UM PARAÍSO GELADO E SEM ‘SUNSET’

Bagagem de Mão

Sara Figueiredo Costa

Pelo que me contam, ir a banhos em Macau não é a ideia mais saudável deste mundo, apesar de haver praia e meteorologia para tal. Desculpem-me, portanto, os leitores com saudades de praia sem riscos sanitários, mas deste lado do mundo estamos no tempo de veranear e mesmo quem ainda não teve férias já andou pelo areal três ou quatro vezes, pelo que a crónica deste mês será dedicada à praia. Esqueçam-se todas as modas instantâneas, e frequentemente idiotas, que aparecem hoje e morrem amanhã (as ‘selfies’ com os pés na areia, as festas ‘sunset’, como quem acabou de inventar o pôr do sol, a necessidade absoluta de engolir gin com sabores tão estapafúrdios que um dia destes vamos ver bolo do caco a flutuar na água tónica…) e regresse-se a Ramalho Ortigão e ao seu livrinho “As Praias de Portugal – Guia do Banhista e do Viajante” (há boas edições fac-similadas pela Internet, é uma edição recente da Quetzal).

Ortigão não era a pessoa mais bem-disposta da sua época e esse humor rezingão nota-se nestas páginas, mas haverá poucas impressões tão certeiras quanto estas sobre a nossa costa e sobre as coisas que lá se passam na época estival. É certo que a primeira edição é de 1876, pelo que já ninguém vai para a praia de carroça, ou vestido até ao pescoço, mas a natureza das relações humanas, os comportamentos de quem se julga o bom selvagem só porque está de férias e os vícios do quotidiano levados para o areal continuam iguaizinhos. Na Granja, zona balnear perto do Porto, o autor disserta sobre a pouca vontade de sossego que os banhistas em férias realmente têm, insistindo no absurdo de quererem manter uma vida social frenética: “De modo que é absolutamente impossível passear só, ficar em casa, fechar a porta, prescindir das relações, abstermo-nos da convivência, dispensar a companhia, por um dia, por um só dia, que seja.” (p.104). E em Lisboa, sempre sem perder o tom assertivo e prático de quem escreve um guia, deprecia quase tudo com um desprezo elegante, proclamando que veranear em Sintra, com as suas praias, aldeias e paisagens serranas, é “das poucas coisas boas, úteis, higiénicas, moralizadoras, que um lisboeta pode permitir-se o luxo de gozar pelo preço de uma das suas libras” (p.126). Estará certo o autor quanto à boa vida de Sintra por comparação com a capital, sempre tão cheia de si (e agora tão cheia de turistas e hotéis a convencerem-nos de que foi bom a imprensa estrangeira ter-se engasgado com tanta tinta a anunciar que esta era a melhor cidade do mundo para visitar), mas fica-nos a dúvida sobre a moral. É que “As Praias de Portugal” está cheio daquelas considerações sobre a ‘condição feminina’ que só desculpamos por causa da lonjura da cronologia, e mesmo assim, de mau grado, pelo que fica a pairar um certo desconforto ao pensar no que raio haverá de moralizador numa ida a Sintra. Os travesseiros da Piriquita? O pão saloio? É verdade que um lisboeta apreciador de praias que não pareçam enclaves de areia e água à beira de cidades de urbanismo duvidoso, ou que não sejam uma espécie de rio disfarçado de mar, saberá que as praias de Sintra são as melhores, sem hipótese de argumentação. O nevoeiro que tanto pode chegar da serra às quatro da tarde, levando consigo todo o sol, como estar instalado no areal logo pela fresca, é apenas um detalhe. A água capaz de congelar instantaneamente o sistema nervoso central, e tão salgada que pode curar um lombo de peixe-pampo mesmo antes de este ser pescado e fatiado, é uma bênção que só quem viveu em Sintra as férias de Verão da sua infância pode perceber como a mais maravilhosa de todas as águas.

