Os difíceis critérios de exigência

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Na reflexão deste Domingo, o Trigésimo Primeiro do Ano Litúrgico, começo pelo fim do texto. «Disse-lhes, então, Jesus: ‘Vós quereis passar por justos aos olhos dos homens, mas Deus conhece os vossos corações’».

A procura infantigável e a sede insaciável de Verdade, Amor e  Perfeição é, sem dúvida,  estrutural e intrínseca  ao coração humano. Ele não consegue descansar sem aí chegar e viver! Contudo, há que reconhecer, por outro lado, que nem tudo o que se movimenta no seu íntimo é, moralmente, assim tão bem ordenado e correcto. No ser humano nem todas as suas inclinações, nem todos os seus pensamentos e nem todos os seus sentimentos aspiram à «excelência».

São essas primeiras reacções da nossa sensibilidade humana perante uma realidade da vida que, tantas e inúmeras vezes, bloqueiam o nosso progresso – moral e espiritual – de  homem ou mulher. Apesar de as pessoas afirmarem com seriedade, convicção e sinceridade que ‘senti muito fortemente… pensei longamente… experimento uma inclinação irresistível…’, isso não quer dizer, no mais profundo e a longo prazo, que esse  movimento interior de fazer esta ou aquela acção seja o mais verdadeiro,  o melhor, o mais perfeito e o de maior felicidade e beleza para aquele ou aquela que, assim, sente.

É uma realidade muito comum entre os que começam a entrar mais profundamente dentro de si mesmos, ou a crescer para uma maior  plenitude de si mesmos ou até a iniciar um ‘caminho’ mais espiritual, considerarem eles que aquilo que, num primeiro momento, pensam, sentem ou sentem inclinados a praticar,  é o mais certo, o melhor e o mais perfeito. Quando na verdade, isto constitui apenas um primeiro passo numa longa caminhada em que, pouco a pouco, se vão sentir, ao contrário,  mais ‘vazios  de si mesmos’ e mais abertos a algo de nível superior e, acredito,  capaz até chegar ao divino.

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O texto evangélico, a certo momento, com as próprias palavras do Senhor Jesus, o Mestre, avança na exposição da problemática do mundo interior. Dá-nos alguns exemplos, cheios de sabedoria, que são um convite a todos nós de ir mais fundo na nossa maneira de  agir no nosso quotidiano. Há neles, sem dúvida, um «critério de exigência».

«Quem é fiel nas coisas pequenas,  também é fiel  nas grandes. Quem é injusto nas coisas pequenas, também é injusto nas grandes. Se não fostes fiéis  no que se refere ao vil dinheiro,  quem vos confiará o verdadeiro bem ?»

Não nos deixemos cair nem nas aparências do imediato, do meramente exterior, do propotente, do colossal, do vaidoso e do orgulhoso nem nos primeiros fulgores do coração

Ao mesmo tempo, Jesus Cristo denuncia, sem apelo nem agravo, as atitudes camufladas, enganadoras e falsas dos fariseus. Desmascara o comportamento de fachada. Eles que querem aparecer como «justos»,  os incontestáveis cumpridores da Lei, mas que não passam, afinal,  de «amigos do dinheiro e que roubam as viúvas » e provocam escândalo entre «os simples e pobres» de Israel.

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Mas, neste pequeno Discurso, o Senhor Jesus torna-se ainda mais incisivo e radical ao proclamar aquilo que denomino «o critério de  excelência». Se critica asperamente os fariseus no modo como O receberam,  «escarneciam», d’Ele, no entanto, Jesus Cristo continua sempre a convidar os seus discípulos – particularmente os Doze que o vão seguir –  consciente que estão em formação e, portanto, a aprender e a assimilar os Seus «difíceis critérios de exigência e excelência ».

 

Não há meios termos, ambiguidades ou ambivalências na doacção pessoal a Deus, a Cristo. A entrega tem de ser total e plena de confiança: «Nenhum servo pode servir a  dois  senhores,  porque, ou não gosta de um deles e estima o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro».

Mais. Tem de ser em desprendimento, em simplicidade e vivida em meios simples, austeros e pobres. Apegado ao dinheiro e dominado pelos cuidados e confortos deste mundo não vai longe. O ‘material’ sufoca o ‘espiritual’ : «Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro».

Eis a verdade mais fundamental, por último. Deus é único, superior a quem quer que seja neste mundo criado. Ele é Senhor, Pai e Criador. O  Seu Amor revelou-se absoluta e divinamente em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, que na Cruz morreu miseravelmente por nós.

Os caminhos de Deus em nós são imperscrutáveis e insondáveis : «O que vale muito para os homens nada vale aos olhos de Deus».

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço uma vez por semana, sempre às sextas-feiras.

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As razões escondidas

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É uma constante da pregação de Jesus Cristo, a denúncia das «razões escondidas» dos seus interlocutores, particularmente, se se trata de escribas, sacerdotes ou doutores da Lei,  sempre à procura de O deixar mal parado. Eles que se querem apresentar como o exemplo mais fidedigno do cumprimento da Lei  e da Moralidade! O Evangelho deste Trigésimo Primeiro Domingo do Ano Lúrgico é  disso, apenas, mais uma prova.

