A realidade não basta

Fugaz, a sinóptica perturbadora que alcança o mundo atual é pungente, em inexpressivos monossílabos escassos de buscas.

Em meio a um vazio desassossegado, acostumados com a parcimônia – a alma cega de alienação -, poucos são os que se importam com as expressões. Poucos são os que se dissipam pelo ar dispostos a deixar-se levar pela imaginação. Poucos conhecem a si próprios além das informações deixadas em seu perfil numa rede social qualquer.

Imprescindível é ter olhos para ver por dentro. Pois a cegueira que fecha os olhos para o mundo – gerando desencontros – é a cegueira da alma incapaz de sentir. Não adiantam as palavras: expressar quão belo está o dia não traz enlevo algum, a menos que as palavras saiam na espontaneidade da apreciação, ao contrário da dissimulação geralmente usada para guardar indiferenças.

De que vale viver oculto em uma tela de computador, se não é possível sair de si mesmo e sentir a liberdade da vida?

Saramago, em sua experiência literária de idealizar uma cegueira que assola desenfreadamente os seres humanos, põe o leitor para refletir sobre a distância do sentimento de humanidade, sobre o fato de os olhos do corpo não serem suficientes para sentir-se vivo. Na voz de um de seus personagens, Saramago expõe uma verdade que fala à atual geração: “Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem“.

A cegueira a que se refere o autor nascido na província portuguesa de Ribatejo não se trata de problema das vistas enquanto órgãos que transmitem imagens para o cérebro decodificar, mas de um problema que alcança as pessoas e as despersonaliza: retira a humanidade, que, enquanto sentimento, diz respeito ao homem que se basta sobre a Terra, considerando mazelas e sonhos.

Pois o homem acaba por perder-se em meio ao mundo cibernético em que vive, trocando diariamente a realidade pela uniformidade de vivências que é a inexpressiva tradução da sociedade atual: a ilusão de uma realidade virtual, numa ficção que não gera vida, aprisiona.

Enquanto fonte de inspiração, a ficção é espaço em que o homem se inventa e recria suas imagens. Espaço de sonhar e sentir, na fantasia de viver a fuga, o outro lado da existência, pautado na imaginação – infinita.

Todavia, percebe-se a divergência entre abdicar da realidade e abdicar de si: não há reconhecimento das lacunas da existência na ficção buscada pelas massas. A vida virtual enrijece, arrefece, traz amnésia das origens e cria falsas ideologias, pois distancia o homem de sua própria essência, cria distâncias e mantém a alma incólume – sem lacunas.

Pois as lacunas são necessários meios para o autoconhecimento: indagações deixam rastros que amadurecem a inquietude da existência, enquanto dinâmica que é. A vida não é pautada nas respostas, mas nos vazios deixados pelo que não se deixa entender com os olhos pragmáticos.

Então penso que o homem se enxerga pleno em contato com sua alma por meio de seus próprios eufemismos e convergências, pensando ter conhecimento de sua identidade sem saber sentir a própria alma.

A literatura, enquanto arte, deixa o desejo, acende as consciências para aquilo que não se pode enxergar com os olhos. Então vejo que as palavras – limitadas ao dizível – são fonte geradora do mundo. São alimento para o tempo histórico e elemento construtor do eu – enquanto personalidade no mundo real.

As palavras podem ser contaminadas com a frivolidade de uma área de lazer e até de um estudo aprofundado capaz de tornar técnica a literatura, mas jamais perderão seu poder de alcançar o âmago do indivíduo, criando lacunas capazes de gerar a poesia e estimular o latente mundo onírico. Fonte de expressão, a arte é a localização do homem em seu mundo, com os olhos voltados para a existência – não apenas para as aparências.

