Matar em nome de Deus

1.Manchester Arena

Mais um ataque terrorista, desta vez em Manchester. O alvo: a audiência de um espectáculo musical de uma das estrelas do público juvenil. O resultado: 22 mortos, mais de 120 feridos. O país apanhado de surpresa por mais um ataque cuja origem islamista é indisfarçável, menos de um ano depois do atropelamento criminoso nas Houses of the Parliament.

O perpetrador, Salman Abedi, 22 anos, era estudante da Universidade de Salford, próxima de Manchester, onde cursava gestão. Segundo indicações da polícia poderá trata-se de uma acção de uma célula terrorista e  não de um indivíduo isolado. Seguidores do Estado Islâmico reivindicaram a paternidade do atentado com um vídeo na Internet “Isto é apenas o princípio. Os leões do Estado Islâmico do Iraque e do Sham começaram o ataque contra os cruzados do Ocidente”.

O nível de alerta em Inglaterra passou a “crítico”, o que quer dizer que é esperado um novo ataque terrorista, a todo o momento. O exército britânico foi destacado pela  primeira-ministra Theresa May para patrulhar as cidades, de forma a ajudar a missão de patrulhamento da polícia. É quase o estado de sítio.

O véu sombrio do terrorismo abate-se mais uma vez sobre a Europa. O propósito é inequívoco: espalhar o terror, amedrontar, perturbar a maneira de viver, condicionar, restringir.

Londres, Madrid, Paris, Nice, Bruxelas, Berlim, Londres outra vez, Manchester. Ninguém está incólume, o problema já não é daquela cidade distante. Mora aqui ao lado. Manchester agora, amanhã Madrid, Lisboa, Barcelona, Hong Kong, Manila, não se sabe. Os cordeiros sacrificiais, jovens recrutados pelas centrais do terrorismo para praticar actos de terror avulso. Insignificantes, facilmente substituíveis, não entram nas estatísticas.

Surgem na comunicação social as primeiras imagens e relatos sobre o jovem terrorista, Salman Abedi, um jovem de pequena estatura, cabelo curto, magro, pequeno bigode. Um jovem igual a tantos outros que assistiam ao concerto de Ariana Grande. Natural Manchester, Salman nasceu no seio de uma família oriunda da Líbia, donde terá fugido do regime do Coronel Kadhafi. Terá sido “radicalizado” recentemente, dizem algumas fontes. Frequentava a mesquita de Didsbury Street, em Manchester. Era o segundo de quatro filhos. Era vigiado pela polícia. O irmão é monitor na escola corânica que funciona na dependência da mesquita. Foi detido pela polícia. Revistada a casa de Salman, encontrados explosivos e um manual que explica como se fazem bombas.

Como foi possível acontecer? O mais fácil é dizer-se que o problema é, uma vez mais, dos muçulmanos, das comunidades muçulmanas, do Islão. Não tardará muito para que o apelo à segregação, à “guetização” dessas comunidades que seguem uma outra religião que não a cristã se faça ouvir. Trata-se de uma resposta simplista, hipócrita, fratricida.

As nossas sociedades são multirraciais, multiétnicas, multiculturais. Coexistem nelas grupos étnicos diversos. Têm costumes diferentes, praticam religiões diversas, falam línguas que não entendemos. Fazem o “melting pot” que nos singulariza, que nos enriquece. São a imagem do Ocidente, o que nos torna mais abertos à modernidade.

Existem dois milhões e oitocentos mil muçulmanos na Grã-Bretanha, segundo o censos de 2011. Representam cerca de quatro por cento da população do país. A maior parte vive em Inglaterra. A sua origem é sobretudo paquistanesa e cingalesa. Emigraram para o Reino Unido para a indústria naval, foram a mão-de-obra dos caminhos de ferro, criaram família e ficaram. A comunidade cresceu entre 2001 e 2009 com uma nova onda de emigrantes. São sunitas na maioria.

É um problema de polícia, dizem outros. Nunca a cooperação entre serviços de “intelligence” e as polícias foi tão grande como é agora. Nunca os meios financeiros e tecnológicos postos ao dispor foram tão avultados. É uma resposta irrealista. Criar um supra-sistema de vigilância permanente que acompanhe os movimentos das pessoas nas ruas, nos centros comerciais, nos transportes públicos, nas escolas, nos concertos musicais? Seria uma sociedade tipo “Big Brother” limitativa das nossas liberdades individuais. Uma sociedade desumanizada de pura paranóia.

