Contar o tempo

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Aos doze anos, não percebemos as lamúrias de familiares adultos sobre o quão rápido passa o tempo. As férias tinham três meses, os fins de semana davam para tudo, a aula de matemática nunca mais acabava. Algures na cronologia, envelhecemos também e a coisa começa a ganhar sentido. Talvez a culpa seja das datas festivas com que marcamos o ano, ainda agora era Natal e parece que já aí vem a Páscoa, que também pode ser Diwali, ano Novo Chinês ou Ramadão, para o caso, é igual. Os balanços de fim de ano da imprensa também não ajudam, ainda por cima parecem aparecer cada vez mais cedo, que 2016 ainda não fechou as portas e já todos sabemos quais são os melhor discos e livros e filmes. E depois há a ciática, mas essa deixemos para outra altura, quando já conseguirmos processar por que raio há-de um nervo dar-nos cabo das manhãs quando ainda ontem subíamos a serra de bicicleta e transportávamos mochilas de muitos quilos sem um queixume. Fiquemos nos balanços (sem muita trepidação).

Valerá a pena olhar para livros e discos e filmes num ano tão aziago? É capaz de valer, precisamente por isso. Deixar 2016 ir-se embora assim não vai trazer boas memórias no futuro e sem isso, nada feito. Por outro lado, o futuro também não anda a assomar-se muito risonho para o mundo e só posso admirar a coragem de quem vai perguntar aos bonzos o que os próximos meses nos guardam …  Acreditando ou não nas respostas, melhor não saber. Guardemos alguns sons. O disco de Samuel Úria, por exemplo. “Carga de Ombro” é um disco tão atravessado pela seriedade dos temas como pela vontade de fazer deles hinos breves. Umas vezes, são hinos tão intensos como “Ei-Lo”, uma elegia espiritual capaz de colocar o mais empedernido dos ateus a cantar “Eis o rei dos réus/E que lição nos dá mesmo sem falar” a plenos pulmões, outras, serão hinos a uma espécie de contemporaneidade onde tanto nos convencemos da grandiosidade do presente como nos arrastamos, deprimidos, com a certeza de não haver grande futuro. Em qualquer dos casos, é um grande disco, a juntar a um outro que se guardará, sem que nenhuma relação se vislumbre entre ambos (a não ser a que os apocalípticos vão vislumbrar quando assinalarem a heresia de juntar dois discos tão diferentes). Falo de “Ramon Llull. Temps de conquestes, de diàleg i desconhort”, a mais recente gravação de Jordi Savall com o Hespérion XXI e La Capella Real de Catalunya, percorrendo o legado do filósofo maiorquino do século XIII com quem poderíamos continuar a aprender a curiosidade e a vontade de conhecer quem nos rodeia.

Os incrédulos duvidam, mas há livros que nos salvam. Quase nunca são as novidades editoriais e por isso pouparei papel e tinta no que a longas listas diz respeito. Em português, 2016 trouxe alguns livros que hão-de permanecer, do “Deus-Dará”, de Alexandra Lucas Coelho (Tinta da China), ao “Mary John”, de Ana Pessoa (Planeta Tangerina), passando por “A Rota da Porcelana”, de Edmund De Waal (Sextante) ou por “A Gorda”, de Isabela Figueiredo (Caminho). Apesar da boa colheita, e dos muitos títulos que ficam por referir, este há-de ser, para mim, o ano em que li “Beijing Coma”, de Ma Jian (Chatto & Windus), e sei que a imensa Praça de Tiananmen que pude ver pela primeira vez não terá sido a mesma por causa dessas páginas.

Num ano em que o cinema foi pouco visitado, sem que esta crónica seja espaço para explicar porquê, creio que é importante, ainda assim, lembrar “Cartas da Guerra” e “O Ornitólogo”, não tanto por terem sido feitos por dois realizadores com fortes ligações a Macau, mas sim pelo que acrescentaram ao que vale a pena guardar para o futuro. O filme de Ivo M. Ferreira deu-nos da Guerra Colonial uma perspectiva pouco óbvia, usando as cartas de António Lobo Antunes como matéria-prima e construindo com elas uma narrativa universal sobre a guerra, mas também sobre o amor, o modo como mudamos, a falta que os outros nos fazem e o que vamos conseguindo fazer com ela. As imagens de João Pedro Rodrigues arriscam-se a andar às voltas entre retina e neurónios durante muito tempo. São belas, intensas e desconcertantes, oferecem sentidos enquanto rasteiram certezas e garantem que é bom sair do cinema com a mente inquieta. Se calhar, também é bom sair assim de mais um ano.

