O vazio e o fosso

1.Luis Sequeira

É flagrante o contraste entre as palavras de Jesus Cristo do passado Quinto Domingo de Páscoa e a realidade que se vive no Mundo actual.  O Mestre diz: «Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros». Mas , se olhamos para os  meios de comunicação  social,  com que nos deparamos?  Milhares e milhares de homens, mulheres e crianças que, diariamente, fogem à violência, à destruição e à guerra.  Mais dramática se torna a situação, quando ouvimos o Papa Francisco –  tal profeta a sentir as dores do seu povo –  a proclamar  este ano como ‘O Ano da Misericórdia’, pedindo orações e acções concretas de solidariedade, Mas, paradoxalmente, percebemos que, por detrás de toda esta calamidade, estão as grandes potencias nos seus habituais ‘war games’ políticos e económicos.

Ao meditar,  por sua vez,  sobre o Evangelho deste Sexto Domingo de Páscoa, uma outra dimensão  nos é apresentada. É posta em relevo a racionalidade humana,  a capacidade do ser humano de compreender a sua própria existência neste mundo, com a certeza da assistência segura do Espírito de Deus. Diz o Senhor Jesus : «O Espírito Santo vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo».  Mas mais uma vez, que se nos depara, olhando o mundo actual? Esquemas sofisticadíssimos para encobrir a verdade e, legal e institucionalmente, camuflar a mentira. Que vergonha, o sistema das ‘off shores’! Todos a participar, mas todos calados, fechados nos seus segredos perversos e enganadores. Tudo em ‘off record’, abrindo caminho à corrupção, fenómeno que deixa ‘os pobres dos  mais pobres’ ainda mais pobres.

A  leitura da Palavra de Deus deste mesmo Domingo, já a anunciar a chegada da Primavera,  lança ainda diante dos nossos olhos um  critério que deve  influenciar  radicalmente a nossa actividade, o nosso modo de agir.  O Mestre continua a sua instrução e declara, antes de deixar os seus discípulos: «Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz.  Não vo-la dou como a dá o mundo. Não se perturbe nem se intimide o vosso coração».

Se não é loucura, parece! Tempos não muito idos, algum presidente afirmava ‘façamos a guerra para alcançar a paz’.  Mais perto de nós, outro afirmava ‘ataquemos  e esmaguemos até que todos estejam  em pé de igualdade,  então depois, falem de paz’.

A Sagrada Escritura – que é palavra de Deus – põe, assim e antes de mais,  à prova, primeiro, a nossa afectividade com todo o seu mundo de sentimentos; segundo, a nossa racionalidade, com a variedade e riqueza dos seus pensamentos, ideias e motivações;  e, finalmente, a nossa actividade, poder criativo e desejo de ajudar e servir. Repito:  desafia a nossa afectividade, a nossa racionalidade e a nossa vontade, origem da actividade humana. Capacidades  essas que são instrumento e caminho para a transformação da humanidade, da natureza  e do cosmos.

Põe-nas à prova, sim, mas para fazer a pessoa humana, mulher ou homem, alcançar uma vida nova, uma nova perfeição e beleza que só a Ressurreição é capaz de trazer. Ressurreição vivida no seu sentido mais radical,  transformador do nosso ser humano, limitado e frágil. Portanto, a celebração da Ressurreição não se limita a uma mera repetição da Liturgia  luminosa e esplendorosa do Tríduo Pascal, sobretudo da Vigília Pascal. É muito mais que isso. É uma experiência profundamente humana e profundamente divina.

É por essa interrelação do humano com o divino e o divino com o humano que o Senhor, o Mestre Divino, nos chama  imediatamente a atenção para  não cairmos  na trama das interpretações fáceis. Para entender o que Ele está a proclamar temos que ir para além das nossas inclinações mais primárias, irreflectidas e superficiais. Ele diz-nos, delicada mas incisivamente: «Dou-vos a minha paz.  Não vo-la dou como a dá o mundo». A acção de Deus sobre o humano vai para além da sensibilidade humana e para além do sentir e dar do «mundo ».

