A Desgraça…

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«Julgais que, por terem sofrido tal castigo, esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus? E aqueles dezoito homens, que a torre de Siloé, ao cair, atingiu e matou? Julgais que eram mais culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém?»

O Evangelho deste Terceiro Domingo da Quaresma coloca-nos perante uma realidade bastante dura, mas comum na nossa sociedade actual e sobre a qual os jornais quotidianos  propagam em grandes títulos e abundantes reportagens fotográficas. Refiro-me a esses acontecimentos inesperados da vida como atentados, acidentes, ataques de guerra ou guerrilha;  homens, mulheres  e crianças que, inocentes, morrem todos os dias de morte violenta.

Perante tais situações dramáticas,  olhar para os outros,  comparar e, por fim,  julgar ou fazer um juízo moral sobre as pessoas em causa, as vítimas, parece ser, segundo o texto evangélico, uma atitude frequente entre nós.  Contudo, o Mestre chama a atenção para o erro crasso dessas conclusões, quando questiona:  «Julgais que eram mais pecadores? Julgais que eram mais culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém? Eu digo-vos que não».

O Senhor faz-nos cair na conta de que as vítimas são apanhadas de improviso, portanto, não conscientes do que se está a passar e, moralmente, inocentes.  Nunca se poderá dizer que são culpados de algo ou que foram castigadas pelos seus pecados.  Jesus apenas nos quer dizer que devemos estar, acima de tudo, preparados para toda e qualquer eventualidade nesta nossa existência que nos pode deixar diante da morte. Devemos estar preparados – de coração transparente e livre –  para ‘ o encontro com Deus’

Recordo aqui a dilacerante tragédia que as águas do Mar Mediterrâneo encobrem com as gentes do Médio Oriente e do Norte de África. Se por um lado, se impõe  a obrigação de procurar os culpados deste crime e dos responsáveis desta catástrofe, por outro lado, e ao mesmo tempo, impõem-se a missão de  libertar a todos de tanto sofrimento. Por outro, temos de crescer na compreensão do ‘mistério do sofrimento’, em Jesus Cristo que,  na sua nudez e pregado na cruz, dizia a um dos dois homens crucificados com Ele:« Hoje mesmo, estarás comigo no Paraíso». Perante a Dor e a Morte, crer na Ressurreição e na Vida Eterna é a resposta.

«E aqueles dezoito homens, que a torre de Siloé, ao cair, atingiu e matou?»

Que desgraça!
           Peguemos o texto por outra perspectiva mais pessoal.  Acontecimentos como os que Jesus Cristo nos  refere acontecem com alguma frequência. É um trambolhão que se dá e magoamo-nos. Cai um objecto precioso que fica irremediavelmente destruído.  Por causa de um imprevisto ou por falta de visão de alguém um projecto vai por água abaixo. É um acidente. É uma doença. É  a morte de um ente querido. Que desgraça! Assim exclamamos, manifestando dor e desilusão pelo sucedido. Casos há em que a pessoa não recupera mais do facto. Perde o sentido da vida. Questiona Deus. Deus não está comigo, afirma. Parece castigo. Ele é injusto. Será que Ele realmente existe!?

Perante tais situações dolorosas, Jesus vem, uma vez mais, desafiar as atitudes habituais do ser humano. Convida-o, radicalmente,  a uma outra liberdade interior. Chama-o a purificar afectos e pensamentos que aprisionam, subjugam e não o deixam resplandecer ‘aos olhos de Deus e dos homens.’ As ‘desgraças’ são, paradoxalmente, o instrumento privilegiado de purificação,  um verdadeiro cadinho que nos torna em ‘ouro fino e precioso.’

‘O complexo de culpa’  é uma outra manifestação do comportamento humano muito comum, quando homem ou mulher se encontram em situações muito dolorosas, aterradoras, difíceis de compreender. Mas importa clarificar
à luz das palavras do Senhor. A vulgarmente chamada ‘desgraça’ não é , em princípio, sinónimo de ‘pecado’.  Porém, o psiquismo humano, em grande aflição, é capaz de o construir como se isso fosse a verdade, repetindo, obsessivamente, no íntimo: ‘É por minha causa que as coisas assim acontecem’. “Eu sou o culpado’. Escutemos as crianças quando passam  por essas terríveis experiências como  no Sudão, na Síria, no Afganistão…

 

Luís Sequeira, Jesuíta.