A literatura, exatamente por isso, é capaz de fazer transcender o homem ao seu próprio universo, pois consegue encontrar num texto emoções que já experimentara sem exprimir. José Castello, em uma publicação de 2012 no site do jornal O Globo, faz reflexões sobre a arte das palavras em contato com o indivíduo no texto “O poder da literatura“:

[…] leia Dostoievski, leia Kafka, leia Pessoa, leia Clarice – e você verá que rombo se abre em seu espírito. […] Vivemos imersos em um grande mar que chamamos de realidade, mas que – a literatura desmascara isso – não passa de ilusão. A “realidade” é apenas um pacto que fazemos entre nós para suportar o “real”. A realidade é norma, é contrato, é repetição, ela é o conhecido e o previsível. O real, ao contrário, é instabilidade, surpresa, desassossego. O real é o estranho.”

Por isso, é possível perceber a necessidade de uma leitura clara da vida – e das palavras -, no que é possível enxergar um pensamento do escritor francês André Gide: “a arte começa quando viver já não é suficiente para exprimir a vida”. É preciso impavidez para lançar os olhos e ler as entrelinhas, deixar-se alcançar por seus próprios significados, sentir a liberdade de sonhar.

Assim, a literatura não pode ser resumida em um conjunto de análises feitas em sala de aula, mas em objeto de libertação da sensibilidade, por isso a necessidade de o livro não ser mais uma das obrigações escolares para as crianças, mas um amigo para acompanhar o crescimento. Um amigo para o indivíduo entender que ele próprio é capaz de produzir arte, de irradiar sua alma em expressões de beleza, de vivificar seus dias em plena liberdade.

Pois o desenvolvimento, ao contrário do que se pensa, não pode ser pautado tão somente na lógica e na linguagem, mas na vida e nos sonhos: no pulsar da humanidade.

Resumo: Não é possível alimentar anseios sem sonhar a vida de olhos abertos.

Standard

Rio 2016 e o Foooooora Temer

Márcia Souto

 

Os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, desde o seu anúncio, há anos, têm sido rodeados por polémicas, devido sobretudo à crença de que a cidade seja incapaz de acolher de modo digno os atletas e torcedores esportivos.

A crise política que se instaurou no Brasil veio aumentar mais ainda os ceticismos, e a desconfiança de que a coisa não andaria bem passou de boca em boca.

Mas chegaram as Olimpíadas e, tal qual a Copa do Mundo de Futebol, em 2014, as previsões catastróficas não se concretizaram, mas nem tudo foi/está sendo “às mil maravilhas”.

Como era de se esperar, houve vaias na abertura, que se reverberaram em protestos durante competições. Segundo é sabido, a Presidente eleita foi afastada e tem seu mandato em risco de perda. Contra Dilma Rousseff, uma mídia elitista apoiou um golpe constitucional engendrado por uma classe política de base retrógrada, racista, homofóbica e machista, liderado pelo presidente interino Michel Temer. Assim, vimos o já famoso bordão “Fora Temer” virar marca constante nas audiências dos Jogos. Coerente com os princípios pelos quais reza, o Governo interino proibiu manifestação política durante as Olimpíadas e rodaram mundo as imagens de pessoas sendo retiradas de dentro de estádios ou lhes sendo confiscados cartazes em que expressavam pacificamente a revolta pela ditadura que pisca olho ao Brasil atualmente.

Neste clima de crispação e angústia, a resistência toma o Brasil e a vitória da judoca Rafaela Silva, primeira medalha de ouro brasileira neste Rio 2016, tem um sabor muito especial. Vindo de todas as margens possíveis e imagináveis (mulher, pobre, negra, lésbica), o Ouro da Rafaela parece dizer que o melhor do Brasil são os brasileiros que lutam contra as opressões visíveis e invisíveis que cada vez mais, infelizmente, tomam o lugar do poder político atual.

O beijo gay protagonizado pela jogadora da seleção brasileira de rugby e a sua namorada que a pediu em casamento, após a cerimónia de entrega das medalhas às campeãs australianas, também é um belo modo de manifestar resistência pacífica e olímpica à Idade das Trevas que teima em apagar o brilho da chama da liberdade no Brasil.

