“Erguei-vos e levantai a cabeça”

[Olhar ao Redor]

Luís Sequeira

Começa a preparação do Natal.

Até pela diminuição dos presépios montados em espaços públicos ou nas montras, parece tornar-se bastante óbvio que a mensagem do nascimento de Jesus Cristo entre a população de Macau se apresenta como algo cada vez mais secundário. É dado, infelizmente, lugar prioritário e central a figuras completamente acessórias como o gordochudo do pai natal. As decorações não passam daquilo que são: decorações. Dão brilho à festa, mas não acrescentam nada à compreensão da verdade do amor de Deus para com a humanidade, revelado no frágil Menino Jesus. As árvores de Natal, por mais altas que sejam ou por melhor iluminadas que estejam, nada significam se não houver um esforço pessoal de interiorização do mistério da vida de Jesus. Se tal não suceder, elas aí ficam, inertes, no meio da praça.

O texto do Evangelho do 1.º Domingo do Advento coloca-nos perante a descrição da vinda triunfal de Jesus Cristo nos últimos tempos. Grande é o seu poder! Esplendorosa é a sua glória! Mas, como é uma linguagem muito simbólica, embora verdadeira, somos quase como que levados para longe da realidade tanto da vida de Jesus como da nossa própria. Que tem tudo isto a ver com o meu dia a dia? Perante tudo o que está a acontecer no mundo, esta é a afirmação de que – ao fim ao cabo – tanto precisamos de ouvir. Temos um Deus que é o Criador do Universo e o Senhor da História da Humanidade, revelado em Jesus Cristo, o Deus feito Homem: «Hão-de ver o Filho do homem vir numa nuvem, com grande poder e glória… e possais livrar-vos de tudo o que vai acontecer e comparecer diante do Filho do homem.»

Neste contexto de triunfo e salvação de Jesus Cristo, sobre o Homem e o Universo, por mais incrível que pareça, o texto do Evangelista Lucas descreve situações que são as nossas, no momento actual.

Em primeiro lugar, é a questão dramática da harmonia da natureza a ser criminosamente destruída pelos estados e pelas multinacionais. Aí estão eles, os grandes responsáveis, a reunir-se, urgentemente, em Assembleia Geral de Chefes de Governo, em Paris. Meditemos com sinceridade e profundidade nas Palavras da Sagrada Escritura, deste Domingo: «Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas. O rugido e a agitação do mar. As forças celestes serão abaladas.»

Os trágicos acontecimentos em França, no Mali, na Síria. A escalada da violência entre nós – os homens e as mulheres desta geração – torna-se, aflitivamente, a segunda questão que todos temos de enfrentar com coragem e virtude. Os acontecimentos actuais são, mais uma vez, descritos pelo texto evangélico:« Haverá na terra, angústias entre as nações… aterradas…os homens morrerão de pavor,na expectativa do que vai suceder ao universo.»

Que fazer?

Com uma perspicácia de nos deixar espantados e sem palavras, o Mestre Divino dá um conselho de quem conhece bem a natureza humana, sobretudo, quando ela está em grande angústia:«Tende cuidado convosco,

não suceda que os vossos corações se tornem pesados pela intemperança, a embriaguez e as preocupações da vida…»

Sim, isto é bem verdade. Para quem costuma acompanhar pessoas nos meandros mais profundos do coração e da alma, verifica essas tendências compulsivas, desordenadas e destruidores do ‘eu’.

Comer muito, obsessivamente e sem controlo, é uma maneira muito comum de encobrir a angústia. A embriaguez, o excesso do álcool, vai na mesma ordem de ideias. É capaz de ser mais evidente, porque tem efeitos mais imediatos e espectaculares. A terceira fuga à angústia, descrita no Evangelho, é ser dominado ou dominada pelas preocupações da vida. A obsessão pelo trabalho é uma sua manifestação. Este tema, particularmente, ligado ao tão apregoado ‘stress’ tem muito que se lhe diga. Tantas e inúmeras vezes ‘a angústia existencial’ está lá bem escondida.