O que se está a passar pelo mundo fora mostra quanto a Palavra de Deus continua a ser não só actual, mas também perscrutante, tal espada afiada, de gume finamente cortante, a chegar ao mais profundo. Descobrem-se continuamente quer na vida política,  na economia e finança, no desporto, nas artes e no mundo do espectáculo – quer na vida consagrada, religiosa, sacerdotal – comportamentos desviantes e viciados, vergonhosamente, cheios de mentiras, manipulação, engano, exploração, violência e… até morte.

Viver em sociedade, partilhar a nossa existência com outros, tocando em todos os diferentes níveis da nossa relação humana – social, político, écológico, económico,  familiar,  religioso,  educacional,  artístico, desportivo, lúdico e cósmico –  exige que o ser humano, homem ou mulher, seja capaz de entrar no mais profundo de si mesmo, no ‘íntimo’ do seu coração e do seu ‘Ser’  e conseguir ouvir e entender ‘a voz da consciência’ e também, creio firmemente, escutar ‘a voz de Deus.’

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Acompanhando o ensinamento do Senhor Jesus, descobrimos no texto que nos é apresentado este Domingo uma leitura do coração humano muito acertada e esclarecedora. No coração humano existe, no entanto, um ‘mundo de afectos’, com inclinações muito variadas e nem sempre muito ordenadas, até mesmo, direi, com dinâmicas muito negativas, àcerca dos quais somos extremamente ignorantes.  Pior ainda, nem conscientes estamos da sua existência!

O Mestre, antes de mais, chama-nos a atenção da existência de uma força instintiva da natureza humana pela qual todo o ser humano deseja ‘ser apreciado’, reconhecido, admirado, estimado e valorizado. Caso contrário, nasce, cresce e desenvolve-se  nele uma dor tão penetrante que se transformará, aos poucos, naquela realidade que, filósofos, psicólogos e místicos, apelidam de ‘Angústia Existêncial’. O Senhor Jesus expressa essa inclinaçao instintiva, definindo-a como «tudo o que fazem é para serem vistos pelos homens». E acrescenta, descrevendo as suas manifestações externas : «alargam os filactérios e ampliam as borlas; gostam do primeiro lugar nos banquetes e dos primeiros assentos nas sinagogas». Encobrem-se, portanto, debaixo de certos comportamentos, supostamente correctos e até muito espirituais, mas, no fundo, continuam a desejar,  intensa e compulsivamente, «serem vistos pelos homens». O que aparece são apenas ‘máscaras’. O sentimento real e verdadeiro está reprimido. As motivações, afinal, são « razões escondidas».

Num segundo momento, o Senhor Jesus revela a existência de uma outra dimensão da natureza humana sobre a qual devemos estar também conscientes. Todo o ser humano, para além de desejar, intrinsecamente como homem ou como mulher, ‘ser apreciado’,  deseja, de igual modo e também instintivamente, ‘ser amado.’  Consequentemente, um coração não equilibrado afectivamente pode ser causa de comportamentos incorrectos e imaturos.  Assim se expressa Jesus sobre tal necessidade : «Gostam das saudações nas praças públicas e que os tratem por ‘Mestres’, … Doutores … Pai …».

Aqui temos um novo filão para originar aquilo que denomino «razões escondidas». Aquela necessidade psico-afectiva estrutural da nossa natureza que reclama que todo o ser humano tenha a experiência de  ‘ser amado’ pode levar -nos a comportamentos exagerados, obsessivos e compulsivos de necessidade contínua dos outros, de dependência afectiva excessiva, tais como: sensibilidade extrema  à presença dos outros ou à atenção que nos é dada pelos outros ou à sua ausência;   necessidade premente do aplauso e do elogio;  tendência forte a sempre agradar os outros, subserviência inconsciente;  altos e baixos muito acentuados no seu estado de espírito;  compulsividade a falar,  a dramatizar os acontecimentos da vida,  e a cair, por outro lado, em longas lamentações, tristezas, apatias.

 

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Por fim, o Senhor Jesus faz-nos cair na conta de quanto, viver prisioneiro das nossas « razões escondidas », no fundo do nosso coração,  poderá vir a afectar o nosso comportamento moral até ao ponto de ele se tornar, inacreditavelmente,  uma autêntica contradição: «Eles dizem, mas não fazem.  Atam fardos pesados e põem-nos  aos ombros dos homens, mas eles nem com o dedo os querem mover.

Não é isto que assistimos na sociedade actual ? Tantas «razões escondidas», nos homens e mulheres contemporâneos: políticos, financeiros, industriais, gestores, investigadores e cientistas, agentes sociais, educadores, animadores culturais e desportivos !

Contemplemos o Mundo… Onde está a Moralidade ? Onde está a Justiça, a Solidariedade e a Harmonia entre os Povos ?

Luís Sequeira, sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço uma vez por semana, sempre às sextas-feiras.

