O segundo sistema não existe

Sónia Nunes

Aquilo que vou dizer sai-me sem grandes estudos e ao final de meia dúzia de anos, em que os últimos andaram bem mais rápido do que os primeiros. Arrisco afirmar que é uma ficção pensar que existe um ‘segundo sistema’, apresentado com frequência como um nicho de liberdades e direitos fundamentais na grande China. O modelo ‘Um país, dois sistemas’ significa isto mesmo: há um país com dois sistemas, o socialista e o capitalista. Não há um primeiro, não há um segundo: há dois sistemas que coexistem a longo prazo (50 anos é força de expressão), o que será suficiente para assumir que, mais do que ingénuo, é errado pensar que por “manter inalterado a maneira de viver anteriormente existente” se quer afirmar que nada vai mudar.

A verdade é que fico de pé atrás quando me dizem que Deng Xiaoping foi um génio, ainda que o substantivo tenha essa característica neutra de tanto servir o talento para o bem como para o mal. Em ‘Um país, dois sistemas’ há muito de socialismo com características chinesas e sobretudo um propósito: a reunificação, com a certeza absoluta de que o Estado é soberano. Os interesses são nacionais e dizer aqui nação, Estado ou país é dizer Partido Comunista Chinês. Melhor. Politburo do Partido Comunista Chinês. Melhor ainda. Comité Central do Partido Comunista Chinês – a ‘inovação’ chinesa do conceito de Estado não se fica pela existência de dois sistemas.

A presença do chavão “amor à pátria, amor a Macau” nos discursos oficiais não é supérflua (não há palavras a mais, nem a menos, mas as exactamente necessárias) e a prova disso é o que o Governo Popular Central veio dizer a Hong Kong a propósito do pseudo-sufrágio universal para eleger o Chefe do Executivo: pode ser, desde que seja alguém que ame a pátria e ame Hong Kong. Encontro uma citação de Deng Xiaoping nos cadernos editados pelo Centro de Estudos Um País, Dois Sistemas sobre o conceito de patriotismo para os cidadãos chineses de Hong Kong e Macau:  “Não se pode exigir deles o apoio ao socialismo, mas não se devem, pelo menos, opor à nova China socialista; caso contrário, como se poderá dizer que amam a pátria?”.

Nesta interpretação do Centro de Estudos, que funciona no Instituto Politécnico de Macau, os ‘patriotas’ são os que sabem que têm de “respeitar a própria nação” e “não prejudicar a prosperidade e estabilidade” das RAEs. É isto que está plasmado nas intervenções da Assembleia Legislativa, Conselho Executivo e Governo: o estatuto especial de Macau é evocado para falar do mercado livre e não do homem livre, ainda que o capitalismo seja exímio a confundir consumo com liberdade individual. O sistema capitalista existe como “suplemento para a economia socialista”. Tão só.

Há “liberdades e direitos” mas têm limites e são cada vez maiores, em boa parte porque a maioria escolheu não os usar e encolher-se na famigerada muleta da autocensura.  Os sinais de que cada vez menos as coisas em Macau são como antes estão em todo o lado. Ou porque a liderança chinesa mudou. Ou porque mudaram os dirigentes do Gabinete de Ligação. Ou porque Hong Kong está a rebelar-se. Ou por tudo isto.

Estou em crer que é este o pano de fundo das declarações de Peter Stiwell à Rádio Macau quando disse que Macau é uma “sociedade onde se lêem os sinais” e “as pessoas dizem coisas”. Peter Stiwell e a Universidade de São José sabem onde estão, mas também sabem que há sempre uma escolha – uns, mais do que outros, saberão que prejudicar um homem na sua liberdade para manter uma agenda é a opção errada.

 

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Como evitar uma sociedade ao estilo de Hong Kong

Hong Kong people vote in unofficial poll on universal suffrage

 

Iris Lei

 

“Não quero que Macau fique como Hong Kong. Protestar só por protestar, fazer oposição só por fazer oposição”, são os comentários que mais tenho ouvido dos meus amigos. O medo de transformar a “harmoniosa” aldeia piscatória numa cidade caótica com protestos contínuos está de facto enraizado na mentalidade da maioria.

