Óscares da vida

Iris Lei

 

Com os mais famosos prémios cinematográficos a aproximarem-se, a vida ganha cada vez mais emoção. Se gosta de cinema, já se terá apercebido que, por vezes, a vida é mesmo como um filme.

Lembremos o clássico “O Padrinho”, uma das melhores trilogias de sempre e vencedor do Óscar para melhor filme em 1973. Don Corleone envia o seu advogado para falar com um realizador, já que o seu afilhado tinha sido rejeitado como protagonista do filme de guerra que estava a ser filmado. O realizador ignora o pedido do advogado e acaba com uma cabeça de cavalo ensanguentada na sua cama.

Há também “Shutter Island”, de Martin Scorsese, com DiCaprio a brilhar – os dois são nomeados para os prémios deste ano. Será que o detective (DiCaprio) está a investigar um misterioso caso numa ilha remota, ou a investigação é apenas parte de uma farsa para curar o recluso e paciente psiquiátrico? A verdade não é importante, o que interessa é que já fomos persuadidos a acreditar no que nos dizem ser a verdade.

Temos ainda o épico “Mil novecentos e oitenta e quatro”, passado na orweliana Oceania. Grupos de editores trabalham para o Ministério da Verdade, alterando os registos históricos de modo a ir ao encontro dos objectivos do partido, e apagando documentos relevantes para que ninguém se lembre, ou conheça, a verdade.

Se acreditarmos que a vida e os filmes estão magicamente ligados, conseguimos perceber em que direcção caminhamos. Primeiro, usam-se como ameaça acções ao bom estilo das tríades. Claro que não são deixadas provas, mesmo que existam câmaras de segurança. Alguns podem argumentar “Se não há provas, como sabes que alguém estava a ser intimidado?”. O padrinho não é acusado de ter morto o cavalo ou assustado o realizador. Mas a intuição dos espectadores diz-lhes que foi ele, já que sabe bem o que o padrinho desejava do cineasta.

Mesmo depois de ter aprendido isto com “O Padrinho”, continua a ser chocante saber que um jornalista de Hong Kong foi agredido com um cutelo, ficando gravemente ferido. Tudo o que posso fazer agora é rezar pela sua recuperação e rezar também por nós, para que não entremos no caminho apontado por Scorsese e Orwell.

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O espaço da língua portuguesa num mundo globalizado (II)

Fernando Dias Simões

 

Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Macau

http://pearlriverdeltalaw.wordpress.com

 

A CPLP é uma organização transcontinental com bastante potencial. Portugal e Brasil, os dois membros mais desenvolvidos, têm muito a ganhar com a plena integração dos outros Estados-membros no mercado global. A transferência de tecnologia, por exemplo, pode auxiliar os países menos desenvolvidos a acelerar o seu crescimento económico. Uma vez que a organização inclui países em diferentes níveis de desenvolvimento, existe amplo espaço para uma melhoria da cooperação comercial e para a criação de oportunidades para todos. Alguns autores falam de um “Atlântico Lusófono” para aludir ao papel tradicional do português como uma plataforma entre a Europa, África e o Brasil. Mas o que significa essa expressão agora que os impérios coloniais pertencem ao passado e vivemos num mundo globalizado, dominado pelo idioma Inglês, pelo neoliberalismo Anglo-Americano, e talvez num futuro próximo pela China?

A lusofonia é um agrupamento cultural e linguístico que tem necessariamente de competir com os blocos regionais de integração económica. Mesmo que alguns a encarem com desdém, a CPLP pode tornar-se num veículo dinâmico para a promoção da coordenação económica, cultural e social dos seus Estados-Membros. A nova era da globalização confronta os seus membros com vários problemas. O património comum da língua portuguesa pode ser usado como uma ferramenta para novas formas de colaboração e ajudar a enfrentar os desafios colocados pelo mundo contemporâneo.

