O renascimento de Vénus?

Esta semana trouxe-nos agradáveis e, para muitos, inesperadas notícias sobre Vénus, pelo que vale a pena debruçarmo-nos um pouco sobre este tópico.

A seguir à Lua, Vénus é o objecto mais luminoso no céu nocturno. Este destaque levou os romanos a darem-lhe o nome da sua deusa do amor e da beleza, figura imortalizada por Botticelli e em variadas outras obras de arte e de literatura clássica.

Vénus é frequentemente designado de planeta-irmão da Terra, dado serem bastante próximos e terem tamanhos semelhantes. Mas as semelhanças entre os dois planetas terminam aí… Vénus é um planeta exótico, com várias peculiaridades que o distinguem claramente da nossa Terra. Por exemplo, um dia em Vénus dura mais que um ano, devido à sua lenta rotação sobre o seu próprio eixo. Outra particularidade invulgar é o facto de essa rotação ser no sentido oposto à grande maioria dos planetas do nosso sistema solar, o que leva a que o sol nasça a poente e se ponha a nascente.

A atmosfera de Vénus é muito rica em dióxido de carbono e nuvens ácidas com gotículas de ácido sulfúrico. A atmosfera é incrivelmente densa, sendo responsável por um gigantesco e opressor efeito de estufa. As condições à superfície são particularmente infernais: a pressão atmosférica é cerca de 90 vezes superior à terrestre e a temperatura encontra-se acima de 470 °C. Vénus é o planeta com a temperatura média mais alta do nosso sistema solar, que é suficientemente alta para derreter chumbo. Tais condições dificultam grandemente a observação e o estudo de Vénus com missões tradicionais.

Oásis ou miragem no inferno venusiano?

Apesar das condições incrivelmente inóspitas à superfície, a atmosfera venusiana tem um ambiente menos agressivo. O inesquecível Carl Sagan propôs em 1967, num célebre artigo na revista “Nature”, que as condições na alta atmosfera de Vénus seriam possivelmente convidativas para a existência de vida por terem uma temperatura mais amena (cerca de 20 a 30 °C), pressão moderada, exposição solar, e presença de dióxido de carbono.

Segundo alguns investigadores, a vida poderia ter surgido num período remoto da história de Vénus. Esta, poderia ter começado nos oceanos que existiram outrora neste planeta e, eventualmente, colonizado os sues continentes e atmosfera. O mesmo se passou no nosso planeta, onde encontramos actualmente várias centenas de espécies de micróbios na nossa atmosfera, que condicionam inclusivamente a nossa meteorologia!

O agudizar do efeito de estufa asfixiante de Vénus e a perda dos seus oceanos, teria dizimado qualquer vida que existisse à superfície, restringindo a sua presença a certas partes da atmosfera. Ora, a descoberta de fosfano reportada esta semana na revista “Nature Astronomy” está precisamente ligada a estas partes da atmosfera, a cerca de 50 km de altitude.

O fosfano (ou fosfina – hidreto de fósforo) é um gás que é geralmente visto como possível indicador da presença de reacções biológicas. No nosso planeta é um produto do metabolismo de algumas bactérias na ausência de oxigénio. Actualmente, não se conhecem outras maneiras de produzir este composto em planetas rochosos, sem ser como produto biológico. Além disso, as concentrações de fosfano detectadas em Vénus estão dentro dos valores normalmente esperados pela via de produção biológica.

Apesar destes resultados animadores, ainda é cedo para compreender o alcance real desta nova descoberta. Os autores deste novo estudo realçaram repetidamente que não consideram que estes resultados sejam prova da existência de vida em Vénus. As características únicas da atmosfera de Vénus não excluem a hipótese de que se venham a descobrir outros processos puramente químicos que possam gerar fosfano. A verdade é que sabemos ainda muito pouco sobre a dinâmica atmosférica venusiana e eventuais reacções químicas exóticas que aí possam existir.