O Senhor continua o seu ensinamento e afirma: «Vigiai e orai em todo o tempo, para que possais livrar-vos de tudo o que vai acontecer

De uma maneira construtiva, Ele apresenta-nos duas vias de solução. A primeira – ‘vigiai’ – a que chamaria ‘Reflexão’ E a segunda ‘Oração’, usando o seu próprio termo.

Somos chamados, primeiro de tudo, a usar as nossas capacidades humanas, inteligência, afectividade, vontade, imaginação, intuição, força. Há sempre que fazer ‘a reflexão’ sobre ‘a experiência’ para, depois, definir ‘a acção’.

A ‘oração’ é aquele momento em que, humildemente, nos pomos diante do Senhor apresentando o nosso trabalho e deixando a Ele o resto, pois n’Ele está todo o « poder e glória.»

 

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olhar ao redor

[NESTE VALE DE LÁGRIMAS…]

Luís Sequeira

      Pais, mães, irmãos, irmãs, amigos choram os que foram massacrados naquela noite negra na Cidade das Luzes. Aquela horrenda tragédia! Em lágrimas, no segredo da sua casa, se desfaz aquela mãe que, embora não concordando com a acção do filho, proclama, com grande dor, que não pode deixar de o amar: « Ele é meu filho».

Neste Domingo, o último do Ano Litúrgico, ainda chocados pelos acontecimentos, somos chamados a celebrar a Solenidade de Jesus Cristo, Rei do Universo.

Não nos conseguimos furtar a uma primeira sensação, por sinal até arrepiante, ao considerar as duas realidades tão contrastantes: a Vida Humana e a Palavra de Deus. Surgem como que em compartimentos estanques. Por um lado, a morte e a tristeza. Por outro, a glória e o poder.

Contudo, no Evangelho, Jesus surpreende-nos ao declarar: «O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que Eu não fosse entregue. Mas o meu reino não é daqui.»

O Senhor descarta, logo, a lógica da força, do contra-ataque, da retaliação, «dos meus guardas», polícias, militares, marines, brigadas especiais. Proclama bem claramente «o meu reino não é deste mundo». O seu poder é de outra ordem, com outras características, divino.

Neste mundo, os governos, com todas as suas instituições, e os cidadãos procuram soluções, desde as políticas às de prevenção, defesa ou ataque. Creio que o povo francês deu um grande exemplo de uma acção concertada, rápida e eficaz tanto a nível nacional como nas suas repercussões internacionais.

No entanto, direi, que o Mestre coloca a questão numa outra dimensão que só o divino é capaz de atingir. Deixa o humano ao humano. O sobrenatural, a Ele só pertence. Assim, primeiro, promete a Ressurreição e o Descanso eterno, depois do sofrimento, da dor e da própria morte, sobretudo aos inocentes, frágeis ou que sofrem violência. Segundo, assegura o Perdão e o Descanso eterno ao ladrão, ao bandido, ao criminoso, ao assassino. Recordemos as palavras do Senhor, na Cruz, ao ladrão arrependido: «Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso.»

Se alargarmos os nossos horizontes à escala mundial, que vemos? Violência e brutalidade em todos os continentes. É aquele que, muito nordicamente, planeia matar dezenas de jovens. É aquele outro país, onde quase todos os meses, numa escola, liceu ou universidade há tiroteio. São aqueles países em que não há família que não tenha um asssassinato. E os ódios entre clãs e tribos e raças ? A pedofilia, o tráfico humano e a indústria do sexo é um cancro nas sociedades ditas mais desenvolvidas. Não falando já das violências das sociedades secretas e dos serviços secretos.

Toda esta violência faz pensar. Haverá razões mais profundas para estas e outras manifestações tão destruidoras do ser humano que nós acreditamos ‘ser criado à imagem e semelhança de Deus’?

Atrevo-me a perguntar: não estarão adormecidas as forças do mundo do nosso inconsciente, do nosso eu mais íntimo, pela superficialidade do nosso modo de viver actual e pela falta de capacidade de olhar interiormente a nós mesmos?

Já os filósofos do século XIX nos alertavam para esta questão existencial. O que é que se passa no mais secreto e recôndito da nossa alma? Soren Kierkegaard analisava ‘a angústia’. Poderei dizer que Martin Heidegger reflectia sobre ‘a ansiedade’ e ‘a melancolia’. Jean Paul Sartre tentava descrever ‘o aborrecimento’ do homem contemporâneo.