 

 

 

 

 

 

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As consequências do XIX Congresso do PCC

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A reunião magna dos comunistas chineses teve lugar em Pequim na semana transacta sob a égide de duas interrogações: estaria Xi Jinping em condições de concentrar o seu político interno em termos que não se viam desde Mao Zedong? Em caso de resposta positiva, quem seria o seu próximo sucessor à frente do Partido e do Estado?

As respostas que saem do Congresso, que colocou efectivamente fim ao primeiro mandato de Xi Jinping, são mistas.

Sim, Xi Jinping é o inquestionável líder da China – o “core leader”, como se deixou designar – mas o seu poder, sendo majestático não é, ao contrário do que muitos observadores adiantavam, absoluto. Dito de outra forma: não há ninguém no partido que se ache em condições de desafiar a sua liderança. Mas Xi Jinping não é – nem será – um líder que incentiva uma obediência cega, como Mao conseguiu em partes significativas dos seus mandatos como secretário-geral e “paramount leader”. Xi não colhe a unanimidade.

Isso não o transforma, porém, num líder fraco.  É o líder para o actual tempo da China. Nem mais nem menos.

A segunda resposta é que Xi Jinping não nomeou o seu sucessor à frente do partido para o substituir quando a regra consuetudinária dos 68 anos recair sobre o seu futuro. Há duas leituras possíveis: ou Xi Jinping não se quis precipitar nessa escolha, com receio de se ludibriar como aconteceu com Mao em relação a Lin Piao; ou os “senior leaders” impuseram-lhe que não o fizesse porque não declinam participar, activamente, nessa escolha. Deixo para o fim, o revelar da minha preferência quando falar do elenco do Comité Permanente do Comité Central e do Politburo.

No ínterim, direi apenas que Xi quis-se imortalizar como líder da China do que chamou “a nova era” e que só se pode entender como a era Xi Jinping. Daí que tenha insistido que o “Pensamento Xi Jinping do Socialismo de características chinesas” ficasse impresso a letras de ouro na constituição do Partido, uma distinção que só aconteceu duas vezes quanto ao Pensamento de Mao Zedong e à Teoria de Deng Xiao Ping.  Nenhum dos secretários-gerais que o precederam teve tal distinção e isso revela um aspecto significativo do culto de personalidade que tem estimulado e que acredito se irá intensificar no seu segundo mandato.

Mais do que isso, a Nova Era de Xi Jinping é um desafio àquelas que foram as principais premissas da Era das Reformas de Deng. Vamos ser claros. O XIX Congresso foi o toque de finados da era das reformas e do que ela trouxe de notável à China: um socialismo especial de características chinesas, combinando a propriedade pública com o papel motriz do mercado; a abertura ao exterior possibilitando a captação de investimento directo estrangeiro que foi indispensável à modernização notável da China nas ultimas três décadas; a criação das Zonas Económicas Especiais no sul em contacto com os enclaves capitalistas de Macau e de Hong Kong e com a província “renegada” de Taiwan; o desenvolvimento exponencial das zonas costeiras, percorrendo todo o litoral acima e abaixo de Xangai.

O XIX Congresso foi o toque de finados do contributo de Deng Xiaoping para a história e o sucesso do Partido Comunista Chinês, um partido que soube sobreviver ao ocaso dos partidos comunistas na União Soviética, na Europa de Leste, na Albânia, na Jugoslávia e na Europa Ocidental. Por uma razão elementar: porque ao contrário dos outros partidos a China sob Deng soube baixar o dogmatismo ideológico em favor do pragmatismo do tanto faz que seja cão ou gato desde que cace o rato. Este pragmatismo sobreviveu nos mandatos de Jiang Zemin e Hu Jintao como marca da Nova China Reformista.

Os postulados teóricos da doutrina de Xi Jinping são puro marxismo-leninismo nas suas premissas essenciais. O Partido é todo poderoso. Deixa de fazer sentido a separação entre o Partido e o Estado: tudo é Partido. Tudo são interesses do Partido.

O sector empresarial é só um: o das empresas estatais que devem ser não privatizadas [como o promoveu Zhu Rongji] mas fundidas e alargadas para servir os reais interesses do Partido Comunista. Daí que se assista a uma revisão dos estatutos das SOE’s para fazer depender a assunção de decisões estratégicas do parecer e da opinião dos Comités do Partido envolvidos. Ao mesmo tempo, assiste-se a um alargamento da acção do Estado em relação às empresas privadas: os empresários têm de ser patriotas [diz Xi] e o partido quer que os seus membros sejam recrutados pelas empresas e lhes sejam oferecidos lugares proeminentes.

Mas o “Pensamento Xi Jinping” vai além disso. Determina uma aposta no investimento nas regiões do Oeste e Centro da China em favor do papel pioneiro do litoral. O Partido passa a ser o promotor do Estado de Direito, seja qual for a concepção que os comunistas chineses têm do Estado de Direito. Finalmente a China é um participante activo na vida internacional e ambiciona tornar-se líder em 2050.