Tal como defendido por Carl Sagan “Afirmações extraordinárias requerem provas extraordinárias”. Talvez exista vida em Vénus, mas o cenário mais provável continua a ser que o fosfano agora detectado não tenha origem biológica. No entanto, apesar de não ser a prova da existência de vida, este novo estudo tem o mérito de colocar este planeta novamente no centro das atenções e de nos mostrar que, após milénios seguidos a olhar para o seu brilho cativante no céu, Vénus ainda é capaz de nos surpreender.

André Antunes

Cientista

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A Fórmula de Macau

A história de Macau nasceu com sabor a mistério. A atmosfera de enigma sobre esses tempos iniciais apenas se adensou com o passar dos anos. Para os narradores de Macau, tornou-se comum lamentar a “conspiração de silêncio”, no dizer de José Maria ‘Jack’ Braga. Em 1845, Manuel Francisco de Barros, 2.º visconde de Santarém e guarda-mor da Torre do Tombo, escrevia que essa história “deixaram-na os nossos escritores envolta na maior escuridão”. Também Artur Levy Gomes, no seu  “Esboço da História de Macau”, de 1957, confessa que “escrever sobre os primórdios da nossa acção no Extremo Oriente é tarefa deveras embaraçosa, porque os nossos guerreiros seiscentistas eram, no geral, homens de poucas letras, e os tratantes, que sempre os acompanhavam, mais preocupados com os números do que com as letras, pouco ou nada nesse campo nos legaram”.

Terá sido em 1513 que os portugueses comandados por um mercador de Freixo de Espada à Cinta, Jorge Álvares, primeiro entraram no mundo chinês. Quatro anos depois, já com intenção de serem recebidos pelo imperador, chegaram a Cantão, a grande cidade do sul do Império do Meio, e importante centro de comércio internacional. 

“Mais tarde, veio-se a descobrir que essas pessoas adoravam comer crianças”, lia-se num memorial ao trono da autoria de um funcionário da dinastia Ming, em referência aos portugueses. “Eis a maneira de as preparar: põe-se a ferver um tacho enorme com água sobre o qual se coloca uma grelha de ferro. Retiradas daí com um escovão de ferro, tiram-lhes a pele amarga enquanto ainda revelam sinais de vida, abrem-lhes a barriga, retiram os intestinos e o estômago, cozinhando-as em banho-maria e comendo-as em seguida”. 

Segundo os historiadores Jin Guo Ping e Wu Zhiliang, os aterradores relatos, que se multiplicavam na altura e ainda se reproduziam “vários séculos depois”, faziam parte de um estratagema inventado pelas autoridades de Cantão. Era uma intriga em que participavam, mais a norte, zelosos censores descontentes com a aproximação dos “bárbaros” à corte do Império Celestial.

Com o rumor do canibalismo, o objectivo seria, “no caso de não conseguirem monopolizar os contactos com os portugueses, difamá-los para que não se estabelecesse uma ligação directa entre eles e a corte central dentro do sistema tributário”.

Se a antropofagia não passava de uma fantasia, o mesmo não se pode dizer do tráfico menores, que, na altura, era corriqueiro. 

Também o cronista João de Barros regista a compra e venda de crianças raptadas, e os rumores de que eram servidas como pitéus. O autor de “Décadas da Ásia”, obra escrita em parte com a ajuda de um escravo chinês – adquirido expressamente para a interpretação de documentação recolhida nas distantes terras orientais –, refere as cartas dos governadores de Cantão, que “diziam roubarmos os navios de estrangeiros”, e, mais grave, “que comprávamos moços e moças furtadas, filhos de pessoas honradas, e que os comíamos assados”. Estava à vista: “éramos terror e medo a todo aquele Oriente”. 

Apesar de grotesco, o retrato não desqualificava os portugueses de estabelecerem relações com a China. 

“O que excluiu os portugueses [do sistema de ‘comércio tributário’] foi o facto de a corte Ming logo ter sabido da conquista de Malaca, um estado vassalo leal”, de acordo com Fok Kai Cheong.

Nascido em Macau, em 1942, durante um dos períodos mais conturbados da vida da cidade, o historiador faleceu no passado sábado. A ele muito se deve a melhor compreensão destes primórdios tão resguardados entre as brumas do esquecimento e das lendas.