Segregar as populações muçulmanas, fechá-las em guetos, encerrar as mesquitas, dizem outros. Seria intolerável, uma tendência fascizante da nossa vida colectiva, da nossa cultura democrática, na nossa prática de tolerância. Depois o quê? Milícias fascistas nas ruas a mandar parar os árabes, os negros, os asiáticos, os hindus? Seria dar a vitória de bandeja aos terroristas, ajoelhar perante eles, renunciar a continuarmos sociedades abertas.

A resposta tem de ser inteligente e contra a apetência do autoritarismo. Continuar a aprofundar a cooperação entre polícias e serviços de segurança, monitorizar os indivíduos suspeitos, reforçar os meios. Assistir as organizações muçulmanas no esclarecimento dos crentes sobre o radicalismo jihadista, na educação dos jovens em conjugação com a educação oficial. Sobretudo evitar que as comunidades se dividam e se antagonizem.

O Centro Inglês para a Preservação da Herança Muçulmana (BHMC) lançou entretanto uma campanha de recolha de fundos – “Muslims for Manchester” – para prestar assistência às famílias afectadas pelo atentado. Na sua página de Internet, o BHMC diz “os nossos corações estão com as todas as vítimas e as suas famílias, ninguém deve morrer desta forma horrenda. Queremos responder ao mal com o bem, como a nossa fé nos ensina, e enviar uma mensagem poderosa de compaixão pela acção.” É este o caminho.  Ou como diz o Alcorão “Na verdade, os não-crentes são teus Irmãos. Mantém a paz entre os teus Irmãos e teme a Deus, por forma a que mostres misericórdia” (Alcorão 49:10).

 

Arnaldo Gonçalves é jurista e professor de Ciência Política e Relações Internacionais. Escreve neste espaço quinzenalmente, sempre às quintas-feiras.

 

 

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20 de Maio e a numerologia chinesa do amor

 

1.Wo Ai Ni

A língua chinesa, tal como outras línguas, utiliza palavras homónimas, homófonas ou parónimas para dar lugar a trocadilhos.

Vejamos, por exemplo a expressão “A sorte chegou” (福到了, fú dàole). Na língua chinesa o verbo “chegar” (到 dào) é homófono de (倒 dào) que significa ” de pernas para o ar”, razão pela qual é costume colocar-se no Ano Novo Chinês nas portas de casa e nas janelas o carater 福 “sorte” de pernas para o ar. As palavras “estrela ” (星星, xīng xīng) e “gorila” (猩猩, xīng xīng ), por exemplo, têm o mesmo tom e o mesmo som e podem originar trocadilhos bem divertidos ou embaraçosos.

A palavra Coca-Cola (可口可乐 kěkǒukělè), que literalmente significa “delicioso divertimento”, também pode soar a “sede”” (渴 kě) e foi esta auspiciosa conjugação que tornou tal bebida muito popular na China.

As palavras parónimas, semelhantes, mas com significantes e significados diferentes, também estão presentes na língua chinesa, porque há palavras que se aproximam fonicamente, dando lugar a algumas situações curiosas. É o caso do dia 20 de Maio, celebrado anualmente como o dia do amor e dos que se amam.

Afinal, porquê o dia 20 de Maio? O 20 de Maio é representado na China do seguinte modo: 5.20. Quando pronunciados, os números 5-2-0 em chinês (五二零, wǔ èr líng), aproximam-se das palavras 我 爱 (你 wǒ ài nǐ) “amo-te”. Não soam exatamente do mesmo modo, mas soam de modo semelhante e isso é suficiente. O amor chinês joga assim entre parónimas e números.

Também a pronúncia do número 12 (一二,  yāo* èr) se aproxima do som de 要 爱 (yào ài.),que significa “querer amor, desejar amar”. Deste modo, o dia 2012.12.12 – que pronunciado significava “querer amor, querer amor, querer amor”- foi um dia muito concorrido na China para casamentos.

Outros trocadilhos de temática amorosa poderão ser feitos a partir dos números.

A numeração 7758258 (qī qī wǔ bā èr wǔ bā) soa de forma idêntica a 亲亲我吧爱我吧 (qīn qīn wǒ ba ài wǒ ba), que significa “beija me, ama-me”; o número 240 (二四零, èr sì líng) assemelha-se a 爱死你 (ài sǐ nǐ), que significa “amo-te até morrer”.

