ESSE MUNDO… TÃO IGNORADO DOS AFECTOS

 

O Evangelho deste Décimo Terceiro Domingo do Ano Litúrgico descreve-nos duas situações de pessoas em grande aflição, onde, mais uma vez, Jesus se apresenta como ‘Caminho’ de Liberdade,  Esperança e Vida.

A primeira narra-nos o caso duma «filha». Escutamos o clamor dum pai devastado pela iminência de perder a filha querida: «A minha filha está a morrer».

A segunda apresenta-nos, de maneira discreta, fina e delicada, a narração de «certa mulher que sofria de uma perda de sangue havia doze anos, que sofrera muito nas mãos de vários médicos e gastara todos os seus bens, sem ter obtido qualquer resultado, antes piorava cada vez mais».

Completaria o quadro do meu pensamento acrescentando uma outra situação com que, por diversas vezes, Jesus se deparou e se viu confrontado. Refiro-me àqueles momentos em que uma  «mãe» lhe aparece e, insistentemente, lhe pede um favor. É o caso daquela cananeia com a sua argumentação contundente… Até mereceu um rasgado elogio do próprio Jesus, tal o vigor da sua lógica e da sua fé!

Tudo isto para dizer que as experiências evangélicas de «filha», de  «mulher» e de «mãe» me transportam a uma experiência humana, no meu entender, de importância fundamental para a compreensão do caminho de  maturidade afectiva que todo e qualquer ser humano é chamado a percorrer. Ao mesmo tempo, quando assim me expresso, incluo, sem dúvida nenhuma, a dimensão paralela e complementar do ser masculino, isto é, a experiência de ser  «filho»,  «homem»,  «pai».

No entanto, por mais incrível que pareça, há que reconhecer que essa  realidade, «esse mundo dos afectos», continua a ser muito pouco conhecido e falado. Pior ainda, muito pouco entendido na prática. A dinâmica afectiva íntima tem um percurso próprio a ser imprescindivelmente feito. Ninguém lhe pode escapar. Caso contrário, as insuficiências, tarde ou cedo, aparecem e as consequências desastrosas serão mais que muitas. Umas revelando-se no foro interno da pessoa. Outras acabam por ser, dramaticamente, expostas em público.

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O coração humano, seja de homem ou de mulher, terá de enfrentar sempre, enquanto viver neste mundo, um caminho de amadurecimento a ser percorrido. Há fases a serem ultrapassadas. Passos a serem dados. Estados a serem experimentados. Enfim, uma Verdade sobre o Amor a ser compreendida no mais profundo do seu ser.

Ser «filha», ser «filho, na estrutura intrínseca da natureza humana, implica que esse ser humano aspira e deseja sentir-se reconhecido, amado e seguro e protegido como «filho», aquele que na sua situação necessita naturalmente de  ‘receber Amor’. No entanto, num caminho de evolução e amadurecimento no Amor, aquele que é «homem» ou «mulher» cresce e entra num outro nível, e adquire no Amor a capacidade ‘não só de receber, mas também de dar Amor’. Para, finalmente, como «mãe» ou «pai» adquirir a inclinação e o gosto na via do Amor de ‘Amar, dar Amor, sem estar à espera de receber Amor’.

‘Receber Amor’, como exigência natural de «filho» ou «filha» que somos ; ser capaz de ‘Dar e Receber Amor’, como «homem» ou «mulher» adultos; e, por fim, ‘Amar’, pura e simplesmente, sem estar à espera de receber em troca, como verdadeiros pais, «pai» e «mãe»,  são três estádios diferentes, necessários de serem vividos para se conseguir chegar ao Amor verdadeiro, ao Amor sem estar à espera de recompensa, ao Amor capaz de amar até os inimigos e de dar a vida pela pessoa amada.

Não acreditar na diferença estrutural e na sua essência constitutiva destes três níveis da afectividade humana é uma pena. Mais lamentável, porém,  é quando se evita fazer essa caminhada tão necessária a todos, homens ou mulheres, casados ou solteiros, padres ou madres, com autoridade ou sem ela, para poder alcançar a maturidade no mundo afectivo.

A crise dos casamentos, com a sua avalanche de imaturidades,  duplicidades e cumplicidades, e de divórcios; a questão da ausência das vocações ao sacerdócio ou à vida religiosa; os escândalos de pedofilia, os abusos sexuais, as violações silenciosas e manipuladas, o tráfico humano, sobretudo de crianças e mulheres, são problemas dolorosos e terríveis da sociedade actual que estão, muitíssimas vezes, intimamente ligados a realidades afectivas de infância ainda em chaga ou mal resolvidas ou soterradas por pavores horrendos, espiritualismos enganadores e vergonhas morais e sociais.

As cadeias e os grilhões afectivos são inúmeros. Por isso,  lá diz o Senhor e Mestre: «Felizes os puros de coração…» Os de coração integrado, livre e transparente.

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Ainda um pequeno apontamento. Sempre me chama a atenção o episódio do encontro de Jesus com esta mulher a sofrer duma hemorragia. Ela a quem eu apelido de ‘tímida’. Mas, Ele é, de facto, um mestre, um pedagogo: «Quem tocou nas minhas vestes?»