Lembro-me de entrevistar vários jovens depois da retirada do regime de garantias para os altos cargos públicos, alguns responderam que a última coisa que queriam era uma sociedade desordenada, como a de Hong Kong. Um ouvinte de apelido Cheang telefonou para o canal chinês da Rádio Macau na quinta-feira para manifestar repugnância pelo movimento social ao estilo de Hong Kong que, acredita, está a ganhar formar no território. “Macau é uma cidade harmonizada. Por que precisamos de mudar para [uma como a de] Hong Kong?”, perguntou o ouvinte, que falou dos arremessos de “bananas e outras coisas ao Conselho Legislativo”. “O Governo [de Hong Kong] está a desenvolver uma nova cidade para o bem comum dos residentes, mas eles têm de ser fracturantes e destruir… para tentar impedir o projecto”, disse também.

Ninguém pode julgar a opinião deste ouvinte, mas posso ter algumas reservas em relação ao que sugere. Cheang aconselha os residentes, sobretudo os mais jovens, a usar o subsídio de educação de seis mil patacas do Governo para aprender mais e ser mais racional em relação às questões políticas.

Tenho de admitir que os residentes (informados) têm sido assediados por uma miríade de notícias, e é justo dizer que a enchente começou com os protestos de 25 e 27 de Maio.

Desde então, seguiram-se uma série de acontecimentos: o despedimento de Éric Sautedé, que se acredita ser um dos seis académicos reprimidos devido às suas opiniões políticas ou movimentações fora das instituições, claramente atraiu olhares; a discussão sobre a estudante que ergueu um cartaz com a frase “Por favor parem de perseguir académicos” na cerimónia de final de curso, um dos momentos mais solenes para a turma de 2014 da Universidade de Macau, e a acusação de que a universidade interfere com a liberdade de imprensa, impondo medidas de segurança demasiado duras.

Nos temas menos académicos, temos o protesto contra a construção de uma bomba de gasolina na Taipa, perto de uma zona de rebentamento de panchões durante o Ano Novo Chinês. Sem esquecer as 1600 pessoas (e animais) que se manifestaram no sábado pedindo a aceleração do processo legislativo para a protecção animal.

No que toca à saúde, há a situação do rapaz com o cóccix fracturado, cujo estado de saúde se terá agravado devido a alegada negligência médica do hospital público. Na conferência de imprensa onde se expunha a situação e anunciava uma recolha de fundos para ajudar o jovem, uma funcionária do Governo infiltrou-se para conseguir saber mais sobre o caso, uma acção que prejudicou a já mal organizada gestão da equipa dos Serviços de Saúde. Claro que o mais importante é que os mais elevados cuidados de saúde foram prestados ao Chefe do Executivo que sofre de gota. Chui Sai On recupera com rapidez e já foi capaz de se deslocar ao templo.

Por falar em sistema de saúde, o exemplo mais significativo e satírico será a morte do panda gigante e “nosso amigo” Sam Sam, que morreu devido a uma insuficiência renal depois de quatro anos no seu palácio de três mil metros quadrados. Já para não mencionar os sete milhões de patacas que os cofres públicos despenderam para tomar conta destes preciosos presentes oferecidos pela China Continental a propósito do 10º aniversário da transferência de poder.

Não há forma de nos desconectarmos da sociedade como também não nos podemos afastar da política. Se uma sociedade agitada não é o ideal, então por favor aproveitem e valorizem o voto – um direito cívico – e lutem pelo sufrágio universal nas eleições para a Assembleia Legislativa e para o Chefe do Executivo. Um Governo eleito pelo povo levantaria menos problemas do que um eleito Executivo escolhido à porta fechada e com o selo do Governo Central.

