Sobre a entrevista que concedi ao PONTO FINAL

[Carta ao Director]

Tive a oportunidade de ler a coluna (En Passant) em que José Rocha Diniz se refere à entrevista que concedi ao jornal PONTO FINAL, publicada a 24 de Setembro. Fico grato que José Rocha Diniz tenha lido a minha entrevista e respeito o seu direito a discordar comigo. De facto, é bom que alguém discorde do meu ponto de vista, até porque foram muitos os que expressaram a sua simpatia para com as minhas opiniões. No entanto, há alguns aspectos que desejo clarificar. Na entrevista que concedi nunca me referi a “professores de canto”, mas a professores de um modo geral. Nunca me referi em termos concretos a esta categoria. Quando me pronunciei sobre as dificuldades no relacionamento com outros músicos, não estava apenas a reportar-me à minha experiência: o mundo da música em Macau é, de facto, muito beligerante. Eu não sou, de todo, a única vítima destas circunstancias.

Estou certo de que quem leu a entrevista não assumiu que a minha intenção seria a de demonstrar ingratidão para com Macau. Em todas as entrevistas que concedi (inclusive na que concedi ao JTM e que não verá a luz do dia), sempre fiz questão de agradecer, antes de qualquer outra coisa, aos meus estimados alunos chineses e tenciono sublinhar ad abundantiam (já agora, obrigado pela citação em latim) a excelência do trabalho que desenvolvem. Esta foi a razão – o amor, o respeito e a consideração que os alunos me merecem – que me levou a falar. Fi-lo para que possam ter ao seu dispor um ambiente onde possam ser acarinhados e um lugar em que possam desenvolver o seu enorme potencial. Hoje em dia, Macau está longe de ser este lugar. Está no nosso direito, no meu entender, abordar aspectos que consideramos urgentes e questionar a forma como somos governados. Se não o fizermos, de que outro modo podemos exercer controlo sobre quem nos controla? Quis custodiet ipsos custodes?Juvenal estava certo. Temos de nos manter alerta e temos de manter a guarda elevada. Em Itália temos um provérbio – il medico pietoso fa la piaga purulenta – que diz qualquer coisa como “O médico piedoso torna a ferida purulenta”.Esta foi a razão pela qual me pronunciei.

Estou certo que ambos temos as opiniões que temos porque ambos amamos Macau. Espero que Macau possa ter um coração suficientemente grande que possa acolher ambas as nossas visões e ideias dissonantes, de forma a que um melhor futuro para esta cidade possa ser construído.

Deixe-me agradecer-lhe, caro José Rocha Diniz, pelo apoio e pelo encorajamento que concedeu às actividades que organizei no passado, aqui em Macau.

Aurelio Porfiri, Maestro

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Transparência e Coerência

Luís Sequeira*

Ao verem um homem que não era dos seus a fazer bem, em nome de Jesus, os discípulos, primeiro, procuram impedir-lo e, depois, fazem queixa dele ao Mestre, como se algo inadmissível e reprovável tivesse acontecido. Este é o caso que nos é apresentado no Evangelho deste Domingo, o Vigésimo Sexto, de 27 de Setembro.

Muito parecido a este, há um outro episódio passado com Moisés que completa e explicita um pouco melhor o sucedido com Jesus. Narra o texto do Antigo Testamento que o Espírito de Deus se manifestava em dois homens, eles também escolhidos por Deus, mas, na altura, fora da Assembleia do povo: «Então Josué, filho de Nun, que estava ao serviço de Moisés desde a juventude, tomou a palavra e disse: ’Moisés, meu senhor, proíbe-os.’ Moisés, porém, respondeu-lhe: ‘Estás com ciúmes por causa de mim? Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor infundisse o seu Espírito sobre eles!.»