A cena passa-se toda no segredo do coração da mulher e no escondimento por entre o turbilhão da multidão, onde muitos se acotovelam e atropelam. Ele,  faz aparecer, de modo firme e cristalino, a distinção entre timidez e discrição e humildade. O Senhor condu-la, primeiro, a dizer a Verdade e a reconhecer o dom de Deus, e então, depois, discretamente, deixa-a partir. Que fique claro, a timidez inclui sempre medo e falta de confiança em si mesmo. Assim,  não é de Deus. O humilde, confiante em Deus, tanto pode ser o primeiro como último. Ele avança ou retira-se, segundo a voz de Deus no seu coração…

 

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço às sextas-feiras

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QUANDO NA VIDA… AS TEMPESTADES SURGEM

A passagem do Evangelho que somos convidados a meditar neste Décimo Segundo Domingo do Ano Litúrgico apresenta-nos uma experiência, por um lado, rica de aspectos intimamente ligados à nossa natureza humana, mas, por outro, muito fina e penetrante a abrir-nos à compreensão da presença do divino nessa mesma natureza humana.

Creio que, nos tempos actuais, procurar entender essa relação do humano com o divino ou o divino incarnado no humano é uma das questões, senão é, sem qualquer sombra de dúvida, a questão mais radical que se coloca à sociedade contemporânea. Há um ‘grito’ que sai das entranhas profundas do homem e da mulher dos dias de hoje a clamar por um Sentido mais positivo da Vida, a aspirar por Alguém, qual Ente Supremo, compreensivo e acolhedor das suas fragilidades, e a ter sede por um Deus que parece continuar distante. Esse ’grito’, que Much, o pintor do norte da Europa, expressou tão vigorosamente na sua pintura que leva esse mesmo nome, ‘o Grito’.  Na verdade, não podemos escapar a essa tremenda realidade da existência humana. Há que responder à ‘Angústia’ da nossa existência e ao ‘Vazio’ do nosso existir.

Não posso, no entanto e visto por outra perspectiva, esconder que o mesmo fenómeno me parece estar igualmente a suceder no interior da Grande China com a timidamente chamada ‘Spiritual Quest’ de muitos intelectuais e não só… Mais ainda. Que significa, por exemplo e ao mesmo tempo, o apelo das autoridades políticas e governamentais para a leitura dos ‘Clássicos’ da Cultura Chinesa, à procura de Valores…? O poder geo-político e a economia florescente não bastam e não saciam ‘a sede’ para algo mais que brota do mais recôndito do coração humano !

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O episódio da «Tempestade», descrito por São Mateus, projecta-nos para além da realidade dramática e terrível por que passaram os  discípulos mais próximos de Jesus Cristo. Pode-se muito bem dizer que expressa tudo aquilo que todo e qualquer ser humano experimenta em momentos de grande aflição,  perigo de morte, fracasso demolidor, angústia e desespero e, direi, ao fim e ao cabo e por outras palavras, quando «as tempestades da vida surgem» implacáveis.

«Levantou-se, então, uma grande tormenta, e as ondas eram tão altas que enchiam a barca de água». Como é perfeita a narração evangélica ao descrever não só o ser humano em aflição, mas também como o divino, neste caso na pessoa do Senhor Jesus, vem em auxílio da humanidade frágil.

Em primeiro lugar, perante a «Tempestade» assistimos aos ditos ‘peritos’ nas coisas do mar,  a mostrarem-se incapazes de utilizar, com resultados práticos, a sua perícia. Rajadas de vento desequilibram tudo e as vagas, massivas e constantes, inundam a barca. Consequentemente, a consciência e a convicção do seu próprio conhecimento, do seu valor e da sua auto-estima, caiem drasticamente. Sentirem-se frágeis é o resultado. Eis que entram naquela que eu chamo ‘a Angústia do Valor,  da Verdade’, quando a apreciação e a estima pessoais baixam a níveis intoleráveis… ‘não valho nada’.

O experimentar, em seguida, a falta de apoio afectivo dos companheiros, todos eles fracos e perdidos, torna-se o segundo momento da experiência da «Tempestade».  Afectivamente não se sente a presença dos outros. Não aparece alguém com a capacidade de ajudar, sustentar, encorajar. ‘Solidão e nada mais’… Eis ‘a Angústia do Amor’.

«Mestre, não Te importas que morramos?» expressa a terceira dimensão da ‘Angústia’ da nossa existência em perigo. Como se pode facilmente compreender, este aspecto está intimamente ligada ao instinto de sobrevivência de todo o ser criado, tão poderoso na vida do ser humano. Eis que nos afundamos na ‘Angústia da Vida’ porque a segurança, como condição básica da existência humana, não é assegurada.

Quando uma situação crítica se apresenta,  um caos nos parece circundar, por completo e sem esperança e «as tempestades da vida surgem» tremendamente destruidoras, esses são os tempos para, com humildade e confiança, erguer os olhos para o alto e clamar: «Senhor»,  como fizeram os Apóstolos.

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Contudo, um outro  texto evangélico, também narrando uma «Tempestade», traz dois pormenores que me parecem preciosos para compreender melhor a natureza humana perante situações difíceis e calamitosas.

Um, refere-se a Pedro, o líder dos Apóstolos, que, por falta de fé no convite do Senhor Jesus para caminhar sobre as águas e, obviamente, por falta de confiança em si mesmo, começa a afundar-se, a não conseguir avançar… Enfrentar a situação crítica, tomar a Cruz e não ceder à crise é atitude fundamental que todos são chamados a assumir.  De facto, o próprio Jesus Cristo nos lança um desafio: «Se alguém quiser vir após Mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua Cruz, dia a após dia, e siga-Me».

O segundo pormenor está ligado a um fenómeno, muito falado em segredo, mas tão cheio de ignorância intelectual e psicológica. Refiro-me ao ver «fantasmas.» Limito-me só a dizer que as pessoas em ‘angústia’,  apavoradas e ignorantes da dinâmica da natureza humana,  vêem muito facilmente «fantasmas».

Os próprios Apóstolos um dia, aterrados com a tormenta no Mar Tiberíades, tendo Jesus mesmo diante deles, gritaram aflitíssimos: «É um fantasma».