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Prós e contras: da necessidade de professores de línguas nativos

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Ana Paula Dias*

O South China Morning Post publicou este mês um interessante e polémico artigo sobre o ensino de inglês por professores nativos em Hong Kong (Native English Teachers, designado por NET), sob o título “Time to retire the native English teacher scheme”.

O autor, Vaughan Rapatahana, um neozelandês de ascendência maori, é escritor e doutorado em Literatura e Filosofia Existencial. É casado com uma filipina, viveu em vários países asiáticos, em ambientes multilinguísticos, estando actualmente sediado em Hong Kong, onde começou a trabalhar como NET em 2002. Referem-se estes dados para melhor enquadrar Rapatahana e aquilo que defende neste artigo, pois não se trata de todo de um indivíduo proveniente de um meio monocultural e monolinguístico nem sem conhecimento de causa sobre o assunto em apreço.

O NET foi implementado no ensino oficial em Hong Kong nas escolas secundárias e primárias, em 1998/99 e 2002/3, respectivamente. É um sistema que permite às escolas governamentais e às escolas subsidiadas empregar professores de inglês vindos do exterior. O objetivo é proporcionar exposição ao idioma inglês “autêntico” e facultar um enriquecimento cultural aos alunos chineses locais. Espera-se também que estes professores ajudem no desenvolvimento de recursos de ensino e na formação profissional dos professores de inglês nas suas escolas. Os NET são contratados por dois anos renováveis, recebem uma gratificação no final de cada contrato e ainda um subsídio extra destinado a compensar os custos adicionais de viver no exterior. Atualmente há cerca de 800 NET nas escolas de Hong Kong.

Rapatahana chama a este sistema “um elefante branco”, considerando que tem sugado o dinheiro dos contribuintes ao longo dos seus 15 anos de existência. Segundo ele, nunca houve argumentos convincentes e consistentes para o sistema, tratando-se de uma mera resposta à rejeição de pais e alunos quando o chinês foi unilateralmente decretado língua de instrução em 1998, na sequência da transferência de soberania em Hong Kong.

O esquema separa os chamados “falantes nativos de inglês” (quase todos eles estrangeiros e muitos deles monolingues) e os professores de inglês locais, estes últimos detentores das competências culturais e linguísticas necessárias para se entrosarem mais facilmente com a generalidade dos estudantes.

Em Hong Kong, a maioria das pessoas não quer verdadeiramente dominar a língua inglesa e em muitos casos não pode custear a formação necessária para atingir um nível elevado de proficiência na língua. Aliás, esse tipo de proficiência sempre foi acessível apenas a uma elite rica. Rapatahana compara o inglês ao ginseng: o gosto é mau, mas as pessoas sofrem porque acham que precisam dele para “ter sucesso”. Na realidade, poucos usam efetivamente a língua em casa ou em qualquer outro lugar.

O autor indaga o porquê de tantos despenderem tanta energia para aprender inglês, lutando para se matricular em escolas em que é língua veicular e nas chamadas instituições de elite. Em muitos casos, é uma questão de snobismo: para estas pessoas falar inglês, ou algo semelhante, distingue Hong Kong da China Continental (cujos alunos, ironicamente, dominam melhor a língua inglesa). Mas esta não é a principal razão subjacente à obsessão pelo domínio do inglês-padrão e a que subjaz a todo o sistema NET. O problema é que pais e alunos laboram na crença errónea – inteligentemente instigada desde os tempos coloniais – de que “precisam” da língua inglesa.

O domínio global do inglês foi mantido e incentivado por uma série de instrumentos e interesses anglo-americanos, por razões essencialmente económicas: por exemplo, os defensores ocidentais da língua inglesa ganham muito dinheiro com testes e exames de certificação. Mas também por serem os guardiões das publicações académicas e restringirem o acesso a todo o tipo de revistas; por convencerem universidades a rejeitar as suas línguas maternas como língua de instrução; e por alimentarem o fantasma dos rankings e dos índices de citação, hegemonizando a sua variante da língua inglesa e fazendo com que os falantes não-ingleses vejam frequentemente as suas línguas desvalorizadas.

