Os Pequenos e Simples

1.Criançãs
No desejo de compreender a relação do Homem com Deus e, particularmente a atitude do ser humano, homem ou mulher, de não sentir necessidade d’Ele ou de se afastar d’Ele ou até de negar a Sua existência, o texto do Evangelho deste décimo quarto Domingo do Ano Litúrgico parece ser capaz de oferecer pontos de reflexão que nos permitem perceber certos aspectos, nem sempre considerados, sobre essa experiência do crer ou não crer em Deus.
Antes de mais, parto do pressuposto que as questões sobre Deus nascem do coração humano e não da deficiência ou insuficiência de Deus, o que seria uma contradição em si mesmo, pois Deus é a Perfeição. E não só: Deus é Amor. Portanto, Ele também não evita nem exclui ninguém do Seu conhecimento ou da Sua intimidade.
Há que descer ao mais profundo da natureza humana e entrar no mais íntimo do coração e aí tentar descobrir a razão do afastamento ou da incredulidade no ‘mistério’ da presença de Deus na Humanidade e no Universo.
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Voltando ao texto evangélico, escutamos a oração de Jesus : «Eu te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondestes estas verdades aos sábios e inteligentes e as revelastes aos pequeninos».
A simplicidade de pensamento dos pequenos, assim como a confiança amorosa das crianças é condição fundamental para todos aqueles que se aproximam de Deus. Fala-se, aqui, das atitudes genuínas, transparentes e próprias dos mais pequenos que tanto enobrecem uma pessoa quando praticadas sendo adultos. Não se trata de imitar infantilismos, ingenuidades ou manipulações de meninos mimados. Não, para homens e mulheres que se prezam, isso são imaturidades! Do que aqui se se esforça por entender é a disposição correcta na procura de Deus que, à semelhança da criança, consiste um abandonar-se a Deus confiante que Ele lhe será sempre fiel na Verdade, no Amor e na Perfeição.
Segundo as palavras do Senhor Jesus, o Mestre, todo aquele que quer conhecer a Deus e, muito mais, entrar na Sua intimidade tem que se apresentar com um coração simples e cheio de confiança. Todavia, se nos aproximamos como «sábios e inteligente» ou, por outras palavras, convencidos da nossa própria inteligência ou, pior ainda, que a razão e racionalidade humanas são capazes de explicar tudo na Vida, até o próprio Deus, estamos a caminho duma enorme desilusão e a dar passos para nos precipitarmos num enorme vazio interior.
Contudo, que fique bem claro. A inteligência humana, a exemplo de vida do genial Tomás de Aquino, tal como o coração humano, na experiência pessoal do tão igualmente genial Agostinho de Hipona, intrinsecamente, ambos procuram e só podem descansar quando encontram a Deus.
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Jesus Cristo, no Evangelho deste Domingo, aponta-nos ainda para uma situação que nos revela um outro aspecto ou uma outra faceta da dificuldade do ser humano de chegar a Deus : «Vinde a mim, todos vós que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve.»
Neste caso é o peso das dificuldades, das dores e das angústias da vida. Elas são como um «jugo» que nos cansa, oprime e esmaga. São capazes, na realiddade, de nos fazerem perder a esperança em nós mesmos, na humanidade e em Deus. Na verdade, «tomar a Cruz de cada dia» é uma situação que não só provoca, tão frequentemente, um bloqueio na relação com Deus mas também, e muito infelizmente, leva a tantos a afastarem-se do caminho para o encontro com Deus.
Cristo na Cruz, morto e ressuscitado, constitui a encarnação de todo o sofrimento humano, levado até ao extremo, à morte, como é também a encarnação da vitória sobre a morte e o mal . Por isso é que Ele pode afirmar com vigor, compreensão e bondade : «Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve.»
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Assim, na primeira situação, pela racionalidade, pela razão, os seres humanos fazem-se de fortes e, consciente ou inconscientemente, tornam-se arrogantes e como diz o próprio Senhor Jesus, pretendem ser reconhecidos como «sábios e inteligentes» e acabam por declarar que Deus não faz sentido, não responde a todas as questões da existência da Humanidade e do Cosmos e terminam, dizendo. Ele não existe. E aí temos o Racionalismo, o Agnosticismo, o Cientismo, o Tecnocratismo, o Materialismo, o Ateísmo, uma panóplia multiforme de ideologias e correntes de pensamente em que se conclui que o contacto com Deus não é possivel, não é necessário ou Ele, simplesmente, não existe. Com Cristo Jesus exclamo: «Deus Pai, escondestes estas verdades aos sábios e inteligentes e as revelastes aos pequeninos».
Na segunda situação, as pessoas chegam a essa mesma atitude de pôr de parte Deus ou a negar qualquer sentido da Sua presença nas suas vidas por outra via, a da sensibilidade e da afectividade. Pelas emoções, sentimentos e afectos, enfim, pela «Angústia de Morte» em que «a Cruz de cada dia» faz passar, regular e infalivelmente a todos, mais parece, então, ser o abandono de Deus o único caminho do coração humano. Ilusão e engano!
Ao contrário, eis que ouvimos a voz de Jesus, o Bom Pastor: «Vinde a mim, todos vós que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei».
Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço todas as semanas, sempre às sextas-feiras.