Como é possível tal deturpação? O bem ou a boa acção a ser transformada em mal, em acto não próprio, incorrecto, a ter mesmo de ser proibído! Aquilo que é um acto de bondade, uma ajuda generosa bem concreta, um serviço arriscado e corajoso em favor dos outros, uma esmola ou doação sem dar nas vistas, uma conversa amiga, fora de horas, mas tão necessária…Como é que todas estas manifestações podem ser, em determinados momentos, interpretadas de maneira tão negativa e contrária àquilo que, objectivamente, se vê ou contrária às intenções que as pessoas genuinamente nos deixam perceber?

O Senhor Jesus coloca as coisas no seu lugar. Antes de mais, declara: «Não o proibais». É a confirmação de que algo não está bem naquela maneira, quer de julgar quer de actuar. Em seguida, dá-nos uma chave de leitura do facto bem diferente daquela primeira inclinação que conduziu à proibição. Na verdade, oferece-nos uma compreensão mais profunda da natureza humana, onde mostra que a coerência interna do ser humano diante da Verdade e do Bem e da sua relação com Deus é intrínseca, estrutural e constitutiva do seu ‘ser’, homem ou mulher. Esta aspiração radical à coerência entre o exterior e o interior no comportamento de uma pessoa existe antes de qualquer possível disparate, como vigorosamente expressa o Mestre Divino ao dizer: «Ninguém pode fazer um milagre em meu nome e depois dizer mal de Mim. Quem não é contra nós é por nós». Frase esta que nos faz lembrar ainda aquelas suas outras palavras, muito fáceis de entender: «A árvore boa não pode dar maus frutos assim como a árvore má não pode dar bons frutos….»

No entanto, a própria Palavra de Deus traz-nos igualmente a outra face da realidade da nossa humanidade, isto é, a sua dimensão terrena, frágil e imperfeita. É que nem sempre conseguimos manter aquela força interior do Espírito que nos leva a só buscar a Verdade, o Amor, a Beleza, a Perfeição. Em suma, a Deus. Moisés, com o povo do Antigo Testamento, é contundente e desmascara essa atitude sem qualquer subterfúgio. O grande líder do povo hebreu pergunta, categoricamente, a Josué:« Estás com ciúmes…?».Este pormenor, cheio de perspicácia psicológica, está implícito também, creio eu, no diálogo de Jesus com o seu apóstolo, João.

Estes encontros, tanto o de Moisés com Josué, como o de Jesus com João,   levam-nos, assim, mais longe no entendimento da experiência simultaneamente, humana e espiritual, por onde passarão todos aqueles que querem crescer na experiência íntima de Deus. Para ter a verdadeira compreensão da realidade que nos circunda ou em que estamos inseridos e ter a correcta actuação para com os outros temos que ter um coração livre e transparente. Caso contrário, com um coração dominado pelos ciúmes e inveja, não conseguimos discernir nem a Verdade nem o Amor nem, acima de tudo, os caminhos de Deus. Ao invés, corremos o risco de afirmar barbaridades ou de cometer erros que bradam ‘aos céus’ ou de perder completamente ‘o sentido da realidade’

Há que conhecer o coração humano, tão cheio de máscaras, fantasmas e afectos desordenados. Muitos sentimentos que são reais e verdadeiros em mim, na realidade, não são reflexo da Verdade. Longe disso! Conseguirá alguém, homem ou mulher, carregados de ciúmes ou inveja ou dominados pela sede do poder,ver a realidade com objectividade? Antes, eles a deformarão e a deturparão até chegar à falsidade.

Uma falsidade que descobrimos, hoje em dia, a todos níveis, em todos os continentes e hemisférios, em todas as raças e culturas, em todas as religiões, em todas as filosofias e ideologias, entre ricos e pobre.

Sim, descobrimos, tristemente. Muita falsidade, muita corrupção e mentira.

(*) – Sacerdote e antigo superior da Companhia de Jesus em Macau.

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Os não-cidadãos

Nuno Batalha

Emigrante e Candidato do Livre/Tempo de Avançar pelo círculo Fora da Europa.

Já arrancou em Portugal a campanha da Comissão Nacional de Eleições para apelar ao voto. “Votar é mais do que um direito”, diz o slogan. É um bordão que não se aplica certamente aos portugueses residentes no estrangeiro. Para esses, votar é menos do que um direito.

