Auto-de-fé    

ULTIMATUM

Isadora Ataíde

Quando deixou de crer e parou de duvidar, Peter Kien incendiou a sua biblioteca e entregou-se à fúria das chamas.

Agnósticos, ateus ou materialistas, ainda que sublimem a metafísica do quotidiano e a reservem para os momentos lúdicos, eventualmente reconhecem que a vida requer actos contínuos de fé.

Apanha-se um avião e é preciso crer-se que a meteorologia, os pilotos e as tecnologia harmonizam-se para garantir a travessia. A maioria confiou que um americano negro de classe média – filho de académicos que se conheceram no Havai quando estudavam a Rússia contemporânea – estava destinado a tornar o planeta um lugar um mais seguro.

No copo do fim de tarde, para desanuviar os insistentes desenganos da realidade, não se cogita que o uísque é martelado. Quando um operário se torna presidente ou um homossexual primeiro-ministro, ecoam promessas de que o mundo tornar-se-á mais justo e livre.

E qual a opção, senão confiar nos diagnósticos dos médicos, nos prognósticos dos economistas ou nos conselhos dos advogados?! É preciso crer que as calotes polares não irão derreter, que a camada de ozono manter-se-á compacta e que os tsunamis e terramotos não nos irão alcançar.

Peter Kien, o mais brilhante filólogo e sinólogo de todos os tempos, conhecedor de línguas modernas e contemporâneas, publicou artigos académicos nas revistas mais prestigiadas do seu tempo e apresentou conferências saudadas como “definitivas” pelos seus pares. A genialidade de Peter Kien – que viveu entre os seus 25 mil livros, a sua secretária e uma poltrona para repousar – deveu-se a duvidar sistematicamente, num caminho tortuoso feito de sete círculos infernais que o arrastavam em cada pergunta da completa ignorância à crença total.

Um crédulo, o sinólogo Peter Kien. Por que não iria ele acreditar na sua empregada Teresa, tão dedicada aos seus papéis? Com base em qual princípio iria Peter desconfiar do anão Fischerle – arguto e sedutor, rejeitado pela sua aparência mas amado pela sua esposa, uma prostituta galardoada? E Pfaff, apesar de assassino, lá tinha coração e muitos motivos que o justificassem, e também nele Peter Kien confiou.

É preciso crer para prosseguir. Aposta-se que os americanos não vendem armas para o Estado Islâmico. Confia-se que a Europa e o Sudeste Asiático cuidarão dos refugiados que chegam às suas praias. Tem-se a certeza de que as democracias, apesar das suas falhas, ainda são melhores que os demais regimes. Assume-se que a liberdade de mercado torna o mundo mais competitivo e rico, e os homens mais satisfeitos. Reconhece-se que as Nações Unidas fazem o melhor para acabar com o trabalho escravo, com o tráfico de crianças e com a crise do ébola.

Acreditar é o auto-de-fé da vida humana. Não há escapatória, senão crer.

No Auto-de-fé, de Elias Canetti, Peter Kien vivia da dúvida para criar. O erudito tinha uma “vida boa”, porque contemplava e reflectia, e encontrara a “felicidade” porque “criava”. Nos homens acreditava por princípio. Não ficou desiludido por sempre crer, apenas exausto. Quando chegou ao seu limite, não hesitou em pôr fogo ao seu mundo, a sua colecção de livros raros, e a si próprio.

Até quando a convicção de que a vileza estampada nos jornais não é o retrato diário da miséria humana?! O Álvaro ascendia um cigarro e nele saboreava “a libertação de todos os pensamentos”, ganhando a consciência “de que a metafísica é uma consequência de se estar mal disposto”.

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CPLP E  ÁFRICA – INVESTIMENTOS

Filinto Elísio

Maio foi um mês de exegese sobre a África, suscitando refletir sobre as oportunidades de investimento no continente africano, onde os rendimentos médios aumentaram em mais de um terço, as exportações estão em franca expansão e o investimento estrangeiro duplicou nos últimos cinco anos. Países como a China, Rússia, Brasil, Índia, Japão, Turquia e EUA estão a investir cada vez mais fortemente no continente.