Se por alguma forma pudéssemos fazer um flashback com as mudanças importantes que estão previstas para a República Popular da China no segundo mandato de Xi Jinping, é como se estivéssemos a reviver um brejnevismo sem Brejnev em que o poder fulgurante do nacionalismo chinês se impusesse como uma inevitabilidade para uma nova partilha do mundo em dois mundos: o mundo capitalista, decadente e corrupto e o mundo socialista renascido e rejubilitante sob a liderança da República Popular da China.

Como se explica esta inversão do curso da China segundo o elucidativo discurso do líder Xi Jinping? Por três razões essenciais. Xi Jinping é um homem de partido e o único objectivo credível é reforçar o Partido, ajudar a que sobreviva às inúmeras dificuldades que uma situação volátil internacional promove e multiplica. Xi Jinping é filho da Revolução Cultural, é um seu produto e é a sua catarse. Sabe que um regime unipartidário só subsiste se existirem regras políticas claras e cada um desempenhar o seu papel. Pegando na velha analogia de Platão, os guardas devem ser guardas, os trabalhadores e artífices devem ter só esse poder e os administradores serem administradores. É essa a chave de um regime sábio onde a sabedoria prevaleça.

Por isso a única solução para salvaguardar o papel central do partido é uma direcção “hard-liner”  do partido, do Estado e da sociedade. Centralismo interno e férrea disciplina partidária. Detenção e perseguição de activistas pró-democracia e advogados defensores de cidadãos envolvidos nesses movimentos. Controlo férreo dos media, da Internet, dos chats e de todas as plataformas que possam possibilitar a difusão de ideias divergentes daquela que passa a ser a doutrina oficial do Partido: um apoio unívoco e inquestionável ao líder que nunca erra.

Em resumo, esperam-nos cinco anos de reforço ainda maior do papel de Xi Jinping como líder incontornável da China, de continuidade da campanha anti-corrupção contra opositores internos, de fortalecimento dos mecanismos de economia socialista e desmontagem dos instrumentos da economia de mercado.  Como dizia Maquiavel, o Príncipe iluminado é o que sabe que é melhor ser temido que amado, que faz todo o mal possível primeiro, para depois ter a condescendência de fazer algum bem. ­

Então se é assim, se Xi Jinping tem um poder inquestionável, porque não nomeou os seus delfins para o Comité Permanente do Politburo? Na verdade quem analisar, com alguma profundidade, os “sete magníficos” do Comité Permanente não pode deixar de se surpreender com o que encontra. Li Keqiang acompanha o líder, mas é um Primeiro-Ministro cada vez mais debilitado pois parte das suas competências têm sido derrogadas em favor de comités ad-hoc designados e dirigidos pelo Presidente do Partido. Li Zhangshu é o homem do Comité Nacional de Segurança que dirigirá, nesta nova fase, todo o aparelho “controlador” do Estado e cuja orientação em termos de facções é desconhecida. Wang Yang, o actual Vice-Primeiro Ministro é um homem de Hu Jintao. Wang Huning, coordenador da Comissão Central para as Reformas é um homem de Jiang Zemin. Zhao Leji, o subdirector do Departamento Central de Disciplina e Inspecção é um incondicional de Xi, indo cumprir o papel que fora o de Wang Qishan. Han Zheng, o ex-secretário do Partido em Xangai é um homem próximo de Jiang Zemin.  Quer dizer, em seis membros Xi poderá confiar em Li Zhanshu e Zhao Leji. Em certas ocasiões em Li Keqiang.

Todos os badalados candidatos ao Comité Permanente do Politburo – e putativos “delfins” do líder – quedaram-se por um lugar no órgão mais alargado: Yang Xiaodu, um dos pivots da Comissão Central de Disciplina; Chen Quanguo, o secretário do partido em Xinjiang; Chen Min’er, o secretário do partido em Chongqing; Hu Chunhua, o secretário do partido em Guandong; Cai Qi, secretário do partido em Pequim. Todos eles, de alguma forma ficaram pelo caminho.

Qual a explicação? A meu ver só pode ser uma: os líderes “seniores” impuseram a sua vontade em beneficio de homens de transição, deixando para daqui a cinco anos a definição de quem irá substituir Xi Jinping na tríplice posição de secretário-geral, Presidente do Estado e Presidente da Comissão Politico-Militar do Comité Central.

Sinal de fraqueza ou calculismo político? Só o tempo permitirá responder a essa questão.

Os olhos do mundo estão em Xi Jinping. Mas os dos oitenta milhões dos militantes do Partido Comunista Chinês também.

 

Arnaldo Gonçalves é jurista e professor de Ciência Política e Relações Internacionais. Escreve neste espaço quinzenalmente e, hoje, excepcionalmente à terça-feira.

 

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O mundo dos afectos

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«Mestre, qual é o primeiro mandamento da Lei?», perguntou um dos doutores da Lei a Jesus para O experimentar. Eis a resposta : «‘Amarás o Senhor teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu espírito.’ Este é o maior e o primeiro mandamento. O segundo, porém, é semelhante a este : ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’».