Isto porque o recenseamento eleitoral dos emigrantes, não sendo obrigatório nem automático, tem uma série de armadilhas que riscam milhares de emigrantes dos cadernos eleitorais.

Se um emigrante chega a um país estrangeiro e declara a sua nova morada no seu consulado local, é riscado dos cadernos eleitorais em Portugal mas não inscrito nos cadernos do consulado. Se, já recenseado no seu consulado, mudar de morada – mesmo que continue na mesma cidade – é riscado dos cadernos eleitorais. Se aproveita uma ida a Portugal para atualizar o cartão de cidadão e indica aí uma morada portuguesa, é riscado automaticamente do caderno eleitoral do país onde reside e inscrito no da sua freguesia em Portugal.

Acresce que, na maioria dos casos, as pessoas não são sequer informadas da necessidade de se recensear, nem do facto de que uma mudança de morada implica a rasura dos cadernos eleitorais. Assim, o direito de voto de muitos emigrantes esfuma-se sem que as pessoas se dêem conta. Daí se explica que, dos cerca de dois milhões de portugueses que se estima viverem no estrangeiro, pouco mais de 240 mil estejam aí recenseados.

Não há justificação para o recenseamento eleitoral dos emigrantes ser tão rígido e complicado. Portugal coleciona louvores pelas suas inovações na área do e‑government. Se houvesse vontade política, seria facílimo instaurar procedimentos flexíveis de voto no estrangeiro – a começar pelo recenseamento automático.

A emigração tem aumentado à razão de mais de 100 mil pessoas por ano. Se estes portugueses tiveram pouco apoio, emprego ou atenção quando estavam em Portugal, ainda menos respeito recebem do Estado agora que saíram. A política dos partidos do centro é remeter à passividade e ao silêncio uma população emigrante ativa, empreendedora e capaz de contribuir para o desenvolvimento país, se for chamada a isso.

É fácil perceber quem ganha em silenciar os emigrantes: os resultados eleitorais nos círculos da diáspora – círculo “Europa” e “Fora da Europa” – não mudam desde 2002: o círculo Europa elege um deputado pelo PS e um pelo PSD; o círculo Fora da Europa elege dois deputados pelo PSD – e isto independentemente da conjuntura vivida em Portugal. Assim, o centrão tem na diáspora o que desejaria ter em todo o país: um eleitorado fixo e fiel e um sistema viciado, dirigido à sua clientela partidária. A última coisa que interessa ao PSD/CDS e ao PS é somar aos cadernos eleitorais da diáspora as centenas de milhar de pessoas que abandonaram Portugal nos últimos anos – muitas delas profundamente revoltadas e insatisfeitas com as atuais e recentes lideranças. Mais vale dificultar o recenseamento dos novos emigrantes e riscá-los da vida nacional.

Talvez seja por isso que, passando revista à atuação dos quatro deputados pela diáspora no Parlamento, não se encontre uma única intervenção ou iniciativa relacionada com a dificuldade de os emigrantes exercerem o seu direito ao voto.

Por isto, há quem chame aos emigrantes cidadãos de segunda. Mas para os partidos da desgovernação, somos ainda menos que isso: somos não-cidadãos. Pois o que vale um cidadão que não pode eleger os seus representantes?

Chegou a hora de dizer basta! Somos melhores do que isto. Face a uma democracia em estado asfixiante, é altura de afirmar a dignidade dos cidadãos contra uma cultura de cálculos eleitorais que nos diminui e envergonha. Todos nós, portugueses, merecemos o direito à palavra. E merecemos ser representados por quem leva o nosso direito de voto a sério.

