O DESCONFORTO DA VERDADE

Quase escandalizam as palavras de Jesus Cristo, quando O ouvimos proclamar no Evangelho deste Domingo, o Vigésimo do Ano Litúrgico: «Pensais que Eu vim estabelecer a paz na terra? Não. Eu vos digo que vim trazer a divisão. A partir de agora, estarão cinco divididos numa casa: três contra dois e dois contra três. Estarão divididos o pai contra o filho e o filho contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra».

Mas ouve-se comentar que sempre se pregou que a Salvação que Cristo veio trazer à Terra é um anúncio de Paz, de Amor e de Harmonia entre os Homens e Mulheres de Boa Vontade! 

Este paradoxo, para não dizer mesmo esta contradição, é simplesmente uma aparência. Muito ao contrário dessa primeira possível conclusão,  a afirmação do Senhor revela, antes, algo bastante mais profundo da conduta humana. Dizer a Verdade, por vezes e incrivelmente, mais parece que se está a ir contra a Amizade, o Amor, porque provoca um enorme desconforto tanto naquele que nos escuta, o dito amigo ou amiga, como naquele que a afirma. Ao mesmo tempo e olhando as coisas de um modo complementar, há que ser bem claro. O Amor também nunca se concretizará escondendo, excluindo ou deixando de fora a Verdade. O Amor genuíno exige indubitavelmente a presença da Verdade. A Verdade, por seu lado e por si só, sem Compreensão e Amor, com muita frequência e muito facilmente,  perde aspectos da visão global da Verdade e redunda numa Injustiça. Eis a dinâmica intrínseca da relação entre Amor e Verdade

A Humanidade contemporânea geme dolorosamente à procura da supremacia da Verdade no Mundo. De facto, a realidade que estamos a viver nos tempos que correm apresenta-se  como uma verdadeira batalha campal entre Verdade e Mentira. Consequentemente, porque a ‘Gente da Mentira’, como apelidava Scott Peck, cresce em número e continua a dominar a geopolítica mundial,  não admira nada que não se consiga estancar o sangue que está a ser derramado por causa de tanta violência entre as nações. A falsidade perverte os corações. A maldade humana destrói a Harmonia e a Esperança dos Povos.     

 

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Voltando ao texto do Evangelho. 

A Verdade a que Jesus Cristo se refere aqui é a Verdade que nos convida a acreditar, em primeiro lugar, na existência de Deus Criador e Pai  e, em seguida, nEle próprio como o Filho de Deus encarnado na História Humana. Ele verdadeiro Deus e verdadeiro Homem.

Mais ainda. Torna-se exigência inquestionável de todo aquele ou aquela que acredita, colocar a Deus como centro da sua  orientação de vida e ser Cristo Jesus, o Caminho, Verdade e Vida da sua existência neste Mundo. Ele que é o Primeiro e o Último de toda a Criação. Ele, o divino, tornado modelo de toda a criatura humana.

O texto do Evangelho de São Lucas lança-nos para além do dizer ou não dizer a Verdade. As palavras do Mestre são mais exigentes. Chama-nos, acima de tudo, a que se viva essa a Verdade na Fé, com radicalidade e coerência. Porém, é o próprio Jesus Cristo que nos alerta para as dificuldades dessa mesma vivência, digamos agora cristã, quando nos encontramos  perante os outros.

O Senhor Jesus limita-se a dar um só exemplo de pessoas das nossas relações que podem tornar-se um obstáculo à nossa vida fé. Para espanto de muitos, talvez, Ele inúmera em primeiro lugar os nossos familiares mais chegados.  O Senhor declara, peremptoriamente, quem diria, os familiares mais íntimos. Pai, mãe filho, filha, sogra, nora, sogro, genro… e assim por diante irmãos, irmãs, tios, primos… 

Lembremos apenas. Quantos consagrados, padres ou madres, em que os seus pais faleceram sem nunca terem aceitado a opção dos filhos!  Alguns houve que tiveram de deixar as suas casas, diga-se fugir, sem a autorização dos pais ! Só um exemplo. Santo Estanislau Kostka,  polaco, que para entrar no Noviciado da Companhia de Jesus, , deixou, contra a vontade do pai, a casa, a família e o país. Partiu a pé… e a pé chegou a Roma.

Podemos dar muitas outras situações em que as pessoas são levadas a testemunhar a Verdade da sua Fé, mas aqueles que os acompanham deixam-nos envergonhados e temerosos e não se assumem. Umas vezes, são amigos da família, do bairro ou do desporto. Outras,  os companheiros do liceu, instituto, residência ou universidade. Outros ainda, são camaradas de trabalho ou serviço…

Surpreendentemente, casos acontecem em que aqueles que nos inibem na prática da nossa fé são os próprios membros da Comunidade Cristã. Há que reconhecer, com Verdade e Humildade, que existe muita inveja, competição e maledicência entre nós que vamos à Igreja, o Templo de Deus.