Finalmente, a conjugação da sequência numérica 520 + 1314; 520 é, como dissemos, o dia 20 de maio e 1314 (一三一四, yīsānyīsì) assemelha-se a 一生一世 (yīshēng yīshì), que quer dizer “para toda vida”. Assim, se disser 5201314, estará a dizer à pessoa amada “amo-te para toda a vida”. Se quiser reforçar com uma nota mais afetuosa, junte 么么哒 (me me dá) uma onomatopeia para “suave beijo” (muah)

Mas não se engane nos números: no dia 5.20, se disser 250 em vez de 520 estará a dizer 嘻嘻 (xī xī), o que significa (hahaha)

 

(*) Quando falamos de um número de telefone ou de uma rua, 1 é pronunciado “yāo” em vez de “yī”.

 

Rui Rocha, Poeta e Director do Departamento de Língua Portuguesa e Cultura dos Países de Língua Portuguesa da Universidade Cidade de Macau.

(O autor escreve ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico)

 

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O Sopro de Pak Tai: Mercado “Merca” e o “Amália”

 

Arte Namban

Com os portugueses de Macau a instalarem-se nas últimas décadas do século XVI na zona portuária e nas colinas circundantes, a cidade de Nagasáqui tornar-se-ia bem depressa no centro de comércio por excelência de todo o Japão. E de centro de comércio passou a epicentro de divulgação religiosa. Actualmente, por mais estranho que pareça, os únicos sinais marcantes desse histórico encontro limitam-se a um discretíssimo monumento à fundação da cidade junto à actual Câmara Municipal, e a um obelisco acompanhado de uma pequena placa informativa situado à entrada de uma esquadra da polícia mesmo em frente do que resta da antiga muralha. Ao cima dessa rua, outra placa fala-nos de um outro marco que nos interessa: o exacto local onde funcionou o primeiro colégio jesuíta, ocupado agora por um edifício da administração pública.

Nas imediações, um espírito mais curioso deparará porventura com outros troços da muralha. E também com algumas calçadas de paralelipípedos de granito que estranhamente não têm direito a qualquer referência nos panfletos turísticos. Tão pouco é aconselhado ao visitante uma olhadela ao “Merca”, pequeno e simpático centro comercial ao estilo de um mercado europeu. Todo o exterior do “Merca” se inspira em motivos lusos. Apesar dos azulejos, das bandeirinhas promocionais verdes-rubras, das pinturas de caravelas e de pescadores, do galo de Barcelos e do granito a ombrear as janelas, no seu interior – se exceptuarmos uma ou outra garrafa de Dão e de Mateus Rosé…vazias! –, não se avista qualquer produto português. Mas descansem que a coisa fica pelo Mediterrâneo. A padaria é francesa, o restaurante é italiano, a música ambiente espanhola.

Outro senão: a agência de viagens albergada no “Merca” não oferece um único pacote turístico com destino a Portugal (ou a Macau, já agora, a cidade que esteve na origem da fundação de Nagasáqui) muito embora prometa mundos e fundos para Torremolinos e Ibiza.

A mais conhecida rua feita de lajes pelos portugueses – só para citar um dos exemplos mais gritantes – é hoje estrela do cartaz turístico sob a designação de “Dutch slope”. Ironia das ironias: baptizar uma calçada íngreme com o nome de um país mais plano que uma panqueca.

A acção de Luís de Almeida, a quem se deve a construção, em Omura, do primeiro estabelecimento hospitalar do Japão, foi fundamental e pioneira. Não obstante, os louros vão inteirinhos para Sienbold, médico alemão do século XIX. Não só tem direito a nome de rua, como ainda a casa memorial, a zona comercial e até a título de comboio rápido: o “Sienbold Express”.

Parece-nos notoriamente pouco que uma cidade turística como Nagasáqui “homenageie” o jesuíta português com uma simples placa – afixada no remoto ano de 1968 e num remoto canto da cidade – onde se lê: “Luís de Almeida. O primeiro português a chegar a Nagasáqui”. Apenas isso.

Do outro lado do canal – e quanto a canais Nagasáqui é seguramente holandesa – existe um hotel bem ao jeito português. Pena é que o restaurante “Amália” instalado no rés-do-chão só sirva comida italiana. Se bem que o basalto e o calcário da calçada junto à entrada e no pátio interior, assim como os azulejos e a esfera armilar por cima da porta sejam bem lusitanos.