 

Sara Figueiredo Costa é jornalista e crítica literária. Edita o suplemento “Parágrafo”, publicado com este jornal e escreve neste espaço uma vez por mês.

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A rebelião dos eleitorados

O homem é levado por natureza a desprezar quem o bajula

e a admirar quem não se mostra condescendente.

Tucídides

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Os últimos tempos não têm sido famosos para os simpatizantes das ideias da esquerda. Uma onda de populismo tem varrido o mundo, começando com a vitória do Brexit na Grã-Bretanha, passando pela vitória de Donald Trump nos Estados Unidos e acabando na difícil vitória do candidato do centro-esquerda nas presidenciais da Áustria.

‘Acabando’ é uma força de expressão. Se as razões dos eleitores que Churchill chamou ‘os povos de língua inglesa’ se repetirem nas eleições previstas para 2017, assistiremos a uma guinada à direita nas eleições alemães e francesas, colocando-se como hipótese possível a vitória. Se Marina Le Pen ganhar as eleições presidenciais em França, será a primeira vez que a direita nacionalista governará um país do centro da Europa, desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Num curto espaço de tempo, eleitores dos dois lados do Atlântico deixaram veementemente expresso o seu repúdio pela forma como as elites –  o ‘establishment’ –  tem governado o destino dos seus países, e permitido que os efeitos da globalização se façam sentir em toda a sua extensão. Levando ao encerramento de muitas empresas, à perda de postos de trabalho, à erosão do sentido de comunidade, em troca de aleatórias políticas de inclusão que tratam o que é diferente como idêntico.

Os últimos vinte e cinco anos de desenvolvimento da Europa e dos Estados Unidos assentaram em três ideias essenciais: economia livre e sem proteccionismos, livre circulação de pessoas, bens, capitais e ideias e um modelo de democracia liberal de pendor universal. É sobretudo à dimensão económica dominante nas duas primeiras que os eleitores disseram basta. Daí ao discurso anti-imigração foi um passo.

É importante reconhecer que as pessoas têm alguma razão para estarem revoltadas. Foram as elites que levaram à guerra do Iraque, foram as elites que trouxeram a crise financeira, foram as elites que conduziram o processo de integração europeia a um pântano.

O populismo que se instalou, entretanto, tem um sabor dual: um sabor esquerdista e um sabor direitista. Nos Estados Unidos vimos o sabor esquerdista com a candidatura de Bernie Sanders às primárias democratas. Vimos o sabor direitista com a candidatura de Donald Trump e a sua vitória impressiva sobre a candidata do ‘establishment’ Hillary Clinton. Uma vitória contra todas as previsões que catalogaram Trump como o presidente improvável.

Estes tipos de políticos são familiares à história do Ocidente. Como lembrava o historiador Niall Ferguson numa conferência recente em Nova Iorque, encontramos personalidades deste jaez no fim do século XIX fazendo o mesmo tipo de discurso anti-globalização e anti-imigração, captando apoios significativos em eleitorados descontentes com o status quo. Só no fim desse século tivemos volumes de imigração tão significativos como os que temos neste momento. E isso perturba naturalmente as pessoas criando medo e desconfiança e levando as pessoas a usar a única arma que têm para punir os políticos: o voto.

Tomá-lo como regresso ao fascismo da década de 1930 é contudo perigoso e incorrecto. Porque iliba de responsabilidades quem nos trouxe até aqui. Porque confunde realidades que são axiologicamente diferentes: o nacionalismo e o fascismo. O nacionalismo propugna a identidade singular da nação, a defesa das indústrias do país, a preferência pelo produto nacional, a redução das importações e o proteccionismo económico e comercial. O fascismo defende uma cultura de uniformes, de paradas militares e populares, de rearmamento, de vingança de humilhações do passado e a tempo o aventureirismo militar.

Os políticos nacionalistas não são militaristas e belicistas. Os populismos não estão interessados nisso. Querem isolacionismo, impor taxas aos produtos estrangeiros, sair de acordos de comércio livre que entendem lesivos do interesse nacional, acabar com alianças militares que têm custos proporcionalmente elevados e punir as elites beneficiárias da globalização.

Entrámos num território essencialmente desconhecido.  De um lado do mundo temos a máxima “America First”, do outro “Concretizar o rejuvenescimento da grande nação chinesa”. Ambos os motes apontam para o regresso a glórias passadas. Só não sabemos com que consequências.

Robert Kagan, ouvido numa das Comissões do Senado norte-americano, neste mês de Dezembro, classificava este momento como o regresso `a era de rivalidades entre as Grandes Potências. É evidente que ele se referia à China e à Rússia perante a hegemonia benigna dos Estados Unidos. Mas se nos lembrarmos da última que vez que a acrimónia e a desconfiança ditou as relações entre esses Grandes Poderes tivemos a um passo, a um pequeno passo de embarcar numa nova Guerra Mundial.

