Quanto dás aos teus pais por mês?

Seja como a água

Elisa Gao

pontofinalmacau@gmail.com

Há dois dias, enquanto estávamos a fazer compras, uma amiga de Macau, fez-me uma pergunta: “Quanto dás aos teus pais, para despesas familiares?” Foi tão inesperado que não percebi exactamente o que queria dizer e senti que estava de alguma forma relacionado com dinheiro – assunto sensível. “Bom… ahh… para mim, agora ainda não é tempo disso.” E, depois de vários segundos em silêncio, pensei que tinha de devolver a pergunta. “E quanto a ti? Quanto dás? “Três mil patacas por mês, já que ainda vivo com a minha família”, respondeu sem emoção, apesar de corresponder quase a um quarto do salário. “Vou negociar com os meus pais, espero pagar dez mil yuan no fim do ano [12,7 mil patacas], ainda sou jovem e quero gerir o meu próprio dinheiro”, respondi.

Segundo a tradição chinesa, quando trabalhas, tens de tomar conta da tua família. Se for um rapaz, definitivamente tem de prestar contas aos pais em relação ao seu estado financeiro e dar dinheiro, talvez mensalmente. Tratando-se de uma rapariga, geralmente, não há este tipo de requisito de obrigatoriedade, a não ser que a família não esteja bem e que ela ainda não tenha casado.

É um dilema para os jovens que ganham dinheiro – ter dinheiro ou gozá-lo. Há que escolher um e perder o outro. As pessoas costumam dizer para não acreditar em bancos, não acreditar no mercado de valores mobiliários, não acreditar no mercado florescente de produtos financeiros. São mentirosos, tentam tirar dinheiro do teu bolso e depois devolvem menos do que deste, sem que te façam sentir alguma coisa. E, na verdade, há muitos livros, artigos, programas de televisão que ensinam as pessoas a gerir bem o dinheiro e como investir. Mas será que estes ajudam mesmo? Não, apenas estão a repetir truques. O sucesso não pode ser copiado, enquanto o fracasso não pode ser evitado.

Conheci um editor de um jornal local, que já tinha família, filho, experiências. Começou a trabalhar como jornalista há uma década em Macau, e foi depois, há já sete ou oito anos, convidado para uma posição de assistente administrativo em que ganhava mais do que 20 mil patacas por mês. De início, estava feliz, mas, passado um ano, sentia-se entediado e despediu-se. Agora o seu salário não é nada bom, mas, pelo menos, está confortável. Sentia alguma pena em relação às oportunidades que tinha perdido e que poderiam tê-lo feito ganhar mais dinheiro, mas desistiu. “Quando somos jovens, não pensas no dinheiro, apenas no que gostas e logo vês!”. Disse-lhe, com toda a honestidade, que tinha sentimentos complicados em relação a isso.

Quando somos jovens, precisamos de um equilíbrio entre “o que gosto” e “quanto recebo”. Precisamos mesmo de ser ricos? Estou preocupada, a sociedade está a fazer com que sufoquemos – casa, carro, ter uma vida melhor do que os outros. Há alguma saída? Ou apenas temos de viver assim? Somos jovens e pobres, mas ainda temos de lidar com questões como “quanto vais dar aos teus pais”. Oh Deus, quero chorar.