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Miscelâneas

 

Filinto-Elisio

No tempo que aí vem

 

A riqueza acumulada por 1% da população mundial superou a dos 99%, em 2015, um ano mais cedo do que se previa. Os poucos ricos, cada vez mais ricos, e os muitos pobres, cada vez mais pobres. Caso para interrogarmos sobre esta proporcionalidade nos nossos países. Quo vadis? Será que o ‘suicídio da pequena burguesia’ não aconteceu? Não estaremos, em certo sentido, a esbater o pós colonial com o endocolonial?

 

 

Arte como subversão dos domínios 

 

Não será a Arte a grande subversão do estabelecido político, social e económico? Não será a Cultura a agulha de explosão do paradigma do poder? Creio bem que sim. A socialidade da arte, nos tempos atuais, exige, de todos os arquitetos da palavra, um compromisso com a verdade e com a vida, mas não exige que a arte se submeta às camisas de força do mercado. Os dilemas ideológicos dos dias de hoje não se devem vincular aos padrões monetários do mercado, aos estilos de vida dos novos concentradores de riquezas, nem à linguagem das filosofias que apostam na aceleração das tecnologias que desumanizam o trabalho e agridem a dignidade das pessoas.

 

 

Cartas de Amílcar Cabral

 

Leio as epístolas como se estivesse a ouvir uma grande orquestra. Uma partitura complexa. Vozes sobrepostas. Melodias profusas. Uma sinfonia. Texto preparado para as energias do corpo e da alma. Alguma coisa nos acontece quanto temos a criação como ponto de partida. Acho que podemos falar de uma mística das cartas, assim como podemos supor a existência da vida mais alargada a partir das suas formas plurais de existencialismo. A intimidade e o contexto com que se montam o arquétipo da narrativa epistolar tanto podem construir a História de qualquer sociedade quanto fazer entender os processos sociais e políticos de qualquer temporalidade em andamento. Por isso, a intimidade, desde que não devasse a privacidade, pode ser pública. Neste caso, Amílcar Cabral, em muito do que fez, antes da luta armada de libertação nacional, serve de parâmetro à sua compreensão por estas epístolas. Lendo as cartas, entender-se-á o haver feito a guerra anticolonial e antifascista sem roçar o limite da barbárie e da violência indiscriminada, isto é, tornando a gesta um ato de cultura e de humanização, suscetível de emancipar o oprimido e o opressor. O elemento amor, em sua várias matizes, explica as atitudes e os comportamentos de quem soube ‘fazer diferença’ num contexto radical do conflito.

 

 

A morte e seu eco

 

A notícia da morte de Umberto Eco, pensador, professor e escritor, autêntico paradigma de intelectual moderno, deixa-me em estado de torpor. Digo para os meus botões: como ficará a tertúlia doravante com a partida de Eco? Pós enciclopedista, existencialista iluminado e, sobretudo, desafiador do absoluto – um “debole”, diria -, Eco é dos que nos ensinou a inquietação parabólica e a ousadia de tactear as saídas do labirinto.

 

 

Um tarde em Havana

 

O meu irmão telefona-me, maravilhado, de Havana, em véspera da visita oficial do Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, a contar a conversa com  Óscar Oramas Oliva, antigo embaixador cubano em vários países africanos e autor de “Amílcar Cabral para Além do Tempo”, sobre assuntos diversos. Há um próximo livro em gestação, um passeio pelo hotel que alojara Cabral por alturas da Tricontinental de Havana e entrega de um exemplar de “Cartas de Amílcar Cabral a Maria Helena: a outra face do Homem” (outro exemplar, mandamo-lo para Leila Guevara).  Ilha de Xangô e de Yemanjá, divindades que ornam o nosso quarto…iorubá igual a Bahia, como diria a música de Caetano Veloso.