 

Arnaldo Gonçalves, jurista e professor de Ciência Política. Escreve neste espaço às quintas-feiras.

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A nau, o tsunami e a ilha do Engano

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As notícias do terrível tsunami de 26 de Dezembro de 2004 chegaram no mesmo formato que a tragédia em si. Numa torrente. O cômpito de vítimas, que inicialmente atingia as centenas, ao fim de uma semana, era já da ordem das centenas de milhar.
 No Norte da ilha de Samatra, a devastação teria de ser necessariamente massiva, já que o epicentro do sismo se situara a centena e meia de quilómetros de uma orla costeira praticamente desconhecida dos ocidentais. Uma costa fustigada por um conflito já com três décadas entre as forças governamentais e a Frente Nacional de Libertação do Achém, mais conhecida pelo acrónimo GAM, cujo líder e fundador, Tengku Hasan Muhammad di Tiro, fora destacado defensor do ideal nacionalista e embaixador da indonésia na ONU em 1950.

O subdistrito de Lamno viu metade das suas 48 aldeias ser varrida pela força das vagas. Entre elas, Kuala Daya, Ujon Meuloh, Lamso e Lambesu, onde, desde finais do século XVI, vivia uma comunidade de luso-descendentes, os ditos “Portugueses de Lamno”. Distinguia-os do resto da população um modo de vida intercomunitário e traços fisionómicos caucasianos: tinham o cabelo e os olhos claros, amiúde verdes, ocasionalmente azuis. Viviam da agricultura e da pesca e professavam o islamismo, à semelhança dos restantes achéns.

Importa realçar que o destino dessa comunidade única – “um exemplo perfeito de miscigenação assimilada” – suscitou muito mais interesse na Indonésia do que em Portugal. Vários órgãos da comunicação social do arquipélago lhe deram o devido destaque, assumindo aqui a revista semanal Tempo um papel de relevo, visto que consagrou ao tema uma reportagem de nove páginas. O assunto continuaria a despertar curiosidade durante alguns meses, como o confirmava a publicação de artigos nos jornais Waspada Medan e Jakarta Post. Este último, em Outubro de 2005, publicara um texto intitulado “The last Portuguese-Acehnese of Lamno”. Em Hong Kong, o consagrado South China Morning Post, na edição de 4 de Março de 2005, incluíra nas suas páginas uma peça da France Press, denominada: “Acehnese lament the disappearence of their blue-eyed heritage.” A dada altura, feita a devida contextualização histórica, o autor do artigo escrevia o seguinte: “Na escola primária de Meutara, duas ou três crianças parecem mais europeias do que indonésias. O cabelo louro de Rauzatul Jannah, demasiado novo para frequentar as aulas, fá-lo passar por europeu.” Estes e outros testemunhos alertaram desde logo para a possibilidade da existência de sobreviventes dessa comunidade, que inicialmente fora dada como extinta.

Em Portugal, exceptuando uma ou outra menção, do tipo fait divers e nunca como reportagem de fundo, o assunto passou praticamente despercebido junto do grande público. Ora, essa falta de interesse estava bem expressa no episódio do programa da RTP Príncipes do Nada dedicado ao apoio humanitário português às vítimas. Catarina Furtado limitou-se a uma lacónica observação, sem ter tido a preocupação de contactar com um desses sobreviventes. Eu próprio, quando uns dias após o tsunami, abordei algumas publicações sugerindo-lhes o meu testemunho escrito e fotográfico, uma vez que convivera de perto com essa comunidade, ano e meio antes da tragédia, fui recebido com frieza e velado desinteresse. Atitude que nem me chegou a surpreender, pois lendário é o desprezo a que o nosso país vota a temáticas como esta.

Toda a costa devastada pelo maremoto de 2004 acolhia pequenas cidades adormecidas, habitadas essencialmente por achéns, mas também por javaneses, menancabos, bataques, bugis, chineses e pelos referidos luso-descendentes, resultado ou não de naufrágios (foram vários) ocorridos ao longo do século XVI e XVII num oceano notoriamente traiçoeiro. Não foi por acaso que os argonautas lusos designaram Ilha do Engano àquela que ainda é hoje conhecida como Pulau Enganno.
 Entre esses naufrágios, conta-se o da nau portuguesa São Paulo, em 1561, que esteve na origem do relato presencial de Henrique Dias, boticário de Dom António, prior do Crato, que viria a ser incluído, com algumas alterações, na História Trágico-Marítima de Bernardo Gomes de Brito, cuja primeira edição, em Lisboa, data de 1735. Numa carta enviada aos seus superiores de Coimbra, o jesuíta Manuel Álvares inclui três ilustrações que mostram pormenorizadamente o ilhéu onde se deu a arribada e a foz dos rios que conduziam ao interior do reino de Menancabo, assim como os nativos, respectivas casas e embarcações e a luxuriante vegetação. Esses desenhos terão sido, muito provavelmente, a primeira representação de samatrenses feita in loco por um europeu.

