E depois do “boom”?

Cláudia Aranda

O relatório do FMI veio falar sobre um assunto sobre o qual me questiono todos os dias sempre que apanho o 33 para o Fai Chi Kei ou o 26 A para a praia de Hac Sa. O documento diz aquilo que, provavelmente, todos nós nos interrogamos a cada manhã mas que logo atiramos para trás das costas mal pisamos o primeiro degrau do 10 B para as Portas do Cerco e recebemos um empurrão para que entre mais um no carro já lotado.

O relatório alerta para o que, imagino, os pais e as mães dos filhos desta terra temem que aconteça: e se um dia o Governo Central liberaliza o mercado do jogo no Continente? E se os milhões de turistas que visitam o território todos os anos descobrem que há jogo noutras terras além de Macau? E se deixar de entrar dinheiro dos casinos nos cofres do Governo? E se os jovens começam a sair da escola e não houver mais mesas de bacará a empregar croupiês e casinos a recrutar residentes para supervisores de sala? E quando deixar de haver turistas para transportar nas centenas de autocarros conduzidos pelos motoristas residentes de Macau? Se a taxa de desemprego começar a aumentar, os salários pararem de crescer, as pessoas deixarem de poder pagar rendas de casa e empréstimos ao banco?

Nesse dia, qual o futuro que o território vai oferecer aos filhos da terra? Sendo que o futuro é já amanhã, pode até ser hoje.

O FMI lembra o quão vulnerável é este pequeno território, tão sensível às repercussões da economia da mãe-pátria. Alerta para os riscos do sector do jogo, da dependência da banca dos empréstimos para habitação e do sobreaquecimento do sector imobiliário.

Em Macau, um apartamento de 80 metros quadrados, sem lugar de garagem, ali para a zona da igreja de São Lourenço, custa cinco milhões de dólares de Hong Kong, ou seja, quase tanto quanto o valor mínimo de investimento em propriedade que um estrangeiro tem de fazer para obter autorização de residência em Portugal.

O FMI alerta: os preços das habitações “mais que triplicaram” entre 2008 e 2013, enquanto que os rendimentos das famílias não duplicaram sequer. Aquele apartamento de 80 metros quadrados a poucos minutos do lago Nam Van, não será nunca acessível nem à bolsa do jovem croupier do casino que recebe em média 18 mil patacas mensais.

O FMI recomenda o Governo a pensar no futuro, a fazer um pé-de-meia, a investir as reservas financeiras num fundo soberano. Enfim, sugere que a adolescente e louca Macau cresça e equacione os custos da vida adulta: a eventualidade de uma redução das receitas do jogo, os gastos com uma população que caminha para velha, pede que enfrente as desigualdades sociais e encare a despesa da diversificação económica: gaste mais na educação e na saúde, sectores em que Macau menos investe em comparação com outras economias no mundo.

O relatório do FMI não é a bíblia que vai resolver todas as questões, mas é um documento interessante que o Governo de Macau deveria ter na mesinha de cabeceira para ler e pôr em prática todos os dias.

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A voz de quem?

Inês Santinhos Gonçalves

Comentava há dias o académico Eilo Yu, que antes de se avançar para uma mudança estrutural do sistema eleitoral, se devia começar por exercer em plenitude as potencialidades que este oferece. É uma opinião partilhada por várias pessoas e que merece a nossa atenção.

Pessoalmente, não tenho grandes dúvidas que o sistema não só está viciado como foi criado especificamente para não funcionar. Mas avancemos. Diz Eilo Yu que o Governo devia apostar numa maior comunicação com a população e, em tempo de eleições, Chui Sai On devia falar à população, pois mesmo sendo apenas o colégio a votar, os restantes devem também sentir-se envolvidos no processo eleitoral.

