Óscares da vida

Iris Lei

 

Com os mais famosos prémios cinematográficos a aproximarem-se, a vida ganha cada vez mais emoção. Se gosta de cinema, já se terá apercebido que, por vezes, a vida é mesmo como um filme.

Lembremos o clássico “O Padrinho”, uma das melhores trilogias de sempre e vencedor do Óscar para melhor filme em 1973. Don Corleone envia o seu advogado para falar com um realizador, já que o seu afilhado tinha sido rejeitado como protagonista do filme de guerra que estava a ser filmado. O realizador ignora o pedido do advogado e acaba com uma cabeça de cavalo ensanguentada na sua cama.

Há também “Shutter Island”, de Martin Scorsese, com DiCaprio a brilhar – os dois são nomeados para os prémios deste ano. Será que o detective (DiCaprio) está a investigar um misterioso caso numa ilha remota, ou a investigação é apenas parte de uma farsa para curar o recluso e paciente psiquiátrico? A verdade não é importante, o que interessa é que já fomos persuadidos a acreditar no que nos dizem ser a verdade.

Temos ainda o épico “Mil novecentos e oitenta e quatro”, passado na orweliana Oceania. Grupos de editores trabalham para o Ministério da Verdade, alterando os registos históricos de modo a ir ao encontro dos objectivos do partido, e apagando documentos relevantes para que ninguém se lembre, ou conheça, a verdade.

Se acreditarmos que a vida e os filmes estão magicamente ligados, conseguimos perceber em que direcção caminhamos. Primeiro, usam-se como ameaça acções ao bom estilo das tríades. Claro que não são deixadas provas, mesmo que existam câmaras de segurança. Alguns podem argumentar “Se não há provas, como sabes que alguém estava a ser intimidado?”. O padrinho não é acusado de ter morto o cavalo ou assustado o realizador. Mas a intuição dos espectadores diz-lhes que foi ele, já que sabe bem o que o padrinho desejava do cineasta.

Mesmo depois de ter aprendido isto com “O Padrinho”, continua a ser chocante saber que um jornalista de Hong Kong foi agredido com um cutelo, ficando gravemente ferido. Tudo o que posso fazer agora é rezar pela sua recuperação e rezar também por nós, para que não entremos no caminho apontado por Scorsese e Orwell.

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O espaço da língua portuguesa num mundo globalizado (II)

Fernando Dias Simões

 

Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Macau

http://pearlriverdeltalaw.wordpress.com

 

A CPLP é uma organização transcontinental com bastante potencial. Portugal e Brasil, os dois membros mais desenvolvidos, têm muito a ganhar com a plena integração dos outros Estados-membros no mercado global. A transferência de tecnologia, por exemplo, pode auxiliar os países menos desenvolvidos a acelerar o seu crescimento económico. Uma vez que a organização inclui países em diferentes níveis de desenvolvimento, existe amplo espaço para uma melhoria da cooperação comercial e para a criação de oportunidades para todos. Alguns autores falam de um “Atlântico Lusófono” para aludir ao papel tradicional do português como uma plataforma entre a Europa, África e o Brasil. Mas o que significa essa expressão agora que os impérios coloniais pertencem ao passado e vivemos num mundo globalizado, dominado pelo idioma Inglês, pelo neoliberalismo Anglo-Americano, e talvez num futuro próximo pela China?

A lusofonia é um agrupamento cultural e linguístico que tem necessariamente de competir com os blocos regionais de integração económica. Mesmo que alguns a encarem com desdém, a CPLP pode tornar-se num veículo dinâmico para a promoção da coordenação económica, cultural e social dos seus Estados-Membros. A nova era da globalização confronta os seus membros com vários problemas. O património comum da língua portuguesa pode ser usado como uma ferramenta para novas formas de colaboração e ajudar a enfrentar os desafios colocados pelo mundo contemporâneo.