Em verdade, a corrida para participar no crescimento africano já começou. A África, continente que renasce, se encontra claramente inserta num ciclo histórico de crescimento económico significativo, estabilidade política no quadro da democracia (mau grado alguns focos de instabilidade e de persistência de tentações de poderes tutelares), de pujança demográfica.

Entretanto, este boom é apenas uma parte da realidade. Uma das realidades, diria. Até porque as economias africanas ainda representam apenas 3% da economia global, sendo que a África subsaariana (excluindo a África do Sul) abarca menos de metade do Produto Interno Bruto do continente. Para além disso, este novo ciclo pode ter suas fragilidades escondidas: a aposta ainda assim débil na educação, nomeadamente no pré-escolar, básico e secundário, bem como na formação profissional e universitária, e consequentemente na Ciência.

É a educação, a todos os níveis, que dará suporte à continuação e irreversibilidade aos ganhos de inclusão que vêm sendo conseguidos e também à consolidação da paz (concebida não apenas como ausência de guerra) e da democracia (concebida mais do que mera arquitetura jurídico-constitucional). A educação, não aquela de restritas elites, mas a educação de massas, numa ótica de qualidade, que permitirá as economias africanas alterarem o seu modelo de inserção na economia mundial que, até agora, é assente ou na Ajuda Pública ao Desenvolvimento ou na Renda Mineira/Extractiva, por outras palavras na exploração rentista dos recursos naturais.

É também a opção pela agricultura e pelas pescas. Segundo Kofi Annan, subscritor do Relatório do Progresso em África, para se reduzir mais rapidamente a pobreza, bem como a desigualdade, há que impulsionar os sectores da agricultura e das pescas. É precisamente nestes sectores que indiciam grandes oportunidades de investimentos.

Tem-se a consciência de que este é o momento, mas que a África precisa de ser pensada de forma estratégica, por ser imperativo que esse crescimento se traduza numa transformação estrutural do PIB: industrialização e criação de empregos que respondam às necessidades da ascendente curva demográfica a que ora se assiste.

No ano passado, o Presidente Obama acolheu os dirigentes africanos em Washington para reforçar os laços com uma das regiões mais dinâmicas do mundo. Para o Presidente Obama, a iniciativa permitiu avanços na atenção que a administração dedica ao investimento e comércio em e com África, mas também focalizar a questão da promoção do fator humano e do desenvolvimento sustentável.

Já na segunda cimeira UE-África, realizada em Lisboa, em 2007, durante a presidência portuguesa da UE, foi aprovado um plano de ação concreto, com oito cenários de parcerias, que iam da energia aos fluxos migratórios, passando pela boa governação, pela democracia e pelos direitos humanos. Na quarta cimeira UE-África, realizada em Bruxelas, em 2014, adotou-se e incrementou-se o roteiro, alargando o período para 2014-2017 e incluindo cinco grandes prioridades e domínios de ação conjunta, nomeadamente paz e segurança, democracia, boa governação e direitos humanos, desenvolvimento humano, desenvolvimento sustentável e questões emergentes.

A CPLP pode ser um enquadramento propiciador de condições para que os países afro-lusófonos vençam o desafio de superar o estado de dependência económica da Ajuda Pública ao Desenvolvimento e da exploração passiva de recursos naturais, visto que a língua partilhada potencia a cooperação a vários níveis, suscetíveis de induzir a avultados investimentos. Por dispor de membros inseridos em diversos blocos regionais (EU, CEDEAO, MERCOSUL, ASEAN, SADC),  a CPLP pode propiciar a cada um dos seus membros a possibilidade de se “internacionalizar” noutros blocos regionais a que não pertence.

A escritora moçambicana Paulina Chiziane deu o mote, porquanto a “África precisa de ganhar consciência de luta pela liberdade, quebrar todos os vestígios do colonialismo e da escravatura, manter dentro da mente e do espírito o desejo da liberdade”. É esta África, de muitas Áfricas, pronta para o investimento externo, nomeadamente da CPLP, que nos aguarda. Encaremo-la com complexidade.