 

 

 

 

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Há muitos chineses a querer aprender português?

Numa recente visita a Portugal, deparei com a enésima peça jornalística cujo destaque era “Há muitos chineses a querer aprender português” (Económico, 12 de Janeiro de 2016). O tema recorrente e a ainda mais recorrente justificação eram que para entrar nos países que falam português em África e no Brasil, muitos chineses querem aprender português. Joaquim Mourato, Presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos, refere nessa peça a recente assinatura de um acordo com o Gabinete de Apoio ao Ensino Superior da RAEM, a parceria com o Instituto Politécnico de Macau, programas de intercâmbio para estudantes e docentes no sentido de tentar manter falantes de língua portuguesa em Macau, o que considera estratégico por Macau ser “a porta de entrada na Ásia”. Na mesma linha, referencia igualmente que há “centenas de estudantes chineses nos politécnicos a frequentar cursos em português”, porque isso lhes abre a porta dos mercados africanos que falam português e do mercado brasileiro.

Agora a realidade mundial tal como ela foi em 2015: o investimento chinês em África caiu 40 % no primeiro semestre do ano em relação ao mesmo período do ano anterior e há inclusive estimativas que apontam para uma queda global do investimento chinês a nível dos 84% (Quartz Africa Weekly Brief). Muito do crescimento económico do continente africano na última década tem dependido da venda de petróleo, minério de ferro, madeira, cobre e outras matérias-primas à China; como o país se orienta atualmente para uma economia mais centrada no consumo interno, irá necessitar menos destes recursos.

Por outro lado, nas suas recentes visitas à Arábia Saudita, Egito e Irão o Presidente Xi Jinping mencionou a “nova Rota da Seda”, que visa ligar a China e a Europa com a ajuda de infraestruturas financiadas pela China e as empresas chinesas já estão a construir estradas e portos para o efeito. Os laços económicos e o comércio bilateral entre China e Arábia Saudita têm aumentado e em 2015 o valor foi 230 vezes superior ao de 1990, altura em que estabeleceram relações diplomáticas pela primeira vez. Acresce que este desenvolvimento económico é apresentado também como a forma mais eficaz de reduzir os conflitos na região – ao expandir os seus laços comerciais e de investimento com o Médio Oriente, a China espera que o descontentamento e os conflitos se venham a dissipar gradualmente, argumento que certamente colhe a simpatia geral.

Se se pretender efetivamente levar a cabo uma política linguística consistente e não apenas evitar “fechar cursos ou instituições”, seria mais inteligente deixar de lado as ideias feitas e os chavões sobre a importância estratégica e económica da língua portuguesa e olhar em redor e além. O mundo muda a grande velocidade e as redes de interesses e de solidariedades institucionais acompanham essa mudança. Já em 2010 Maria Helena Mira Mateus alertava que “definir uma actuação nesta área não se compadece já, nem apenas, com as afirmações gerais que se encontram nos textos oficiais sobre a necessidade de expandir o conhecimento do português, de prestigiar a língua que falamos, de tomá-la como identificadora da nossa forma de estar no mundo, ou em outros aspectos igualmente vagos e pouco fundamentados. Falar hoje sobre política linguística não interessa se se limitar à exclusiva indicação de formas concretas de difusão da língua, sem se saber exactamente onde, como e para quê.”

Neste novo cenário que começa a delinear-se, a pergunta não é se há muitos chineses a querer aprender português, mas sim porque e para que é que os chineses hão de querer aprender português.

 

Ana Paula Dias. Doutoranda na Universidade Aberta. A autora escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

 

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Tempo de tranformação

 

1.Luis Sequeira.jpgA comunidade cristã, em Macau, entrou já no tempo da Quaresma e, neste Segundo Domingo, lemos, no Evangelho, a passagem  referente à Transfiguração: «Jesus enquanto orava, alterou-se o aspecto do seu rosto, e as suas vestes ficaram de uma brancura refulgente. Pedro e os companheiros, João e Tiago, viram a glória de Jesus.»