A mais poderosa revelação do poder de Deus em oposição à sensibilidade humana e ao mundo manifesta-se no «Sermão das Bem-aventuranças» :

«Bem-aventurados os puros  de coração, porque verão a Deus.»

 «Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles o Reino dos Céus.»

 «Bem aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus.»

Como todas estas atitudes e critérios de fundo são tão ausentes das decisões dos líderes da nossa sociedade actual:«Puros e transparentes de coração, pobres e simples em espírito, pacíficos».

O fosso é abissal. Cresce o ‘buraco negro’ dos valores civilizacionais. O Senhor sabe que o desafio é titânico, mas Ele, o Mestre e o Bom Pastor, apenas exclama: «Não se perturbe nem se intimide o vosso coração».

 

Luís Sequeira. Jesuíta. Antigo Superior da Companhia  de Jesus em Macau.

 

 

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O Sopro de Pak Tai: A rainha e o mercenário

FOTO Sopro de Pak Tai (1)

Em 2001 passei por Banguecoque pouco depois de ter sido estreado, com pompa e circunstância, o filme A Lenda de Suriyothai, considerado na altura o mais caro da história cinematográfica da Tailândia. Com um orçamento superior a 400 milhões de baths (nove milhões de dólares norte-americanos), a película, de carácter histórico, retrata o período áureo de Ayuthaya, antiga capital do reino do Sião.

Fiquei com a curiosidade duplamente aguçada, até porque no ano anterior tivera ocasião de ler no diário Bangkok Post uma longa entrevista feita ao realizador, o príncipe Chatrichalerm Yukol, que nos falava do projecto, antevendo que o filme viesse a provocar controvérsia e até indignação junto do público tailandês.

Um dos aspectos d’A Lenda de Suriyothai propícios a gerar polémica era o facto de o galardoado realizador ter optado por relatar a história da rainha de Ayuthaya através do olhar do mercenário português Domingos de Seixas, que no século XVI viveu na capital siamesa durante 25 anos, antes de regressar a Lisboa.

Para o cineasta, a escolha de tal narrador justificava-se porque os tailandeses conheciam já a versão oficial do heroísmo e dedicação demonstrados pela rainha Suriyothai, personagem principal da película. Ao reescrever a sua vida sob o olhar de um estrangeiro, contava desmistificar um pouco a sua imagem, esperando que isso contribuísse para espevitar o espírito crítico entre os seus concidadãos, que assim poderiam eventualmente pôr em causa o que tinham aprendido na escola.

Logo que regressei a Macau, fui a Zhuhai, onde me abastecia de DVDs, e aí encontrei o dito filme, devidamente legendado em inglês. Qual não foi o meu espanto quando, logo ao primeiro minuto, me apercebi de que Domingos de Seixas não só não fazia a narração, como nem sequer era mencionado em momento algum da dita cuja. E por que razão? O que teria levado Chatrichalerm Yukol a mudar de ideias?

Ao tentar encontrar uma resposta, descobri na Internet que a produtora do filme, a Prommitr Productions, bem cedo estabelecera negociações com distribuidoras em diversos países na Ásia, na Europa (Alemanha e França) e junto de três das mais poderosas empresas do sector de Hollywood. A resposta desse lado do mundo não poderia ter sido melhor, pois a Zoentrope de Francis Ford Coppola associou-se de imediato ao projecto, tendo o próprio Coppola viajado para a Tailândia para editar o filme. Cortou muitas das cenas não só para o deixar menos longo, como também «para o tornar mais apetecível junto do público ocidental».

Faltava saber até que ponto fora significativa a acção desse realizador norte-americano na adulteração dos propósitos iniciais do filme. Teria sido a eliminação do narrador Domingos de Seixas uma exigência de Francis Ford Coppolla ou tivera o realizador tailandês receio da reacção dos seus compatriotas, a quem pretendia «espevitar o espírito crítico» e levá-los «a pôr em causa o que tinham aprendido na escola»?