 

 

 

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Duas décadas de Fórum Luso-Asiático

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Cumprem-se vinte anos da constituição do Fórum Luso-Asiático, neste mês de Julho, organização não-governamental vocacionada para o reforço do intercâmbio entre Portugal e os países asiáticos, no domínio cultural e académico e em dar maior visibilidade  às transformações ocorridas na China e em Macau. A constituição do Fórum Luso-Asiático teve lugar na delegação de Macau em Lisboa e intervieram no acto, directamente ou através de representante, quadros da administração portuguesa de Macau. Lembro aqui Nelson António, Virgínia Trigo, Celina Veiga de Oliveira, Sérgio Correia, Francisco Gonçalves Pereira, Gonçalo César de Sá, Paulo Godinho, João Francisco Pinto, Rui Rocha, Sebastião Póvoas, António Aresta, Rui Daniel, Natália Cunha, Carlos Oliveira, Carlos Borges, Rui Cabaço Gomes, Eduardo Cabrita e Magalhães e Silva. Lembro com saudade Francisco Gonçalves Pereira e Carlos Borges, entretanto desaparecidos.

Tem sido um caminho difícil, mas reconfortante pela celebração em conjunto. O Fórum foi a primeira instituição desta natureza criada em Portugal. Nos primeiros cinco anos da sua actividade, o Fórum centrou-se no debate da transição de Macau para a China, do seu acidentado mas também dos seus sucessos, num processo que à partida parecia condenada ao fracasso. Recorde-se em termos comparativos o processo de descolonização dos territórios portugueses em África. No fim, o processo correu com suavidade e estabilidade e a actual Região Administrativa Especial é uma consequência directa desses esforços e sucessos. Todos os governadores de Macau depois do 25 de Abril –  Garcia Leandro, Vasco de Almeida e Costa, Joaquim Pinto Machado, Carlos Melancia e Vasco Rocha Vieira – participaram nos jantares-debate que fomos organizando. Já muito doente, não pudemos contar, contudo, com Melo Egídio. Deixo uma nota de homenagem aos governadores Almeida Costa, Pinto Machado e Melo Egídio entretanto desaparecidos, os quais fazem parte da memória de Macau,

Acompanhámos também a situação de Timor-Leste,  chamando a atenção para a opressão com que a Indonésia aprisionava o povo maubere, um povo profundamente orgulhoso da sua herança portuguesa e da sua religiosidade católica. O esforço da nossa diplomacia, a boa-vontade dos Estados Unidos e da comunidade internacional permitiram que se levassem a bom porto as negociações com a Indonésia, o processo de auscultação do povo timorense (sobre o seu futuro) e a proclamação de independência. Timor é hoje um país livre, soberano, e democrático. Vive pacificamente com o seu vizinho indonésio e usufrui da partilha conjunta das riquezas do mar de Timor com o seu vizinho, a Austrália.

Assumi deste a primeira hora a liderança da associação, gizando iniciativas que pudessem ir de encontro aos interesses dos membros. Confesso que não fui totalmente bem-sucedido nesse desiderato. O implacável efeito do tempo e a distância geográfica da Ásia levou ao esboroar do interesse inicial dos que em Macau viveram um tempo das suas vidas. Mas continua a fazer sentido, direccionado a Portugal uma entidade que possa transmitir com conhecimento circunstancial o que se vai passando neste lugar do mundo.

Estabelecemos relações de cooperação e intercâmbio com duas instituições académicas – o Instituto de Ciências Sociais e Politicas da Universidade de Lisboa (ISCSP) e o Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica – o último dos quais a que me ligam laços de amizade como antigo discente. Sempre que se tornou útil fui participando em iniciativas pioneiras como a “Semana da China em Portugal”, organizada durante anos pela saudosa Prof. Ana Maria Amaro, a que os estudos luso-chineses tanto devem. Celebrámos um protocolo com o Instituto Internacional de Macau, na base do qual pudemos organizar iniciativas conjuntas, de que o recente debate sobre os 25 anos da Declaração Conjunta Luso-Chinesa sobre Macau foi um evento oportuno. Outros se seguirão no futuro.

