SENTIDO DA REALIDADE E… SENTIDO DA ETERNIDADE

O texto dos Actos dos Apóstolos, que neste Domingo descreve a subida de Jesus Cristo ao Céu, «a Ascensão», termina com a aparição de dois homens vestidos de branco que dizem aos discípulos estupefactos: «Homens da Galileia, porque estais a olhar para Céu? Esse Jesus, que do meio de vós foi elevado para o Céu, virá do mesmo modo que O vistes ir para o Céu».

Nestes últimos momentos do Senhor Jesus sobre a Terra é apresentado um critério de vida que se manifesta fundamental para todos quantos fazem parte da Humanidade. Existir neste Mundo, sim, mas sempre com a consciência de que é absolutamente necessário, manter o equilíbrio entre ‘o ter  os pés em terra’, o ter ‘o sentido da realidade’ e ‘o ter os olhos no Céu’, o que, por outras palavras, quer dizer, ter ‘o sentido da eternidade’, ‘ter o sentido de Deus’.

Não parece ser esta a via que está a orientar a Sociedade contemporânea, e, muito concretamente, a Comunidade Cristã. Tudo se caracteriza, em termos gerais, muito mais pela existência de um Absentismo, religioso e espiritual,  progressivo no quotidiano das pessoas, em vez de se constatar que se está a crescer no conhecimento de Deus, a ganhar nas suas vidas o ‘sentido da eternidade’. Isto por um lado. Por outro, acentuam-se o Espiritualismo e o Ritualismo naquela outra parte da Comunidade,  dita mais fiel e devota, em vez de viver a sua fé com um forte ‘sentido da realidade’, isto é, de uma maneira mais consciente, verdadeira e dinâmica, transformadora, com impacto real na vida social e política.

Estamos, portanto, diante de duas situações extremas. Mas, ambas mostrando uma clara incompreensão e insuficiência no modo de viver a  experiência de Deus…

 

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          «Permanecei na cidade,  até que sejais revestidos com a força do alto». Lê-se no Evangelho de Lucas. Os que acreditam  em Jesus Cristo são «revestidos com a força do alto.» Convidados a entrar na intimidade de Deus e a tornarem-se construtores de uma «nova terra… cidade». Mas, contemplando a realidade que nos circunda, que encontramos? Uma situação dramática. Tantos e tantos que ou se ausentam da participação da vida da Igreja e da ‘prática cristã’ ou, nas suas próprias vidas, o espiritual e religioso está desaparecido. O Absentismo é o triste espectáculo.

Acrescento que esta é, talvez, uma maneira diferente de colocar a tão mencionada ou a tão sobejamente discutida nos meios intelectuais ‘Questão de Deus’. O termo Absentismo religioso ou espiritual parece ser mais correcto e objectivo para descrever esse afastamento de Deus ou da prática religiosa.

Porém,  temos também o reverso da medalha, os cristãos a fecharem-se no Espiritualismo. O Evangelho transformado em ideias e teorias desencarnadas da realidade das pessoas, da Comunidade e da Sociedade. A tirania do ‘pensar’ espiritual e etéreo. Situação esta, por demais comum,  para qual somos levados a abrir os olhos pelas observações directas e contundentes dos Anjos da «Ascensão»: «Homens da Galileia,  porque estais a olhar para Céu?».

O Ritualismo é um outro ‘ismo’ destrutivo da verdadeira prática cristã e no sentido oposto do Espiritualismo. Desta vez, é o material em vez do etéreo. Insiste-se no ‘fazer’ obsessivo, que se torna, na maior parte das vezes, em ‘superstição’.

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Em tom de remate final…

Ao mesmo tempo e neste contexto da ‘procura de Deus’, do ‘experimentar e sentir a Deus’, não podemos deixar de considerar o Hedonismo e o Materialismo que continuam a avassalar como um tsunami que galga poderoso, de longe e como em noite escura, a nossa existência humana, tornando impossível o encontro com Deus, Criador e Senhor. A maneira de estar na vida que se defende tão fortemente na nossa Sociedade actual é profundamente enganadora. O Consumo de bens meramente materiais torna-se compulsivo, quase imparável, sem crítica. A Cultura do Prazer, da Diversão e Entretenimento arrasta multidões até à extravagância, à insensatez e à loucura. Mais ainda. O Materialismo prático, em consequência do estilo de vida extremamente pobre, mesmo até vazio, de valores e de algo transcendente e espiritual, domina, por fim, todos os recantos da existência humana. Em termos civilizacionais, ficamos preocupados  com o nosso futuro.

Atrever-me-ia, no entanto, a acrescentar que o Ateísmo, propriamente dito, filosófico ou teológico, não parece ser, neste momento da nossa história, tão patente e premente.  Outra coisa é o Materialismo prático… Este é bem pernicioso…!

          Quão frequentemente se ouve: ‘Eu creio, mas não…!’

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau

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Fechar o ciclo

Concluo com esta crónica as minhas colaborações no Ponto Final.  O que coincide com o término das minhas obrigações profissionais em Macau e o regresso a Portugal. Tem-me sido muito gratificante partilhar com os leitores reflexões que julgo apropriadas a eventos que vão ocorrendo no mundo e que põem à prova as nossas convicções mais profundas.