Na sua obra mais conhecida, “Estudos Sobre a Instalação dos Portugueses em Macau” (1996), Fok esclarece como o comércio entre estrangeiros e a China se fazia dentro de um rígido sistema sinocêntrico, no qual se alinhavam vassalos e um exclusivo senhor, que só negociava com quem reconhecia a sua soberania. “A recusa de Portugal em devolver o território conquistado de Malaca a um rei vassalo da China tinha desequilibrado o esquema universal das coisas”, no qual ao imperador, “Filho do Céu”, cabia, sobretudo, zelar pela harmonia. 

A presença dos “bárbaros” (era assim que se designavam “os outros”) em terra chinesa representava uma insólita desordem, pelo que era preciso equilibrar a balança cosmológica: permitir as trocas com os portugueses, garantindo, contudo, que cumpriam as obrigações, incluindo “o pagamento de taxas alfandegárias e subornos aos funcionários locais”. O mais importante, todavia, “era a sua tranquilidade”. 

Não só era sabido que os estrangeiros possuíam grandes navios mercantes e que do seu comércio marítimo seria de esperar uma regular fonte de rendimento – além do constante fluxo de produtos exóticos tão desejados pelo imperador –, como se entendia que a ocupação da pequena península levantava uma defesa perante os perigos de um mar infestado de piratas e contrabandistas. O governo Ming mostrava-se tolerante para com os portugueses por duas fundamentais e pragmáticas razões: os lucros do comércio e a protecção contra malfeitores. Era a “Fórmula de Macau”, que Fok Kai Cheong viria a cunhar. 

Abriam-se excepções e faziam-se compromissos. O sucesso desta “fórmula” dependia largamente do respeito pelas condições e da capacidade dos portugueses para não se meterem em conflitos. Para tal, tanto a dinastia Ming como a sucessora Qing exerceram apertada vigilância, motivadas, sobretudo, pela potencial colaboração de chineses rebeldes, desprezados traidores.

“Ao abrigo da ‘Fórmula de Macau’, os portugueses puderam permanecer até à devolução de Macau à China, em 1999. Como resultado, continuam a ser os únicos ocidentais que tiveram a chave para o sucesso das relações comerciais e culturais com a China por um período de tempo contínuo e prolongado”, escreveu Fok, num artigo académico, em 2011. “Por mais de quatrocentos anos, uma política chinesa de acomodação, benevolência e tolerância, combinada com a conformidade e tranquilidade portuguesas, tem sido a fórmula de sucesso para a realização de interesses económicos mútuos, e respeito e tolerância mútuos pela cultura e religião de cada um”. 

É costume dizer-se que a História é fundamental para perceber o presente e melhor imaginar o futuro, mas Fok Kai Cheong tornou isso evidente como poucos. De caminho, mostrou também que, se a História se repetir, daí não vem, necessariamente, mal algum.

Hugo Pinto

Jornalista

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No princípio era o fim

Na Ásia, o futuro é muito mais importante do que o passado e mais energia é gasta na adivinhação e nas profecias do que na história e na memória. A observação – mais palavra, menos palavra – é de Tiziano Terzani. 

Nas últimas décadas do século passado, o jornalista e escritor italiano testemunhava o desmoronar de um antigo mundo de culturas em tempos orgulhosas rendidas perante a chegada do “cavalo de Tróia” da modernização e do crescimento económico. Denunciava Terzani que o dinheiro e o consumismo substituíam os velhos valores orientais. Lamentava-se a tragédia de um continente que, “alegremente, cometia suicídio”. Como iam longe os tempos quando se resistia aos europeus que forçavam a abertura de portos asiáticos. Agora, sem o mínimo protesto, escancaravam-se as portas – não a potências colonizadoras, mas a empresas multinacionais. 

Terzani deixou no livro “Disse-me um Adivinho” (1995) o relato dessas viagens por terra e ao sabor de um ritmo que não se conformava ao da transformação a que assistia um pouco por toda a Ásia. 

Algumas cidades eram contemporâneas das glórias passadas de Macau (que também é referida no livro, brevemente). Antigos empórios. Apesar das promessas, nunca conseguiram sair da sombra do esplendor de outrora e ficaram a desbotar como especiarias esquecidas num armário. Malaca e George Town (Penang), por exemplo, mas também lá podiam estar Goa ou Aceh. De uma maneira ou de outra, estas cidades históricas aprenderam uma impiedosa, ainda que simples lição: nada dura para sempre. Sobretudo, os bons tempos. Macau sabe-o bem. 