Tendo partido de Belém, a 25 Abril de 1560, o galeão São Paulo, com cerca de 400 toneladas, enfrentou diversas tempestades até atingir a baía de Todos os Santos, no Brasil, onde fez escala antes de prosseguir viagem rumo a Malaca. Dobrado o cabo da Boa Esperança, e, ao aproximar-se de Samatra foi novamente vítima do mau tempo, acabando por naufragar numa pequena ilha, em Janeiro de 1561. Os sobreviventes (cerca de 300) sofreram com a fome e os ataques de nativos, mas lograram construir embarcações que os transportariam até à costa samatrense. Sabe-se que 250 sobreviventes chegaram a Malaca, seis meses após o naufrágio, e é muito provável que alguns deles tenham partido depois para Macau, na altura a ensaiar os primeiros passos como apetecido entreposto comercial. Quanto aos restantes, acabariam integrados nas comunidades locais dando origem aos lendários “mata birus”, a gente de “olhos claros”.

Joaquim Magalhães de Castro, Escritor e investigador da Expansão Portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

 

 

 

 

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Imprevisibilidades: O ano do “Cisne negro”

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O recuso à metáfora do “Cisne negro” celebrizada na obra de Nassim Nicholas Taleb, pareceu-me bastante adequada para este ano que finda. O autor remete-nos para a possibilidade de acontecimentos altamente improváveis poderem acontecer reunindo três características principais: ser imprevisível; produzir um enorme impacto; e, após a sua ocorrência, todos terem uma explicação, tornando-o menos aleatório e mais previsível do que aquilo que é na realidade. Ou seja, ninguém acreditava que pudesse haver cisnes negros, até ao dia em que viram um, baseado numa velha crença dos europeus em 1697, que acreditavam apenas na existência de cisnes brancos, até que nesse ano avistaram pela primeira vez, um cisne negro na Austrália. O “Cisne Negro” explica assim tudo aquilo que sabemos acerca do que não sabemos.

 

Correndo o risco de entrar em assuntos um pouco fora da minha orla de análise, não resisto também à tentação de tecer algumas consideração de reflexão sobre o ano que agora finda, talvez pela forma como nos tocou a todos sem que disso nos apercebêssemos, tentando também aqui resvalar e extrapolar algumas suposições para a emergência de uma nova ordem mundial que vai emergindo sob a batuta da Republica Popular da China e que à boa maneira oriental aposta no tempo e numa estratégia que nem sempre é descodificada pelo mundo ocidental.

 

O ano de 2016 é talvez aquele que consagra a imprevisibilidade no domínio dos prognósticos, raras foram as sondagens e previsões que acertaram nos resultados esperados. No topo delas salienta-se o caso Trump e o Brexit com as consequências daí decorrentes ainda por verificar.

 

No primeiro caso estamos perante a possibilidade de uma total inversão – ou confusão –  no domínio da política externa dos EUA que pode vir a marcar o rumo futuro da ordem internacional, o protagonismo dos EUA no mundo actual perde logo à partida um dos seus pontos aliciantes: o da sua simpatia e empatia pelo mundo em geral. Quer se queira ou não somos todos colocados perante uma grande “trumpalhada” que de alguma forma coloca a grande potencia de referência do mundo Ocidental num quase auto isolamento perante o seu papel na cena internacional.

 

Por outro lado, a saída do Reino Unido da União Europeia reflecte a fragilidade do projecto europeu e da sua incapacidade para tomar as “rédeas” de uma alternativa substantiva ao poderio americano no contexto do Ocidente, prevendo-se eventualmente novas fracturas que venham a por em causa um futuro congregador dos princípios enunciados.

 

O mundo Ocidental fica assim quase sem referências aglutinadoras de um “modo de vida” (way of life) que se desejava globalizável em termos mundiais, transformado “o sonho colectivo” das sociedades que se queriam modernizar (ou ocidentalizar) em algo de inconsistente e volátil.