Quando a coluna foi criada, decidi intitulá-la ‘Pensamento e Palavra’ no sentido que a interpretação que faria da actualidade seria contextualizada numa ponderação filosófica dos temas em análise.

A razão é simples. Não me é possível separar o mister de comentador do de académico e professor. Os textos dessa coluna são mais que outros que foram saindo, nos últimos trinta anos, na imprensa de Macau, o reflexo daquilo que Norberto Bobbio chamou ‘o diálogo com os clássicos’ e que tomo como meu método. Nas palavras do Mestre ‘para não nos deixarmos enganar pela aparências e não sermos induzidos a crer que a cada dez anos a história recomeça do zero, é preciso ter muita paciência e saber escutar as lições dos clássicos’.  

Na verdade tudo o que se passa na sociedade política e no relacionamento entre países e entre actores políticos tem a ver com duas ideias elementares, “poder” e “interesse”. Tudo se joga à volta deles e constitui dever do analista discernir por detrás do jorro da propaganda e da retórica onde esses dois marcos se localizam. Todos os actores políticos se afincam em conquistar poder e conservá-lo a todo o custo, para dessa forma defenderem os seus próprios interesses e dos grupos que representam. Somos seres humanos dotados de racionalidade para prosseguirmos as nossas vantagens e concretizarmos os nossos interesses. Mesmo quando se invoca o interesse do colectivo e da comunidade isso só acontece na medida em que concorrem para a satisfação dos interesses próprios.

Sou teimosamente um humanista e um democrata. Defendo que nascemos com direitos naturais, entre eles o direito à vida, à liberdade e à felicidade, direitos que nos são inatos, cabendo ao Estado assegurá-los e protegê-los. Temos por isso o direito inalienável a escolher o nosso projecto de vida, as nossas crenças, sem interferências do Estado em nome de um qualquer superior desígnio ou interesse colectivo.  

Não há circunstâncias particulares ou civilizacionais que determinem que estes direitos não sejam valores universais mas sejam apenas ocidentais. São-no, desde logo, na medida em que os países e os seus líderes escolheram fazer parte da comunidade de nações que tem corpo nas Nações Unidas e nos princípios da sua Carta. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, que delineia os direitos humanos básicos, adoptada pela Organização das Nações Unidas, em 10 de dezembro de 1948, faz parte desse legado humanista fundacional da comunidade dos povos. Não se impôs à vontade dos países; estes dentro do seu poder soberano decidiram adoptá-la e aos seus princípios.

Sou também um democrata. Entendo que temos o direito de eleger de forma livre, universal e esclarecida, os nossos responsáveis políticos por um período de tempo limitado e julgar nas urnas o seu desempenho ao fim de cada mandato. Não há líderes iluminados que se possam eximir a esse julgamento.

O século passado está cheio de exemplos terríveis de líderes que se arrogaram legitimados por um mandato divino, rácico ou de classe para governarem sem o controlo popular. Os cemitérios e as valas comuns de geografias várias estão repletos de cadáveres e ossadas dos que foram vítimas do seu ódio despudorado ao humanismo e à liberdade. Esses cadáveres e ossadas constituem um alerta brutal que a história sempre se repete se deixarmos os políticos sem controlo.

Não há circunstâncias particulares que ditem que o regime democrático está excluído porque a cultura ou a tradição não o permitem, ou pelo menos o desincentivem.

A democracia é, na definição de Abraham Lincoln, ‘o governo do povo, pelo povo e para o povo’. Governar significa servir o interesse comum, o interesse geral e não o interesse de uma classe, de uma elite endinheirada ou de um partido único sacralizado. O que não quer dizer que existe apenas um modelo de regime democrático. Na verdade têm existido vários modelos de democracia, ao longo da história. A democracia de Atenas tem pouco a ver com a democracia britânica, a democracia da França tem poucos traços comuns com a democracia americana e por aí fora.

Cabe aos legisladores constitucionais pensar e definir o modelo de democracia e o perfil institucional que mais se adapta à cultura, à identidade e às tradições de cada povo, num dado tempo. Não há constituições perfeitas como não há constituições definitivas, todas elas são trabalhos em construção.

Ao invés do que nos quiseram fazer crer os historicistas e os falsos profetas, a História não flui de uma forma linear e segura em direcção ao progresso, ao desenvolvimento e à felicidade humana. A história tem recuos, apresenta derivas, porque é uma construção humana sujeita à mudança de humores e objectivos dos homens. Demasiadas vezes os povos se deixam encantar pelo canto magiar dos falsos vates e Césares que lhes acenaram com o regresso às glórias de um passado distante ou a vingança de humilhações históricas. Esse canto magiar não foi mais que a via rápida para o totalitarismo mais despótico e brutal.

Não existe regime totalitário que perdure eternamente. Porque à medida que o poder se concentra e os líderes se isolam do conjunto da população, as suas contradições, a sua falsidade vem ao de cima. É impossível enganar um povo por muito tempo.