Não muito longe do “Amália” situa-se o “bairro dos estrangeiros”, centro da vida económica e social da Nagasáqui dos séculos XVII e XIX. A memória deste espaço perdura nas lápides dos vários cemitérios espalhados pelas colinas da cidade. Também por lá pontuam Gonsalves e Sousas, miscigenados com Omuras e Nakanos. Mas por essa altura, Portugal era já uma sombra da sua própria memória. E apesar do nosso país ter mantido aí uma representação consular, a predominância é hoje decididamente norte-europeia. No topo das atracções turísticas do bairro diplomático temos então a tal “Dutch slope”, que conduz à parte da cidade que os caprichos geográficos pouparam da devastadora onda de choque que se seguiu ao deflagrar da bomba atómica.

De origem portuguesa são também os vitrais, uma presença constante nos mais variados espaços, sejam eles restaurantes ou lavabos públicos. E ainda os azulejos utilizados com profusão nos mapas indicativos das zonas de interesse turístico e nas placas que designam as residências e villas particulares. Também neste caso não existe qualquer referência que indique a proveniência.

É na culinária, porém, que no Japão, podemos encontrar as nossas raízes de forma mais vincada. E logo nos pratos mais populares: no namban zuché (escabeche), na tempura (peixinhos da horta) e no sukiyaki. Não obstante, são as réplicas do barco “Lidfe” e imagens de holandeses sentados à mesa com gente local que nos mostram os quadros pendurados nas paredes de muitos dos restaurantes da cidade. Ressalvo uma honrosa excepção: o restaurante “Sagres”, que ostenta na ombreira da porta de entrada uma réplica do navio-escola que lhe deu nome, e faz questão de presentear talheres (leia-se pauzinhos) com as cores da bandeira das quinas.

IIM LOGOTIPO - 2015 (17)

Joaquim Magalhães de Castro, Escritor e investigador da Expansão Portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

 

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Os braços da “gente de ofício”

FOTO Pak Tai desta semana (14)

Aquando da minha primeira visita a Moçambique, desde logo me desencorajaram de percorrer o país utilizando a via a que habitualmente recorro: a via terrestre. “Nem pense”. “Está louco”. “Só em sonhos”. Eram estes os tipos de comentários. Assegurava quem por lá vivia que seriam muitos os engulhos pelo caminho e que em vez dos dois ou três dias agendados para chegar à Ilha de Moçambique, primeira etapa da programada viagem pela costa leste africana, poderia levar quatro ou cinco. Ou até uma semana, como garantia, com uma boa dose de exagero, António Pereira, ex-residente de Lourenço Marques e sócio do antigo seleccionador nacional Carlos Queirós numa empresa do sector metalúrgico.

Pereira regressara a Moçambique após longos anos na África do Sul: “Os camiões que enviamos para o norte, para Tete, chegam a demorar oito dias, pois a travessia do rio Zambeze é sempre uma incógnita”, dizia ele.

Travei conhecimento com o senhor Pereira no átrio do edifício da embaixada portuguesa. O que deveria ser uma simples resposta a um pedido de informação para resolver o usual problema de câmbio que se impõe sempre que chegamos a um novo país, acabou por se transformar na oferta de uma agradável, embora breve, visita à cidade que ele tão bem conhecia, para que eu ficasse “apenas com uma ideia”.

Na sua carrinha de caixa aberta percorremos a avenida Julius Nyerere – onde se situam o mítico hotel Polana, o palácio presidencial e algumas das embaixadas – e a Marginal, até chegarmos a um café gerido por um grego, ao fundo da Costa do Sol, que era então “o ponto de encontro dos portugueses”. Ao largo avistava-se a ilha onde funcionava o presídio do antigo regime: “Só escapou de lá um prisioneiro”, comentava Pereira. Chamava-se Zeca Russo e era uma espécie de Zé do Telhado da província ultramarina que acabaria por morrer em circunstâncias estranhas na Tanzânia.

 

O empresário – acompanhado pela esposa, recém chegada de Portugal – decidiu adiar mais umas dezenas de minutos o que tinha a fazer para me mostrar a baixa da cidade, proferindo o seguinte comentário no momento em que passamos em frente ao recinto onde anualmente se realiza a Feira Internacional de Maputo: “A última edição do FACIM foi uma vergonha. Os portugueses aqui representados, em vez de abrirem os quiosques, ficaram nos respectivos hotéis a beber copos. E o facto foi muito comentado por cá, o que não abona nada em nosso favor”.