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Mosaicos

Filinto Elísio

Os Condenados da Terra

O drama é maior e pode ser mais perigoso do que se apercebe. Põe, sorrateiramente, a Humanidade em tragédia. Em consequência, as nossas energias não podem ser diluídas em lágrimas. Não agora, nem ainda. Milhares de migrantes – para uns, mercê das perseguições e impossibilidades de vida; para outros, refugiados de guerra e mudanças climáticas -, todos em desespero, saem da África e do Oriente Médio à procura de porto seguro e de solidariedade internacional. O Mar Mediterrâneo tornou-se o grande cemitério para muitas vidas e o corredor de êxodo de seres humanos. A opinião pública mundial, a maior parte apanhada alienada ao problema, não sabe como gerir o problema. Faz lembrar, agora em movimento contrário, os milhões de europeus que, nos contextos da I e da II Guerras Mundiais, fugiam para as Américas e a África. De permeio, emergem preconceitos raciais e xenófobos, bem como falácias para estigmatizar os desamparados. Novos muros, mais insidiosos que de Berlim, tendam barrar os atuais deserdados da terra e cerrar as fronteiras. Se recuarmos no tempo (e na mitologia religiosa), vemos Moisés a conduzir o seu povo, fugindo ao cativeiro, rumo à Terra Prometida. E, agora que a ONU celebra seu Septuagésimo Aniversário, não procede apenas a reflexão sobre esta grande problemática global, mas a resolução clara e consequente, antes que tudo seja um novo Holocausto, de encontrar solução humanitária à questão. Não há tempo para pieguices isoladas e lágrimas seletivas na 90ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, a acontecer nos próximos dias.

Compañero Francisco

Agora, em tempo de Fim do Bloqueio e com a visita do Papa Francisco a Cuba, reaviva-me o livro de Frei Betto, “Fidel e a Religião”. Às tantas, numa das muitas entrevistas dadas pelo Timoneiro da Revolução Cubana a um dos ativistas da Teologia da Libertação, aprende-se quão revolucionário o Cristianismo Primitivo e assaz consequente a política do Pão e da Palavra, vaticinada por algumas passagens dos Evangelhos e disseminada pelas Comunidades Eclesiais de Base. Longe dos paramentos e das togas da Roma Antiga, transmigradas para o Vaticano e impregnadas nos pilares da Igreja, tais ensinamentos roçam à meditação, ao pacifismo e ao zen, ingredientes que reconfiguram a percepção que temos de Cristo, também, e sobretudo ele, messiânico. Naturalmente que não farei aqui apologia ao aparato dos poderes, cada um Leviatão ao seu modo, de Cuba, do Vaticano e/ou qualquer seja, com suas congruências e incongruentes, mas o Papa Francisco, distâncias à parte e respeito ressalvado, subverte, com as suas Sandálias de Pescador, o Monstro Globalitário e sua Espada de Dâmocles. Salve, Santo Padre, Compañero Francisco.

Gestão das Impossibilidades

José Maria Neves, autor do “Cabo Verde: Gestão das Impossibilidades”, é mais do que aquilo que dele se conhece. Diria que é muito mais do que aquilo que se depreende da figura pública que encarna. Líder no sentido lato da palavra, ele vai aos limites do que seu estatuto político-institucional (Primeiro-Ministro de Cabo Verde) permite. Trouxe-nos ele um livro desafiador e bem construído. Teorizando sobre o processo dialético do fazer das realidades improváveis cenários da esperança, a leitura desta obra nos suscita anteparos e meandros da agenda de transformação para o Desenvolvimento. Problematiza os desafios de realização, com denodo, do bem comum e de resguardo, com desassombro, da estabilidade democrática no processo histórico contemporâneo que vivemos. Um livro bem escrito (com engenho e arte de sedução da linguagem) que, por intelectiva, nos instiga a buscar (e a encontrar) espessuras novas desta paixão vigorosa que todos (independentemente das nossas convicções políticas e ideológicas) devotamos a Cabo Verde.