Falar das praias de Sintra ao mundo resolveria de uma vez os problemas da enchente turística e a mania dos ‘sunsets’: se todos os turistas aqui estendessem a toalha, convencidos pelas palavras de um qualquer jornal internacional acerca das maravilhas desta costa, regressariam ao aeroporto devidamente gelados e não pensariam em esgotar os espaços públicos tão cedo, ficando apenas aqueles que soubessem perceber que o paraíso não tem de ser feito de areias quentes, festas sonoras na praia e cocktails coloridos – há arribas selvagens, um ar puro e forte, daquele que limpa os pulmões, e umas quantas vilas e aldeias onde ainda se come pão a sério e se bebe vinho da pipa sem ser preciso uma carta de sabores… Por outro lado, a frequência das praias de Sintra haveria de dar um fim rápido e cruel à tontice das ‘sunsets parties’. Por estas bandas, ver o pôr do sol é uma sorte reservada apenas aos dias sem névoa. E apesar disso, ele põe-se, todos os dias. Se isto tudo soar, de algum modo, a mau humor, regresse-se a Ramalho Ortigão para tirar a teima.

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Factos, argumentos e afirmações

*Ana Paula Dias

O termo “facto”, do latim factus, faz referência àquilo que acontece, à ação, circunstância ou assunto de que se trata. Considera-se um facto aquilo que tem por base a experiência, que é empírico ou experimental. “Argumento” deriva do vocábulo latino argumentum; consiste no raciocínio que se utiliza para demonstrar ou comprovar uma proposição ou para convencer outra pessoa daquilo que se afirma ou se nega. O argumento exprime um raciocínio, que permite justificar algo como razoável, com duas finalidades possíveis: persuadir outro sujeito (para promover uma determinada ação) ou transmitir um conteúdo com sentido de verdade (fomentando o entendimento). Os argumentos devem ser coerentes, consistentes e não apresentar contradições. Só assim o locutor conseguirá cumprir os seus objectivos; caso contrário, arrisca ser contestado ou rejeitado pelo recetor. Finalmente, “afirmação”, do latim affirmatĭo, é a ação e o efeito de afirmar. A afirmação reflete um assentimento relativamente a uma crença que é considerada válida por evidências ou certezas. É possível considerar diversos graus ou tipos de afirmação, segundo a consciência sobre a veracidade daquilo que é afirmado: neste sentido, as afirmações podem ser opiniões, decisões, apreciações, etc. As afirmações associam-se a tudo o que é dito por uma pessoa. Afinal de contas, aquilo que é posto em palavras constitui uma extensão daquilo que o sujeito pensa – expressões como “Na minha opinião, o presidente não faz um bom trabalho”, “O bacalhau à Brás é o meu prato favorito” e “Saí de casa às oito da manhã e cheguei ao trabalho às nove” são exemplos de afirmações proferidas por um indivíduo.

No ano de 2015 (à semelhança, aliás, do que já acontecia nos anteriores) proliferaram, nas notícias locais, afirmações procedentes de diversas entidades sobre o “crescimento exponencial” de aprendentes de português na China, fazendo manchetes no mínimo mensais, reproduzidas depois em jornais de Portugal e nas redes sociais, celebrando a grande procura da língua portuguesa não apenas em Macau, mas também na China. Tendo em conta a população deste país, estimada em aproximadamente 1 375 043 171 de pessoas, todos nos congratulamos com o universo incomensurável de pessoas que apostam no idioma luso por lá e com o reconhecimento da sua importância e vitalidade.

O número 8 da revista digital Portu-nês (http://www.portunes-online.com/), que nasce de um interessante projeto de criar uma plataforma online que permita à rede de professores e estudantes de língua portuguesa na China estar em contacto permanente, partilhar informações, opiniões, preocupações, problemas, é uma edição especial precisamente dedicada à apresentação de dados estatísticos sobre o “Português Língua Estrangeira na China em Números”. Esta edição disponibiliza o Número Total de Estudantes e Docentes, o Número de Estudantes por Instituição, o Número de Estudantes Admitidos por ano lectivo, o Número de Docentes Chineses, o Número de Docentes Estrangeiros e um Mapa Interativo com a distribuição geográfica dos aprendentes de português por região. Trata-se de uma iniciativa louvável, mais a mais por ser particular e pelas dificuldades em manter um projeto desta envergadura, sem apoios oficiais que o sustentem. Inegavelmente, são os números que nos dão um panorama desta realidade aliciante tão amplamente difundida nos meios de comunicação social.

