O Sopro de Pak Tai: Memória oriental em Guararapes

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Ao chegar ao terminal rodoviário do Recife, de manhã bem cedo, lá estão, o primo Fernando e a prima Ana, como se nunca tivessem regressado a casa desde que os deixei, neste preciso local, já lá vai uma década. O Fernando, pai da Ana, um entusiasta pela história, certamente já não se recorda o que então me dissera, pois volta a dizê-lo, um facto atrás do outro, um número após outro, tal é a paixão que nutre pela sua terra.

“Aqui nasceu o Brasil”, está escrito nalgumas placas desta zona da cidade, como que a corroborar a dedicação e empenho deste meu primo em segundo grau.

Os pernambucanos orgulham-se da derrota que infligiram aos holandeses, em 1648, na famosa batalha de Guararapes (que faz lembrar o feito de Aljubarrota), num local assinalado hoje por um miradouro e uma maqueta onde o episódio é retratado num cenário em miniatura. Este é um excelente posto de observação para quem, como eu, gosta de ver levantar e aterrar os aviões.

 

Expulso o invasor holandês, as ordens religiosas regressaram em força, prontas a restaurar os antigos conventos e mosteiros e, claro, a erguer mais e mais igrejas. A que me suscita mais interesse, surgiu de uma iniciativa dos franciscanos que a dedicaram a Santo António, mesmo ao lado de um convento que já exista em 1606.

A principal preocupação de Fernando passa a ser levar-me a esse local. O dia está magnífico, mas na mente do comum dos brasileiros paira, como sempre, o receio das ruas vazias.

– É sábado, papai – alerta Ana – é melhor irem lá durante a semana. Agora é perigoso. Está cheio de vagabundo. Ainda são assaltados.

Pese o exagero, Ana tem alguma razão. Passear no Recife com uma máquina fotográfica profissional a tiracolo, mesmo em pleno dia, é estar a pedi-las. Mesmo assim, dirigimo-nos para o nosso destino. À entrada sentam-se inúmeros mendigos, aguardando esmola.

– Não se sabe de onde vêm nem para onde vão, mas estão cá sempre na época de Natal ou da Páscoa – comenta o primo Fernando.

 

Uma vez no interior do templo, travamos conhecimento com o frei Salvador Macedo de Oliveira, que está na Ordem há cinquenta e quatro anos.

– Pode fotografar à vontade – convida o simpático frade, aproveitando para me chamar a atenção para o avançado estado de degradação dos azulejos do claustro.

– O salitre está a destruí-los – comenta.

Não precisava de o dizer, o facto salta à vista. Há até secções onde esses azulejos, fabricados em Portugal no reinado de D. João VI, já caíram. Quando lhe pergunto se há algum projecto de restauro previsto pelo IPHAN ou por alguma entidade portuguesa, frei Salvador desabafa:

– Até agora ainda não vi nenhum português chegar aqui, não.

 

No convento de Santo António vivem doze frades, entre brasileiros e alemães. Um deles conversa com Fernando enquanto eu me entretenho a fotografar. De tempos a tempos, o franzino frade, irrequieto e sempre sorridente, dá-me algumas indicações. Conduz-me por um corredor até uma das portas de saída do convento.

– Debaixo das pedras deste corredor foram enterrados muitos frades portugueses, assassinados durante um ataque holandês – diz.

Reparo que a porta, de cor verde, tem barras de ferro, para a tornar mais resistente. Pelos vistos, de nada valeu.

O conjunto de azulejos no interior retrata cenas da criação do mundo e está em muito melhor estado que o do claustro. Todo o mobiliário da sacristia é feito em madeira de jacarandá. Frei Salvador destaca a pia baptismal, um cadeirão de estilo D. João V e um bonito e compacto armário com dezenas de pequenas gavetas.

– Era aqui que os frades guardavam os seus pertences – comenta.

Indica ainda uma pesadíssima mesa colocada no meio da sacristia a que chamam “mesa de bolacha”, devido à forma torneada da madeira na sua base.

Minutos depois, sob as arcadas do claustro, vejo-o receber um donativo de uma senhora ainda jovem.

– É a mulher do prefeito – segreda-me ao ouvido o primo Fernando.

 

É tempo agora de visitar a capela do convento. Os azulejos nas paredes laterais representam a vida de Santo António e os ladrilhos pequeninos no tecto abobadado foram colocados pelos holandeses.

– Descobriram isso recentemente – informa frei Salvador, que, antes que partamos, faz questão de lançar um apelo em frente da minha máquina de vídeo. Lembra ao “nosso querido Portugal, nossa mãe, que veio de lá para cá, descobrindo esta terra maravilhosa de Santa Cruz” a sua obrigação “para salvar toda a história do azulejo do Brasil que pertence totalmente a Portugal”, concluindo, em jeito de bênção, que “há que procurar o mais rápido possível soluções de restauro e de vida, ámen”.

 

A Igreja da Ordem Terceira fica colada ao convento de Santo António, o Imperador, mas a sua administração é feita separadamente.

– As Ordens Segunda e Terceira estão sob a nossa protecção espiritual – atira o frade, à laia de despedida.

