“Animal Farm”

1. MarreirosEncontro-me no estrangeiro em serviço, por isso não estou a par de todos os pormenores relacionados com a questão da PCU relativa à Escola Portuguesa de Macau. Todavia, deu para perceber que a montanha pariu um ratinho enfezado. Tanta peritagem, tanto conselho, tanta inteligência, tanto patois para 1,50 M de raciocínio. Curtíssimo, claro. 

O meu colega Rui Leão está no Conselho para dar a sua opinião, se a sua opinião vale ou não a pena é outra questão. Não vou perder um segundo com isso. O Conselho, Macau, a Educação, as crianças e as Comunidades é que vão perder muitos meses com o que a referida opinião vai gerar ou já gerou. 

Os membros dos diversos Conselhos devem dar a sua opinião, mas também devem ser responsabilizados pelas mesmas. Ou seja, uma opinião que vale o que vale, ao prejudicar interesses colectivos prioritários, duas palavras que podem afectar centenas de famílias ou interesses superiores da vida da RAEM, merecem reflexão, ou melhor, rejeição. Porque uma opinião imponderada gera prejuízos irrecuperáveis. E é mais uma vez um português a dar um tiro no pé. Quê grande pé é esse, esburacado de tantos tiros que levou. Um queijo fedorento. É caso para se dizer que com portugueses desses bem podem contar com o pé fedê do “Amor e Dedinhos de Pés”. 

A DSSOPT vai estudar a questão dada a sua complexidade. Complexidade é que opiniões são livres como as asneiras, pois, não tem limites. A asneira é livre e associada a burocratas, cuja designação devia ser escrita com 3 érres de burro, é que criam complexidade em coisas que são simples. E desgraçamo-nos a vida de todos porque nada anda, tudo é caçado na teia kafkiana da burrrocracia. E se Macau não fosse Terra de Flor de Lotus há alguns anos que já estaria venezuelizada, de rastos com os burrrocratas que temos. Felizmente, é que vai havendo esperança que isso, em breve, acabará. 

Eu, por mim, vou aguardar olimpicamente, pelo parecer da DSSOPT, para fazer cumprir os regulamentos e festejar as glórias dos burrrocratas e dos opinadorzecos da praça. Enquanto aguardo budicamente, sugiro àqueles que leiam o “Animal Farm” do George Orwell, para compreenderem como um suíno chega a general.

 

Carlos Marreiros

Arquitecto

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MAIS ALÉM E… MAIS FUNDO

 O Evangelho do Domingo passado, neste caso o Vigésimo Sétimo do Ano Litúrgico, lança-nos para horizontes de vida que estão para além dos critérios imediatos, habituais e comuns de encarar a nossa vivência diária. Primeiro, quando apresenta Jesus Cristo a proclamar: «Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: ‘Arranca- te daí e vai plantar-te no mar’, e ela obedecer-vos-ia.» Segundo, quando, pouco depois, o mesmo Jesus aconselha a todos, quando acabada uma obra, a dizer:  «Somos servos inúteis: ‘fizemos o que devíamos fazer.’» Tais frases correspondem, na verdade, a duas posturas possíveis do ser humano, homem ou mulher, perante si mesmo. Aparentemente, muito diferentes e parecendo até quase  antagónicas, elas, porém, complementam-se à perfeição. 

 A postura inicial afirma que o homem ou a mulher de fé podem realizar coisas extraordinárias, inconcebíveis e inimagináveis. Ela parece dizer que a capacidade criativa do ser humano quase não tem limites. As suas aspirações contêm algo de divino. Assim se podem entender as palavras do Senhor Jesus quando afirma que aqueles que têm fé são capazes não só de transplantar árvores para o mar como também de mover montanhas. O homem ou a mulher de fé, humana e espiritualmente falando, podem fazer maravilhas.

A segunda, ao invés, faz um apelo radical à atitude de humildade que toda e qualquer pessoa deve manter sempre nas as suas realizações, por mais originais e portentosas  que sejam. Na nossa actuação há que ter um cuidado particular e atento para não cair na inclinação sempre muito forte da natureza humana à vaidade, ao orgulho e à dependência do louvor e elogio dos outros. A visão narcisística de nós mesmos leva-nos a perder o sentido do Outro, e o dito ‘Serviço aos Outros’ acaba por não passar de uma ‘máscara’ que camufla ou esconde um coração dominado pelo egoísmo.