Vejamos então alguns desses números: entre 1960 e 2015, ou seja, ao longo de 55 anos, houve um total de 3798 pessoas a aprender português na China. Os anos de 2008 a 2014 são aqueles em que se verifica efetivamente um aumento na procura de cursos de português, com uma média anual de cerca de 380 estudantes. Em 2015, há um total de 140 alunos de português no país, distribuídos por cursos de bacharelato, licenciatura e mestrado.

Surpreendente? Talvez. Mas retomem-se as definições dos termos apresentadas no início – contra factos não há argumentos. Apenas afirmações. E muito trabalho a fazer.

*Doutoranda na Universidade Aberta

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Uma obra que honra a história de Macau

[Putaoya]

João Paulo Meneses

A recente publicação dos quatro volumes da “nova” Cronologia da História de Macau é um facto que merece os maiores elogios – à autora e ao editor (e, já agora, aos patrocinadores).

Trata-se de uma obra monumental, como monumental é a história de Macau. E se monumental não é a palavra que melhor descreve a riqueza, diversidade e extensão desta mesma história é apenas por me faltar outra melhor.

Se há uma área do conhecimento, em e sobre Macau, na qual podemos estar todos de acordo é sobre a história – a história que os portugueses ajudaram a construir ao longo de 500 anos.

E entre a vastíssima bibliografia relacionada com a história de Macau faltava uma obra como esta.

Claro que havia os cinco volumes da “Cronologia da História de Macau” que Beatriz Basto da Silva foi publicando entre 1992 e 1998. Mas, além de estarem esgotadíssimos (sobretudo os primeiros), estavam bastante incompletos.

O que agora fez a autora, juntamente com Rogério Beltrão Coelho, da Livros do Oriente, foi completar com mais informação (com mais critério), dar uniformidade à obra e juntar-lhe um conjunto de preciosos índices, que – tudo junto – tornam a caixa em que é vendida a “Cronologia da História de Macau” uma obra de absoluta referência.

É a cronologia definitiva da história de Macau?
Não é nem podia ser.

Não é porque qualquer leitor pode contestar determinada ausência ou a insistência em determinado tema (por exemplo, há muito pouca atenção a factos históricos relacionados com a economia na segunda metade do século XX).

Mas também não podia ser porque uma cronologia dificilmente é definitiva. E não é por o tempo a desactualizar rapidamente. É porque novas fontes (uma investigação histórica ou jornalística, um livro de memórias, etc.) trazem novas informações.

As ‘imperfeições’ não diminuem esta obra.

Os quatro volumes da “Cronologia da História de Macau”, desde o século XVI (a autora até começa antes, mas é a partir de 1510 que temos história em Macau [1510, o ano a partir do qual se dá o início da história moderna da China, segundo Jing Guo Ping e Wu Zhiliang, como lembra a autora]) até 20 de Dezembro de 1999 passam a ser obrigatórios para todos quantos escrevem sobre Macau.

Ou como diz Luis Filipe Barreto a fechar o prefácio, “todos os que sentem e pulsam Macau (…) estão agradecidos à autora de um trabalho árduo mas essencial para a objectiva compreensão desta terra e das suas gentes do passado, presente e futuro”.

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Divagações em tempo de férias

[Dinâmicas e contextos da pós-transição] 

O período de férias e, essencialmente o mês de Agosto, tem sempre este efeito neutralizador que nos coloca um pouco distantes de tudo o que se passa no mundo para nos concentrar na nossa vida mais intimista que é o prazer de passar férias, claro nem sempre aplicável a todos porque simplesmente não as têm ou escolheram períodos diferentes.

Passamos a estar mais tranquilos ao sabor das brisas e do sol que nos vai apaziguando, quer a mente quer o corpo e um secreto sussurro que vamos interiorizando com um «viva o descanso».

Perante uma pré-campanha eleitoral que se vai desfilando sem qualquer nota digna de registo e uma crise na Grécia e na Europa que se vai esfumando em termos de interesse porque, já nem nos interessa saber se a Grécia sai ou não sai do Euro, todos temos a noção de que as coisas não vão melhorar, pelo menos aqui na Europa e em Portugal, refugiamo-nos no nosso mundo e libertamos a nossa euforia em poder ao menos ter alguns dias de descanso.