Confesso que gostaria muito de esclarecer este mistério.

A Lenda de Suriyothai relata o heroísmo da rainha Suriyothai, que em meados do século XVI assumiu o comando do exército do reino de Ayuthaia, após o marido, o rei Mahachakrabhat (1548-1569) ter sucumbido numa batalha contra os invasores do Pegu.

Ao longo de três horas, Chatrichalerm Yukol consegue trazer para a tela o esplendor da antiga Ayuthaia, os usos e costumes da época, as sangrentas batalhas de onde sobressaíam os elefantes, verdadeiras máquinas de guerra a juntar a outras mais metálicas, introduzidas no Sião pelos mercadores e mercenários portugueses. Eram eles que supervisionavam o manejo dessas mesmas armas que acabariam por alterar radicalmente o sistema rudimentar de defesa da época.

A comunidade lusa no antigo Sião, que remontava a 1516, no seguimento do primeiro acordo de amizade, comércio e navegação entre Portugal e a actual Tailândia, ia muito para além da actividade comercial. No Campo Português habitavam vários milhares de luso-siameses que constituíam a elite do exército do Sião, dedicando-se a várias outras artes e ofícios, o comércio com Macau era florescente e os jesuítas, apesar da feroz resistência dos monges, tentavam converter o maior número de pessoas.

O narrador d’A Lenda de Suriyothai é um anónimo tailandês e as únicas referências a portugueses em todo o filme consistem na frequente aparição de arcabuzeiros, artilheiros e guardas pessoais do soberano em traje militar ocidental, tanto no campo siamês como no birmanês, na menção a um grupo de «mercenários portugueses ao serviço do rei Ramayanda» (ouve-se algum português com sotaque brasileiro), na oferta que a princesa faz de vinho português a um hóspede, na presença de um padre (jesuíta?) que exerce as funções de médico e, finalmente, no nada abonatório destaque para a chegada de um navio português, em 1533, que para além do habitual «carregamento de provisões e de peles de veado trouxe consigo varíola», a qual se espalharia por todo o reino, causando inúmeras mortes.

Para realizar o filme, Chatrichalerm Yukol, também conhecido como Than Mui, passou cinco anos a fazer pequisas documentais, que o levariam à Birmânia, ao Laos, a Macau e a Portugal.

Fora supostamente um episódio relatado no livro Os Portugueses na Tailândia, da autoria de Monsenhor Manuel Teixeira, que levara Chatrichalerm Yukol a avançar com o projecto, tendo o cineasta ido propositadamente a Macau para falar com esse investigador. Trata-se do episódio em que a rainha Suriyothai se mostra disposta a morrer esmagada por elefantes para conseguir evitar uma batalha que se anunciava entre os eternos exércitos rivais: o birmanês e o tailandês. Episódio que o realizador (e a maioria dos tailandeses) desconhecia, e que, não obstante, é retratado em moldes distintos n’ A Lenda de Suriyothai, pois aí a rainha, montada num elefante, morre em combate contra os opositores birmaneses.

Ao realizar A Lenda de Suriyothai, Chatrichalerm Yukol pretendeu mostrar ao mundo a história da Tailândia numa perspectiva global, pois considerava importante saber como eram as relações do Sião com os outros países. Nesse contexto, o realizador fez questão de envolver diversos estrangeiros no projecto. Fosse a nível da realização, fosse nos aspectos técnicos respeitantes à iluminação e à banda sonora. Só faltou mesmo um consultor português, um historiador ou algo no género.

Joaquim Magalhães de Castro. Escritor e Investigador da Expansão Portuguesa, escreve neste espaço às quartas-feiras.

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Pela minha mãezinha. É golpe, sim!

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Que o Brasil é um país complexo, enorme não só no aspeto da dimensão geográfica, mas também pelas diferenças que alimentam a sua gigante engrenagem política, creio ser conhecimento de todos, mas, há dias, outras enormidades brasileiras escancaram-se ao mundo: o analfabetismo político e a hipocrisia.