 

Remonta de longe as achegas à falta de “sentido de oportunidade” (seja lá o que isso signifique) por parte da lusitana gente.

 

Num relatório enviado ao reino, a 15 de Março de 1883, o cônsul inglês em Lourenço Marques, Henry E. O’Neill, começando por ressalvar que “Moçambique não está na posição daquelas colónias mais adiantadas”, alertava para a endémica “falta de braços”, motivada pelo fracasso de tentar “subordinar o indígena a um trabalho regular.” Lacuna que, segundo ele, tinha sido compensada, nas colónias inglesas, pelo tráfico de cules, sugerindo que Portugal seguisse o exemplo, já que, “tanto na Índia como na China”, possuía colónias de onde podiam vir trabalhadores nessas condições. O’Neill prossegue, afirmando que por duas ocasiões se tentara introduzir na província trabalhadores chineses, mas não passaram de meras tentativas. Em 1858, foram transportados de Macau para Moçambique trinta chineses, “pela maior parte gente de ofício”. Todavia, parece que a escolha do pessoal foi infeliz, “porque não ouvimos senão queixumes acerca da incapacidade e indolência desta gente”, tendo a experiência ficado por ali. Em 1881, e por iniciativa do último governador-geral, o visconde de Paço de Arcos, repetiu-se a experiência com “a importação de uns cinquenta chins, oficiais de ofício, todos procedentes do porto de Macau”. Dessa vez a coisa resultou pois, como admite o diplomata britânico, “acham-se estes actualmente empregados no serviço de obras públicas, e tenho ouvido dizer que têm agradado”.  Sem embargo, “e apesar do sucesso, “ainda até agora se não pensou em continuar sistematicamente a prover de trabalhadores esta colónia.”

Inspirado pelo “rei dos belgas” que utilizava em África a força de tracção do elefante, Henry E. O’Neill, admite que a utilização desse animal na colónia portuguesa seria grandíssima vantagem ,embora manifeste bastantes dúvidas quanto à possibilidade de sujeitar o elefante africano. Lembra, a propósito, o tratado que cartagineses foram obrigados a assinar com os romanos para que não se subjugasse “nem mais um elefante”, citando uma passagem que a esse respeito escrevera David Livingstone.

Pelos vistos, a primeira das vantagens era a imunidade do paquiderme em relação à mosca tsé-tsé; depois, o facto de sustentar-se de plantas que não necessitam de cultivo; finalmente, a possibilidade que têm de caminhar em todo o tipo de terreno, seja ele “brando, pedregoso, ariento ou apaulado”.

O’Neill traz também à baila os camelos, recordando que “alguns deles foram transportados de Aden para Inhambane”, mas a tentativa de os empregar como bestas de carga não se mostrara satisfatória. O burro, “no fim do tudo, e segundo o que eu pude ajuizar” – conclui – “parece ser o animal que mais barato sai e o mais conveniente para substituir o carregador, pelo que vai sendo, aos poucos, introduzido em vários pontos da província.”

IIM LOGOTIPO - 2015 (19)

Joaquim Magalhães de Castro, escritor e investigador da Expansão Portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

 

 

 

 

 

 

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Ouvir a Voz de Deus

pastor_jesus231

Jesus Cristo, neste Quarto Domingo de Páscoa, apresenta-se como «o Pastor das ovelhas». O texto evangélico explica, em seguida,  um pouco mais esse título, dizendo : « As ovelhas conhecem a Sua voz. Ele chama cada uma delas pelo seu nome e leva-as para fora. Caminha à sua frente e as ovelhas seguem-no, porque conhecem a sua voz».

Não deixa de ser impressionante e até chocante ouvir estas palavras, quando, ao ao mesmo tempo, reparamos que, ao contrário, numa grande parte do mundo, mais exactamente do mundo ocidental e, sobretudo, naqueles países nascidos e formados à luz do ideal cristão, se perdeu a capacidade de «ouvir e conhecer a Sua voz», de escutar a voz de Deus dentro de si mesmos.