Desde o fim da “Viagem da China e do Japão”, em meados do século XVII, que crises e transformações profundas fazem parte da sua história. No entanto, ao contrário de outros lugares onde a opulência nunca chegou a reaparecer com todo o fulgor, em Macau, a queda e a glória revezaram-se. Não houve fome que não tivesse dado em fartura, privação ou vício que não fosse oportunidade de negócio, nem grandeza que não tivesse sido decadente, apenas para tudo começar de novo. E assim sucessivamente.

Todavia, por mais previsíveis que fossem os passos desta contradança, em Macau, terra onde se aprendeu a viver do que o mar caprichosamente dava e tirava, nunca se deixou de ansiar pela estabilidade. 

No actual discurso oficial, essa palavra (ou uma sua variação, “harmonia”) raramente aparece sozinha. Normalmente, está associada a “prosperidade”, porque se considera que, sem uma, não há a outra. Nunca se insistiu tanto nessa ideia como por estes dias, mas não se estranhe se soar mais a obstinação do que a perseverança.

A lição foi aprendida há muito. Não foi ontem que Macau se tornou “o bom aluno”, outra expressão que também se tornou comum.

Nas primeiras décadas do século XVII, António Bocarro esclarecia Filipe IV de Espanha e III de Portugal que “não tem Sua Majestade outra renda alguma nesta cidade mais que a das ditas viagens, porque o rei da China, em cuja terra está, lhe arrecada os direitos de tudo e mais”. 

No “Livro das Plantas de Todas as Fortalezas, Cidades e Povoações do Estado da Índia Oriental” (1635), Bocarro procura desfazer eventuais equívocos: “A paz que temos com o rei da China é conforme ele quer”, pelo que, “ainda que houvessem fragatas e fustas de remo, nunca nos está bem levantarmos guerra à China, porque só com nos negarem o comércio, ainda que alcançáramos grandes vitórias, é o maior mal que nos podem fazer”.

Numa cidade fundada por mercadores, os seus moradores adquiriam os hábitos de quem está sempre aberto ao negócio e ao lucro, o supremo valor. É preciso estar de bem. Ou “saber estar”, como também se ouve muito por aqui.

Em Macau, evidenciou-se o pragmatismo. De uns e de outros. Não eram apenas os portugueses (e os outros estrangeiros que por aqui sempre andaram) a empenharem-se na construção de uma cidade de uma administração ambígua, complexa e sofisticada, feita de entendimentos, negociações, conluios, olhos bem abertos e fechados na altura certa. Para os estrangeiros, mas também para os chineses (comerciantes ou mandarins que beneficiavam de taxas e presentes), uma coisa era fundamental: a harmonia dos interesses.

Só que, como Bocarro deixara entender, “harmonia” podia ser um conceito esquivo, sobretudo, quando a relação se estabelece entre partes bastante desiguais. Essa diferença, que se pode caracterizar como a que existe entre senhorio e inquilino, era frequentemente usada a favor do primeiro. 

“A situação geográfica” do estabelecimento “não deve constituir motivo das nossas preocupações”, relatava um mandarim que aparece citado na “Breve Monografia de Macau” (1751). Afinal, a população do território rondava os “dois mil indivíduos, que se movimentam, como vermes, no botão da flor de lótus, incapazes de afectar o que quer que seja, nem nas águas nem nas terras do budismo”. Ali, onde não se plantava o que comer, “todos os víveres vêm aquém da Porta do Cerco”, que, “uma vez encerrada, é imediata a morte”. 

Essa certeza, ainda assim, não livrava de conflitos e, muitas vezes, foi usada ao (dis)sabor do momento, principalmente em tempos de crise, que acabariam sempre por serem entendidos como demonstrações de que a estabilidade era o que mais importava e se justificava.