Há que ouvir os homens e as mulheres de profundidade e visão, sejam eles, escritores, filósofos ou santos. Eles nos ajudam a compreender a realidade e a avançar criativamente para o futuro. Hoje, no ser humano – homem ou mulher – existe, por um lado, uma grande ‘negatividade’ no seu coração que é preciso conhecer e transformar. Igualmente e por outro lado, percebe-se que existe nesse mesmo coração uma grande ‘aspiração’ ao mais espiritual, ao transcendente e à própria experiência de Deus, como concluía sabiamente Kierkegaard.

Ao fim e ao cabo, sem a experiência do ‘Caminho Interior’ não chegamos a descobrir e conhecer os tesouros do nosso ser e existir. Sócrates falava do ‘conhece-te a ti mesmo’. A humilde e discreta Madre Teresa aconselhava as suas irmãs mais novas a ‘pedir a luz ao Espírito Santo para vos conhecerdes a vós próprias.

Acrescentaria ainda que a questão da violência está intimamente ligada à Vida de Família, à Educação e ao Ambiente sócio-cultural e aos seus Valores

 

 

 

 

 

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Como escolher uma universidade?

A opção sobre como orientar e investir na própria formação académica é talvez uma das mais importantes e decisivas. Dela depende todo um futuro profissional.

Jorge Godinho

O presente texto é a versão revista e ampliada de uma breve intervenção num colóquio de divulgação do Instituto Universitário Europeu de Florença junto de potenciais interessados, para o qual a organização me solicitou um curto testemunho. Surgiu assim o estímulo para passar ao papel a minha experiência pessoal e algumas ideias sobre formação superior que defendo há vários anos.

A formação universitária coloca os potenciais alunos perante a necessidade de tomar decisões difíceis, a começar pela escolha da Universidade, uma opção que se repete nos três graus académicos universitários: a licenciatura, o mestrado e o doutoramento. É claro que um jovem de 18 anos que entra no ensino universitário de modo algum pode ter uma visão cabal do que o espera e sobre como deverá desenvolver um percurso de muitos anos. Mas se ao iniciar uma licenciatura o aluno ainda nada sabe sobre o domínio científico que irá estudar, nos passos seguintes, ou seja, ao escolher onde desenvolver investigação de mestrado e de doutoramento, está já em condições de tomar uma decisão autónoma, plenamente informada.

Sobre esta matéria gostaria de afirmar uma tese de base: num mundo ideal não deveria ser possível obter os três graus académicos sempre na mesma Faculdade. A exposição a diferentes meios académicos seria necessária. É claro que na maior parte dos casos não há condições para que tal aconteça por razões perfeitamente legítimas de ordem económica, pessoal, familiar, profissional, geográfica ou outras. Há ainda a tendência natural para permanecer num meio que já é bem conhecido e com o qual se desenvolveu uma ligação emocional e “de escola”: para quase todos, a “minha” Faculdade é aquela onde a licenciatura foi obtida, e nela tendem a ficar. Mas não é errado tentar ampliar as perspectivas e navegar outras águas. Longe disso.

O meu testemunho é o de quem teve a felicidade de trilhar três meios académicos assaz diversos, devido a um conjunto de circunstâncias pessoais e profissionais voláteis e provavelmente irrepetíveis. Digo “felicidade” porque este encadeamento se deu de forma não inteiramente planeada.

Obtive a licenciatura na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Entre tantas outras, não esqueço as admiráveis aulas do Professor Jorge Miranda. A formação jurídica que me foi transmitida em Lisboa teve um cunho prático muito forte. E porque não? O Direito é uma ciência pragmática, que se destina a resolver com equilíbrio problemas concretos de pessoas reais.

Anos depois, no mestrado na Faculdade de Direito da Universidade de Macau, que tem uma forte ligação à Faculdade de Direito de Coimbra, tive o privilégio de ter aulas com vultos de que só conhecia os escritos, como os Professores Orlando de Carvalho ou Antunes Varela, para citar os que já não estão entre nós. Tive o prazer de ter como supervisor o Professor Costa Andrade, sobre quem me faltam as palavras de elogio. Pude então verdadeiramente entender quão diversa mas não menos interessante é a formação de Coimbra, de cunho mais teórico. Na realidade, não há nada mais prático do que uma boa teoria.

