abusar, desfazer-se de pessoas a seu belo prazer.

Esclarecidos que estão os discípulos, Jesus afasta-se. Quer prosseguir o Seu caminho. É terceiro momento. Embora chamado a partilhar, como amigo e companheiro, as confidências dos dois viajantes. Ele, o Senhor, respeita a sua intimidade. Deixa a eles a liberdade de decidir o próximo passo. O convite surge, por fim, com insistência:«Ficai connosco, porque o dia está a terminar e vem caindo a noite». Partilhar a mesa não é para todos. Apenas alguns são chamados. Os verdadeiros íntimos do coração.

Uma vez mais,  reparemos na profundíssima delicadeza do trato do Senhor. A sua transparência interior. O respeito divino pela liberdade humana.. Após ter feito u favor, ajudando a discernir a verdade dos acontecimentos da Paixão do Messias, o Filho de Deus, retira-se rapidamente. Não se aproveita. Não abusa. Não força a entrada na intimidade, nem no coração, nem na vida particular dos seus amigos. Ajudou a esclarecer a inteligência, mas não se permite entrar no santuário do coração, sem que Lhe abram a porta.

Macau. E de novo, que vemos à nossa volta?  Com tanta alcoviteirice, maledicência e calúnia, a atitude de Cristo quase parece ridícula e aqueles que o querem seguir passam por simplórios… O que vale é que Deus olha os corações. Está atento. Nem um só cabelo da nossa cabeça cai sem o Seu consentimento. No momento oportuno Deus se revelará e de um modo que ninguém pode imaginar.

O momento final  é a revelação de Cristo Ressuscitado,  no partir do pão. Ele é o Senhor. Aqueles que abrem de par em par as portas do seu coração encontram a Deus. Experimentam em si, depois da caminhada ao centro do seu ser, a presença do Homem-Deus, Jesus Cristo, que os conduz ao templo do Ser Transcendente, onde o Amor da Santíssima Trindade habita. Por isso podemos compreender a alegria dos«Discípulos de Emaús»: «Não ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?».

Por fim, Jesus Cristo, o Mestre Divino, pergunta-nos a cada um de nós, tal como a Pedro: «Tu amas-me…?». Baixamos os olhos… Caímos imediatamente na conta que em nós, homens e mulheres do terceiro milénio, existe essa enorme dificuldade de entrarmos dentro de nós mesmos, de percorrer esse ‘Caminho Interior’, de fazer essa experiência de conhecer e penetrar nos meandros dolorosos da nossa Existência  e, pela Verdade e Humildade,  chegar  à Liberdade,  ao Amor,  à Alegria de Viver… à Perfeição,  à Intimidade e à Santidade de Deus.

Sim. Tanto a Experiência Humana como as Ciências do Comportamento, particularmente a Psicologia de Profundidade, assim como a Espiritualidade, nos afirmam,  peremptoriamente, hoje, que só na consciência de nós mesmos é que somos capazes  de  alcançar a Liberdade Interior, a Paz, e, por fim,  de sentir a  «Consolação» de ser Homem ou Mulher… «criado(a) à imagem e semelhança de Deus…». 

Luís Sequeira, sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus de Macau

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Macau: uma cidade criativa? A tool kit is required

Maria José de Freitas

FOTOGRAFIA: MARIA JOSÉ DE FREITAS

Vem este texto a propósito do momento que atravessamos, tão próximo de uma cidade vazia, tanto quanto isso é possível em Macau, e do livro de Charles Landry: “The Creative City, a toolkit for Urban innovators”.

Charles Landry, um conhecido urbanista que já tivemos ocasião de ver e ouvir em Macau quando, em 30 de Outubro de 2016, realizou uma conferência no Auditório do Centro de Ciência de Macau sob o tema “Macau: a Culture of Ambition and Creativity as Catalysts for a Sustainable City”, altura em que nos veio falar sobre o modo como podem ser criadas condições no interior das cidades para que pessoas e organizações possam trabalhar em conjunto e com imaginação no sentido de resolver os problemas existentes.

Ideias que me vêm à mente enquanto, no final de um dia de trabalho, oiço os apitos da polícia soando furiosamente lá fora para disciplinar os movimentos das pessoas e do trânsito desordenado. Tudo isto numa altura em que se sobrevive ainda na fase de recolhimento que sucedeu à quarentena obrigatória surgida depois aparecimento do vírus.

Se é assim agora como será quando as restrições forem levantadas?

Difícil resposta para uma interrogação que teima em permanecer …

Ambição e criatividade são as receitas de Landry que, combinadas com eventos culturais e imaginação, faz sentido que sejam aqui aplicadas, numa cidade que se pretende cultural e que vai sobrevivendo na sombra dos acontecimentos.

Seria proveitoso para a cidade que esta iniciativa de 2016 tivesse sequência e que a este orador fosse o ponto de partida para um ciclo de conferências visando um repensar produtivo de Macau.