Era natural que essa aspiração também se estendesse às narrativas e mitologias que serviram para fazer sentido de uma cidade entre dois impérios. Não deve causar espanto, por isso, que os extremos se conciliassem e até Salazar e Mao convergissem na consideração de que Macau não era uma colónia portuguesa. Pelo menos, não no sentido que era dado pelas Nações Unidas, que falavam em “territórios cujos povos não tenham atingido a plena capacidade de se governarem a si mesmos”. Assim, para Lisboa, Macau passava oficialmente a “província ultramarina”, enquanto de Pequim se via o estabelecimento como “território chinês ocupado pelas autoridades portuguesas”. Pouco importava que o gesto pudesse ser desvalorizado como um mero desvio semântico. 

Entendia-se que não havia nenhuma vontade de autodeterminação na pequeníssima Macau, como também não havia qualquer ideia à qual toda a população se visse forçada a aderir, uma cultura ou identidade distintamente locais e únicas, que servissem de denominador comum. Como acontecia no outro lado do Delta do Rio das Pérolas, em Hong Kong. 

Além do mais, ainda que a vocação da antiga colónia britânica fosse igualmente a de um entreposto comercial, a sua fundação dera-se no contexto de uma guerra e de um negócio proibido, o ópio. 

Hoje, Hong Kong e Macau continuam a viver a sua relação com a história. Confronto e afirmação de identidade numa, pacificação e integração na outra. 

É como se a história tivesse chegado ao fim no preciso momento em que começava.

Hugo Pinto

Jornalista

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Para o Infinito e Mais Além: Astrobiologia e a Procura de Vida no Universo

Será que estamos sós no Universo? Esta é provavelmente uma das maiores questões que a Humanidade já se perguntou e é, sem sombra de dúvidas, umas das últimas fronteiras do mundo da Ciência. A procura de pistas para uma eventual resposta a esta questão está sob a alçada da Astrobiologia- uma nova área de investigação transdisciplinar que junta biólogos, geólogos, químicos, cientistas planetários, entre outros. A Astrobiologia estuda a Vida no Universo: a sua origem, distribuição e evolução.

Os últimos anos têm trazido novas tecnologias e novos intervenientes na área espacial. Apesar disso, estamos ainda longe de podermos contar com o retorno de amostras recolhidas directamente em Marte ou dos oceanos das luas geladas de Saturno e Júpiter – fortes candidatos para a descoberta de vida noutro ponto do nosso Sistema Solar. Até isso acontecer, uma importante parte da investigação em Astrobiologia está assim ligada à microbiologia e à exploração de ambientes extremos no nosso próprio planeta. 

A exploração dos lugares mais recônditos e exóticos da Terra — desde as profundezas geladas do oceano, passando pelas águas em ebulição de nascentes hidrotermais, ou até pelo interior de reactores nucleares — tem-nos revelado uma inesperada biodiversidade, e um vasto mundo inexplorado de novas e exóticas espécies de micróbios perfeitamente adaptados a essas condições. Alguns destes locais inóspitos são considerados “ambientes análogos”, visto que partilham várias características em comum com os que encontramos fora do nosso planeta. No contexto de ambientes análogos de Marte, o foco incide maioritariamente sobre ambientes áridos, com elevada exposição a raios UV, e com muito sal. Para ambientes análogos das luas geladas Europa e Encélado, temos que olhar para ambientes polares e para as fossas abissais dos nossos mares e oceanos.

Muitos destes ambientes foram durante bastante tempo considerados estéreis devido ao seu carácter inóspito (pelo menos segundo a nossa perspectiva). Sabemos hoje que isso não é verdade, dada a enorme capacidade de adaptação e resistência que observamos no mundo dos micróbios. O estudo destes ambientes extremos permite-nos perceber melhor quais são os verdadeiros limites da vida e conseguir melhorar a nossa capacidade de previsão dos limites habitáveis do nosso Sistema Solar e mais além. Para além disso, dado que os micróbios são essenciais para sustentar toda a Vida na Terra, é vital confirmar a sua capacidade de crescerem e serem eventualmente usados em vários tipos de ambientes no espaço. A sustentabilidade da presença humana no espaço a longo prazo está intimamente ligada com a capacidade de podermos contar com micróbios para produção de comida, medicamentos, reciclagem e suporte de vida, entre muitíssimas outras.