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Deus não se furta a ninguém, a nenhuma pessoa, mulher ou homem, criança ou idoso, rico ou  pobre. Deus não se esconde de nós em nenhuma circunstância, por mais adversa, dolorosa ou violenta que ela seja. Essa presença amorosa de Deus fica bem patente, se contemplamos,  por exemplo, os últimos momentos de Jesus no alto da Cruz:  «Hoje mesmo estarás Comigo no Paraíso». Assim  responde o Senhor Jesus ao criminoso e ladrão,  momentos antes de sucumbir. Deus, revelado e encarnado em Jesus, tem «sede» de amar e salvar todo o ser humano. A Sua voz deixa-se sempre perceber no mais profundo do nosso coração. Jamais se cala.

Mais ainda. Se olharmos à vida desregrada ou fútil nos primeiros tempos do percurso de tantos santos e santas, fica bem claro que «a voz » de Deus permanece sempre fiel e  perceptível,  apesar do turbilhão e dos desmandos da vida de cada um. No entanto, há que  reconhecer  que só quando o coração humano está  nas verdadeiras disposições, é que, então, ele é capaz de «ouvir» a voz de Deus.

Portanto, a questão de ouvir ou não ouvir a voz de Deus está em nós, os humanos. Deus não dorme nem se vinga em ninguém. A resposta ao problema está muito bem explícito num dos Salmos : «Se, hoje, ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações».

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Há que afirmar com coragem e antes de tudo o mais.  O ‘modelo’ de cidade ou de bairros residênciais, tipo ‘gaiolas’ como continuamos a ver construir em Macau, na Taipa e, já, em Coloane,  e  o ‘estilo de vida’ que privilegia o frenético, o compulsivo e o egocêntrico, para não dizer, egoísta e narcisista, e onde se defende o cifrão e o lucro como o valor condutor da vida da  nossa sociedade, tudo isso em  nada facilita o encontro harmonioso entre pessoas, nem o encontro connosco mesmos, nem a descoberta dos valores que levam  à verdadeira felicidade.

Na verdade, o homem ou a mulher contemporâneos estão a perder, a olhos vistos, a sensibilidade  para criarem ‘as circunstâncias’ e os ambientes propícios que lhes permitam esse ouvir-se em profundidade e o escutar atento dos outros. Pior: perdem cada vez  mais a capacidade de se ouvirem  interiormente ou de escutarem uns aos outros, com tempo e atenção. Mas mais dramático ainda é eles estarem a deixar  transparecer – e mesmo a denunciarem  –  uma certa  impossibilidade de descobrir e de pôr em prática os grandes valores da humanidade como a Verdade e Justiça, o Amor, a Solidariedade e Serviço dos Outros, Misericórdia e Perdão, Beleza, Transcendência…

Um sinal flagrante desse ‘mal da alma’ que parece dominar o homem  e a mulher  modernos é o fugirem ao silêncio, o evitarem  estar sós e o sentirem-se incapazes de apreciar e gozar intimamente os  momentos de recolhimento, de reflexão e meditação.

Se assim é, como é que poderão, ele ou ela, disporem-se a estar com Deus, a sós, entrarem  em diálogo com Ele e, finalmente, ouvirem a Sua «voz»?

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O exemplo, por excelência, do saber ouvir «a voz» de Deus encontramo-lo em Maria, Nossa Senhora. Na narrativa da infância de Jesus, é afirmado, mais de uma vez : «Maria ponderava  todas estas coisas no seu coração.»

De novo, não deixa lugar para dúvidas!  A abertura a Deus  que nos permite também entrar, aos poucos,  no diálogo e na intimidade com Ele, só é possível se crio espaços e tempos de silêncio e recolhimento e me lanço numa caminhada ao intimo de mim mesmo, no coração profundo. Aí, onde o meu muito ‘humano’ toca o meu muito ‘divino’.

 

Luís Sequeira, sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço às quintas-feiras.

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O chá de Achune e Apao

 