O autor escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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Capacetes e cigarrinhos

Tapau no bufê

Rodrigo de Matos

Eu não fumo. Não é que me tenham acabado os cigarros e não tenha tido tempo de ir ali abaixo comprar outro maço. Não fumo mesmo. Confesso que não o faço apenas pelas razões mais racionais – o efeito de um cancro no pulmão na qualidade e esperança de vida de uma pessoa deveria bastar – mas também porque o cheiro dos cigarros me causa náuseas. Assim como me enjoam também os argumentos que alguns fumadores exalam por cada restrição que é imposta ao seu famigerado hábito.

O fumador português, em particular, é especialmente nojento. E não me refiro aos dentes castanhos e aos dedos amarelados, mas ao seu discurso manipulador, que associa a actividade restritiva do governo ao autoritarismo prepotente, servindo-se mesmo de paralelos com regimes ditatoriais. Fumar, para eles, é um acto revestido de um certo simbolismo antifascista cheio de nobreza heróica. Uns verdadeiros capitães de Abril estes viciados!…

Recentemente, ouvi alguém defender a opinião de que era ridículo acabarem-se com as salas de fumo nos casinos: “Se só lá entram outros fumadores, qual é o mal?”.

Pela mesma lógica, será que uma pessoa deveria ser obrigada a usar capacete ao andar do moto? Afinal, se ela cair só se está a magoar a si própria. Acontece que, se as pessoas deixarem de ter de pagar multa por não usar capacete, muitas deixarão de o fazer. Algumas vão ter acidentes e, entre essas, algumas têm filhos pequenos. Nesse caso, não obrigar a usar o capacete é o mesmo que dizer: “Os putos que se lixem. Deixa lá o gajo contrair uma lesão no cérebro e virar um vegetal!”… Algumas pessoas não são responsáveis e é trabalho de quem governa cuidar também dos irresponsáveis. Cabe à sociedade mantê-los na linha. Não chega fazer campanhas a apelar ao senso comum das pessoas. Porque algumas não têm senso comum. A menos que estejamos a ser darwinianos e a querermos livrar-nos dos mais idiotas por meio da selecção natural.

Proíba-se o tabaco! Sempre que digo isto, há um fumador que me responde: a obesidade mata tanto como o tabagismo e ninguém pensa em proibir as pessoas de comer ou em interditar os McDonald’s. Pois eu acho que se deveria. O Governo deveria aplicar multas a pessoas com peso a mais e criar clínicas de reabilitação forçada, em que os obesos fossem obrigados a comer saladas e a fazer exercício físico. Eles podiam até reclamar durante algum tempo, mas no final iriam agradecer.

E devia-se proibir as religiões, e os videojogos, e o hip-hop, e os filhos indesejados e, já agora, os artigos de opinião extremistas… Se assim fosse, eu tinha ido hoje mais cedo para casa, e a sociedade agradecia!

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            Para Kalil, onde quer que esteja

BAGAGEM DE MÃO

Sara Figueiredo Costa

Apresentações de livros tendem a ser momentos de alguma repetição formal. Autores e editores sentam-se ao lado de um convidado para dizer umas palavras sobre o assunto e no fim há palmas e livros vendidos. Sem paradoxo, não faltam modos de tornar esta repetição menos monótona. Há livros e livros e o mesmo é válido para autores, editores e convidados a botar discurso. Já assisti a lançamentos em que o autor está tão nervoso que mal consegue balbuciar os agradecimentos, a outros em que o convidado falou tanto de si próprio que a assistência julgou ter aparecido no lançamento errado e alguns que se tornaram momentos bonitos de partilha em torno de páginas impressas.