No passado domingo, 17 de abril – quase que me esquecia ser véspera do dia em que se comemoram internacionalmente os monumentos e sítios – o Brasil veio a revelar, mais uma vez, a fragilidade de sua democracia (património incontornável das nações).

A anedótica sessão na Câmara dos Deputados brasileira em que foi votada a legitimidade do processo de impedimento da Presidente da República, transmitida em direto, inundou o domingo de melancolia. Deveriam ter a fineza de, ao menos,  escolherem outro dia da semana … Mas, naquele domingo, tivemos circo. Um triste e angustiante espetáculo que, não fosse trágico, seria cómico.

Da quinhentena de votantes, 80 por cento demonstravam, pela justificativa apresentada, ou desconhecer o motivo que os tinha levado até ali, ou má-fé, puro e ignóbil oportunismo.

Só para lembrar: a sessão do famigerado domingo tinha por finalidade avaliar se Dilma Roussef teria ou não cometido crime de responsabilidade na presidência do país. Entretanto, longe das razões fundamentadas e ponderosas, o que mais se ouviram foram homenagens arcaizantes como justificativas na hora da alocução dos votos. Nos 30 segundos de fama, olhos ávidos pela câmara instantânea, inúmeros deputados, inflamados,  justificaram na seguinte toada o “Sim” ao Impeachment: “Pela minha família, esposa, filhos, netos e bisnetos”, “Pela paz de Jerusalém” (sim, houve quem dissesse isso!), “Pela Nação de Israel (juro, não estou a gozar), “À minha tia Eurídice, que cuidou de mim quando era pequeno”, “Por você, mamãe”…

Acrescente-se à patente falta de preparo e formação, o analfabetismo político do grosso dos parlamentares que compuseram aquela sessão, que primou pela  hipocrisia, o que pode ser exemplificado pela deputada que freneticamente gritava “Sim, sim, sim”, após ter justificado seu voto a favor do impedimento da presidente brasileira com menções à honestidade exemplar do marido, o qual, em menos de 24 horas, haveria de ser preso por corrupção.

Eu, confesso, não achei graça. Talvez fosse mais feliz, tivesse eu rido daquela balbúrdia, talvez não tivesse a cabeça tonta até agora, se contra a minha natureza relegasse tudo ao escárnio. No entanto, para isso, era preciso que o estômago não me fraquejasse diante da constrangedora prestação dos legisladores brasileiros, da dolorosa piada em que eles transformaram meu país. Tivesse eu indiferença suficiente para ficar, impávida e alienada, perante a reedição do golpe, desta feita com o “esquadrão” dos justiceiros da baixa política. Quem me dera (em rasgo pessoano) perder a metafísica, ó Esteves!

O ponto alto da sessão, como não poderia deixar de ser, foi do defensor da violenta ditadura militar que durou duas décadas e foi responsável por milhares de assassinatos de pessoas que não se calaram diante da repressão. Em clara e abjeta provocação a Dilma Roussef, o deputado Jair Bolsonaro teceu louvores ao coronel que torturou a presidente enquanto jovem. Se ainda havia dúvidas que o processo de impedimento em curso é Golpe de Estado, o pronunciamento de Bolsonaro dissipou-as completamente.

O circo de horrores parecia não ter fim e vejam que nem mencionei o gangster que presidia a sessão. Adiante, que a luta apenas recomeça. Pessoanamente…

“Come chocolates, pequena;

Come chocolates!

Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.”