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus de Macau

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NO SEGREDO… MUITA COISA ACONTECE

Se, por um lado, aumenta inexoravelmente o número de ‘fugas de informação’ e dos tornados já tão famosos e habituais ‘leaks’, sempre acompanhados da questão ‘do direito à privacidade’; por outro, a descoberta da existência de tanta coisa imprópria, deplorável e imoral, trabalhada no segredo dos cubículos, saletas ou escritórios quer de empresas multinacionais,  de associações dos mais variados tipos ou de fundações ditas culturais e filantrópicas, quer ainda em departamentos ou instituições do governo, torna-se um acontecimento, quase diário neste Mundo onde existimos

É perante esta realidade presente e chocante que me inclino sobre as palavras do Evangelho deste Décimo Nono Domingo do Ano Litúrgico.  Parece-me haver aí uma chamada vigorosa a desafiar o modo de estar e viver da Sociedade actual. Ousaria dizer até, a querer provocar desconforto e incómodo na consciência de todos.

O homem e mulher do começo deste Século XXI, sobretudo os adultos, têm uma necessidade existencial de se debruçar sobre si mesmos, fazer um ‘Caminho Interior’ e entrar e compreender o que se está a passar no seu íntimo. Estão acontecer coisas terríveis na nossa Humanidade. Que valores nos guiam? É o Bem Estar dos Povos ou a ganância do lucro? É a Harmonia entre todos ou a exploração de milhões por muito poucos? Verificamos atrozmente que um muito pequeno grupo de privilegiados se  aproveita, a seu bel prazer, das riquezas do globo, enquanto outros às centenas de milhares têm de imigrar constantemente à procura de comer, beber, trabalho e casa para dormir e acolher a sua família. E a espiral de violência, como força centrífuga que não pára! Os focos de guerra surgem pelo globo como bolhas sulfúricas na cratera dalgum vulcão adormecido. Os tiroteios começam a tornar-se uma epidemia contagiosa…. Onde vamos assim…!?

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Há que prestar, antes de mais, atenção ao mundo interior. Os comportamentos humanos estão intimamente ligados às disposições internas de todo e cada um dos indivíduos.  Já o Senhor Jesus, e Mestre, proclamava, numa altura, dizendo: « do fundo do vosso coração é que sai o Bem e o Mal». 

No texto deste Domingo, porém, Jesus Cristo vai mais longe na análise do mundo afectivo: «Onde estiver o teu tesouro, aí estará o teu coração…». Afirma, de maneira mais crítica, que no coração humano também podem haver fortes atracções, que se apresentam aparentemente como um tesouro. Todavia, numa leitura mais exigente, tudo, afinal, acaba por não passar de fogo fátuo, algo  que reluz, mas que é uma ilusão. Como diz, com muita sabedoria, o nosso povo: nem tudo o que brilha é oiro.

 Neste sentido, o Senhor Jesus exemplifica o seu ensinamento com duas situações que, ao princípio, poderão ser agradáveis e darem gosto e  prazer, mas que, posteriormente, tornar-se-ão causa de muita insatisfação, origem do tão corrosivo e destruidor ‘complexo de culpa’ e, seguramente , nunca levarão seja quem for a dar-se, a servir ou a ajudar verdadeiramente os outros.

O apego ao dinheiro, a ganância e a obsessão pelo lucro, sem a olhar a meios e a todo custo, torna-se uma constante no mundo da finança mundial, mas que se alastra diabolicamente por entre os aglomerados mais simples e naturais. A paranóia do luxo, da moda e do consumo1 Enquanto isso o Mestre convida-nos a saber dar, a ser desprendidos, a preferir a vida simples  e a estar mais preocupados com as coisas do alto: « Vendei o que possuís e dai-o em esmola. Fazei bolsas que não envelheçam, um tesouro inesgotável nos Céus, onde o ladrão não chega nem a traça rói…».

De uma forma um pouco dramática Cristo Jesus faz-nos cair ainda  na conta de uma segunda situação que não é conducente para um homem ou uma mulher  ter um coração livre e generoso, capaz de estar ao serviço da Humanidade. Assim acontece com todos aqueles que só estão preocupados em gozar a vida: «…começar a  bater em servos e servas, a comer, a beber e a embriagar-se….» viver sem responsabilidade. Mas esta é, infelizmente, a realidade dura e crua com que nos deparamos quando nos descrevem o que acontece, por toda a parte no mundo, aos fins de semana ou entre os que não conseguem libertar-se da vida nocturna. 

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No segredo de círculos muito exclusivos e privados se  maquina, sem escrúpulos ou qualquer sentido de moralidade, o destino dos povos. Mas o grito dos mais pobres e mais frágeis torna-se dilacerante. 