O diálogo entre a Fé e o Mundo dos Afectos  continua, a meu ver,  a ser um assunto pouco ou nada integrado na Formação Cristã ou nas classes de Catecismo. No caminho da Fé prevalece, claramente, ainda a aprendizagem e o conhecimento das Verdades da Fé, a Doutrina, e a chamada à prática, direi, formal e externa da Vida Sacramental, sobretudo, da Missa e da Confissão.

A Pedagogia do «Coração» onde está? As reacções íntimas ou os ‘estados de alma’ ou as etapas do processo de crescimento e maturação daquele ou daquela que está a aprender os caminhos de Deus não são tidos em conta. Não são levados nem à ‘conversa espiritual’ com a ou o catequista nem apresentados quando se está a sós, em oração, ‘aos pés de Jesus. ‘

Na Formação Cristã continua-se a insistir, excessivamente, na Racionalidade, na compreensão intelectual, e na Actividade. Isto é, na prática ritualista dos Sacramentos, e deixamos,  lamentavelmente,  a riqueza profunda da Afectividade e da Sensibilade. Mas, Jesus Cristo, o Mestre Divino, expressa-se muito bem, dizendo: «‘Amarás o Senhor teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu espírito.’». Portanto, o «Coração» é parte integrante e inalienável da Experiência de Deus e, consequentemente, também de toda a Experiência Humana.

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Nesta mesma linha de ideias, outros são os aspectos que denotam, de igual modo, a falta de integração do mundo afectivo na experiência da Fé.  Por exemplo, a interrelação intrínseca da maturidade afectiva com a maturidade espiritual, na caminhada da Fé, estará ela bem equacionada no processo de aprendizagem actual de como  formar um autêntico cristão? No entanto, desejo abordar esse aspecto do enquadramento do ‘mundo dos afectos’ na vida de cada um numa visão mais universal e no contexto de toda a Humanidade e não apenas na experiência espiritual.

Levado pela minha missão,  encontro-me continuamente com gente, homens e mulheres, de muito diferentes raças, línguas, histórias e culturas e mesmo religiões.  Cresce, assim, em mim a convicção de que é uma incontestável verdade aquilo que já o filósofo grego aconselhava: «Conhece-te a ti mesmo». Verdade essa  que veio a ser confirmada, depois, com maior rigor científico, no século passado, através da Psicologia de Profundidade.  Ao mesmo tempo, não se pode esconder ou negar que essa experiência sempre foi defendida como fundamental para o crescimento na vida humana e espiritual, principalmente, pelos místicos, em toda a História da Igreja, tais como a grande Teresa de Ávila e o genial Inácio de Loiola. ´

Chego, porém, à conclusão, de quanto continua a ser de extrema importância na nossa Sociedade ensinar as pessoas a entrar, conhecer e discernir o que vai no íntimo dos  seus corações para melhor poderem servir a Humanidade e contribuirem para o progresso do Mundo. Assistimos, em contra-partida, ao excesso do uso da Racionalidade, dando origem ao Racionalismo legalista, impiedoso, calculista, e sem compaixão pelas necessidades realmente humanas. A Actividade humana, por sua vez, dominada pelo tecnicismo, mecanicismo e robótica, torna-se frenética, mecânica e compulsiva. O homem e a mulher contemporâneos estão a não conseguir controlar-se e a cair no abismo da sua ‘Angústia Existêncial’ e a descer, pouco a pouco, até ao seu  profundo ‘Desespero’.

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Diria ainda que uma coisa é não conseguirmos  entrar no nosso «Coração» e no «Mundo dos afectos» que são os nossos e  não lhe darmos a devida importãncia no dia a dia da nossa existência. Outra é, e pior ainda, o não conseguirmos dominar e controlar as consequências de um «Coração» posto de parte, desconhecido e amargurado. É que ao «Coração» está intimamente ligada a Sensibilidade, a Afectividade e a Sexualidade! Realidades que, bem entendidas e integradas na vida de uma Pessoa, conduzem-na à sua plenitude de Ser de Homem ou de Ser de Mulher, abrem-na ao Amor e transportam-na à Intimidade e à Perfeição de Deus. Caso contrário, podem-se transformar em forças tremendamente destrutivas da Humanidade, sobretudo, quando, com elas, não se respeita a Moralidade, a Dignidade de Ser Pessoa, «criada à Imagem e Semelhança de Deus.»

As Civilizações – egípcia, grega, romana – destruíram-se pela degradação moral.

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço uma vez por semana, sempre às sextas-feiras.

 

 

 

 

 

 

 

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  Não, Arnaldo Gonçalves não tem razão

 

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O presidente do Fórum Luso-Asiático disse recentemente, à margem da celebração dos 20 anos do Fórum Luso Asiático, organização a que preside, que Portugal se desligou da realidade de Macau, depois da transição de poder em 1999.

Não é a primeira, nem será provavelmente a última vez que este lamento se faz ouvir, mas não é por isso que o considero mais ou menos justo.

A questão é como medir este “desligamento”: de uma forma intuitiva ou o mais objetiva possível.