Macau, pelos vistos, vai também tecendo os seus pontos de inflexão, para não dizer desilusão, a crise imobiliária que não se desvanece, os terrenos que não se sabe bem o que fazer deles, os deputados que anunciam candidatar-se ao hemiciclo de S. Bento como se noticia fosse e outras intrigas palacianas que se vão instalando, para além de Hong Kong que troca os chapéus-de-chuva por sutiãs como símbolo da contestação, isto para não falar da queda das receitas provenientes do jogo com os efeitos que daí poderão ocorrer para a pacata e simultaneamente turbulenta vida em Macau.

Perante estes cenários imbuídos no nosso espírito de férias conseguimos abstrair-nos dessas realidades, pelo menos por um tempo, para voltar a ter a nossa vida de volta e que bom que é.

Coloco por vezes esta questão a mim mesmo, que é o de saber se não poderíamos estar mais vezes envoltos desse mesmo espírito, já que o que nos rodeia não passa, provavelmente, de uma ilusão mediática ou virtual lançada pelos jogos de poder e que interferem no nosso quotidiano de afazeres.

O mundo gira independentemente das crises e das notícias, podemos viver com elas ou sem elas e quem sabe até trocar de perspectivas, o que em boa razão é o que fazemos nestes dias de Agosto, apenas trocámos as perspectivas. O mundo como nos contam continua lá mas também temos o direito a ignorá-lo, porque não?

A ausência substantiva desta crónica revela que por vezes também é bom, nada ou pouco dizer, porque queremos e temos o direito de esquecer ou ignorar o que é considerado importante por quem gere o poder.

Retomarei obviamente algumas das grandes e pequenas questões que se aproximam e que prometem acalentar este final de ano muito profícuo em temas eleitorais, isto se a razão me auxiliar, porque em boa parte a ligação entre Macau e Portugal ainda passa por aquilo que os nossos governantes (daqui e daí) possam vir a prometer ou a delinear em termos de acção governativa, pelo menos assim espero.

E como o sol não se esconde e a brisa sopra favoravelmente, fica o desejo que todos possam usufruir deste momento tranquilizante onde as férias são mais importantes que o mundo que nos rodeia. Viva o descanso.

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(o texto não segue o acordo ortográfico em vigor)

Carlos Piteira

Investigador do Instituto do Oriente

Docente do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas / Universidade de Lisboa

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Agosto das Mudanças

[Sinologia Portuguesa]

ANA CRISTINA ALVES

blog.udn.com/jadechen123/1272424

O título tem um sabor a Clássico das Mutações (yi jing 《易經》), o que é normal dado o período do ano: estamos em Agosto, um mês particularmente quente e húmido, sobretudo no Sul da China. Em Agosto as essências feminina (yin陰) e masculina (yang陽) misturam-se com mais apetência e vigor, a fazer fé na verdade poética das palavras de Tian Yuan (田原), exposta num longo hino ao “mês oito”, do qual retenho apenas o que do ponto de vista filosófico é essencial: os versos iniciais e finais do poema.

八月

八月是爆炸的星星

它恆久的光芒和熱在地表上泯滅

八月是一隻沉船

在水底被水草簇擁成魚兒們的宮殿

八月是一隻瘋狗

它咬斷繩子跳越墻的地上

在陽光無遮無攔狂咬

(…)

八月是情欲氾濫的季節

八月是黃昏在河裡裸泳夜晚在涼席上裡睡的處女

八月是時間與時間、季節與季節的水嶺

(2006: 132)

Agosto

O mês de Agosto é a explosão das estrelas

tendo sido apagados o seu brilho e calor na terra

O mês de Agosto é um barco naufragado no mar

tornado num palácio rodeado por peixes e algas

O mês de Agosto é um cão enlouquecido

que mordeu as amarras e saltou o muro

ladrando ao sol nu

(…)

O mês de Agosto é a estação plena de paixão sexual

O mês de Agosto é a virgem adormecida na esteira depois de nua nadar no rio

O mês de Agosto demarca o tempo do tempo

e a estação da estação

Tian Yuan (1965) é um poeta e investigador sensível aos ritmos naturais. Agosto é um tempo especialmente lento no Sudeste Asiático, porque as pressas e sobressaltos ficam todos a cargo dos tufões. A natureza, incluindo a nossa física, aproveita os intervalos das tempestades para se expandir em harmonia com a brisa suave que se levanta ao entardecer.