Em 2000, concretizando uma ideia antiga, ingressei no programa de doutoramento do Departamento de Direito do Instituto Universitário Europeu de Florença. Tive o prazer de ter como supervisor o Professor Jean-Victor Louis, um dos nomes mais célebres do direito europeu. Encontrei no Instituto exactamente o que os prospectos anunciavam: um ensino europeu, internacional, comparado, contextual e interdisciplinar de excelência. O Direito não se resume ao que está nos tratados internacionais, nas constituições e nos códigos e tem que ser visto no seu contexto político, económico e social.

Se hoje me perguntarem qual destes três elementos formativos foi o mais importante, não tenho uma resposta. Todos são fundamentais, mas nenhum “formatou” de modo fechado a minha maneira de encarar as questões jurídicas. Se não tivesse um ou dois deles, estaria menos preparado: teria menos perspectivas de abordagem dos problemas e um mais fraco entendimento das metodologias de trabalho. Considero que tive imensa fortuna, já que me foi dada a oportunidade de obter uma formação jurídica verdadeiramente completa. Mas, como resultado, não tenho uma Universidade que seja «a minha». O que não me preocupa particularmente: vejo com prazer que todas têm rankings muito elevados e em todas elas me sinto em casa.

Em geral, diria que a opção sobre como orientar e investir na própria formação académica é talvez uma das mais importantes e decisivas. Dela depende todo um futuro profissional. Creio que, podendo fazê-lo, o candidato deve procurar percorrer vários meios académicos: deve buscar o conhecimento onde ele está e alargar horizontes. Deve querer estudar nas melhores universidades e trabalhar com os melhores professores, mesmo que tal possa significar colocar-se sob uma pressão muito elevada num ambiente à partida desconhecido.

De um ponto de vista mais prático é fundamental que estejam reunidas várias condições de base, que se aplicam a quaisquer estudos universitários, a começar por seriedade e dedicação. E, em todo o caso, como nada na vida é perfeito, pode haver preços a pagar por trilhar um caminho diversificado.

Em primeiro lugar, tem de haver uma efectiva disponibilidade pessoal para estar numa Universidade situada noutra cidade ou noutro país pelo tempo necessário, normalmente vários anos. Se o candidato pensa andar em deslocações constantes, passando o mínimo de tempo possível nessa cidade, sem estabilizar e sem verdadeiramente viver o ambiente académico, ou pensa fazer várias coisas ao mesmo tempo, creio que não há seriedade.

Em segundo lugar, não basta estar fisicamente na cidade. No tempo actual, em virtude da facilidade das telecomunicações, muitos investigadores trabalham a maior parte do tempo em casa. Continuo a achar que há que estar na Universidade todos os dias. É lá que estão reunidas as condições ideais de trabalho, é lá que o supervisor, os professores, os outros investigadores, os professores visitantes, os colegas de outros departamentos ou outras faculdades, e tantos outros, podem ser encontrados. Refiro-me em especial às bibliotecas, que devem ser o local de trabalho durante os anos necessários à conclusão de uma tese e que, para mim, são a sede de qualquer trabalho de investigação.

The last but not the least, o fundamental, que quase seria desnecessário mencionar: deve haver uma ideia muito clara sobre qual é a área em que se pretende trabalhar. Não vale a pena iniciar estudos aprofundados, nem devem ser admitidos candidatos, onde só exista uma intuição vaga ou preliminar de qual é efectivamente a investigação que se pretende levar a cabo. É necessário ter ideias sólidas, claras, exequíveis e pertinentes.

É evidente que uma vida académica movimentada tem custos e implica uma logística complexa e outros preços pessoais ou profissionais, que podem eventualmente ser altos. Um mestrado ou um doutoramento numa Universidade diferente da de origem é um investimento com alguns riscos, mas apesar de tudo inteiramente justificado. Como tantas importantes decisões da vida, esta são escolhas individuais e solitárias, que só se fazem uma vez.