A nossa Humanidade  precisa urgentemente de pensar, com profundidade, sobre o sentido primeiro e último da existência humana, o que é ser homem ou ser mulher. Qual o modelo de Sociedade que poderá levar a todos a viver em  Harmonia e Paz, como viver num Universo que se abre com horizontes fantásticos.

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus de Macau

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DESCANSA… COME, BEBE… REGALA-TE…

Por mais que se queira evitar pôr em questão o nosso ‘modo de viver’ na sociedade actual, as suas consequências negativas,  porém, tornam-se cada vez mais evidentes, gritantes e catastróficas para o futuro da Humanidade e do Mundo. São aos milhões os pobres, sobretudo crianças e mães de família, que choram por um pedaço de pão e uma gota de água. Enquanto isso acontece, escandalosamente, numa outra parte do globo, há aqueles que vivem na abundância, mas de tal modo que até fazem perigar as suas próprias vidas pela obesidade dos seus corpos. Nos  países, ditos desenvolvidos, deparamos com aqueles que põem em prática o que o administrador da parábola de Jesus, quando exclamava, insensatamente, dizendo: «Deitarei abaixo os meus celeiros para construir outros maiores, onde guardarei todo o meu trigo e os meus bens…». Em contrapartida e em qualquer outra parte da Terra, descobrimos uns outros que, com a mão, esgravatam o solo desértico para encontrarem raízes que matem a sua fome ou enganem os seus estômagos.        

  Invertamos a focagem da questão do ‘bem estar’ das pessoas, isto é, do haver pão e água para todos.  Consideremos, antes e ao contrário, aqueles que na sociedade assumem a responsabilidade de fornecer os bens essenciais para a existência humana. Algo estranho e terrível se nos apresenta! O quanto de maquiavélico, corrupto e imoral  se descobre nos laboratórios de biogenética, na indústria agro-pecuária, na indústria alimentar, na indústria farmacêutica, na indústria hoteleira, na indústria da restauração… E tudo por causa do lucro, do ganhar mais dinheiro, e manter, ao fim e ao cabo, uma ‘sociedade de consumo’ que apenas pensa no proveito financeiro e esquece o ser humano.

Eis uma amostra, levada ao extremo.  Onde está a origem do triste espectáculo  das pobres hilariantes ‘vacas loucas’ entre os animais das nossas pastagens, supostamente, saudáveis e verdejantes?! Agora até os seres vivos podem  apresentar sintomas ou estarem infectados com a ‘febre aviária’ e a ‘febre suína’. Levando caso tão sério ao ridículo. Em Hong Kong, na altura, até encontraram uma tabuleta a anunciar a existência  do ‘Dr. Porky Chan’!

Como se esta realidade não bastasse, assiste-se ainda à destruição quase vertiginosa da fauna e da flora do nosso planeta, que dizem ter cor azulada.  Sim,. Mas. Encalham nas praias baleias mortas com 80 quilos de plástico no seu ventre. São apanhadas aves sem vida com parafusos de três a cinco centímetros de comprimento no papo. Pescam-se peixes do mar, contaminados de radiação atómica, e peixes dos rios e lagos poluídos de substâncias nocivas  à saúde do ser humano, provenientes das descargas de resíduos de fábricas, nacional e internacionalmente reconhecidas. 

Mais ainda. Se contemplamos os céus, aumentam os dias em que não conseguimos descortinar uma réstia de azul. Apesar de tanto negócio escondido nas Assembleias Gerais  a propósito das condições climáticas, acontece algo inegável tanto na América como na Europa, ambas do Norte. As florestas ardem e as pessoas sufocam ou não resistem ao calor. Que se pronunciem, em verdade, os cientistas e os astrofísicos sobre o que se passa na estratosfera!

Por fim, as palavras de Jesus Cristo, neste Décimo Oitavo Domingo do Ano Litúrgico,  chamam-nos à atenção de uma maneira, cristalina e penetrante: «Vede bem, guardai-vos de toda avareza: a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens».

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Nestes tempos que decorrem a grande velocidade,  torna-se uma exigência fundamental da nossa existência neste Mundo reflectir mais seriamente do que é habitual; filosofar, no sentido mais genuíno e etimológico;  ir à procura das razões mais profundas que explicam o caminho que a Humanidade do início do Terceiro Milénio e a Sociedade contemporânea estão a seguir. Procurando ser simples e não simplista, sou levado a pensar que a nova orientação de vida de que tanto precisamos definir, com criatividade, profundidade e audácia,  está para além da tensão dialéctica entre a ideologia neoliberal e a ideologia marxista-leninista. Em ambas é dado demasiada ênfase ao material e imanente do ser humano e é posto de parte ou pouco considerado tudo o que nele existe de espiritual e transcendente.