Há uns dias, pediram-me para apresentar um livro e o convite para a apresentação garantia que a formalidade ia esboroar-se num gesto colectivo. O livro era ‘Que Luz Estarias a Ler?’, uma pequena plaquete assinada por João Pedro Mésseder e Ana Biscaia. O gesto colectivo era uma sessão de solidariedade com o povo da Palestina. Explico melhor. ‘Que Luz Estarias a Ler?’ é uma ficção criada a partir de uma série de fotografias que circularam pela imprensa internacional logo depois do bombardeamento desferido sobre Gaza pelo exército de Israel, no verão de 2014. Nessas fotografias, e particularmente numa delas, vê-se uma menina recolhendo livros por entre os escombros daquilo que sabemos ter sido uma escola. A partir dessas imagens, Ana Biscaia criou uma série de ilustrações às quais João Pedro Mésseder deu vida narrativa, construindo uma história possível para os momentos que se seguiram. Nessa história, Aysha, uma menina que sobrevive às bombas, fica a saber da morte de vários dos seus colegas, particularmente de Kalil, seu amigo. Num gesto de resgate, e porque Kalil gostava muito de ler, Aysha dedica-se a procurar entre os destroços da escola os livros que permaneceram, salvando-os como se assim pudesse preservar a memória do amigo.
Quando as notícias deixaram de ser momentos relevantes na nossa vida colectiva e passaram a constituir um elemento mais entre a catadupa de supostas informações que nos entram pelo ecrã a cada milésimo de segundo, a discussão sobre a fronteira que separa realidade e ficção tornou-se tema quotidiano. O que sabemos do que nos é dado sob o prisma de uma suposta objectividade imparcial? E que imparcialidade é essa que devemos, os jornalistas, seguir como regra básica, e como podemos trabalhar com ela sem passarmos a ser autómatos que apenas relatam sem questionar? São dúvidas antigas, agora ampliadas por esta espécie de caos apocalíptico que parece ter tomado conta do mundo, mesmo que talvez tenha sido sempre um caos apocalíptico a governar este mesmo mundo. Quando um objecto ficcional, conto, romance, filme, o que for, coloca em cena uma narrativa que não é, nem quer ser, jornalística, mas que ainda assim ajuda a olhar a realidade e a compreendê-la um pouco melhor, apontar o dedo ao carácter ficcional é menos proveitoso do que pensar sobre o tempo que nos calhou viver. ‘Que Luz Estarias a Ler?’ coloca esse desafio, inventando uma história para a menina de quem pouco sabemos e que, por isso mesmo, poderia ter vivido a história que para ela se inventou. Aysha pode ter sido a menina que se deixou fotografar nos escombros daquela escola de Gaza, ou qualquer outra menina em qualquer um dos muitos cenários das guerras que nunca deixámos de saber fazer.
Na sessão acolhida pela Fundação José Saramago, um porta-voz do Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente descreveu aos presentes o modo como se vive nos territórios ocupados da Palestina, os ataques aleatórios, a repressão diária, a luta pela dignidade. Os autores falaram do processo de criação e do que os moveu e eu cumpri o papel de falar sobre o livro que ali nos juntou, destacando precisamente este limbo que passamos a vida a definir como fronteira clara, ficção de um lado, realidade do outro, como se séculos de filosofia não nos tivessem ensinado a escorregar em tão acidentado território. No fim da sessão, dois homens aproximaram-se da mesa para cumprimentar autores e participantes. Disseram que eram palestinianos e agradeceram cada uma das palavras, agradecendo especialmente o trabalho dos autores. Levantei-me para os cumprimentar também. De pé, os homens levavam a mão direita ao lado esquerdo do peito e agradeciam. “Somos da Palestina”, disseram várias vezes, com as palavras a faltarem-lhes para conseguirem dizer mais. Na parede, uma tela mostrava ainda a ilustração da contra-capa do livro, com o rosto de Kalil, o rapaz inventado por João Pedro Mésseder e Ana Biscaia, iluminado pela curiosidade perante o mundo, ignorante do final que estaria prestes a chegar. Um dos homens – soube depois que era o conselheiro da Embaixada da Palestina em Lisboa – apontou para a tela. “O meu pai chamava-se Kalil.” Sorri com a coincidência, pensando em perguntar se Kalil era nome comum na Palestina, mas a vontade de perguntar (sempre a vontade de perguntar, a vontade de validar a tal realidade escorregadia com perguntas e informações que possam verificar-se) sumiu-se a tempo: “Mataram-no na Faixa de Gaza.” Tantos minutos a dissertar sobre o quanto a realidade e a ficção se misturam, mesmo quando temos a obrigação quotidiana de lhes procurar os limites, e bastaria ter passado o microfone para a assistência, onde um homem teria resumido a questão sem teoria nem medo de pisar a deontologia. Pela minha parte, já não quero saber se Kalil é nome comum na Palestina. Chega-me saber deste homem assassinado na sua terra para perceber que nunca mais deixarei de saber que o Kalil da contra-capa está em demasiados sítios do mundo à espera que uma bomba lhe leve a vida.