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A TEMPESTADE

[Poeira das Estrelas]

Filinto Elísio

1. Não são ingénuas e inconsequentes as minhas perguntas. Agora que os dados estão lançados, seja pois pela metáfora de se mexer na colmeia, aguardam-se respostas (se possível, plausíveis e que satisfaçam). O estado de guerra é, em si próprio, um estado de mediocridade, paradoxalmente anti-Voltaire, dirás. Um estado da barbárie, onde subjaza, racionalizado e à mão cheia, o ódio. A estranha e tenebrosa euforia da morte.

2. A burocracia, o sistema e a máquina inexorável que julgam e condenam o cidadão. O revolto do mar, o redemoinho do vento e o turvo do céu, sinais de que se desperta o Leviatão. O estado de quase vendável, qual inferno na terra, quando se intima K, n’ O Processo, de Kafka. Reponho o livro na estante e ponho-me a pensar em Jorge Luis Borges a engendrar, criativo e profuso, a Biblioteca de Babel. Penso, logo desisto, sem filosofar demasiado, no porquê de se ter incendiado a Biblioteca de Alexandria. Nada decifro de todo a parábola, mas há fumo incessante no meu pensamento.

3. Os atos terroristas em Paris, tal como o terrorismo que ocorre globalmente, merecem repúdio de todos quantos anseiam (e lutam) por um mundo melhor. O turbilhão dos acontecimentos, bem como a profusão das posições, obrigam a uma consequente nota. Pessoalmente, não me alinho às posições pela rede social contra a solidariedade para com as vítimas em Paris, lá porque outros casos hediondos (e aqueles em África, especialmente) não polarizarem atenções devidas da opinião pública mundial. Ainda há dias, os radicais fizeram um genocídio no Norte da Nigéria. É preciso identificar e denunciar a barbárie, o terror como forma de ser e estar na vida, em qualquer tempo e/ou lugar. Entrementes, legítimo que cada um dê mais atenção ao estrondo que lhe perturbe em mais proximidade, senão em mais clara vizinhança. Sem desvios de Humanidade, naturalmente, já que o mundo é nossa casa comum.

4. Dois outros fatos trágicos (diria, dantescos) prenderam também a minha atenção particular. O primeiro a ver com a situação humanitária que se vive nalguns países do Corno de África, onde a conjugação da seca, da escassez dos alimentos e da guerra deixa 20 milhões de pessoas necessitadas de ajuda alimentar urgente. Como se depreende, a fome é mais do que a falta de comida, mas um problema dos Direitos Humanos e uma injustiça extrema. E o segundo, a ver com o colapso (negligente e danoso) de duas barragens em Mariana (Minas Gerais, Brasil), mais precisamente no complexo de Alegria, pertencentes a multinacionais, que, para além da avalanche de lama de 62 milhões de metros cúbicos em ‘rejeitos’, de soterrar povoações e contaminar os rios Gualaxo do Norte, do Carmo e Doce, comprometerá toda a vida marinha numa grande parte do litoral brasileiro. Não serão estes danos ambientais imensuráveis e irreversíveis Crimes contra a Humanidade?

5. William Shakespeare escrevia, na peça “Tempestade”, que “misery acquaints a man with strange bedfellows”. Parece que, também entre nós, Trinculo e Caliban (este tão atormentado como aquele), protegem-se do vendaval sob a mesma manta. A questão que faz o drama não será exatamente a fúria do tempo, mas a perceção com que os dois se acomodam como “estranhos companheiros de cama” nestes históricos dias de alguma travessia. Fico, horas esquecidas, a magicar o diálogo entre Trinculo e Caliban, mais seus respetivos superegos, enquanto a plateia, nós afinal, sequiosa da chuva sobre as ilhas, é testemunha deste momento transitivo. E de pouca poesia, diga-se de passagem.

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Dinâmicas e contextos da pós-transição

[O Portugal pós-eleitoral]

Carlos Piteira

Após uma campanha eleitoral “insípida” e sem qualquer nota digna de registo, mesmo admitindo o efeito secundário do candidato de Macau no círculo fora da Europa que levantou algumas posições interessantes no seio da comunidade portuguesa na RAEM, vemo-nos confrontados com um período pós eleitoral cheio de matérias e interpretações que nos levam a adquirir, para além do já nosso hábito de sermos “treinadores de bancada”, também a aderir a esta última moda de sermos “políticos de bancada”.