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Bom trabalho, Sónia Chan, por ter criado o paradoxo da década

Jason Chao (*)

O Gabinete para a Protecção de Dados Pessoais revelou no seu próprio relatório relativo a 2014 que concedeu autorização para a transmissão de “dados sensíveis” dos residentes de Macau – incluindo dados relativos à “visão do mundo” e a “convicções políticas” – entre a Direcção dos Serviços de Identificação e a Polícia Judiciária. Uma vez mais, Sónia Chan – que terá provavelmente autorizado a transmissão enquanto coordenadora do Gabinete para a Protecção de Dados Pessoais, em 2014 – conseguiu transformar com sucesso uma lei destinada a proteger os direitos humanos num instrumento agressivo contra o direito que cada um tem à sua própria privacidade.

O Gabinete para a Protecção de Dados Pessoais (GPDP) foi criado há quase uma década ao abrigo da Lei de Protecção de Dados Pessoais, um diploma que, por sua vez, teve maioritariamente por base a legislação relativa à protecção de dados pessoais então em vigor em Portugal. A lei portuguesa foi definida ao abrigo das directivas emanadas pela Comissão Europeia. Podemos dizer por isso, tal como o próprio GPDP reconhece frequentemente nas suas publicações, que a lei de protecção de dados pessoais tem as suas raízes na legislação europeia. O processamento de dados pessoais é escrupulosamente regulamentado no Ocidente porque a privacidade é considerada um direito fundamental.

O atropelo, por parte de Sónia Chan, de legislação que visa a protecção dos direitos humanos de forma a impedir que o Referendo Civil de 2014 se realizasse é um exemplo notório de uma violação flagrante dos direitos fundamentais dos residentes. De um ponto de vista puramente técnico, conseguir alcançar uma tal absurdidade não é fácil e Sónia Chan é uma das mentoras da façanha. São excepções raras, os episódios em que o Governo de Macau mostrou interesse genuíno na protecção dos direitos humanos.

A polícia tem legitimidade, desde que conte com a autorização da Polícia Judiciária, para obter pontualmente e em situações casuais, o nome dos líderes de uma dada associação. Caso existam suspeitas legítimas de que um crime tenha sido cometido, o acesso da polícia a “dados sensíveis” dos cidadãos poderá ser visto como justificado. A autorização concedida por Sónia Chan abre a base de dados da Direcção dos Serviços de Identificação e permite que a Polícia Judiciária conduza averiguações a seu bel-prazer. Além do mais, a autorização prevê que a Polícia Judiciária possa transferir dados para outras jurisdições. Permitir que os dados pessoais dos cidadãos da RAEM sejam potencialmente colocados ao alcance de governos estrangeiros – sendo que a autorização é dada por uma entidade governamental concebida para proteger a privacidade dos residentes –   dá azo ao que eu chamo o paradoxo da década no seio da administração pública de Macau.

Apesar de nas directivas europeias sobre a protecção de dados pessoais estar previsto o processamento de dados sensíveis com o objectivo de garantir a segurança pública e a segurança pessoal, custa-nos acreditar que a aplicação da lei por parte do Governo de Macau esteja ao nível dos parâmetros europeus. Tendo em conta o pavoroso registo do Executivo em termos de abuso de poder, há razoes para crer que a Polícia Judiciária use os dados sensíveis a que tem acesso para outros propósitos que não os de garantir única e estritamente a segurança pública. Recentemente partilhei com os jornalistas o meu ponto de vista de que a Polícia Judiciária poder ser considerada uma “polícia política”. Pelo que tenho visto ao longo dos últimos anos, agentes da Polícia Judiciária vestidos à paisana fazem questão de gravar as ocasiões nas quais os residentes de Macau falam à imprensa, apresentam um abaixo-assinado ou participam em seminários e palestras onde se debate o actual estado da governação. Uma tal prática não deixa de ser intrigante, uma vez que a Polícia Judiciária não é, e está longe de ser, um órgão de aconselhamento no que toca à definição das políticas públicas. Uma eventual explicação para tal comportamento é a de que, depois dos grandes protestos de Maio de 2014, a Polícia Judiciária reforçou os esforços feitos na detecção de sinais de descontentamento social que possam estar na origem de protestos de grande dimensão tendo por alvo quer o Governo Central, quer o Governo de Chui Sai On. Seria, porventura, uma forma de evitar futuros constrangimentos. Identificar as pessoas-chave associadas com tais movimentos pode ajudar o Executivo a neutralizar ameaças à sua auto-estima antes mesmo de algumas manifestações se materializarem. Estou certo que o acesso directo à “visão do mundo e as convicções políticas” dessas pessoas-chave torna mais eficazes as capacidades de vigilância da Polícia Judiciária.