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O Evangelho deste próximo Domingo, o Vigésimo Oitavo, parece continuar a análise do ser humano, abordando concretamente a questão da necessidade dele  caminhar constantemente para uma maior consciência de si mesmo e vir a alcançar um conhecimento bem mais objectivo da sua pessoa, por outras palavras, conhecer-se a si mesmo. Diz o texto da Escritura: «Vieram ao seu encontro dez leprosos. Conservando-se à distância, disseram em alta voz: ’Jesus Mestre, tem compaixão de nós’… Um deles, ao ver-se curado, voltou atrás, glorificando a Deus em alta voz, e prostrou-se de rosto em terra aos pés de Jessus, para lhe agradecer.»

Assim, através dum «Samaritano» agradecido, em flagrante contraste com a atitude daqueles que nem sequer apareceram a manifestar a sua gratidão a Jesus pela cura, podemos entender quanto é importante na vida ter consciência e conhecimento de tudo quanto sucede na nossa existência, o bem e o mal, o positivo e o negativo, o perfeito e o imperfeito, a qualidade e o defeito, o dom e a insuficiência, o limite… Caso contrário, quanto alheios da realidade podemos andar! Não captamos nem o que sucede no interior de nós mesmos nem à nossa volta, nos Outros e no Mundo. Perdemos até, e dramaticamente, o sentido Deus. 

Aqui chegados, triste e penoso, é ainda verificar que não conseguir  reconhecer devidamente mesmo os próprios dons, graças ou favores recebidos, tal como aconteceu com os nove leprosos da narração evangélica, se torna deveras frequente entre as pessoas na Sociedade actual. Tantos não sabem saborear as coisas boas da vida! Sempre prontos a recitar, de preferência, a ladainha dos seus infortúnios e o rosário das suas lamentações. Não são capazes de tomar esses momentos de profunda alegria e ‘consolação’ como situações previlegiadas para confortar e fortalecer nos momentos de ‘desolação’ vindouros, que, dentro de pouco tempo, lhes baterão à porta. 

Ou, então, também acontece. Inebriados pela satisfação imediata do bem sucedido, embalam nas sensações agradáveis imediatas, mas superficiais, em vez de ‘ponderar nos seus corações’ o acontecido, de modo a encontrar aí a energia revigorante para enfrentar, com coragem e criatividade, o momento difícil que, em breve, se apresentará.

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A Humanidade, que entrou já no Terceiro Milénio, carece urgentemente de Homens e Mulheres cheios de Fé, Coragem e Confiança no Futuro, para aceitar os imensos desafios que se lhe apresenta. 

A Sociedade Contemporânea precisa de Homens e Mulheres capazes de escolher o Caminho de Humildade para encontrar soluções que respondam à Angústia Existencial do Ser Humano e da Natureza.

O Ser Humano geme e clama na profundidade do seu íntimo por Homens e Mulheres capazes de o conduzir ao conhecimento da sua Existência e da sua Essência e a discernir os sinais de um Mundo Melhor.

O Ser Humano procura Homens e  Mulheres com o dom de o conduzir ao Conhecimento, ao Encontro e à Intimidade de Deus, na consciência e na certeza de ter sido verdadeiramente criado por Deus, por Ele chamado a viver com os Outros e estar aberto à realidade que o circunda, o Cosmos.

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus de Macau

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DUAS MÃOS E DOIS CARTAZES: liberdade de expressão sem aviso prévio

Jorge Menezes-Eduardo MartinsAs declarações do Secretário para a Segurança de que duas estudantes do IFT que exibiram cartazes de solidariedade com Hong Kong cometeram crime de manifestação ilegal é insensata e assustadora. Para além de descaracterizar e maltratar o direito de manifestação, denega a liberdade de expressão e o direito de participação cívica, fundamentais numa sociedade livre. 

Considerar que duas estudantes e um par de cartazes fazem uma manifestação, usando regras desenhadas para proteger este direito a fim de o aniquilar e punir, constitui um desvirtuamento ou, no mínimo, uma fraude à lei, virando-a do avesso a fim de obter um resultado contrário àquele que ela foi feita para assegurar. 

A manifestação distingue-se da liberdade de expressão, antes de mais, pelo uso de meios de expressão intromissivos em relação a terceiros. Daí admitir-se a figura do ‘manifestante solitário’ no caso do uso de altifalante. A distribuição de panfletos, como a exibição de um cartaz, cai no âmbito da liberdade de expressão, não constituindo uma manifestação. 