Que a cidade está sobrelotada sabemos todos. Que nos falta espaço também é visível, mesmo agora em período de confinamento. Esse ponto de partida seria excelente para se repensar a cidade, pondo em prática os conceitos explorados na ‘tool kit’ de Landry, que passam sempre pelo apelo à participação dos cidadãos. Mas como garantir essa participação agora que estão confinados aos locais de trabalho e em casa, sem que sejam possíveis reuniões? Também aí temos de ser criativos e aproveitar as oportunidades que surgem numa cidade meio adormecida com planos de ordenamento em curso e novos aterros em construção.

A propósito de repensar a cidade, soubemos pela imprensa que o Plano Director da Cidade de Macau foi entregue ao Governo de Macau e está em apreciação, por parte da DSSOPT, não se conhecendo o dia em que tal observação ficará concluída.

Relembro que o Plano Director da cidade foi entregue em Março de 2018 à empresa Ove Arup & Partners, de Hong Kong, pelo preço mais baixo (11 milhões de patacas) e pelo menor prazo (1 ano para execução do plano). Esse prazo pareceu-me bastante curto para elaboração de um plano director que tenha em devida consideração as suas características, a multiculturalidade, os ‘layers’ que a convivência entre as culturas Oriental e Ocidental lhe foram imprimindo, designadamente ao longo dos últimos 5 séculos. E é bom lembrar que esse plano não é autónomo, devendo estar articulado com o Plano de Salvaguarda e Gestão, ainda em apreciação, e do qual nada se tem sabido nos tempos recentes.

Dois planos de que a cidade carece. Dois planos urgentes e que, à luz das situações recentes, são mais prementes que nunca.

Soube, igualmente, que foi adjudicada à mesma empresa, Ove Arup  & Partners, no início deste mês, a prestação de serviços de divulgação, exposição e consulta pública sobre o projecto do Plano Director. Muito bem, venha essa Consulta Pública, que seja ampla, que a cidade seja debatida e que a população adira em massa a essa discussão, é o que se espera!

A cidade está agora a erguer-se lentamente de uma letargia de meses em que esteve praticamente parada, depois da eclosão do vírus e das medidas restritivas tomadas em Fevereiro. Estamos em Abril e, pouco a pouco, sente-se que Macau vai retomando a vivência que lhe reconhecemos, em cada cidadão a sensação de segurança vai aumentando. O calor do Verão aproxima-se e faz-nos pensar que tudo poderá melhorar em breve.

Esquecemos os dias de quarentena e sentimos o chamamento para o convívio, para os passeios ao ar livre, apetece atravessar os jardins e sentir o cheiro das plantas. Apetece também o encontro cultural e suprir a falta que nos têm feito as conferências, as exposições, os espetáculos, e que venham rápido a música, o teatro, o cinema. Há tanto para fazer e à espera de realização!

É aí que entra o conceito de cidade cultural e criativa em que as propostas de Charles Landry encontram eco. Conceitos que poderiam ser adaptados a Macau cultivando com mais intensidade a vitalidade já existente, para lá do jogo e das apostas, revitalizando zonas antigas e oferecendo-as à actividade cultural, incentivando os arquitectos e agentes culturais a proporem programas para tantas áreas e zonas abandonadas, impregnando arte e cultura nos espaços devolutos, rastreando, inventando, propondo novidade e criação na península e nas ilhas em situações atractivas para cidadãos e visitantes. 

Vale a pena investir e divulgar o património que aqui temos, pensar no que queremos obter, numa viagem conjunta e inclusiva que integre a interculturalidade de Macau, mais até que a multiculturalidade, e a divulgue para o mundo, tudo isto para sair do cliché: casino, jogo, entretenimento rasteiro e visita turística a fazer de conta…

Macau e os seus cidadãos merecem mais e melhor, espero que o novo plano director inclua novas e arejadas propostas neste âmbito e que a cidade criativa possa renascer.

A “tool kit for urban innovators” is urgently required e a população agradece.

 

  Maria José de Freitas

  Arquitecta | ICOMOS-SBHSG

  DPIP3-UC.PT

  mjf@aetecnet.com

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A VIDA ACIMA DO DINHEIRO!

‘A Vida está acima da Economia’, dizia, há bem poucos dias, um Primeiro Ministro europeu, diante das câmaras de televisão. Quem esperaria ouvir tal afirmação, quando o Grupo dos países mais ricos do mundo continua gerir a sociedade actual assente numa profunda e asquerosa imoralidade, em que o dinheiro e o lucro contam mais que o respeito pela dignidade da pessoa humana. Ao mesmo tempo,  é emocionante, com o seu quê de chocante, ver a população dum qualquer quarteirão ou bairro citadinos a aplaudir efusivamente médicos, enfermeiros e seus auxiliares assim como agentes de serviços municipais, em contraste flagrante com os aplausos, repetidos e gastos, cheios de sorrisos, tipo ‘Pepsodent’, no balcão de honra da bolsa financeira de Nova Iorque.