O português é cada vez mais encarado como uma língua internacional com um papel específico a desempenhar num mundo globalizado. Uma das repercussões da globalização é o estímulo à aprendizagem de línguas estrangeiras. A relevância da língua portuguesa na arena internacional tem vindo a crescer nos últimos anos, principalmente devido ao crescimento económico do Brasil, Angola e Moçambique. Relações comerciais de sucesso dependem de ferramentas de comunicação adequadas. Cada vez mais os empresários precisam de gerir e valorizar a capacidade linguística como um activo da empresa. As empresas multinacionais, em particular, exigem muitas vezes competências linguísticas específicas aos seus empregados. Os mercados são segmentados de acordo com perfis de clientes baseados em grupos geográficos ou linguísticos. A análise do potencial económico da língua tem vindo a atrair cada vez mais atenção. Por exemplo, estima-se que este valor represente cerca de dezassete por cento do produto interno bruto português.

A defesa e promoção da língua portuguesa é uma das funções centrais da CPLP. No entanto, a organização não tem sido muito pró-activa na promoção das vantagens económicas de uma linguagem comum. Portugal e Brasil são até agora os dois únicos países lusófonos com capacidade efectiva para expandir a língua portuguesa para fora das suas fronteiras. Países como a Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, e Timor Leste não têm, evidentemente, meios suficientes para a educação e promoção da língua. São estados lusófonos praticamente apenas no nome. Por outro lado, o idioma português vem enfrentando crescente concorrência de outras línguas em vários territórios onde detém estatuto oficial. A pressão de inglês em Timor Leste e do francês na Guiné-Bissau fornece exemplos eloquentes. Alguns afirmam mesmo que a luta para manter o português como língua oficial em Timor Leste é uma batalha perdida e que num futuro próximo a língua provavelmente será reduzida a pouco mais do que o estatuto oficial.

A comunidade lusófona tem o seu próprio lugar no mundo globalizado, assim como outras áreas tais como a Francofonia e a Commonwealth britânica. Esta comunidade é baseada em laços linguísticos, culturais, históricos, políticos e humanos. Em busca do seu lugar na economia global, os Estados-membros devem utilizar essa língua comum de uma forma mais pragmática – como ferramenta de desenvolvimento. A organização deve transformar uma herança comum em potencial criativo. Nesta matéria a China fornece um bom exemplo de pragmatismo e de compreensão da íntima relação entre linguagem e negócios. Tal como outros governos em todo o mundo, a China reconhece que é do seu interesse promover a aprendizagem de algumas línguas estrangeiras. O mercado global exige uma multiplicidade de línguas de trabalho. O inglês, sendo uma língua global, é muitas vezes insuficiente, sendo cada vez mais visto no mundo dos negócios como uma competência básica (para os primeiros contactos) e como a linguagem corporativa (nas empresas multinacionais), podendo o bom domínio de outras línguas fazer uma diferença substancial no aprofundamento das relações comerciais. O interesse da China no mundo lusófono evidencia o entendimento chinês sobre as potencialidades que derivam da utilização do português como uma ferramenta para a cooperação comercial e o desenvolvimento económico.

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Os heróis morrem e nascem todo os dias

[Um quê de quoi]

Cláudia Aranda

Mandela, Malangatana, Wangari Maathai, Cesária Évora, Eusébio, Mário Coluna. De repente acordamos e parece que se esgotaram todos os nomes na enciclopédia de personalidades de referência que nos ajudaram a construir uma imagem positiva de África.

De repente parece que desapareceram todos aqueles que aprendemos a admirar e de quem guardamos na memória imagens épicas. Seja de punho erguido a sair da prisão para unir e pacificar uma África do Sul dividida entre brancos e negros. Ou de pés descalços a cantar a saudade de Cabo Verde. De pincel em punho a desenhar figuras redondas e dramáticas que deram a conhecer Moçambique em muitos cantos do mundo.

Outros aprendemos a admirar vendo-os a marcar golos registados em imagens a preto e branco. Também há quem tenha deixado uma marca neste mundo a plantar árvores, a promover biodiversidade e a dar trabalho às mulheres no Quénia, como foi o caso de Wangari Maathai.