Agosto prepara a mudança para um novo ano. É uma suspensão no tempo normal dos múltiplos trabalhos e afazeres, que proporciona a concentração e a atenção ao corpo. Daí Tian Yuan nomear Agosto a “estação sexual.”

Em Setembro regressa o tempo do costume, dos grandes planos, das macro e micro estratégias, do estudo e investigação intensivas para melhorar ou piorar o mundo em que vivemos.

Agora reina a lentidão, depois virá a correria habitual. E quem trabalha em Agosto? Rema contra a corrente. Tem sono, cabeceia, arrasta o corpo, porque enfim contraria a natureza.

Nem só de prazer vive o homem, e muito menos a mulher, mas na estação do dito, contrariá-lo é quase um pecado capital.

Embalada pelo poema e pelo final ameno deste dia de Agosto, constato que os chineses voltaram a estar mais atentos aos ritmos naturais, e a atenção já começa a extrapolar o mundo poético. Os mais jovens preocupam-se seriamente com a qualidade de vida. E muitos escolhem como modelo existencial os nossos ritmos europeus.

Eles continuam a viver na Ásia, melhor dizendo na China, mas os seus sonhos levam-nos a viagens literárias pelas Américas, do Norte e do Sul, por África e pela Europa, como pude constatar pelos trabalhos pedidos a uma das minhas turmas de Mestrado. O tema eram as viagens, realizadas por escritores chineses, que eles consideravam dignas de registo.

Na Europa destacaram o suave fluir da vida: da Grécia, a indolência que consideraram muitíssimo salutar. Mas também louvaram a lentidão de certas cidades do sul da Europa, por exemplo as italianas, que cultivam um modo de vida propositadamente calmo, donde são excluídas muitas fontes de poluição, tais como veículos a gasolina.

Os jovens estão a mudar na China e não resisto a terminar com uma passagem da literatura de viagens que uma das minhas alunas, Rui Mengqing (芮梦晴), escolheu ao traduzir de Chen Jade Y. (陈玉慧), um artigo intitulado: A nova filosofia em cidades europeias: Lentidão (欧洲城市新哲学)

Em certas pequenas cidades europeias nasceu silenciosamente uma nova filosofia urbana, cujo nome é: lentidão. Após o lançamento de slow food na Itália há muitos anos, o movimento de cittaslow está em ascensão gradual. Ainda com origem na Itália, cittaslow é a versão avançada de slow food. Atualmente, 42 cidades italianas já se declaram cidades lentas, enquanto mais de uma dúzia de cidades de países europeus como a Polónia, Portugal, a Alemanha, França, e Inglaterra também se incluem nesta filosofia. Já surgiram cidades lentas até em países do Extremo Oriente, por exemplo no Japão e na Coreia do Sul. A maioria destas cidades europeias constitui vilas da idade média, possuindo apenas dezenas de milhares de habitantes.

(新的城市哲学悄然在欧洲一些小城里诞生,这套哲学叫做:慢。继多年在意大利发起的慢食文化后,慢城运动也逐渐兴起。慢城运动是慢食主义的发扬光大,发源地仍然在意大利,目前在当地已有四十二个城市宣称是慢城,而全欧境内,包括波兰、葡萄牙、德国、法国英国已有数十几个城市加入,甚至在远东的日本及韩国也有慢城。欧洲的慢城多半是中古世纪的小城,人口只有几万人之谱。)

Se os jovens chineses estão de facto a mudar é previsível que se verifique um abrandamento do crescimento económico na China, para além do que já está a suceder em Macau e em muitas outras zonas chinesas, sendo o resultado duma transformação de mentalidades na juventude conquistada pelo ritmo de Agosto.