Concluo com três palavras de agradecimento. Ao Marco Carvalho, que me convidou para escrever no Ponto Final, ao Ricardo Pinto, amigo de tantos anos, que também na Livraria Portuguesa teve sempre as portas abertas para as iniciativas que promovi sob a chancela do Fórum Luso-Asiático, à Sílvia Gonçalves, actual editora do jornal, pela sua enorme simpatia e cuidado.

Reconhecido aos que me acompanharam ao longo destes anos nas páginas do Ponto Final e de outra imprensa portuguesa de Macau. Despeço-me com palavras de Fernando Pessoa: “Entre mim e a vida há um vidro ténue. Por mais nitidamente que eu veja e compreenda a vida, eu não lhe posso tocar”.

 

Arnaldo Gonçalves

 

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A INCAPACIDADE… de entrar dentro de si mesmo

«Nós viremos a ele e faremos nele a nossa morada». Esta frase encontra-se no Evangelho deste Sexto Domingo de Páscoa. Em muitas outras passagens do Novo Testamento se pode encontrar Jesus Cristo a declarar a presença no nosso mais íntimo do ‘Nós’ divino – Pai, Filho e Espírito Santo. Contudo, se olharmos à nossa volta, na azáfama do dia a dia e nos círculos da nossa convivência, Deus mais parece ‘um ilustre desconhecido’.  Aqui, difícil é de escapar à recordação de Jesus, de coração dilacerado e em lágrimas, ao consciencializar que a população de Jerusalém não havia compreendido a Sua mensagem de Salvação. Acabou mesmo por O rejeitar. Matá-Lo, fora cidade.

Procurando ir mais fundo. Por um lado, cai-se na conta desse afastamento ou essa frieza do homem e da mulher contemporâneos perante a realidade de  ‘Deus’. Porém, por outro, Jesus Cristo, o Senhor e o Mestre, afirma peremptoriamente não só a existência real e verdadeira desse mesmo Deus como também assegura inequivocamente a Sua presença no mais intrínseco do nosso ser,  na intimidade mais recôndita de cada um de nós. Tal aparente dicotomia faz-nos procurar explicações. No entanto, verdade seja dita, não é em Deus que se coloca a questão. A causa dessa suposta oposição está, sim, na natureza humana e, consequentemente, nas atitudes e nos comportamentos das pessoas. Contemplemos, por um momento, a sociedade em que hoje vivemos e nos movemos… Com que deparamos? Eis alguns aspectos que lhe são mais característicos, diria eu.   

O Racionalismo na sociedade actual, consciente ou inconscientemente,  está a dominar a vida e, particularmente, o modo de pensar e agir das pessoas, homens e mulheres.  Com o uso da Razão, na abundância de ideias e argumentos, tenta-se explicar tudo. A Ciência é tomada como se fosse a única via de compreensão e solução dos problemas  da existência humana.

O Pragmatismo técnico-científico como resposta às insuficiências do ser humano avassala o nosso existir quotidiano. Tudo se torna  tecnológico, mecânico e robótico. O genial Charlie Chaplin já no seu filme satírico-cómico ‘Tempos Modernos’ expressava essa realidade. Chamava-nos dolorosamente a atenção para a tirania da máquina e perca da sensibilidade humana e dos grandes valores da bondade, harmonia e beleza…

O Egocentrismo, o Consumismo e o Hedonismo grassam, como erva daninha, sobretudo, nas sociedades denominadas desenvolvidas ou ainda em vias de desenvolvimento. Numa dinâmica de movimentos compulsivos,  o ser humano está a perder tragicamente a sua liberdade interior e a fazer definhar a sua capacidade crítica.

Se assim é, fechados em nós mesmos e convencidos, enganadoramente, de que compreendemos e conseguimos resolver tudo, à nossa maneira, estamos admirados que não estejamos abertos e dispostos para encontrar a Deus!

Mais ainda. Consideremos os comportamentos humanos numa ‘sociedade de consumo’, fenómeno tão actual, e o que é que se nos apresenta? Gente dominada e compulsivamente dependente das necessidades básicas próprias de todo e qualquer ser humano, como comer, beber, dormir, vestir e ter casa o mais confortável possível. Ou ainda,  pessoas psicologicamente escravas de uma cadeia produtora de bens essenciais, que, subrepticiamente, procura forçá-las a consumir. Se assim é, somos tentados a exclamar, duramente, como Apóstolo Paulo: «Se o ventre é vosso deus…?». Muito dificilmente subimos até ao verdadeiro Deus!

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Não consigo deixar de transcrever esse diálogo, tão cheio de significado, humano e espiritual, entre Jesus e Nicodemos, um dos principais entre os judeus. Aquele que, na noite escura da sua existência,  procura, à luz da candeia, entender a vida em Deus. Às questões da sua ‘angústia existencial, Jesus, o Mestre, o Rabi, respondeu-lhe, dizendo: «Em verdade, em verdade te digo: Quem não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus… O que nasceu da carne é carne, e o que nasceu do Espírito é espírito. Não te admires por Eu te haver dito: Tendes de nascer de novo…».