Faço um exercício de memória para tentar rebuscar todos os nomes que todos os dias me fazem ter orgulho nesse continente e nesse país onde nasci e cresci e ocorrem-me alguns, bastantes, muitos mesmo, que continuam a denunciar as injustiças, as desigualdades e as tiranias que se cometem naquele continente e no mundo. Ou que nos inspiram e aconchegam a alma com as suas histórias, a sua música, a sua arte, os seus feitos.

Ocorrem-me nomes como Rafael Marques, o activista angolano, que denuncia os crimes praticados nas minas de diamantes em Angola, do bispo sul-africano Desmond Tutu, o homem que nunca se cala perante casos de violação dos direitos humanos. Lembro-me de Mia Couto e de Paulina Chiziane. De Kofi Annan, do Gana, Nadine Gordimer, da África do Sul, Angélique Kidjo, do Benin, de Ellen Johnson Sirleaf, da Libéria.

Neste exercício de nomes grandes de África esbarro com Fahma Mohamed, 17 anos, uma africana, desconhecida, da Somália que, no Reino Unido, está a tentar alertar a sociedade e os políticos para o risco de 24 mil raparigas, naquele país, onde supostamente estariam a salvo, poderem ser vítimas de mutilação genital. Fahma Mohamed é uma figura anónima cujas acções estão a valer o reconhecimento de muita gente.

No dia em que morreu mais um dos que aprendemos a reconhecer e a admirar é bom saber que todos os dias surgem heróis a fazerem-se ouvir, a denunciar as injustiças, a fazer grandes feitos e a inspirar-nos.

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O meu senhor

Sónia Nunes

 

Sabemos que há qualquer coisa de fatal numa história que começa a ser contada por coincidências: os detalhes nunca são esquecidos quando falamos de um dia que não podia seguir caminho como se nada tivesse acontecido. Venho falar-vos de um desses momentos em que a vida como a conhecemos fica suspensa. Esta história começa com um gira-discos que tocava Jacques Brel baixinho porque já passava das onze da noite. Foi neste domingo. A agulha picava “La chanson des vieux amants” (poderia lá ter sido outra canção?) quando o meu telefone deu sinal de mensagem. Era ele.

Já tinha pressentido que havia chegado o momento da conversa, a definitiva, aquela que termina ou renova uma relação já gasta pelo tempo. Connosco tinham passado quase dois anos – faltavam três meses, ele não é dos que esquece um aniversário – e ambos acusávamos desgaste. Eu estava confortável com a rotina, mas ele queria mais e já me tinha feito saber que éramos de mundos diferentes. E somos. Ele é (como é que adivinharam?) o senhorio e eu a arrendatária.

A nossa relação, como qualquer outra, é de poder. Sou, sem surpresas, a parte mais fraca, ainda que não seja por opção. A mediar as nossas turras estão apenas os memoráveis conselhos de Chu Lam Lam, directora dos Serviços da Reforma Jurídica e do Direito Internacional, quando disse que os limites à actualização das rendas podem ser conseguidos através de negociação entre senhorios e inquilinos. Segui a dica e estou cinco por cento grata: em vez de um aumento brutal de 40 por cento, vou ter um de 35 por cento. Mais a actualização do depósito. Mais um agradecimento por não ter de pagar uma comissão a uma agência. Sobretudo, mais um obrigada por não ficar com a casa às costas, a meio da noite de um plácido domingo, quando o preço a pagar é o de mercado e o que não falta é gente à procura de tecto.

Todos os dias há alguém em Macau contar uma história como esta (vá lá, menos romantizada) que não conhece finais felizes: quem fica é forçado a esticar o salário até rebentar; quem sai sabe que vai pagar mais por uma casa pior. À falta de uma razão para haver um Chefe do Executivo que, em ano de ser reconduzido no cargo, opta por ignorar a maior causa de insatisfação social, resta-me recordar o que um amigo, leitor de Baudrillard, me dizia na faculdade: se é verdade que o capitalismo encerra em si os germes da sua própria destruição, a única coisa a fazer é acelerar o processo.