Outros aspectos da Astrobiologia prendem-se com o estudo do aparecimento da vida, e na escolha dos melhores métodos para detectar indícios da presença de vida presente ou passada noutros planetas. O tamanho reduzido dos micróbios diminui a viabilidade de procurar registos fósseis, pelo que é necessário aplicar técnicas moleculares de detecção de biomoléculas – uma tarefa que não é fácil!

Protecção Planetária

Com o crescente aumento da probabilidade de encontrarmos sinais de vida noutras partes do Sistema Solar, aumentam também os cuidados que temos que ter. Estudos científicos demonstraram que vários micróbios têm capacidade de sobreviver à exposição a condições espaciais, e até potencialmente de se propagar noutros planetas. É assim necessário assegurar que há medidas de controlo que previnam a possível contaminação de outros planetas com micróbios que poderão ir à boleia das nossas missões espaciais.

Estas normas de protecção planetária são essenciais para evitar comprometer eventuais resultados positivos das sondas e sensores que procuram sinais de vida extra-terrestre, que acabariam por detectar estes contaminantes terrenos. Mais importante ainda, a possível proliferação destes micróbios invasores poderia levar ao colapso total de ecossistemas alienígenas, antes ainda de sabermos que eles existem. Cuidados redobrados são também impostos para o futuro envio de amostras marcianas para a Terra. As regras de protecção planetária são alvo de coordenação à escala global, sendo regularmente revistas e discutidas pelas várias agências espaciais, incluindo a Chinesa.

O papel de Macau

Esta discussão científica de fundo não passa ao lado de Macau. Este nosso cantinho do Mundo foi escolhido para acolher o único laboratório de referência estatal para as Ciências Lunares e Planetárias em 2018. O laboratório, situado na Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau, criou recentemente uma unidade de investigação dedicada à Astrobiologia com o apoio do Fundo para o Desenvolvimento das Ciências e da Tecnologia (FDCT). Esta unidade (liderada por mim) é única em toda a China, e tem por missão ser o ponto focal para as actividades de Astrobiologia em todo o país, bem como informar futuras missões em busca de sinais de Vida fora da Terra.

Macau está cada vez mais na linha da frente da investigação na área espacial, e ganha uma visibilidade crescente a nível regional e global. O desenvolvimento do cluster espacial em Macau é uma notícia a saudar tendo em conta os crónicos apelos para a diversificação do território e as tentativas de dissipar de vez a imagem redutora, mas persistente, de Macau como capital do jogo e nada mais.

André Antunes

Cientista

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A política suave no cinema da China continental: As implicações transfronteiriças de “The Eight Hundred” na Xangai de 1937

A popularidade de um novo filme da China continental, “The Eight Hundred”, tem implicações políticas significativas para as relações entre a República Popular da China (RPC) e a República da China (ROC) em Taiwan numa conjuntura em que as tensões são relativamente elevadas.

“The Eight Hundred” é um filme de guerra lançado oficialmente a 21 de Agosto para coincidir com o 75º aniversário da vitória da China contra a invasão japonesa. Estava originalmente programado para ser lançado a 25 de Junho, mas por razões desconhecidas a data do lançamento do filme foi adiada para Agosto. Nas circunstâncias em que apenas 50% da capacidade de todas as vendas de bilhetes de cinema é permitida devido às restrições de distanciamento social, “The Eight Hundred” está a ter impacto nas bilheteiras. Muitos analistas de cinema disseram que a popularidade do filme assinala o ressurgimento da indústria cinematográfica da China continental, que sofreu economicamente durante o surto da Covid-19 no início da primeira metade de 2020.

O filme é sobre um grupo de 423 soldados do 88º Exército do Kuomintang que defenderam corajosamente o armazém de Sihang em Xangai durante quatro dias e quatro noites, de 26 de Outubro a 1 de Novembro de 1937. O número 800 era fictício em 1937 quando o comandante do Kuomintang (KMT), Xie Jinyuan, quis confundir os forasteiros de que o armazém Sihang estava fortemente guardado contra o exército imperial japonês. O Generalíssimo do KMT, Chiang Kai-shek, ordenou a um pequeno batalhão do 88º Exército que defendesse corajosamente o armazém, para que os países estrangeiros na colónia internacional de Xangai pudessem apreciar a coragem do exército chinês contra a agressão japonesa. De certa forma, a batalha do armazém Sihang foi concebida por Chiang Kai-shek como uma tentativa de conquistar os corações e as mentes do mundo internacional contra a agressão militar do Japão contra a China.