 

A decoração interior, da autoria de António Santiago, é unanimemente considerada pelos especialistas da história da arte «a mais importante obra de talha do espaço português». Nas paredes laterais podem ser apreciados vistosos retábulos. A pintura é, aliás, a componente predominante, e uma vez mais deparo com temas alusivos ao Oriente, desta feita alguns quadros que contam a história dos franciscanos martirizados no Japão, e o retrato de um povoação chinesa que pode ser identificada com Macau, embora isso não possa ser confirmado.

– Consta que no tempo áureo do açúcar vieram até cá artistas orientais para fazer estas pinturas nas igrejas – diz-me em voz baixa o primo Fernando, também ele um aficionado pela História.

 

Antes que o dia termine há que regressar a Joabatão de Guararapes, “o local onde a identidade brasileira se afirmou pela primeira vez”, e onde nos espera uma refeição quente preparada pela prima Lúcia, a mulher do Fernando.

IIM LOGOTIPO - 2015 (17)

Joaquim Magalhães de Castro, escritor e investigador da expansão portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

 

 

 

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Ad impossibilia nemo tenetur*

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Podia ser uma cena de filme, uma passagem de telenovela ou de qualquer outra narrativa de ficção. Mas foi real, uma realidade extravagante e à medida da desproporção que tanto se tem exibido nos tempos que correm.

Aconteceu-me aquilo que, infelizmente, aconteceu já a tantos outros residentes de Macau e é tão absurdo que me sinto impelida a deixar estampada a perplexidade e indignação sobre o desajuste da actuação das autoridades da RAEM.

Desembarcava no terminal marítimo da Taipa após a longa viagem que começa do outro lado do mundo e termina quase 24 horas depois. Se a viagem é habitualmente cansativa pior ainda com gripe, febre e ouvidos bloqueados, o que foi o caso.

Ansiando por um antipirético, um duche quente, e uma boa noite de sono, colocava o polegar direito na máquina de identificação destinada a residentes e que abre portas automaticamente após o devido reconhecimento.

As portas não abriram, nada que não possa acontecer. Chegou um polícia, o que é normal nestas circunstâncias em que compete às autoridades desbloquear a situação. Só que toda a normalidade acabou nesse preciso momento e o que se seguiu foi, aos meus olhos, pura aberração.

O polícia conduziu-me a uma sala ao canto esquerdo de quem chega ao terminal e deu-me indicações para ali ficar. Saiu e deixou-me na sala com algumas cadeiras vazias e um balcão de atendimento sem ninguém.

Aturdida pela viagem, gripe e ouvidos bloqueados, tudo me parecia estranho e no vago estava longe de imaginar o que viria a seguir. Não terá passado muito tempo até que um segundo polícia, do lado de dentro do balcão e com uns papéis na mão, me diz num inglês rudimentar “you go court”.  Nada me ocorria, absolutamente nada que me levasse a pensar em tribunais.  Julguei, por momentos, tratar-se de um caso antigo em que fui roubada, mas esse caso estava resolvido e encerrado. Teria algo ficado por esclarecer? Entre os pontos de interrogação e exclamação que se erguiam, não conseguia perceber coisa alguma a não ser que tinha de ir a tribunal. Continuei a aguardar por informações ou esclarecimentos. A espera foi longa até que surge um novo dado transmitido no mesmo inglês tosco, mas ainda assim suficiente para perceber que estava relacionado com o carro ou com a condução. Enquanto a espera prosseguia contactei por telemóvel alguns amigos contando o absurdo de estar na polícia do terminal marítimo da Taipa por qualquer coisa que se tinha passado com o carro, alguma multa por pagar, ou algo do género… Fosse o que fosse, “pelo amor da santa”, não haveria outra forma de me darem conhecimento?

A espera continuava longa. A dada altura e num inglês um pouco mais elaborado sou informada de que seria levada num carro da polícia para a esquadra número 3 e que não poderia usar mais o telemóvel a partir do momento em que entrasse nesse veículo. Não queria crer! O que teria eu feito de tão danoso para ser levada à polícia e ser privada da liberdade de deslocação e de comunicação?

Incrédula, angustiada e consumida por tudo o que se estava a passar, fiz a última chamada antes de entrar no carro da polícia. Pela voz de um amigo que domina o cantonês e que falou directamente com o agente da autoridade, fiquei a saber que tinha um mandado de detenção!

Um mandado de detenção dirigido a uma pessoa que tem os seus direitos, cumpre os seus deveres, uma pessoa de bem que respeita a lei e os bons costumes. É muito grave! Que teria eu feito de tão atentatório para ser detida à chegada à RAEM e conduzida num carro da polícia à esquadra número 3 em Macau? Estava em choque total. Passavam-me pela cabeça flashes saídos do X-Files, do Twilight Zone, Histórias insólitas, do incrível

Com a mala de viagem, entro na esquadra número 3. Vejo homens e mulheres virados contra uma parede, um polícia a fotografar e tirar as impressões digitais aos detidos, outras pessoas a serem levadas para uma sala onde ficavam trancadas. Face ao cenário penso: era só o que me faltava fazerem-me isto também!