A Quaresma,  pelas palavras de Jesus Cristo, chama-nos, primeiramente,  à transformação do nosso coração, da nossa inteligência e das nossas acções. Do coração, pelos seus sentimento e afectos, tantas vezes, desordenados: inveja, peneiras e vaidades, orgulho,  desprezo,  agressividade, rancores e raivas. Da inteligência, por estar  tão cheia de critérios de vida dúbios, deformados e enganadores. Das atitudes ou actuações,  porque – vezes sem conta –  elas são menos correctas e tornam-se até mesmo  maldosas ou indignas.

A Transfiguração, num segundo momento,  pela experiência do mesmo Senhor Jesus, é como que a afirmação de que na nossa vida, a qualquer momento, podem ter lugar acontecimentos capazes de provocar transformações surpreendentes e fulgurantes do nosso ser, da nossa  personalidade e revelar as dimensões  mais perfeitas, mais belas e mais divinas  nosso ser, criado ‘à imagem e semelhança de Deus.’

Se olharmos  para o que se passa  na cena  política  mundial e que nos é apresentado pelas grandes cadeias de televisão, quase ficamos petreficados. Nas eleições presidenciais americanas,  declara-se, em debate público e a gritar, que foi mentira o argumento do presidente de então ‘das armas de destruição massiva’. Por outro lado, a diplomacia russa que defendia o ataque militar na Síria apenas para estabelecer o equilíbrio de poder entre as forças beligerantes, agora que estão todos sentados à mesa,  Moscovo não quer abandonar as armas, deixando muito obvio e claro os seus interesses geopolíticos e militares na região. Esta hipocrisia política, militar e económico-financeira continua!

A Humanidade está farta de palavras e de sofismas. O Homem e a Mulher de hoje clamam do fundo da sua angústia, do seu coração quase sem réstia de esperança,  por transparência e coerência.

Assim sendo, torna-se extremamente actual e indubitavelmente prioritário tomar a pedagogia  sugerida pela Liturgia Quaresmal. Somos, com insistência, convidados a entrar no íntimo de nós mesmos, porque é daí que sai o bem e o mal. É dos nossos sentimentos escondidos no profundo do coração, é dos nossos pensamentos sibilinos, tortuosos e mortíferos que, externamente,  ninguém vê, é das inclinações obsessivas, sem moral nem valor, que saem os crimes contra a Humanidade e a Criação.

Toda esta reflexão e meditação é também uma oração para que todos nós, homens e mulheres do século XXI, compreendamos que, sem a coragem e a audácia,  de percorrer «o Caminho Interior», aquele que nos leva ao mais profundo de nós mesmos, não conseguiremos encontrar «Caminhos de Liberdade e Salvação.» para o Mundo de hoje.

O outro aspecto  que o Evangelho deste Segundo Domingo da Quaresma nos  apresenta para consideração é, sem dúvida, a realidade da Cruz, nas suas duas vertentes : a Glória e a Morte.

No entanto, no chamado episódio da Transfiguração, é dado muito mais relevo ao momento de Glória que o Senhor Jesus Cristo experimentou.  Na verdade, a Transfiguração é pré-anúncio da Ressurreição.  Ele  deixou-se  ser visto  pelos seus discípulos mais íntimos –  Pedro, João e Tiago –  com a condição de só o revelarem depois da poderosa e misteriosa manifestação da Ressurreição .

Fala-se, muito frequentemente, «de levar a Cruz de cada dia»,  como Cristo a levou,  e  com ela se insiste na dimensão de Dor e Morte. Porém, somos muito parcos em falar de Vida e Glória. E, porque não proclamamos,  a sua  Vitória, como anuncia aquele famoso cântico ‘Vitória, o Cruz, tu reinarás.’ Alguém me comentava o assunto e dizia: ‘a Cruz é Palavra de Deus, mas Ressurreição é a Última Palavra.’

Tanto o exigente «Caminho Interior», de carácter mais pessoal, como o, por vezes, penoso  «levar a Cruz de cada dia», de maior consciência da nossa relação com os outros e com as circunstâncias que nos rodeiam,  precisam de ser enriquecidos  com o sentido da vida, da consolação e da alegria como frutos da Ressurreição.