Como era de se esperar, são inúmeras as notícias de assaltos, problemas de infraestrutura ou desorganizações nos Jogos do Rio 2016, assim como a quebra de incríveis recordes, vitórias espetaculares, emocionantes competições, mas, sem dúvida, o que marca indelevelmente estas Olimpíadas brasileiras é o sorriso de quem acredita que, tal qual Chico Buarque canta em “Apesar de você”, amanhã há de ser outro dia.

Standard
FOTO Pak Tai esta semana

Sopro de Pak Tai Augustin, rei do kung fu

Joaquim Magalhães de Castro

 

Enquanto o ICA, RTP e congéneres continuam a financiar projectos de certos lisboetas neuróticos, enviesados, crónico-depressivos com trejeitos de falsos poetas que produzem trabalhos que depois pouca gente tem pachorra para ver, talvez porque ninguém neles se consiga identificar (sim, porque em Portugal nem tudo se resume a fado e Lisboa), na Europa há quem se lembre de personagens nacionais capazes de servir de excelente matéria para as suas obras. É o caso da cineasta francesa Anne Fontaine que em 2000 realizou Augustin, King of Kung Fu. Um filme belo e despretensioso que nos conta a história de Dos Santos, um solitário e introvertido emigrante português que, entre outros pequenos trabalhos, faz de figurante em filmes, mas cujo sonho é vir um dia a participar numa película de artes marciais. Para isso mergulha a fundo na cultura e tradição chinesas passando a frequentar, encavalitado na sua “pasteleira”, fiel companheira, o Chinatown de Paris.

À excepção de um professor de francês fluente em mandarim e o gerente de uma loja de quinquilharias onde Augustin passa a trabalhar e com quem estabelece uma relação de amizade, todos os actores e figurantes de Augustin, King of Kung Fu são chineses da província de Cantão (escutamos o cantonense com frequência), a tal ponto de nos chegarmos a questionar se a acção se passa, de facto, na capital francesa. Uma dessas figuras é inclusive identificada como residente de Macau.

Hóspede de uma pequena pensão com quartos de paredes de contraplacado que tanto serve noites de sono como de amor a pagantes, freguês dos tascos de min e de yam cha e aplicado aluno de aulas de mandarim e de kung fu – até então, o nosso herói apenas ensaiara golpes de pés e movimentos de mãos inspirados pelo som que gravava nas salas de cinema meio vazias das quais era frequentador assíduo –, Augustin encarna na perfeição o verdadeiro espírito do período das Descobertas.

Como se não bastasse, o nosso emigrante, encarnado pelo actor Jean Chretien Sibertien-Blanc, na qualidade de paciente trava conhecimento com a acupunturista Ling, nada menos nada mais que a imensamente bela e talentosa Maggie Cheung. Esta, através dessa ciência milenar chinesa desperta-lhe sensações que ele julgava inexistentes, pois, apesar da generosidade e simpatia, Augustin tem um problema quanto ao seu relacionamento com as outras pessoas. Quiçá, parte dessa intrínseca lusa forma de ser e estar que muitos dos cineastas portugueses apenas conseguem retratar de uma forma deprimente mas que certos estrangeiros logram captar na sua essência – veja-se o Lisbon Story de Wim Wenders e A Cidade Branca de Alain Tanner.

Ling apaixona-se por Augustin e este, como não podia deixar de ser, por ela. Porém, o emigrante ocidental leva mais tempo a revelar a sua paixão do que a congénere oriental, e quando aquele o decide fazer vai encontrar Ling, em crise de identidade, nos braços do professor de francês, um gesto de simples desabafo imediatamente mal interpretado pelo tímido Augustin que logo assume existir entre a acupunturista e o professor algo mais do que simples amizade. O imenso equívoco leva-o à partida. Era o destino que estava traçado.