O português é cada vez mais encarado como uma língua internacional com um papel específico a desempenhar num mundo globalizado. Uma das repercussões da globalização é o estímulo à aprendizagem de línguas estrangeiras. A relevância da língua portuguesa na arena internacional tem vindo a crescer nos últimos anos, principalmente devido ao crescimento económico do Brasil, Angola e Moçambique. Relações comerciais de sucesso dependem de ferramentas de comunicação adequadas. Cada vez mais os empresários precisam de gerir e valorizar a capacidade linguística como um activo da empresa. As empresas multinacionais, em particular, exigem muitas vezes competências linguísticas específicas aos seus empregados. Os mercados são segmentados de acordo com perfis de clientes baseados em grupos geográficos ou linguísticos. A análise do potencial económico da língua tem vindo a atrair cada vez mais atenção. Por exemplo, estima-se que este valor represente cerca de dezassete por cento do produto interno bruto português.

A defesa e promoção da língua portuguesa é uma das funções centrais da CPLP. No entanto, a organização não tem sido muito pró-activa na promoção das vantagens económicas de uma linguagem comum. Portugal e Brasil são até agora os dois únicos países lusófonos com capacidade efectiva para expandir a língua portuguesa para fora das suas fronteiras. Países como a Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, e Timor Leste não têm, evidentemente, meios suficientes para a educação e promoção da língua. São estados lusófonos praticamente apenas no nome. Por outro lado, o idioma português vem enfrentando crescente concorrência de outras línguas em vários territórios onde detém estatuto oficial. A pressão de inglês em Timor Leste e do francês na Guiné-Bissau fornece exemplos eloquentes. Alguns afirmam mesmo que a luta para manter o português como língua oficial em Timor Leste é uma batalha perdida e que num futuro próximo a língua provavelmente será reduzida a pouco mais do que o estatuto oficial.

A comunidade lusófona tem o seu próprio lugar no mundo globalizado, assim como outras áreas tais como a Francofonia e a Commonwealth britânica. Esta comunidade é baseada em laços linguísticos, culturais, históricos, políticos e humanos. Em busca do seu lugar na economia global, os Estados-membros devem utilizar essa língua comum de uma forma mais pragmática – como ferramenta de desenvolvimento. A organização deve transformar uma herança comum em potencial criativo. Nesta matéria a China fornece um bom exemplo de pragmatismo e de compreensão da íntima relação entre linguagem e negócios. Tal como outros governos em todo o mundo, a China reconhece que é do seu interesse promover a aprendizagem de algumas línguas estrangeiras. O mercado global exige uma multiplicidade de línguas de trabalho. O inglês, sendo uma língua global, é muitas vezes insuficiente, sendo cada vez mais visto no mundo dos negócios como uma competência básica (para os primeiros contactos) e como a linguagem corporativa (nas empresas multinacionais), podendo o bom domínio de outras línguas fazer uma diferença substancial no aprofundamento das relações comerciais. O interesse da China no mundo lusófono evidencia o entendimento chinês sobre as potencialidades que derivam da utilização do português como uma ferramenta para a cooperação comercial e o desenvolvimento económico.

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Os heróis morrem e nascem todo os dias

[Um quê de quoi]

Cláudia Aranda

Mandela, Malangatana, Wangari Maathai, Cesária Évora, Eusébio, Mário Coluna. De repente acordamos e parece que se esgotaram todos os nomes na enciclopédia de personalidades de referência que nos ajudaram a construir uma imagem positiva de África.

De repente parece que desapareceram todos aqueles que aprendemos a admirar e de quem guardamos na memória imagens épicas. Seja de punho erguido a sair da prisão para unir e pacificar uma África do Sul dividida entre brancos e negros. Ou de pés descalços a cantar a saudade de Cabo Verde. De pincel em punho a desenhar figuras redondas e dramáticas que deram a conhecer Moçambique em muitos cantos do mundo.

Outros aprendemos a admirar vendo-os a marcar golos registados em imagens a preto e branco. Também há quem tenha deixado uma marca neste mundo a plantar árvores, a promover biodiversidade e a dar trabalho às mulheres no Quénia, como foi o caso de Wangari Maathai.

Faço um exercício de memória para tentar rebuscar todos os nomes que todos os dias me fazem ter orgulho nesse continente e nesse país onde nasci e cresci e ocorrem-me alguns, bastantes, muitos mesmo, que continuam a denunciar as injustiças, as desigualdades e as tiranias que se cometem naquele continente e no mundo. Ou que nos inspiram e aconchegam a alma com as suas histórias, a sua música, a sua arte, os seus feitos.