Bibliografia

Sá Cunha, Luís (Coord.) 2006. Poetas e Poemas. Vozes Poéticas Contemporâneas da Lusofonia e da China. Trad. Yao Feng e Jenny Lao, Macau: Instituto Internacional de Macau, Fundação Jorge Álvares e Centro Nacional de Cultura

陈玉慧, http://blog.udn.com/jadechen123/1272424

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Cor Sino

Márcia Souto

CORSINO FORTES (1933-2015) nasceu na ilha de São Vicente, em Cabo Verde. Licenciado pela Faculdade de Direito de Lisboa (1966), exerceu atividade profissional na magistratura em Angola, onde foi juiz do Tribunal de Trabalho de Benguela. Diplomata, atuou como Embaixador de Cabo Verde em Portugal, Espanha, França, Itália, Noruega e Islândia, entre 1975 e 1981; em Angola, foi Embaixador entre 1986 e 1989, exercendo função semelhante em São Tomé e Príncipe, Zâmbia, Moçambique e Zimbabwe. De 1989 a 1991, desempenhou o cargo de Ministro da Justiça e foi Presidente da Fundação Amílcar Cabral. Poeta, publicou a trilogia “A Cabeça Calva de Deus” (2001, Editora Dom Quixote), composta dos livros “Pão & Fonema”, “Árvore & Tambor” e “Pedras de Sol & Substância”. Publicou recentemente o livro “Sinos de Silêncio: Canções e Haikais”, pela Rosa de Porcelana Editora. Faz parte de antologias em várias línguas, como inglesa, francesa, italiana, holandesa. Foi o primeiro Presidente da Academia Caboverdiana de Letras.

Márcia Souto

Conheci-o há alguns anos em Salvador da Bahia. Garboso em suas vestes quase sempre alvas, ele me hipnotizou. Talvez por sua calma elegante, talvez pela altivez discreta, Corsino Fortes nunca passou incólume. No dia seguinte ao encontro inaugural, o humor marcou a tónica. Fomos ao teatro, assistimos ao hilariante grupo “A Bofetada”. Entre uma picardia e outra, conferíamos se o Poeta achava graça ou se tínhamos errado na mão. E ele ria, quieto e quase desconfortável, ele ria meio nervoso diante do humor ora cáustico ora burlesco da trupe baiana. Ver Corsino rir ou esconder o riso iluminava ainda mais o momento.

Também me toma a lembrança, desta feita em São Paulo, o seu dissimulado espanto, aquando de um sarau poético na periferia da megalópole brasileira, no qual, enlouquecido, gritava um declamador: “Silêncio, silêncio para ouvir… a própria bufa”. Silêncio. Gargalhei… gargalhamos muito diante do desconserto que a “toada poética” nos provocou. Sendo Corsino o nosso mais velho, entreolhamo-nos e em seguida, em rabo de olho, olhamos para ele, que, também a gozar connosco, fazia-se de assustado. Ato contínuo ele pede a palavra e diz um lindo poema, como a elevar o astral no sarau da Coperifa.

Generoso, o Poeta Corsino Fortes não quis partir sem repartir-se, por isso, com alguma respeitosa distância, vimos o querido amigo organizar sua “hora de bai”, cabendo a nós (ao Filinto e a mim) um presente que nunca nos cansaremos de agradecer: deu-nos a honra e a alegria de editar seu último livro: “Sinos de Silêncio: Canções e Haikais”. Trata-se de um belíssimo adeus, que quisemos, modestamente, fazer também de um bonito livro um livro bonito. E creio que fizemos o nosso melhor. Igualmente quisemos celebrar Corsino nos atos de lançamento do livro, em que, emocionados, todos aplaudimos e agradecemos aos deuses pelo privilégio de termos sido contemporâneos de uma figura ímpar como o Poeta, Amigo, Diplomata Corsino Fortes, que se encantou no último julho, deixando este agosto mais agosto ainda.

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Portugal e China: estado de arte

 

Rita Assis Ferreira*

As relações entre Portugal e China, que remontam há mais de 500 anos, têm evoluído de forma muito positiva especialmente nos últimos cinco anos. Portugal tornou-se para a China o país europeu de eleição para investimentos chineses, seja de grandes empresas detidas pelos Estado Chinês, seja para particulares que desfrutam de Portugal como destino turístico ou residencial.