 

Luís Sequeira

Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau

 

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Vida e morte de uma concessão de jogo

Jorge GodinhoNota: Este texto é de ficção. Qualquer semelhança com a realidade presente ou passada de Macau, de Portugal, do Japão ou de Singapura é mera coincidência.

 

Uma concessão de jogo, como qualquer pessoa, tem um ciclo de vida. Na origem está a decisão de uma certa jurisdição no sentido de legalizar a exploração do jogo, tomada geralmente muito a custo ou no meio de um coro de dúvidas, receios e protestos. Uma decisão assaz difícil, quase sempre forçada por uma dura realidade económica: recessão, crise profunda e dificuldades de financiamento dos cofres públicos. Em tempos de vacas magras acontecem coisas de todo «anormais», que nunca sucederiam se não fosse a grave situação de aperto. Surgem enormes aumentos de impostos, são lançados novos impostos e criadas novas fontes de receita. Como por exemplo o jogo, que, assim, a contragosto, vai passar a existir.

Não que a procura estivesse ausente. O jogo a dinheiro existe sempre: se não é legal, faz-se de modo ilegal. Pelo que os mais racionais dirão que sempre é melhor tê-lo às claras, com regulamentação e naturalmente com tributação.

Assim, com dúvidas morais, e sob o peso do estado de necessidade financeiro, lá se avança para a legalização do jogo. É preciso superar a recessão, dinamizar a economia, criar emprego e sobretudo obter receita fiscal.

A ideia da concessão de jogo começa então a despontar. São feitos estudos, são discutidos modelos e opções. Onde será localizada, quem a poderá explorar e em que termos. Se se poderá fumar nos espaços de jogo e como é que se previne o branqueamento de capitais. E quanto é que vai ser o imposto. Aponta-se para a atribuição de uma concessão em regime de exclusivo, por meio de concurso público. A concessionária terá também de executar importantes investimentos, que muito contribuirão para a dinamização do turismo e da economia.

Tudo se começa a agitar. As empresas de jogo internacionais acordam para o «mercado emergente» que se anuncia e fazem declarações públicas de apoio. Começa em força o lobbying. Surgem artigos em jornais e revistas e intervenções em conferências sobre como a nova jurisdição que aí vem deve enquadrar o jogo. Aventam-se ideias sobre quanto se deve tributar ou como deve ser estruturada a entidade de supervisão.

Posicionam-se no terreno as empresas que ambicionam obter a concessão: abrem escritórios de representação, organizam espectáculos, patrocinam eventos culturais e fazem tudo para dar nas vistas e demonstrar aos autóctones o muito que podem fazer. Com elas, o futuro será brilhante. O auge é atingido em conferências em que as muitas empresas interessadas apresentam ambiciosos projectos de arquitectura, que irão criar um efeito de atracção turística imparável, extraordinário, nunca antes visto.

O processo avança. Após longos debates e muita negociação, o parlamento aprova as leis necessárias. De seguida, o Governo prepara os regulamentos e o caderno de encargos. Tudo caminha a bom ritmo. É então lançado o concurso público. É o momento de máxima especulação e efervescência. Surge uma longa lista de concorrentes. Todos dão palpites sobre quem terá melhores hipóteses, mais capitais, melhores projectos e mais experiência.

Até que chega o dia histórico. Em conferência de imprensa, o responsável máximo anuncia o resultado: a vencedora é a concorrente ABC, Ltd. Nesse dia, as suas acções disparam em bolsa para máximos históricos. Nos canais económicos discute-se longamente o potencial financeiro deste novo mercado.

Por outro lado, para todas as outras concorrentes o momento é de derrota, de esperanças destroçadas. Foi tudo em vão. As suas acções afundam nas bolsas, causando um mini-crash. Algumas não aceitam a decisão. Avançam para tribunal, mas os litígios não dão em nada: os juízes dão razão ao Governo, visto que tudo se passou dentro da legalidade. Em pouco tempo, a poeira assenta.

Temos concessionária.

A nova concessionária dá conferências de imprensa, em que agradece bastante ter sido escolhida. Diz que se sente muito honrada e que tudo fará para cumprir integralmente os compromissos assumidos no contrato de concessão que vai assinar.

Tudo esclarecido, é a hora de começar a trabalhar. Há projectos de arquitectura e de obras, acessos, transportes, terras, estruturas básicas, um milhão de coisas para resolver, já que a nova operação será como que uma pequena cidade. E sobretudo há o problema dos financiamentos do enorme investimento que se anuncia.

Passam meses. As obras da concessionária ainda não arrancaram. Os comentadores começam a perguntar se haverá algum problema. Surgem artigos nos jornais. Nas redes sociais e nas caixas de comentários muitos afirmam que a empresa não era de confiança, que já sabiam que isto ia acontecer e que o Governo deveria agir de imediato e retirar-lhe a concessão. A concessionária tem uma agenda secreta? Quererá transmitir a concessão a terceiros e embolsar um lucro fabuloso sem nada construir? O verdadeiro objectivo seria posicionar-se para uma outra jurisdição que não a nossa? Todos perguntam o que é que afinal se passa.