Ocorrem-me nomes como Rafael Marques, o activista angolano, que denuncia os crimes praticados nas minas de diamantes em Angola, do bispo sul-africano Desmond Tutu, o homem que nunca se cala perante casos de violação dos direitos humanos. Lembro-me de Mia Couto e de Paulina Chiziane. De Kofi Annan, do Gana, Nadine Gordimer, da África do Sul, Angélique Kidjo, do Benin, de Ellen Johnson Sirleaf, da Libéria.

Neste exercício de nomes grandes de África esbarro com Fahma Mohamed, 17 anos, uma africana, desconhecida, da Somália que, no Reino Unido, está a tentar alertar a sociedade e os políticos para o risco de 24 mil raparigas, naquele país, onde supostamente estariam a salvo, poderem ser vítimas de mutilação genital. Fahma Mohamed é uma figura anónima cujas acções estão a valer o reconhecimento de muita gente.

No dia em que morreu mais um dos que aprendemos a reconhecer e a admirar é bom saber que todos os dias surgem heróis a fazerem-se ouvir, a denunciar as injustiças, a fazer grandes feitos e a inspirar-nos.

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O meu senhor

Sónia Nunes

 

Sabemos que há qualquer coisa de fatal numa história que começa a ser contada por coincidências: os detalhes nunca são esquecidos quando falamos de um dia que não podia seguir caminho como se nada tivesse acontecido. Venho falar-vos de um desses momentos em que a vida como a conhecemos fica suspensa. Esta história começa com um gira-discos que tocava Jacques Brel baixinho porque já passava das onze da noite. Foi neste domingo. A agulha picava “La chanson des vieux amants” (poderia lá ter sido outra canção?) quando o meu telefone deu sinal de mensagem. Era ele.

Já tinha pressentido que havia chegado o momento da conversa, a definitiva, aquela que termina ou renova uma relação já gasta pelo tempo. Connosco tinham passado quase dois anos – faltavam três meses, ele não é dos que esquece um aniversário – e ambos acusávamos desgaste. Eu estava confortável com a rotina, mas ele queria mais e já me tinha feito saber que éramos de mundos diferentes. E somos. Ele é (como é que adivinharam?) o senhorio e eu a arrendatária.

A nossa relação, como qualquer outra, é de poder. Sou, sem surpresas, a parte mais fraca, ainda que não seja por opção. A mediar as nossas turras estão apenas os memoráveis conselhos de Chu Lam Lam, directora dos Serviços da Reforma Jurídica e do Direito Internacional, quando disse que os limites à actualização das rendas podem ser conseguidos através de negociação entre senhorios e inquilinos. Segui a dica e estou cinco por cento grata: em vez de um aumento brutal de 40 por cento, vou ter um de 35 por cento. Mais a actualização do depósito. Mais um agradecimento por não ter de pagar uma comissão a uma agência. Sobretudo, mais um obrigada por não ficar com a casa às costas, a meio da noite de um plácido domingo, quando o preço a pagar é o de mercado e o que não falta é gente à procura de tecto.

Todos os dias há alguém em Macau contar uma história como esta (vá lá, menos romantizada) que não conhece finais felizes: quem fica é forçado a esticar o salário até rebentar; quem sai sabe que vai pagar mais por uma casa pior. À falta de uma razão para haver um Chefe do Executivo que, em ano de ser reconduzido no cargo, opta por ignorar a maior causa de insatisfação social, resta-me recordar o que um amigo, leitor de Baudrillard, me dizia na faculdade: se é verdade que o capitalismo encerra em si os germes da sua própria destruição, a única coisa a fazer é acelerar o processo.

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O preço da cultura

Hélder Beja

Este jornal existe hoje num bairro antigo, num edifício a dar as costas ao Largo do Senado e à cidade turística. Uma rua, basta uma rua e a paisagem muda, os corredores de pessoas desaparecem, as portas abrem-se, o silêncio toma o lugar da algazarra. Em volta, prédios e mais prédios decrépitos. Que não nos enganemos: belos e magníficos na sua decrepitude, senhores daquela aura que só as coisas velhas e usadas e até estragadas podem ter, mas muitíssimo mal tratados.