 

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Celebramos S. João Baptista,  Padroeiro da Cidade de Macau

 

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço às sextas-feiras

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É a economia, estúpido!

É uma falácia normalmente bem-intencionada imaginar que o sistema de comércio mundial funciona de forma bem oleada, de acordo com os princípios e normas criados pelo Acordo Geral sobre Pautas Aduaneiras e Comércio de 1994, o qual viria a ser substituído pelo Acordo que criou a Organização Mundial de Comércio em 1995.

É bom lembrar que a seguir à grande depressão dos anos 1930 os Estados Unidos impuseram um conjunto de barreiras comerciais com o objectivo de contrariar o clima inflaccionista que o país vivia. À saída da Segunda Guerra Mundial tornou-se evidente que a reconstrução dos países destruídos pela guerra exigia uma abertura ao livre comércio que fosse construída à volta de ‘grandes princípios’, assegurando o acesso equitativo dos vários países aos mercados. Tanto o Acordo GATT como o Acordo OMC retratam esta crença na beatitude das negociações multilaterais como forma única de desmontar as barreiras que os países constroem para proteger as suas indústrias e empresas nacionais.

O fracasso de várias rondas negociais, o empastelamento do Mecanismo de Resolução de Disputas Comerciais da OMC, a perda de visibilidade da Organização vieram chamar a atenção dos especialistas e dos governos para que a valência das negociações multilaterais acabara. Há cerca de 17 anos arrasta-se a Ronda de Doha, que tem como objectivos remover os obstáculos ao comércio e fazer incluir nas negociações os sectores da agricultura, dos serviços e da propriedade intelectual. O confronto entre os Estados Unidos e a União Europeia por um lado e entre estes e os países em desenvolvimento por outro veio mostrar que a remoção de barreiras alfandegárias é um propósito louvável mas difícil de se pôr em prática quando os países olham para o umbigo, quer dizer o seu interesse nacional.

Com o colapso da negociação multilateral conquistou acuidade a negociação bilateral por ser mais fácil e ajustável ao que os países consideram ser os seus interesses prioritários. Essa a razão por que foi assumida como estratégia prioritária pelos grandes países contrariando a ideia meritória da igualdade de todos perante a Carta das Nações Unidas. Aqueles que na carreira diplomática e nas universidades habituaram-se a olhar para estes princípios como uma espécie de um código de honra a que os responsáveis dos Estados devem obediência, esquecem que as relações entre os países são ditadas por razões bem mais mesquinhas e cínicas. Os governos são dependentes do nível de satisfação dos eleitorados e estes são egoístas.

Não há no plano das relações bilaterais soluções win-win em que todos fiquem a ganhar. Existe sempre uma parte que ganha uma vantagem relativa, muitas vezes por um conjunto das circunstâncias fortuitas e que resiste a inverter essa vantagem quando o agravamento do diferencial dos ganhos e das perdas se torna clamoroso. Um bom exemplo disto são as relações comerciais China-Estados Unidos, ultimamente badaladas nas notícias como uma guerra comercial que pode levar o mundo à ruína e bloquear o sistema de comércio mundial.

É habitual os órgãos de informação exagerarem o tom dos relatos para ganharem a atenção dos leitores e espectadores, mas é manifestamente excessivo falar-se aqui em guerra comercial. Não há propriamente perdas de vidas em combate, nem edifícios ou instalações destruídas, nem desalojados como acontece nas guerras “de verdade”. O que existe é um confronto de posições entre os departamentos de comércio de dois países de acordo com instruções que recebem dos seus chefes de governo. Trata-se de reforçar a posição negocial para quando os países forem para a mesa de negociações poderem obter concessões da outra parte que de outra forma não conseguiriam.

As presidências dos Estados Unidos têm nas últimas três décadas favorecido uma postura liberal e compromissória em relação à China, o que tem estado de acordo com a política externa para com este país desde o reatamento das relações sob Richard Nixon. Esta postura parte da ideia que, com a abertura da China ao mundo e à economia de mercado, com o crescimento de uma classe média cosmopolita, o sistema político iria abrir, levando ao colapso do modelo comunista. A China adoptaria por essa via algo parecido com o modelo de democracia ocidental fundado em instituições representativas, separação de poderes, multiplicidade de partidos políticos e abandono do paradigma estatista de economia.

A evolução da China nos últimos dez anos mostrou que essa conversão democrática não aconteceu, que o sistema comunista é tão impregnável quanto o foi sob a ditadura de Mao Zedong e que a prometida abertura da economia chinesa ao investimento estrangeiro foi sol de pouca dura. Sucessivos relatórios da Câmara de Comércio União Europeia-China e da Câmara de Comércio Estados Unidos-China denunciam o fechamento do mercado chinês, a continuidade de obstáculos à entrada de empresas europeias (e americanas) em sectores como as telecomunicações, as tecnologias de informação, a robótica, a indústria agro-alimentar, a banca, os seguros, o equipamento agrícola e o mercado retalhista.

Acumulam-se nos jornais e nas revistas económicas histórias de plágios de marcas, patentes de invenção, modelos de utilidade e da apropriação ilegítima de segredos industriais e direitos de propriedade intelectual por parte de empresas chinesas que se associam a parceiros ocidentais para a exploração de novos segmentos de negócio. Algum tempo depois abandonam-nos para abrir o seu próprio negócio com o know-how que entretanto acumularam. A China desenvolve tecnologias domésticas que estão a competir com empresas europeias e americanas contando com uma estrutura de custos brutalmente competitiva. Competitiva já que os custos de alojamento das unidades industriais são mínimos ou inexistentes, o custo do factor trabalho é baixo com o recurso ao trabalho feminino e até infantil e a rede de transportes de mercadorias subsidiada pelo governo nacional ou pelos governos provinciais.