É neste contexto que, através dos anos, fui levado a compreender, de uma maneira muito subtil, delicada e fina,  que existe, em pessoas de ambos os ambientes ideológicos, como que uma corrente intrínseca e estrutural, mais íntima dentro de si mesmos, com necessidade de se exprimir,  tocando o intelectual, o psíquico-afectivo e o espiritual. Uns chamam-lhe ‘the Spiritual Quest’, à procura do sentido espiritual. Continuo, no entanto, a estar persuadido que  o conceito e a realidade da ‘Angústia Existencial’ exprime mais perfeitamente a ‘Sede’ de Deus existente no mais secreto e escondido do coração humano. Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, ao clamar, vigorosamente e em lágrimas, ‘Tenho Sede’, constitui a expressão mais sublime da ‘Sede’ do ser humano à procura de Deus. 

Terminemos com o conselho e convite do Senhor Jesus, o Mestre Divino: «a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens». Que Ele, no Seu Amor e na Sua Verdade, não nos chame : «Insensato!» para denominar todo aquele que « acumula para si, em vez de se tornar rico aos olhos de Deus».

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus de Macau

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Metamorfose e mudança: As diferenças entre Hong Kong e Macau

A reclamação identitária por parte das populações das Regiões Administrativas Especiais (vulgo RAE’s) de Macau e Hong Kong são o ponto comum entre estas duas realidades, ambas privilegiam um modo de ser e de estar conformadas por um estilo de vida e um sentimento de pertença que as torna singulares, logo diferenciadas das demais existentes no grande império da Republica Popular da China, o que não configura à partida a ausência do patriotismo chinês.

Não se trata, a meu ver, de um processo emancipatório ou de caracter separatista mas, apenas e só, do direito a salvaguardar os princípios enunciados pela Lei Básica que estabelece o princípio de “Um País, Dois Sistemas”.

A diferença entre a realidade de Hong Kong e a de Macau acentua-se nas dinâmicas que a sociedade civil vai impondo ao longo do seu processo de adaptação ao período da pós-transição envolvendo também as heranças diferenciadas que cada realidade transporta.

Os recentes acontecimentos de Hong Kong, na mesma linha do que sucedeu com o movimento Occupy Central (ou dos guarda-chuvas), contextualizam uma forma diferenciada de se expressarem perante a eventualidade de uma quebra da identidade local por ingerência do poder central, não tanto porque não lhes reconheçam esse direito, aliás configurado no princípio da própria Lei Básica mas, mais pela defesa da manutenção de um ‘modus vivendi’ que se instalou ao longo dos anos e que querem perpetuar às gerações vindouras.

A expressão dessa vontade em defender os princípios legais de existência de uma Região Administrativa Especial, não se esgota apenas na retórica política ou legislativa, vai mais além, trata-se também de exprimir um sentimento de pertença que se configura numa identidade própria que lhes permita sentirem-se cidadãos dessa comunidade.

Neste ponto de vista, quer Hong Kong quer Macau estão em pé de igualdade, exceptuando talvez as vias pelas quais as mesmas se manifestam, ou seja, as dinâmicas que se acentuam na sociedade civil exigem respostas diferenciadas, essencialmente pela diferença das heranças perpetuadas, onde em Macau se eleva o seu bom entendimento histórico e actual com a presença portuguesa, e em Hong Kong assumirem que a herança britânica é um aspecto do passado.

Estamos assim a assistir a dinâmicas de adaptação que configuram metáforas ou paradigmas diferenciados e sustentados em movimentos de reformulação social que se vão identificando com pressupostos de base não coincidentes.

A situação em Hong Kong confina-se pela caracterização de uma metamorfose, onde o que era já não é, procurando uma nova forma de assumir a identidade local com uma nova geração que vai despontando, ou seja, metaforicamente falando a larva já se transformou em borboleta, impondo uma nova sociedade que é protagonizada por um ciclo geracional que se distanciou da realidade anterior procurando ser ela a marcar a diferenciação. Por seu lado, em Macau, vamos assistindo a um ciclo de mudanças que são evolutivas e adaptativas, agregando faseadamente as novas gerações no prelúdio dos novos tempos, onde passado, presente e futuro vão caminhando de forma entrelaçada.

Ambas porém, acentuam a necessidade de nova ordem social e de uma identidade local, fenómeno com que, mais tarde ou mais cedo, a República Popular da China terá que se confrontar, até porque se as pontes ligam materialmente as regiões também se espera que liguem as ideias e os valores. As permutas são inevitáveis, até onde elas poderão ir, só o tempo nos dirá.    

Apesar do tema ser “acalorado” e exigir uma reflexão ponderada sobre o futuro que se avizinha, não quero deixar de formular os votos de Boas Férias a todos os leitores do Ponto Final neste período de acalmia ilusória. 