Estas casas gritam ‘património’, são paredes de outros tempos, de um lugar que já não existe. Sem saudosismos. Esta cidade velha merecia outra atenção, outro cuidado, menos derrocadas, zero incêndios negligentes. Os anos passam e da Administração pouco chega. As casas continuam devolutas, o lixo acumula-se, nada acontece.

Pode parecer que a relação é distante, mas que haja aqui no Bazar – como no Porto Interior e noutros lugares – tantas fracções votadas ao abandono tem tudo que ver com as disparatadas rendas da cidade, as lojas que fecham em Macau, o sofrimento de pequenas associações que não têm por trás de si o lobby do jogo, o lobby tradicional ou outra qualquer força endinheirada.

Que um Governo permita que senhorios (sejam eles quem forem) tratem a descaso os imóveis que possuem, que não crie mecanismos que obriguem ao (e apoiem o) restauro dos edifícios, que não exproprie quem se está marimbando para o estado das casas que no papel são suas – tudo isto ajuda a que, na hora de encontrar soluções para habitação, pequeno comércio ou outra actividade que não envolva milhões de patacas, as opções sejam as que conhecemos. Poucas, várias vezes desinteressantes e quase sempre caras.

A Macau Creations vai fechar portas. A galeria da Art For All (AFA) vai fechar portas. Goste-se mais ou menos de um e de outro projecto – completamente diferentes mas ambos ligados à cena artística local, cada qual com sua função – não se pode deixar de lamentar que estas notícias cheguem em catadupa, que uma loja extremamente comercial (apesar do toque artístico) num lugar extremamente comercial não resista; que uma galeria de uma associação nada comercial num lugar nada comercial também não se aguente.

O problema parece estar por todo o lado. A escalada de preços não pára. Quem depende em boa parte de subsídios anuais da Administração e seus derivados, como a AFA depende, fica meses na incerteza de saber se o dinheiro vai cair ou não, de mão estendida, a pedir as migalhas da cultura. Se a AFA poderia fazer um trabalho melhor? Certamente que sim, em muitos aspectos. Tal como todos nós, em tantas esferas da nossa intervenção profissional nesta cidade, poderíamos e deveríamos ser melhores e mais exigentes do que somos. Mas importa também perguntar se a AFA e o trabalho da AFA são importantes. E para mim está claro que a resposta é sim, muitas vezes sim.

As majestosas paradas de milhões e milhões de patacas, que enchem as ruas de figurantes saltitantes e pândegos, são certamente muito bonitas para celebrar datas comemorativas e para fazerem capas de jornais e revistas aqui e no Continente. Ali está Macau, o caldeirão multicultural, ao menos durante uma tarde. Pena que não se perceba de uma vez que esses carnavais são isso mesmo: chegam e passam, sem deixar rasto.

Saber que está para desaparecer – primeiro aqui, provavelmente depois em Pequim – uma das poucas instituições que tem feito o panorama artístico da cidade mexer é uma triste realidade.

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Um conselho de gente interessada

Maria Caetano

A proposta de composição do Conselho do Património Cultural, apresentada na última sexta-feira, mereceu críticas, pelo menos, da parte de um especialista do sector por se prever, com a representação aprovada pelo Governo, menor participação do que a que seria de esperar na discussão de matérias onde é grande a intervenção de organizações e particulares com interesses – os chamados stakeholders, no jargão da decisão política concertada.

O conselho terá sobejos membros da Administração e a presença assegurada de 12 especialistas ou académicos e personalidades “de reconhecido mérito social”. Tal mérito é, evidentemente, fruto do reconhecimento do Chefe do Executivo, o responsável único pela nomeação de membros para o órgão de consulta criado no âmbito do Instituto Cultural e na sequência da revisão da Lei de Salvaguarda do Património Cultural.

Os princípios que orientam a composição do conselho não divergem da habitual orientação para os muitos órgãos consultivos, garantindo-se uma direcção pelo Executivo e replicando a sobrerepresentação das nomenclaturas do costume – que, salvo excepções que possa haver, se legitimam meramente pelo facto de já terem assento noutros conselhos e organizações. O currículo continua a ser um pomposo cartão de visita com muitos cargos alinhados e independentes dos factos e do trabalho, e já receber senhas de presença parece ser sinónimo de experiência e interesse.