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Os Cinco dão cabo do cânone

Bagagem de Mão

Sara Figueiredo Costa

A moda dos inquéritos de Verão parece estar um pouco arredada da imprensa de hoje, mas quem se lembra da presença regular de semelhante rubrica em todas as canículas lembrar-se-á igualmente da erudição da maioria das leituras escolhidas para o período das férias. Intelectual, ou candidato a, que se tivesse em boa conta não falhava o ‘Em Busca do Tempo Perdido’, de Proust (às vezes no original francês, que até se ouvia ribombar os ‘r’ da Recherche), um ou dois russos de monta, um ‘Ulisses’, de James Joyce, um clássico greco-latino. A gente lia aquilo e imaginava os nossos cultos estendidos na praia com uma estante a servir de almofada, perdendo-se no cheiro das madalenas proustianas enquanto as crianças da toalha mais perto faziam uma birra ou quando o vendedor de Bolas de Berlim (com creme e tudo, que isto de a ASAE decidir o que comemos não deve ser tolerado nem em registo cronístico) passava a berrar. Ali postos em sossego, numa beira-mar a salvo de qualquer Moby Dick, não perdiam o fio à meada, nem sequer quando a mudança súbita de maré avançava indiferente à zona de chapéus de sol e lhes encharcava a toalha, as roupas, a cadeirinha. Em qualquer caso, os nossos cultos nem sequer liam estes portentos literários: como é lógico, estavam em pleno exercício de releitura, para não correrem o risco de dar descanso às meninges e perderem a profundidade do pensamento entre duas ondinhas.

Agora que os inquéritos de Verão estão fora de moda, e deixando de lado o charme de brincar aos cultos instantâneos, aproveito para acrescentar um bocadinho de irrelevância ao tema enquanto registo os meus projectos de leitura para as férias que, espero, conseguirei ter (nos inquéritos, toda a gente tinha férias, e imagino que subsídio para as ditas também). Ora, sem vontade de russos nem de greco-latinos, este Verão gostava de voltar aos livros de ‘Os Cinco’. Bem sei que isto não fica bem, que uma pessoa deve fingir estar permanentemente em alerta erudito e que muitos leitores gostam de arrumar as estantes de modo estanque, não vão as ideias misturar-se, mas tenho a dizer em minha defesa que na biblioteca cá de casa os livros de ‘Os Cinco’ estão umas prateleiras ao lado dos russos, ali entre os alemães e os ingleses. E estão lá muito bem, relacionando-se pacificamente com todos os vizinhos. Mas com tanto Turgueniev para ler e reler, para quê voltar aos fedelhos ingleses? Porque tenho saudades de quando as férias de Verão eram grandes e se podia perder horas infinitas a não fazer nada que merecesse referência em inquéritos de Verão. Ah, a nostalgia… Não só. Também tenho vontade de perceber como sobreviveu ao tempo a prosa de Enid Blyton (que, ao que parece, era má como as cobras e não suportava crianças). Ah, a presunção literata… Sim, sim, e a isso há que juntar a necessidade imperiosa de voltar a ler as descrições daqueles lanches intermináveis onde o Júlio, a Ana, a Zé, o David e o Tim comiam prazerosamente sem o fantasma do colesterol a ameaçá-los e com isso me ensinaram o que são scones, como se distingue a geleia da compota e por que é que temos todos os motivos e mais algum para afastar uma certa repugnância inicial e dedicarmos algum do tempo estival a fazer sandes de pepino. Sim, de pepino, duas fatias fininhas de bom pão e rodelas de pepino igualmente finas. Os gourmand podem barrar previamente uma das fatias com manteiga sem terem de se denunciar ao Master Chef. Se me avistarem numa tenda perto da praia, rodeada dos livrinhos de ‘Os Cinco’ na velha edição da Notícias, não se aflijam. Antes de Setembro já estarei de volta aos lançamentos de livros onde toda a gente é muito culta, não tolera misturas do entretenimento com a alta literatura e acredita piamente que existe de modo absoluto uma coisa chamada ‘literatura infantil’.

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Olhar e não ver

Activo Estratégico

Patrícia Silva Alves

Na nota introdutória ao relatório “Trafficking in Persons”, do Departamento de Estado norte-americano, o secretário de Estado John Kerry não teve meias palavras quando classificou os casos de tráfico humano que o documento divulga: escravatura moderna.

Ao ler o relatório deparámo-nos com casos em que pessoas são obrigadas a prostituir-se e com situações em que são vítimas de violência se não o fizerem. Qualquer que seja o caso, as vítimas não têm alternativa: os seus documentos foram-lhes roubados (ou confiscados, na versão mais suave).