Portugal tem potenciado à China condições de investimento muito vantajosas, apresentando um ambiente de negócios seguro, estável e propício à criação de pequenas e médias empresas de origem chinesa. Igualmente Portugal tem-se destacado como um país repleto de oportunidades de investimentos em grandes empresas portuguesas em sectores determinantes como a energia, seguros e saúde.

Recordo-me bem há quatro anos, quando mudei a minha vida pessoal e profissional para Pequim, que Portugal era maioritariamente conhecido na China pelas suas estrelas do mundo do futebol. Atualmente os encantos de Portugal incluem as suas paisagens, o clima, o sabor da sua comida, a simpatia do povo e as oportunidades de negócio.

Claramente Portugal soube posicionar-se no mercado chinês e muito mais há ainda a fazer. Há de facto oportunidades também para os portugueses na Ásia, para aqueles que se atrevem a ir conhecer o Oriente, a aculturar-se com os empresários chineses, e investir nos relacionamentos pessoais e profissionais a longo prazo e a investir na imagem e divulgação dos produtos e das empresas portuguesas no mercado asiático. As relações entre dois países, para serem duradouras, têm de ser recíprocas. É como um casamento. Não se pode esperar que apenas um lado invista, mantenha, aprofunde a relação e receba os seus frutos. Assim corremos o risco de Portugal “passar de moda” e ser esquecido.

Noto com entusiasmo que começa a existir esta estratégia de investimento de algumas empresas portuguesas na China, o que é muito meritório. Movimento este que, a acentuar-se, permitirá às empresas afirmarem-se no mercado chinês pelos seus produtos diferenciados e pelo know how. E também elas colher os resultados a longo prazo desta grande aposta!

O que as empresas devem ter em conta ao entrar em território chinês 

O mercado chinês é complexo e multicultural devido às diferentes formas de atuação dos seus players. Desde as empresas detidas pelo Estado (as chamadas SOES), às empresas privadas chinesas com dimensão muito superior à maioria das empresas portuguesas, desde a forma de negociação mais característica no Norte da China que contrasta com o espírito comercial do Sul da China, passando pelos mercados mais abertos de Hong Kong e Macau. Todos estes aspetos diferenciadores (e nem sempre fáceis de conhecer) devem ser analisados e ponderados pelas empresas estrangeiras que pretendem abordar o mercado chinês.

O primeiro conselho será o de contactar os seus Advogados, de preferência PLMJ que conta com vasta experiência no mercado Chinês. Isto porque na nossa filosofia é mais importante e eficiente adoptar uma postura preventiva num novo mercado. Essa postura permite tirar partido da nossa experiência – e dos nossos parceiros locais – para evitar erros que, recorrentemente, são cometidos quando se entra num novo mercado. Nesse primeiro contacto, e tendo em conta a dimensão, área de negócio e parceiro local, PLMJ ajudará a encontrar a melhor estratégia de proteção jurídica do negócio, bem como poderá alertar para riscos existentes e que decorrem das enormes diferenças no ambiente de negócios na China e em Portugal, assim como as principais características do sistema jurídico chinês.

Através da parceria com DSL, em Macau, e com escritórios chineses, na China, e sendo PLMJ o maior escritório de Portugal e dos países de língua portuguesa, o acompanhamento a Clientes portugueses que queiram entrar na China é muito facilitado. PLMJ, com a sua network internacional, permite ao Cliente coordenar e acompanhar a partir de Portugal todo o trabalho realizado nos países de destino. PLMJ assume, assim, parte dos custos de localização dos seus clientes, retirando da equação questões como a dificuldade linguística, a diferença horária e a adaptação cultural, além de garantir a qualidade da prestação de serviços jurídicos ao nível do que habituou os seus clientes durante mais de 40 anos em Portugal.
PLMJ conta com uma Equipa residente de Advogados portugueses e chineses na China há mais de quatro anos estando a prestar assessoria jurídica a diversas empresas portuguesas com investimentos no mercado asiático.

* Associada Sénior PLMJ China Desk

 

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