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O preço da cultura

Hélder Beja

Este jornal existe hoje num bairro antigo, num edifício a dar as costas ao Largo do Senado e à cidade turística. Uma rua, basta uma rua e a paisagem muda, os corredores de pessoas desaparecem, as portas abrem-se, o silêncio toma o lugar da algazarra. Em volta, prédios e mais prédios decrépitos. Que não nos enganemos: belos e magníficos na sua decrepitude, senhores daquela aura que só as coisas velhas e usadas e até estragadas podem ter, mas muitíssimo mal tratados.

Estas casas gritam ‘património’, são paredes de outros tempos, de um lugar que já não existe. Sem saudosismos. Esta cidade velha merecia outra atenção, outro cuidado, menos derrocadas, zero incêndios negligentes. Os anos passam e da Administração pouco chega. As casas continuam devolutas, o lixo acumula-se, nada acontece.

Pode parecer que a relação é distante, mas que haja aqui no Bazar – como no Porto Interior e noutros lugares – tantas fracções votadas ao abandono tem tudo que ver com as disparatadas rendas da cidade, as lojas que fecham em Macau, o sofrimento de pequenas associações que não têm por trás de si o lobby do jogo, o lobby tradicional ou outra qualquer força endinheirada.

Que um Governo permita que senhorios (sejam eles quem forem) tratem a descaso os imóveis que possuem, que não crie mecanismos que obriguem ao (e apoiem o) restauro dos edifícios, que não exproprie quem se está marimbando para o estado das casas que no papel são suas – tudo isto ajuda a que, na hora de encontrar soluções para habitação, pequeno comércio ou outra actividade que não envolva milhões de patacas, as opções sejam as que conhecemos. Poucas, várias vezes desinteressantes e quase sempre caras.

A Macau Creations vai fechar portas. A galeria da Art For All (AFA) vai fechar portas. Goste-se mais ou menos de um e de outro projecto – completamente diferentes mas ambos ligados à cena artística local, cada qual com sua função – não se pode deixar de lamentar que estas notícias cheguem em catadupa, que uma loja extremamente comercial (apesar do toque artístico) num lugar extremamente comercial não resista; que uma galeria de uma associação nada comercial num lugar nada comercial também não se aguente.

O problema parece estar por todo o lado. A escalada de preços não pára. Quem depende em boa parte de subsídios anuais da Administração e seus derivados, como a AFA depende, fica meses na incerteza de saber se o dinheiro vai cair ou não, de mão estendida, a pedir as migalhas da cultura. Se a AFA poderia fazer um trabalho melhor? Certamente que sim, em muitos aspectos. Tal como todos nós, em tantas esferas da nossa intervenção profissional nesta cidade, poderíamos e deveríamos ser melhores e mais exigentes do que somos. Mas importa também perguntar se a AFA e o trabalho da AFA são importantes. E para mim está claro que a resposta é sim, muitas vezes sim.

As majestosas paradas de milhões e milhões de patacas, que enchem as ruas de figurantes saltitantes e pândegos, são certamente muito bonitas para celebrar datas comemorativas e para fazerem capas de jornais e revistas aqui e no Continente. Ali está Macau, o caldeirão multicultural, ao menos durante uma tarde. Pena que não se perceba de uma vez que esses carnavais são isso mesmo: chegam e passam, sem deixar rasto.

Saber que está para desaparecer – primeiro aqui, provavelmente depois em Pequim – uma das poucas instituições que tem feito o panorama artístico da cidade mexer é uma triste realidade.

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Um conselho de gente interessada

Maria Caetano

A proposta de composição do Conselho do Património Cultural, apresentada na última sexta-feira, mereceu críticas, pelo menos, da parte de um especialista do sector por se prever, com a representação aprovada pelo Governo, menor participação do que a que seria de esperar na discussão de matérias onde é grande a intervenção de organizações e particulares com interesses – os chamados stakeholders, no jargão da decisão política concertada.