A concessionária esforça-se por explicar que os atrasos se devem a motivos técnicos, a modificações nos projectos de modo a melhorá-los. Há, é verdade, também alguns pormenores ligados aos financiamentos, que se resolverão muito em breve.

Assim, é já no meio de algum nervosismo e de bastante desconfiança que finalmente é lançada a primeira pedra do edifício. Temos obra, afinal.

Passam anos. Até que, um belo dia, com pompa e circunstância, muito fogo de artifício, brindes e na presença de todas as excelências da terra, o complexo é aberto ao público. O jogo vai começar.

Acorrem multidões. No casino, os croupiers do Bacará estão muito sorridentes. Na recepção do hotel há filas intermináveis para o check-in. O centro comercial, um verdadeiro labirinto, é invadido por hordas de turistas ansiosos por novas lojas de artigos de luxo. A excitação é muita. A concessionária começa a facturar receitas muito significativas. O encaixe fiscal aumenta bastante e com isso podem finalmente avançar algumas obras públicas há muito ambicionadas.

A concessionária torna-se rapidamente no maior empregador da terra. Adquire poder e influência. Tem casinos, hotéis, restaurantes, barcos, aeronaves, dezenas de autocarros, projectos imobiliários, centros comerciais, espectáculos, um centro de convenções. Os altos responsáveis da concessionária passam a marcar presença em todos os principais actos públicos. Financiam outras actividades, dão apoios ao desporto e às universidades.

Com o passar dos anos, a concessionária adquire um estatuto sempre cada vez mais importante. É verdade que a concessão tem um prazo muito longo, de vinte anos ou mais. É uma geração; duas décadas é muito tempo. É para outros resolverem, quando essa altura chegar.

Porém, o tempo vai inexoravelmente decorrendo. O que ao princípio era muito longínquo vai-se paulatinamente aproximando. Os académicos, os mercados e os banqueiros começam a questionar o futuro. Como vai ser agora? Já falta pouco tempo para o fim da concessão. A pressão aumenta rapidamente. Todos querem respostas.

Até que o Governo, como se previa, decide anunciar que, nos termos legais, vai ter lugar um novo concurso público. Uma vez mais, um impiedoso momento de decisão vai ter de acontecer.

Perante isto, regressam em força os analistas e os comentadores. Fazem-se balanços. Avalia-se a performance da concessionária. Será que vai ter condições para continuar? Será que vai ser derrotada por concorrência mais forte?

Começam a surgir na imprensa artigos claramente ligados à concessionária, alertando para a necessidade de ter muito cuidado. Não há que embarcar em aventuras. É preciso não acreditar em promessas vãs de especuladores de fora. Nós, que estamos cá há muitos anos, somos os únicos de confiança. O Governo não pode ser ingénuo.

Torna-se muito nítido aquilo que já todos sabiam: a concessionária mudou muito, nestes anos. Antes era como que uma jovem muito elegante e bonita. Agora está mais forte, mais pesada. Fala com maior convicção, com uma voz mais grossa. Adquiriu poder.

Porém, no seu íntimo, sente-se fragilizada. Este era, desde o início, um casamento com prazo. Está vulnerável a todo o tipo de influências e exigências que lhe sejam feitas. Quer, a todo o custo, assegurar a continuidade. Quer estar nas boas graças de quem decide. Tendencialmente aceita todas as imposições que lhe sejam feitas. Tem uma aguda consciência de que pode ser «despachada» sem grande cerimónia, trocada por outras com promessas mais sedutoras. Desespera e pensa: «Não quero morrer! Quero ressuscitar e continuar no novo ciclo que se vai abrir!».

E, assim, chega a hora do novo concurso público. A concessão não vai ser prorrogada, vai mesmo extinguir-se. Voltamos à estaca zero. Com o problema de que o concurso público não é um exame do passado, mas sim uma discussão em redor de projectos futuros. A concessionária insiste em que não sejam cometidas irresponsabilidades. Porém, a comissão do concurso só vai olhar para os projectos que forem apresentados, como exige o interesse público.

E é este o ponto em que se toma a nova decisão e voltamos ao início.

 

Jorge Godinho

Professor visitante na Faculdade de Direito

da Universidade de Macau

 

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Chui Sai On em Lisboa: uma oportunidade perdida

João-Paulo-Meneses.png… Ou como não aproveitar a viagem para se deslocar a um dos países africanos do Fórum Macau é um erro e, ao mesmo tempo, um sinal da importância prática que é dada pelo governo da RAEM ao objectivo imposto por Pequim.

Chui Sai On nestes quase 10 anos saiu muito para a China e pouco para o exterior. Se é justo dizer que consolidou a presença de Macau em Pequim também não é menos verdade que, em simultâneo, esqueceu a dimensão internacional da cidade, que ainda por cima se quer afirmar como um Centro Mundial de Turismo e Lazer e pretende diversificar as fontes de origem dos turistas.