Uma boa maneira de o fazer, partindo do princípio que o colégio eleitoral é um quórum representativo, seria ouvir quem vota – feitas as contas, cada membro do colégio representa mais de 1500 habitantes de Macau. Acontece que não só o único candidato não diz nada, como o eleitorado nada pergunta. Se são estas as pessoas que nos garantem terem sido escolhidas para nos representar – alegando que não é preciso mais para que isto seja considerado uma democracia – então seria simpático que nos dissessem o que pensam.

Para um jornal, não é fácil entrevistar um membro do colégio eleitoral. As negas sucedem-se, tornando-se claro que o enorme privilégio que têm não se consubstancia em qualquer sentido de missão ou serviço público.

Há excepções. Recentemente, o jornal Hoje Macau entrevistou um dos novos membros, Maria do Carmo Madeira Carvalho, eleita pelo subsector desportivo. O que a nova eleitora tem a dizer é que não gosta de manifestações, que o Governo está disponível para ouvir as pessoas e que, no que toca aos problemas da habitação e da saúde, “todos temos momentos altos e baixos”. Ficamos todos mais descansados.

O colégio eleitoral tem a obrigação de ser a voz do povo. Perguntar, exigir, encostar à parede. O candidato a Chefe do Executivo deve sentir-se impelido a dizer mais – estabelecer a habitação e transportes como problemas prioritários a resolver é apontar o óbvio; queremos é saber como.

Porque é que nada disto acontece? Porque, afinal, o sistema não é feito para funcionar. Os 400 escolhidos não o são por serem os mais esclarecidos ou formados. São antes quem já, à partida, apoia o poder estabelecido – sendo que os seus interesses são opostos aos da maioria. O colégio é o menos representativo dos grupos porque é composto por uma elite empresarial e social que tudo tem a ganhar com a manutenção de um status quo pouco ou nada útil para a maioria. Habitação? Quem faz dinheiro com ela? O colégio não fala porque já está contente. Tudo ficará na mesma.

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A bolha demonstrada

Maria Caetano

Qualquer criança sabe algumas coisas a propósito de uma bolha de sabão. A primeira é que, uma vez formada, irá subir por sua conta e com desapego ao criador; a segunda é que nenhuma se conserva, todas rebentam, por muito que aspiremos a fazê-las chegar às nuvens. A terceira é que não há forma de retirar o ar à bolha, de a fazer minguar, e que qualquer tentativa de lhe tocar fará com rebente e nos salpique. São os princípios elementares da vida efémera de uma bolha, bem aplicados ao imobiliário.

O Fundo Monetário Internacional publicou na última semana uma relatório de avaliação à estabilidade financeira de Macau e a primeira questão que coloca é a de saber se há de facto uma bolha imobiliária. O organismo publica em resposta os resultados da aplicação de três modelos de cálculo e demonstração que permitem concluir que sim, há uma hipervalorização deste mercado que caminha para uma inevitável e abrupta correcção. A questão não está em se vai acontecer, mas quando.

A bolha é a simples imagem do que vai acontecer no mecanismo do imobiliário face às circunstâncias criadas e, não sendo já crianças, podemos dispensá-la e ater-nos apenas às demonstrações que a explicam.

O FMI começa pelos dados simples: os preços das casas triplicaram, ao passo que o rendimento disponível das famílias cresceu apenas 1,5 vezes no mesmo período. No segundo modelo, destaca que os encargos anuais da compra do imobiliário têm subido bastante acima dos encargos anuais com o arrendamento. Aqui, porém, a gente lembrará que o custo do arrendamento tem subido em linha com o custo de comprar casa, o que não permitirá notar grandes diferenças – ainda assim, estas existem. Por fim, o relatório projecta preços expectáveis com base nas actuais condições macroeconómicas, e também aqui o mercado está muito acima do que seria esperado dele.

Importa lembrar que o que o FMI faz é uma avaliação de riscos. As demonstrações servem para alertar o Governo e a Autoridade Monetária de Macau para a eventualidade de uma correcção de mercado que destabilize o sistema financeiro local. O risco é o de perda de valor e crescimento, e exposição dos bancos a esta desvalorização. A principal preocupação da organização não está nas dificuldades encontradas pela população para ter tecto.