Num misto de fuga e de desejo de uma maior integração na cultura que o fascinava desde a infância, Augustin parte para a China. E na China o vemos, anos depois, em Pequim, pedalando agora uma outra bicicleta, uma Golden Pigeon, regressando do mercado ao seu novo lar, onde o espera uma mulher chinesa e um filho dedicado a fundo à aprendizagem dos segredos das artes marciais. A Ling estava-lhe reservada a integração no mundo ocidental. O argumento diz-nos que abrira um consultório em Paris e que o seu encontro com Augustin ainda lhe povoava as recordações.

Resta acrescentar que o filme foi produzido por quatro indivíduos, um deles chamado António Bazaga, que constituem o núcleo duro do Bocaboca Productions. Talvez a lusofonia do vocábulo explique a escolha de Fontaine.

Após o visionamento de Augustin, King of Kung Fu (procurem-no nas lojas de DVDs) perguntei a mim próprio: por que razão não se produzem em Portugal filmes assim?

Augustin tem muito a ver connosco, os que aqui estamos essencialmente porque gostamos do Oriente e não porque aqui auferimos de salários mais generosos.

Seremos nós esses Augustins que insistem em ficar apesar do acéfalo poder em Lisboa teimar em ignorar esta parte do mundo? Augustins do século vinte um que à semelhança dos lançados, homiziados, aventureiros seiscentistas operam revoluções por conta própria? Augustins que não esperam subsídios nem viagens pagas nem decretos-leis para mudar o rumo às coisas e tornar realidade os seus sonhos? Augustins que não soltam queixumes de traseiro preso a cadeiras de café enquanto o sol brilha num céu azul que quem dera a muitos o terem todos (ou quase) os dias à distância de uma persiana? Augustins que avançam, emigrantes da dinâmica e não desgraçadinhos escravos do “oui, Monsieur”?

Augustin, King of Kung Fu traz-nos uma visão da emigração que raramente nos foi dada por um cineasta português (Mortinho por chegar a casa, co-produção luso-holandesa é a honrosa excepção). Uma imagem de portugueses-matéria-preciosa, pois não estão no mundo ao serviço de terceiros, outrossim por conta própria.

 

Standard

Traiçoeiros desígnios

Ela sorria, oblíqua, diante do marido:

-Por que não ir atrás do sucesso, se ele bate à porta?

-Não me venha com más ideias, Clarice! Eu não vou passar a perna no Eduardo! Até porque foi ele quem esteve ao meu lado quando mais precisei.

-Mas veja só como você se comporta: parece querer o mal da empresa! – ela se fazia traiçoeira – Esse Eduardo é um incompetente.

-Entenda: o Eduardo pode ser um péssimo gerente geral, mas, antes disso, é meu melhor amigo. Não posso fazer isso com ele.

-Se você não tem olhos para isso, eu vejo a realidade para você: o Eduardo está levando a empresa à falência porque está desviando…

-Eu sei disso, Clarice, mas não sou eu quem vai entregar isso para os grandões da sede!

-Mas, se você não fizer, alguém vai fazer e vai tomar o seu lugar. Já pensou em ser gerente geral da firma? Seria perfeito: vamos viajar toda semana, conhecer novos lugares, andar para cima e para baixo de motorista particular! Que sonho…

-Um sonho que pode ser realizado com a valorização do meu trabalho. Até porque não acho justo entregar meu melhor amigo por conta do cargo, e eu nem sei se me dariam o posto numa circunstância dessas.

-Mas você vai aparecer, vão prestar atenção “naquele que apontou uma irregularidade na gerência”, “naquele que preza pelo bom funcionamento da firma”. A chefia tem que valorizar isso!

-Não acho que as coisas funcionam assim.

-Como não? Você lembra daquele seu amigo de nome diferente?

-O Aristides?

-Esse mesmo! Ele dedurou o chefe do setor e foi promovido ao cargo.