Chui Sai On foi três vezes a Portugal, mas nenhuma a Bruxelas, por exemplo. É uma falha que se possa considerar grave? Depende da perspectiva, mas o facto de Edmund Ho ter visitado Paris na primeira vez que foi a Portugal (2000) e se ter deslocado a Bruxelas na segunda (2006) diz pelo menos alguma coisa sobre as prioridades de um e de outro.

Macau não é a mesma 10 anos depois e há uma manifesta perda de importância do relacionamento europeu. É verdade que esta terceira visita de Chui Sai On a Portugal acontece três anos depois da última (entre a primeira e a segunda mediaram seis anos) mas não será uma crítica honesta dizer que ‘passaram apenas três anos’.

Também não me ouvirão dizer que ir a Portugal para cumprir a promessa, feita ao presidente da Câmara do Porto, de visitar esta cidade geminada com Macau, é um motivo fraco (ou que Sónia Chan e Alexis Tam dariam facilmente conta do recado, na reunião da Comissão Mista).

Já é menos compreensível que esta visita aconteça 15 dias depois de Chui Sai On ter recebido em Macau dois dos três protagonistas com quem se encontrou agora em Lisboa: o presidente Marcelo e o ministro dos Negócios Estrangeiros Santos Silva.

Provavelmente um acaso cósmico destes não voltará a acontecer até porque, imagino, numa situação semelhante, a visita a Lisboa seria adiada uns meses. Mas, pronto, se aconteceu é porque não havia alternativa (vêm aí eleições em Macau e em Portugal) e não se fala mais do assunto.

O motivo que me leva a afirmar que esta visita do Chefe Executivo a Portugal não faz sentido é outro: já que viajou 11 mil quilómetros, custa-me a perceber porque é que Chui Sai On não aproveitou para visitar um dos países africanos que pertencem ao Fórum Macau. A menos que haja alguma surpresa de última hora (completamente inesperada, insisto), o Chefe Executivo terminará 10 anos de Governo sem visitar qualquer um desses países.

Como é que Macau se quer afirmar como uma ponte entre a China e os países de língua oficial portuguesa sem que o seu representante máximo os visite pelo menos uma vez, ao longo de 10 anos? Não seria possível ir a todos? Ok, mas seria possível ir a alguns. Se não faz sentido ir ao Brasil, pela distância e porque, na prática, o Brasil não está no Fórum, ok, deixemos o Brasil de fora.

Mas, do meu ponto de vista, fazia todo o sentido Chui Sai On ter ido por exemplo a Cabo Verde. É verdade que as obras promovidas por David Chow não estão prontas (parecem, até, estar atrasadas), mas há muito que Cabo Verde mostra um empenho especial nas políticas do Fórum Macau. Seria fácil organizar uma visita, levando empresários, visitando as obras do resort de David Chow e anunciando algum tipo de cooperação com o arquipélago.

Detalho Cabo Verde pelas razões expostas, mas o Chefe Executivo teria outras hipóteses de, com a sua presença, divulgar as ideias do Fórum, tornando-se seu porta-voz e contribuindo para dar um impulso que todos sabem ser necessário mas que não surge [o argumento que Macau apresenta em sua defesa é o aumento das trocas comerciais desde 2003 – mas quanto desse aumento se deve realmente à existência do Fórum e não do movimento natural das coisas, da abertura dos mercados, da globalização e sobretudo… do papel da China como supermercado do mundo e próxima super-potência?].

Se por alguma razão que me escapa, Chui Sai On não queria ir a Cabo Verde, poderia em alternativa deslocar-se a Angola (o parceiro com mais potencial) ou mesmo Moçambique, levando, aqui, uma mensagem solidária e algum apoio financeiro à reconstrução do país.

Se Macau estivesse realmente empenhado em promover este Fórum, algumas destas viagens já se teriam realizado. Se Macau estivesse apostado em deixar de tratar do Fórum como burocracia ou apenas uma missão imposta pela China, os contactos bilaterais com África teriam passado a ser normais.

(E, sim, Edmund Ho visitou Moçambique em 2002 e já como vice-presidente da Conferência Consultiva do Povo Chinês visitou Angola em 2012).

PS – Analisando a visita que este fim de semana terminou em termos relativos, é justo dizer que correu bem melhor do que a última e que acabou por ter ‘sumo’. É verdade que dela não resultaram compromissos tangíveis e que as ‘promessas’ de cooperação feitas por Chui Sai On terminam em Dezembro, aquando da posse do seu sucessor, mas para os parâmetros destas visitas, penso que o Chefe do Executivo tem razões para regressar a Macau satisfeito.

 

João Paulo Meneses

Jornalista e docente universitário

putaoya@hotmail.com

 

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‘AMAI-VOS UNS AOS OUTROS ’

Neste Domingo, ainda vivendo o espírito de Cristo Ressuscitado, ouvimos o Senhor Jesus a dizer-nos: «Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros». Esta conclusão é precedida, ao mesmo tempo, por uma outra afirmação que nos revela de que estamos diante de uma realidade diferente e original: «Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros».

Jesus Cristo ao falar do Amor e, muito particularmente, do amar como Ele nos amou, apresenta-se Ele mesmo, antes de mais, como modelo. Com a sua própria vida,  vai mais longe e dá-nos o exemplo perfeito e acabado de como ‘amar o outro.’