 

Luís Sequeira, Jesuíta. Antigo Superior da Sociedade de Jesus em Macau

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Xangai mítica

 

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Um dos posters que imortalizaram a irreverência das mulheres de Xangai quando a capital económica da China era a Paris do Oriente.

As fotografias antigas são como os velhos “posters”: são memórias de um passado que se recusa a desaparecer. São pilares de um tempo que, ciclicamente, nos volta a desafiar para os seus mistérios. Quando olho para uma foto colorida de Ruan Lingyu, a jovem actriz chinesa que se suicidou precocemente, não vejo a Greta Garbo do Oriente, como então foi recordada. Procuro encontrar a Xangai da década de 1930, cidade dos clubes de jazz onde o fumo dos cigarros escondia as traições amorosas, os gangsters de Du Yuesheng que controlavam o negócio do ópio na concessão francesa, a ponte cultural que se estabeleceu entre o Oriente e o Ocidente enquanto o sangue escorria nas esquinas. Xangai parecia a Paris do Oriente. Era, talvez, a Florença dos Bórgias com vestígios de Hollywood e recordações das dinastias do império chinês. Era o tempo de actrizes de cinema e de prostitutas russas, de magnatas sem alma e de sobreviventes que escondiam os seus idiomas de origem. Era talvez uma ópera onde todos se mascaravam em busca da sua própria identidade.

Estes anos, até à invasão japonesa, foram bordados a ouro. As imagens coloridas, em fotos e posters, das damas de Xangai, simbolizam esta época. Era um tempo romântico, idílico, onde o dinheiro escorria à velocidade com que se trocava de amantes e de aliados. Xangai deixara, há muito, de ser uma pequena cidade portuária. Após as guerras do ópio, as potências ocidentais ocuparam-na e impuseram a sua cultura. Hotéis, bancos, discotecas, grandes armazéns, domesticaram-na. A arquitectura ocidental confiscou-a. Xangai era uma ponte entre o Ocidente e o Oriente, um caldeirão de culturas e de ambições. Onde todos se poderiam queimar. Os “posters” de actrizes traziam recordações da velha China, da moda que os manchus tinham trazido das estepes para os palácios. Os longos “cheongsans”, ricos de seda e de peles, ficaram como identidade de uma era que se recusava a desaparecer. Era um elemento de distinção. As imagens traziam mulheres luminosas com roupas fascinantes, sapatos e sandálias distintas, cabelos arranjados, faces que pareciam marcadas por holofotes. Esses “posters”, impressos nas frenéticas tipografias de Xangai, tinham começado a ser feitos na década de 1910, quando nenhuma mulher respeitável posaria assim. Muitos dos mais antigos tinham fotos de homens disfarçados de mulheres, como era habitual na ópera chinesa. Mas, nesses anos fenéticos de Xangai, passaram a ser um símbolo da libertação das mulheres chinesas.

A ponte entre o desejo e a realidade era cruzada por todos os que se aventuraram nessa Xangai mítica dos anos de 1930. Era o tempo do “glamour” perfeito, aquilo que as sociedades mostram enquanto escondem o lixo nas vielas. A fantasia disfarçava-se de fotos silenciosas e ousadas. Tentadoras. Muitas delas eram mulheres de carne e sangue cujo nome desapareceu nas águas do velho porto. Muitas, mais conhecidas, como a lendária Butterfly Wu, a “singsong” perfeita, a popular actriz de Xangai, sofisticada e destemida, que também surgia na bela publicidade do tabaco ou dos produtos de beleza da época. Desafiadoras estas mulheres que deixaram o seu legado nas fotografias coloridas dessa época, são pedaços de uma época que acabou estilhaçada. Recordada por muitos, foi vista como detestável por outros. Mas hoje esses “posters”, verdadeiros ou falsificados, são ainda uma das grandes formas de perceber uma Xangai em busca do seu destino.

 

Fernando Sobral

Jornalista e escritor. É autor de “O Segredo do Hidroavião” e de “As Jóias de Goa”.