Não há quem não tenha uma opinião e uma ou várias soluções para a crise anunciada, passámos dos debates no hemiciclo para os debates nos cafés, restaurantes, em casa, nos transportes públicos ou mesmo em conversas entre amigos que nos enchem o final dos dias, todos têm uma agenda política no bolso ou na carteira, para solucionar os problemas do País.

O período pós eleitoral desta vez foi (e é ainda) um dos mais profícuos da nossa vivência em democracia e da liberdade de expressão, ninguém é condenado por ter uma opinião, até porque há para todos os gostos, os comentadores profissionais que o digam, resvalam entre as opiniões mais fundamentalistas e as que absorvem o total sincretismo político onde tudo é permitido, desde que se queira.

Perante este cenário torna-se muito difícil comentar, em estilo de crónica, qual ou quais a(s) melhor(es) leitura(s) que são de enaltecer, provavelmente todas e nenhuma, se tivermos em conta que o quotidiano não se compadece dos acordos ou das intenções na governação mas sim do dia-a-dia que se vai vivendo, e como é natural o que é bom para uns não será porventura tão bom para outros. Esta é a realidade nua e crua.

Recorrendo, em último recurso, aos contributos da ciência política, é bom não nos esquecermos que o objecto da mesma (O que é? E como se faz?) circunscreve-se à máxima de que a política é a forma de capturar, exercer e manter o poder, pelos meios mais adequados para obter os fins a que nos propomos.

Já quanto à ética na política é bom recordar que Maquiavel tratou deste assunto, já lá vão uns bons anos, ao abordar em meados do Séc. XVI a sua máxima de que os fins justificam os meios, ou seja, podemos estar acima da ética quando o fim se justifica, até porque a ética é também um valor flexível e adequado a cada circunstância.

Neste pressuposto, o que encontramos é uma fronteira entre quem exerce a política e quem dela não faz parte, ou seja, em quem governa e quem é governado, e aqui sem dúvida, o exercício de reflexão e de enquadramento permite-nos chegar pelo menos a uma pretensa conclusão, existe uma grande diferença em quem opina mas acaba sempre por ser governado e quem opina para exercer a política, nestes últimos não há excepção, todos pretendem, capturar, exercer e manter o poder.

Assim neste “rio” de opiniões, julgamentos, interpretações e convicções que este período pós eleitoral nos trouxe, pudemos pelo menos despertar o político que há em nós, mesmo que seja de uma bancada, que não é a do hemiciclo ou de uma sede de partido, todos nos sentimos “banhados” por esta nova “moda” de que afinal também sabemos de política.

Talvez o que não saibamos (ou não queiramos saber) é que para quem está do outro lado da fronteira, a exemplo dos treinadores profissionais, o enquadramento é outro e as variáveis também são de outra natureza, há quem lhe chame “jogos de poder” e só quem está dentro das regras do jogo é que pode jogá-lo, os outros são e serão sempre apenas os espectadores com direito a opinião e pouco mais.

Como vaticínio final quase que me apetece formular o óbvio nestas circunstâncias, prognósticos só no final do jogo, ou seja, resultados só depois de ver.

 

 

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Olhar ao Redor

[A grande aflição]

Luís Sequeira

O caos ou a convulsão da ordem natural do cosmos – concretamente do sol, da lua, das estrelas – é a descrição que nos é apresentada no Evangelho do 33.º Domingo do Ano Litúrgico, de 15 de Novembro: ”Naqueles dias, depois de uma grande aflição, o sol escurecerá e a lua não dará a sua claridade, as estrelas cairão do céu e as forças que há nos céus serão abaladas”.

As descrições escatólicas, aquelas que se referem ao fim do mundo, como esta que acabamos de mencionar, deixam-nos, certamente, muito inseguros quanto à compreensão do seu significado, sobretudo, se entramos nos pormenores das suas descrições.

No entanto, estou convencido que estes mesmos textos – por mais difíceis que pareçam – podem ter sempre uma leitura e uma aplicação prática nas nossas vidas para além daquilo que, num primeiro momento, seríamos capazes de imaginar. Até que ponto toda essa realidade cósmica e espacial, de proporções incomensuráveis, poderá expressar, simbolicamente, a realidade microcósmica da nossa existência ?