Percorrendo os Evangelhos e meditando as palavras e obras de Cristo Jesus sobre esse ‘amar o outro’, eis que ressaltam alguns aspectos que ajudam a entender com maior profundidade tal mandamento. Entendimento esse que nos poderá, também e como consequência, levar a uma prática que permitirá aos outros de nos reconhecerem como entre os verdadeiros seguidores de Cristo, os   chamados «meus discípulos».

«Perdoai…». Perdoar setenta vezes sete ou dar a outra face a quem nos bate ou dar tudo o que possuímos a quem nos tira até o essencial é característica inconfundível de todo aquele que é possuído pelo amor,  pelo amor divino. É certo que, na altura, a natureza humana range e revolta-se perante tais situações de injustiça. Contudo, o amor tem a capacidade de superar essas forças imediatas, naturais e instintivas. Jamais alguém conseguirá alcançar a liberdade interior que lhe permitirá ultrapassar tais inclinações, ditas normais, naturais e muito humanas, se não for tocado ou tocada pela força do amor, que tem tanto de humano como de divino.

«Amai os vossos inimigos…» continua o Mestre. Dificilmente o pensamento humano, por mais perfeito que seja, consegue defender este princípio como regra de vida. Mas, Jesus Cristo é peremptório e cortante ao afirmá-lo. Mais do que isso. Ele dá testemunho com a Sua própria vida. Nu como um facínora, foi cravado na Cruz e aí, perdoando a todos,  morreu pelos seus inimigos.

«Dar a vida pelo amigo….». Descendo ainda  mais ao íntimo de nós mesmos. A consciência humana percebe e a sabedoria dos povos compreende que o supremo acto de amor é morrer pela pessoa amada. E mais uma vez aqui temos o Senhor Jesus pregado na Cruz, no alto do madeiro.  O acto mais sublime do Homem-Deus, o Deus feito Homem. Chamando a todos amigos, desde santos a pecadores, homens ou mulheres, de todas as raças e feitios, por todos morre. Por Amor, na Cruz, em extrema fragilidade, a todos salva.

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Tomemos, agora, as palavras de Jesus Cristo «amai-vos uns aos outros», por uma outra perspectiva, a do ser humano. Homens e mulheres estão eles preparados para aceitar o convite do amor e de o seguir? Com  o auxílio da Psicologia de Profundidade, entendo que, na relação humana, há situações muito próprias que podem bloquear o comportamento humano e, portanto, não facilitar a comunicação entre os indivíduos e, assim, tornar tudo bastante mais complicado quando se fala de «um mandamento novo: amai-vos uns aos outros».

Há uma situação no foro psicoafectivo, há muito formulado pelos fundadores da Psiquiatria, que se denomina ‘transferência’ ou ‘projecção’ que pode deformar enormemente as relações humanas e, muito concretamente, as relações de amor. E, por mais incrível que pareça, até a relação com Deus. Mas não se presta a devida atenção! Ou é incrivelmente ignorada!

Com muita ignorância e profunda inconsciência da maioria das pessoas, mesmo as mais cultas, elas não se apercebem que, numa situação concreta e imediata,  estão, afinal, a actuar por razões muito subjectivas, do foro psicoafectivo e emocional. ‘Projectam’, tanto e tão só, aquele mundo de afectos desordenados e, sobretudo, feridos escondidos nas cavidades recônditas do seu coração, do seu ser mais íntimo.

Caminhando ainda mais fundo. Diria, em termos simples e mais directos, o nosso passado, mesmo já desde a concepção, vem connosco, acompanha-nos. Muito mais do que queremos aceitar, ele actua sobre nós e, por isso, se ‘projecta’ muito subtilmente nas nossas acções presentes. Nós ‘projectamos’ nos outros, muito mais do que imaginamos. Os outros, ao contrário, acabam por ser como que uma revelação de nós mesmos.

Daí, as palavras de Jesus Cristo «amai-vos uns aos outros», em verdade, só se tornarão uma realidade em cada um de nós, quando tivermos um coração transparente e livre.

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau

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A cidade espectáculo

Theme Hotel

CREDITOS: Montagem de Maria José de Freitas

Já temos o Venetian, o Parisian e está a chegar o Londoner. As reflexões que passo a expor vêm a propósito…

Com a liberalização do jogo, a partir de 2002, a cidade passou a viver presa entre duas ‘driving forces’: por um lado os casinos, os turistas e as indústrias de entretenimento onde assentava, e ainda assenta, a sua sobrevivência económica; por outro lado, a sobrevivência identitária baseada na tradição cultural, na história, no património onde pontua o facto de o seu centro histórico estar incluído na lista de património mundial pela UNESCO, desde 2005.

A imagem urbana tem sofrido alterações em resultado da substituição do paradigma de “cidade de cultura”, fomentado nos últimos anos da administração portuguesa, por um novo conceito de “Asian Las Vegas”, passando o património a constituir um valor adicional para diversificar e promover a imagem de Macau.