Procurámos, em palestras e debates, despertar a atenção para as mudanças que na última década e meia vêem ocorrendo na China, fruto de um espantoso desenvolvimento económico e social e do processo de abertura ao exterior, lançado em 1978 pelo timoneiro da Nova China, Deng Xiao Ping. Para essas iniciativas contámos com a simpática colaboração dos Correios de Macau, da Livraria Portuguesa e do Instituto Politécnico de Macau, a cujos responsáveis estou muito grato. Iniciamos, há pouco, um novo ciclo sobre o papel das religiões no mundo contemporâneo, onde já tivemos as perspectivas do Islão e do Cristianismo. Esperamos reatar, em breve, o ciclo com as visões do Judaísmo e das religiões orientais. Afirma-se a ideia que o mundo ficou mais pobre com o recuo das religiões do plano da reflexão e do sentir humano, face ao avanço imparável do consumeirismo e do fascínio pelos bens materiais e pela acumulação doentia de riqueza. A pergunta que fica é se a raça humana progrediu ou se ficámos, por alguma forma, diminuídos do nosso próprio sentido de Humanidade.

Sempre que achei oportuno, fomos deixando alertas às autoridades portuguesas (em Lisboa) quando as relações luso-chinesas corriam o risco de derrapagem por desatenção dos responsáveis em Lisboa ou em Macau ou quando circunstâncias mal avaliadas punham em perigo a segurança e o bem-estar dos nossos compatriotas em Macau. Tenho para mim que os interesses da comunidade expatriada residente em Macau não são sempre idênticos aos da comunidade macaense. Cada organização zela pelos interesses dos que representa. Por isso, as nossas posições e a imagem que transmitimos – como portugueses – deve ser especialmente cautelosa.

Estamos aqui quando e enquanto as autoridades chinesas o acharem útil. Neste particular, a descrição da representação consular portuguesa em Macau é crucial. Como o é a independência e distanciamento das posições político-partidárias que possam estar em disputa em processos eleitorais. Macau é China agora.

Cumpre-me deixar também uma palavra de apreço aos sucessivos Ministros de Negócios Estrangeiros de Portugal –  Dr. Paulo Portas, Dr. Freitas do Amaral, Dr. Luis Amado – e aos gabinetes dos Srs Presidente da República Jorge Sampaio e Cavaco Silva pela simpatia e atenções que tiveram para connosco, ao longo destas duas décadas. A proximidade com Portugal deve ser sempre tentada até para que se perceba que à distância nos sentimos tão portugueses quanto os que residem no território pátrio.

Iremos celebrar no início do Outono, em Lisboa, os vinte anos de vida do Fórum Luso-Asiático. O programa está ainda a ser ultimado mas será, seguramente, uma oportunidade para revermos velhos amigos e conhecidos a partir das memórias que Portugal deixou em Macau como obra civilizacional. Fomos a primeira nação europeia a chegar a terras do Oriente e a aqui criar um entreposto. Fomos a última potência europeia a terminar as responsabilidades que a história um dia nos confiou e a transferi-las para a potência legítima, a República Popular da China.  Agora é tempo de olhar para o futuro.

 

 

Arnaldo Gonçalves é jurista e professor de Ciência Política e Relações Internacionais. Escreve neste espaço quinzenalmente, sempre às quintas-feiras.

 

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‘Não tenhais medo …’

 

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«Não tenhais medo dos homens» são as primeiras palavras de Jesus no Evangelho deste Décimo Segundo Domingo do Ano Litúrgico. Se aqui se refere mais propriamente à  proclamação da Verdade de Deus,  penso não ser incorrecto, afirmar que o mesmo se espera no que se refere à Verdade  da realidade humana.

Esta leitura da Palavra de Deus ou esta compreensão do texto sagrado ou ainda esta aplicação da exortação de Jesus, da minha parte, é motivada por algo que aconteceu durante a semana.  Refiro-me  ao  debate da noite do passado Domingo, na televisão, no programa “Contraponto”. Os comentadores, em termos simples, vincavam  a ideia da necessidade imperiosa e urgente da comunidade portuguesa ganhar maior ‘consciência de si mesma’. Consciência  inspirada num passado rico e reconhecido como ‘património mundial’. Consciência capaz de assumir a realidade presente, no quadro da vivência do princípio ‘um país, dois sistemas’. Consciência de um futuro em que China se vai tornando, paulatinamente, particicipante real da geo-política mundial  e Macau chamado a continuar a ser Lugar de Encontro de Povos, Culturas e Religiões,  plataforma de Encontro dos Povos de Língua Portuguesa e centro de inovação e criatividade. E eu acredito veementemente, que Macau continuará também a ser ‘A Cidade do Nome de Deus’, na China.

Mas, somos nós ‘velhos do Restelo’, retrógados, sem horizontes de esperança ou descendentes dos ‘descobridores de novos  mundos’?