É da natureza de qualquer manifestação lícita afectar, ou mesmo prejudicar, terceiros, que terão de a suportar. Tal ocorre, normalmente, por ser um direito individual tipicamente exercido de forma colectiva: as manifestações tendem a afectar terceiros desde logo pelo facto de levarem muitas pessoas à rua. Por isso, o número releva.

Se não importunasse ninguém, o direito de manifestação não necessitaria de protecção específica na Lei Básica, bastaria mencionar a liberdade de expressão. 

A conduta das estudantes – cujos cartazes não faziam barulho, nem obstruíam o trânsito – é um caso emblemático de liberdade de expressão e direito à crítica, usando um meio de exteriorização de natureza não intromissiva, sem qualquer impacto negativo nos direitos de terceiros. Por isso, não foi uma manifestação. 

Nem nunca seria permitido fazer uso das restrições excepcionais admitidas na lei das reuniões e manifestações para proteger terceiros de acções que “perturbem grave e efectivamente” os seus direitos. Um par de cartazes não paralisa o trânsito, não acorda doentes, não pára ambulâncias, não afecta interesses legítimos de ninguém. Pelo contrário, agita o pensamento, estimula o espírito crítico, provoca o debate de ideias. 

Todavia, mesmo para os casos reais de manifestação, a lei adverte que esse direito é exercido “sem necessidade de qualquer autorização” (errou por isso, e muito, o Dr. Rui Cunha ao defender que “quem quer fazer manifestações tem de pedir autorizações”). Basta avisar, informar. Mas não para que a polícia autorize ou proíba, o que só excepcionalmente poderia suceder. A finalidade é obter a cooperação da polícia com os manifestantes para assegurar que possam exercer o seu direito, minimizando os inconvenientes dele decorrentes.  

A diferença é grande: enquanto um direito que dependa de autorização não pode ser exercido na falta dela, direito que dependa de aviso pode. O que não precisa de autorização pode ser livremente praticado (sem prejuízo do direito penal). 

Tratar o aviso como uma autorização atraiçoa a lei e não denota muita rectidão intelectual. Basta ler o Diário da Assembleia Legislativa de aprovação da lei para vermos quão estruturante foi a vontade política de rejeitar um regime de autorização. Por isso, é errada a ideia de que uma manifestação sem aviso prévio é ilegal e participar nela é crime. 

Para além de ser óbvio que manifestações instantâneas não necessitam de aviso prévio (o que foi garantido pela própria Presidente da AL), a posição mais sensata é a de que o aviso só é exigível quando se prevê que possa afectar direitos de terceiros. Se uns quantos amigos combinarem reunir-se no Jardim Luís de Camões para discutir a nova lei do jogo têm de avisar o comandante da PSP três dias úteis antes e por escrito? O Secretário para a Segurança acha que sim…

Acresce que, nos termos da lei, a polícia só pode interromper manifestações que (i) não tenham sido objecto de aviso e (ii) sejam “para fins contrários à lei”. Tratando-se de requisitos cumulativos, a polícia não pode interromper manifestações por faltar aviso. Polícia que o fizer, diz a lei, comete o crime de abuso de poder.

Se não pode ser interrompida e pode realizar-se, não pode ser crime manifestação sem aviso. Doutro modo, teríamos a situação sem par de criminalizar aquilo que a lei deixa que se faça. 

Há, infelizmente, decisões judiciais que punem manifestações sem aviso. Mas é uma visão errada. Basta pôr a lógica a rolar: se a lei não deixa a polícia interromper, não se pode punir quem faça o que a lei permite que se faça. Actos lícitos não podem ser crime. 

E faz sentido que assim seja. Se manifestação é um direito fundamental que não depende de autorização de ninguém, seria um contra-senso valorativo punir a falta de aviso. Seria empurrar pela janela adentro o que a lei não deixa entrar pela porta, transformando aviso em autorização. 

Como escreveu o Professor Sérvulo Correia, o aviso é um “mero requisito de ordem procedimental”, “não constitui requisito de licitude”. Por isso, conclui, manifestação sem aviso é lícita, não pode ser interrompida (salvo se forem violados gravemente direitos de terceiros), nem é crime. 

Mas nada disto se aplica às duas corajosas estudantes que levantaram a ‘voz’, numa sociedade em que a academia pouco se ouve. Fizeram uso da liberdade de expressão e do direito de participação cívica: não foi uma manifestação, não era preciso dar aviso, não poderia ser proibida ou interrompida, nem, em caso algum, seria crime. 