O conselho terá sobejos membros da Administração e a presença assegurada de 12 especialistas ou académicos e personalidades “de reconhecido mérito social”. Tal mérito é, evidentemente, fruto do reconhecimento do Chefe do Executivo, o responsável único pela nomeação de membros para o órgão de consulta criado no âmbito do Instituto Cultural e na sequência da revisão da Lei de Salvaguarda do Património Cultural.

Os princípios que orientam a composição do conselho não divergem da habitual orientação para os muitos órgãos consultivos, garantindo-se uma direcção pelo Executivo e replicando a sobrerepresentação das nomenclaturas do costume – que, salvo excepções que possa haver, se legitimam meramente pelo facto de já terem assento noutros conselhos e organizações. O currículo continua a ser um pomposo cartão de visita com muitos cargos alinhados e independentes dos factos e do trabalho, e já receber senhas de presença parece ser sinónimo de experiência e interesse.

O que está em causa é a relevância da representação, nem sempre atestada ou justificada (bem como uma natural desconfiança em relação ao trabalho de conselheiros que se escondem atrás de portas bem fechadas por via de regra). E, neste caso, como no do planeamento urbanístico e outros, fala-se dos chamados stakeholders, assumindo que têm interesses favoráveis ou opostos aos das propostas que saiam do conselho, declaradamente. A relevância, no caso, é confirmada, por exemplo, pela ligação por titularidade ou histórica a um imóvel que se queira preservar. O arquitecto Vizeu Pinheiro dá o exemplo da diocese e das suas igrejas, e outros há.

Não se trata pois, aqui, de mera questão de mérito. Trata-se de reunir interesses assumidos, e não camuflados, variados e contraditórios nas discussões.

Mais ainda porque este órgão consultivo, ao contrário de outros antes dele, extravasa em muito a competência apenas consultiva, ainda que seja chamado de conselho. Os futuros conselheiros vão decidir condicionamentos urbanísticos, compras e expropriações, a concessão de apoios financeiros e também a eventual criação de chamadas zonas tampão do património – que, recorde-se, deixam de ser obrigatórias na nova legislação. Vão lidar directamente com o mercado imobiliário e com o erário público, e terão naturalmente grande influência no desenvolvimento urbano e económico da cidade. É definitivamente importante saber quem serão e quais os seus interesses calados e declarados.

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Mínimo e previsível

Inês Santinhos Gonçalves

Contrariamente aos resultados da consulta pública, o Governo optou por fixar o salário mínimo para os trabalhadores de limpeza e segurança de prédios nas 28 patacas por hora, abaixo do estabelecido em Hong Kong, onde o valor é de 30 patacas por hora.

Infelizmente, não se pode dizer que o valor surja como uma surpresa. Em Dezembro do ano passado, quando foram divulgados os resultados da consulta – em que 98,8 por cento defendeu as 30 patacas por hora – o Governo salientou que “a implementação do salário mínimo legal irá aumentar os custos operacionais das empresas, sendo esse aumento transferido inevitavelmente para os consumidores”. No documento divulgado pela Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais era também expresso que, tendo em conta que a maioria dos trabalhadores deste sector é de idade avançada e tem baixas habilitações, “quanto mais alto for o salário mínimo, maior será a hipótese destes trabalhadores virem a ser substituídos”. No relatório, o Executivo afirmou ainda que “a implementação terá, sem dúvida, um impacto profundo no desenvolvimento socioeconómico”.

Não espanta portanto que, depois de “analisar prudentemente” os diversos factores, como ficou prometido, a conclusão se distancie do que foi pedido pela população.

Os patrões dirão – e disseram, na altura – que as 1007 opiniões apresentadas vieram todas do sector laboral ou de simpatizantes dos trabalhadores. Estes são, aliás, como lembrou o vice-presidente da Associação Comercial, em maior número, o que inquina logo as contas. Mas Vong Kok Seng também disse que os empregadores se retiraram da discussão, ao não avançarem com nenhum valor. “Qualquer número vai ter um efeito adverso”, sentenciou. Na sexta-feira, Vong foi claro ao afirmar que está contra a fixação de um salário mínimo, mesmo tendo dito, em Janeiro do ano passado, que concordava “com a possibilidade de se estudar a introdução de um salário mínimo para os trabalhadores da administração de edifícios e de serviços de limpeza”. Subtilezas da linguagem.