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Quase vinte anos se passaram depois da ‘transição’ da Administração de Macau.    Vivemos numa nova  realidade política, a ‘Região Administrativa Especial de Macau’ e uma sociedade rejuvenescida e diferente está-se a formar. O Delta do Rio das Pérolas tornar-se uma Zona de notável desenvolvimento. A China, na comunidade internacional,  assume um estatuto nunca antes imaginado. Perante tal situação, tão cheia de acontecimentos surpreendentes,  torna-se oportuno e prudente, escutar as palavras do Senhor Jesus, que nos diz : «Não tenhais medo dos homens».

Novas situações,  novas circunstâncias,  novas realidades provocam sempre, no ser humano,  momentos de perplexidade e medo. Em termos de histórias pessoais, todos nós  presenciamos experiências, algumas delas até dramáticas, neste pequeno território nas costas do Mar do Sul da China.  Porém, é  tempo de perdermos o medo, de não nos deixarmos  levar ainda por desconfianças e preconceitos, de não continuarmos  presos ao antigamente. Precisamos de homens e mulheres e, sobretudo, de jovens, de coragem e rasgo para abrir horizontes de uma nova  humanidade … e do Macau do futuro.

«Nao tenhais medo dos homens», insisto e continuo a insistir na chamada de atenção de Cristo. A Palavra de Deus proclamada todos os Domingos é sempre actual e actualizante. Diz coisas para o momento de que, tantas e inúmeras vezes, nem sequer nos apercebemos ou vislumbramos. Afirmo que, na comunidade  portuguesa,  há muito medo escondido, encoberto por exuberância de palavras e racionalização muito eloquente e de cátedra. Mas, no fundo, ainda temos medo de ser e de afirmar quem somos. Temos receio e medo do nosso passado, o mais genuíno, aquele que é expressão da nossa contribuição civilizacional. Há que reconhecer erros e disparates. Têmos um rol. Mas quase quinhentos anos de história neste pequeno recanto do Delta do Rio das Pérolas  e em que a autoridade  que o concedeu  e consentiu na sua existência, durante séculos,  pede para que este ‘historic Macau’ seja reconhecido como ‘património cultural da humanidade’, não são factos mais que suficientes para termos a honra de pertencer ao povo a que pertencemos ?

Direi também que a comunidade chinesa tem também necessidade de se libertar de tantos fantasmas e medos perante a História de Macau.  Isto assim seja, particularmente, quando um dos seus maiores líderes, Deng Xiaoping, a soube compreender sob a fórmula genial de ‘Um Pais, dois Sistemas’.

Sem me alongar, diria que igualmente na situação presente, se nota, na comunidade portuguesa e perante dificuldades concretas e reais, medo e muita lamentação. Falta de ‘consciência’ de sermos ‘a comunidade’ que somos, com um ‘designio  nacional’, tendo definido um ‘projecto’capaz de contribuir, na medida das suas capacidades,  para o desenvolvimento daquela que será uma das super-potências do mundo nos tempos que se avizinham.

O medo do futuro, ele aí está. Quem se atreve a pensar no tempo até ou para lá de 2049? O futuro é o presente da nossa Juventude .

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«Nada há encoberto que não venha a descobrir-se,  nada há oculto que não venha a conhecer-se».  Este é um outro ensinamento que o Mestre nos deixa  neste Domingo. Constitui um forte e vigoroso apelo a dizer, única  e exclusivamente a Verdade. Mais afirma, a Verdade, tarde ou cedo, virá ao de cima, à luz.

A construção da nossa comunidade portuguesa no futuro tem de ser cada vez mais baseada na Verdade e no Conhecimento. Dizer a Verdade, com coragem e até passar por vicissitudes e até humilhações, evitando toda e qualquer mentira, porque do pequeno se chega ao grande.

Que o Conhecimento seja verdadeiro, competente e professional. Sobressair por valor, não por esquemas, influências  ou canudos universitários recheados de ignorância e pedantice.

Tal nível moral das nossas atitudes transporta-nos, infalivelmente, a uma outra dimensão, a espiritual, onde as faculdades do Espírto nos abrem caminhos de compreensão da pessoa humana para além da matéria, do imanente e do imediato e nos lança nas sendas das ciências, das artes, da cultura. Este Humanismo  é constitutivo e característico do nosso ‘ser português´ e, portanto, do nosso estar em Macau.  O intrínseco universalismo  que domina o nosso ‘ser’ abre a nossa alma a todos povos e raças. Eis a razão última da existência da Comunidade Portuguesa em terras do ‘Celeste Império’.

Ainda um último ponto que me chama a atenção nas  palavras de Cristo: «Mas àquele que me negar diante dos homens, também Eu o negarei diante de meu Pai que está nos Céus».  Ao fim e ao cabo, por mais sofisticado que sejam os argumentos contra ou a favor, Cristo e a Sua Igreja, chamemos o Cristianismo,   foi o extraordinário ‘Dom’ que ‘a Civilização Portuguesa’ trouxe ao Império da China.