Alguns exemplos:

 

– Portugal tem um Consulado-Geral em Macau dos maiores em toda a rede consular;

– Portugal sempre teve um representante da AICEP – Agência para o Investimento e o Comércio Externo de Portugal e agora até tem um apenas para o Fórum de Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa;

– Macau destaca-se na lista de locais mais visitados pelos governantes portugueses em todo o mundo. Recentemente até tivemos o insólito caso de um secretário de Estado que veio para assinar um acordo e se foi embora porque o memorando não estava pronto. Todos se lembrarão também que José Cesário, antigo secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, passava mais tempo em Macau do que no Brasil ou em Angola.

– Todos os Presidentes da República estiveram em Macau e foram raros os primeiros ministros que falharam. Passos Coelho foi a óbvia excepção;

– Portugal mantém acordos especiais (que não existem com mais nenhum país) para que funcionários públicos trabalhem em Macau. Estes funcionários públicos desempenham funções como médicos e funcionários judiciais, entre outros;

– Portugal tem um ambicioso acordo de cooperação com Macau. Tão ambicioso que em muitos casos não saiu do papel.

Como se percebe, nem tudo funciona bem. Não funciona com Macau, como não funciona a relação do Estado português com o próprio país.

Mas Arnaldo Gonçalves também não tem razão quando diz: “Portugal, nestes anos todos que existem do fórum, nunca apresentou um projeto de uma iniciativa, de uma empresa, de um investimento, qualquer coisa”. Do meu ponto de vista, não é o Estado português que tem de apresentar projectos: são as empresas (privadas, portanto). E se as empresas não acham o modelo vantajoso ou eficaz, que culpa tem … Portugal? Por alguma razão, o Fundo é, até ao momento, um mistério.

Arnaldo Gonçalves afirmou ainda [e continuo a seguir o relato que li no PONTO FINAL] que Portugal “não se preocupa com Macau”. Mas é com Macau ou com os portugueses que residem em Macau? Os Portugueses que vivem em Macau precisam realmente que Portugal se preocupe com eles? A acção do Cônsul não é suficiente? Relativamente a Macau, devia preocupar-se com o quê? Com o Cumprimento da Declaração Conjunta? Devia Portugal ter um papel mais activo neste domínio? Eu por acaso acho que sim, mas gostava de ouvir o que pensa Arnaldo Gonçalves.

Fica o desafio.

 

 

João Paulo Menezes, Jornalista. Correspondente do PONTO FINAL em Portugal.

 

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Hipocrisia e malícia

 

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A Palavra de Deus constitui, em si, um desafio constante, perspicaz e surpreendente à nossa maneira de viver. Não nos deixa impávidos e serenos, como se nada tivesse a ver connosco. Algumas vezes, até se torna impertinente e desagradável, o acto de a escutar. Por vezes, chega a ser mesmo dura e cáustica, ao denunciar certas realidades que são um atentado à dignidade humana e, como diz o povo, ‘bradam aos Céus’. O texto do Evangelho deste Vigésimo Nono Domingo do Ano Litúrgico parece ser um desses casos.

Os fariseus enviam os seus discípulos não tanto para se inteirarem  ou aprenderem alguma coisa daquilo que o Senhor Jesus está a expor, mas, única e exlusivamente, para Lhe lançarem uma pergunta armadilhada que o pudésse desconcertar, surpreender ou fazer cair em qualquer contradição. Mas, tudo é arquitectado, com palavras, aparentemente,  muito elogiosas: «Mestre, sabemos que és sincero e que ensinas, segundo a verdade, o caminho de Deus, sem Te deixares influenciar  por ninguém,  pois não fazes acepção de pessoas…». A narrativa do facto continua, e pode ler-se , em seguida : «Jesus, conhecendo a sua malícia respondeu : ‘Porque me tentais, hipócritas ?»

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Meditando esta passagem da vida de Jesus Cristo, sinto-me muito mais inclinado, primeiro, a tomar em consideração as Suas palavras, fortes e contundentes, de uma verdade quase demolidora, para procurar, em seguida, descobrir onde quer Ele chegar ou a quem Ele se dirige ou que aspectos reprováveis Ele chama a nossa atenção, apelando, ao mesmo tempo e consequentemente, à necessidade da nossa parte de mudança de atitudes e comportamentos. É como dizer, de outra maneira,  Deus fala sobre os factos e sobre eles apresenta a leitura mais correcta. Ou ainda, a Palavra de Deus oferece-nos o significado dos acontecimentos e das atitudes e não somos tanto nós a procurarmos dar um significado às coisas que acontecem.

Não nego, no entanto, que este modo de pensa –  isto é, que Deus também nos diz a Sua verdade, directa e frontalmente – através das leituras da Sagrada Escritura, foi também provocado pelo Relatório dos Incêndios, em Portugal, cujas conclusões nos deixam petrificados de dor, indignação e vergonha e nos faz exclamar como Jesus: «Hipócritas!Quanta Malícia!». Tanta e tanta conversa para evitar dizer a verdade e assumir erros, incompetências e irresponsabilidades. Mas pior ainda, quando se percebe que há também negócios sujos e indignos por trás.