Depois de décadas de aprendizagem, face à boa-vontade da União Europeia que levou a China ao colo até à Organização Mundial de Comércio, concedendo-lhe vantagens inusitadas no Acordo de Adesão, a China compete agora palmo a palmo, sector a sector, com a União Europeia e os Estados Unidos. Se olharmos para a evolução da balança comercial entre a China e os Estados Unidos, era de zero em 1985 e evoluiu com relativo desequilíbrio até ao início da década de 2000. Em 2006 o desequilíbrio atingiu os 250 mil milhões dólares e alcançou um valor recorde em 2016 durante a presidência de Barack Obama com 350 mil milhões de dólares. Isto quer dizer que o défice duplicou durante o mandato do presidente democrata.

O défice comercial é em economia internacional algo que penaliza o país, pois significa que as importações são maiores que as exportações e que o país não arrecada a receita que teria se as suas exportações fossem maiores que as primeiras. Representa também uma perda de competitividade das empresas nacionais que vêm a sua posição no mercado interno ocupada por estrangeiras e as suas exportações ‘batidas’ nos mercados de destino. A forma de se inverter tal estado de coisas passa ou por convencer o país com que se está em défice a exportar menos para o mercado interno ou em penalizar as suas importações à entrada das fronteiras. Ninguém larga voluntariamente a vantagem que entretanto conquistou no acesso a um dado mercado. Só se for fortemente pressionado.

É o que Trump está a fazer com as taxas alfandegárias adicionais que está a aplicar aos produtos chineses. Em Março aplicou taxas adicionais ao alumínio e a produtos de aço agora ameaça aplicar, já a partir de 1 de Julho, taxas adicionais de 25% a cerca de 800 produtos chineses avaliados em 34 mil milhões de dólares. Onde se incluem pneus para aviões, máquinas de lavar louça e equipamentos eléctricos destinados ao mercado retalhista. A China respondeu ameaçando aplicar taxas adicionais a 659 produtos americanos importados e avaliados em 50 mil milhões de dólares e que incluem produtos agrícolas, carros e produtos oriundos do mar.

Os Estados Unidos querem pressionar a China a parar práticas empresariais comerciais desleais que levam à transferência ilícita de direitos de propriedade intelectual para as empresas chinesas. Recorde-se que a China funciona como um parque industrial de montagem de componentes vindos de todos os cantos do mundo, fornecendo ainda as matérias-primas fundamentais para as baterias que vão impulsionar os veículos de futuro. Veículos cuja tecnologia está a ser desenvolvida nos Estados Unidos e com quem a China quer concorrer num plano de igualdade. Naturalmente aqui cruzam-se os interesses opostos dos fabricantes americanos de automóveis, produtos eléctricos, equipamento mecânico, tecnologias de informação que querem os seus produtos e tecnologias protegidos e os consumidores que querem comprar barato e que são pouco sensíveis a comprar ‘made in USA’. É o primeiro segmento a base de apoio dos republicanos em muitos Estados do centro e do Sul que Trump tem de contentar sobretudo em ano de eleições intercalares para o Congresso, o Senado e para governadores dos estados.

Esta é a estratégia ofensiva habitualmente usada por Donald Trump nos processos negociais e que recolhe críticas duras de opositores internos e da imprensa liberal que a entende imprópria para um país com o estatuto dos Estados Unidos. Afirmam que ela trará efeitos contrários aos que Trump pretende alcançar. É bom ter em conta que apesar das ameaças de lado a lado o tom das declarações é cordato e elevado. Trump aproveita todas as ocasiões para lembrar a excelente relação pessoal que tem com Xi Jinping. Xi responde-lhe no mesmo sentido. Os dois países estão a meu ver condenados a se entenderem e à zanga virá a promessa de amor.

Os Estados Unidos são o primeiro parceiro comercial da China ocupando 19% do total das exportações chinesas. Seguem-se Hong Kong com 12.4%, o Japão, a Coreia do Sul e o Vietname com cerca de 6% cada um deles. Apenas depois vem a Alemanha representado 3.1% das exportações chinesas. Já quanto aos Estados Unidos, os seus principais parceiros comerciais são por esta ordem a China, o Canadá, o México, o Japão e a Alemanha. Os três primeiros países representam 45% do total do comércio externo dos Estados Unidos e isso diz muito da sua importância. Quando o presidente dos Estados Unidos olha para o mapa da América, de um lado vê o Oceano Atlântico mas do outro vê o Pacífico, e a China e o Japão ocupam um posicionamento de importância estratégica.

 

Arnaldo Gonçalves, Jurista e professor de Ciência Política e Relações Internacionais. Escreve neste espaço quinzenalmente, sempre às quintas-feiras

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CRITÉRIOS DE VIDA BEM DIFERENTES… DOS NOSSOS

O Evangelho deste Décimo Primeiro Domingo do Ano Litúrgico é totalmente dedicado a parábolas através das quais Jesus Cristo nos explica, de maneira muito simples e directa,  um pouco aquilo que é o “Reino dos Céus”. Diria que o texto do Novo Testamento nos apresenta um modo de viver “bem diferente” do que é normalmente difundido na sociedade actual. Introduz-nos, na verdade, numa vivência humana mais rica e fecunda, capaz até de nos transportar à experiência da vida espiritual e abrir-nos, efectivamente, as portas à compreensão da experiência de Deus.

Contudo, esse ensinamento desafia, peremptória e quase violentamente, as tendências imediatas e instintivas da nossa natureza humana. Cristo proclama  que «o Reino de Deus» ou acção de Deus numa pessoa se manifesta, num primeiro momento, não pela via da exterioridade, do clamoroso ou espectacular, mas pelos caminhos do silêncio, discrição e escondimento: «Reino de Deus é como um homem que lançou a semente à terra. Dorme e levanta-se, noite e dia, enquanto a semente germina e cresce, sem ele saber como.»