E isso, como se pode ver pelo relatório norte-americano e confirmar junto de quem recebe estas mulheres, acontece em Macau. Quantas vezes já teremos passado por alguém que vive no território como escravo? A geografia da RAEM ajuda: vivemos num território pequeno. Mas aqui, como em tantas outras situações, saber que existe escravatura em Macau não é sinónimo de inquietação. Isso acontece, mas está tão distante de nós como a Lapónia. Olhamos, mas não vemos.

O mesmo se passa com quem tem responsabilidades para evitar que tal aconteça e zelar por estas pessoas. Como referiu Richard Welford, presidente da Corporate Social Responsability, quando se deslocou a Macau em Março.

Diz o especialista: “Falei com vários casinos em Macau que estão em completa negação sobre esta situação. Posso sair de um casino e ser abordado por três raparigas, mas eles dizem-me ‘Não é nosso problema, isso é fora do casino'”.

E aqui não se fala apenas de casos de mulheres adultas que são obrigadas a vender o corpo. Há também menores de idade, crianças. Pelo menos é o que se diz, assinala o relatório norte-americano. E “o que se diz”, ou seja, o boato é a maior fonte de notícias em Macau e tem uma óptima vantagem: deixa poucas vezes de o ser. Tudo se sabe, nada se confirma.

É isso que acontece por exemplo numa informação que foi divulgada pelo relatório. “Há crianças que são alegadamente sujeitas a tráfico sexual nos casinos de Macau”. Mas há mais informações sobre isto no relatório? Não. Nem os próprios casos que foram julgados e as condenações que daí resultaram permitem saber mais. Só que há indícios de que o problema existe já que – como assinala o documento – no ano passado as autoridades identificaram 24 crianças entre as vítimas de tráfico humano. A própria Juliana Devoy, que gere o Centro do Bom Pastor, referiu ao PONTO FINAL em Março que recolheu 39 menores nos últimos dois anos, 26 das quais em 2013. A religiosa relatou que muitas vezes são as jovens que, por sua livre vontade, se prostituem. Mas aqui, como em muitos casos, convém ter um olhar crítico sobre a expressão “livre vontade”. Diz a irmã Juliana Devoy: “São jovens ignorantes, nunca saíram da China e são facilmente seduzidas”.

O argumento é verdadeiro, mas não apaga os factos: há menores de idade que, em vez de estudarem, se prostituem para ter dinheiro. Assim iniciam um ciclo de indigência que se reproduz tendo por base a mais básica de todas as pobrezas: a de que nem o corpo lhes pertence. E enquanto isso acontece todos os que vivem em Macau olham, passam por estas raparigas que são escravas do proxeneta ou da pobreza, e não vêem.

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A praga dos jornalistas

Tapau no bufê

Rodrigo de Matos

Apenas duas semanas depois de ter escrito aqui uma crónica sobre a cultura de boicote ao trabalho da comunicação social, eis que acontece em Macau um evento em que é esplanada toda a sabedoria da mais refinada escola do lidar com essa classe incómoda que são os jornalistas.

O Fórum de Alto Nível da Justiça dos Dois Lados do Estreito de Taiwan, de Hong Kong e de Macau teve de tudo: desde cerquinhas a estabelecer uma fronteira para manter os repórteres à distância (não fossem eles chegar muito perto do Dalai Lama – que aliás não estava presente, mas, por via das dúvidas…), até à ausência de traduções simultâneas e à transcrição do discurso de um dos oradores apenas em chinês simplificado. “Neste momento, não posso dizer nada porque o meu chefe falou para fechar a boca”, disse um dos funcionários da equipa de comunicação a quem tinha solicitado ajuda para perceber o que o orador, representante da China Continental, estava a dizer. Ao tentar aproximar-me do palco para tirar fotografias aos oradores, não fui além de meia dúzia de passos para lá da cerca que delimitava o chiqueiro dos jornalistas – semelhante às áreas reservadas em dias de manifestações – , e já tinha um dos seguranças a frustrar-me as intenções: “Tem de voltar para ali”.