« Malícia! Hipocrisia!» é um mal, é um ‘polvo de muitos tentáculos’ que pervade a nossa sociedade actual, tanto nos grandes países ou super-potências como nos pequenos países, nos elegantes principados ou nas parasidíacas ilhas off-shores.

Surpreendentemente «os fariseus e os herodianos», aqueles que interpelaram Jesus, eram exactamente as pessoas mais influentes e os mais inseridos na política nacional.  São esses mesmos que vão ouvir Cristo a chamá-los de forma cristalina : ‘ Hipócritas ?» Que dizer dos nossos políticos, locais, nacionais, mundiais?

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O Senhor Jesus, pela conversa,  sobretudo com o elogio, cheio de verdade que, lisongeiramente, os seus interlocutores Lhe lançam,  deixa-nos um caminho em que só ele é capaz de contrariar seriamente « a malícia! a hipocrisia!» que invadem o nosso Mundo e a Política Mundial : «Ser sincero…Não se deixar influenciar por ninguém. Não fazer acepção de pessoas.»

O Evangelho deste Domingo termina ainda com a apresentação de um critério que, por fim, deve ser aplicado em toda e qualquer acção em consequência das nossas responsabilidades: «Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.»

Se, por um lado, somos chamados a contribuir para o desenvolvimento e o progresso da Criação e da Humanidade; por outro, como o Senhor bem nos diz, não podemos esquecer ou pôr de parte ‘o sentido de Deus’ na nossa actividade criativa.

 

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve semanalmente neste espaço, sempre às sextas-feiras.

 

 

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  Xi Jinping, o líder indispensável

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Iniciou-se o XIX Congresso do Partido Comunista Chinês ontem, dia 19 de Outubro. É um tempo de celebração, mas também de escolhas. Diz-se que as escolhas foram já feitas nos meses que o antecederam e que as várias estruturas do partido escolheram os seus representantes ao congresso nacional. Tenho dúvidas se não haverá acertos de última hora. Não é habitual o partido anunciar uma lista de demitidos na véspera da sua reunião magna. Só Mao o fez – e poucas vezes – quando a luta entre ‘as duas linhas’ estava acesa. É um sintoma de fragilidade política. Mesmo que se só se verifique a médio prazo.

Há seis ou sete pontos a decidir neste congresso, o último antes das celebrações dos setenta anos da fundação do regime comunista na China. O primeiro que considero adquirido é a confirmação de Xi Jinping com líder central [‘core leader’] do regime comunista chinês. Não há tradição na história dos partidos comunistas de vários candidatos competirem abertamente pela liderança do partido. As escolhas fazem-se nos bastidores e o líder é cooptado pela oligarquia partidária que ao fazê-lo, salvaguarda-se. Não há, para já, ninguém que desafie a liderança de Xi no tríplice de poderes que detém: Estado, Partido e Forças Armadas.

O segundo é quem sobe ao Comité Permanente do Comité Central – o ‘Standing Committe’ do Politburo. Por razões de renovação interna, pretextadas pela regra não escrita do limite dos 68 anos como idade limite para o exercício de cargos partidários, devem sair Zhang Dejiang, Yu Zhengsheng, Liu Yunshan, Wang Qishan e Zhang Gaoli. Apenas Li Keqiang se manterá com Xi. Tem-se falado bastante se Wang Qishan, o secretário da Comissão Central de Disciplina e Inspecção e o arquitecto da campanha anti-corrupção se manterá no lugar como paga pelos serviços prestados. Isso constituiria uma violação da regra da aposentação compulsiva. Não creio que a excepção seja criada. O Partido funciona por regras mais ou menos rígidas que lhe dão estabilidade e previsibilidade. O mais provável será Xi Jinping fazer subir ao Politburo um dos ‘deputies’ de Wang na Comissão Central de Disciplina. Por exemplo Zhao Leji, membro do Politburo desde 2012 e membro do ‘steering committe’ para a reforma económica. É um homem da Universidade de Pequim, onde Li Kejiang de licenciou em economia. A ‘alma mater’ tem importância.

Ainda neste ponto está por decidir quem poderá subir ao ‘Standing Committe’. Não há na tradição do Partido Comunista Chinês um número fixo de membros e ele pode ir de 5 a 9 [são sete presentemente]. A resposta passará pelo seguinte: se Xi se sentir com força interna para decidir quem subirá é provável que o quorum se mantenha nos sete; se ele achar que lhe reforçará a áurea de líder forte [mas magnânime] incluir outras sensibilidades na liderança, ao mais alto nível, pode se sentir tentado a alargar a composição do Comité Permanente para nove membros. Pendo para já para a segunda solução. Xi é um homem inteligente e sabe que ganhará “se der a mão” às facções da Juventude Comunista, dos “princeling” e de Xangai.