Defende Rapatahana que em Hong Kong se deve permitir que os professores locais ensinem inglês, sem almejar atingir um domínio da língua desnecessário; não precisa ser um inglês-padrão mítico, nem que seja pelo facto relevante de não haver empregos suficientes a exigir esse nível de mestria. Também não vê qualquer validade na justificação da necessidade de ter proficiência para permitir a Hong Kong “competir” como uma verdadeira cidade “internacional”, para manter a sua “vantagem”: é um mito antigo, a par de outros sobre o “inglês asiático” – mitos propagados por uma comunidade de negócios com fortes laços internacionais.

Conclui, pois, que não há qualquer necessidade do projeto NET, embora bem-intencionado e diligente como muitos dos seus professores são.

Como em Macau este tipo de questões são recorrentes em relação ao português e ao seu ensino – e agora também quanto à cisma com a sua certificação massiva – convirá refletir sobre alguns dos importantes e interessantes pontos levantados pelo autor e sobre a experiência do território vizinho que encontram eco por cá. Dever-se-á apostar na quantidade ou na qualidade? No recurso a professores nativos, muitas vezes descontextualizados, ou na especialização e capacitação de profissionais locais de nível superior para o ensino do português como língua estrangeira?

Vaughan Rapatahana é co-autor do livro Why English? Confronting the Hydra, que será publicado no próximo ano e que poderá certamente ser uma achega útil a esta discussão.

*Doutoranda na Universidade Aberta

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Sem fé na liberdade

Inês Santinhos Gonçalves

Ao longo da história foram inúmeras as ocasiões em que a Igreja se pronunciou, e até fez campanha, sobre questões políticas – recordemos, aliás, a matriz católica de vários partidos espalhados pelo mundo. É verdade que a Igreja Católica não está estabelecida na China e que, como diz Peter Stilwell, os valores que se aplicam na Europa ou nos Estados Unidos não podem ser transpostos para esta parte do mundo. Na China, muito mais que noutros países, a Igreja continua a bater-se pelo louvável princípio da liberdade religiosa.

A essa fundamental liberdade está intimamente associada outra, a de qualquer indivíduo se poder expressar livremente. Afinal, o ser humano tem direito às suas crenças mas não a manifestá-las? Ou será que só a crença num ser divino pode ser manifestada, e não a crença num modelo de sociedade e justiça?

Na carta enviada a funcionários e alunos, o reitor lança a questão: “Como é que uma universidade católica se posiciona em Macau de modo a manter-se fiel a uma tradição de 400 anos de valores humanistas, e é percepcionada dessa forma pela comunidade local – e não como um porto de abrigo para interesses estrangeiros ou lutas políticas?”. Talvez não abdicando desses mesmos valores humanistas, arrisco.

Sobre o que se passa na Universidade de São José, pouco mais que conjecturas se podem fazer. Ficam perguntas. O reitor fala de percepção. Mas percepção perante quem? Perante Macau (o Governo? A sociedade?), perante a China Continental? A reitoria assume a responsabilidade da decisão mas admite que a toma para que a universidade, e a Igreja por associação, não fique mal aos olhos de outros. Quem tem vindo a criticar a universidade e quais são as consequências dessas críticas?

Voltando à questão lançada por Stilwell, novas dúvidas emergem. Se, como também afirma na sua carta, as opções de Sautedé são respeitadas e o professor não tem qualquer culpa além da de se manter fiel às suas convicções, porquê a insinuação de que representa ou dá voz a “interesses estrangeiros” e “lutas políticas”? Se o reitor respeita a postura do seu académico, como pode decidir despedi-lo sem acusar contradição?

Peter Stilwell parece lamentar a decisão, que admitiu com frontalidade. É difícil não concluir que o faz a mando de outrem. Quem?