Este filme é exibido numa altura politicamente sensível, em que tanto a China continental como Taiwan deparam-se com relações militares relativamente tensas, um problema agravado pela deterioração das relações sino-americanas. 

O filme foi também exibido numa altura em que o Presidente da RPC Xi Jinping, a 2 de Setembro, proferiu um discurso no 75º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial em Pequim. Acompanhado pelo Primeiro Ministro Li Keqiang e pelo Vice Presidente Wang Qishan, o Presidente Xi salientou que tanto a China como a Rússia sofreram tremendamente durante a Segunda Guerra Mundial – uma observação que aponta implicitamente para a relação actualmente harmoniosa entre a China e a Rússia, uma vez que as relações entre os EUA e a China encontram-se num estado de ruína após a normalização das relações dos EUA com a RPC em Janeiro de 1979.

O Presidente Xi também assinalou que “o povo chinês nunca concordaria com qualquer povo e forças que tentassem distorcer a história do Partido Comunista Chinês (PCC), vilipendiando a natureza e propósito do PCC … [e que] o povo chinês nunca concordaria com qualquer povo e forças … que tentassem impor as suas vontades à China, de forma a mudar o rumo de marcha da China em direcção ao progresso – e obstruir o trabalho árduo do povo chinês para criar – uma vida melhor”.

Os comentários de Xi talvez tenham sido implicitamente dirigidos ao Secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, cujos comentários têm sido frequentemente dirigido ao PCC. Os comentários do Presidente Xi poderiam talvez ser interpretados como um pensamento de fundo da liderança do PCC sobre toda uma série de questões, desde a visão da RPC sobre a sua soberania sobre Taiwan, e a sua posição de que as relações tensas em curso entre a China e a Índia se devem à “responsabilidade do lado indiano”. Coincidentemente, a 4 de Setembro, o Ministro da Defesa da RPC, Wei Fenghe, manteve conversações com o homólogo indiano Rajnath Singh, em Moscovo, sobre a forma de desanuviar as tensões ao longo da fronteira entre a China e a Índia, porque em finais de Agosto eclodiu mais um confronto que resultou na alegada morte de um soldado indiano. O lado chinês insistiu que a Índia ocupou uma série de posições estratégicas na margem sul do lago Pangong e que o exército indiano consolidou a sua presença nas áreas do Finger 2 e Finger 3.

A forte exibição de “The Eight Hundred” pode não ser totalmente compreendida por alguns observadores chineses fora da RPC, pois a sua popularidade sublinha o aumento do nacionalismo chinês assertivo em toda a RPC, especialmente numa altura em que o Governo Central relativamente fortalecido tem mostrado uma liderança eficaz para controlar a propagação da Covid-19 através da sua intervenção decisiva e medidas rigorosas em todas as províncias e cidades.

A exibição do filme revela algumas características do tratamento dado por Pequim ao seu conteúdo político e ao seu apelo suave, mas oculto a Taipé.

Primeiro, enquanto o filme retrata a resistência heroica dos soldados chineses contra o exército japonês em 1937, alguns críticos de cinema fora da RPC apontaram para a exibição obscura da bandeira da ROC, que era alvo de ataque por parte de aviões militares japoneses, de acordo com o filme.

Contudo, dado o consenso alcançado em 1992 entre o PCC e o KMT, o significado de uma China está aberto a interpretações de ambos os lados. Isto significa que, da perspectiva da RPC, qualquer exibição da bandeira nacional deve e tem de ser a bandeira da RPC. Como tal, a forma “obscura” de lidar com a bandeira no filme foi e é compreensível.

Esta obscuridade é, sem dúvida, um gesto oculto ao Partido Democrático Progressista (DPP) no poder em Taiwan, que ainda não reconheceu o consenso de 1992.