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SER CHAMADO

« Eles deixaram tudo e seguiram Jesus.»

São estas exactamente as últimas palavras do Evangelho deste primeiro Domingo de Fevereiro, o Quinto do Ano Litúrgico, mesmo nas vésperas do Ano Novo Chinês.

Num momento em que acolhemos, cheios de Esperança, o novo Bispo de Macau, D. Estevão Lei,  o texto de S. Lucas sobre o seguimento de Cristo, não deixa de ser uma seta afiada e acutilante à consciência da Comunidade Cristã aqui estabelecida. Onde estão as vocações ? Onde se encontram  esses jovens capazes de deixarem tudo para, como sacerdotes, estarem ao serviço de Deus e da Humanidade, começando pelas  pessoas que formam a Comunidade local dos crentes?  O antigo Seminário de S. José, outrora,  imponente e gandioso, apresenta-se, hoje, como que triste e envergonhado de todo o seu grande vazio ?

A responsabilidade é de todos. Não há que atirar pedras. Mas que  temos que trabalhar com «um espírito novo »,  também  não há qualquer dúvida. Deus não falta com a sua graça. As vocações existem entre nós. Sejamos claros, humildes e corajosos para admitir a verdade. Somos nós, os humanos – homens e mulheres –  nas famílias ou nas comunidades, cada um no seu lugar e no exercício dos seus deveres e compromissos, que bloqueamos o desenterrar do «tesouro».  Não temos nem gosto, nem jeito para tratar das «plantas».

Sou inclinado, à luz da experiência de Jesus no Evangelho deste Domingo, a focar um só aspecto da problemática das «vocações». Refiro-me, muito concretamente, ao  acompanhamento dos candidatos, tão necessário para ajudar não só um discernimento correcto como assegurar, a longo prazo, uma formação consistente, progressiva e profunda.

Mas, para  tal,  reconheço, antes de mais, que tomo este encontro de Jesus com os Apóstolos,  narrado pelo Evangelista Lucas, de uma maneira um pouco livre. Em seguida, para ajudar ainda mais a compreensão do tema escolhido,  acrescento dois aspectos.

Primeiro. Olho para o texto de S.Lucas como  intimamente ligado a outros dois  encontros vocacionais em S.João. Um, ao princípio, no capítulo primeiro, em que vemos Jesus a chamar os primeiros Apóstolos. O outro, no final, com Jeus a falar,  a sós  e intimamente, com Pedro, o chefe e a cabeça do grupo. Tomo, assim, os três episódios como um todo.  Ao fazê-lo, descubro, inesperadamentes, uma muito interessante dinâmica interna que é capaz de nos oferecer uma pedagogia vocacional.

Chamar a figura de Pedro para o centro desta reflexão e meditação  é o segundo aspecto a ser acrescentado. Ele está, de facto,  presente nos três encontros. Por outro lado, personalizar os encontros torna-os mais ricos e penetrantes. Toca-nos a cada um de nós como pessoa. Desafia o nosso modo de viver, perante a voz íntima de Deus.

Primeiro encontro – que o mesmo é dizer o primeiro momento dos Apóstolos com Jesus – termina com as palavras amigas do Mestre :«Vinde e vêde.». É um encontro de factos e atitudes, de empatia. É  gostar da pessoa, do lugar e ambiente, das palavras, da personalidade. É como um primeiro passo na amizade.

Segundo encontro e momento da chamada de Jesus, que enriqueço com  outras passagens de Lucas e Mateus,  termina com a pergunta do Mestre aos Apóstolos  e a Pedro, em particular,: «Que dizeis vós que Eu sou?  adaptando um  pouco . Pedro, que pensas tu que Eu sou?  O Senhor Jesus avança no diálogo. Exige compreensão e inteligência no seguimento. Eles perceberam que tinham que deixar os pais e a profissão da sua preferência. Porém, passar pela humilhação, rejeição e perseguição e até a morte. o, gritou ele. Revelou deste modo que ainda estava preparado, suficientemente conhecedor, do necessário  para seguir Cristo, o Filho de Deus.