Uma sociedade em que as autoridades ameaçam entrar em universidades para retirar cartazes das mãos de estudantes e os enredar em processos crime por falta de aviso, não é uma sociedade verdadeiramente livre. O exercício da liberdade de expressão não depende de aviso, muito menos de autorização. É aterradora a visão de uma sociedade que assim não seja.

E quando o governo anuncia que cometeram um crime, mas não as processará, bate no fundo da moralidade política: invoca abusivamente o direito penal, sem o querer usar, amordaçando a população.  

As autoridades, enamoradas pelo seu peculiar conceito de ordem pública, vêm atropelando direitos e liberdades fundamentais. Travestem vozes isoladas em ‘manifestações’, fazendo depender o próprio exercício da liberdade de expressão de aviso prévio, o que, nas mãos desta polícia, significa sujeição a autorização. 

Que ninguém se deixe enganar, mais do que o direito de manifestação, o objectivo é ir asfixiando a liberdade de expressão. 

Parece mesmo haver quem ache ser necessário dar aviso prévio para andar na rua com um autocolante ao peito… 

Rotular activistas de criminosos e extremistas é um desejo atávico de governos assustados e com tiques autoritários. Macau merecia melhor: que os governantes não violassem a Lei Básica e promovessem – não silenciassem – a participação cívica e o debate público. 

Jorge Menezes

Advogado

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Os acontecimentos de Hong Kong: Depois do genuíno vem a incerteza

A onda de contestação que assistimos em Hong Kong tem, como em muitas situações, um prelúdio genuíno de tomada de consciência por parte da sua população, essencialmente das novas gerações, das ameaças ao seu “modo de vida” instalado, legitimado a simpatia e aderência por parte do mundo inteiro por quem também se revê na necessidade de fazer ouvir a “voz dos povos”.

A questão central que se coloca nos chamados movimentos espontâneos emergentes da sociedade civil, remetem-nos, ou fazem-nos recordar as teorias da ciência política em torno da chamada tomada do poder, onde sem dúvida a “velha” máxima de Marx de que, sem um aparelho organizado (na sua acepção um partido politico), tudo se esfuma nas intenções, ao que parece ainda está actualizada.

A legitimidade do movimento popular que se verificou em Hong Kong para contestar a lei da extradição, mesmo tendo como consequência a exigência da demissão da chefe do executivo Carrie Lam como governadora da Região encaixa na plenitude da contestação, daí o seu sucesso ao nível das massas e da multidão, tema muito bem explorado quer na obra de Ortega y Gasset, «A rebelião das massas» (1929) que teoriza a submissão do individual ao colectivo (o “homem massa”), quer na perspectiva de Gustave Le Bon que incorpora o comportamento individual em situações de multidão através da sua obra «Psicologia das multidões» (1895).

Assim, o fenómeno de Hong Kong pode ser enquadrado no domínio dos movimentos que são contagiados pela razão e necessidade da contestação colectiva que acalenta as mentes para aderirem espontaneamente a uma causa aparentemente genuína que se transforma numa manifestação publica e se propaga sem controlo, tudo acontece a partir de um caso, mesmo que desenquadrado, que se torna numa “faísca” que se alarga porque, no seu intimo as populações se sentem ameaçadas.

A demonstração da população de Hong Kong foi de facto uma lição para o mundo no que toca a salvaguardar os seus legítimos interesses e fazer prevalecer a “voz dos povos” contra a imposição do poder legitimado, mesmo que esse poder se chame “Pequim”, daí a simpatia que causou pelo mundo fora, não tanto por pôr em causa o poder da China, que muitos veriam com bons olhos a fragilizar perante esta situação mas, mais por se enquadrar na velha metáfora de “David e Golias”, todos nós gostamos de uma história em que os mais fracos também podem vencer.

Por essa razão, é de louvar os jovens de Hong Kong que tão bem souberam resistir e conduzir uma “luta desigual” levando a razão a prevalecer e demonstrando ao mundo que ainda é possível fazer ouvir a “voz do povo” perante situações de abuso do poder, o que pode implicar, ou não, a necessidade da tomada (substituição) do poder.

Ora é precisamente neste contexto que entramos na fase da incerteza, quais são de facto os desígnios das lideranças que assumiram esta contestação? Forçar a queda do executivo e retirar a lei da extradição, ou pelo contrário acalentar a autonomia da região numa lógica de separação da soberania chinesa, ou seja, numa óptica mais independentista.

Voltemos então ao primado marxista da possibilidade de haver, ou não, um aparelho alternativo pronto para a tomada do poder.