FOTO Pak Tai (19).jpg

Num ofício datado de 1810, Almeida Melo e Castro, conde das Galveias – o responsável no reino pelos assuntos ultramarinos, uma espécie de Ministro dos Negócios Estrangeiros da época – pede ao Ouvidor de Macau, Miguel de Arriaga, o envio de plantas de chá e de homens especializados no seu cultivo, tendo em vista a introdução dessa planta no Brasil, onde se refugiara a corte portuguesa. O documento refere ainda a vontade da administração local em ver chegar “peritos na fabricação de louças”, o que pressupõe um olhar virado ao futuro, pois se doravante se cultivaria a bebida dos deuses em terras de Vera Cruz, aos seus habitantes impunha cimentar o gosto pelo consumo da mesma que deveria ser, como convém, protocolarmente servida numa panóplia de bules, xícaras, pires e chávenas a ele adequados, e cuja mestria e segredos do fabrico eram do exclusivo domínio sínico. A todos esses desejos o dinâmico dirigente macaense atendeu, até porque tinha partido dele a sugestão. De imediato fez seguir a bordo do navio Ulisses, ao cuidado de Gaspar José D’Antas Coelho e com a promessa de as continuar a enviar, “quatro caixotes dessas plantas”. Acompanhavam a encomenda dois jardineiros chineses, Achune e Apao de apelido, que antes de embarcar assinaram justo contrato com “um vencimento mensal de quatro mil e oitocentos reis” e uma gratificação “de trinta patacas cada”, destinada às famílias que deixavam para trás, considerável pecúlio na época. O cuidado tido com esses pioneiros plantadores de chá no continente americano era de tal ordem que o Ouvidor determinou que fossem matriculados “em classe de gamotins ou grumete” obtendo assim o soldo correspondente a tal escalão ao longo da viagem. Definitivamente, não houve aqui qualquer tipo de exploração. Afirmam os próprios, no citado ofício – de algum modo documento de cariz contratual – que fora já paga a sua “soldada de cinco meses” e uma vez chegados ao Brasil principiariam a cultivar o chá. Acrescentaram ainda, num gesto de boa-fé, que “por estarmos justos na forma sobre a dita nos obrigamos a cumprir em tudo este nosso ajuste por nossas pessoas e bens”, seguindo-se depois a assinatura de ambos, acto testemunhado por “José Mendes de Araújo e Francisco Paulo Lima”, a respeito dos quais ou dos cargos por eles exercidos nada consta.

Note-se que no mesmo navio seguia, além do chá, uma carga de seda com apelo para futura isenção de direitos “nas alfândegas do Brasil para embarcações construídas nos estaleiros portugueses”, como era o caso dos de Macau. Disso nos lembra o investigador brasileiro Carlos Francisco Moura, quiçá a maior autoridade nesta matéria. Vemos aqui uma tentativa de incentivar o comércio directo entre Macau e o Brasil (uma realidade anos depois), sempre com forte resistência por parte dos mercadores sedeados em Lisboa que, compreensivelmente, temiam a concorrência.

Arriaga, consciente da necessidade do incentivo à agricultura, indústria e ao povoamento – “os três mananciais da riqueza” de qualquer nação –, sugere que sejam os chineses a cumprir esse papel e pede que lhes seja atribuído um local onde se pudessem estabelecer. A proposta não colheu grande aceitação, caso contrário teríamos no Brasil, ao invés de suíços e alemães – recrutados numa Europa faminta e exaurida pelos conflitos, subvencionados inclusive pela própria Coroa portuguesa – colónias de chinesas, e por todo o território, pois ao contrário dos europeus, que pouco ousaram além do confortável limite fronteiriço proporcionado pelas refrescantes e sadias colinas da Mata Atlântica e planaltos ondulantes das pampas do sul, o chinês, empreendedor como é, não hesitaria em percorrer de lés-a-lés os cantos do vasto país e hoje tê-lo-íamos do Rio Grande do Sul à Amazónia. Como se sabe, tal não acontece. A maioria dos chineses ficou-se pelas metrópoles do Rio e São Paulo.

Em Dezembro de 1811 há notícia de nova remessa de plantas de chá, “tantas quantas admite a pequenez do navio”, a bordo do São Miguel, e no mesmo informe Miguel de Arriaga dá conta das diligências feitas em Nanquim, onde encontrou os ceramistas pretendidos, mas estes não tinham chegado ainda a Macau, mas que os “enviaria assim que houvesse navio”. O empenho do Ouvidor era tal que estava disposto, se preciso fosse, a aproveitar o frete de um qualquer navio inglês.

IIM LOGOTIPO - 2015 (19)

Joaquim Magalhães de Castro, Escritor e investigador da Expansão Portuguesa. Escreve neste espaço habitualmente às quartas-feiras.

 

 

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  Consolar os Outros  

 

JOSEPH-1

Uma das características  da actuação de Jesus Cristo após a Sua Ressurreição é consolar os Seus apóstolos e discípulos, homens e mulheres. Todos, de coração destroçado pela Sua Morte,  não entendem o que se está passar. Invade-os a tristeza,  o desânimo e o medo. Assim, tanto veremos o Senhor a consolar, muito particular e pessoalmente,  Pedro,  Maria Madalena, Tomé, como todo o grupo, quando se encontra encerrado em casa, de portas trancadas,  por medo dos judeus.