 

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve nestes espaço todas as semanas, sempre às sextas-feiras.

 

 

 

 

 

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O país de Pedrógão Grande

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O país realiza um enorme exercício de consciencialização colectiva face ao que aconteceu na tragédia de Pedrógão Grande. E pede apuramento de responsabilidades, não se contentado com a invocação do caso fortuito, da acção implacável e indomável da  Natureza, como deflagradora da tragédia. É natural que o faça; é bom que o faça. É um exercício de cidadania activa sermos capazes de nos interrogarmos onde falhámos naquelas circunstâncias para a próxima vez minorarmos as consequências mais gravosas de casos idênticos. Uso a primeira pessoa do plural com alguma solenidade porque não existem neste caso – como noutros – culpas solitárias.

Devíamo-nos despir de preferências partidárias ou corporativas nesta reflexão. Bem como não cedermos à tentação de apontar a dedo ao alvo que mais se adapta à lógica de decapitação. Não precisamos de cordeiros ou de animais racionais para a pira sacrificial. Não é essa a melhor forma de sermos dignos da memória dos que morreram, dos que sofrem nos hospitais com queimaduras terríveis, das famílias que choram a partida dos seus entes queridos. Não podemos descer tão baixo; não somos assim.

Vamos permitir que os inquiridores façam o seu trabalho de investigação ao circunstancialismo da tragédia de uma forma serena, aprofundada e livre de pressões. Aliás como o Primeiro-Ministro no seu despacho de segunda-feira o exigiu. Saber se o sistema de comunicações do Estado [o chamado SIRESP] falhou, saber porque não foi encerrada a estrada nacional [EN 236-1] quando as autoridades perceberam a propagação do incêndio. Será, depois, o tempo do Parlamento procurar fazer uma leitura dos factos e das responsabilidades, caso venham a ser apuradas.

Mais importante que apontar culpas e sobrevalorizá-las é corrigir o mal, o deficiente, a omissão e isso exige calma e presença de espírito. Disse-o, por outras palavras, o Presidente da República na forma calma mas emocionada como se dirigiu ao país e procurou, in loco, acalmar as populações em sobressalto. Precisamos também de abraços, senhor deputado Helder Amaral; fazem parte da nossa cultura, daquilo que nos distingue.

Quase uma semana depois, temos de constatar que o país reagiu em uníssono, a uma só voz, ao pedido de socorro como se fosse um grito colectivo que nos impulsionasse a mexer-nos da nossa letargia e acorrermos. Fui lendo pela imprensa e pelas redes sociais esse movimento extraordinário de solidariedade. Só me lembro de algo igual no cordão de solidariedade por Timor, em Lisboa, em 1999. É um sinal que a sociedade civil que causticamos usualmente como apática se levanta e acorre quando urge.  É isso que nos faz diferentes – e a nós, portugueses que estamos na diáspora – ter orgulho na Pátria portuguesa.

Seja-me permitido ainda deixar dois alertas. Era importante que não cedêssemos à tentação das explicativas conspirativas. Como se fossemos marionetes teleguiadas por lobbies poderosos e intocáveis que se movimentam na sombra. Não digo que eles não existam. A vida humana é mais complicada do que isso. Há sempre uma margem de imponderável que agrava crises humanitárias como esta. Deus não dorme, mas às vezes passa pelas brasas.

Era importante, também, que a comunicação social desempenhasse o seu papel, de uma forma responsável e contida. Assistimos a um incidente, nada abonatório, de uma repórter de um canal televisivo a fazer um directo junto a um cadáver carbonizado, gesticulando no meio das cinzas e dos escombros. Há coisas que não se devem fazer em televisão. Violam os princípios da dignidade e da decência, da protecção da imagem, desrespeitam as famílias na sua dor e sofrimento. Henrique Monteiro chamava-lhe, na sua página numa rede social, a substituição da emoção pela lógica da notícia e da reportagem, a perda da ética em nome do espectáculo. Acho que é mais do que isso. É a perda da vergonha, o abandalhamento da comunicação social e da profissão de jornalista.

Hoje, dia 21, em que escrevo esta crónica, é dia do solstício de Verão. É o momento que no hemisfério norte marca o início do Verão. O tempo em que o Sol atinge a maior declinação em latitude, calculada a partir do equador. Era um tempo, nas culturas celtas, das celebrações e dos rituais em que se agradeciam aos deuses todas as energias do Verão, os frutos. O evento é ainda celebrado em locais sagrados como Stonehenge em rituais que datam dessa tradição milenar e pagã e que representam a adoração do Sol e das forças da natureza. Precisamos desse espírito positivo em Portugal.