Salvaguardando a  devida diferença e conscientes de que somos pequenos e pequenos continuaremos a ser,  eis Macau igualmente experimentando essa mesmo realidade. Assim, com alguma surpresa, mas certamente numa linha de coerência com a sua campanha eleitoral,  deparamo-nos com o Chefe do Executivo a falar forte aos poderosos magnatas do território, considerando que os lucros que eles estão a conseguir nesta terra são uma quantia fabulosa, mas que todavia, para ele, não estão a contribuir directa e concretamente para o bem estar das ‘nossas gentes’, em necessidade de espaços de prevenção sanitária… E os hotéis apareceram!

Embora o coronavírus seja assustador, terrível e mortífero, ele está a despertar a consciência da Humanidade contemporânea, homens e mulheres que entraram num novo século,  e iniciaram um outro milénio. Há que repensar, com coragem e seriedade, o ‘estilo de vida’ em que estamos refasteladamente instalados.

                                  

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O Consumismo como um ‘coronavírus’ espiritual continua tragicamente a deteriorar a sensibilidade do coração humano até à perca da capacidade de aspirar aos grandes valores e  às causas mais nobres. Onde estão aqueles, principalmente entre líderes e governantes, capazes de testemunhar até à heroicidade a Verdade, o Amor, a Paz, a Misericórdia e o Perdão ou até dar a Vida pelos Outros?

Agrava-se a situação nesta nossa Sociedade ao deixar-se contaminar por um outro vírus, da estirpe ‘corona’, apelidado Hedonismo. Com ele se propaga no tecido social, insistentemente, a cultura do mais fácil e do mais agradável, evitando tudo o que seja exigência, dificuldade ou que requeira austeridade. Depois, a relaxação e a diversão seguem-se-lhe, espalhando por todo mundo, centros de ‘fitness’, bares, clubes nocturnos, ‘resorts’ turísticos, complexos colossais de diversões e espectáculos, casas de jogo e casinos. E, continuando numa descida cada vez mais moralmente decadente, chegamos à sórdida e degradante indústria do prazer, onde o tráfico humano, a prostituição e a pornografia… à mistura com violência  maquiavélica e droga enganadora. Entra-se no vazio e na angústia da alma humana.

A grandeza da inteligência humana ao serviço da Humanidade é algo que não podemos menosprezar. A neurociência, a tecnologia, macro e micro, o estonteante desenvolvimento da informática, com a robótica e a inteligência artificial abrem horizontes  à criatividade humana que mais parece que nada se lhe apresenta como impossível. Contudo, um micróbio, chamado ‘coronavírus’, bloqueou toda a indústria e a tecnologia, pilares da construção da Sociedade hodierna. Toda esta crise pandémica não estará a questionar o actual ‘estilo de vida’, onde reina a ciência e a tecnologia, mas que esquece ou faz esquecer que a felicidade do coração humana aspira a algo mais?

Aprofundando um pouco esta linha de pensamento, chegamos à problemática do Materialismo, em que blocos maciços da população do mundo ocidental estão a cair inexoravelmente. A Matéria explica tudo. O ser humano é capaz de tudo… Mas, que diz o coração humano? Que significa a ‘Angústia’ da sua existência perante um coronavírus que está a abanar implacavelmente as estruturas  de uma Sociedade tão convencida que tudo pode?

Parece, na verdade,  que a Sociedade actual corre como que freneticamente para a conclusão de que ausência de Deus é um facto comprovado. Entre muitos, dominados por este ‘estilo de vida’ que acima acabamos de descrever, cresce esta convicção. Porém,  um simples vírus microscópico, cientificamente denominado covid-19, deixa a todos aflitos e perturbados, com um profundo sentimento de fragilidade e impotência. Somos nós, afinal, tão poderosos e dominadores? Não será, antes, esta uma atitude arrogante que, como o coronavírus, sibilinamente, destrói aspiração íntima, natural e verdadeira do coração do homem e mulher modernos para Deus?

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Nós é que estamos a criar este ‘estilo de vida’ que, como consequência, nos conduz a um sentimento ou até a uma convicção de que a ausência de Deus nas nossas vidas  é uma realidade incontestável. Enorme ilusão! Cair em tal engano é como ser contaminado na estrutura mais íntima do nosso ser por um coronavírus espiritual que mata aquilo que nos é intrínseco e próprio como criaturas criadas ‘à imagem e semelhança de Deus’.  

Cristo na Cruz encarna toda a Angústia, toda a Dor e a Morte de todo o ser humano, homem ou mulher, neste mundo. Aí encontramos a Libertação e Salvação de todo o nosso Sofrimento. Com a sua Ressurreição, Jesus Cristo afirma categoricamente que Ele é o Caminho que vence e ultrapassa toda a  miséria humana.