E não é que o fizeram?! Contra tudo o que me era possível supôr,  fui fotografada, tiram-me as impressões digitais e trancaram-me numa cela onde outras pessoas, como eu detidas, aguardavam o momento seguinte.

Qual foi afinal a minha culpa?  Soube na esquadra. Ultrapassei a velocidade permitida numa estrada em Coloane que tem por limite máximo 60 km. O radar registou 74 km ao passar o meu carro. Foi em Maio de 2016 e nunca soube da infracção até ao momento em que fui detida. Porquê? Porque mudei de casa e a notificação da multa por excesso de velocidade foi enviada para a morada anterior. Ao mudar de casa fiz a actualização de morada em todos os documentos, incluindo a carta de condução mas escapou-me um documento: o registo de propriedade automóvel. Foi precisamente esse o documento usado pelas autoridades para chegarem ao meu contacto mesmo sabendo do meu número de telemóvel que constava do processo escrito em chinês e que me foi mostrado na polícia. Com a multa por pagar, o caso seguiu os trâmites habituais previstos na lei e acabou em  tribunal onde fui julgada à revelia em Novembro de 2016 tendo sido condenada ao pagamento de uma multa de mil patacas ou 10 dias de pena de prisão, caso a multa não fosse paga. Tudo isto aconteceu sem que alguma vez pudesse sequer suspeitar, muito menos saber, que estava obrigada ao pagamento de uma multa ou a ser julgada em tribunal. Entre a infracção cometida e o julgamento à revelia, estive sempre em Macau, a trabalhar no mesmo sítio onde trabalho há mais de 30 anos e sem a mínima intenção de fugir à lei ou às autoridades. Por que é que me trataram como se fosse uma foragida?

Ad impossibilia nemo tenetur, ou seja, ninguém está obrigado ao impossível. Ora, para mim era impossível executar uma ordem que nunca conheci e que nunca me chegou.  Senti-me tratada como criminosa e por tal humilhada.

E para quê tanto aparato em torno de uma situação que no final se resolveu na esquadra da polícia com o pagamento da multa e  custas do tribunal acrescentadas à conta?

Tenho por princípio e norma cumprir as minhas obrigações. Pergunto, estará a RAEM a cumprir as obrigações que lhe competem tratando desta forma os seus cidadãos?  Quantos residentes da RAEM foram já importunados à saída de Macau ou à entrada por questões deste género?

Sei que não sou caso único e espantosamente, até há quem ache normal este procedimento das autoridades. Preocupante entendimento. Para mim é completamente defeituoso e por isso não posso calar-me.

 

* “Ninguém está obrigado ao impossível”.

 

Ana Isabel Dias, Residente Permanente da RAEM

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Sopro de Pak Tai: As prebendas da diplomacia

 

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Ao longo das suas viagens de comércio e evangelização os portugueses transportavam consigo as mais variadas prebendas, essenciais para poderem franquear portas e corredores, e entre elas predominavam os produtos chineses. As sedas – valiosa e apetecida mercadoria que, através de Macau, foi sendo disseminada pelo mundo – constituíam o mais importante desses produtos.

Como é sabido, nas diferentes geografias orientais, coalhadas de reis e tiranetes, nada, absolutamente nada se conseguia se não viesse acompanhado pelo respectivo presente.

Tomemos como exemplo a epopeia de Sebastião Manrique, frade agostinho, autor do Itinerário, o relato de uma das aventuras mais fascinantes do início da centúria de Seiscentos, obra bem mais conhecida no estrangeiro do que em Portugal.

Goa, pela sua importância política e posição geoestratégica, foi, para o monge agostinho, local de diversas passagens e prolongadas estadas. A Companhia de Jesus era então o mais moderno, culto e prestigiado organismo, e, por esse motivo, tinha a seu cargo a administração do afamado hospital local, com tal nível de excelência que muitos o consideravam superior ao Hospital do Espírito Santo, em Roma, ou à Enfermaria dos Cavaleiros de Malta, os dois estabelecimentos de referência naquela época. Diz-nos Sebastião Manrique que na janta, numa ampla sala desse hospital, serviram-lhe coisas agradáveis, “um frango a cada doente”, salientando que os pratos e os copos eram de porcelana Ming, então uma raridade na Europa. Consta que o lorde tesoureiro Burghley, ministro das finanças da Inglaterra, ao deparar com a preciosidade oriental pensou tratarem-se de tijelas, copos e pratos “de porcelana branca guarnecidos a ouro”, desde logo considerando ser essa a prenda ideal de ano novo para à rainha Isabel.

Em 1628, Manrique parte de Cochim para Uglim a bordo de um navio mercante, o Santo Agostinho, carregado de búzios, essas grandes conchas usadas como trombetas e (ainda hoje) utilizadas nos templos hindus, e em si um objecto  apetecido, susceptível de ser utilizado como prebenda. Se cortados em rodelas, os ditos búzios serviam de adorno às mulheres. Esta pequena achega, aparentemente fora do contexto, serve para demonstrar a diferença do conceito daquilo que é um presente de acordo com as diferentes culturas.