 

Márcia Souto, Escritora

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O Ouvidor Ocidental: O fogo e o gelo

1.The Assassin

Um dos labirintos mágicos da grande cultura chinesa é aquele onde se perdem e se encontram a poesia, a pintura e a caligrafia. Em muita da sua pintura há poesia, como um mistério dentro de um enigma, servido sempre por uma metáfora qualquer. Se pensarmos que muita desta pintura e poesia estava ligada ao poder do Estado, entendemos melhor como o Céu está separado da Terra e o poder do povo. A poesia foi durante séculos propriedade da elite. A filosofia de Confúcio, ao estabilizar o poder imperial, referia ao mesmo tempo que um poeta era responsável por criticar e educar a sociedade e funcionar como uma voz da moralidade. No período mais belo da poesia chinesa, o período Tang, os poetas encontraram bastas vezes um império em busca da paz. A guerra era uma pintura onde todos se moviam. Não admira que, durante este período áureo, em que os chineses e os tibetanos lutavam ciclicamente pela influência decisiva sobre a Rota da Seda (a história repete-se, mesmo com outros protagonista) a dicotomia entre a “raposa” (o inimigo nacional) e o “dragão” (que se referia aos Han) encontrou semente para ficar na memória colectiva.

Sobre tudo isso pensei um pouco ao ver “A Assassina”, o novo filme de Hou Hsiao-hsien, que se baseia (não por acaso) num conto da dinastia Tang. Conta-nos a história de uma jovem (Nie Yinniang, interpretada pela glacial Shu Qi) educada como assassina letal pela sua tia-freira Jiaxin. Nie mata em silêncio e refugia-se entre as árvores, sendo o seu som indistinto daquele que o vento provoca nas folhas das árvores. O enquadramento da imagem torna-se quase o de uma pintura, onde saltitam personagens como se fossem símbolos da caligrafia chinesa. É poesia à solta no amplo mundo do cinema. Nie tem um dilema: é a sua consciência mais forte do que a sua pequena espada? O desafio que Jiaxin lhe coloca é fatal: deve matar o seu próprio primo, Tian Ji’an, o governador de Weibo, personagem que lhe foi outrora muito querida. Ou seja, para cumprir o seu dever, para o qual sempre foi educada, Nie tem de matar a paixão. O fogo e o gelo.

Todo o filme evoca o confronto do amor e da honra, da política e dos rituais sociais. Tudo sobre o olhar elegante de um realizador que cria uma pintura em forma de poesia, colocando-nos perante metáforas como a do pássaro enjaulado que canta até à morte quando confrontado com a sua imagem num espelho. Há por aqui sempre uma lógica de pintura, de relação harmoniosa entre montanhas e vales, terra e água, homem e a natureza que o cerca. Nie, no meio de tudo isto, tem de se libertar. Pendem-lhe para deixar os sentimentos humanos e deixar-se guiar pelo dever, como um rio que corre desesperado para a foz e que não sabe o que é a serenidade. As artes marciais que surgem aqui e ali apenas pautam este confronto do homem (e da mulher) com o destino que deseja ou lhe é traçado. Por fim acho que Hou Hsiao-hsien deseja sobretudo atrair-nos para as leis da natureza que vamos desprezando sucessivamente, como se quiséssemos que a Terra estivesse em contacto não com o Céu mas com o Inferno. Aqui tudo se envolve num mistério. A poesia, a pintura, a imagem narcótica, a própria banda sonora, de “A Assassina”, são um elogio à beleza. E à pureza da natureza e dos nossos sentimentos.

 

Fernando Sobral é jornalista e escritor. Publicou “O Segredo do Hidroavião” e “As Jóias de Goa”.

 

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O Sopro de Pak Tai:Mendes, Monteiro e a ilha de Cheju

 

FOTO Sopro desta semana

Conhecida na antiguidade por nomes tão diversos como Do-i, Supla, Tamora, Tamna e Takra, a actual Cheju (actualmente transliterada como “Jeju”), “a ilha dos dezoito mil deuses”, continua a ser um mundo à parte no universo sul-coreano e o destino predilecto dos casais em lua-de-mel.