Terceiro encontro e o momento final, antes de ser enviado  por todo o mundo a proclamar o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. O Mestre Divino pergunta ao fim da sua Formação : « Pedro, tu amas-me ?» O  coração tem de estar firme e inflamado e apaixonado por Cristo. O Mestre, cheio de sabedoria e pedagogia, sabe que no coração de Pedro permanece ainda uma tristeza, uma sombra de dúvida sobre o Amor de Deus para com ele, por causa do seu grande disparate.

A terminar…

Seja o discernimento dos caminhos de Deus ou  os humanos  seja a formação integral não serão possíveis de alcançar sem a consciencia de ‘ser pessoa’, onde a actividade, a racionalidade e afectividade interagem em harmonia.

A sociedade de hoje bem precisa de ‘Mestres do Caminho Interior’.  Precisa igualmente, de ir ao encontro dos ‘Grandes Mestres’ do passado que formaram a nossa História e as diferentes Civilizações.

 

Luís Sequeira, Jesuíta

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Monumenta (com final em inglês, caramba)

 

[Poeira das Estrelas]

Em glosa

Tenho de escrever isto, glosando Fernando Pessoa: “É uma questão de estado mental sem necessidade de estado social.” Numa espécie de palimpsesto, queria dizer não exatamente assim, mas inferir que sem necessidade de estado político. Em abono da verdade, sem necessidade de estado político-partidário. O cronista põe-se a deambular a Baixa da hoje Cidade da Praia, a ver se, recuando no tempo, aparece-lhe Vasco da Gama, a celebrar tal missa que o levava à Índia. Ali mesmo, na Praia da Gamboa. É uma questão de estado mental o poder caminhar para o futuro, com os recuos às alvíssaras que tornariam a urbe ser de Santa Maria da Vitória. O cronista, assim meio derrotado, retoma a revista aos monumentos, sem que passe pelo Mausoléu, tornado insuficientemente panorâmico, mercê de um mercado provisório. Adiante.

Do insofismável monumento

Queria notícias, se as houvesse, sobre a cidade. Com perdão, sobre a Polis. Fazê-lo depois, já era em tardança. Todavia, os vadios iam, sem eira nem beira, à estátua do Homem de Pedra, urinol também dos cães. Não se sabe quando, mas também que não tardasse, por um sopro, tal qual acordou Osíris, a estátua, doravante em carne e osso, sairia a andar pela avenida, tornando afinal real a cidade que, desde os primórdios, era surreal. E, um belo dia, no adiantado da história (em terceira ou quarta repúblicas), o labrego, armado em ilusionista, entre mesmo numa das notas de cinco mil ou se encaixe, bonitinho, dir-se-ia um sem teto, nas estrofes de um outro hino nacional. Nem tudo que reluz é ouro, já que, pelos tempos de antena, se compraz haver muito latão fingindo-se prata.

Da estátua

Não me esqueço da cena, há mais de quarenta anos, quando a estátua de Diogo Gomes foi derrubada pelo afã nacionalista. De repente, o miradouro do Plateau, de cara para a Praia da Gamboa e do Ilhéu de Santa Maria, ficou vazio. Até os canhões de baluarte, outrora guardiões da baía da Vila da Praia de Santa Maria, ora eram sinais de franciscano abandono. Igualmente, lembro-me da reposição da estátua do Navegador Português, que, certa literatura, atribuiu a Descoberta de Cabo Verde (não o cabo, mas as ilhas), em 1460. O afã da democracia, com seus acertos e desacertos, repõe o monumento e repesca velhos topônimos, dos quais Bairro Craveiro Lopes, tornado Bairro Kwame Nkrumah, com a Independência Nacional. Pergunta-se: quanto do nosso existencialismo, com suas idas e voltas, tem o nosso processo histórico? E os canhões continuam abandonados pela baluarte…

Historical complexities?

A new wave of international student activism has targeted names, mascots, statues and other symbols of historical figures at colleges and universities. A statue of Cecil Rhodes, an architect of the apartheid, at the University of Cape Town was taken down, in March 2015, after a student movement emerged. Quo vadis?

Filinto Elísio

 

 

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