 

Ora estas fracturas nas grandes referencias do mundo Ocidental, em que o “american way of life” começa a desvanecer e o sonho de uma Europa unida é cada vez mais inconsistente, permitem ao novo “jogador global” (a República Popular da China) a possibilidade de se apresentar como modelo alternativo da potencia mundial que pode garantir a paz e a estabilidade no Mundo actual, trilhando uma diplomacia económica, cultural e cientifica baseada numa estratégia de “soft power” que o Ocidente não tem sabido aplicar.

 

As recentes declarações de Donald Trump sobre a questão da China Unida (no caso de Taiwan) são bem reveladoras de uma ausência – ou desconhecimento – das regras diplomáticas nas questões internacionais por parte dessa Administração, antecipando um eventual isolamento em que os EUA se colocam por iniciativa própria, abrindo assim o percurso para uma China cada vez mais globalizada e que tem sabido traduzir esses propósitos na sua política externa baseada em parcerias adaptáveis a cada espaço geográfico por forma a acentuar e a manter a sua influência. O tempo nos dirá até que ponto irão ter sucesso.

 

No que toca a imprevisibilidades, nós por cá também não estamos mal servidos, para nós portugueses, o ano em si não foi tão mau de todo, apesar desta “nuances” internacionais, sempre temos uma “geringonça” que vai funcionando, um título de campeão da Europa em futebol, um Secretário-geral nas Nações Unidas, sem esquecer (talvez a mais previsível) a dita 4ª Bola d’Ouro, mais que merecida do nosso Cristiano.

 

Ficamos então à espera de 2017 para ver se ainda há “cisnes negros” para descobrir. Até lá aproveitem o tempo que se avizinha para usufruírem da quadra festiva que agora se celebra. BOAS FESTAS a todos os leitores.

 

 

 

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(o texto não segue o acordo ortográfico em vigor)

 

Carlos Piteira

Investigador do Instituto do Oriente

Docente do Instituto Superior de Ciências Socias e Politicas / Universidade de Lisboa

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O Sopro de Pak Tai: As persianas verdes de Cupão

 

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Kupang – Cupão das crónicas portuguesas – é hoje o único centro urbano das Sundas Meridionais. Ao fundo do arquipélago indonésio e na parte ocidental de Timor, numa época em que o controlo administrativo se cingia às zonas costeiras, esta cidade foi portuguesa.

As primeiras expedições comerciais dos portugueses à Insulíndia Oriental datam de 1512 e dirigem-se às Molucas. É pouco provável que tenham passado por Timor, onde havia sândalo em abundância. A chegada dos portugueses a esta ilha terá ocorrido por volta de 1514. Timor dividia-se então em diversos reinos dominados por dois poderosos chefes tradicionais, os liurais.

A partir da vizinha ilha de Solor, António Taveira, em 1556, inicia o processo de missionação nas ilhas Flores, Savu, Adonara e Timor. Graças ao papel dos dominicanos, diversos régulos convertidos ao cristianismo ficaram sob a alçada do poder português.

A dita “Igreja dos Portugueses” de Kupang mais faz lembrar uma igreja mexicana, daquelas que víamos nos western spaghetti. Os factos históricos, contudo, comprovam uma existência mais antiga. Hoje o sinal mais português que apresenta é um nome imortalizado numa lápide: “in memorium Mgr. Gregorius Manteiro, SVD”. Manteiro, (Monteiro), bispo de Larantuca.

Rodeia o templo um interessante amontoado de pedras e de coral onde cresceram árvores. Percorro ruas em busca de pistas e tudo o que encontro são graffiti. Mais graffiti com apelidos portugueses: Bento. Sarmento. Costa. Nomes que perduram no imaginário colectivo, quiçá com alguma carga simbólica. No meio destes, escrito a vermelho em parede branca, o nome Figo.

Em 1646, os portugueses edificaram em Kupang uma fortaleza que seria conquistada pelos holandeses em 1652. Face a este cenário, o poder transfere-se definitivamente das Flores para Lifau, no enclave de Oécussi, que será a primeira capital de Timor-Leste.

A divisão da ilha entre Portugal e a Holanda é feita pelo tratado de 1859 que atribui ao primeiro os reinos dos Belos, cabendo à segunda os de Servião.

O forte Concordia é actualmente um aquartelamento militar com dois canhões à entrada pintados a preto e vermelho. O benteng – na perspectiva dos jovens militares que aí habitam com as famílias – reduz-se a uma lápide funerária com uma frase em holandês. Da estrutura da fortaleza, só mesmo os restos da muralha visíveis do paredão em frente ao bar do Teddy, onde de manhã anda pessoal uniformizado a enterrar o lixo queimado na areia porque à noite o local vai receber uma distinta convidada: a mayor de Darwin, cidade gémea da capital da província de Nusa Tengara. Ultimam-se pormenores junto ao retrato do governador da província – um militar vestido a preceito – e o da autarca australiana, em cuja cabeça, com a ajuda do photoshop, foi enfiado um chapéu tradicional da ilha de Rote. As bandeiras e o aprumo visíveis por aqui, contrastam em absoluto com o estado de degradação em que o centro da cidade se encontra.