 

Luís Sequeira, sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus de Macau

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O ‘CORONA VIRUS’ ESPIRITUAL

Não se nega a importância crucial de conhecer, proteger as pessoas contra e destruir um vírus tão mortífero. Não se esquece aqueles que, em laboratórios, procuram descobrir o remédio para tal praga nem aqueles outros muitos que, em hospitais, se esforçam até ao esgotamento e mesmo a passarem  pelo risco de suas próprias vida para salvar a numerosa multidão dos contaminados. Lembramos ainda as forças da ordem e da segurança e dos serviços municipais Por fim, não podemos ignorar os milhares que já faleceram e a dor que trespassa o coração de tantos familiares e amigos que os viram  partir. Porém, a todos os que sofreram a Vida Eterna os espera… assim acreditamos.

Em circunstâncias como estas de catástrofe, acompanhada de sentimentos de extrema fragilidade,  acontece que se desenvolve no ser humano uma inclinação forte e séria de tentar perceber algo mais, para além dos factos imediatos da sua existência, em perigo. Parece que se desenvolve nele uma capacidade de  ver ‘sinais’ duma realidade mais profunda e transcendente, que a Humanidade precisa inexoravelmente de compreender. A Sociedade, apesar de estrebuchar como um miúdo mimado, é como que levada, forçada até, pela violência impiedosa da situação, a parar,  o que se apresenta inadiável, necessário e obrigatório. Reflectir, com verdade, coragem e sem medo, sobre o que se está a passar é uma obrigação moral. Ponderar os factos em todas as suas componentes apresenta-se como uma exigência da solidariedade humana. Procurar discernir as linhas de acção futura constitui um dever histórico e civilizacional.

 

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Assim se desenrolava a nossa vida, dominada por um frenesim quase paranóico de consumo, sustentado, sempre muito elegantemente, pelas tentaculares cadeias das empresas multinacionais e dos muito bem escondidos grupos financeiros.

Promove-se  a cultura do restaurante, da  boa comida e da boa bebida, do buffet de dezenas de pratos… A compulsão para ‘fazer compras’ nos grandes armazéns, supermercados ou hipermercados é estimulada finamente por uma sofisticada e invisível dinâmica psicotécnica. O vestir-se na subjugação ‘à moda’ do último  ‘fashion show’ torna-se, na maior parte das vezes, neurótico, mas bem disfarçado de inocência e candor. O conforto da casa manifesta-se requintado, mas, no fundo, não se preocupa com o conforto e o bem estar dos que lá habitam… Na via pública não têm fim as bichas de carros e autocarros e as sempre estridentes e irritantes motos.. Paira, enfim, sobre todos uma nuvem… mas as coisas continuam como se nada fosse.

De repente, a deflagração temível do  ‘coronavírus’. O vazio das nossas ruas, praças e vielas questiona, amargamente, o nosso modo viver. 

 Compreendemos, afinal, que todo aquele tão apregoado estilo de vida não passa de uma ilusão muito sedutora, mas sempre terrivelmente enganadora. Tudo nele, aos poucos, nos deforma e disforma na nossa beleza original. Deixa-nos presos e dependentes do que é terreno e material, transitório, transforma-nos em homens e mulheres sem capacidade de olhar mais além, para valores mais elevados e superiores, perscrutar no sentido do transcendente, espiritual, divino…Eis aqui o vírus maligno, compulsivo e penetrante, e imparável que  corrói o íntimo do nosso ser, nos apouca e nos faz aspirar a muito pouco, rastejamos apenas…

 Não estamos nós  a cair na conta que, inconscientemente, o consumismo, a que estamos já tão habituados, tem-se tornado  como um ‘coronavírus’ acutilante, tóxico a entrar na nossa natureza e a tornar-se num micróbio destruidor duma vida mais equilibrada e aberta às aspirações mais profundas da alma humana,  mesmo capaz de gozar a intimidade com Deus?

Por outro lado, o espanto e a admiração domina-nos perante a mudança que, em pouco tempo, se deu nos nossos hábitos. As próprias atitudes mais pessoais e quotidianas transformaram-se duma maneira quase inconcebível.  E, mais uma vez, repito. Tudo isto acontece, quando já estávamos habituados a um estilo de vida fundado num consumismo descontrolado, para não dizer mesmo desenfreado, que parecia até estruturalmente inamovível do nosso dia a dia.  Ninguém pensaria ser possível tal mudança! 

Na verdade, caminhando pelos recônditos espaços do coração humano, percebe-se até ao arrepio quanto ‘coronavírus’ espiritual é uma realidade.

Luís Sequeira

Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus de Macau

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Amor em tempos de isolamento

Crys Cottrell III copyComo jornalista e editor da área da saúde, professor de comunicação, americano, baseado em Macau, assistir aqui ao aparecimento da COVID-19, e ver depois a sua expansão a nível global, tem sido desolador.

Quando tudo começou, em Janeiro, eu estava em Macau à espera do visto para efeitos de reunião familiar, que permitiria à minha esposa, que é de Chongqing, juntar-se a mim na RAEM e aqui ficar a residir. Só que, subitamente, tornou-se demasiado perigosa a sua partida, e foram depois implementadas restrições à circulação que estenderam o regime de quarentena a quase toda a China.