Os produtos chineses foram protagonistas na gestação e fortalecimento da feitoria de Uglim, que esteve na origem da metrópole de Calcutá. Relatam-nos as crónicas coevas que, em 1577 o imperador mogol Acbar mandou chamar um mercador e aventureiro de nome Pedro Tavares. O português, previdente, viu uma excelente oportunidade de negócio, e aproveitou-a. Garantiu uma entrega anual de quantos objectos de luxo chineses fossem requeridos, desde que lhe permitissem construir uma cidade importante em Uglim, para residência dos seus compatriotas e dos respectivos padres. Pelo teor da oferta, ficamos com uma vaga ideia de quão significativo era o comércio feito pelos portugueses ao longo da costa da China, duas décadas apenas após a fundação da cidade de Macau.  Acbar acedeu face aos desejos de Tavares e logo deu instruções ao vice-rei de Daca, a cuja jurisdição pertencia Uglim, no sentido de conceder todas as facilidades possíveis, não se esquecendo de avisar, simultaneamente, que se houvesse qualquer interrupção nos fornecimentos, o vice-rei naturalmente perderia o seu lugar. Assim, pode-se dizer que foi graças aos presentes chineses transportados pelos portugueses que Uglim singrou muito rapidamente, atraindo pessoas das mais variadas crenças e nações.

Também o poderoso Sirisudhammaraja, rei de Arracão (região do actual Myanmar), beneficiou dos presentes oriundos da China. Era dever dos oficiais, em todas estas monarquias, enviarem despachos pelos estrangeiros de elevado estatuto social, especialmente quando estes transportavam presentes para o rei, como era o caso. Manrique, que se fazia acompanhar pelo capitão Gonçalves Tibau – sobrinho do homónimo Sebastião Gonçalves Tibau, misto de aventureiro e pirata, senhor absoluto durante largos anos da ilha de Sundiva, ao largo do actual  Bangladesh – tinha dado a conhecer a sua chegada e, como incentivo adicional, mandara “ao governador da província de Perorem” um presente de “quatro tabuleiros chineses cheios de cravos-da-índia, canela, pimento e cardamomo especiarias que no local não podiam obter-se e haviam sido importadas para Djanga pelos navios portugueses que vinham de Java e de Samatra”.

Note-se que as ditas prebendas eram servidas, invariavelmente, em tabuleiros de fabrico chinês.

Manrique e o companheiro receberiam do governador, como moeda de troca, “cinquenta galinhas, dois gamos, quatro sacos de arroz perfumado, que era uma especialidade de Chebuba, ilha perto da costa, situada ao sul e manteiga, frutas e doces”. Satisfeitos com a retribuição, os viajantes ofereceram ao filho do monarca “doces à moda da Europa, maçapães de formas fantásticas que divertiram o rapaz”.

Numa posterior etapa da épica jornada rumo a Mrauk-U, capital do reino, outras ofertas se seguiram, primeiro “a um inspector” e, posteriormente, “a um almirante”. Consistiam “em quatro tabuleiros dourados cheios de especiarias e mais outro com três peças de seda chinesa, duas de cetim e uma de veludo, tendo cada uma peça de largura bastante para uma saia”. Também neste caso, antes foi aberto o caminho com a oferta de maçapães, certamente para lhes adoçar a boca. Diz-nos Manrique que o capitão Tibao fez sinal aos criados “para trazerem doces e bolos, os maçapães que tão apreciados tinham sido em Perorem”.

IIM LOGOTIPO - 2015 (19)

Joaquim Magalhães de Castro, escritor e investigador da expansão portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

 

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As cidades de Marco Polo

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As fronteiras sempre separaram homens e culturas. Ao contrário dos portos, onde as águas traziam e levavam navios, saberes e línguas diferentes, produtos desconhecidos e amores sonhados. Talvez por isso tenho um grande fascínio pelos grandes nómadas que ultrapassaram rios e montanhas, oceanos e desertos, florestas e desfiladeiros, em busca de um qualquer sonho. Marco Polo é um desses homens que tentaram vislumbrar o que se escondia por detrás da linha do horizonte. Queria agarrar o desconhecido sem nunca esquecer as raízes da sua vida. Talvez por isso nas “Cidades Invisíveis”, esse fantástico romance de Italo Calvino, à volta de um sonho, Marco Polo sempre que descreve uma cidade evoca algo que o faz lembrar Veneza.

Há quem ainda duvide da presença de Marco Polo na China entre 1275 e 1292, trabalhando como agente do regente mongol Kublai Khan. Mas que é isso contra o peso do mito, da simbologia que o tornou o mensageiro entre o Ocidente e o Oriente? Nada. As suas viagens, transcritas em livro, são o primeiro olhar de um ocidental que disse ter vivido na China.