Não me surpreende que o patronato esteja contra o aumento dos salários – por mais que nos digam o contrário, é disso que se trata e a reacção dos patrões assim o prova. O que (ainda) me choca é que o Governo tenha o desplante de se escudar constantemente em consultas públicas, por vezes manipuladas, e agora, quando o resultado não agrada, ignora a dita opinião pública estoicamente. Afinal, as decisões são tomadas através do habitual equilíbrio de interesses. Escusavam de nos atirar areia para os olhos.

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Uma questão de fé

Iris Lei

Numa altura de crescente preocupação com a deterioração da liberdade de imprensa, um “grupo de funcionários da TDM preocupados” e um “grupo de jornalistas da linha da frente que firmemente se opõem à censura” dizem-nos: vocês têm a televisão, mas eles têm o comando e a ficha da electricidade.

A primeira carta chegou dias após o anúncio de que Manuel Pires seria substituto por Leong Kam Chun, actual presidente da comissão executiva da TDM, e não teve qualquer reacção significativa nos media de língua chinesa, assim como a segunda, publicada três dias após da primeira apesar da reiteração pelo Governo de que há liberdade de imprensa na empresa de media de concessão pública.

É facto reconhecido entre o público de língua chinesa que a informação da TDM é parcial, favorecendo o Governo, as associações tradicionais e o sector dos negócios. A carta exemplifica com situações surpreendentes.

Diz, por exemplo, que é dito aos “fotógrafos e operadores de câmara que não precisam de acompanhar os jornalistas que procuram chegar à fala com os principais dirigentes”, que as iniciativas provenientes das associações liberais são alinhadas praticamente no final do noticiário, sempre com menos de 30 segundos de antena, ao passo que o campo pró-Pequim tem sempre espaço nobre e mais tempo. “Os novos jornalistas são aqueles que são escalados para cobrir acontecimentos com valor noticioso promovidos por associações pró-democracia”, diz-se. As “mão invisíveis” na redacção da TDM vêem os jornalistas empenhados como “instrumentos da harmonia”.

A revolta e a ansiedade são claramente observadas nestas duas cartas. Lamenta-se também que o novo administrador da TDM não fosse capaz de fazer qualquer promessa, explicando que não produzirá comentários até assumir o cargo a 1 de Março e ouvir opiniões directamente.

Em primeiro lugar, Pires está envolvido na TDM desde 2001 e foi responsável pela nomeação do seu antecessor em 2011. Em 13 anos, se quisesse, poderia ter ouvido milhares de opiniões dos trabalhadores.

Em segundo lugar, está em causa uma crença pessoal. Para acreditar em Deus, Kun Iam e Alá não são precisas razões e não depende do sítio onde se trabalha. Recentemente, os deputados votaram contra uma lei de protecção dos animais e foram criticados por não explicarem os seus motivos. Podemos também questionar o novo administrador da TDM quando este não clarifica a sua posição relativamente à liberdade de imprensa.

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A herança portuguesa na doçaria nambagashi

Rui Rocha

Director do Departamento de Língua Portuguesa e Cultura dos Países de Língua Portuguesa da Universidade Cidade de Macau

 

O Japão é um país de múltiplos fascínios. Os primeiros relatos dos primeiros europeus (jesuítas e mercadores) ao aportarem o Japão dão-nos conta desse grande encantamento pela cultura japonesa. A título de exemplo, em 1561, o jesuíta espanhol Cosme Torres releva admiração pelos japoneses deste modo: “São discretos quanto se pode cuidar: governam-se pela razão tanto ou mais que os espanhóis. São curiosos de saber mais que quantas gentes eu tenho conhecido (…). Em todo o descoberto não há homens da sua maneira. Tem muy linda conversação e me parece que todos eles se criaram em passos de grandes senhores (…)”.