Se a ultima versão for a estratégia encapotada pelos líderes do movimento, será provavelmente possível dizer que a mesma tenha como base alguma interferência de vários interesses estrangeiros, ou mesmo de grupos nacionais que contestam Pequim, o que confirmaria que esta sublevação, ainda em curso, estaria a ser apoiada por forma a retirar benefícios da ruptura com o poder da Republica Popular da China, preparando uma alternativa para se instalar no poder.

Porém a situação não é tão líquida, daí a incerteza do momento. Podemos apenas estar a assistir a uma galvanização do reforço da Lei Básica mantendo os pressupostos da realidade de Hong Kong integrada nos grandes desígnios que a China vai tecendo e quiçá estarem a contribuir para uma reforma sustentada, equilibrada e localizada de um novo paradigma que contaminará e envolverá Macau e outras regiões da Região do Delta Rio das Pérolas na sua nova versão da Grande Baía. Razão talvez para acreditarmos que pode prevalecer o “bom senso”.

 

 

Carlos Piteira

Investigador do Instituto do Oriente

Docente do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas / Universidade de Lisboa

 

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LÁZARO… O POBRE

É a parábola que nos é narrada por Jesus Cristo no Evangelho deste próximo Domingo do Ano Litúrgico, o Vigésimo Sexto: «Havia um homem rico, que se vestia de púrpura e linho fino e se banqueteava esplendidamente todos os dias. Um pobre, chamado Lázaro, jazia junto do seu portão, coberto de chagas. Bem desejava ele  saciar-se do que caía da mesa do rico, mas até os cães vinham lamber-lhe as chagas».

Numa visão mais global da Humanidade, chegamos à conclusão de que a história contada por Jesus acaba por ser, na sua simplicidade, uma descrição dramática daquilo que se passa, hoje, entre os povos. Os países de enorme abundância em bens materiais e riqueza  gozam a vida com todas as facilidades até ao esbanjamento, enquanto aqueles muitos outros rastejam, cobertos endemicamente,  por dívidas que são como chagas que parecem nunca mais chegam a sarar . Comtemplemos todos aqueles que, às portas da Europa e atrás das vedações metálicas da América do Norte, procuram satisfazer as necessidades básicas, encontrar melhores condições de vida e conseguir, pela educação e formação,  alcançar a construção dum mundo  mais verdadeiro, justo e harmonioso.  Estes factos tão difíceis de compreender são notícia constante nos Meios de Comunicação Social. Se isto não bastasse, assistimos, dias atrás no areópago das Nações Unidas, a um presidente, tal rico nababo da parábola,  proclamar um discurso onde sobressaem apenas palavras de auto-elogio: somos ‘os mais ricos’, somos ‘os maiores’, somos ‘os mais poderosos’…. Ficámos quase petrificados!  Entretanto, não longe  do prestigioso Auditório,  a pequena e frágil Gerta,  deixava rolar dos seus olhos…  lágrimas de profunda tristeza…

 

O paralelismo entre a metáfora  evangélica e a sociedade contemporânea  é de tal ordem que nos permite cair na conta também de diversos outros aspectos de extrema importância para o desenvolvimento e progresso da Humanidade actual que, caso contrário, seriam postos de parte, acabando, consequentemente, por ser completamente esquecidos.

Uma questão fundamental que a narrativa de Lázaro, o pobre  nos coloca de imediato diz respeito ao sentido da vida. A vida nesta terra, neste mundo  terrestre, deve ser vivida sem carácter definitivo, totalitário e único. Tudo é passageiro, quer queiramos quer não. Nus nascemos, nus morremos. Os ricos ou aqueles com a obsessão de que ter muito é que faz a felicidade, vivem numa constante insatisfação, caem facilmente na desilusão e afundam-se, tarde o cedo, na depressão, e, por fim, entram na angústia, a caminho do desespero. O rico desta parábola compraz-se e refastela-se em banquetes lautos todos os dias. O outro rico, numa outra circunstância, descansa a sua alma por ter os celeiros a abarrotar. A ambos o Senhor Jesus, o Mestre, chama com toda a firmeza: Insensatos!

A  Mensagem de Cristo é cristalina. Somos chamados continuamente a ser bons administradores dos bens da criação e da Humanidade. Porém, somos igualmente chamados a ter um coração livre perante os bens terrenos e coisas materiais. Jesus Cristo insiste, com a vida e com as palavras: «Procurai as coisas do alto…».