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O “dóci” dialecto vicia como o açúcar

[Água mole em pedra dura]

Catarina Mesquita

O mês de Maio aproxima-se do fim e com ele também se encerra o Festival de Artes de Macau que fez deste mês um verdadeiro festim cultural.

Na agenda de Macau espera-se, há já vários anos, que o mês de Maio chegue para se poder assistir ao que se produz de melhor nas diferentes áreas artísticas em todo o mundo.

Este ano o Instituto Cultural, entidade promotora do evento, convidou artistas de várias paragens como os Estados Unidos, a França, a China, Portugal e vários outros.

Mas a verdade é que para o público de Macau não há como o produto da terra. O Grande Auditório do Centro Cultural de Macau só encheu, em dose dupla, para ver a peça anual dos Dóci Papiáçam di Macau.

Um bom pretexto para reunir amigos e familiares mas, sobretudo, para soltar umas boas gargalhadas. E para aqueles que assistem pela primeira vez é uma lição de como saber “rir de nós próprios”.

Mas as peças dos Dóci Papiáçam têm mais dentro delas do que apenas umas piadas engraçadas. Os texto da autoria de Miguel de Senna Fernandes reflectem, sem dúvida, a boa-disposição que vive dentro do advogado e encenador, assim como o desejo de promoção e manutenção do patuá macaense.

Hoje, o patuá já está mais encerrado em livros e teses de estudo do que vivo no frágil número de pessoas que o falam. O “doce dialecto” parece estar na rua da amargura, caído em esquecimento durante os restantes meses do ano em que não há apresentações do grupo teatral.

As récitas anuais são merecidamente aplaudidas por amigos e famílias de Macau, que lamentam não haver mais apresentações. Mas também são elogiadas por aqueles que pela primeira vez assistem ao espectáculo e não conseguem negar o desejo de ver mais.

Quando o saudoso Adé adjectivou o patuá como “dóci” talvez soubesse que este cria vício como o açúcar. Depois de o provarmos, queremos sempre mais.

Na peça “Macau tem talento” – apresentada na edição deste ano do Festival de Artes de Macau – os novos membros que, abraçados por uma família que por carolice se juntou em 1993 e não sabendo falar patuá antes de integrarem o grupo, subiram ao palco usando as expressões mais típicas do dialecto. Haverá algo mais admirável?

O grupo consegue fazer personalidades da sociedade de Macau rir de si próprias nas sátiras que apresenta. O talento do grupo dirigido por Miguel de Senna Fernandes têm conquistado com facilidade um público que, mesmo não falando patuá (ou por vezes nem sequer português) também solta uma boa risada.

O pormenor das legendas em português, chinês e inglês leva a inclusão de mais público nos espectáculos, algo que é de louvar uma vez que em Macau a prática comum é organizarem-se eventos apenas para os pares.

O encenador Miguel Senna Fernandes diz que os talentos verdadeiros de Macau também precisam de sorte. Não sei se isto é verdade mas o que é certo é que, para mim, que pela primeira vez assisti a um espectáculo dos Dóci Papiáçam, a sorte esteve do meu lado. O talento, esse, esteve todo do lado deles.

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Onde fica a verdade?