O que está em causa é a relevância da representação, nem sempre atestada ou justificada (bem como uma natural desconfiança em relação ao trabalho de conselheiros que se escondem atrás de portas bem fechadas por via de regra). E, neste caso, como no do planeamento urbanístico e outros, fala-se dos chamados stakeholders, assumindo que têm interesses favoráveis ou opostos aos das propostas que saiam do conselho, declaradamente. A relevância, no caso, é confirmada, por exemplo, pela ligação por titularidade ou histórica a um imóvel que se queira preservar. O arquitecto Vizeu Pinheiro dá o exemplo da diocese e das suas igrejas, e outros há.

Não se trata pois, aqui, de mera questão de mérito. Trata-se de reunir interesses assumidos, e não camuflados, variados e contraditórios nas discussões.

Mais ainda porque este órgão consultivo, ao contrário de outros antes dele, extravasa em muito a competência apenas consultiva, ainda que seja chamado de conselho. Os futuros conselheiros vão decidir condicionamentos urbanísticos, compras e expropriações, a concessão de apoios financeiros e também a eventual criação de chamadas zonas tampão do património – que, recorde-se, deixam de ser obrigatórias na nova legislação. Vão lidar directamente com o mercado imobiliário e com o erário público, e terão naturalmente grande influência no desenvolvimento urbano e económico da cidade. É definitivamente importante saber quem serão e quais os seus interesses calados e declarados.

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Mínimo e previsível

Inês Santinhos Gonçalves

Contrariamente aos resultados da consulta pública, o Governo optou por fixar o salário mínimo para os trabalhadores de limpeza e segurança de prédios nas 28 patacas por hora, abaixo do estabelecido em Hong Kong, onde o valor é de 30 patacas por hora.

Infelizmente, não se pode dizer que o valor surja como uma surpresa. Em Dezembro do ano passado, quando foram divulgados os resultados da consulta – em que 98,8 por cento defendeu as 30 patacas por hora – o Governo salientou que “a implementação do salário mínimo legal irá aumentar os custos operacionais das empresas, sendo esse aumento transferido inevitavelmente para os consumidores”. No documento divulgado pela Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais era também expresso que, tendo em conta que a maioria dos trabalhadores deste sector é de idade avançada e tem baixas habilitações, “quanto mais alto for o salário mínimo, maior será a hipótese destes trabalhadores virem a ser substituídos”. No relatório, o Executivo afirmou ainda que “a implementação terá, sem dúvida, um impacto profundo no desenvolvimento socioeconómico”.

Não espanta portanto que, depois de “analisar prudentemente” os diversos factores, como ficou prometido, a conclusão se distancie do que foi pedido pela população.

Os patrões dirão – e disseram, na altura – que as 1007 opiniões apresentadas vieram todas do sector laboral ou de simpatizantes dos trabalhadores. Estes são, aliás, como lembrou o vice-presidente da Associação Comercial, em maior número, o que inquina logo as contas. Mas Vong Kok Seng também disse que os empregadores se retiraram da discussão, ao não avançarem com nenhum valor. “Qualquer número vai ter um efeito adverso”, sentenciou. Na sexta-feira, Vong foi claro ao afirmar que está contra a fixação de um salário mínimo, mesmo tendo dito, em Janeiro do ano passado, que concordava “com a possibilidade de se estudar a introdução de um salário mínimo para os trabalhadores da administração de edifícios e de serviços de limpeza”. Subtilezas da linguagem.

Não me surpreende que o patronato esteja contra o aumento dos salários – por mais que nos digam o contrário, é disso que se trata e a reacção dos patrões assim o prova. O que (ainda) me choca é que o Governo tenha o desplante de se escudar constantemente em consultas públicas, por vezes manipuladas, e agora, quando o resultado não agrada, ignora a dita opinião pública estoicamente. Afinal, as decisões são tomadas através do habitual equilíbrio de interesses. Escusavam de nos atirar areia para os olhos.

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