 

     

Carlos Piteira

Investigador do Instituto do Oriente

Docente do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas / Universidade de Lisboa

 

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PEDI  E… DAR-SE-VOS-Á

Todo o texto do Evangelho deste Décimo Sétimo Domingo do Ano Litúrgico gira à volta da questão da relação do Homem com Deus. Perplexos ficamos, quando nos apercebemos que, enquanto que Jesus Cristo afirma a existência de Deus e Deus Pai muito presente no quotidiano da nossa vida, a Sociedade contemporânea, dita moderna e desenvolvida, continua teimosamente a afastar-se de tudo aquilo que seja espiritual e divino. Isso acontece, sobretudo, quem diria, naquela que, outrora, era chamada ‘a Europa cristã’. Não é de admirar, portanto, que a Comunidade Cristã, que fala português,  residente aqui em Macau, a Cidade do Nome de Deus, enferme também dessa mesma postura: o afastamento, a apatia e abandono de tudo o que seja a prática ou vivência cristãs.

Contudo, quando se aborda ‘o testemunho’ cristão da Comunidade de língua e cultura portuguesas a viver neste pedaço de terra junto ao Mar do Sul da China,  não consigo escapar à consideração do seu ‘sentido histórico’. Eles pertencem àquele mesmo povo que, sendo pequeno, mas destemido e arrojado, abriu os horizontes dos europeus a outros espaços do globo terrestre:   mares, continentes, raças, culturas e religiões .

A implantação do Cristianismo na Ásia e na China mesmo que, antes e agora, continue a ser como uma pequena semente ou planta quase minúscula,  está impreterivelmente unida ao povo que partiu valentemente do seu ‘jardim à beira mar plantado’ e se lançou à descoberta de uma outra Humanidade para além dos mares, onde sempre surgiu um ‘Cabo das Tormentas’ e um terrível ‘Adamastor’. 

Não poderemos jamais esquecer que,  depois do Apóstolo São Paulo, o mais notável missionário da História da Igreja, S. Francisco Xavier navegou constantemente nas caravelas portuguesas.  A Diocese de Macau que, aos poucos, se tornou Mãe e origem de centenas de Dioceses neste vasto Oriente, possui, inacreditavelmente, a relíquia da parte superior do braço direito do extraordinário missionário, também ele um dos dez Padres Fundadores da Companhia de Jesus, sob a inspiração e orientação de Santo Inácio de Loiola.

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Voltando ao texto evangélico… Mais exactamente da questão da relação do Homem com Deus.  Diria, antes de mais, que, na maneira como Jesus se expressa, está patente uma chamada à intimidade com Deus e não ficar na mera  formalidade da religião. Não é caminho para o encontro pessoal e íntimo com Deus o actuar como os fariseus que se deixavam enredar nas exterioridades da prática religiosa, se tornavam morbidamente dependentes da apreciação dos outros e sucumbiam perante uma enorme necessidade de serem vistos por alguém. Cristo é claro. O mais importante é o que se passa no segredo do nosso coração, onde só Deus consegue ver e ler.

Algo mais. O Senhor Jesus, o Filho de Deus, afirma na sua pregação, com um misto de firmeza e ternura, que Deus é Pai e nós somos filhos e filhas do Pai Eterno: «Quando orardes, dizei: ‘Pai, santificado seja o vosso nome…’». Revela-se como uma constante das narrativas do Novo Testamento, em particular, quando expressam as Suas orações, escutar Jesus a dirigir-se a Deus chamando-o « Pai…  Pai… Pai…» E o clamor torna-se ainda mais pungente e dilacerante, quando, morrendo crucificado, exclama: «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste…?».

O relato continua e o ensinamento de Cristo Jesus leva-nos a uma outra  compreensão. Deus é não só Pai, mas mais ainda é um Deus de Bondade: « Se vós, que sois maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que Lho pedem!»

Se no discurso de Jesus, num primeiro momento,  Ele descreve-nos quanto Deus é intrínseco e íntimo à nossa natureza humana e quanto Ele nos ama com um Amor Incondicional e Eterno, encarnado na Morte e Ressurreição de Jesus Cristo;  num segundo momento, Ele procura alargar o entendimento dessa relação do Humano com o Divino e apresenta qual deve ser a correspondente e condizente actuação do ser humano. A criatura,  precisa também, por seu lado, de reagir da maneira mais apropriada e correcta diante do seu Deus, Criador e Senhor.

Fundamentalmente,  o ser humano, seja homem ou mulher, tem de se dirigir a Deus, movido por uma profunda e absoluta confiança nEle e abandono total a Ele como Deus Criador, Deus Pai e Deus Poderoso. Pois só com esta atitude de fundo é que conseguirá pôr, então,  em prática os três conselhos que Cristo Jesus nos dá no Evangelho deste Domingo: «‘Pedi e dar-se-vos á; procurai e encontrareis;  batei à porta e abrir-se-vos-á. Porque quem pede recebe; quem procura encontra; e a quem bate à porta, abrir-se-á.»