Pensemos no tempo em que Marco Polo esteve na China. Foi antes dos Descobrimentos. Marco Polo surge como um pioneiro na história da aventura, da viagem e da exploração europeia da Ásia. Algo que foi e não foi ao mesmo tempo. A sua peripécia foi a de um mercador veneziano que procurava abrir novas rotas e novos centros para os seus interesses comerciais. No seculo XIII, quando decorrem os acontecimentos relatados, Veneza era uma cidade-estado, cujo porto no Adriático fazia dela uma potência marítima, comercial e militar voltada para o Oriente. A velha existência da Rota da Seda tentava os comerciantes venezianos a ampliar a sua atenção nessa direcção, tanto mais que a quarta cruzada – entre 1202 e 1204 – em que participou Veneza, tinha terminado com a sangrenta tomada de Constantinopla, ponte para o Oriente.

Em Constantinopla tinham negócios os mercadores Nicólas e Mateo Polo, pai e tio de Marco que, partindo em 1269, fizeram a primeira viagem até ao centro da Ásia e até à China, permitindo-lhes entrar em contacto com o lendário Kublai Khan (1215-1294), neto de Gengis Khan, a quem faltavam 10 anos para ser o imperador dos chineses e dominar a quase totalidade do continente. Kublai queria conhecer os latinos – não só os de Veneza – e fazer comércio com eles. Voltando a Veneza, os Polo iniciaram uma segunda viagem e levam consigo Marco, que tem apenas 17 anos. Estamos em 1271. Marco permanecerá na China e na Ásia mais de 20 anos. O grande protagonista do livro de Marco é Kublai Khan e o resto das aventuras têm a ver com as missões que o imperador destina a Marco. Este torna-se uma espécie de embaixador, mensageiro, inspector e investigador de Kublai. Marco conta o que vê e o que vive. Sobre aspectos geográficos, históricos, políticos, bélicos, culturais, religiosos, sempre com Kublai e o seu império no centro. Kublai não queria que Polo regressasse a Veneza, mas este não resiste às saudades. O livro sairia em 1298, depois de Marco o ter ditado a Rustichello de Pisa, durante a guerra ente Génova e Veneza, onde foi feito prisioneiro. Morreria em 1324 com 69 anos, mercador e membro do grande conselho da cidade. A geografia do comércio, que tanto fascinou os portugueses antes da hegemonia da lógica da fé, estava espelhada no sonho de Marco Polo.

Não deixa de ser curioso como um dos períodos maiores do Orientalismo – quando o fascínio pela China despontou – tenha sido o século XVI. Quando o comerciante e soldado Pereira foi capturado, dando-nos o primeiro olhar desde Marco Polo sobre o interior do poder chinês. Os cruzamentos entre Veneza e Lisboa não terminam aí. A ascensão do império português acaba por motivar o declínio comercial (e financeiro) de Veneza e de outras cidades-estado italianas. Uma nova rota marítima substitui as velhas linhas de conexão entre Ocidente e Oriente. Mas o comércio da Rota da Seda não acaba. Adapta-se, como sempre aconteceu ao longo dos séculos. Onde novos Marcos Polos ou Pereiras foram em busca do seu sonho.

 

Fernando Sobral, jornalista e escritor. Autor dos romances “O Segredo do Hidroavião” e “As Jóias de Goa”. Escreve neste espaço uma vez por mês.

 

 

 

 

 

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Amar os Inimigos

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Em  tempos como os nossos, nos quais se apregoa tanto a individualidade de cada um e, entre as nações, se afirma, vigorosamente, a autonomia e soberania de cada país, não nos surpreende, por um lado, o quão fácil é aparecerem disputas territoriais entre povos vizinhos e, por outro, a nível pessoal, o quão frequente se torna presenciar cenas de agressividade ou  de outros comportamentos excessivos por alguém se sentir ofendido ou ofendida nos seus direitos, na sua dignidade. Com pena e tristeza e, provavelmente, dominados por um sentimento de impotência, contemplamos essa realidade. Porém,, mais perplexos ficamos, quando o Evangelho deste Sétimo Domingo do Ano Litúrgico, nas palavras do Senhor,  nos chama ainda a : «Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem». Quase exclamamos como aqueles que ouviam S. Paulo a proclamar «Cristo Crucificado». Isto não passa de uma « Loucura… Insensatez».

A via da «Misericórdia», do «Perdão» e do «Perdoar aos nossos inimigos» é algo que transcende  a nossa  inclinação instintiva,  ultrapassa a reacção  imediata da nossa «carne», que o próprio Jesus Cristo descreve como: «Olho por olho e dente por dente». Ela vai ainda muito mais  além do dito ‘socialmente correcto’: «Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo». E aí, o Senhor torna-se muito claro e não deixa dúvidas : «Se amardes aqueles que vos amam,  que recompensa  tereis ? Não fazem a mesma coisa os publicanos? E se saudardes apenas os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não o  fazem também os pagãos»?

O convite de Cristo quando diz «Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem» coloca-nos a um outro nível «para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus». Portanto, Ele transporta-nos a uma experiência de vida para além do natural e instintivo; para além do moral e social; lança-nos, enfim,  no mundo da vivência espiritual e no horizonte divino. Assim, podemos compreender as últimas palavras do Mestre neste texto: «Sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito.»           