Não critico a actuação destes funcionários, pois cumpriam à risca e com toda a competência e educação as ordens que lhes eram dadas. Pelo contrário, assumo mesmo a necessidade de fazer uma crítica, isso sim, à classe jornalística, na qual me incluo. Sim, uma autocrítica. Temos todos de ser capazes de o fazer de vez em quando. Nós somos uns grandes chatos, essa é que é essa. Sempre ali, à procura de notícias e da verdade. E quem é que garante a harmonia, com gente incómoda desta à solta?

A propósito, gostaria de deixar aqui algumas sugestões que todos gostaríamos de ver implementadas já a partir do quarto fórum, para que se galguem novos patamares na protecção da harmonia desinformada. Porque, se há uma coisa que gostamos de ver nesta sociedade é ela a galgar patamares:

  1. Os comunicados e transcrições de discursos devem ser todos traduzidos para aramaico e grafados em escrita cuneiforme mesopotâmica, para dificultar ainda mais a nossa compreensão, uma vez que muitas redacções contam com jornalistas que entendem chinês.
  2. Uma redoma de vidro (quanto menos transparente melhor) a isolar a área dos jornalistas, para não permitir sequer que respiremos o mesmo ar dos oradores (quem é que nós pensamos que somos?).
  3. Sistema de choques por pontos: cada jornalista que cometa um acto considerado incómodo, como fazer uma pergunta, olhar demasiado para o mesmo sítio, etc. soma um ponto e, ao fim de três, leva um choque eléctrico aplicado com um ‘taser’ por um dos assessores. Consta que este método, que é adrenalina e diversão, já foi testado com sucesso na Coreia do Norte.
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O pior cego é o que não quer ver

Água mole em pedra dura

Catarina Mesquita

Em fila indiana seguimos Paul com a confiança que temos quando conhecemos alguém há muito tempo. O empregado invisual do restaurante guiava-nos através de um toque delicado até à mesa, onde, às escuras, iriamos experimentar as escolhas do chef.

Entre apalpões identificámos os utensílios para comer, o garfo à esquerda, a faca à direita e o copo à distância perfeita para que lhe pudéssemos quase intuitivamente tocar.

É assim que começa cada aventura nos restaurantes da cadeia Dine in the Dark, espalhados por várias cidades do mundo, estando o restaurante mais perto de Macau localizado na frenética e luminosa cidade de Bangkok.

Durante cerca de uma hora e meia tentaríamos comer às escuras utilizando outros sentidos negligenciados pelos olhos. O jantar foi feito de várias garfadas vazias no ar, alguns dedos dentro do prato quebrando as regras de etiqueta mas foi fácil identificar todos os ingredientes que nos são revelados já fora do restaurante em plena luz.

A experiência revela-se fantástica, conseguindo-se de algo nada agradável fazer algo melhor. Da conta uma percentagem reverte a favor de associações de apoio a invisuais e os guias cegos estão completamente integrados.

Para Paul com um sorriso aberto debaixo do candeeiro que se mantém na voz que ouvimos durante todo o jantar às escuras, trabalhar num restaurante é uma feliz oportunidade que não lhe seria dada se este conceito de cozinha não existisse.

Mas e o que nos surge na cabeça e diante dos olhos quando estamos a tentar focar no completo escuro não estando deitados de barriga para cima a fitar o tecto e a combater uma insónia?

Ao início surgem-nos milhares de luzinhas a piscar e os olhos não param de tentar focar, deixando-nos a cabeça a rodopiar. Mas o escuro vence, a massa cinzenta lá se acalma, os sons à volta gradualmente vão-se tornando maiores e os cheiros mais intensos.

À mesa sentam-se amigos que não se olham mas se conhecem pela voz e durante uma hora e meia ninguém pega no telemóvel para actualizar o “feed”.

É inevitável pensar durante aquela hora e meia em que estamos desligados do mundo o que seria se de repente deixássemos de ver, se tudo se apagasse e ficássemos no escuro total.

Pensei como seria atravessar a cidade de Macau sempre aos tropeções às pessoas que já não se afastam quando vêem bem, a ser enganada no troco como fazem agora com os turistas de Hong Kong porque as cores das notas são semelhantes e uma lista infindável de coisas de uma cidade que é nitidamente feita para as massas.