PODE IR À SUA VIDA

Sandra Lobo Pimentel

Não é fácil falar do caso Luís Amorim. Mas se não é fácil para quem acompanha o novelo que, ora se faz, ora se desfaz ao longo do processo, pior será para quem procurou respostas todos estes anos e vê, mais uma vez, as autoridades judiciais de Macau a julgarem tão assertivamente aquilo que aos olhos de um homem médio não pode deixar mais do que dúvidas. Muitas dúvidas.

O advogado da família avisou, várias vezes, que não seria razoável levar a tribunal o alegado autor (ou alegados autores) do crime para provar que o jovem português fora vítima de homicídio ou de agressões que resultaram em homicídio naquela noite de Setembro.

Mas pelos vistos só assim será possível que os responsáveis pelo poder judicial no território não escapem ao absurdo de continuarem a afirmar que, pelo menos, não houve negligência no tratamento do caso.

Quem conhece os contornos do que foi apresentado pela família ao longo dos anos, tanto junto do Ministério Público da RAEM, como agora do Tribunal Administrativo, percebe que há decisões por parte das autoridades que investigaram que carecem de explicações.

Se formos mais objectivos na visão acerca das intenções da família com esta acção, à partida, não era que Luís Amorim não cometera suicídio naquela noite que se pretendia provar (apesar da tentação óbvia em que acabaram por cair os quesitos), mas sim, a negligência nas diligências levadas a cabo pelas autoridades. Então, desde logo, a lavagem do local onde o corpo foi encontrado – um facto que não ouvi ser desmentido em tribunal – provaria que alguém não fez bem o seu trabalho.

Não deixa de ser constrangedor ouvir em audiência inspectores da Polícia Judiciária alegando anos largos de experiência no campo, se furtarem a responder se é um procedimento normal lavar o local onde é encontrado um corpo, sendo, no entendimento natural, um potencial local de crime ou de recolha de evidências sobre o cometimento de um.

Mais constrangedor, é perceber que um tribunal aceita que essas questões não sejam respondidas, mas depois valoriza o mesmo testemunho para deixar cair por terra a versão dos autores.

Se mais não nos incomoda, pelo menos que tenha esse condão o facto de termos profissionais forenses na RAEM que não sabem responder a uma questão da mais elementar prática da sua actividade.

E este é só um exemplo. Será que estamos todos convencidos que os médicos legistas em Portugal fizeram um favor a alguém ao concluírem que a morte do Luís Amorim não ocorreu por queda de altura elevada? Será que se enganaram tão redondamente ao afirmarem que o corpo apresentava lesões compatíveis com agressões? Tornou-se este um caso de rivalidade entre a qualidade dos profissionais portugueses e os da RAEM? É isso que se pretende provar?

E a verdade? Onde fica a verdade no meio disto tudo? Não é o poder judicial independente? Não é o poder judicial o garante da justiça e da dignidade dos cidadãos?

Perante tantas dúvidas que deixam os factos apresentados pelos autores, as versões das testemunhas, dos peritos, o vai e leva deste processo que chegou ao absurdo de ter as autoridades locais a remeterem para as portuguesas a condução desta investigação, afinal, não merecemos todos, pelo menos, um pouco mais? Nem que seja a dúvida razoável do próprio tribunal.

Porque o filho, o irmão, o colega, o aluno, o cidadão, esse, ninguém o pode devolver. Tragédias acontecem, todos os dias, em todas as partes do mundo. Mas a maior tragédia não parece ser o desaparecimento do jovem, mas sim a forma como a sua morte tem sido tratada ao longo dos anos.

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Fica em Macau, não voltes para o Continente  

[Seja como a água]

Elisa Gao

Conheci Philippe há dois anos, quando prestava assistência a uma produtora de Zhuhai incumbida de realizar uma curta-metragem sobre a cidade. Quase com quarenta anos e um olhar melancólico, o fotógrafo mostrou um interesse particular nos tempos que passei no Porto ao abrigo de um programa de intercâmbio estudantil. Depois de me ter escutado atentamente, Philippe deu-me um conselho que não mais esquecerei: “Se tiveres a oportunidade de ficar na Europa, não fiques em Macau. Se tiveres hipótese de ficar em Macau, não voltes para a China”, disse-me.