As primeiras referências europeias à Coreia surgem numa carta enviada em 1548 ao Vice-rei do Estado da Índia pelo jesuíta Nicolau Lanciloto, residente no Japão. Nessa carta, o italiano – formado no Colégio de São Paulo, em Macau – afirmava que os japoneses comerciavam “com outra gente abaixo da China para leste, chamada Coreia» e que para lá levavam também prata e peles de martas “porque há grande quantidade delas na mesma ilha, e também levam abanos; e trazem de lá panos de algodão”. Décadas depois, em 1571, um outro jesuíta, o português Gaspar Vilela, também ele educado “em assuntos sínicos” naquela que foi a primeira universidade da Ásia Oriental, informava o seu superior de que, a dez dias de caminho do Japão, por via marítima, “existe um reino chamado Corái”, admitindo até que tentara visitá-lo, “há quatro anos”, mas que, “por causa das guerras que havia no caminho”, acabara por desistir da ideia.

Na primeira metade do século XVI, com uma frequência cada vez mais notória de comerciantes portugueses na Ásia, em geral, e, em particular, no Mar do Leste da China, era inevitável que alguns deles acabassem, mais tarde ou mais cedo, por entrar em contacto com o território da actual Coreia, até porque, com a chegada oficial dos portugueses ao Japão, em 1541 – e Fernão Mendes Pinto reclama essa honra para si e dois dos seus companheiros –, esse reino passara a estar na sua rota marítima comercial.

Esse marco histórico supramencionado – a chegada dos europeus a solo coreano – foi-nos noticiado por Antonio Prenestino, jesuíta italiano a residir no Japão, que, numa carta datada de 1578 e enviada a um colega da Companhia que vivia na Índia, nos diz que “no ano de 1577 os homens do capitão Domingos Monteiro, devido a um tufão, pisaram a terra da ilha de Cheju, sendo logo todos mortos”. Prenestino não explica, contudo, qual era a missão desse capitão e por que razão ele e os seus homens foram mortos. Tão-pouco há provas documentais coreanas que atestem o acontecimento.

Na verdade, o primeiro europeu a ser mencionado nos anais coreanos, com o nome de Ji-Wan-Myeon-Je-su, foi João Mendes, comerciante de Macau, que viajava num barco japonês, do Camboja para Nagasáqui, quando deparou com uma violenta tempestade que o obrigaria a mudar de rota, tendo-se aproximado mais da costa do que seria desejável, visto que na altura o Japão e a Coreia estavam em guerra. Foi a 14 de Junho de 1604, ao que consta ao largo da actual cidade de Tongyeong. Na sequência da batalha naval que entretanto se travou entre japoneses e coreanos – e que passaria para a história como a batalha de Dangpo – João Mendes seria preso, juntamente com outros quarenta e nove membros da tripulação. Passaria algum tempo no país, sendo posteriormente enviado para Pequim, desconhecendo-se qual o seu destino. Só várias décadas depois, em 1627 e em 1653, há registo da visita de outros europeus ao dito “Reino da Manhã Serena”, e, de novo, é Cheju o local de chegada. Mais exactamente, a ilhota de Kapado, que é, aliás, vizinha da ilhota de Marado, nomes que não deixam de ser bastante curiosos, pelo menos para um falante de português, e cuja sonoridade é muito mais japonesa do que coreana. Ambos os homens eram holandeses. O primeiro tinha por apelido Weltevree, e o outro, Hendrick Hammel, estaria acompanhado de 37 homens, que, como ele, tinham sobrevivido a um naufrágio.

Pelos vistos, Hammel não só teve melhor sorte do que Domingos Monteiro e João Mendes, como ficaria, até hoje, com os louros de ter sido o primeiro ocidental a chegar à Coreia. Pelo menos, é essa a informação fornecida nos folhetos distribuídos aos visitantes que chegam aquele país.

Não creio que todos estes factos históricos, nem mesmo os créditos erradamente atribuídos ao holandês, fossem assunto que interessasse a Lee Keun, um pescador de quarenta e poucos anos que ali conheci e que aproveitava as horas mortas de domingo à tarde para merendar ostras e peixe cru com os colegas, sentados em pequenos bancos de plástico no paredão frente ao mar.