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O regresso da Idade das Trevas

Sérgio de Almeida Correia*

Numa decisão inédita, o professor de Ciência Política e senior lecturer of Asian Politics da católica Universidade de S. José acaba de ser despedido, sem apelo nem agravo, pelo reitor, o padre Peter Stilwell.

Eric Sautedé tem sido nos últimos anos uma das vozes mais respeitadas da Universidade de S. José, e até há bem pouco tempo muitas das suas opiniões eram publicamente divulgadas pela instituição no seu Facebook, incluindo a visão daquele sobre múltiplos assuntos, nomeadamente sobre as eleições para a Assembleia Legislativa de Macau. Para além de dedicar o seu tempo ao ensino, Eric Sautedé colabora regularmente com um diário local, o Macau Daily Times, onde assina uma coluna de opinião.

Pois bem, a partir de 11 de Julho, numa decisão muito pouco cristã, Sautedé, ao fim de sete anos, deixará de dar aulas na Universidade de S. José por decisão do reitor Peter Stilwell. Depois de ter invocado para o afastamento do académico o facto daquele não ter ainda completado o doutoramento, argumento que não colheu, Stilwell “escorregou” e veio afirmar que “se há um docente com uma linha de investigação e intervenção pública, coloca-se numa situação delicada“. E acrescentou que “trata-se de clarificar as águas. Há um princípio que preside à Igreja de que não intervém no debate político dos locais onde está implementada“.

Acontece que é esta mesma universidade que dá as boas-vindas aos estudantes afirmando que “the University has strategically elected to be a university on the cutting edge of ideas and knowledge, defined by its adherence to humanitarian and humanistic values and principles, bound to the development of autonomous and creative thinkers, pledged to the highest forms of learning, teaching and research, and committed to the promotion of life, education and culture“, e foi o actual reitor quem escreveu que o programa de ensino da universidade “provide students with the essentials of their major field of knowledge, but include modules to broaden their outlook on the world and stimulate creative thinking. We care for the competence of our graduates in their future professions, but our privilege and mission is to introduce them to a university environment where they learn to analyze, question, evaluate and decide in the context of consciously assimilated values and culture”.

Entrevistado pela Rádio Macau e questionado sobre a sua atitude e aquela que tem sido a posição da Universidade Católica, em Portugal, designadamente quanto a alguns dos seus professores que, à semelhança de Sautedé, têm lugar na academia e assumem posições críticas no debate político, como João César das Neves ou João Pereira Coutinho, o reitor veio dizer que Portugal não é Macau. O reitor Stilwell foi mesmo mais longe e referindo-se à actividade de Eric Sautedé, enquanto professor de Ciência Política, declarou que se podem estudar os sistemas políticos e a Lei Básica, mas que aos docentes (staff) não deve ser permitido intervir nos assuntos correntes políticos e da governação porque existe uma linha muito fina que torna difícil a separação entre a intervenção política e o comentário académico.

Na Universidade de S. José já foram tomadas posições de apoio e solidariedade para com Eric Sautedé, temendo-se agora o despedimento da sua mulher, que também integra os quadros daquela instituição académica.

Tudo isto acontece quando o Chefe do Executivo de Macau, tendo sido confrontado com crescentes posições críticas saídas de dentro das universidades e a reacção precipitada destas, que para além do despedimento de Sautedé já incluem a suspensão do politólogo Bill Chou, da Universidade de Macau, veio dizer que não houve quaisquer instruções do executivo para serem tomadas atitudes persecutórias dentro das universidades e que é natural que dentro das escolas seja estimulado o espírito crítico dos estudantes.

A imprensa de Macau já reagiu ao sucedido, primeiro pelo PONTO FINAL, ontem também através do Macau Daily Times e do Hoje Macau. Ao que consta, tudo se deve ao facto do reitor entender que posições públicas críticas para com o governo de Macau por parte de académicos da casa poderem inviabilizar as chorudas benesses com que a instituição conta para desenvolver o seu novo campus académico.