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Pôr em prática o que o Senhor Jesus nos ensina ao pregar «Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem» é uma exigência radical da vida cristã e, particularmente, de todo aquele ou de toda aquela que deseja caminhar nas sendas da santidade.

Por mais incrível ou até por mais contraditório que nos possa parecer, a compreensão mais íntima deste apelo de Jesus de «amar os inimigos» poderá ter uma dimensão pedagógica de valor incalculável.  Isso, mais uma vez, graças ao melhor conhecimento da inter-relação entre o humano e o divino: a graça de Deus trabalha, normalmente, em íntima união com a natureza humana.

Aprendemos, cada vez mais e com mais certeza científica, que a pessoa humana projecta-se a si mesma, tantas vezes inconscientemente e sem cair na conta,  nas pessoas com quem se encontra ou vive;  em determinados momentos, com condicionantes muito características às quais ela é mais sensível e em circunstâncias muito particulares e bem definidas. Projecta aquilo que foi o seu passado,  a sua  história de infância, adolescência e juventude. Projecta dores e alegrias. Projecta angústias que, com frequência, são dores profundas e penetrantes que jazem e dormem ainda num coração inocente.

Tomemos a realidade do «Inimigo» como todo aquele que nos quer fazer ou, verdadeiramente, nos faz mal, magoa e fere. É um facto objectivo. É inegável. É uma verdade indesmentível.  Sim, todo o meu  ‘ser’  me afirma a sua existência. Todas as minhas capacidades de ‘ser humano’  mo comprovam, sem dúvida alguma. Contudo, num caminho de maior  «perfeição» e diante do nosso «Pai celeste»,  não poderá o dito «inimigo» ou tal ‘situação crítica’, tão cheia de maldade, ser um desafio muito concreto, fino e específico à minha maneira actual de viver, onde ainda há muito espaço para poder  melhorar?

Direi, antes de mais, melhorar de comportamento, no caminho da virtude, por exemplo, ser paciente, ser bondoso, ser amigo de todos, sem distinção, ser forte e firme, ser íntegro, ser corajoso e audaz, e, acima de tudo, ser humilde.

 

Mas, indo mais fundo. Com o conhecimento que agora temos do fenómeno da ‘projecção’, descobrimos que, muito mais daquilo que reconhecemos e, honestamente, aceitamos, tantos daqueles «Inimigos» que nos aparecem, no dia a dia, vêm das profundidades das nossas próprias ‘angústias’,  oriundas do nosso passado. Sejamos claros! Não se nega a existência objectiva de «Inimigos », de pessoas más, maldosas que nos querem mal, que nos perseguem, que nos querem destruir … Só quero dizer que, muito mais do que podemos imaginar e aceitar, esses momentos em que experimentamos «os Inimigos » revelam também aqueles outros acontecimentos da nossa infância ou adolescência ou juventude que não estão ainda integrados e que aí, no íntimo do coração,  permanecem como fogo de vulcão que quer explodir.

Aqui está o segredo do «Amai os vossos inimigos». Aquelas pessoas ou situações que eu apelido de «os Inimigos» podem, de maneira surpreendente,  tornar-se ‘companheiros’ e ‘amigos’ no caminho da minha «perfeição». Eles denunciam e  indicam-me os lugares, os pontos onde estou, pela dor do passado, preso, bloqueado e  limitado no desenvolvimento harmónico da minha personalidade e da minha vida.

Afinal aquelas pessoas que eu denomino de «os Inimigos », sem saber,  tornam-se para mim ‘companheiros’ e ‘amigos’ no meu caminho de «perfeição». Então, poderei, felizmente,como o Senhor Jesus me pede, viver o Seu mandamento:       «Amai os vossos inimigos».

Luís Sequeira, sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

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Crise da democracia e pensamento conservador

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Um dos sinais da degradação da vida política em democracia é a falta de verdade na palavra dos políticos. Usa-se a retórica para convencer os eleitores a votar em determinado candidato ou partido e depois rapidamente se esquece o que não é conveniente ou oportuno fazendo exactamente o contrário.

Esta viragem é usualmente qualificada como adaptação dos programas políticos à realidade da governação, o que visto de per si não é negativo uma vez que revela o aspecto prático de ajustamento das teorias às exigências da vida governativa. Preocupante é quando esse prometer uma coisa e fazer o contrário passa a regra por tacticismo e calculismo. Desacredita-se por essa via a democracia e as instituições democráticas que deveriam ser, na feliz definição de Abraham Lincoln, o governo do Povo, pelo Povo e para o Povo. Criam-se ‘ex vi’ as condições para a emergência de políticos populistas que vendem ideias de ruptura com o status quo,  e apostam em mudanças significativas numa lógica de ‘nós e os outros’.

Um erro comum de análise reside em dizer-se que as pessoas foram enganadas e não sabiam o que faziam quando votaram no político x ou y que a opinião ‘mainstream’ considera de execrável, ‘fascista’ ou racista. É confrangedor, senão demagógico, dizer-se que os eleitores são estúpidos porque não seguem a linha de opinião dominante que a intelectualidade, os media e as redes sociais consideram a única possível.