– Devia visitar Yongduan. Fica perto – sugerira ele, apontando com o dedo indicador para a massa rochosa a algumas centenas de metros. Yongduan, “rocha da cabeça do dragão”, era um dos símbolos mais queridos de Cheju e recebia visitas diárias de milhares de turistas. Conta a lenda que o dragão do palácio real, que habitava as profundezas do mar, quis alcançar o céu. No momento exacto em que surgiu à tona da água, o seu corpo petrificou-se e ali ficou. O tronco e os membros do bicho lendário, representados por uma massa de basalto, ficaram para sempre submersos, à mercê das marés, mas a cabeça, com talvez uns dez metros de comprimento, manteve-se erguida, numa eterna tentativa de atingir o impossível.

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Joaquim Magalhães de Castro, Escritor e Investigador da Expansão Portuguesa

 

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Ainda a propósito do enquadramento da lusofonia no quadro da RAEM

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Retomando um pouco a linha da última crónica sobre o espaço da lusofonia no contexto da RAEM, volto ao tema sem obviamnete o concluir ou o esgotar, até porque é sempre actual desde que o queiramos manter na agenda das nossas reflexões.

Em termos práticos, podemos, apesar da fragilidade com que se manifesta, considerar que continua a existir uma “marca” daquilo que os portugueses vão fazendo em Macau, ou seja: a lógica de “um país, dois sistemas”, é visível em Macau pela manutenção da herança e da presença portuguesa em vários domínios e que se traduzem por uma participação activa na sociedade civil, concretamente no espaço confinado às questões jurídicas, culturais e da expressão da língua portuguesa, mesmo que seja, nalguns casos, apenas emblemática.

Esta posição, ao ser assumida pelo próprio Executivo local, levou a que ao longo dos últimos anos pudesse permanecer o simbolismo da importância da matriz lusófona no contexto social da RAEM, isto apesar da mudança da tutela do poder da Administração Pública do território.

A partir da altura em que a Administração passa para a tutela definitiva da Republica Popular da China, altera-se a própria conjuntura das decisões e das políticas, se bem que, do ponto de vista do reflexo na sociedade civil o esforço foi meritório, optando pela adopção de uma linha de continuidade, ou seja, decorreu de um processo de não ruptura em que o modelo se desenvolve naturalmente com a mudança apenas no foco do poder político instalado.

Em síntese, e no essencial, o que marca a nova contextualização do espaço da Região Administrativa e Especial de Macau é a capacidade de se manter como espaço singular face à sua integração plena na Republica Popular da China.

Ao fim e ao cabo, essa particularidade assenta no facto de permitir mostrar ao Mundo que o poder chinês foi capaz de legitimar, no seu próprio espaço, a herança histórica da lusofonia num contexto da abertura da China ao Ocidente, situação essa que têm sabido perpetuar ao longo destes últimos anos.

Podemos deste modo admitir que a estratégia adaptativa da Região Administrativa Especial de Macau aposta, essencialmente, em se posicionar como alternativa válida e competitiva, nos novos espaços da chamada China Moderna e para tal, é fundamental que preserve os seus traços distintivos, entre os quais o seu legado da herança lusófona.

Ora, apesar da enorme importância que hoje se dá às relações económicas e comerciais em sede da RAEM como a abertura aos mercados lusófonos não é esta que lhe dá identidade, apenas é circunstancial e ao “sabor dos ventos”, o que estrutura a sua singularidade é o caracter simbólico da presença lusófona no quotidiano de Macau, recolocando assim a importância da perpetuação da matriz cultural para a vida de Macau e, nessa medida, a presença dos portugueses (e dos falantes de português) no território é crucial e fundamental. Veremos até quando poderão resistir os que por cá habitam.

Neste sentido, seria também interessante incluir nas nossas acções e preocupações uma estratégia de caracter geracional que possa vir a repovoar e a reposicionar os futuros portugueses em Macau como elemento central da diplomacia portuguesa, podendo obviamente, articular-se com a esfera económica e comercial mas não ser subsidiária desta última. Fica a sugestão e a ideia a quem possa interessar.