-Mas já estavam de olho nele. Era diferente.

-E se estiverem de olho em você? – ela falava cada vez mais perto, cada vez mais gananciosa – Você não tem como saber!

-Você acha que, se eu entregar o Eduardo, pode acontecer como foi com o Aristides?

-Mas é claro, meu amor! – ela sorria, exalando a alma vermelha – Veja só: já tem um exemplo vivo, concreto!

-Meu Deus… ser gerente geral! Mas não seria correto dessa forma…

-Ah! Você e essa sua indecisão! Por isso você sempre será um simples encarregado. Se você não tiver coragem, o sucesso nunca vai chegar! Até porque isso tudo é tão simples… basta encaminhar os documentos que você tem no e-mail.

Ele suspirou:

-Pode ser o melhor para a empresa, não é?

-Mas é claro!

-Verei o que faço amanhã.

-Você tem acesso ao e-mail daqui mesmo! Por que esperar até amanhã?

-Eu ainda não sei se farei algo assim.

-Se você não é firme o suficiente para ir atrás dos seus sonhos, eu mesma encaminho os documentos pra chefia. Tenho acesso à sua conta.

Ele a olhou fixamente enquanto ela abria o notebook, quando se decidiu:

-Deixa que eu faço isso. É coisa minha.

Não fosse a ganância de sua lady, Macbeth jamais seria rei da Escócia.

 

 

Standard

O comportamento dos membros das Supremas Cortes e a credibilidade institucional

Reconhece-se que os juízes do Supremo Tribunal de Justiça de Portugal não se expõem publicamente fazendo alusões à coisa pública. Sabe-se que se conduzem como agentes ciosos de seu múnus publico e, assim, não concedem entrevistas e não comentam aspecto algum sobre determinado processo judicial. Muito menos opinam sobre processos, emitindo opiniões acerca dos demais poderes públicos ou travando acalorados debates com parlamentares.

Nos Estados Unidos da América, não só a Suprema Corte labora silenciosamente como também seus integrantes. As sessões, por lá, não são televisionadas e seus magistrados (justices) raramente concedem entrevistas ou ficam sob holofotes midiáticos. Se comparados aos ministros brasileiros do Supremo Tribunal Federal (STF), justices são quase que fantasmas, ou seja, pouco são vistos em público. Incidentes envolvendo as decisões da Suprema Corte e autoridades de alto escalão (v.g., Presidência) são igualmente raros e dificilmente ocorrem ataques ou discussões verbais entre as altas autoridades acerca das decisões da Corte. Talvez, por tudo isso, grande parte dos cidadãos norte-americanos tenha pouco a dizer sobre a Suprema Corte, seus integrantes e a ideologia que permeia tal instância decisória.

Embora se saiba que a soma das partes nem sempre corresponda ao todo, alguns ministros do STF arriscam a legitimidade da Corte ao se exporem em demasia e ao desprezarem o natural afastamento da política que a toga os impõe (ou deveria impor). Diferentemente de seus colegas portugueses e norte-americanos, a exposição dos ministros brasileiros não se restringe apenas a posturas midiáticas, mas também a encontros oficiosos com políticos e entrevistas em programas televisivos de alta audiência. A exposição das sessões plenárias tele-transmitidas, sem edição, favorece decisões politicamente engajadas, que, por sua vez, criam a demanda para coberturas jornalísticas cada vez mais intensas. Somado a esse ciclo, o STF conta com integrantes com mais ambição para definir os rumos da política nacional em relação ao passado. Em qualquer lugar do mundo, o Poder Judiciário se torna coadjuvante com a instalação de ditaduras e, no Brasil, o regime militar conduziu ao STF profissionais de orientação mais contida e que dificilmente obstruiriam seus desígnios. Como o cargo de ministro é vitalício, a renovação da Corte foi demorada, intensificando-se apenas em 2003, quando o último empossado antes da redemocratização se aposentou. Se, antes, o compromisso era decidir na forma da lei, hoje, ministros estão mais preocupados em expor, em longos votos, o conteúdo dos atos normativos, atribuindo-lhes sentidos cada vez mais abrangentes.