Um canhão de comprovada origem portuguesa encontra-se numa outra instalação militar. Faz parelha com réplicas de um míssil e de uma granada feitas em cimento, orgulho do regimento de infantaria ali destacado.

Tomada de assalto pelas ruidosas bemos que circulam à razão de uma por segundo, Kupang tem um ar pouco cuidado. Pouco resta da cidade antiga. Os edifícios, em péssimo estado, são em tudo iguais aos de congéneres, como Malaca, Pukhet e do que resta da velha Macau. Os mesmos azulejos verdes. Os mesmos telhados. Os mesmos arcos. As mesmas portas. As mesmas persianas de madeira. As mesmas paredes esventradas a revelar tijolos ou pedaços de ripas. A mesma roupa a secar. Tudo à espera de mais uns anos ou de um bupati menos corrupto e mais empreendedor, sempre novo-rico de mentalidade, para que tudo se desvaneça.

Vendedores de tabaco e de bétel abrigam-se numa das vielas mais características, não muito longe do edifício cor de laranja do terminal. Parte da zona ribeirinha foi construída em cima das rochas de coral.

No canal, barcos poisados no areão e no lixo acumulado aguardam a maré para se fazerem ao mar. Na margem oposta ergue-se um templo taoista que está à guarda de um simpático e nada comum casal. Ele, orang asli de Kupang. Ela, chinesa, gordinha e sorridente. Os frutos dessa união são perfeitos: encantadoras crianças como que a comprovar que quanto mais se misturam as raças mais belas são as criaturas que se geram.

Ao cair da tarde, na praça ribeirinha, jovens inventam acrobacias e “varrem” o chão com as suas calças à boca de sino, enquanto os vendedores puxam carretas de madeira cheias de laranjas. Da praia, imagina-se a fortaleza que praticamente já não existe e olham-se os pescadores que escolhem o peixe que vale a pena pôr a secar sobre placas de zinco e os que limpam o lodo das embarcações com a ajuda da areia. Por detrás deles, as casas, encavalitadas nos rochedos de coral, mais parecem embarcações, essas, viradas ao mar alto.

 

 

Joaquim Magalhães de Castro, Escritor e Investigador da Expansão Portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

 

 

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O drama natalício

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Estamos muito perto do Natal.

Este é o último Domingo de Advento. Se lermos o Evangelho deste ano e do próximo, pela mesma altura, verificamos que o anúncio do Nascimento de Jesus deste ano, 2016, vem através da experiência de José e do próximo ano, 2017, vem com a de Maria.

Perante o convite a participar na realização do plano de Salvação, José e Maria passam por um primeiro grande momento, um pouco caótico e dramático. Apesar de serem os predilectos de Deus, não quer isto dizer que não tenham de passar por uma luta interior para conseguirem ser colaboradores do extraordinário acontecimento do Filho de Deus feito menino e ao qual foi dado o nome de Jesus. A revelação deste mistério divino – a Encarnação – obviamente, que ultrapassa toda e qualquer das suas capacidades. Não é de admirar, portanto,  o drama íntimo dos dois à procura de sentido.

«José, filho de David, não temas em receber Maria, tua esposa» está escrito no Evangelho de São Mateus. Na narrativa de São Lucas pode ler-se: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo. Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus». Perante o Anjo, o mensageiro de Deus, ambos têm, em primeiro lugar, medo. O seu coração está profundamente perturbado.

Segundo. Tudo aquilo que ouvem ou está a suceder é algo que vai para além da sua compreensão e imaginação. A sua inteligência não está clara.  José,  porque não entende como «Maria, (sua) noiva, antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida». Quanto a Nossa Senhora, o texto evangélico declara: «Ela  ficou perturbada com estas palavras (do anjo) e pensava que saudação seria aquela».

Por isso e em terceiro lugar, um e outro não sabem que fazer. Qual a decisão a tomar? Mas esta é a situação de todo o ser humano perante o desafio de uma realidade  nova.  Sempre se passa pela perturbação do coração, pela falta de clarividência no pensar, e, finalmente, pela indecisão ou pelo titubear na acção. Experimentamos algo de dramático. Entramos, mesmo,  na angústia.