Daí o tão lamentado e propalado Silêncio de Deus. A  culpa é sempre de Deus. Dizem : ‘Quanto tenho rezado… chorado… gemido…’ ‘Deus não me ouve…’ ‘Deus esqueceu-se de mim…’ Mas, o problema não está em Deus.  Sou eu que não estou com as verdadeiras disposições. Não acredito nem confio com fé inabalável, capaz de « mudar uma montanha…» Tantas e tantas vezes o que é pedido, a médio e longo prazo, não é o melhor. E não esquecer o que Jesus afirmou : «Antes que as tuas palavras cheguem à tua boca, já Deus Pai conhece o teu desejo…».

 

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus de Macau

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Um Farol que já não Guia

Um Farol que já não Guia-Final2

FOTOGRAFIA: MARIA JOSE DE FREITAS

No ano de 2013 foram publicados em Macau dois importantes instrumentos de gestão urbana: a Lei 11/2013 – Lei de Salvaguarda do Património Cultural, e a Lei 12/2013 – Lei do Planeamento Urbanístico. Estas leis, incluídas no Boletim Oficial da Região Administrativa Especial de Macau de 2 de Setembro de 2013, entraram em vigor em 1 de Março de 2014.

A Lei nº 11/2013 que estabelece o regime de salvaguarda do património cultural da RAEM contém alguns conceitos importantes que é conveniente relembrar: no artigo 2º, a respeito do “conceito de património cultural”, é dito que integram este património todos os bens com interesse cultural devendo, por isso, ser objeto de proteção. Ao relevar valores culturais ligados à história, arqueologia, paleontologia, arte, linguística, etnografia, entre outras áreas do conhecimento, estes bens devem refletir “valores de memória, antiguidade, autenticidade, originalidade, raridade, singularidade ou exemplaridade”, sendo obrigação da RAEM assegurar a transmissão da herança cultural de Macau. Como vem explícito no artigo 4º, o património cultural deve ser protegido e valorizado como “instrumento essencial de realização da dignidade da pessoa humana e objeto de direitos fundamentais.” No mesmo artigo diz-se que constitui obrigação do Governo da RAEM o conhecimento, estudo, proteção e valorização do património cultural.

Nessa lei, de acordo com as convenções internacionais, a par de outras definições (artigo 5º), são considerados como bens imóveis classificados os monumentos, os edifícios de interesse arquitetónico, os conjuntos e os sítios, que serão enquadrados por “zonas de proteção” que defendam a sua perceção ou que com eles estejam relacionados por razões de integração espacial ou estética. Ainda no artigo 5º, o Centro Histórico de Macau é definido como um conjunto de interesse cultural relevante, inscrito pela UNESCO na Lista do Património Mundial, constituído por monumentos, edifícios de interesse arquitetónico, conjuntos e sítios, e respetivas áreas de proteção.

No contexto descrito, a aplicação da lei deve pautar-se pelo equilíbrio, promovendo a devida articulação institucional nas áreas de ordenamento urbano, ambiente, cultura e turismo, devendo ser assegurada a inventariação dos bens e a prevenção de forma a impedir a destruição de elementos integrantes, devendo ainda ser assegurada a participação dos residentes na formulação e na execução das políticas de salvaguarda. 

Mais adiante, no artigo 51º, é estipulada a obrigatoriedade de elaborar um Plano de Salvaguarda e Gestão do Centro Histórico de Macau (PSGCH), cuja execução compete ao Instituto Cultural (IC), em colaboração com outros serviços públicos, designadamente a Direção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes (DSSOPT) e o Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM), agora simplesmente redenominado Instituto para os Assuntos Municipais. 

O ‘draft’ do Plano de Salvaguarda e Gestão, depois de uma consulta pública realizada em 2018, foi entregue na sede da UNESCO em finais de Dezembro de 2018, e foi apreciado na 43ª sessão do Comité do Património Mundial recentemente reunido em Baku, Azerbaijão, tendo sido posteriormente divulgados comentários ao seu conteúdo que, como alta prioridade,  apontam para a urgência na entrega, por parte da China, do Plano de Gestão do Centro Histórico afim de ser apreciado pelas autoridades competentes antes da sua implementação. Reiteram que persistem dúvidas quanto às cérceas dos edifícios nas imediações das áreas classificadas, bem como manifestam preocupação quanto aos planos de pormenor que estão a ser desenvolvidos para os novos aterros.

Por outro lado, a Lei 12/2013, relativa ao planeamento urbano, a par de outros temas, revela no ponto 2) do artigo 3º a preocupação com a promoção da salvaguarda dos bens imóveis classificados que integram o património cultural, estipulando como objetivo o princípio da sustentabilidade para assegurar a transmissão às gerações futuras de um território devidamente planeado e ordenado. Para isso consagra a necessidade de elaboração de um plano Diretor para a cidade, plano esse que terá, entre outros, o objetivo de identificar os princípios orientadores da salvaguarda dos bens imóveis classificados que integram o património cultural, respeitando a legislação sobre a matéria.