Desde 2014, e graças a Sónia Chan, o Gabinete para a Protecção de Dados Pessoais associou-se à Polícia Judiciária para, de mãos dadas, ajudar a “manter a estabilidade”, (“weiwen 維隱”, no contexto do Governo Central), facilitando o trabalho da administração liderada por Chui Sai On.

(*) – activista político e vice-presidente da Associação Novo Macau. Escreve neste espaço uma vez por mês.

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Um não-assunto

[Depressão subtropical]

Maria Caetano

Poderá dizer-se que na questão dos direitos e regalias dos trabalhadores não-residentes em Macau estão já feitas todas a cabeças. Quem admite a actual diferenciação nas regras de acesso ao trabalho, e desvinculação deste, mobilidade, remuneração, e gozo do mecanismo de segurança social, não se vê na necessidade de procurar novos argumentos. Quem discorda, não precisa de mais argumentos para o fazer. Argumentar contra ou a favor parece tarefa arrumada por irrelevância ou falta de oportunidade na quase total ausência de debate sobre o assunto. Só assim se entende que, linhas lidas à distância, uma manifestação de agravo com o sector do trabalho doméstico – na sequência da morte de uma criança, no passado mês –, e respectiva contra-resposta pelos trabalhadores em causa em declarações públicas, tenham terminado na conclusão singela de que o que é preciso é regular melhor o trabalho das agências de recrutamento.

Não se desmente. Não só é preciso fazer aquilo que o Governo se propõe fazer desde há anos, como inclusivamente, de seguida, fiscalizar consequentemente contra passaportes apreendidos, comissões escandalosas e defraudação desavergonhada de expectativas de trabalhadores ou empregadores. Curiosamente, porém, houve mais agilidade na criação de normas para limitar, e penalizar, a tentativa de mudança de emprego por parte dos trabalhadores não-residentes. E o assunto pôs-se prestes a morrer por aí.

Para quem acredite que a acção das agências de emprego vai mesmo ser contida nos atropelos e de seguida vigiada, boa sorte na espera. Desde logo porque a parte mais lesada, os trabalhadores, tem zero peso público – lugar algum na concertação social que decide as normas pelas quais se rege o seu trabalho e, por outro lado, a impossibilidade de constituir os mecanismos institucionais de diálogo que são privilegiados na sociedade de Macau: as associações. Tal como nas relações de trabalho, também nas relações públicas os trabalhadores não-residentes estão absolutamente dependentes das iniciativas de residentes. Residentes cujo grande sentimento geral se continua a traduzir na ideia de que o não-residente é uma ameaça – e, aparentemente, cada vez mais. Quando não, e em casos individuais, é visto como um indivíduo desvalido que cumpre apoiar casuisticamente nas acções da – ainda – chamada caridade. A palavra não é o menos, porque a beneficência parece à primeira vista dirigida aos destituídos residentes, e a solidariedade a chamadas nacionais ou internacionais perante grandes catástrofes – sem ciência nenhuma, mas valeria a pena interessarmo-nos por isto como curiosidade.

Do mesmo modo, muitos patronos do trabalho doméstico retiram prazer de afirmar que pagam acima de qualquer mínimo miserável – instituído como referência orientadora pela Administração de Macau. E não raramente podemos ouvir este orgulho conjugado com um pronome possessivo – o meu, a minha. Sucede que não há patrões, há patronos (sponsors), pessoas livres a quem na Roma antiga se vinculavam os escravos, numa definição de algibeira que não anda muito longe da verdade.