Uma segunda questão está ligada àquele pedido do homem rico para que o Pai Abraão  enviasse Lázaro à Terra, à casa da família para que todos mudassem o seu estilo de vida. É uma piedosa inclinação, sim. Mas não  passa de um engano muito falacioso e subtil. A verdadeira transformação parte sempre de dentro da própria pessoa. Os acontecimentos ou as pessoas podem facilitar ou complicar a mudança, é verdade. Contudo, sem a vontade pessoal nada é consistente no comportamento da pessoa e a transformação não se efectuará. Com um pouco de ironia, afirmo que mesmo  que os mortos ressuscitassem, na verdade e na profundidade do seu ser  a pessoa não se transformaria. Passados uns tempos,  tudo voltaria ao mesmo.

 

O Mundo moderno encontra-se numa grande encruzilhada, cujas respostas ou  caminhos pelos quais a Humanidade se irá decidir terão repercussão não só no nosso futuro que se apresenta  diante de nós, mas também na nossa Civilização.

Diria que o nosso futuro e o futuro da nossa Civilização do Terceiro Milénio deixam transparecer a importância capital de reflectir sobre três tipos de assuntos: o Homem, a Natureza, e Deus.

O Homem continua a manifestar uma tremenda dificuldade em entrar no mais íntimo de si mesmo. De conhecer a profundidade do seu ser, na linha de pensamento do filósofo Sócrates: «Conhece-te a ti mesmo.» Não é uma brincadeira a  pergunta, no seu sentido mais metafísico, o que é, hoje,  ‘ser Homem’ ‘ser Mulher’, o que é a ‘Família’, o ’Amor’…?

A Criação,  que significa a revolta da Natureza nos céus, nos oceanos, no centro da terra…?

Porque teima a Sociedade moderna, porque é que a nossa Humanidade hodierna insiste pôr Deus sempre fora da sua Vida?

 

Luís Sequeira

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António no País das Maravilhas

Cumpriu-se o ritual das férias. Julho e Agosto apagaram-se. Setembro está a meio e com o rolar dos dias, Outubro bater-nos-á à porta. As escolas há muito que reabriram e tu não voltaste. Tive notícias de que partiste definitivamente deste País das Maravilhas.

O país dos encantos que maravilham todos que por cá passaram ou moram, o país das riquezas que invejam os povos vizinhos, o país de sonhos semelhante ao que encantou Alice. Porém, o resultado não foi tão espectacular como se especula pois, que eu saiba, a menina não mais aí retornou. E tu, António, não tencionas mesmo, voltar a esta terra? A decisão é definitiva? Vou ficarei sem o espectador mais atencioso dos meus concertos de pi-pa? 

O Coelho Branco apressado, vestido a preceito, enfiado num fato de três peças que consulta as horas no relógio permanentemente fora do bolso do colete não despertou a tua curiosidade? Ah, já andaste e correste atrás dele sem nunca conseguir alcançá-lo… Bem me parecia, não te nasceram asas de vento. Desististe de rodopiar sem norte, apesar do sentido horário das agulhas do mostrador, a uma velocidade mais elevada que os seus ponteiros e voar contra o tufão do tempo porque a tempestade não era só de vento e chuva pois a enxurrada trouxera para as ruas multidões de gente alvoroçada, de um linguajar estranho aos teus ouvidos. Perturbaram o teu zen!

Numa paragem para tomar ar e refrescar a alma, num local mais ermo e em horas sossegadas do alvorecer, encontraste a Lagarta. Ela estava sentada, refastelada em cima do cogumelo, a tomar banhos do sol que nascia de parto lento, narcotizada pelo fumo do narguile. Partilhaste com ela o vício deste cachimbo oriental e as baforadas de nuvens de fumo também inebriaram a tua mente. Aposto que ela te desvendou alguns mistérios e te revelou as transformações da urbe, dos edifícios que cresceriam obstruindo a brisa que sopra da Baía da Praia Grande e de outras alterações tão fantásticas que te levaram ao descrédito. Ficaste desconfiado que fumavas haxixe ou outra substância psicótica porque o barulho das luzes e a confusão dos ruídos destruía a harmonia do teu espaço lusitano. Pensavas que o País do Meio se manteria na virtude da mediania, mas afinal, ele superou o teu poeta que teve morada numa gruta do Jardim do Ninho das Pombas, na época em que a terra era miserável e o povo ia aos ovos dos ninhos. Dizia o cegueta que, com um só olho via melhor que muita gente de duas vistas que todo o mundo é composto de mudança. É natural que se mude mas há mudar e mudar, há progredir e desenvolver, o que se pressupõe que a evolução seja positiva, no sentido de alcançar todas as melhorias. 