No que diz respeito ao Centro Histórico de Macau vale a pena dizer que quer o Plano de Salvaguarda e Gestão quer o Plano Diretor ou Planos de Pormenor devem estar articulados, devendo ser assegurada a sua compatibilização através de um trabalho conjunto a ser elaborado por diversas entidades, entre as quais avultam o Instituto Cultural e a Direcção de Serviços de Obras Públicas.

Ora, sendo verdade aquilo que acima é referido, seria expectável que passados 6 anos sobre a data de publicação destas leis os planos mencionados estivessem publicados e em vigor e que imperasse a regra da transparência, tanto mais que já passaram 14 anos sobre a data de entrada do centro histórico da cidade na lista classificada pela UNESCO como património mundial.

Afinal nada disso aconteceu. Os planos estão em estudo, em consulta ou em apreciação, nada se diz sobre eles, a cidade vai evoluindo, crescendo e as pressões sobre o centro histórico vão-se agudizando.

Ao longo do tempo tem sido possível observar e verificar no terreno o resultado a que esta inacção conduz.

Uma cidade que no seu seio incluí património mundial não é uma cidade qualquer e os seus governantes têm obrigações, obrigações que aceitaram e assumiram quando candidataram a cidade e os seus bens patrimoniais a estar incluídos na lista classificada como património mundial pela UNESCO! E não basta dizê-lo, nem tão pouco apenas criar leis que o afirmem, é preciso mais, é necessário pôr as leis em prática. Como já descrevi, as leis existem, são oficiais, e agora é urgente dar-lhes sequência sob pena de que ocorram destruições irreversíveis.

Muitas já aconteceram e outras continuam paulatinamente a surgir nos nossos dias.

 

Mesmo depois do despacho do Chefe do Executivo 83/2008, publicado em suplemento ao Boletim Oficial Nº 15/2008, que limita as cotas altimétricas máximas dos edifícios nas imediações do Farol da Guia, que ao tempo gerou polémicas ainda não sanadas, vemos erguer-se ao lado do edifício do Gabinete de Ligação do Governo Central, localizado na Avenida Dr. Rodrigo Rodrigues, um outro edifício de idêntica volumetria, mas mais avançado relativamente ao eixo viário, configurando um “paredão” imenso que oculta por completo o pouco que restava da Colina da Guia e o rasgo de luz do Farol que ainda era possível vislumbrar para quem circulava nas imediações vindo do centro da cidade.

O edifício está fora da zona de protecção do património, como certamente argumentará o incauto que olhe para os mapas, para mais a cota altimétrica permitida no local é de 90mNMM, mas quanto a isso dir-se-á que foi uma cota estipulada “à medida” e que vai contra todos os conceitos de salvaguarda patrimonial…

Refiro ainda que um dos princípios orientadores da UNESCO é o de ressalvar a possibilidade do bem classificado ser visto “de fora para dentro” e “de dentro para fora”, como bem me lembrou Bernd von Droste, fundador do Unesco World Heritage Center, quando passeávamos por entre bairros históricos, assegurando a importância da criação de “corredores visuais”.

Importa reter que a criação e a implementação em Macau de corredores visuais constitui uma das ideias presentes na Proposta para o Plano de Salvaguarda e Gestão do Centro Histórico, apelando ao papel que Macau desempenhou no passado como cidade portuária.

Actualmente, na envolvente do Farol da Guia e Colina do mesmo nome, essa ideia está perdida e a luz do farol já só aponta para Nascente num restrito ângulo de 77 graus, a Poente o ocaso está definitivamente consagrado.

É caso para dizer que esta luz já não nos Guia…

 

Maria José de Freitas

  Arquitecta | ICOMOS-SBHSG

  Doutoranda DPIP3-UC.PT

  mjf@aetecnet.com

 

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A VIDA NÃO É SÓ DINHEIRO

Deixo-me levar, sem preocupações, pelas páginas do Evangelho e deparo com o episódio do Óbolo da Viúva: «Esta pobre viúva deitou na caixa mais de que todos os outros. Eles (os ricos) deitaram do que lhes sobrava, mas ela, na sua pobreza, ofereceu tudo o que tinha, tudo o que possuía para viver.» 

É difícil de enquadrar e, ainda mais, de encaixar na maneira de viver da sociedade actual uma experiência como aquela descrita pelo texto evangélico. Hoje, quase diria que enfrentamo-nos, exactamente, com a situação oposta. Tirar proveito até ao último ‘centavo’ e não perder um só ‘centavo’ para daí tirar proveito. Tal como aquele anúncio americano. Uma moeda de pouco valor é encontrada no chão de um grande banco, mas desprezada por uma cliente, com um displicente: ‘It is just a penny!’ Tudo para concluir que com um só desprezível ‘centavo’ até se começam fortunas enormes e negócios multi-milionários.