A legitimidade do Poder Judiciário é central para a higidez do Estado Democrático de Direito, com seu papel de guardião da Constituição e, nesse sentido, atuando para moderar as ações dos demais poderes constituídos, comprometidos com agendas partidárias e eleitorais. Quando nomes de ministros de Suprema Corte são mencionados em interceptações telefônicas como passíveis de supostos acordos e negociações (relevando as bravatas), é de fundamental relevância que não paire qualquer dúvida sobre a integridade de seus integrantes, sob pena de perda da legitimidade de suas decisões, supostamente imparciais, em especial, por razão de a sociedade brasileira atualmente estar tão dividida e belicosa. Esse foi um dos motivos que levou o justice, atualmente aposentado, David H. Souter a declarar ao seu colega Stephen Breyer que magistrados de Suprema Corte jamais se afastam de seus deveres profissionais. Parece indicar que vida pública e vida privada de justices caminham sempre juntas.

A permissividade dos membros do STF gerada pela superexposição e pela proximidade com o mundo político desencadeia no imaginário popular teorias da conspiração que começaram a se propagar entre defensores e opositores do processo de impeachment. Portanto, o risco de perda de legitimidade (e credibilidade) é elevado e questionamentos podem ser suscitados.

Não menos importante é o exemplo dado pelos integrantes da alta cúpula do Poder Judiciário, uma vez que acaba por “autorizar” que toda magistratura também possa se comportar de forma semelhante, gerando uma politização exacerbada da atividade jurisdicional. Nos últimos meses, também cresceu a exposição pública de juízes de primeira instância que atuam em causas de forte conteúdo político.

A cada crise pela qual o Estado brasileiro passa há uma oportunidade para que suas instituições avancem, aperfeiçoem-se e consolidem-se no jogo democrático. Ainda que a sociedade brasileira esteja carente de expressivas figuras republicanas, de fato, dependemos do Poder Judiciário efetivando – com imparcialidade – a pacificação social, dirimindo conflitos cotidianos e resolvendo impasses excepcionais. Não precisamos de super-heróis, “juízes-hércules” ou salvadores da pátria, necessitamos de magistrados capacitados, de homens comuns de boa fé.

 

Alexandre Fadel (professor e mestre em Direito/PUC-Rio), Antonio Sepulveda (professor e doutorando em Direito/UERJ) e Henrique Rangel (mestre em Direito/UFRF) são pesquisadores do Laboratório de Estudos Teóricos e Analíticos sobre o Comportamento das Instituições – Letaci/PPGD/UFRJ.

 

 

Standard
FOTO PAK TAI

O Sopro de Pak Tai As nonyas do Kampung Portugis

 

 

Joaquim Magalhães de Castro

 

Resistentes como rochas, os herdeiros dos quarenta guerreiros que acompanharam Afonso de Albuquerque na conquista de Malaca, em 1511, totalizam actualmente uns quantos milhares e encontram-se espalhados pelos quatro cantos da Malásia. Mas é no Kampung Portugis – o denominado Portuguese Settlement – que a sua face é mais visível. Ali residem, desde 1932, mil e quatrocentos malaqueiros, senhores de apelidos como Lázaro, Fernandes, Teixeira ou Sequeira, que, com o correr dos anos, sofreram ligeiras alterações, passando a ser grafados como Lazaroo, Fernandis, Teserah e Sequira.

Visitei pela primeira vez essa comunidade no início da década de noventa, tendo regressado ao seu convívio diversas outras vezes ao longo dos últimos vinte anos. São as impressões dessa visita pioneira que vos quero transmitir.