Ao supervisor financeiro e a nós cabe preocuparmo-nos com a leitura das recomendações. A receita do FMI, aparentemente, já foi tentada e aplicada a Macau, sem grandes efeitos no preço do imobiliário, como a própria organização admite. Os instrumentos usados foram a limitação do crédito, com redução dos limites dos empréstimos concedidos pelos bancos, e as mexidas no imposto de selo. E não parece haver nenhuma nova sugestão que permita uma correcção mais suave.

Se pensarmos que poderá haver maior limitação ao crédito, percebemos que isso apenas conduzirá as famílias cada vez mais para a dependência da habitação pública. As transacções continuarão a diminuir. Mas nada exige que os promotores imobiliários disponibilizem ao mercado, a preços mais acessíveis, as fracções que têm vazias – estas que deviam ser fortemente penalizadas com impostos, promovendo-se assim, pelo menos, um alívio para quem arrenda.

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Questões de Tradução: Nada, Vazio ou Não-Manifesto?

Ana Cristina Alves*

É altura de fazer um balanço do ano lectivo que passou. Encerra-se para férias com uma questão de tradução.

O que escrevemos, proferimos e, sobretudo, como traduzimos deve ter algum peso ontológico. As palavras não estão aqui para enfeitar pensamentos, elas traduzem e dão corpo às nossas ideias. Enquanto não existem concretamente, constituem em potência, à sã maneira aristotélica, mas também leibniziana, mundos possíveis. Certas vezes expressam, concretizam possibilidades e, na maior parte das situações, criam ambiguidades, vários registos de sentido e a multiplicação dos mundos possíveis.

Será que aguardam num mundo das ideias por poderem vir à luz? Ou simplesmente acontecem, acompanhando os ritmos de vida e dos pensamentos dos autores, co-autores e tradutores.

O vazio é um dos conceitos mais polémicos, sobretudo quando aplicado ao universo legal.

O vacuo legis (zhenkong真空) abre infinitas possibilidades, dependendo da habilidade, imaginação e criatividade dos que interpretam as leis e os regulamentos ou, no caso específico, a ausência delas. O vazio é ainda aplicado a leis num sentido pejorativo, por exemplo em regulamentos sem efeitos práticos (kong wen 空文).

É bom chegar a um espaço por legislar. Em termos filosóficos é mesmo o Paraíso, uma atmosfera onde se pode respirar à vontade e, por isso, o vazio (kong 空) se confunde no dicionário com os discursos visionários ou apenas sonhadores e ocos (sixiang kongxu思想空虛), mas ainda com a força aérea em sentido concreto, aquela gente que voa pelos céus (kongjiangbing, kongjun空降兵、空軍), e abstracto, com a força geradora de infinitas possibilidades.

Kingxiangjia (空想傢) tanto pode ser o visionário como o alienado, por isso há que atender aos sentidos negativo e positivo do conceito de vazio: se para uns é uma palavra que abre uma paisagem celestial, para outros não passa de conversa da treta (konglun 空論).

No Clássico da Via e da Virtude (《道德經.十一), o capítulo 11 é expressamente dedicado ao espaço de infinitas possibilidades, aquele que existe em potência e ainda não passou a acto.

 

Trinta raios convergem para o eixo da roda.

É do não- Manifesto () que o veículo recebe a sua utilidade.

Molda-se o barro para fazer os recipientes

É do não-Manifesto () que os recipientes recebem a sua utilidade.

O quarto tem portas e janelas.

É do não-Manifesto que o quarto recebe a sua utilidade.

Assim é do Manifesto () que se retira o proveito

E do não-Manifesto a utilidade.