Essa guindagem da opinião dos eleitores para candidatos que se acharia não há muito tempo improváveis, significa apenas que as pessoas estão cansadas de políticos tradicionais que prometem uma coisa e fazem outra, que se aproveitam das funções de representação para enriquecer, beneficiar as suas fundações ou acumular mordomias e privilégios. E optam por políticos atípicos que lhe dizem o que querem ouvir, sem “maquillage “ou rímel. Daqui emergem fenómenos políticos como Donald Trump, Marine Le Pen ou Rodrigo Duterte.

Porque é que isto acontece? A razão reside, por um lado, na preguiça dos que se julgariam mais capazes para darem uma opinião abalizada mas seguem o impulso mais imediatista, o lugar mais comum em detrimento de uma análise responsável. Todos os eventos políticos são apenas compreensíveis de acordo com as circunstâncias e o processo histórico. Não há nada que aconteça por acaso ou passe a gíria ‘caia do céu aos trambolhões’. Todos os eventos têm as suas causas e explicações, mesmo que discordemos delas.

Desde o fim da Guerra-Fria – ou mais precisamente desde o fim do mandato de Ronald Reagan – instalou-se na opinião escrita e televisionada a convicção que os países só podem ser governados legitimamente à esquerda, com base numa ideologia liberal, amiga dos direitos fundamentais, defensora de um Estado fortemente redistributivo, adversa da economia de mercado e da acumulação da riqueza e protectora de sindicatos e de minorias sejam elas os grupos de emigrantes negros, paquistaneses ou árabes ou os coloridos grupos LGBT. Esta ideia passou a ter grande impacto na comunicação social e na linha editorial das redacções, triando a emissão de notícias e catalogando os agentes políticos de acordo com rótulos destinados a enaltecer uns e a demonizar outros.

Mas a realidade da vida é mais complexa que os partidários da “grande engenharia social” admitem. As pessoas continuam a formar as suas opiniões de acordo com as suas prioridades e desejos de felicidade familiar e comunitária, veiculando-as para o voto. No seio das pequenas comunidades e fora dos grandes centros urbanos acumulam-se intranquilidades e medos com a invasão de estrangeiros que têm hábitos de vida diferentes dos das comunidades autóctones, que falam outras línguas, que praticam outras religiões e costumes, que têm um tratamento diferenciado para com as mulheres e que abalam a maneira de viver dessas sociedades. Beneficiando de programas e apoios sociais criados por políticas de esquerda, esses grupos minoritários passaram a ser vistos por largos sectores da população como privilegiados e uma ameaça à coesão e sobrevivência dessas comunidades. O seu contributo por impostos para o conjunto da sociedade é mínimo, senão inexistente.

Ignorar a complexidade destes fenómenos que alimentam o racismo, a xenofobia mas também a complacência tola com o folclore multiculturalista tem sido a posição preponderante na comunicação especializada. Mas ao contrário do que se diz, existe um forte pensamento conservador na tradição europeia e que remonta a autores como Edmund Burke, Joseph de Maistre, Leo Strauss, Alan Bloom ou Michael Oakeshot. Pensamento que defende uma postura de prudência quanto à tentativa de separarmos a politica hodierna das raízes históricas das sociedades ou de mudarmos as tradições e as instituições herdadas só pelo prazer de mudar. Trata-se de uma corrente de opinião igualmente legítima que defende a fidelidade à tradição, à comunidade, às hierarquias sociais e à existência de classes sociais diferenciadas como expressão de uma sociedade sã. Uma corrente que coloca a ênfase na responsabilidade pessoal, na economia de mercado, no direito e na ordem, em políticas benevolentes com os mais desfavorecidos. Uma ideologia que diz mais valer manter o que existe e ir corrigindo, pouco a pouco, do que apostar em mudanças radicais e súbitas que põem em risco os ténues equilíbrios existentes em democracia.

Desconhecê-lo significa desconhecer de todo porque os eleitores escolhem políticos aparentemente improváveis.

 

Arnaldo Gonçalves é jurista e professor de Ciência Política e Relações Internacionais. Escreve neste espaço quinzenalmente, sempre às quintas-feiras.

 

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O Sopro de Pak Tai: Rocha, Espinha e a vasta Tartária

 

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Não há quinhão do continente asiático que não tenha uma ligação qualquer, por mais ténue que seja, ao território de Macau. É também o caso da Mongólia Interior, uma das regiões menos visitadas da China, embora aí possamos encontrar bonitos lagos (Ulansuhai Nur é particularmente belo), aldeias acolhedoras e um centro histórico, na capital Hohot, que me surpreendeu pela positiva, já para não falar da simpatia dos seus habitantes, que pede meças com as relíquias arquitectónicas que ainda restam e atestam o seu passado imperial.

Quando se fala na história da Expansão Portuguesa, invariavelmente se imaginam naus enfrentando vagas alterosas atiçadas por borrascas ou totalmente estagnadas nas calmarias da região equatorial. Mas o certo é que não raras vezes os navegadores abandonaram as embarcações para se aventurarem terra adentro. Esses destemidos pioneiros, no caso asiático maioritariamente religiosos jesuítas, inauguraram uma nova era: a era da observação científica. Não obstante, as enciclopédias da actualidade ignoram-nos por completo. E por que será? Provavelmente por desconhecimento dos factos e/ou mero desprezo por uma nação e um povo aos quais nunca foi reconhecido o seu real valor no palco da História.