Se na Malásia o bom nome, espírito jovial, a música e a culinária dos kristang eram sobejamente conhecidos, no bairro, em contrapartida, poucos eram os que tinham uma ideia do que realmente Portugal significava ou como pensavam e sentiam os portugueses. O contacto com os patrícios ocidentais limitava-se a encontros esporádicos com os raros visitantes que prometiam muito, mas pouco faziam.

– Estamos para aqui esquecidos – queixava-se Joe Lazaroo, o patriraca da comunidade. – Se não alterarmos esta situação, passaremos de museu-vivo a uma simples decoração folclórica para turista apreciar.

Era o apelo que todos faziam, sempre que tinham oportunidade. E quem estivesse disposto a ouvi-los ficava com as orelhas a arder.

Um lugarejo de setenta habitantes com casas de chão de areia, distribuídas por doze hectares a três quilómetros do centro da cidade, assim era o Kampung Portugis original, louvável iniciativa de dois missionários, em 1930, daí o local ser inicialmente conhecido como Chão di Padre. Em jeito de homenagem, as ruas do peculiar bairro adoptariam os apelidos de cinco ilustres personagens da história de Malaca: Albuquerque, o conquistador; Sequeira, Diogo Lopes Sequeira, o primeiro navegador luso a pôr os pés na cidade, em 1509; Teixeira, oficial enviado a terra para oferecer presentes ao sultão; Araújo, soldado aprisionado juntamente com Sequeira; e, finalmente, Eredia, Manuel Godinho Eredia, o malaqueiro instruído, geógrafo de renome, que, em 1615, escreveu uma história da cidade. Os lusos apelidos subsistiriam com as famílias; sobreveio depois a miscigenação com as nonyas – mulheres de famílias chinesas estabelecidas na Malásia e que perderam as suas raízes com o Império do Meio –, mas isso seria outra história. Para que conste: foi da união matrimonial entre portugueses e chinesas da Malásia – que se deslocariam posteriormente para Macau – que surgiriam os primeiros macaenses.

Não se pense que a ramificada e abundante descendência dos homens de Albuquerque permaneceu no perímetro delimitado pela rua principal e as quatro transversais que retalhavam o Chão di Padre em casas com pequenos jardins e imagens de santos populares nas paredes. Espalhou-se por toda a Malásia, gozando hoje de excelente reputação. Os kristang são conhecidos pelos seus dotes culinários e artísticos e pelo seu espírito galhofeiro. Ocupam, no país e em Singapura, as mais diversas actividades profissionais – políticos, funcionários públicos, médicos, músicos, actores e jornalistas. Pude comprová-lo folheando o jornal diário em língua inglesa The Sun. Na primeira página, a analista de política Claudia Theofilo relatava mais um caso de corrupção que viera recentemente a lume. No verso, Neville de Cruz falava-nos de um político malaio acusado de dever dois milhões de dólares australianos contraídos em dívidas de jogo. Na página três, Martin Carvalho registava, a partir de Malaca, os comentários proferidos por um dos embarcadiços malaios feitos reféns por piratas indonésios, uns meses antes. A jornalista Anna Maria, por sua vez, analisava o recrudescimento das doenças cardíacas na Malásia, enquanto a sua colega Claudia Lopes apontava o dedo às deficiências existentes no sistema de abastecimento de águas nos centros urbanos; já o repórter Nelson Fernandes entrava em detalhes sobre um crime de foro comum. No suplemento de economia, Phillipe Reis tecia comentários sobre a débil situação do ringgit, e na secção do desporto Aloises Francis e Graig Nunis (de Nunes) traziam-nos as últimas do futebol e do atletismo malaio. Todos esses jornalistas eram filhos di Malaca que deixaram o bairro português (muito provavelmente já nem falam a língua dos seus antepassados) e partiram para as grandes cidades.