 

(三十輻共一轂/當其無/有車之用/埏埴以爲器/當其無/有器之用/鑿戶牖以爲室/當其無/有室之用/故有之以爲利/無之以為用)

Segui Cláudia Ribeiro (2004) no que se refere ao conceito de Wu (), que foi traduzido por não-Manifesto, enquanto António Graça de Abreu (2013) optou pela tradução de vazio e D.C. Lau por nothing (nada).

Dos três caminhos seguidos para a tradução do carácter em causa, o menos feliz, a meu ver, foi o de D.C.Lau, porque nada não desperta a ideia de uma folha em branco onde possam ser desenhadas inúmeras paisagens.

Já a opção de Graça de Abreu por vazio, sobretudo no sentido positivo do termo, me parece mais em harmonia com a ideia de surgimento e/ou construção dum mundo possível. Ainda assim, esta opção corre o risco da palavra ser interpretada na sua acepção negativa, numa leitura apressada ou demasiado literal.

O não-Manifesto é a tradução que melhor reflecte a ideia de potência aristotélica, mesmo em termos jurídicos, quando está em causa o vacuo legis (真空). Quantas vezes ao recorrermos ao conceito de vazio legal, as nossas expectativas não são as de preencher o mais rápido possível aquele espaço em branco, que se tornou extremamente útil para dar corpo a uma ideia, ou melhor dizendo, a um ideal?

O vazio legal, ou, num novo registo, o não-Manifesto legal(無文) viabilizará a criatividade em termos sociopolíticos, fazendo jus ao louvor de Wu realizado pelo pai do Taoísmo, enquanto complemento do Existente (you 有), sem o qual aquilo que existe perde a sua força dinâmica e criativa, a possibilidade de se arejar, renovar e recriar.

 

* Professora convidada do Departamento de Português da Faculdade de Artes e Humanidades

 

Bibliografia

 

Abreu, Graça de António. 2013. 《老子.道德經》Laozi.Tao Te Ching. O Livro da Via e da Virtude,Lisboa: Vega

Lau, D.C. 2012. Tao Te Ching. A Bilingual Edition, Hong Kong: The Chinese University Press

Ribeiro, Cláudia. 2004.《道德經》Dao De Jing. O Livro da Via e do Poder. Edição Bilingue. Mem-Martins: Publicações Europa-América

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Um candidato armado

Sónia Nunes

O tempo, ah, esse excepcional conselheiro, serviu de lição aos que têm essa ideia radical de que o exercício de direitos políticos não deve estar reservado a uma elite. A reforma feita em 2012 acabou por mostrar que a expansão de um sistema antidemocrático foi de facto a melhor opção para Macau: temos, por fim, um candidato à altura das eleições para o cargo de Chefe do Executivo. Refiro-me, claro está, a Wong Wai Man, presidente da espectacular Associação dos Armadores de Ferro e Aço e activista de pequenas causas.

Tal como as eleições – dos membros do colégio eleitoral e daqui para o Chefe do Executivo – Wong Wai Man é um falso mas bem intencionado candidato a Chefe do Executivo. A segunda grande vantagem do representante dos armadores de ferro e aço (sector injustificavelmente subvalorizado na sobrevida política local) é não ser eleitoralista. É vê-lo, todo sorrisos e declarações públicas, em frente ao mercado da Areia Preta, que fica ali como quem vai para os antípodas da povoação dos 400 membros da Comissão Eleitoral do Chefe do Executivo. Wong Wai Man – que, como por certo se recordam, foi também um candidato ímpar à Assembleia Popular Nacional – não está à caça de votos. Está a insurgir-se lá a maneira dele contra o “pequeno circulo de eleição” do Chefe do Executivo e já recolheu 66 assinaturas de perfeitos anónimos que têm tanto direito a votar quanto as 400 pessoas escolhidas para fazer parte do colégio eleitoral. É nisto que Wong Wai Man acredita – o manifesto político e ideológico mais relevante destas eleições veio do presidente Associação dos Armadores de Ferro e Aço, o que deve ser motivo de orgulho para qualquer coração democrata com fascínio pelo teatro do absurdo, como o meu.