Ou seja, tudo se resume, em termos muito básicos, a trocar a liberdade de expressão, o espírito crítico, a autonomia universitária, por um prato de lentilhas, sendo que nesta questão o reitor quis ser mais papista que o Papa.

Num momento em que a sociedade de Macau mais precisava de instituições fortes e de uma igreja activa e actuante, ao lado da sociedade e dos seus fiéis, os péssimos exemplos que chegam da Universidade de Macau e, agora, da Universidade de S. José e do seu reitor são uma vergonha e causam repugnância à luz do legado histórico e civilizacional de Portugal. E no caso da Universidade de S. José também envergonham a própria Igreja, que em Macau nunca se coibiu de manifestar as suas posições no passado, como sucedeu pela pena do padre Luís Sequeira ou até de Monsenhor Teixeira. E essa atitude é na sua essência ofensiva da herança de homens que dentro da Igreja, nestas questões, souberam estar à altura do seu tempo, como D. José Policarpo, D. Manuel Martins ou até D. António Ferreira Gomes, que pagou com o exílio o seu amor à verdade.

 

* Advogado

 

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Universidade para que te quero

Cláudia Aranda

A falta de massa crítica tem sido sempre o calcanhar de Aquiles da sustentabilidade económica de uma série de ramos de actividade em Macau, incluindo das universidades.

É mais ou menos do conhecimento comum que as universidades locais dependem quase tanto da importação de estudantes da China Continental e do estrangeiro, quanto os casinos precisam de turistas e jogadores chineses para alimentar o bacará.

No ano lectivo de 2012/2013 havia 27.776 alunos inscritos nas dez instituições de ensino superior existentes no território, das quais quatro são públicas e seis são particulares. Do total daqueles quase 28 mil estudantes, 34 por cento eram alunos externos, 96 por cento provenientes do Interior da China.

A entidade com mais estudantes era a Universidade de Macau, com um total de 8.481 estudantes a frequentarem cursos no ano de 2012/2013.

É interessante analisar que, por exemplo, no ano lectivo de 2011/2012 do total dos 33.121 locais, residentes de Macau, que se inscreveram no ensino superior, quase metade (cerca de 15 mil) fizeram-no em instituições de ensino superior fora do território. Será por falta de confiança na qualidade e liberdade do sistema de ensino local?

As pressões a que os académicos estão, alegadamente, a ser sujeitos nas instituições de ensino superior do território – nomeadamente na Universidade de Macau e a saída do professor Éric Sautedé da Universidade de São José,  justificada pelo próprio reitor como resultante  das suas intervenções políticas públicas – despertam preocupações quanto ao nível de ensino que algumas das entidades estão a querer impor aos seus estudantes, o qual passa aparentemente pelo silenciamento de professores e estudantes mais reivindicativos.

Perante este cenário assustador de censura à liberdade de pensamento e ao espírito crítico, e podendo optar por algo de diferente, seguramente que os jovens locais vão continuar a querer fugir ao blackout de conhecimento – e a encher os bolsos e os cofres das universidades de Hong Kong e de muitos outros destinos. Muito provavelmente, um dia destes também os estudantes da China Continental vão começar a pensar duas vezes antes de escolherem estudar na gaiola dourada que Macau oferece.

Resta saber se e como vão depois as instituições de ensino superior ser capazes de sobreviver.