O terceiro ponto a esclarecer é quão forte e profunda tem sido a campanha anti-corrupção. Vários comentadores, entre os quais David Shambaugh, Jean-Pierre Cabestan ou Robert Sutter, apontam que ela tem sido apenas um pretexto, uma ‘capa’, para o reforço do poder pessoal, monolítico e muscular de Xi Jinping como líder incontestado [e incontestável] do partido e um mecanismo de purga de opositores internos. Percebo a lógica. Tenho dificuldade em justapor o perfil de líder de Xi Jinping ao perfil megalómano e psicótico de Mao Zedong aquando da Revolução Cultural ou da Campanha de Rectificação de Massas. Não há, que se saiba, dirigentes presos a coberto da noite, torturados pela polícia secreta ou executados com um tiro atrás da orelha na cave de uma prisão. Existe um clima de medo no partido quanto às consequências da tomada de decisões que possam chamar a atenção das “antenas” da Comissão Central de Disciplina a nível regional, municipal ou de unidade de produção. Os quadros que querem enriquecer com o desempenho de funções de topo são hoje muito cuidadosos. O dinheiro de “luvas’ e “comissões” continua a fluir para o estrangeiro para contas seguras e discretas em paraísos fiscais e assim continuará. O que mudou foi que o locupletamento pessoal à custa dos bens e fundos do Estado deixou de ser a excepção “generalizada”. Ora, para que isso se mantenha, é indispensável que a campanha se mantenha, combinando a “caça” a “pequenos peixes e grandes peixes”.

O quarto ponto a avaliar é se Xi Jinping quererá dar indicações de qual o seu substituto à frente do Estado e do Partido daqui a cinco anos. É a posição que corresponde à de Vice-Presidente da República. Se olharmos para as lideranças de Deng a Hu, esta fórmula foi sempre observada para dar indicação ao partido de quem a liderança consensualizou para ser o próximo líder e para os mecanismos de cooptação poderem funcionar bem como a gestão das carreiras dos quadros de topo. Não estou convencido que Xi terá tomado já essa decisão. Digo isso por uma razão prática e essencial: Xi não teve tempo ainda, pelo modo muito personalizado que tem do trabalho partidário, de seleccionar os membros da sua “facção”, se podermos falar de algo similar no caso de Xi. É que não se vislumbra uma lógica de exclusividade e coesão interna que sabemos existir nas facções habitualmente mencionadas.

O quinto ponto tem a ver com a projecção externa do estilo de liderança de Xi. Que consequências trará uma ainda maior concentração de poder pessoal nas relações da República Popular da China com: a) países vizinhos; b) o regime pária da Coreia do Norte; c) os Estados Unidos; d) a Rússia. Na comparatística dos regimes políticos e ao invés das aproximações tradicionais de Almond e Verba, Inglehart e Welzel ou mesmo Easton e Weber, a habitual díade regimes políticos democráticos-autoritários deixou de corresponder com acerto à enorme diversidade de regimes e estilos de liderança política. Se olharmos para a evolução dos processos eleitorais, no mundo livre, na última década, constatamos a preferência dos eleitores por líderes solipsistas, centralizadores em detrimento de lideranças colectivas e de equipa. Merkel, Macron, Trump, Kurz e Trudeau são exemplos de um novo tipo de liderança que tem mais similitudes com a figura do Kaiser alemão do que com um tradicional primeiro-ministro de uma democracia representativa. Ora este tipo de liderança está mais habilitado, por disposição e temperamento, a ter uma relação forte e personalizada com líderes personalistas como Putin ou Trump ou carismáticos como Macron ou Merkel. Esse é o perfil de Xi Jinping e isso explica – o há alguns meses seria um absurdo – a forma relativamente fácil como Donald Trump tem logrado encontrar consensos [como na crise da província coreana] que foram impossíveis com Barack Obama.

Isso tem a ver com uma forma carismática e personalista de exercer o poder que me lembra os directores executivos das grandes multinacionais. Na verdade, goste-se ou não, Donald Trump não precisa de consultar os aliados da NATO para as decisões que vinculam todo o espaço da Aliança Atlântica: limita-se a informá-los. O mesmo se diga de Putin no quadro da federação russa. Essa verticalidade do processo de tomada de decisão é música celestial para os chineses pois significa previsibilidade, segurança e fiabilidade.

Em conclusão, Xi Jinping vai gerir de forma ainda mais “oleada” as relações com as outras Grandes Potências e os consensos vão surgir como naturais. Isso não significa que os três Grandes [Xi, Trump e Putin] estejam sempre de acordo mas sabem a cada momento com o que podem contar. Neste quadro, vejo absolutamente natural uma neutralidade chinesa perante um ataque preemptivo a objectivos militares do regime da Coreia do Norte se as vias diplomáticas para congelar a corrida nuclear de Pyongyang falharem por completo.

Sexto e último ponto. E daqui a cinco anos para onde caminhará o Partido Comunista Chinês? Estaremos em 2022. Xi Jinping terá 69 anos de idade. Dificilmente cumprirá um terceiro mandato. Tal hipótese seria um tsunami na filosofia de renovação de liderança que de forma mais ou menos constante tem protagonizado. Não precisará disso para continuar influente. Chiang Kai-shek, Lee Kwan Yew mantiveram-se influentes mesmo quando abandonaram o poder formal nos respectivos países.

Arnaldo Gonçalves é jurista e professor de Ciência Política e Relações Internacionais. Escreve neste espaço quinzenalmente, sempre às quintas-feiras.

 

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