Ainda no reino do simulacro, o mandatário de Chui Sai On, Vong Hin Fai, sentiu-se na obrigação de explicar por que só conseguiu 83 por cento dos apoios do colégio eleitoral. A intenção, nunca declarada, de impedir uma segunda candidatura não deve ser confundida com despotismo – é um acto de benfeitoria, de generosidade, com o nobre intuito de não confundir os eleitores na escolha. Façamos agora uma pausa para recordar o momento alto das eleições de 2009. Exacto: a inesquecível entrada em palco de dois funcionários públicos, de fato domingueiro, que tiveram a fineza de explicar como um carimbo e um boletim de voto com um quadrado se complementam.

Vamos dizer que Wong Wai Man (ou qualquer outra pessoa) pode conseguir recolher as 66 assinaturas que precisa para ser candidato a Chefe do Executivo. Será um esforço hercúleo. Como lembrou Vong Hin Fai os 69 membros do colégio eleitoral são, à semelhança dos restantes 331, são “amigos” de Chui Sai On e não será fácil falar com eles. Além das notáveis diferenças entre este Verão e o de 2009, nesta lamentável falha da equipa de candidatura não será inocente o aumento do colégio eleitoral.

A entrada de mais 100 pessoas no grupo tornou estas eleições muito mais renhidas do que há cinco anos. Basta pegarmos no exemplo de Maria do Carmo Madeira de Carvalho, presidente da Associação de Badminton e uma recém-chegada ao colégio eleitoral. É uma mulher de ideias fortes (entende que as manifestações são uma má influência para os jovens e que “todos temos altos e baixos”), mas é sobretudo honesta e frontal: teve a coragem de admitir que não domina as questões políticas. Está bom de ver que não é fácil contactar com eleitores com este tipo de perfil – nem para a equipa de Chui Sai On nem para Wong Wai Man.

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Ditadores e seus afins

Maria Caetano

Com a lusofonia depreciada pela entrada da pena de morte, tortura, ditadura e vários tipos de violações aos direitos humanos na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, por via da Guiné Equatorial, e ainda incrédulos com a aceitação da Coreia do Norte no grupo de combate e prevenção do branqueamento de capitais da OCDE, verificamos que de tudo um pouco é possível. Não há moralismo que nos livre de assistirmos à decadência ostensiva das organizações internacionais, apontando para dizer o que está mal.
Parece fútil, hoje, apontar princípios elevadores. Na infância berraríamos que não é justo, enquanto na idade adulta nos conformamos a desígnios ditos pragmáticos – e aceitamos isso como uma marca de maturidade dos indivíduos, dos povos e das organizações, um suposto contrário da ingenuidade improdutiva. Temos afinal um pássaro na mão, ainda que estrangulado e moribundo. Na verdade, ninguém quer verdadeiramente ver dois pássaros a voar.
Este tipo de realizações humanas em organizações fundadas sobre ideias esquecidas (o cínico perguntará se alguma vez existiram) têm a particularidade, aqui, de acontecerem de forma obscura, mas dita consensual, sem qualquer marca de discussão, com uma reverência injustificada e servil. Portugal, por exemplo, alegou o seu complexo pós-colonial, a culpa, e as conveniências de não levantar ondas para não piscar os olhos perante a entrada abrupta da Guiné Equatorial na CPLP – à revelia dos habituais processos de votação e discussão. Participou do consenso de forma mais ou menos envergonhada.
Da entrada da Coreia do Norte no Grupo Ásia Pacífico da OCDE sabemos ainda menos. Não fossem as agências de notícias sul-coreanas e a informação sobre a decisão tomada em Macau ter-nos-ia passado ao lado. Uma reunião de alto nível que decide a integração numa organização internacional do regime mais fechado e opressivo do mundo – com a Guiné Equatorial em segundo lugar, como muitos afirmam – produziu pouco mais que palavras de circunstância do secretário para a Economia e Finanças, Francis Tam, prometendo muita e da boa velha cooperação com todos. Recorde-se que o objetivo do fórum da OCDE é, exatamente, promover a transparência como forma de combate à lavagem de dinheiro, financiamento do terrorismo e, mais recentemente, da proliferação nuclear.
Macau, vá-se lá saber porquê, oferece o manto de opacidade necessária para que tudo isto passe sem alarido, tal como Timor-Leste se passeia de mão dada com Teodoro Obiang, espezinhando valores e protocolos. São coisas de indivíduos, povos e organizações muito adultas que já não se iludem com vãos sonhos e tentam apenas colher as vantagens possíveis das circunstâncias que se lhes colocam. Há, aparentemente, sítios que mais se prestam a estes convénios de príncipes empenhados nas linhas tortas que provavelmente nunca chegam a escrita direita. Uma provável questão de afinidades.