A pregação do Mestre prossegue e, num segundo momento,  expõe uma outra característica necessária na relação com Deus, isto é, o ser humano só chegará a esse encontro com o divino pela via da humildade, de se reconhecer frágil, limitado e «pequeno». Não pela grandiosidade arrogante, vaidosa e egocêntrica : «O Reino dos Céus… é como um grão de mostarda que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes que há sobre a terra; mas, depois de semeado, começa  a crescer e torna-se a maior de todas as plantas da horta…».

Enquanto isto e em contraste flagrante, lêem-se as tristes notícias. Princesa, algures nas casas reais da Europa,  ou chefe de cozinha renomado nas mais famosas cadeias de hotéis, ou artista músico que atrai multidões e vende milhões de discos ou ainda político de partido bem reconhecido na cena política põem termo à vida.

Todos eles expostos no palco ou na ribalta da vida social,  percorrendo, com elegância, a carpete vermelha do estrelado ou da fama ou da geneologia nobiliárquica, aplaudidos tão entusiasticamente, por vezes, até à loucura. No entanto, por detrás dessa cortina aveludada vislumbra-se um ‘Vazio’ profundo e pavoroso da ‘Angústia’.

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A ‘Angústia’ é um facto inegável na existência de todo o ser humano, e, muito particularmente, no íntimo do coração de qualquer homem ou mulher, vivendo neste mundo.  Atinge todos os estratos sociais. Ninguém se consegue furtar a esta realidade.

Seguindo o Evangelho de São Marcos, mais concretamente as palavras e as imagens de Jesus, diria que a’  ‘Angústia Existêncial’ que nos acompanha sempre tem duas origens. A primeira está intimamente ligada à necessidade de todo o ser humano de ser visto, admirado, apreciado pelos outros. E isto, mais uma vez, tendo em conta que é algo de  estrutural na pessoa humana, homem ou mulher. A necessidade de ser reconhecido ou reconhecida como alguém que tem valor é visceral em todas as pessoas. A segunda está enraizada numa outra necessidade, neste caso, a de todo o ser humano querer ser grande, querer ser o primeiro entre todos e por eles ser aplaudido, aceite e, por fim, amado. Perante tais exigências naturais e instintivas, é que todos, homem ou mulher, terão, então, de assumir as suas opções concretizadas tanto em critérios de vida como em diferentes estilos de vida.

Levando as situações ao seu extremo deparamo-nos, com cada vez maior frequência, uns a lançarem-se numa vida compulsiva de exibicionismo, exageros e loucuras,  protagonismos mórbidos e degradantes; e outros a cairem no oposto, no ‘vazio’ de sentido, a serem dominados pelo pavor de existir e a mergulharem no ‘nada’ e a deixarem-se vencer pelo desejo da ‘morte‘.

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É neste contexto de fragilidade e imperfeição da nossa Humanidade que somos chamados a tentar compreender o convite, implícito nas palavras do Senhor Jesus, o Mestre,  para uma outra maneira de estar ou de enfrentar as dificuldades no Mundo. É um apelo vigoroso ao ‘Caminho interior’, a tocar as aspirações mais radicais, mais verdadeiras do coração humano. É uma exigência a não ficar nem nas inclinações superficiais e muito agradáveis, mas enganadoras da sensibilidade humana, nem se deixar dominar pelo desânimo ou desespero. Ir mais além…

Daí o Senhor Jesus afirmar que o verdadeiro crescimento se efectua, primariamente,  no profundo do nosso próprio ser, sob a acção do Espírito de Deus que habita em nós: «a semente germina e cresce sem ele (homem ou mulher) saber como.» Nem exageros extrovertidos nem desesperos introvertidos são a solução aos desafios da vida, mesmos os mais difíceis e dolorosos

Com Jesus, aprendemos também um outro  critério de vida, o da humildade e de não me fazer, abusivamente, mais que os outros. O querer ser, compulsivamente e a todo o custo, grande  e o primeiro entre todos termina, tarde ou cedo, em grande desilusão. Porém, hoje, na nossa sociedade e na política mundial parece que só se ouve proclamar: ‘…Primeiro… Primeiro… Primeiro…’. Delicadamente, Cristo, o Mestre Divino e o Bom Pastor, continua a afirmar, com a ajuda da parábola, qual é o verdadeiro caminho para a grandeza humana e espiritual,  ao serviço da Humanidade «…um grão de mostarda que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes que há sobre a terra; mas, depois de semeado, começa  a crescer e torna-se a maior de todas as plantas da horta…».

Humildade!

 

LUÍS SEQUEIRA, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço às sextas-feiras

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«Patuá di Macau» como elemento identitário: Que futuro?

Dinâmicas e contextos da pós-transição

 

No dia 5 de Junho de 2018 sob os auspícios da Comissão Temática de Promoção e Difusão da Língua Portuguesa dos Observadores Consultivos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (vulgo CPLP) realizou-se o Colóquio de encerramento das Comemorações do Dia da Língua Portuguesa e da Cultura, cujo tema central incidiu sobre os «Crioulos de Base Portuguesa: Património Linguístico».

De entre os vários painéis que marcaram a iniciativa saliento o Painel 3 sobre a Preservação, cujo tópico central levantava questões em torno da reflexão sobre iniciativas que promovam a preservação dos crioulos e a coexistência pacífica com o português; educação, ortografia, políticas linguísticas, onde tive a oportunidade de suscitar a problemática que dá título a esta crónica: Patuá di Macau como elemento identitário: Que futuro?