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Carlos Piteira

Investigador do Instituto do Oriente

Docente do Instituto Superior de Ciências Socias e Politicas / Universidade de Lisboa

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A Voz interior

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O Evangelho deste Quarto Domingo de Páscoa é curto de extensão, mas profundo em conteúdo. Tendo como pano de fundo a figura do «Bom Pastor» e da sua relação com as ovelhas ao seu cuidado, eis que ouvimos Jesus a afirmar , entre vários outros aspectos, o seguinte: «As minhas ovelhas escutam a minha voz. Eu conheço as minhas ovelhas e elas seguem-me. Eu dou-lhes a vida eterna e nunca hão-de perecer e ninguém as arrebatará da minha mão…».

Se assim é, porque é que tantos, muito olimpicamente, não fazem caso desta afirmação tão categórica de Cristo sobre a Sua proximidade e intimidade com a pessoa humana? Ou ainda: porque é que tantos homens e mulheres, no nosso tempo, na nossa sociedade actual, sobretudo em países formados à sombra da tradição cristã, continuam adormecidos, apáticos ou aversos à questão da existência de Deus nas suas próprias vidas?
Por um lado, a Palavra de Deus fala-nos continuamente da intimidade entre o Criador e a criatura, da relação amorosa entre Deus e o Homem, de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. Por outro lado, a Sociedade Moderna mais parece querer afirmar que a Humanidade não precisa de Deus.
Deus amou-nos de tal maneira que enviou o Seu próprio Filho, Jesus Cristo, feito homem. Pela Sua Morte e Ressurreição, venceu e libertou-nos de todo o Mal, encarnado na Dor e no Pecado presente na nossa existência de que a Morte é a expressão máxima do seu poder.
É neste contexto do Amor total e incondicional de Deus para com a Humanidade que a parábola dita do «Bom Pastor», com palavras mais simples e ligadas à vida pastoril, nos poderá fazer compreender melhor não só esse diálogo existencial de conhecimento e amor entre Deus e o Homem mas, ao contrário, também as suas dificuldades.
Porquê essa distância entre Deus e o Homem? Porque razão se afasta o Homem?
As palavras da Sagrada Escritura acerca do «Bom Pastor», de quanto diz respeito ao cuidado pelas suas ovelhas, são extremamente positivas: Conhecê-las. Chamá-las pelo seu nome. Guiar, ir à frente. Conduzi-las aos pastos verdes. Dar a vida pelas suas ovelhas. Ninguém as arrebatará. Dar-lhes-á a vida eterna. Ao mesmo tempo, as mesmas Escrituras dizem que as ovelhas escutam, conhecem-me, seguem-me…
Então, onde está, na relação entre o Homem e Deus, a raiz ou a razão da apatia, do afastamento ou da negação de muitos dos nossos contêmporâneos?
Pela parábola do «Bom Pastor» Deus é íntimo e chama o Homem à intimidade. E é aqui que recordamos o Mestre a proclamar: «As minhas ovelhas escutam a minha voz». Ora, sem essa capacidade de entrada no nosso ser mais interior, não conseguiremos ouvir a voz de Deus, essa voz que o profeta Isaías comparava a uma «suave brisa».
O problema de ouvir ou não ouvir a voz de Deus, portanto, não se encontrará, afinal, em nós mesmos? Aumenta drasticamente a incapacidade do homem ou da mulher de hoje de estar só, recolhido ou recolhida , em silêncio. Bombardeados por todos os lados e horas a fio pela rádio, pela televisão e pela internet e dominados compulsivamente pelos mesmos, o nosso interior não tem nem espaço nem condições para acolher « a voz… suave como a brisa…» de Deus.
É neste «Caminho Interior» que o grande pensador Soren Kierkgaard compreende, na sua reflexão psicológicas, teológica e filosófica sobre «A Angústia» no profundo do coração humano, o grito e o clamor para Deus.
Luís Sequeira. Jesuíta. Antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau.

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