A sugestão apanhou-me de surpresa. Estava no primeiro ano de Mestrado na Universidade de Macau, mas morava em Zhuhai e todos os dias empreendia uma viagem de mais de duas horas para assistir a um par de horas de aulas ao início da noite. A maior parte dos meus colegas, sendo do Continente, cumpriam o mesmo ritual: mais baratos, os preços em Zhuhai tornavam a conveniência de se viver em Macau remotamente menos atractiva.

Tendo vivido a maior parte da vida na Suíça e com os olhos postos em oportunidades de negócio à sombra do Zermatt ou nas margens do Lago Leman, Philippe possuía uma pequena empresa em Zhuhai e encontrava-se também a concluir um programa de Mestrado na Universidade da Cidade de Macau. Apesar de ter um carreira aparentemente bem sucedida, o fotógrafo deixou claro que, mais do que a situação profissional, o que para ele importava era a qualidade de vida e a pressão social a que estava sujeito.

Comecei a remoer no que me disse. E se Phillippe tiver razão? E se os estudantes do Continente que estudam em Macau, muitos a milhares de quilómetros de casa, tiverem a ambição de permanecer no território? Será que é legítima?

Ao longo dos três anos que levo em Macau, recebi por várias vezes amigos e familiares do Continente. Guiei-os pelos becos e pelas ruelas da cidade, levei-os às Ruínas de São Paulo, a um ou outro templo, a uma ou outra igreja. Partilhei com eles boas conversas e melhores momentos. Todos, sem excepção, me bombardearam com as mesmas interrogações: “Em média, quanto ganha quem trabalha em Macau? E o custo de vida, é elevado? Se conseguisses trabalhar cá, quanto achas que ganharias mensalmente?”

Conheço alguns antigos estudantes do Continente, muitos com Mestrado e alguns com Doutoramento, que acabaram por ir trabalhar para casinos, para bancos ou para companhias de telecomunicações, em áreas associadas às novas tecnologias da informação. Um ou outro conseguiram emprego como tradutores, fulano e sicrano como jornalistas. Uma tornou-se mesmo apresentadora numa estação de televisão local. Os meus amigos do Continente estão convictos que trabalhar em Macau é sinonimo de uma melhor remuneração e, como tal, também de melhor qualidade de vida. Concordo parcialmente, tendo por base os salários mais elevados que por cá são pagos.

Há meio ano, recebi uma amiga de Shenzhen e o mesmo tópico voltou à baila. Expliquei-lhe, não sem um certo grau de entusiasmo, que teria provavelmente melhores condições económicas se lhe fosse dada a oportunidade de trabalhar em Macau. Discordou. Enquanto funcionária de um banco na mais vibrante das metrópoles da vizinha província de Cantão, a minha amiga aufere entre 5000 e 6000 renminbi, mas como é local, não tem necessidade de alugar casa ou, na pior das hipóteses, um quarto. Falou-me, ainda assim, de uma colega que vive num quarto por menos de 1000 renminbi, pagos mensalmente e assegurou-me que gasta também menos de 1000 renminbi com despesas de alimentação. Pode ainda comprar roupa barata ou em centros comerciais ou através do Taobao e chega ao fim do mês, garante-me, com 3000 renminbi. Eu não era a única amiga que ela tinha no território e ela fez questão de me lembrar de um amigo comum: trabalha numa empresa de informática, ganha entre 13 e 14 mil patacas mensais, paga quase quatro mil patacas patacas por um quarto e gasta em média 3000 patacas em alimentação. Aos gastos acrescem despesas com transportes e com o telefone e o peso da distância. Ao fim ao cabo, disse-me, “poupa o mesmo que eu. Como podes dizer que é melhor que Shenzen?”

Senti-me pequenina como uma gota de água, sem argumentos para continuar. O silêncio apoderou-se de mim e deixei de ter certezas.

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