Apesar de não ser um especialista do tema, como investigador e antropólogo que se tem debruçado e reflectido sobre a cultura e identidade macaense não quis deixar de dar o meu contributo para que o Patuá macaísta figurasse também nesta comemoração.

Sem cair na tentação de replicar o conteúdo da minha participação no coloquio evoco apenas alguma ideias centrais que por lá transitaram e que deixo em apreciação aos leitores desta crónica solta.

Só o facto do Patuá macaísta constar como referência ao património linguístico dos crioulos de base Portuguesa, por si só releva a importância que o mesmo ainda tem como elemento identitário da sociedade macaense, funcionando como marcador cultural, ou seja, perpetua-se como código genético da construção identitária da herança lusófona que remonta ao séc. XVI e que muito contribuiu para a emancipação da constituição da comunidade dita macaense.

Quanto ao seu peso e significado no passado a mesma não nos levanta grandes dúvidas pela sua importância na congregação dessa comunidade, até porque era a sua forma expressa de comunicação como traço de diferenciação e de contacto com os dois mundos: o asiático e o lusófono.

O mesmo já não podemos dizer quanto ao seu futuro, situação que encontra paralelo com outros demais crioulos que hoje são evocados como património linguístico a preservar, sendo a sua natureza intangível e imaterial, difícil se torna a sua conservação pois que para tal não basta evocá-lo ou apenas dar-lhe um cunho histórico.

Nesta matéria, o papel da antropologia como disciplina que tutela as dimensões etnográficas e etnológicas do “saber local” tem-se pautado pela dignificação e preservação das heranças patrimoniais, admitindo no entanto que as mesmas sejam “vivificadas” num contexto daquilo que apelidamos como a “reinvenção das tradições”, ou seja, a possibilidade de adequar novas dinâmicas que possibilitem a recuperação dos significados e das funcionalidades dessas práticas como padrão simbólico de reforço às identidades locais.

Assim sendo, a preservação do Patuá (ou dos crioulos em geral) reclama uma dinâmica de revivificação que poderá assentar em dois segmentos de reconstrução: uma primeira que busca uma população falante e uma segunda que permita a exaltação dessa condição.

Um dos exemplos mais paradigmáticos desta solução tem sido o do trabalho desenvolvido pelo Grupo de Teatro «Dóci papiaçám di Macau» que recupera a tradição de levar à cena o teatro de sátira social como evento de exaltação desse traço cultural atraindo uma população que tanto se pauta por recuperar, reinventar e utilizar os vocábulos desse “papiar” como simultaneamente agrega um publico que vem apenas escutá-lo quer, por mera curiosidade dessa sonoridade do “fála vai fála vem” que foi marca histórica de Macau, quer porque procura o reencontro das ligações ancestrais numa adesão aos afectos que essa sonoridade provoca mesmo não entendendo os textos na sua plenitude.

Se outras iniciativas houvesse que permitissem a revalorização desse “saber local” como elemento integrante das características culturais que marcam a singularidade de Macau, talvez pudéssemos reconstruir a sua funcionalidade e notoriedade num quadro simbólico que fosse também matriz oficial da identidade de Macau que hoje se denomina como RAEM, isto é, internacionalizar a sua referência como património mundial, até porque os crioulos são a marca da herança linguística da miscigenação e da coabitação entre os povos por esse mundo fora onde os portugueses foram sem dúvida exemplares.

Como alguém já terá dito, a humanidade sem os crioulos seria por certo muito mais pobre, foram eles que possibilitaram a emergência da multiculturalidade e da tolerância racial reconstruindo novas forma híbridas de coexistência pacífica. O «Patuá di Macau» enquanto crioulo euro-asiático contribuiu também para essa herança patrimonial que é hoje pertença do Mundo Global, ignorá-lo é perder a oportunidade de reinventar um Mundo melhor.

 

 

Carlos PiteiraInvestigador do Instituto do Oriente e Docente do Instituto Superior de Ciências Socias e Políticas / Universidade de Lisboa

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A OUSADIA DE SER DIFERENTE

Na passada semana, assim se descrevia a reacção de muitos dos que seguiam Jesus Cristo: «Como pode Ele dar-nos a Sua carne a comer?… Aquilo que Ele diz é dificil de aceitar! Quem pode ouvir semelhante coisa?» Incompreensão e rejeição. Alguns até deixaram de andar com Ele.

Neste Domingo, o Décimo do Ano Litúrgico, o Evangelho leva-nos ainda mais longe quanto às repostas daqueles que escutam as Suas palavras e lá se afirma: «Ao saberem disto, os parentes de Jesus puseram-se a caminho para o deter, pois diziam; Está fora de Si.» Cristo é chamado «louco» pelos seus próprios familiares. Ele  o Mestre da Verdade. Inacreditável, mas é um facto!

Mas a narrativa evangélica prossegue e apresenta-nos uma outra situação que ‘é de bradar aos Céus’, como se diz popularmente. «Os esribas que tinham descido de Jerusalém diziam: ‘Está possesso de Belzebu… É pelo chefe dos demónios que Ele expulsa os demónios…’» O Filho de Deus Altíssimo e Perfeitíssimo, Templo do Espírito Santo é declarado, sem mais, como «possesso do diabo»! Ele o Mestre que, por Amor, morreu para alcançar a Liberdade e Salvação de todos. Quando o humano, consciente ou inconscientemente, se faz ‘como Deus’, com muita facilidade, chega a estas escandalosas declarações.

«A ousadia de ser diferente» é, na leitura do texto do Evangelista S. Marcos,  aquele aspecto de Jesus Cristo que me sinto inclinado a ponderar com maior atenção e, com maior profundidade, a meditar. Tentar  perceber quanto esse modo de viver está estabelecido neste Mundo em que vivemos e na vida concreta do nosso dia a dia constitui um desafio, sem precedentes, à consciência de toda a Humanidade. Para já e porque não existente, entre nós essa realidade de «ousar ser diferente» não conseguimos ainda vislumbrar, positivamente, as suas repercussões na transformação da nossa Sociedade contemporânea.