Pensamos apenas nas maiorias e assumimos tudo como certo neste nosso meio egoísta. É tão cliché esta ideia como as vezes que a repetimos a nós mesmos para nos convencermos de que é verdade: de que somos uns sortudos por termos cinco sentidos apurados.

No meu idealismo de quem quer o mundo mais equilibrado gostava de puder ver (ou sentir) que mais invisuais conseguem ter o mesmo sorriso que Paul e que não precisam de estar sentados à berma de uma estrada com uma mão estendida como se a única possibilidade por se ser cego fosse mendigar.

A sabedoria popular diz e bem que “o pior cego é aquele que não quer ver” e no meio daquilo tudo que não queremos ver lá vivemos em cidades feitas para as maiorias que não pensam no que seria se tudo isto estivesse sem luz.

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O diabo e os detalhes

Editorial

Marco Carvalho

Há na zona norte da cidade um enclave nobre com um urinol no coração. Se de arte se tratasse, dir-se-ia que é como que a reencarnação local do famoso urinol de Marchel Duchamp, ainda que sem sentido estético, sem transfiguração do real e sem outra utilidade que latrínicas funções a que se destina.

É uma daquelas caixas toscas de poliuretano a que o Portugal dos festivais de Verão está bem habituado: tresanda a urina e a gente enrascada, que se alivia ali com um desembaraço animal (a respiração contida num longo fôlego), porque quando o nobre enclave foi planificado ninguém teve clarividência suficiente para se lembrar de que a condição humana é, antes de qualquer outra coisa, a estranha conjugação entre a expansividade do livre arbítrio e a bestialidade das manifestações de índole fisiológica que amansam o mais inchado dos ecos e nos recordam que, afinal, pouco mais somos do que pó e ao pó voltaremos.

Estóico exemplo de mau gosto numa zona onde as rendas valorizam mais que a Bolsa de Xangai nos seus melhores dias, o urinol não tem existência autónoma: é como que a cereja no topo do bolo de uma estrutura – a designação será talvez excessiva – que poderia muito bem ser o exemplo acabado da precariedade das soluções apadrinhadas pelo Governo. O quarteirão residencial da Pérola Oriental, com as suas torres que espelham as obras do Delta, é servido por uma estação de autocarros a céu aberto onde não são dadas condições nem aos funcionários da concessionário de transportes públicos que ali opera, nem aos muitos clientes que recorrem aos serviços da empresa. Nos dias de chuva, um segundo banho é uma inevitabilidade. Nos dias de calor intenso, cinco minutos de espera são cinco minutos de agonia.

Um e outro detalhe, uma e outra pequena frustração, aliadas à crónica falta de regularidade das carreiras, ao azedume quase genético dos condutores, à irascibilidade dos passageiros e ao excesso frequente de carga humana (amplificado nas horas de ponta), são razões mais do que suficientes para que o mais inveterado dos ambientalistas ou o mais sacrossanto dos apologistas dos transportes públicos se rendesse à desafortunada e egocêntrica ideia de ter de comprar uma motoreta e de sprintar peões salta-pocinhas, escapar às tangentes da furgões e camionetas e, lá pelo meio, sobreviver.

Apanhar um autocarro em Macau é um acto estóico, de expiação social, digno da bondade de um Gandhi e da paciência de um Mandela, mas avante, que o texto não é sobre autocarros. É sobre mictórios e mictórios dados a um certo surrealismo, por existirem onde não deviam. Ora, o Marcel Duchamp da Areia Preta, num destes dias em que o território esteve sob a ameaça de tufão e o vento se afunilou de modo mais feroz por entre as torres do enclave nobre, adquiriu contornos de obra de arte dinâmica: uma ou outra rajada mais forte fizeram tombar o urinol e um tapete de matéria fecal espalhou-se pela zona da entrada do tal parque improvisado de autocarros, com densas malhas de castanho vivo pintalgadas de onde em onde pelo branco orgânico de papel higiénico semi-dissolvido. Um Jackson Pollock maduro, de última fase, dir-se-ia.