E se por um lado não há voz pública ou canais de diálogo reais alguns para que os trabalhadores não-residentes façam ouvir eventuais reivindicações, todas as condições efectivas garantem motivações para que, caso tivessem voz, não se quisesse atendê-los. A dependência, primeiro, e ausência de opções – no país de origem e em Macau – tornam-nos mão-de-obra barata, numerosa e facilmente afecta a áreas pouco qualificadas onde há necessidades crescentes e falta de candidatos. Por que razão se há-de querer equilibrar o tabuleiro quando se está do lado que é largamente beneficiado? Quem faz as regras não joga por elas.

A verdade é que Macau anda a contratar com meia sociedade de Macau as regras que impõe à outra metade, sendo que a atribuição de residência parece menos hoje uma afirmação de garantias do que o seu negativo – a negação de garantias a quem é não-residente. É afinal um mecanismo de restrição de direitos e garantias que afecta uma fatia cada vez mais larga da população que vive e trabalha na região. E isso é uma injustiça, e uma anomalia, que vale a pena, no mínimo, debater.

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Lições europeias

As próximas linhas versarão sobre um assunto que está longe, muito longe, do dia-a-dia do leitor mas que, em Portugal e na Europa, tem suscitado um amplo debate no seio das opiniões públicas – e publicadas.

Este texto mais não é, pois, do que um contributo adicional para essa expressão.

São milhares aqueles que, desde o início de 2015, cruzaram as fronteiras politicas e geográficas da União Europeia provenientes, na sua maioria, da Síria e do Afeganistão.

Mas também da Líbia, do Sudão, da Eritreia e de outros países de África.

Atravessando o Mediterrâneo ou países como a Turquia, a Grécia, a Macedónia, a Sérvia, a Hungria, fogem da guerra, da fome, da pobreza, enfim, da miséria.

Não é por acaso que, segundo a Amnistia Internacional, nunca o mundo conheceu uma tão grande ‘vaga’ de deslocados e refugiados desde o fim, há 70 anos, da Segunda Guerra Mundial.

O destino?

Uma terra que lhes dê – e aos seus filhos –, desde logo, abrigo.

Mas também segurança, trabalho, dignidade.

Ou, numa só palavra: futuro.

No entanto, a Europa parece, uma vez mais, ter sido apanhada de surpresa: a construção de muros com arame farpado, o reforço policial em locais ‘chave’ como postos fronteiriços, o estabelecimento de quotas referentes ao número de pessoas a ser acolhido por cada país da União…

Na verdade, tais medidas lembrarão o sentimento que moveu alguns senhores, na chamada Idade Média europeia, a construírem castelos, quais fortalezas, totalmente rodeados por fossos com água.

Com esses fossos cheios de água pensavam ser possível deter os indesejáveis.

Também a Europa de hoje, em 2015, pensará ser possível impedir a entrada, não já de soldados inimigos, por exemplo, mas de migrantes e de refugiados.

Puro engano.

No entanto, apesar de toda esta tragédia humana, quem quer que visse, há pouquíssimos dias, os blocos noticiosos da maioria dos canais televisivos portugueses poderia notar o facto de, com poucos minutos de diferença, serem, também, emitidas peças dando conta da transferência do jogador de futebol X para o clube Y por não sei quantos milhões de euros.

Repare-se que não critico o alinhamento de tais trabalhos jornalísticos e reconheço que a vida dos homens não é “preenchida”, claro, por apenas um assunto, se se quiser chamar assim.

Critico, sim, e acho, até, obsceno, o facto de que a mesma Europa que condena à morte centenas ou milhares de pessoas (recorde-se que o Mediterrâneo se tornou já o cemitério para muitas delas) que cometeram, apenas e só, um único ‘crime’ – encarar o Velho Continente como uma terra de prosperidade (chame-se-lhe o sonho europeu), hipervaloriza alguns jogadores do ‘desporto-rei’ (tratando-os, assim, como mera mercadoria) e permite que o futebol seja, cada vez mais, um negócio de (muitos) milhões em que uma qualquer ausência de documentação levará, no pior dos casos, à inviabilidade de um contrato.

Ricardo Jorge Pereira

Antropólogo e investigador

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