 

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Variações

Filinto Elísio* 

1. Ponho-me a escrever sobre Pedro Corsino de Azevedo, cintilante figura da poética cabo-verdiana. Na fímbria de uma claridosidade a ser estudada mais – estudada melhor. O exalar de um evasionismo, dir-se-ia para o existencial, que se versa “cansado pela febre do mais-além” e se alerta, no embalo materno, da terra-longe mas com “gente-gentio come gente”. E o psicadélico quadro, de vinhetas quase pueris, em que o céu se rasga em mil fatias lindas…

2. Falta a alguma gente a humildade que só a grandeza permitiria. Do alto do pedestal, gente que não se enxerga diante do precipício, nem se reporta que as vivas e alvíssaras são engodos da canalha. Gente que, no instante rei, não sabe da nudez que leva e, no instante sacerdote, se acha Deus-todo-o-poderoso. À magna gente, cujas vénias e lisonjeias lhes são devotas, sendo o espelho da solidão a lhes refletir o ego, para não dizer das assaz mesuras e salamaleques do pajem, do bobo, do arlequim, et cetera. Tenta-se, qual Petrónio ao eruptivo Nero, a terapia dos pés no chão, a das vestes franciscanas e sandálias do pescador. Tenta-se, por declamar Luís Vaz de Camões, o apartar da sinecura, porquanto “Inclinai por um pouco a majestade”…

3. Comove-me esta contemplação: a minha vizinha coloca, uma a uma, as peças de roupa no estendal. Não faz propriamente sol, mas ela encara tal rotina como uma espécie de fé. Penso em viva voz: erro meu, este não conseguir encarar o processo histórico a preto e branco, com bons e maus da fita, deste ou doutro lado da barricada. Não há terceira margem, afirmam os mais levantinos no sentido binário e ambivalente do estar na política, rematando poesia al paredón. Entretanto, de repente, desce o nevoeiro sobre a cidade e venham daí vírgulas ao acaso – umas vezes muitas, outras nem tanto…

 

Custos da Democracia
E a conversa (insisto que amiga e amena) continuava a ponto de abordarmos os custos da Democracia. Custos? – perguntava eu, contrapondo aquilo como investimentos, já que o inerente aumento das despesas será compensado com ganhos reputacionais (económicos, inclusive) do País. A Democracia Constitucional, a Boa Governação e a montagem, bem como a funcionalidade, das instituições democráticas, vistas de uma perspetiva dinâmica, mais habilitada e mais complexa, são fatores cruciais do Desenvolvimento. Por conseguinte, impõe-se ampliar (amplificar, se necessário) o nosso sistema democrático, facilitando a abertura (em quantidade e em qualidade) aos partidos políticos (não sendo disparatada de forma alguma a ideia do alargamento do leque e da oferta) e à sociedade civil (sendo procedente o impulso da pólis pelo capital político). Mais liberdades, direitos e garantias. Mais Estado de Direito Democrático. Seja este (com os seus custos e ganhos) o nosso diferencial…

 

Futebol, para além das jogadas

Ora, vamos lá ver: o Brasil é uma constelação, onde brilha Neymar, Portugal tem CR7, o melhor do mundo (e Nany, cabo-verdiano) e Camarões impõe respeito com Samuel Eto’o. São as equipas minhas, na ausência dos Tubarões Azuis (Seleção de Cabo Verde). Todavia, antes mesmo das preferências por esta ou aquela equipa, valerá a pena que haja bom futebol. Quanto mais não seja para sublimarmos esta “malaise” em relação à FIFA e à sua atual administração. Que cintile o futebol (estarei a ser ingénuo?)…e não as outras jogadas.

 

Flashing

1. Olho, com interesse, para uma peça fotográfica da exposição “Genesis”, de Sebastião Salgado.
2. Se me for permitido dizer da minha justiça o próximo Nobel da Literatura iria para a poética de língua portuguesa (Manoel de Barros ou Helberto Hélder).
3. E, já agora, porque não os holofotes do prémio Camões a Corsino Fortes?
4. Gostei do paradiso “Capital Humano”, anti-hollywoodiano como convém e com mise-en-scène felliniano, mas da próxima vez vamos aos olhos azuis da Grace Kelly.
5. Por ora não sei, em Coca-Cola Zero e bolachinhas integrais à mesinha (canapé do caneco), se assisto ao arranque da Copa do Mundo ou leio “Estudos sobre a Arte d’ Os Lusíadas”, de António José Saraiva.

 

*poeta e cronista

 

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