Félix da Rocha, missionário preparado em Macau “nos mistérios das muitas chinas”, foi um dos pioneiros da região actualmente conhecida como Mongólia Interior. Nascido em Lisboa a 31 de Agosto de 1713, optou pela missão da China após oito anos de estudos – quatro de filosofia e quatro de teologia. Entrou no Continente em 1735, após ter frequentado o seminário de Macau, tendo ingressado posteriormente na corte de Pequim, em 1738, onde foi astrónomo. Cedo caiu nas boas graças do imperador que via nele um homem de muita ciência e virtude. Em 1753 é nomeado, pelo imperador Qialong, assessor do Tribunal das Matemáticas e passou a dirigir o Observatório Astronómico de Pequim. Em 1755, como recompensa por ter, com a ajuda do padre Pedro Espinha, mapeado as regiões do Turquestão e da Tartária, habitadas pelos elutos e torgutes, o imperador nomeia-o mandarim de segunda ordem.

Na Hohot de hoje, num desafio à tirania do tempo, há ainda quem carde algodão em plena rua e quem venda fresquíssimas maçãs vermelhas nas ruelas dos bairros interiores onde grupos de crianças improvisam balizas em portões de pátios fechados, e ocultam mesas de bilhar instaladas em frente às minúsculas padarias dos Hui, chineses muçulmanos, mestres no sector da panificação. A modernização não se compadeceu do passado histórico, embora em todo este processo nem tudo se perdeu. Os habitantes de Hohot parecem sentir imenso orgulho nas profissões que exercem e demonstram-no, recebendo o forasteiro de bom grado, sempre dispostos a posar para a fotografia. Ele é latoeiros, fabricantes de chaves, sapateiros, carpinteiros (responsáveis pelas bonitas janelas, alpendres e ombreiras que abundam no casario de um ou dois pisos), construtores de gaiolas…

Exemplo de comunhão de credos, Hohot reune num só bairro, templos budistas, taoístas, mesquitas e até uma igreja católica, vestígio último da passagem dos jesuítas formados em Macau. Mas a estrela local é o templo Xilitou Zhao, terreno priveligiado de manifestação de um Buda vivo, o décimo primeiro. De estilo chinês, com ténues influências tibetanas, a actual estrutura de Xilitou Zhao, remonta ao século XIX, pois a original ardeu centenas de anos antes, à semelhança, de resto, do que aconteceu com muitos dos edifícios religioso.

O padre Félix da Rocha regressaria, com Espinha, desafiando perigos sem conta, a esta inóspita região para terminar o seu trabalho: observar a latitude, deduzir a longitude, as curvas orográficas e as distâncias. No total foram determinadas quarenta e três posições geográficas. Foram os dois primeiros europeus a percorrer tais paragens, desde que nela andara, século e meio antes, Bento de Góis na demanda do Cataio.

Por duas ocasiões, em 20 de Agosto de 1774 e em Março de 1777, Félix da Rocha seria enviado ao pequeno Tibete, Tibete Oriental, recentemente anexado ao império chinês, com o objectivo de traçar o mapa de toda aquela região.

Os mapas de Félix da Rocha e de Pedro Espinha serviriam de base aos estudos e mapas sobre a Ásia Central, hoje mundialmente conhecidos, efectuados por Klaproth, Ritter e Alexander von Humboldt. Que, como sempre acontece nestas coisas, ficaram com todos os louros, relegando para o esquecimento os pioneiros portugueses.

Em 1770, o jesuíta Cibot escrevia, a propósito, o seguinte: “Acabam de ser publicadas mapas e notícias sobre regiões recentemente conquistadas, sem que sejam mencionados os nomes dos nossos padres portugueses que, por ordem imperial, recolheram os dados e as coordenadas desses mesmos locais”.

No ano de 1750, em carta enviada a D. Policarpo de Sousa, bispo de Pequim – que aportara a Macau, vindo de Portugal, em 1726 –, Félix da Rocha desabafava: “Eu sou o da Vice Província o mais velho na missão dos que se acham em Pequim, porque todos os padres que aqui achei, excepto sua Exa., já lá vão para outra vida e nenhum desde que cá estou, tem servido mais por neves, frios, perigos e consumições do que eu, mas como tudo é por Deus, só dele terei o prémio, como espero na Sua Divina Bondade...”

O padre Rocha ocupou o cargo de procurador da missão portuguesa em Pequim, e de vice provincial em 1754–1757 e de 1762 a 1766, e a sua intervenção foi preponderante para que os prisioneiros portugueses em Nanquim – padres Araújo, Viegas, Pires, Dinis Ferreira e José da Silva – fossem libertados e pudessem regressar a Macau.

Félix da Rocha morreu em Pequim, a 22 de Maio de 1781.

 

Joaquim Magalhães de Castro, escritor e investigação da Expansão Portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

 

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