Chongqing tornou-se zona de alto-risco e ela ficou impedida de sair de casa mais do que uma vez de três em três dias. Felizmente, a irmã dela vivia connosco em Chongqing, e por isso não ficou sozinha.

Entretanto, os meus pais contactavam-me a partir da Califórnia, preocupados. Havia alguma coisa que pudessem fazer?

A princípio, disse que não, que estávamos bem. Alguns dias depois, mudei de tom ao tornar-se claro que iria haver falta de máscaras. Felizmente, a família da minha esposa tinha preparado uma porção abundante de salsichas e bolinhos de fabrico caseiro por ocasião do Ano Novo Chinês, e por isso ela não teria de ir tão cedo às compras.

Garanti aos meus pais que a sua nora chinesa, a Jing-Jing, estava bem. Mas será que podiam comprar máscaras N95 para os pais dela, os meus sogros? 

O meu pai bem tentou, mas não conseguiu encontrar online uma única máscara desse tipo, pois estavam todas a ser açambarcadas por especuladores. Ele e a minha mãe ainda deram um giro por várias lojas em Orange County, mas voltaram a casa de mãos vazias.

Embora a minha empresa também estivesse a encomendar máscaras, e o Governo de Macau tenha garantido o fornecimento de máscaras quase gratuitas também aos trabalhadores não-residentes, estas não eram em número suficiente para serem enviadas para Chongqing. Além disso, era suposto serem para consumo local, não para exportação. Decidi então, numa operação algo arriscada, voar de Macau até às Filipinas na noite de 30 de Janeiro, para aí tentar encontrar produtos de protecção contra o vírus. Durante três dias, comprei máscaras e luvas de borracha. A 2 de Março, voltei ao aeroporto de Manila para embarcar de regresso a Macau. Tinha acabado de passar pelos serviços de alfândega e imigração, e encaminhava-me já para as portas de embarque, quando ouvi ser anunciado, através dos altifalantes do aeroporto, que todos os voos para a China Continental, Hong Kong e Macau tinham sido cancelados. De repente, vi-me rodeado por milhares de pessoas, em longas filas de espera para reentrar em Manila, onde nos esperava uma quarentena de pelo menos duas semanas num hotel local.

Durante esses dias de meados de Fevereiro, um mês antes da eclosão de casos de coronavírus em Manila e antes também do meu regresso a Macau via Kuala Lumpur, fui estando em contacto com a minha mulher e ela pôs-me ao corrente da acção heróica do pessoal médico da linha da frente, em toda a China. Tive muita sorte por a empresa para que trabalho ter percebido a minha situação, mesmo tendo Macau assumido uma postura de grande responsabilidade logo desde o início do surto. Enquanto no Ocidente muita gente de visões estreitas criticava os chineses por estarem todos a usar máscaras, mais tarde tornou-se evidente que, havendo transmissão assintomática do coronavírus, o uso de máscaras por pessoas infectadas mas sem sintomas mitigava a sua disseminação.

Motivo de inspiração para mim foi também o modo como os chineses procuraram, nas redes sociais, levantar o moral da população através da publicação de divertidos vídeos existenciais – desde mulheres que prendiam os desperdícios com fios de auscultadores, até simulacros cómicos de desportos olímpicos disputados em salas de estar. Fui mantendo a minha família na América a par de tudo isto, ao mesmo tempo que os avisava que a doença acabaria por chegar aos Estados Unidos, aconselhando-os por isso a armazenarem sabonetes, desinfectantes, máscaras de protecção e alimentos para algumas semanas. Partilhei ainda com eles a convicção de que a epidemia teria um efeito devastador na enorme quantidade de pessoas sem abrigo nas cidades americanas, e de que o sistema de saúde do país rapidamente ficaria submerso no caos.     

Felizmente, a minha família acatou os meus conselhos, bem como os alertas contidos em artigos académicos assinados por médicos de quem sou amigo, que com eles partilhei. A partir de Macau, fez-me feliz poder informá-los de que a primeira escola de medicina do território, aberta em Setembro passado, tinha um reitor de grande prestígio, o Prof. Manson Fok, cujo apoio à investigação médica estava a traduzir-se em novas formas de combater a COVID-19: robôs de desinfecção dos metropolitanos, estudos clínicos pediátricos publicados na revista ‘Nature Communications’ e, a partir do desenvolvimento de Inteligência Artificial, novos algoritmos de monitorização capazes de detectar deteriorações pulmonares em pacientes em apenas 20 segundos.

Obviamente, muitas destas boas notícias raramente são divulgadas na América – onde o crescente contágio apenas parece dar origem à fúria e à culpabilização de terceiros. Enquanto isso acontece, comentadores histéricos, meios de comunicação sem vergonha na cara, franco-atiradores das redes sociais e políticos dementes estão a conduzir uma população cada vez mais assustada e confusa a resultados mortíferos em todo o país.