Mais  ainda, para  homens e mulheres, crentes em Deus,  piedosos e sempre à procura de fazer a vontade de Deus, é muito doloroso encontrarem-se em tal cicunstãncia.  Podemos, assim, entender Maria e José a entrar naquilo que alguns santos chamam  a experiência da ‘noite escura’. Não esqueçamos, que mais tarde, o próprio Jesus vai passar pela ‘angústia mortal’, essa terrível ‘noite escura’, a aparente ausência de Deus.

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Eis o segundo grande momento da experiência de José e Maria. De José, conta-nos São Mateus que «José fez como o o anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu  (Maria)  sua esposa». Quanto a Maria, o texto de Lucas termira com as palavras humildes daquela que foi chamada a ser a mãe de Jesus, nosso Deus: «Eis escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra».  Mais tarde, sua prima Isabel  exclamará,  possuída pelo Espírito Santo, dizendo: «Bem-aventurada aquela que acreditou no cumprimentoe de tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor».

Há que reconhecer, no entanto, que, antes dessa aceitação, uma experiência muito concreta e profundamente humana se deu e, direi, com a assistência de Deus. O coração com os seus muitos sentimentos acalmou-se. As ideias e pensamentos ordenaram-se com lógica e inteligência. A resposta ou a acção consequente tornou-se equilibrada, coerente e segundo os planos de Deus.

Para tomar, seja com quem for, boas decisões  ou procurar seguir sempre a vontade de Deus é necessária, infalivelmente,  uma grande integração, equilíbrio e harmonia entre a afectividade,  a racionalidade e  a vontade e,  por fim, um apurado sentido de Deus.

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Neste episódio de preparação para o Nascimento de Jesus, há um aspecto que me chama  muito a atenção.  José discerne a vontade de Deus e  toma as suas decisões sempre depois dos sonhos. Por exemplo, receber  Maria,  fugir para o Egipto, voltar para Israel,  ir para Nazaré. Já no Antigo Testamento, José, filho de Jacob, era ‘o homem dos sonhos’. Mas, depois salvou os irmãos,  toda  a família   e todo o povo hebreu.

Os sonhos, fundamentalmente, revelam o mais profundo de nós mesmos que, conscientemente,  não somos capazes de enxergar ou tocar. Quanta coisa agradável, cheia de esperança e rica de valor se descobre no nosso mundo onírico!  Igualmente e em particular os pesadelos ou os nossos filmes de terror quando dormimos, são espaços de descoberta de dores,  angústias e  memórias, escondidíssimas e soterradas, há muito tempo,  no nosso inconsciente ferido, mas que constituem verdadeiros caminhos que nos conduzem à  liberdade e à expressão mais bela e perfeita do nosso ser!

O mundo do inconsciente foi criado por  Deus. A descoberta do inconsciente e sub-consciente constitui, sem dúvida, um dom da Ciência do século XX para a Humanidade actual. Penso que – embora mais falada do que antes – a Psicologia de Profundidade continua a não ser suficientemente integrada na Vivência da nossa Humanidade, em geral,  mas  também, direi, na Educação e na Formação Humana, Moral e Espiritual,  muito em particular.

Estou convencido, que a via de equilíbrio para enfrentar a Velocidade do Mundo de hoje está na Profundidade de Ser e de Vida.

Faltam-nos Homens e Mulheres de Profundidade e de Pensamento.

 

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

 

 

 

 

 

 

 

 

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O doce torpor da ilusão

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Os prognósticos feitos em tempos de transição e viragem têm o risco de nos colarem ao presente tomando o transitório pelo perene e vendo nas novas tendências um fluxo de mudança que, afinal, soçobra perante as vontades adversas.

Há vinte e três anos escrevi nas páginas deste jornal[1] que o último quartel do século vinte assistira ao fim da ordem mundial que conduziu à Guerra Fria, à extinção dos blocos geopolíticos e à crise das ideologias que foram o seu esteio aglutinador. As mudanças que ocorriam na Europa – ao tempo que escrevia a crónica – a queda do Muro de Berlim, a libertação da Europa de Leste, a tentativa fracassada de reforma do regime comunista da União Soviética, o fim do Pacto de Varsóvia foram de molde a desencadear uma onda de optimismo e voluntarismo que coincidia com os novos tempos.

Mas ainda assim aditava um elemento de precaução. Dizia que ainda que as novas circunstâncias permitissem erradicar a ameaça de um novo conflito militar alargado subsistiam interrogações quanto ao rumo que a ordem internacional tomava. Concluía o argumento dizendo que o debate sobre as ideologias e o Estado não era um capítulo encerrado e arrumado, como afirmavam, os liberais, no armário da História. A crítica dirigia-se ao precipitado diagnóstico feito por Francis Fukuyama num livro marcante de 2002,”O Fim da História e o Último Homem”[2].