Neste  Terceiro Domingo de Páscoa, o Evangelho apresenta-nos um admirável exemplo de como consolar alguém em grande aflição. Abatidos pela angústia e dominados  pela confusão das ideias sobre  Jesus,  o Senhor Morto e Ressuscitado, dois dos Seus  discípulos escapam  à situação e fogem para o campo,  para Emaús,  povoação não muito longe de Jerusalém. O texto evangélico constitui, na verdade,  um precioso tratado  sobre a pedagogia a seguir perante uma pessoa devastada pelos acontecimentos dolorosos da vida.

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Um primeiro passo é saber escutar ‘a narração dos factos’ que atormentam a pessoa: «Conversavam entre si sobre tudo o que tinha acontecido. Enquanto falavam e discutiam, Jesus aproximou-Se deles e pôs-Se com eles a caminho». Ouvir respeitosa e atentamente a dor da pessoa é fundamental, ao princípio  Caminhar, em silêncio, pelos meandros da sua história. Não fazer como tantas vezes fazemos, começar logo a dar explicações,  conselhos e a apontar caminhos de solução. Escutemos, em primeiro lugar e com paciência amorosa, a dor que vai na sua alma, perceber o que é que as lágrimas silenciosas querem expressar no fundo do coração dilacerado.

Então, num segundo passo, temos ‘a compreensão dos factos’. Mas, mais uma vez, a pedagogia do Mestre Divino. Ele não entra, à  bruta ou sem cerimónias na conversa. Ele tem consciência que está a falar com gente perturbada e de coração muito sensibilizado com «o que lá se passou em Jerusalém». Por isso, Ele num primeiro momento, faz uma primeira pergunta, como se estivesse a pedir licença para entrar  na discussão : «Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?».  Num segundo momento,  dirige-lhes uma segunda pergunta para estar seguro de que está a ser correcto e objectivo sobre o assunto que os perturba : «O que se refere a Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo;  e como  e os nossos chefes O entregaram para ser condenado à morte e crucificado».  Só num terceiro  momento, é que Ele procura, por fim, explicar o sentido da Cruz, com os seus dois aspectos de  Morte e Ressurreição: «Depois, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito».

O terceiro passo é conseguir perceber ’o coração perante os factos’. A narração é clara ao descrever o estado de ânimo dos díscípulos. Eles apresentavam-se «com um ar muito triste». O Senhor compadece-se deles. Aqui, é notável a pedagogia do Mestre. Ele bem sabe o que se passa no coração dos seus bem-amados discípulos. Não exclamavam  eles: «Não ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?». Eles estão entusiasmados e agradecidos pela ajuda que o Senhor lhes deu e, consequentemente, atraídos por Ele, pelo serviço que lhes fêz. Mas, é isso verdadeiro amor? Para evitar ambiguidades, «ao chegarem perto da povoação para onde iam, Jesus fez menção de ir para diante». O amor funda-se na liberdade e na gratuitidade. Assim, dentro de momentos ouvimos eles a suplicar : «Fica connosco, pois o dia está a terminar e vem caindo a noite». E, finalmente, convidaram-nO para uma refeição íntima.

O quarto passo, segundo este episódio descrito pelo Evangelista S. Lucas, é como que a afimar que a verdadeira amizade nos lança nos horizontes da presença de Deus, Pai e Senhor, revelado em Jesus Cristo,e abre-nos mesmo à experiência do Amor divino.

Ao fim deste dramático episódio, dá-se o quinto passo, o retorno à vida, aceitando a Cruz com outra compreensão e renovada coragem. Lemos no texto : «Os dois discípulos partiram imediatamente de regresso a Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os que estavam com eles, que diziam: ‘Na verdade, o Senhor ressuscitou’».

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Consolar os outros  é uma característica da acção do Senhor Jesus tanto no seu Ministério público, mas  também e, sobretudo, após a sua Ressurreição. Contudo, não parece ser esta a atitude que mais se procura desevolver na sociedade actual. Sociedade tão dominada pelo consumo frenético, pelo egoísmo doentio e por uma sede de ser o maior que toca já a paranóia.  A paciência amorosa de escutar o outro exige grande abnegação interior, grande desprendimento de si mesmo e das suas preferências e grande sensibilidade às necessidades dos outros.

Luís Sequeira, sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

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