Sem surpresa, tudo isto está a aterrorizar a minha mãe, a encher o meu pai de frustração, e a enervar as minhas irmãs. Até de primos que já não me lembrava ter no Texas e na Holanda ouço agora histórias perturbadoras.

Entretanto, as últimas notícias por cá: Macau e a China estão a gerir uma segunda onda epidémica com mensagens muito claras no âmbito da segurança pública, um bom abastecimento de equipamentos de protecção e legiões de profissionais da saúde que são verdadeiros heróis. Eu estou bem, provavelmente num dos lugares mais seguros do mundo. E a minha esposa está ainda mais sã e salva – mesmo Chongqing fazendo fronteira com Hubei, onde tudo começou.

Em boa verdade, este romance à distância com a minha mulher é o que me dá mais força, à medida que os dias se escoam na quietude desta cidade de Macau de novo adormecida.

 

Christopher Cottrell

Jornalista

 

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O CISNE NEGRO: Um olhar sobre Portugal a partir de Macau

JMB

FOTOGRAFIA: JOÃO MIGUEL BARROS

  1. Macau tem sido um caso de sucesso no combate ao Covid-19. O governo da RAEM teve a capacidade de prever o que aí vinha, talvez devido à experiência muito sofrida com a SARS. E soube, com antecedência, apetrechar-se para os tempos difíceis, tendo vindo a ajustar medidas com a potencialidade de mitigar os efeitos do que iria acontecer.

Essas medidas centraram-se, basicamente, no seguinte: compra antecipada de milhões de máscaras, que foram distribuídas na base de uma máscara/dia por todos os residentes, a preços mínimos, e controlo de especulações e açambarcamentos. Dotação do hospital público de mecanismos eficazes para tratamento dos infetados. Implementação de uma política de rastreio de temperatura em todos os lugares de entrada de pessoas. Ampliando crescentemente o número de pessoas a serem testadas. Proibição de entrada de pessoas oriundas dos sítios críticos da China, aumentando a lista à medida que os números de infecções noutros países detonavam os alertas de potencial perigo. 

 

  1. É fácil de perceber, mesmo não se sendo especialista em saúde pública, que estamos a enfrentar uma crise sem precedentes. Afinal, também há cisnes negros, ao contrário do que aprendiam as crianças inglesas no séc. XVII, como provou Willem de Vlamingh nas suas expedições! O impacto está a ser brutal e terá efeitos ainda não mensuráveis nas estruturas económicas dos países, das empresas e das famílias. 

Os números mostram a dimensão da tragédia. Muito em breve teremos um milhão de infectados em todo o mundo e trinta mil pessoas mortas. E esses serão, apenas, números em aberto de uma contabilidade impossível de fazer neste momento. 

A China e, logo a seguir, a Ásia, sofreram a primeira onda de choque da propagação do coronavírus. Macau incluiu-se nesse primeiro lote, mas protegeu-se ao ponto de só ter tido inicialmente dez positivos, seguindo-se um período de 40 dias sem nenhum novo caso. Recentemente o número subiu para trinta [entretanto, são 41, os casos confirmados], com vinte novos casos positivos, importados, devido ao regresso de dezenas de residentes de países com alta incidência, como o Reino Unido.

A Europa está a sentir o fluxo ascendente do vírus. Portugal, em especial, com o número de cadeias de transmissão actualmente activas e sem ter tomado as medidas iniciais adequadas, vai passar semanas muito críticas, com o aumento significativo do número de pessoas infectadas. Não se acautelou na despistagem precoce de positivos. (Eu próprio, em meados de Fevereiro, tentei em Portugal fazer o teste, e não consegui, mesmo com prescrição médica e tendo viajado de uma zona de risco). Não se fez prevenção em locais óbvios de risco como os lares de idosos. Desconhece-se o que está feito para proteger de forma efectiva as prisões, que são barris potenciais de pólvora. Adoptou-se um discurso suave do tipo “isto ainda não é grave, vamos todos manter a calma, depois cá estaremos para agir…”. Ainda não é dramática a nossa situação, mas poderia ser bem melhor se a prevenção tivesse funcionado.

Na verdade, prevenir significa tomar medidas para evitar a produção de um mal. Se a prevenção for eficaz, o mal não acontece; e, por isso, não se verificando o efeito, não se poderá avaliar com rigor se as medidas preventivas foram, ou não, adequadas ou excessivas. Mas se esse mal ocorrer e obrigar a medidas de reação, torna-se claro que as prevenções adoptadas foram insuficientes para o evitar.

 

  1. A provar que esta é uma crise planetária, parece realista pensar que o pior ainda está para chegar, quando o coronavírus entrar em força em África e na América Latina e começar a devastar comunidades indefesas e impreparadas. Estamos a falar de enormes massas populacionais e de dezenas de países sem estruturas públicas de saúde, a funcionar de forma precária e sem meios. De países carenciados, com grandes níveis de pobreza, sem possibilidade de confinamento e que, se não forem ajudados, não terão outra alternativa que não seja a de arranjarem imaginação para enterrarem os mortos. Apesar de virem a ser atingidos pela terceira vaga de infecções, e havendo já muita experiência acumulada das duas vagas anteriores, a sua capacidade de prevenção é reduzida. Até mesmo a sua capacidade de reacção será muito deficiente, o que leva a temer o pior. 