Dar tudo e ficar sem nada é inconcebível na mentalidade moderna. Contudo, estar desprendido ou desprendida… ser capaz de dar e partilhar, continua a ser um critério de vida defendido, repetidamente, por Jesus Cristo ao longo da Sua pregação por terras de Israel. Sim, é um critério paradoxal!  

Porém, nos tempos que decorrem e da maneira como a existência humana se apresenta, com tanta violência, com tanta degradação, com tanta exploração, com a multidão dos ‘pobres entre os mais pobres’ a crescer inexoravelmente, não será, hoje, uma exigência necessária e urgente, de ir mais fundo na compreensão dessa atroz realidade, se queremos chegar a uma harmonia social mais verdadeira e consistente e, construir um Mundo melhor?

Nem todos, é certo, são chamados a viver em pobreza e austeridade. No entanto, aumenta, e de maneira imparável, a exigência na Humanidade de implementar um estilo de vida caracterizado pela simplicidade, frugalidade e partilha de recursos. Eis alguns exemplos. A obesidade aumenta assustadoramente, inclusive entre os mais novos, por um lado. Por outro, diante dos nossos olhos aparecem, cada vez mais frequentemente, crianças esqueléticas, a morrer à fome, no Iémen, na Síria, na Somália… O Secretário Geral das Nações Unidas bem parece «… a voz que clama no deserto…» 

De novo, não conseguimos escapar aos factos. A Alta Finança distancia-se quase vertiginosamente da Economia real dos povos. Os ricos tornam-se cada vez mais ricos e sempre muito poucos, e os pobres cada vez mais pobres e inumeráveis, sem conta. Pior ainda, é quando vemos os políticos e os homens de Estado a serem arrastados nesse lamaçal da corrupção… E tudo, por causa do dinheiro!

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Este texto do Evangelho de São Marcos é pequeno, mas rico em significado. Ajuda-nos, por exemplo, a penetrar um pouco mais na compreensão da ‘experiência de Deus’. Em primeiro lugar, aqueles aspectos em que a natureza humana tem as suas expectativas sobre o comportamento de Deus. Em segundo lugar e ao invés, mostrando como, na pedagogia de Deus, nem sempre os modos e os tempos de Deus coincidem com as inclinações humanas.

O silêncio de Deus constitui um primeiro aspecto que chama a atenção. Todo este episódio da «pobre viúva» desenrola-se no segredo, no escondimento, num movimento discreto e humilde de mulher piedosa, seguramente sem ter sido notada por ninguém no Templo. Contudo, o Mestre Divino capta o momento, tão cheio de virtude e repleto de Deus, e declara: «Esta pobre viúva deitou na caixa mais de que todos os outros…» Só Ele, o Senhor, colheu o momento e nada Lhe escapou… Tantas vezes, na vida espiritual, exclamamos que ‘Deus não me ouve…’ ‘Deus não está a ver…’ ‘Deus parece estar a dormir…’ Será? Insensatos!

Um segundo aspecto, tomo-o pelo lado da ‘piedosa viúva: fazer ou dar esmola sem ter necessidade de ser admirada. Inacreditavelmente, ela executou tudo sem precisar de ser vista por quem quer que fosse. Fez tudo, só e apenas diante de Deus. «Grande é a tua fé», poderíamos nós dizer tal como Jesus exclamou, um dia, mais tarde, perante uma outra mulher de fé exemplar. Todavia, há que reconhecer que esta não é a atitude de muitos de nós. Acreditar de tal forma que não sejam precisos  ‘sinais’ para crer como exigiu São Tomé, tocar, ver, ouvir…. Mas, seguir o Senhor Jesus por Ele mesmo, acreditando na Sua Vida e na Sua Palavra.

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A Vida não é só dinheiro… A Vida para além do imediato é a questão de fundo. O homem e a mulher de hoje estão a ficar presa fácil do imediatismo, pragmatismo e tecnocracismo. Tudo, direi ironicamente, parece não passar da  consideração das coisas apenas a um palmo à frente do nariz. Em termos mais modernos, as pessoas parecem não ir mais além do seu compulsivo celular, dos anúncios publicitários ou do que dizem os outros nas redes sociais…

Há que ir mais fundo, ultrapassar aquilo que é meramente material que nos circunda e involve. Sair do imediato da nossa sensibilidade, muito corporal, emocional e de prazer. Precisamos muito seriamente de saber penetrar na profundidade do nosso próprio ser, de desenvolver um pensamento mais especulativo, mais poético e místico, de últimas causas… Não deixar que a técnica, tão metálica e fria, nos venha a dominar…

E, por fim, ter a coragem de se abrir à transcendência… E, porque não, colocar o problemática de Deus?

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus de Macau

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