A sua preponderância na sociedade é tal que é à minhota que trajava uma das quatro raparigas que interpretavam o hino nacional malaio no fecho da emissão do canal televisivo estatal. As outras três envergavam as vestes tradicionais malaia, chinesa e indiana, as três outras comunidades que, à semelhança da malaqueira, detêm, na Malásia, o invejável estatuto de “bramiputra”, ou seja, “filho da terra”.

 

Standard
avião-de-papel

Poética do Quotidiano

Aviãozinho de papel

 

 

Eu andava por uma tarde um tanto preguiçosa quando pousei os olhos no sorriso de um pequeno que andava, serelepe, para cima e para baixo, pelo corredor do shopping.

Ele parecia planar sobre si em sua correria silente, numa imaginativa andança sobre as nuvens que cobriam sua puerilidade.

Eu, por um instante, sorri aquele puro sorriso, observando o que ele fazia com um pedaço de papel mal dobrado em forma de avião. Mão erigida, ele criava uma atmosfera de magia para o encontro do aviãozinho com o ar, como se ele próprio pudesse voar sem sair do chão, lançando-se no azul do céu feito pássaro a contemplar a vida enfática que vem de encontro ao rosto.

Percebi, então, que é necessário tão pouco para criar a felicidade: um simples papel amassado dava asas à imaginação. O que passava pela cabeça daquele menino? Teria ele alguma preocupação com o futuro ou com o fato de estar sendo observado por alguém? Seria rico ou pobre, bom ou ruim nos estudos? Teria chance de um dia se formar e arranjar um bom emprego? Nada importava mais que sua imaginação naquele momento.

Então eu contemplei minha alma e percebi que havia crescido, mas não perdera com o tempo os fascinados olhos de uma criança: ainda sou capaz de ver que a jiboia digere um elefante, não tendo necessidade de maiores explicações. O que seria deste imberbe cronista se a gelidez das pessoas grandes o tivesse contaminado?

É necessário rir da vida sem impor dificuldades ao espírito; é necessário dedicar um tempo para amar os dias em seus detalhes, deitar no chão e rolar pelo tapete da sala como se o tempo não existisse; é necessário esquecer os próprios conhecimentos para se entregar à existência: a sobriedade é um grave desencontro, afinal, a busca incessante por motivos e utilidades para as coisas esmoece, pouco a pouco, o colorido que nos cerca.

Perceba: os sentimentos mais puros são aqueles que chegam imotivadamente, num repente capaz de assolar a alma em esplendor – podendo durar um átimo ou uma vida inteira, arrepiando os pelos e acendendo a alma.

Os porquês, quando irrelevantes, atravancam a poética que é faísca para o sentimento de humanidade. E aquela criança despida de malícias numa tarde de domingo personificava o fenômeno da inspiração: pedaço de liberdade a derramar estrelas pela consciência – o que não ocorre se forem os olhos desprovidos de ingenuidade, pois a maturidade deve chegar inquieta, mas repleta de delicadeza.

Então é isto que levo comigo: buscar a leveza das coisas é um caminho para a autoconstrução, um mergulho na delicadeza dos gestos do qual não é possível retornar com os mesmos conceitos. Pego carona num aviãozinho ou num barquinho feito à mão e tomo meu rumo pelas estradas da imaginação: campo fértil num mundo contaminado pelo pragmatismo gélido que nos prende os pés ao chão.

Afinal, a delicadeza é aquilo que nos torna capazes de sentir a dor do outro, de sentir a pulsação dos dias, de ouvir o que dizem as constelações – “Pois só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e de entender estrelas”, nas palavras de Bilac.

Então tomei para mim o exemplo do menino e segui em frente pela tarde de domingo, pensando em colocar as ideias no papel – na mente, estão todas soltas, abstratas -, ainda com aquele sorriso nas retinas.

Não era o aviãozinho o motivo da felicidade, concluo eu, mas o simples fato de não impor obstáculo algum para ser feliz – eis o segredo do deleite pleno.

 

Ronaldo Junior

poeta

 

Standard