Vários foram os escritores ao longo dos séculos que exaltaram o refinamento estético minimalista nas várias artes de inspiração Zen: na arquitetura, na arquitetura paisagista, no design gráfico, bem como nas artes tradicionais do Japão como a caligrafia, a pintura, a poesia, a cerâmica, o teatro nô, a arte do arranjo floral, a cerimónia do chá, a arte dos jardins etc.. Como também foram sensíveis ao culto da tranquilidade, à cortesia do trato mesmo inter-pares e ao elevado sentido de tolerância e de hibridação de segmentos culturais exteriores à sua cultura. Numa expressão curta: apreciaram a singularidade da maneira de ser e de estar dos japoneses (nihonjinron).

Um dos aspetos mais interessantes da civilização japonesa é precisamente a capacidade de integrar na sua cultura o que de melhor recebe de cada cultura exterior às suas fronteiras físicas. Janeira afirmou que o Japão integrou, “sobretudo da China, através da Coreia – a escrita sínica, a religião budista, a arte, as formas de cortesia e de convívio. Por isso não admira que os Japoneses recebessem os Portugueses com o interesse de descobrirem a sua maneira de viver e os seus conhecimentos do mundo”.

E neste aspeto, o Japão é, também e ainda hoje, um país de múltiplas surpresas. Uma dessas surpresas é a doçaria japonesa e o que ela tem de empréstimo da doçaria portuguesa, contrariamente ao que aconteceu em Macau ao longo de 500 anos de presença portuguesa. Em Macau, apenas muito recentemente foi promovido o pastel de nata, com o rótulo enganoso e culinariamente ofensivo de “the real Portuguese egg tart” que pouco mais é do que um produto fake, tipo A, e de muito má qualidade. Para qualquer português, o pastel de nata não é aquele, é o pastel de Belém, é o pastel de nata da Aloma, da Chique, da Cristal, da Casinha do Pão, da Mafraria, da Alcoa, do Pingo Doce e de tantas, tantas outras pastelarias de norte a sul de Portugal.

Ao contrário, a doçaria conventual levada pelos jesuítas para o Japão nos sécs XVI e XVII teve outra sorte e deixou história na doçaria japonesa e no léxico da língua japonesa. Mas fez-se bem mais do que isso: foi exportada a boa nova para outros países como a Tailândia, o Camboja, a Indonésia, as Filipinas.

Vejamos, então, o léxico japonês da doçaria conventual recenseado por Jane Cobbi (1992): tamago sōmen (1643) “ovos moles”; kasute hoto (1668), “bolo de Castela” ou kasutera (1558) “pão-de-ló”; hoto (1558, 1718) “bolo de trigo açucarado”; aruheiro (1558, 1689) “alféloa”; konpeito (1558, 1713) “confeito”; chichirāto (1689) “shishilato” ou “bolo de sésamo”; kosukuran (1718) “socorão” ou “coscorão”; karintō (1718) “corinto”; hiryōsu (1689) “filhoses”, bisukoto (1689) “biscoito”; kesachīna ou kesaina (1718) “queijada”; haruteisu (1718) “fartura”; karumeira (1558, 1718) “caramelo”; hasuteira (1750) “pasuteira”, “pastel”.

Os nambagashi, literalmente “doces dos bárbaros”, tais como os fios de ovos (keiran sōmen 鶏卵素麺) e o pão-de-ló (kasuteraカステラ) são em tudo similares aos de Portugal, e são muito apreciados e muito consumidos ainda hoje pelos japoneses. Inclusivamente, vende-se no Japão um pão-de-ló húmido em pequenas caixas redondas, igual ao pão-de-ló de Ovar.

Estes nambagashi, designadamente os fios de ovos, foram introduzidos noutros países pela diáspora cristã de leigos japoneses e de jesuítas na segunda metade do século XVII, resultante da repressão japonesa contra os cristãos. Também os mercadores emigrantes japoneses que, impedidos de regressarem ao Japão pela política de isolamento (sakoku) do shogunato dos Tokugawa e que se fixaram noutros zonas da Ásia, nomeadamente na Tailândia, Cochinchina, Camboja, Filipinas, Indonésia (Batávia-atual Jacarta, Java, Celebes e Timor), podem ter dado a conhecer as prática de doçaria habituais no Japão daquela época.