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O Mundo, e numa perspectiva negativa da globalização, torna-se ou revela-se como um espaço de exercício de poder sujeito não só a um controle sofisticadamente tirano, mas também, ignominiosamente imoral, cheios de abuso e de manipulação. A Finança que se quer global, está a usar, maquiavélica para não dizer diabolicamente, a Tecnologia Informática. O lucro nos Centros Financeiros é atrozmente mais importante que os dois terços da humanidade que se torna cada vez mais pobre. Aumentam, vergonhosa e terrivelmente, por todas as partes do mundo, as crianças que choram por uma gota de água para saciar a sede e um pedaço de pão para matar a fome. Queremos exemplos!? São aos montes. ‘Panama Papers’, ‘Paradise Papers’. São os casos internacionais mais badalados, e em lugares da tão apregoada ‘deontologia profissional’. E em Portugal, a história ignóbil dos Bancos? Os responsáveis, todos com cursos universitários, todos muito bem engravatados. Quem paga o roubo e delapidação, ainda por cima, é o povo. Quem são roubados são os imigrantes.

O mundo da Política parece ir pelo mesmo caminho. ‘Idem aspas’. Que o diga a controvérsia entre o ‘ingénuo’ Facebook e a ‘matreira’ Cambridge Analytica, que desaparece como uma raposa.

Estão a surgir, com maior frequência, pensadores, economistas e analistas com voz muito crítica à tão apregoada globalização. Eles denunciam a globalização, dominada pela Finança sôfrega do lucro e potenciada pelas tremendas e quase inesgotáveis capacidades da Informática. A Globalização,  para eles, está a tornar-se, ao fim e ao cabo, uma globalização meramente financeira, enraizada no liberalismo económico desenfreado. De tal maneira que até sugerem um novo vocábulo ‘a mundialização’ do sistema financeiro, ilibado de tanto lixo e escória, e que seja verdadeiramente posto ao serviço da Pessoa Humana e da Comunidade Universal. Viver, em verdade,  o que significa a Economia.

Eis «a ousadia de ser diferente» e denunciar, dizer a Verdade, mesmo que muitos não gostem e até nos possam ofender, caluniar ou fazer mal.

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A subjugação à publicidade, à informação e meios de comunicação social e à informática apresenta-se como uma outra dimensão da nossa vivência na Sociedade actual, onde se descobre que as pessoas estão a perder, inexoravelmente, a sua liberdade, primeiro, e, depois, o seu sentido crítico.

Ganha-se maior consciência, e ainda bem, da tremenda manipulação psicológica que existe na publicidade, sobretudo, tendo em conta ‘a sociedade de consumo’ em que estamos mergulhados. Estão em jogo técnicas das mais sofisticadas e extremamente subtis para nos cativar a atenção e nos levar, compulsivamente, a desejar e, por fim, a comprar. Chegam mesmo a tocar os níveis subliminares, do subconsciente e inconsciente. Espantoso!

Os ‘fake news’, deixando a política americana à parte, é uma realidade quotidiana a que estamos sujeitos contínuamente. E acredita-se, a pés juntos, em quase tudo, sem qualquer sentido crítico, como papalvos. Quantos boatos que são autênticas falsidades e calúnicas. Não esqueçamos que a guerra do Iraque foi feita com uma mentira. Mais ainda, as nossas conversas, tantas vezes, tornam-se antros de alcoviteirice e mexeriquice em vez de encontros de crescimento e enriquecimento pessoal e comunitário.

A inclinação obsessiva para o uso de telefone portátil, do videogame ou do computador é questão de perguntar na vida de família ou nos jantares de amigos, no restaurante, quais são os seus efeitos.

Como é tão necessária  «a ousadia de ser diferente»!

 

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço às sextas-feiras

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O encontro Kim-Trump em Singapura

Contrariando cenários que davam como esgotada qualquer hipótese de encontro entre Kim Jong Un e Donald Trump, o líder de um dos últimos países comunistas do mundo e do mundo livre vão reunir-se na Ilha de Sentosa, em Singapura. Para já o nome do local é simbólico “Capella Hotel”, sugerindo a necessidade de contenção e respeito. Depois o facto de o hotel ser propriedade da empresa singapuriana Pontiac Land Group, correspondendo a uma das exigências da parte norte-coreana que a reunião tivesse lugar em hotel que não fosse propriedade americana ou europeia. Finalmente o facto de Sentosa ter sido ocupada pelos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial funcionando como campo de detenção de prisioneiros ingleses e australianos. Depois da rendição japonesa a ilha tornou-se a base do Primeiro Regimento da Artilharia Real de Singapura e local de treino militar. Desde 1970 é um resort de luxo. A sua localização próxima mas separada da costa permite a gestão de um dispositivo de segurança apropriado.

Trata-se da primeira reunião entre os Presidentes da Coreia do Norte e dos Estados Unidos. No passado houve reuniões entre as duas partes, ao mais alto nível, mas através de mandatários enviados por Clinton e por Bush.  Tecnicamente os Estados Unidos e a Coreia do Norte estão em guerra porque nenhum armistício foi assinado desde o fim da Guerra da Coreia entre 1950 e 1953. O mesmo se passa entre as duas Coreias.

Em termos estratégicos o que significa esta reunião?