Arnaldo Gonçalves é jurista e professor de Ciência Política e Relações Internacionais. Escreve neste espaço quinzenalmente, sempre às quintas-feiras.

 

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O tigre da Malásia

 

 

1.Sandokan

Emilio Salgari nunca foi à Malásia. Não precisou. A sua impetuosa imaginação, num tempo em que as viagens demoravam meses e poucos conheciam a diversidade do mundo, fez com que criasse um herói sem destino. Sandokan, o tigre da Malásia, foi um dos meus primeiros contactos com o Oriente e com os seus mistérios e maravilhas. As aventuras contra os Thugs, os temíveis seguidores da deusa Kali, eram suficientes para preencher os sonhos de qualquer jovem ocidental nos idos das décadas de 1960 e 1970. Vi a série televisiva com Kabir Bedi e deliciei-me com os livros de Salgari. Só mais tarde descobri Joseph Conrad, contemporâneo de Salgari, de “O coração das Trevas” e, sobretudo, de “Vitória”. Não custa perceber porque Sandokan surge nas últimas duas décadas do século XIX e luta contra o Império Britânico e a Companhia das Índias, esta símbolo maior do imperialismo marítimo (e capitalista) de Londres. Por essa altura dividia-se África e, no Oriente, a China e o Japão eram transformados em portos francos. E, nos círculos culturais e mesmo populares da Europa, o exotismo oriental preenchia os sonhos. Na península italiana, Salgari criou, com Sandokan, um lutador destemido contra o poder e um herói do misticismo e do exotismo.

É a vingança que move o tigre da Malásia. Filho do último dos príncipes do Bornéu, massacrados pelos ingleses para ocuparem o trono e o território, Sandokan luta contra a hegemonia militar e comercial da Coroa britânica. Torna-se um pirata, ou seja, o outro lado da lei e da ordem definidas pelo poder. Não tem pátria: apenas inimigos e o instinto de sobrevivência. Tem uma paixão, como não poderia deixar de ser, porque só o amor pode curar algumas das velhas feridas. E um amigo forte que é português de Goa, Yanez de Gomera (que virá a ser o Rajá de Assam). Derrotado pelos ingleses, regressa para libertar os seus homens e deixa a pirataria para reencontrar o amor nos braços de Mariana. Mas a sua saga não termina. Os inimigos sucedem-se e ele, para encontrar o seu destino, tem de os derrotar a todos. Os heróis só desaparecem quando se cansam.

Sandokan é distinto. Veste roupas orientais de boa qualidade e bom gosto. É galante, num mundo onde isso era algo anormal. Rude com os inimigos, é fiel aos amigos. Yanez surge sempre como o contraponto de sensatez e pragmatismo (atitude tão portuguesa no Oriente) à sua natureza impulsiva. O mais fascinante é que Salgari escreveu as aventuras de Sandokan sem alguma vez ter ido ao Oriente. De resto convém lembrar que o escritor italiano também foi o autor de outros livros de aventuras passados em lugares tão díspares como as Antilhas, a África, o Árctico ou a América do Sul. Sem sair de Itália, num tempo em que não havia imagens do mundo, Salgari criou um poderoso imaginário que prendeu adolescentes do seu país e dos países à volta. Excepção feita a Inglaterra: os ingleses traduziram muito pouco Salgari talvez porque surgiam como “os maus da fita”. Para Salgari era mais importante escrever que navegar. O oposto, talvez, do que escreveu Fernando Pessoa: “Navegar é preciso; viver não é preciso”. Mas esse talvez seja a forma de encontrarmos o que une Sandokan ao português Yanez. Sem viajar, Salgari fez-nos percorrer um mundo de aventuras que não se esgotaram no tigre da Malásia. E que continuam, bem mais de um século depois, a ser um tesouro para quem gosta de soltar a imaginação. E a pensar que a curiosidade é o grande valor da vida.

 

Fernando Sobral, jornalista e escritor. Autor de “O Segredo do Hidroavião” e de “As Jóias de Goa”, escreve neste espaço uma vez por mês.

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Quando Lisboa arder

1.Crónica

Como é que um país que é tido como tão sagazmente exemplar na resposta que dá à toxicodependência e à reabilitação de toxicodependentes se revela tão inepto no combate ao flagelo dos incêndios? Será por se tratar, um, de um fenómeno essencialmente de natureza urbana e, o outro, de uma manifestação essencialmente rural? Excepção feita ao incêndio que em Agosto do ano passado levou o medo e a angústia às ruas do Funchal e às labaredas que há quase trinta anos destruíram os Armazéns do Chiado, falar de incêndios em Portugal é falar de tragédias essencialmente rurais: num país que vende uma imagem impante de modernidade para consumo externo, Verão após Verão repetem-se as imagens de aflição, os mesmos recursos estilísticos gastos na boca de jornalistas mal preparados e as mesmas palavras brandamente condescendentes na dos políticos. Invocam, qualquer que seja o espectro partidário em que se movimentam (ou até o cargo institucional que ocupam) falsa surpresa perante uma realidade que, desconhecendo, não iludem: a de que Portugal é cada vez mais um país assimétrico, que vota os seus cidadãos a direitos e sortes distintas consoante o local onde vivem.