Nele, Francis Fukuyama afirmava, na sequência de um artigo publicado no Verão de 1989, no jornal National Interest, que verificava-se um ‘notável consenso relativamente à legitimidade da democracia liberal como sistema de governo que emergia em todo o mundo vencendo ideologias rivais como a monarquia hereditária, o fascismo e o comunismo’. Esse ‘notável consenso’ permitia que a democracia liberal se afirmasse como o ‘ponto final da evolução ideológica da Humanidade’ e a ‘forma definitiva do governo humano’.  Constituía, assim, o ‘fim da história’. Fim, no sentido de que enquanto outras formas de governo padeciam de graves deficiências e irracionalidades que conduziram ao seu colapso, as democracias liberais estariam livres dessas contradições internas. ­

O transcorrer das últimas duas décadas veio mostrar que este diagnóstico foi profundamente errado. Mais, conduziu a Humanidade a um sentimento de prostração e abulia perante ameaças e convulsões que se agitavam nos interstícios da vida internacional. Na verdade, a ilusão da paz perene é a mais perigosa das ameaças à consciencialização colectiva, no quadro de um povo ou de um colectivo de povos. Sedutor, esse torpor inebriante conduziu à emergência de um pensamento nas relações internacionais, alinhado com o liberalismo e a esquerda americanas, que desapetrechou os grupos de reflexão e os órgãos governamentais responsáveis pela política externa de instrumentos de análise indispensáveis à compreensão do que se passa no mundo.

Robert Keohane e Joseph Nye davam corpo, em 1997, a esse romantismo ‘retardé’ de clara inspiração kantiana, em “Poder e Interdependência”[3] onde diziam que o impacto de questões transnacionais como o comércio, as relações monetárias e a política dos oceanos conduzia à assunção que os avanços prefigurados pelas tecnologias e as trocas económicas e sociais conduziriam a um novo mundo em que os Estados e o seu monopólio sobre a força deixaria de ter importância. No ocaso dos Estados, novos poderes emergiriam no âmbito das organizações internacionais, das corporações multinacionais, das organizações não-governamentais, dos poderes inorgânicos da sociedade civil. Neste magnífico ‘happening’, de pendor woodstockiano, os actores da vida internacional multiplicariam consensos, interdependências e promessas de amor eterno.

Este mundo cor-de-rosa era irrealizável. No campo económico e comercial, apesar das promessas advindas da criação da Organização Mundial de Comércio em termos de uma efectiva concorrência e comércio livre, as últimas rondas negociais embatucavam. A preocupação dos líderes mundiais com a defesa das indústrias, das empresas e dos postos de trabalho dos seus países, vieram pôr em destaque que a nova divisão de trabalho imposta pelos novos campeões da globalização, era inimiga de um equilibrado desenvolvimento nacional. No campo da consolidação democrática, novas formas autoritárias de governança afirmaram-se no centro da Europa e na Rússia, na Ásia e na América Latina, minando a probabilidade de transições democráticas pacíficas.

No campo das relações bilaterais e multilaterais, tomou protagonismo a ameaça do terrorismo, primeiro nos Estados Unidos, depois no centro da Europa, corroendo o desígnio de um mundo com menos fronteiras onde a circulação de pessoas, bens e capitais predispusesse a um progresso humano partilhado. E se o económico ocupara o centro das atenções dos gestores políticos e empresariais, nas últimas décadas do século passado, a segurança tornou-se a ‘buzz-word’ do discurso político, acoplada ao medo que tomou conta do corpo colectivo, sobretudo na Europa.

O populismo e a fácil retórica dos demagogos, sempre presente em momentos de crise grave, afirmou-se em eleições sucessivas na América Latina, na Europa, nos Estados Unidos. Um populismo transversal que se afirma tanto à esquerda como à direita, seduzindo os eleitores com soluções rápidas, totais, indolores mas mentirosas.

O mundo tornou-se menos livre e seguro. Recordando-nos que não há refúgio incólume para a tempestade que se anuncia no horizonte.  Por isso o requiem era imprudente.

 

 

Arnaldo Gonçalves é jurista e professor de Ciência Política e Relações Internacionais. Escreve neste espaço às quintas-feiras.

[1] Requiem pela velha Ordem Internacional, 22 de Outubro de 1993.

[2] Francis Fukuyama (1992). O Fim da História e o Último Homem. Lisboa: Gradiva.

[3] Robert O. Keohane e Joseph S. Nye Jr (2011). Power and Interdependence [4a edição]. Londres: Longman Classics.

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