A carpete esteve ali estendida um bom par de horas sem que alguém se mostrasse incomodado ou lhe deitasse por cima um inócuo balde de água ou por pudor ou por misericórdia ou por descargo de consciência. A Areia Preta é, ainda assim, a modos que privilegiada. O caixote de poliuretano que nos dias de maior calor enche de feromónico fedor o coração do bairro é como que um palácio face ao que existe noutras zonas da cidade. No apinhado centro da cidade, onde as hordas em transumância chegam para assustar o mais intrépido dos residentes, é preciso fôlego e resistência para resistir às urgências da natureza humana. Ou isso, ou urinar na rua. O diabo, dizem os norte-americanos, está nos detalhes. E há detalhes com força suficiente para deitar a perder a melhor das intenções: de que vale o folclore do centro internacional de turismo de lazer se os arbustos continuam a ser os melhores amigos dos aflitos?

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Alegoria indiana

Ana Paula Dias

Uma alegoria é uma figura de linguagem, mais especificamente de uso retórico, que produz a virtualização do significado, ou seja, a sua expressão transmite um ou mais sentidos além do literal. Diz-se “b” para significar “a”. Embora opere de maneira semelhante a outras figuras retóricas, a alegoria vai além da simples comparação subentendida da metáfora. A fábula e a parábola são exemplos genéricos de aplicação da alegoria, às vezes acompanhados de uma moral que deixa claro a relação entre o sentido literal e o sentido figurado.

Feita a clarificação do sentido do termo, passe-se à história que se pretende contar: em recente viagem de avião em que estava disponível o jornal Gulf News[1], chamou-me a atenção um artigo intitulado Punjab English teachers show ‘leak of interest’. Refere o artigo que os professores de inglês desta província indiana chumbaram num teste de inglês a que foram submetidos e que, desde o emprego dos tempos verbais à ortografia, tudo o que escreveram estava errado. É apresentada uma lista de exemplos retirados das provas de 220 docentes das escolas públicas, que tinham sido convocadas por um organismo governamental para explicar os fracos resultados dos seus alunos na disciplina de inglês. Este organismo, o Conselho de Educação, chamou todos os professores para uma reunião e solicitou-lhes que justificassem as razões do elevado nível de insucesso dos seus alunos e que dessem sugestões para inverter a situação.

Segue-se, no artigo, a transcrição de mais uns quantos exemplos de frases minadas por erros gramaticais e lexicais proferidas durante o referido encontro, algumas francamente anedóticas e termina esta peça com a conclusão do responsável pelo Conselho de Educação: o insucesso deve-se à (má) qualidade dos professores e não à falta de estudo ou empenho dos alunos.

Claro que não ficamos a saber como é feita a formação inicial destes professores, nem a contínua, mas pelo menos fica-se a saber que os responsáveis pela educação naquele estado indiano não esquecem a necessidade de levar a cabo um trabalho constante de monitorização do sistema educativo, demostrando ter uma visão global das competências que um aluno deve ter em dadas etapas do seu percurso escolar e das aprendizagens a adquirir. Sem este tipo de monitorização – que não significa “punição” – sem que haja um retrato do sistema, cai-se no “remendismo”, com a aplicação de medidas avulsas, baseadas em dados dispersos. Uma política educativa séria pressupõe inequivocamente que as finalidades a alcançar ou as mudanças a realizar sejam progressivas, planeadas, negociadas, avaliadas e, sempre que necessário, corrigidas e continuadas. Singapura, já aqui mencionada algumas vezes por ocupar os primeiros lugares nos programas internacionais de avaliação de alunos, tem um instituto independente do Ministério da Educação que monitoriza o sistema, levando a que, de seis em seis anos, os novos programas e outras alterações sejam feitos com base nessa monitorização.

Volta-se ao primeiro parágrafo deste texto e ao significado de alegoria; diz-se “b” para significar “a” e está tudo explicad

[1] De 28 de junho de 2015.

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