A estratégia do Estado português para as zonas rurais – ou a completa ausência dela – envergonha Governos, autarquias e sociedade civil, mas também nos deslustra a nós, o colectivo disforme e tantas vezes autista que se apropria do esforço individual dos seus e os transforma em triunfos do todo, mas que se revela incapaz de uma catarse conjunta, de um mecanismo de expugnação dos vícios e das faltas que o fragilizam e o desonram. Quando o Verão acabar, ainda com tições a fumegar entre barrancos e valados, uma única certeza restará: a de que Portugal vai voltar a arder, a de que os Telejornais vão voltar a abrir com imagens dantescas, de pinhais e montes transformados nas portas do Inferno e a única incógnita – porventura a mais trágica – prende-se com o número de vidas que inevitavelmente serão ceifadas e destruídas pelo fogo e pela incúria de quem tem responsabilidade para agir.

Mesmo a mais de dez mil quilómetros de distância, escrevo sobre uma realidade dolorosa e que conheço bem. Em Agosto de 2005, menos de dois meses depois de colocar pé em Macau pela primeira vez, vi pela RTP Internacional o pânico transformado em lágrimas no rosto dos meus vizinhos à medida que as chamas avançavam, indiferentes, sobre matas e campos de cultivo, numa marcha devastadora apenas refreada por uma decisão providencial, tomada ao nível local, por autarquia e bombeiros: a de rasgar, onde quer que fosse possível, corta-fogos improvisados para retardar a cavalgada do fogo.

Há um ano, na noite de 7 para 8 de Agosto, o Inferno voltou a tomar conta do horizonte, numa catástrofe amplamente anunciada: em onze anos, num interior onde só sobram idosos e onde durante anos se multiplicaram os incentivos apadrinhados por Bruxelas aos cortes na produção, a vegetação voltou a cerrar fileiras sobre os montes e a tornar velhos caminhos intransitáveis.

Às primeiras horas da madrugada soou o alarme: um tsunami de chamas ameaçava engolir a aldeia. O canto que entoavam, jamais o esquecerei: um assobio lânguido e estridente, como se o vento tórrido cuspisse fúrias e maldições e as árvores chorassem enquanto se desfaziam em cinzas. Do meio do lugarejo chegava a notícia de um campo em chamas. No extremo da aldeia, as labaredas lambuzavam os beirais de uma vivenda. Do céu laranja vivo choviam faúlhas incandescentes, pirilampos irregulares empurrados pela ventania por entre um espesso lençol de fumo. Meios de socorro? Chegaram pelas 18 horas do dia 8, dezasseis horas depois do alarme ter sido dado, quando pouco ou nada restava para arder.

O tratamento não apanhou, de resto, de surpresa os menos incautos. Horas antes, tinha sido dado a um grupo de três centenas de comensais, num restaurante situado a alguns quilómetros, uma amostra do que aí vinha: o grupo teve de deixar a refeição a meio depois das chamas se terem abeirado perigosamente do local onde almoçavam. Com o centro de coordenação operacional deslocado para Aveiro, onde o incêndio não seria mais do que um negro borrão coroando o horizonte, a ordem era para “deixar queimar até estarem habitações em risco”, ouvi-o eu da boca de um estupefacto bombeiro.

Dez meses depois, a Natureza fez o seu trabalho (os montes, indiferentes, reverdecem), mas o mesmo não se pode dizer do Homem. Não se discutem estratégias de reflorestação, não há planos para a valorização ambiental e turística das áreas ardidas e cada um curou como pode as cicatrizes abertas por uma noite de Inferno que se repetiu vezes sem conta durante quase um mês na mancha de serra que vai de Arouca a Vouzela e de Vale de Cambra a São Pedro do Sul.

Nem sequer um ano se passou e a agónica retórica do fado dos incêndios volta a abrir Telejornais, com a mesma fórmula submissa e desumana. Que não haja condescendência de qualquer tipo: na noite de sábado, o que aconteceu no concelho de Pedrogão Grande foi – é –  a maior tragédia da história recente de Portugal. Uma tragédia exponenciada por um incompreensível véu de inevitabilidade, dada a solidão e o abandono a que o interior do país está votado. Mas que não restem, também, ilusões: os incêndios vão continuar a abrir noticiários enquanto o descuido e o desinteresse foram as únicas respostas que Lisboa dá ao depauperado e eucaliptado mundo rural.  Honrar as vítimas do Pedrogão é garantir que quando o Outono chegar, não serão choradas apenas por quem sente a dor da sua ausência. É, sobretudo, evitar novas e tão trágicas mortes. Ou será que um tal desígnio só se tornará tangível quando Lisboa voltar a arder?