Na mansão apalaçada situada na margem do Lago em Espelho, havia um escrito a tinta da china preta sobre papel de arroz transparente, em caligrafia chinesa artisticamente desenhada – Quantidade não é Qualidade. O Mordomo-Peixe quis pendurar o rolo no salão da Duquesa mas as suas barbatanas aguadas esborrataram a pintura. Os caracteres deixaram de ter leitura, os moradores perderam o sentido da frase. 

O Gato de Cheshire que habita a mansão lambeu os beiços, na perspectiva de um almoço grátis e sorriu de orelha a orelha, projectando as bochechas que tornaram seus olhos redondos numa linha ascendente de contentamento. Seus dentes alvos não deixaram de ser enigmáticos, seu sorriso escondia artifícios, ilusões e sombras de um teatro em campo aberto, numa noite de Verão onde o que parece não é e o que é está omisso. Depois, serviram-te café porque sabiam que tanto gostavas. Não posso – exclamaste mas eles não perceberam a tua admiração e num ápice trocaram de chávena e de bule e não te deram colher nem açúcar. Obedecendo às regras da boa educação, bebericaste a infusão – afinal, gostaste – mas a atitude do socialmente correcto que é orquestrado pela batuta do proveito próprio e na melhor das hipóteses pelo benefício mútuo, veio-te à memória. Sorriste, mas o sorriso morreu-te nos lábios sem se espraiar pelo areal dos minutos como espuma transparente. Pelo contrário, afundou-se na transbordante hipocrisia da convivência com a diversidade sem o aceitar. Pior que cego é quem não quer ver…

Mentiras e meias-verdades cabiam na cartola do Chapeleiro Louco. A tua mãe ensinou-te a não enfiares a cartola dos outros e para que não a desobedecesses, em nenhuma circunstância, gerou-te cabeçudo, de cabelos fartos, impossível de adequar a nenhum chapéu ou gorro de fabrico local. Há vantagens em ter a cabeça grande, sem ser cabeçudo. Esta premissa segue a lógica da minha amiga que quando começou a namorar, engordou porque tomava a pílula anticoncepcional mas vivia feliz porque tinha mais chiça e superfície corporal para o prazer. Assim, pressuponho que a tua massa encefálica seja maior que a média da população. Comprovou-se pelos teus actos e pensamentos, pelo teu exercício de cidadania. Por isso te admiro e me agrada tocar exclusivamente para ti, mesmo que a sala de espectáculos esteja esgotada. 

Numa imprescindível associação de ideias, compreendi porque pagando-te, a Rainha de Copas não te conseguiu fazer pintar de vermelho as rosas brancas do jardim e pelo facto te tenha condenado. Abuso de poder? Nada não – diriam os amigos brasileiros – tu, António não sabes apreciar a beleza do vermelho rutilante. Era justo que o exército formado pelas cartas do baralho te castigasse e te fizesse uma lavagem cerebral. Tortura não, somente uma mudança de telescópio para veres mais longe.

Pois é, António, estou triste. Perdi o teu convívio mas sei que enterraste um Excalibur que um Artur qualquer irá desenterrar e bramir. Que o use com inteligência e não faça dele uma arma de Muramasa. Por quanto tempo estará esta terra sob as brumas de Heong Shan? Poderá o nevoeiro ser dissipado pela conjunção da energia cósmica que envolve o céu e a terra e está contida na espada de Goujian?

Saudades da sempre amiga envolta na melodiosa harmonia do pi-pa 

Zhou Yun

 

Shee Va

Médico e escritor

 

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DINHEIRO… E O SER HUMANO ?

Um primeiro aspecto que chama a atenção no Evangelho deste Vigésimo Quinto Domingo do Ano Litúrgico, cujo texto poderemos intitular de «Um Administrador», é ver Jesus Cristo a abordar  criticamente a questão do dinheiro. E esta não é a única ocasião! Quantas vezes não fala Ele da Administração de bens, do Administrador e suas qualidades,  do cobrador de impostos, do fazer um bom ou mau negócio, da situação dos ricos e dos pobres e, por fim, lança até considerações a propósito de um ‘tesouro escondido’ e da existência de uma ‘pérola preciosa’ de altíssimo valor!