Trata-se de uma alteração substancial da política norte-americana para a Coreia do Norte pois a negociação foi sempre conduzida através de intermediários e envolvendo outros países da região. Esta visão foi comum às administrações republicanas e democratas nas últimas cinco décadas. Dá corpo a uma visão própria do Presidente norte-americano que privilegia as negociações frente a frente e um jogo de compensações para garantir o acordo possível. É ainda uma oportunidade para o líder norte-coreano passar para a opinião pública uma outra imagem mais madura e respeitável, depois de ter espantado o mundo, no pior sentido, com uma sucessão de lançamentos de mísseis e de realização de testes nucleares subterrâneos que pôs em alvoroço as chancelarias. Projecta também a ideia que não há bloqueios internacionais definitivos e que independentemente dos regimes políticos os líderes podem reunir, conversar e eventualmente entender-se.

O que é que está em cima da mesa das negociações?

Desde logo a desnuclearização efectiva da península coreana e a contenção da corrida de Pyongyang ao apetrechamento do seu arsenal nuclear, sabendo-se que estará a poucos anos de conseguir municiar os seus mísseis de médio e longo alcance com ogivas nucleares. Se nada se conseguir, segundo os especialistas, em 2023 o regime norte-coreano poderá ter um arsenal de 200 ogivas nucleares o que o colocaria ao nível da França e da China.

Trata-se de um objectivo ambicioso – e para muitos peritos irrealista – pois permitiria congelar a ameaça norte-coreana e tranquilizar os vizinhos do Sul e da região. Provavelmente poderá conseguir-se um congelamento provisório em troca de compensações financeiras na forma de ajudas de Estado e de investimento estrangeiro.

Do lado norte-coreano o que se pretende é a repatriação do contingente norte-americano de 28 000 homens entre militares e pessoal civil. A maior componente deste contingente pertence ao exército com 19 000 militares seguindo-se a marinha como 1200 homens. A maioria das tropas está localizada na guarnição de Humphreys, em Pyeongtaeak, na guarnição de Yongsan em Seul e em Camp Walker em Daegu. A Força Aérea tem duas bases em Osan e Kunsan. A Marinha opera a partir das bases de Busan e Jinhae.

Trata-se de um objectivo difícil de concretizar dado o Acordo de Defesa e Assistência Mútua que liga americanos a sul-coreanos. Na realidade, o  contingente americano sedeado no Sul é a única força de contenção e dissuasão a uma eventual repetição da invasão do Sul pelo exército norte-coreano. Removido esse “tampão” o regime de Pyongyang poderá sentir-se livre para a todo o tempo invadir o Sul e forçar a reunificação sob bandeira comunista. Kim Jong Un considera o seu regime superior e o que vigora no Sul uma aberração imposta pelos “imperialistas” norte-americanos. Alguns analistas, alinhados com o neoliberalismo nas relações internacionais, consideram esse cenário improvável dada a presença da China a Norte e a forte dependência norte-coreana da assistência económica, alimentar e financeira de Pequim.

Não se questiona essa proximidade mas parece evidente que a dimensão nacionalista e fortemente e belicosa da ideologia “juche”, que funda o regime, privilegia a auto-suficiência económica e militar que são incompatíveis, a longo prazo, com um eventual estatuto de protectorado chinês.

Outro ponto em cima da mesa é o levantamento das sanções aplicadas pelos Estados Unidos, pela União Europeia e outros países na sequência das resoluções de Agosto do ano passado tomadas pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. As sanções aplicadas estão avaliadas em cerca de dois mil milhões de dólares em perdas nas exportações coreanas que vão desde o carvão, ao mineral de ferro e ao marisco. Essas sanções tiveram um profundo impacto retaliatório levando a Coreia do Norte a recuar e aceitar ir à mesa das negociações perante a eminência de um colapso económico gravoso, já que os investimentos internacionais se encontram também congelados. Se as sanções forem levantadas de uma só vez o mecanismo de “leverage” desaparece e Kim Jong  Un pode sentir-se tentado a retomar a cavalgada das experiências nucleares e pressionar o Sul. Quando muito é viável um levantamento faseado que seja acompanhado da fiscalização internacional do encerramento de unidades militares envolvidas no fabrico de bombas atómicas.

Um último ponto eventual da agenda é a formalização do armistício entre o Norte e o Sul e o início de uma cooperação significativa no campo económico, financeiro e tecnológico. Uma cooperação que permita a abertura da Coreia do Norte ao exterior como a China o vem fazendo desde os anos 1980 e o Vietname o replicou. Isso não se traduzirá na mudança política do regime e na “colonização” da Coreia do Norte pelo Sul como o regime comunista sempre alardeou.

Será previsível um acordo desta natureza?

É irrealista admiti-lo numa só reunião, dada a natureza confucionista da cultura norte-coreana. Se o contacto pessoal entre os dois líderes for amistoso, franco e positivo poderá haver uma declaração final conjunta viabilizado o estabelecimento de um processo de negociações dirigido ao congelamento temporal da produção de bombas e ogivas nucleares, com a contrapartida norte-americana de investimentos em áreas em que o país é carente, como a indústria agro-alimentar, o turismo, os serviços ou as tecnologias de informação. No fundo um concerto de boas-vontades que tranquilize a China, o Japão, a Coreia do Sul mas também a Europa e os Estados Unidos de que a corrida beligerante de Pyongyang será por alguma forma sustida e ultrapassada.

Qual o pior cenário?

O abandono das negociações pelos dois Presidentes com a acusação de Pyongyang que a posição norte-americana é irredutível e maximalista exigindo uma cedência total da outra parte sem quaisquer contrapartidas sérias. Nesse cenário o reinício do lançamento de mísseis é inevitável.

 

Arnaldo Gonçalves, Jurista e professor de Ciência Política e Relações Internacionais. Escreve neste espaço quinzenalmente, sempre às quintas-feiras.

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