 

Marco Carvalho, Director do Ponto Final

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Um mundo desorientado

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Vivemos tempos conturbados. Não há quase semana que passe sem que notícias de um novo atentado terrorista irrompam pelos media e revelem quanto a nossa existência é “frágil”. Lembrava-o Sting, no concerto que deu a semana passada em Hong Kong, quando tocou o tema homónimo que dedicou às vítimas de Manchester e às suas famílias. Não se sabia, então, que outro atentado tivera lugar em Londres.

Todos os argumentos sobre as causas da actual vaga de terrorismo foram ditos e reditos. Não vale a pena repisá-los; faltam é as soluções. O que é importante é dizer que não devemos e podemos alterar a nossa maneira de viver porque há uma pequena minoria que a quer pôr em causa. Não faz sentido; seria fazer o jogo dos terroristas, colocar-nos numa intranquilidade permanente. O alvoroço é sempre mau conselheiro e o actual ocupante da Casa Branca presta um mau serviço ao seu país e ao Ocidente em insistir no alvoroço e no alarido permanente. Ninguém lhe diz “basta”?

O terrorismo combate-se com calma, de forma planeada, recolhendo informações, reflectindo e tomando as acções necessárias. Não insultando quem parece hesitar por medo. O que não precisamos agora é de uma guerra religiosa, de uma “kristallnacht”, que eleja bodes expiatórios para os nossos insucessos como civilização e cultura.

Temos de ter muito cuidado com os populistas. Têm o pé ligeiro e o discurso fácil e não cuidam das consequências da sua retórica exaltada e dos ódios que espalham como fogo em campina seca. São naturalmente irresponsáveis. Ao mesmo tempo, temos de ser críticos das nossas instituições democráticas quando se deixam tomar pelo laxismo e pela impotência. Precisávamos de uma liderança forte e afirmativa e ela não existe.

Receio ainda mais os homens providenciais. Não foi inocente a minha referência à “noite dos cristais”. Parece-me por vezes que estamos a reviver os tempos conturbados dos anos 1920 e que pela calada da noite se organizem os “camisas negras” que avancem sobre quem pensa diferente, veste de outra forma ou ora a um deus a que dá outro nome.

Temo que se isso acontecer nos iremos virar uns contra os outros. E os que ameaçam o nosso modelo de sociedade ganharão, ipso facto.

Gostaria que nesta conjuntura se afirmasse uma lúcida e inovadora liderança europeia. Donald Trump terá feito um favor à Europa quando afirmou que os Estados Unidos irão agora tratar dos seus próprios interesses e que é tempo da Europa tratar dos seus. Digo isso, por outras palavras, há vinte anos. Perdemos, neste interim, a oportunidade de avançarmos para um processo de integração mais avançado. Deixámo-nos dividir pelos nossos nacionalismos grosseiros, pelos ódios e rivalidades. O fracasso da Constituição Europeia revelou-o; os recuos da construção europeia confirmam-no.  Criámos uma Torre de Babel de burocracia europeia que não serve para nada; os problemas continuam.

Não creio que o modelo de sociedade autoritária que vemos a Oriente seja uma alternativa serena ao modelo de sociedade liberal e democrática cujas fragilidades apontei. Desde logo, porque as gerações que viveram sob ditadura ou sob ocupação nazi, na Europa, não estão disponíveis para repetir a experiência com novos tutores e novas regras espartanas. O anúncio da felicidade na terra por graça de amanhãs cantantes revelou-se uma farsa miserável. E já nem as notícias de mais uma detenção por corrupção e abuso de poder, no círculo mais exclusivo do poder comunista, nos surpreende. Porque é o carácter tirânico da máquina do poder que o favorece e multiplica. Até ao dia em que o poder monolítico irá rebentar com estrondo. Não tenho qualquer dúvida que isso acontecerá mais tarde ou mais cedo. Porventura no tempo dos meus filhos e netos.

Deixo um nota positiva final lembrando as palavras avisadas de Karl Popper na última parte do seu “A sociedade aberta e os seus inimigos”: “A democracia oferece campo de maior valia para qualquer reforma razoável, dado que permite reformas sem violência. Se porém a preservação da democracia não se tornar a preocupação principal de qualquer batalha travada neste campo, então as tendências anti-democráticas latentes, que estão sempre presentes, podem conduzir ao derrube da democracia”.

 

Arnaldo Gonçalves é jurista e professor de Ciência Política e Relações Internacionais. Escreve neste espaço quinzenalmente, sempre às quintas-feiras.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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