Claro que, e mais uma vez, na ausência de uma solidariedade europeia efectiva, iremos assistir à entrada da China, em força, a ajudar esses países, mantendo a sua política internacional de expansionismo tendo em vista a consolidação de uma posição estratégica privilegiada que lhe dará vantagem na exploração das matérias primas. 

 

  1. Era tarefa impossível evitar a entrada do vírus em Portugal. Mas devido à nossa periferia e ao facto de termos sido um dos últimos países da Europa a sentir o tsunami, teria sido possível fazer muito mais numa primeira fase do que aquilo que (não) foi feito. Nomeadamente teria sido possível implementar o rastreio de temperatura em todos os locais de entrada em Portugal, medida que na Ásia tem vindo a identificar pessoas com temperatura superior a 37,3º (estranhamente, os critérios da DGS são 38º!) e, consequentemente, ao despiste precoce de casos positivos. 

Assim se tem controlado na origem muitos casos positivos que, se tivessem passado esse primeiro controlo, estariam na linha da frente da disseminação comunitária da doença. Teria sido possível provisionar stocks significativos de material de protecção, de modo a evitar as carências generalizadas que têm sido tornadas públicas pelos profissionais de saúde. E não se andava com esse discurso redutor em relação à utilidade das máscaras na prevenção da doença. Ou será que estão erradas todas as autoridades de saúde dos países asiáticos que colocam as máscaras como um dos elementos importantes na sua estratégia de combate à doença? O que criou um falso sentimento de segurança foi o discurso inicial das autoridades públicas (Governo e DGS), que não tiveram a coragem de dizer aos portugueses: temos de nos preparar porque vai calhar a nossa vez e quando o Covid-19 chegar vai bater forte e sem contemplações! O discurso foi sempre de relativização, nada preventivo, do género que “avaliaremos a situação dia a dia”. E no dia a dia os portugueses foram vivendo, na maior, sem cautelas nem contenção! 

 

  1. Estamos a ser submersos pela onda e não adianta, agora, invocar o que se fez de mal no início. Essas contas deverão fazer-se no fim. O que importa mesmo é a coragem para se tomarem medidas fortes e de contenção, não numa base do “dia a dia”, mas tendo sempre em vista que a pandemia está aí e vai ficar o tempo suficiente para fazer um grande rombo. E, por favor, evitem-se os momentos zen de negação da realidade como aquele que foi protagonizado pelo Primeiro Ministro ao dizer na televisão que não havia carência de equipamentos de protecção nos hospitais! Não há necessidade!…

Macau, mais uma vez, é um bom exemplo do que se pode fazer, ainda que a realidade da cidade não seja integralmente transponível para Portugal. 

Neste momento estão impostas medidas drásticas tendo em vista evitar a criação de cadeias de transmissão locais. Em Macau não entra ninguém que não tenha o estatuto de residente. E os residentes de Macau, imediatamente após a entrada, são obrigados a fazer uma quarentena obrigatória em hotéis da cidade afectos a esse efeito (neste momento há 12 hotéis na cidade destinados a quarentenas). A todos, mas mesmo a todos, são feitos testes de despistagem e quem acusar positivo é imediatamente internado no hospital. A cidade retomou alguma normalidade, com excepção das escolas que se mantêm fechadas sem data de abertura no horizonte. Há controlo de temperatura à entrada de todos os serviços públicos, equipamentos sociais, casinos e outros espaços frequentados pelos residentes de Macau. E a entrada nos serviços públicos obriga ao preenchimento de uma declaração de saúde online, diariamente, para controlo. Todas as pessoas andam de máscara e há algum distanciamento e contenção social. Mas impera um clima generalizado de confiança e de segurança.

 

  1. Em Portugal, ultrapassadas as imprevidências iniciais, estamos longe das irresponsabilidades de Itália e, mesmo, de Espanha. Mas não é preciso ser-se especialista em políticas públicas de saúde para se perceber que é necessário acentuar de forma enérgica as medidas preventivas. Máscaras (e outro material) com prioridade a todos os profissionais de saúde. Máscaras, a preços controlados e acessíveis, para venda sem especulação a todas as pessoas. Uma campanha persistente de propaganda (já nem se trata de informação!) para a lavagem das mãos e que potencie o confinamento social. Rastreios de temperatura em espaços públicos, com sujeição a testes de despistagem de todos os que acusem temperatura. Medidas preventivas, mas efectivas, para o caso de o covid-19 entrar em zonas de especial risco bairros sociais e como as prisões, já que elas não foram atempadas para proteger adequadamente os idosos. E testes. Uma política de testes alargada, e não economicista como aquela que tem vindo a ser praticada. O apelo é para que a protecção da saúde pública esteja em primeiro lugar e que não haja quebras de convicção nessa luta, nem receio de endurecer as medidas a adoptar. 