O Senhor Jesus, por exemplo, no Evangelho, fala-nos, primeiramente, de “uma grande aflição”, antes da escuridão e do cataclismo cósmicos. A vida humana, por seu lado, traz-nos também, constante e persistentemente, à nossa consciência essa ‘angústia existêncial’ que reside na profundidade mais recôndita do nosso ser e é capaz de fazer uma pessoa perder todo o sentido do seu viver. Assim sendo, concluímos que tanto a Criação como a Humanidade, homem e mulher, como que vivem, de modo muito semelhante, a aflição e a angústia da sua Existência. Ambos procuram como que uma nova Harmonia e uma nova Perfeição, uma nova Verdade de si mesmos!

Continua o texto, dizendo “que depois de uma grande aflição, o sol escurecerá e a lua não dará a sua claridade, as estrelas cairão do céu e as forças que há nos céus serão abaladas”. Na verdade nós, homens e mulheres, quando em angústia, experimentamos algo muito idêntico. Sim, na dor íntima e profunda, o coração atravessa a terrível ‘noite escura’. Não compreendemos o que está a suceder. Sentimo-nos abatidos. Não temos coragem para fazer nada. Todos aqueles que poderiam ser, naquele momento, “o sol, a lua” deixam de ser, sem contemplação, os luminares do nosso caminho. Todos aqueles que são familiares, amigos e colaboradores, sustentáculos e força das nossas iniciativas, mais não passsam, nesse momento, de companheiros incapazes de qualquer ajuda significativa. Ao procurar perceber esta ‘noite escura’ da alma e do Universo, recordo o Poeta que descreve a mesma realidade com a sua extraordinária intuição poética, “silêncio, escuridão e nada mais”.

Contudo, estas descrições apocalípticas da Sagrada Escritura estão sempre, acreditemos ou não, cheias de profunda esperança, porque Jesus Cristo, ao fim e ao cabo, triunfará. Cristo, o Senhor, virá no meio das grandes aflições e libertar- nos-á: “Então hão-de ver o Filho do homem vir sobre as nuvens, com grande poder e glória”. Noite escura antes que aconteça algo de surpreendente, a Luz de Cristo.

Esta passagem do Evangelho de Mateus abre-nos a porta ainda para um outro assunto que considero de suma importância para quantos procuram a Verdade nas suas vidas, ou a Vontade de Deus na sua vivência de Fé. Refiro-me à prática do Discernimento. Isto é, saber ‘ler os sinais’, tendo em conta as pessoas que aparecem: os acontecimentos que se sucedem ou se desenrolam diante de nós, as circunstâncias em que os factos ganham sentido.

Não ser capaz de estar atento a pessoas, acontecimentos, circunstâncias. Enfim, aos factos, aos “sinais” e ponderá-los no seu íntimo, arrrisca-se a fazer como o insensato que Jesus critica: “Está aqui, está ali.” Cabeça tonta!

Quanto precisa o mundo de hoje de homens e mulheres que sejam luz, que sejam pontos de referência e que sejam possuidores de visão para o bem e progresso da humanidade!

Quanto precisa o mundo de hoje de homens e mulheres com o dom do discernimento e dos ‘olhos penetrantes’ do profeta.

 

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Visto do Tibre

[Entre pecado e corrupção]

Aurelio Porfiri

Antes de mais, peço-vos perdão se o título desta crónica vos parecer demasiado catastrófico, como o brado de um velho pregador vindo directamente da Idade Média e pedindo a conversão de uma cidade pecaminosa. Peço-vos que me acompanhem por um momento e compreenderão que o meu artigo é bem mais do que isso. Nem se arroga ao direito de se deixar orientar por alguma pulsão católica: o apelo que aqui deixo, deixo-o aos homens e mulheres de boa vontade (sei que as minhas palavras podem ser enganadoras). Digo-vos que não é um artigo de orientação católica, ainda que tenha por ponto de partida um líder católico, porventura o mais importante: o papa Francisco. Parece-me, no entanto, que as palavras dele podem também falar ao coração de não católicos, de ateus, de budistas, de muçulmanos, de taoistas, de mercantilistas e de outros que tais. Não procurem por mercantilistas no dicionário porque tive a honra de inventar esta palavra para definir aqueles que têm o negócio como crença e religião. Conheço muitos.