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Como um rastilho

Inês Santinhos Gonçalves

Muitas vezes se duvida da validade das instituições internacionais por não serem vinculativas, por terem agendas, ou até por se ofenderem facilmente. Mas a verdade é que a exposição internacional resulta muitas vezes em pressão e tem efeitos que internamente não conseguiriam ser atingidos. O mesmo se passa com a atenção mediática.

Macau foi sempre ofuscado por Hong Kong, o que em grande parte se justifica – o território acolhe muito mais gente, é um centro internacional financeiro e sempre foi mais reivindicativo e criativo que Macau. Mas a compreensão acaba quando aqui também se batem recordes, quando aqui também se faz história, quando aqui as gentes também se movimentam e fazem pedidos ousados na grande China.

Macau nunca poderia ter manifestações ou uma vigília por Tiananmen da dimensão das de Hong Kong, mas isso não quer dizer que não tenha tido as maiores da sua história recente. E se é vergonhoso que jornais que são referências mundiais como The New York Times o ignorem – no dia 4 de Junho o diário escrevia que Hong Kong era o único território chinês onde se organizavam homenagens –, mais incompreensível é que publicações do território vizinho o façam, como foi o caso do South China Morning Post.

Esta crítica estende-se, com todos os acrescentos históricos que merece, a Portugal, um país que nada sabe, nada fala e nada pergunta sobre Macau, a não ser quantos milhões se fizeram nas mesas de jogo.

Aqui neste canto do mundo que deixaram de forma tão despreocupada dão-se passos históricos e luta-se por um sistema democrático que Portugal nada fez para preservar. Há uma geração pós-RAEM que se esfalfa para sair do beija-mão a Pequim. O ano foi, e continuará a ser, quente. E apesar de viverem aqui várias dezenas de jornalistas portugueses com acesso a informação privilegiada (que cederiam de bom grado), em Portugal nem uma linha foi escrita sobre o assunto.

Não é verdade que Macau não interesse a Portugal. Mas é um interesse muito especializado: Portugal olha para Macau como um cofre dourado, uma extravagância de milionário com quem tem uma relação privilegiada. E aqui enviam altos dirigentes para falarem de parcerias económicas e plataformas, intercaladas de palavras adocicadas sobre laços afectivos e culturais.

Portugal não se interessa minimamente sobre o que realmente se passa aqui e que em grande parte ainda lhe diz respeito – 15 anos, afinal, não é nada. Não só a Universidade Católica Portuguesa não se dignou a pronunciar-se sobre o caso de Éric Sautedé como o caso passou quase incógnito nos meios de comunicação.

Agora Macau chegou às páginas do britânico The Guardian e foi tema de editorial do The New York Times. Talvez assim desperte o interesse de jornais portugueses, que tantas vezes decidem o que tem valor pelo que está na moda.

Por cá, espero que o rastilho noticioso não se apague e que ajude Macau a ser mais levado a sério. Esperamos outros jackpots para os próximos 15 anos.

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