Do mesmo modo que está imposta a contenção e distanciamento social é fundamental não permitir a entrada livre em Portugal, obrigando a quem chegue de países de risco a sujeição a testes de controlo e/ou de quarentenas obrigatórias, sobe pena de se criarem focos de transmissão comunitária que vão gerar mais perigo social e mais mortos. Não vamos lá com meias medidas!…

Sobreviver é um imperativo para que, depois, a economia possa, paulatinamente, vir a ser recuperada. 

 

João Miguel Barros

Advogado, fotógrafo e curador

 

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Tempos de incerteza: O paradigma do «Cisne Negro»

Os Cisnes Negros não existem, pelo menos segundo o conhecimento empírico observável, até que um dia alguém os avistou algures na Austrália e colocou a possibilidade de um acontecimento improvável poder acontecer.

Para quem não esteja a par do relato que aqui menciono, saiba que me estou a referir à obra de Nassim Nicholas Taleb «O Cisne Negro: O impacto do altamente improvável» hoje muito utilizado na esfera das Ciências no geral e nas Ciências Sociais em particular, como metáfora para avaliarmos a fragilidade do nosso conhecimento face a um mundo cada vez mais incerto.

Paralelamente coloca também uma critica áqueles que pensam poder controlar as nossas vidas através de uma racionalidade baseada num planeamento rigoroso e previsível onde a incerteza não existe, deixando em aberto uma larga margem para os acontecimentos improváveis ou que são supostos não acontecer.

O efeito epidémico do atual Coronavírus, ressuscita esta reflexão, o que era altamente improvável de acontecer, aconteceu, alterando e abalando uma boa parte da estrutura sólida em que assenta as nossas vidas e exigindo novas interpretações sobre o futuro e para o qual ainda não temos respostas.

É o momento de lidar com a incerteza, situação para a qual não estamos preparados porque apenas nos ensinaram a lidar com certezas. O paradigma do «Cisne Negro» coloca-nos a hipótese, cada vez mais comum, de termos de enfrentar um mundo incerto onde apesar do conhecimento acumulado, cada vez mais somos colocados perante situações imprevistas que reunem três caracteristicas a considerar: 

 

1) Um acontecimento que ninguém estava à espera que acontecesse, mas que aconteceu

2) Depois de acontecer produz um enorme impacto nas estruturas existentes alterando os padrões existentes e, por fim 

3) Após a sua ocorrência os cientistas e o senso comum começam a tecer considerações como se o tivessem previsto.

 

O conceito de «antibiblioteca» utilizado pelo autor, logo no início da sua obra, é uma boa forma de nos ilustrar com o que estamos a lidar, ao que parece numa das visitas à biblioteca do famoso escritor e ensaísta Umberto Eco um dos visitantes fica perplexo perante a quantidade de livros existentes na sua biblioteca pessoal questionando-o como foi possível ele ter lido todos aqueles livros, ao que Umberto Eco respondeu que apenas tinha lido uma parte residual das obras mas, o valor da sua biblioteca residia, precisamente, nos livros que não tinha lido, porque são esses que contêm o que não conheço e me falta conhecer.

Seria pois interessante que todos nós e, essencialmnte os líderes que governam os países, empresas e instituições tivessem a humildade de reconhecer que também Nós ainda não lemos os livros todos e os que lemos são apenas uma parte do que falta conhecer.

Perante esta crise planetária da epidemia inesperada, várias foram as respostas encontradas, revelando as lacunas do nosso conhecimento, restando-nos ir aprendendo com as tentativas e procurando replicar as «boas práticas» que se vão construindo.

 

Neste patamar do combate epidémico vamos filtrando os livros que não lemos, a  RAEM/Macau pode vangloriar-se de ser um exemplo a seguir pelas boas práticas introduzidas, demonstrando que o valor singular de Macau também passa pela sua capacidade de enfrentar dificuldades, ao contrário de algumas posições pelo mundo fora que roçam a caricatura e a ignorância de quem toma decisões apenas com base nos livros que leu.

Acrescentaria, mesmo assumindo algum pretensiosismo, a validar o sucesso das medidas tomadas em Macau com base no conceito de «comunidade» que está intrínseco ao colectivo inconsciente da sua população, a necessidade de proteger o comum e o modo de encontrar as soluções adequadas em prol de todos. Daí que não seja exagerado falar-se no «Modelo de Macau».

O futuro é incerto, outros «Cisnes Negros» virão, talvez seja tempo para sermos mais humildes e rejeitar a pretensão de tudo querer dominar e tentarmos apostar mais em alicerçar os laços sociais que nos unem reabilitando a “velha” fórmula de podermos viver em comunidade.

 

Carlos Piteira

Investigador do Instituto do Oriente

Docente do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas / Universidade de Lisboa

 

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