Há dois anos, a 11 de Novembro de 2013, na Eucaristia que celebrou na residência de Santa Marta, onde optou por morar, o Papa Francisco disse: “Onde há mentira, o Espírito Santo não está presente. Esta é a diferença entre um pecador e um homem que é corrupto. Quem leva uma vida dupla é corrupto, ao passo que alguém que peca gostaria de não pecar, mas ou é fraco ou encontra-se numa condição a que não consegue dar resposta e por isso procura o Senhor e pede para ser perdoado. O Senhor ama quem assim age, acompanha-o, permanece com ele. Devemos dizer, todos os que aqui nos encontramos: pecador sim, corrupto não”. Pecador sim, corrupto não.

Devo dizer que esta distinção feita pelo papa Francisco cria muitos problemas. O primeiro, e mais importante, é o de que o pecado, dada a sua própria natureza, também fora o pecador a esconder-se e a viver uma vida dupla. Se alguém rouba, se envolve em casos de natureza sexual ou apresenta um grande apetite por dinheiro e por poder, não vai fazer alarido disso em plena praça pública.

Vi, por isso, as suas palavras com uma outra perspectiva. A minha interpretação das palavras do Papa é: o pecado (visto aqui como um desvio aos códigos sociais e morais e, por isso, sem uma conotação religiosa) é parte da condição humana. Somos todos fracos e desviámo-nos com frequência dos códigos morais que nos são impostos pela nossa sociedade e pela nossa religião. Se vivemos em sociedades pobres, os pecados relacionados com a luta a que a pobreza obriga prevalecerão. Se vivemos numa sociedade rica, os pecados pelos quais enveredamos estão ligados à ideia de omnipotência associada ao dinheiro.

Um dos últimos filmes de Martin Scorsese, com Leonardo DiCaprio no principal papel – “O Lobo de Wall Street” – conta a história de um corretor bolsista (encarnado no grande ecrã por Leonardo DiCaprio) que faz do sexo e do abuso de cocaína parte integral do seu quotidiano. O filme não é uma fantasia e este tipo de comportamento não está presente apenas em Wall Street, mas pode ser encontrado em qualquer lado onde abunde dinheiro. Este tipo de comportamento é corrupto ou é pecaminoso? Do meu ponto de vista, alguém é corrupto quando se vende a si mesmo a algo ou a alguém para satisfazer o seu próprio egoísmo. Um pecador (lembre-se o leitor que não estou a falar de um ponto de vista religioso, mesmo que recorra a palavras que tecnicamente se reportam à religião) é uma pessoa normal, com maior ou menor fraqueza.

Somos todos pecadores. Um pecador sabe ser um pecador e sabe que o seu comportamento não é aceitável. Pode sempre voltar atrás. Mantém por completo o domínio da sua própria consciência. Um corrupto vende-se a si mesmo. Não pode voltar atrás, porque não há forma de voltar atrás: o único caminho é para a frente, mesmo que se faça à custa do respeito pela vida das outras pessoas. Esta pessoa vive uma vida normal, mas também uma vida que o extravasa – “uma vida dupla” – uma vida que deixou de estar sob controlo, mas que está nas mãos de alguém que ele decidiu servir. É uma pessoa que existe para colmatar necessidades ou desejos que pouco acrescentam à sua vida. De facto, a palavra “corrupto” tem origem no latim “corrumpere” que significa “romper com”. A própria etimologia introduz uma dissociação entre o que a pessoa é e a vida que a pessoa leva. Os pecadores não rompem com nada. Apenas tropeçam e falham, por vezes com demasiada frequência. Mas eles estão conscientes disso. Os corruptos não estão, porque vivem uma espécie de êxtase divino invertido (do grego “fora de ti mesmo”), vivendo num paraíso de ganância. Todas as cidades do mundo, de certa forma, são pecadoras. A Humanidade é pecadora. A questão que vos deixo é: A nossa cidade é pecadora ou corrupta? A resposta a esta pergunta vai ao encontro do que o espírito de Macau verdadeiramente é.

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