Associada à recente vertente jogo, perfila-se uma outra, mais ligada a atividades de exposições e conferências, beneficiando das vastas áreas que os pódios das torres hoteleiras libertam. Assim, a Indústria de Convenções e Exposições de Macau, na sigla inglesa MICE, tem atualmente uma maior representatividade, para a qual contribuiu também o aparecimento de restaurantes com cozinha diversificada e de diversas nacionalidades. Com esta panóplia e diversidade os visitantes passaram a ter cada vez mais oferta e o espectáculo continua!

Actualmente, a cidade de Macau aparece associada a outras cidades da zona, caso de Hong Kong, Zhuhai, Shenzhen, ou mesmo Cantão, como um “espaço de excepção” de características únicas, existindo uma maior abertura e permissividade na concessão de vistos para os cidadãos chineses que pretendam visitar a cidade.

A concessão de licenças de exploração do jogo, ligadas a novos ‘stakeholders’ traduziu-se num significativo aumento da população, que passou a integrar gente de diversas nacionalidades, incluindo especialistas em áreas ligadas ao jogo e afins, bem como mão-de-obra de serviços para as novas unidades de lazer e hoteleiras.

Em resultado dessas políticas a cidade tem vindo a expandir-se gradualmente. Segundo os dados da Direcção de Serviços de Estatísticas e Censos, Macau tinha, em 31 de Dezembro de 2018, uma população de 667.000,00 habitantes. A área chegava a 32,9 Km2, em resultado dos novos aterros e a cidade recebia anualmente cerca de 36 milhões de visitantes.

Após a liberalização do jogo, e com o advento de novos paradigmas, a imagem da cidade alterou-se substancialmente, reforçando o estímulo do jogo e passando a sugerir ambientes com ele conotados, à imagem do que acontece com os casinos de Las Vegas (Simpson, 2012).

Enquanto isso, o património existente convidava a outro tipo de experiências e reflexões, designadamente na península de Macau. Começou a notar-se, então, um movimento no sentido de proporcionar aos turistas e visitantes uma experiência que fosse para lá do jogo e que passou a consistir numa visita ao património incluído no centro histórico da cidade.

De elemento estruturante o património passou a ser mais um elo na cadeia da diversão e o espectáculo continuou!

Rapidamente as grandes cadeias comerciais se aperceberam da oportunidade do momento e, na zona do centro histórico, paulatinamente, temos vindo a assistir à gentrificação das ruas, ruelas e pátios que, anteriormente, se dedicavam ao comércio local.

A acessibilidade aos diversos locais patrimoniais passou a fazer-se com dificuldade. O tráfego automóvel e os transportes públicos descoordenados contribuem para originar enormes filas de espera e os monumentos são afetados pela poluição permanente.

Atendendo ao ritmo de construção imparável e à inexistência de um Plano Diretor, o Centro Histórico está ameaçado pelas novas urbanidades que levam à construção de edifícios cada vez mais altos, rodeando o centro e asfixiando-o, deitando por terra os eixos visuais que permitiam a sua vivência e estavam na raiz da singularidade da sua implantação entre dois universos: dum lado o Porto Exterior, aberto ao Mundo e, do outro lado, o Porto Interior, aberto à China Continental.

A Avenida Almeida Ribeiro, rasgada em 1915 com o intuito de ligar a zona do Porto Interior ao Porto Exterior, que possuía a visão da água de extremo a extremo, após a construção dos novos complexos de jogo – Casino Wynn a SE e Ponte Cais 16 a NW – foi amputada da visão do estuário do Rio das Pérolas, destruindo a importante simbologia que representava para os cidadãos chineses.

Mas o espetáculo tem de continuar e já que na península a sua expansão está condicionada a solução foi transferir os novos complexos de turismo e lazer para a zona localizada entre as ilhas de Coloane e Taipa, convenientemente denominada COTAI a partir das primeiras sílabas de cada um dos nomes. Inicialmente projetada como área habitacional para cerca de 150.000 habitantes, o novo COTAI acabou por ser convertido numa nova área de representação, consolidação dos casinos e atracção de massas.

Macau tornou-se, assim, numa paisagem de consumo, integrando turismo, jogo e património, em que os grandes complexos ligados à indústria do jogo e entretenimento competem entre si, recriando ambientes ligados ao jogo e já testados em outros locais.

Estes complexos, desenvolvidos como “grandes espaços de representação”, são facilmente identificáveis com marcas internacionais conhecidas, e reconhecíveis, de forma a atrair uma maior clientela.

Os espaços de consumo apelam a um imaginário longínquo e fantasiam o Ocidente no Oriente, numa quimera onde tudo passa a ser possível. A sorte também!

“The show must go on” e o Londoner, numa aproximação ambígua, vai acompanhar o Venetian e o Parisian numa espécie de “Europa dos Pequeninos” no COTAI STRIP que os acolhe, contribuindo para fomentar a ilusão.

 

 

 Maria José de Freitas

 Arquitecta | ICOMOS-SBHSG

 Doutoranda DPIP3-UC.PT

 mjf@aetecnet.com

 

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