Se assim é, a Comunidade Cristã, a Assembleia dos que crêem em Jesus Cristo, homens e mulheres do nosso tempo, a Igreja, não se pode furtar a ter de encarar a problemática do uso de bens e riqueza e dos recursos naturais nem evitar,  por uma falsa Espiritualidade, tudo quanto diz respeito à economia e, acima de tudo, à teoria financeira que a sustenta. Descobre-se, cada vez com maior evidência, o que está por detrás do sistema financeiro actual. Os secretíssimos grupos e centros da alta finança  escondem com uma muito sofisticada cortina de fumo a imoralidade e a degradação que aí grassa. Os casos de corrupção, as mentiras e falsidades, os desvios e roubos nos grandes bancos surgem como avalanche que ninguém a consegue suster. Esta triste realidade avança poderosamente por todos os continentes, entre todos os povos, e não há país que escape incólume.

Agora, compreendo bem o grande filósofo e teólogo Bernard Lonergan, do século passado. Jesuíta de pensamento inovador e original, pouco conhecido no mundo latino, que na última fase da sua vida se dedicou intensamente ao estudo da Economia. Posição esta, talvez pouco conhecida ou até mesmo menosprezada e rejeitada, mas tão necessária para compreender o que está a acontecer na Sociedade actual. Com o endeusamento do dinheiro, da Economia, da Finança, estamos a ser conduzidos, lenta mas progressivamente, a uma situação que mais parece de destruição da Humanidade e da Natureza.

 «Não podeis servir a Deus (ao Homem) e ao Dinheiro», adverte muito categoricamente o Senhor Jesus, o Mestre, no fim do Seu discurso

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Procurando entrar um pouco mais no sentido das palavras do Senhor Jesus, tiram-se alguns ensinamentos. A realização plena e completa do ser humano não se alcança pelo possuir muitas coisas, «ter os celeiros a abarrotar» ou ser reconhecido entre os mais ricos pela Forbes Magazine.  Mais ainda, ninguém cresce no caminho da perfeição da sua Humanidade por ter uma fortuna bilionária. Há que não esquecer, todos morremos nus. Tudo cá deixamos. Isto, humanamente falando. Cristo Jesus, porém, dum ponto de vista mais sobrenatural, espiritual e religioso, aberto ao divino, esclarece, concluindo: « Nenhum servo pode servir dois senhores, porque, ou não gosta de um deles e estima o outro, ou se dedica a um ou despreza o outro. Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro». Todo o cristão tem de estar consciente desta Verdade: os bens materiais pertencem apenas a este Mundo terrestre que, por sinal, é também passageiro. Os bens eternos, como explica Jesus Cristo ao longo da Sua vida e na sua pregação, são de outra ordem, que, para os entender, implica que o ser humano esteja desapegado dos terrestres.

É com esta premissa que entendemos que os bens deste Mundo e a própria Natureza não são para ser possuídos, única e exclusivamente, por um pequeno grupo de consórcios, grupos financeiros ou países exploradores e dominadores. São para ser servidos, postos ao dispor de todos e para o bem comum, principalmente dos mais fracos, vulneráveis e desprotegidos.

Contudo, pelas situações que Jesus Cristo, Senhor e Mestre,  apresenta na gestão dos bens e pelos comentários que faz quanto às atitudes a serem tomadas pelos «administradores», percebe-se, antes de mais que o ser humano continua a ser o responsável privilegiado da Criação e da Humanidade que a ocupa.

 

Três pontos concretos,  porém, Ele releva na Sua  conversa que nos deixam estupefactos,  pela sua actualidade.

«Presta contas da tua administração…». Na nossa existência humana e numa Sociedade em que interacção se torna cada vez mais global, e, principalmente, se assiste a uma procura contínua duma administração mais correcta, rigorosa e eficaz, a avaliação da gestão administrativa e dos resultados obtidos impõe-se. Nessa ordem de ideias, cresce a prática individual do exame de consciência entre muitos, como via do seu aperfeiçoamento pessoal e, consequentemente, conseguir de igual modo melhores resultados na sua actividade.

Uma outra observação do Mestre faz cair na conta de que aqueles que receberam o dom da fé em Deus e  muitas outras graças, mais frequentemente do que se espera, não se mostram dignos de tal dom divino, e revelam-se uns autênticos desleixados e irresponsáveis. Cristo não perde a oportunidade e reage, indo  directo ao assunto: « De facto, os filhos deste mundo são mais espertos do que os filhos da luz, no trato com os seus semelhantes »

Por fim, ouvimos palavras de profunda sabedoria, humana e espiritual, no que se refere  à conduta humana: «Quem é fiel nas coisas pequenas também é fiel nas grandes; quem é injusto nas coisas pequenas também é injusto nas grandes».
Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus de Macau

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