Na Tailândia, por exemplo, os fios de ovos foram introduzidos por uma luso-japonesa-bengali, no séc. XVII, Maria Guyomar de Pinha (1664-1725) que nasceu em Ayutthaya durante o reinado de Narai do Sião. A sua mãe era uma japonesa católica, Úrsula Yamada, cuja família emigrou para a Tailândia após a repressão japonesa sobre o cristianismo, e o seu pai Fanik Guyomar, originário de Goa, era um católico de ascendência japonesa e bengali. Maria Guyomar chegou a ser a cozinheira-chefe da cozinha real e a ela se deve a introdução dos fios de ovos (foi thon), das trouxas das Caldas, em forma de estrela (thong yib), dos rebuçados de doce de ovos (thong yod), e a sangkhaya (abóbora com pudim de coco) na culinária tailandesa da corte de Ayutthaya. Esta doçaria integrou também a doçaria cambojana com os fios de ovos (vawee) e a sangkhaya (sankhya lapov).

Nas ruas de Bangkok e no popular centro comercial de Bangkok “MBK” é muito vulgar ver-se à venda as khanom buang que são uma espécie de bolacha crocante com creme de coco e fios de ovos (foi thong).

O kueh kapit ou kuit belanda (belanda significa em malaio Holanda), um biscoito tradicional Nyonya que encontramos na Malásia, na Indonésia e em Singapura, assim como kuih bahalu, muito semelhante ao bolo-madalena, parecem provir de uma tradição doceira europeia e conventual.

Em Macau, para comermos um bom pão-de-ló basta irmos à loja indonésia da Rua Francisco Xavier Pereira…

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A táctica do pastel de nata

[Um quê de quoi]

Cláudia Aranda

Foi ao som do cavaquinho português da tuna macaense, alguns cantores locais, artesãos e tapetes de Arraiolos, muitos pastéis de nata e algum vinho tinto do Douro português que Macau lançou a operação de caça ao turista em Nanning com o crème de la crème do Governo de Macau e da região autónoma de Guangxi presente na inauguração.

Para quem nunca tinha andado nestas aventuras de acompanhar comitivas oficiais foi surpreendente verificar no terreno o quanto os vestígios da cultura portuguesa, a música, a arquitectura, a gastronomia, a pastelaria, o vinho são usados pela máquina promocional do Governo para cobrir de cosmopolitismo esta pequena cidade plantada à beira da foz do rio das pérolas e atrair visitantes da China profunda.

Se a táctica do pastel de nata tem sucesso só temos que ficar felizes por isso, não é sequer a questão. O que está aqui em causa será a tendência para restringir essa diversidade cultural de Macau ao que é mais óbvio, comer e beber. Não querendo de forma alguma diminuir o peso que a gastronomia tem na cultura desta região, e na cultura dos povos em geral, convenhamos que faltou mostrar que diversidade cultural é também as línguas, a literatura, a história, o cinema, a arte, a pintura, que Macau diz que quer divulgar e desenvolver. Promover a cultura passa também por aí, por levar o público, os que vivem cá e os que chegam de fora, a ver o que os artistas locais e os não locais fazem, expõem e publicam.

Foi interessante perceber que Guangxi tem uma visão de desenvolvimento turístico que vai além-fronteiras, quer conquistar a Europa, os Estados Unidos da América, quer os turistas estrangeiros que vão a Macau a passearem-se em Nanning e em Guilin, quer fazer exposições e convenções.

Guangxi quer conquistar o mundo. Macau quer conquistar os turistas de Guangxi. Quer que estes venham, que permaneçam, que gastem dinheiro e que consumam produtos culturais. Se o objectivo é, de facto, selecionar o tipo de turista, apostar na qualidade e não na quantidade como estratégia para reduzir a pressão sobre o território, então esse investimento terá que começar nos conteúdos das campanhas promocionais.

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