Segundo, o filme é exibido numa altura em que o sentimento público de Taiwan rejeita o sistema “um país, dois sistemas” para o futuro político de Taiwan; no entanto, elogia o heroísmo do batalhão do KMT, mostrando uma espécie de nostalgia por parte do PCC sobre o domínio do KMT em Taiwan.

Já lá vão os dias em que o antigo Presidente Ma Ying-jeou encontrou-se com o Presidente Xi Jinping em Singapura, em Novembro de 2015. Desde que o DDP regressou ao poder em Janeiro de 2016, o KMT tem vindo a actuar de forma pouco brilhante, à excepção da efémera popularidade de Han Kuo-yu, antigo presidente da câmara do KMT em Kaohsiung.

Se o KMT em Taiwan permanecer relativamente fraco, a esperança de outra regra do KMT em Taiwan é remota. Por conseguinte, a exibição do filme “The Eight Hundred” no continente pode ser interpretada como uma nostalgia continental sobre o período de lua-de-mel em que o PCC e o KMT não só formaram uma frente unida contra os invasores japoneses durante a Segunda Guerra Mundial, mas também chegaram a um consenso informal sobre o seu “desenvolvimento pacífico” durante a reunião Xi-Ma em Singapura, em Novembro de 2015.

Em terceiro lugar, se o filme, “The Eight Hundred”, representa os esforços da frente unida e suave do PCC em direcção ao KMT, a próxima visita do antigo Presidente da Assembleia Legislativa de Taiwan, Wang Jin-pyng do KMT, a Xiamen para participar num Fórum Cross-Strait merece a nossa atenção.

A visita de Wang será provavelmente significativa do ponto de vista político porque, sob o novo presidente do KMT Jonny Chiang, o Comité Central do KMT reviu a sua posição sobre as relações entre os dois lados do estreito a 2 de Setembro, adoptando os oito pontos de Chiang. Primeiro, “a constituição ROC é uma base legal que estabelece a democracia e a liberdade de Taiwan, estabiliza e liga as relações entre ambos os lados do estreito”. Segundo, os dois lados “devem respeitar a existência de facto da ROC e determinar o espaço desfrutado pela ROC”. Terceiro, o consenso de 1992 foi “uma tentativa bem-sucedida de ambas as partes de concordarem em discordar, e de procurarem a coexistência mútua”. Quarto, o KMT “opõe-se resolutamente à independência de Taiwan e ao sistema ‘um país, dois sistemas’ do PCC,” porque estes dois elementos “destruiriam o estatuto nacional soberano do ROC”. Quinto, “a China continental deveria abandonar o uso da força contra Taiwan e ambos os lados deveriam dar um exemplo de resolução pacífica de disputas”. Sexto, Taiwan “deveria acelerar o processo de legislar sobre os acordos entre as duas margens do Estreito e de promover o Acordo-Quadro de Cooperação Económica (ECFA)”. Sétimo, o KMT “estabelecerá primeiro os critérios das interacções entre as duas partes, incluindo o pessoal do KMT que deve seguir este âmbito de comportamento”. Oitavo, “os dois lados oficiais devem proteger as interacções humanas de ambos os lados para evitar perturbar os intercâmbios normais, incluindo a liberdade pessoal e os direitos básicos do povo de Taiwan, bem como o direito dos habitantes do continente de serem protegidos contra a discriminação em Taiwan”.

Parece que a fórmula de oito pontos de Chiang mudou ligeiramente o KMT para “azul claro”. Os primeiros três pontos parecem ser politicamente aceitáveis para o PCC. O quarto ponto, contudo, necessita do reajustamento da política do CCO em relação a Taiwan, pois o KMT adopta uma posição clara de rejeição do sistema “um país, dois sistemas”. O quinto ponto será provavelmente negociável do lado da RPC, dependendo da forma como Taiwan “se comporta”. O sexto, sétimo e oitavo pontos parecem ser suaves e aceitáveis para o PCC, mas estas três áreas constituem a espinha dorsal da discórdia entre o KMT e o DPP.

Johnny Chiang e os seus conselheiros do KMT, de acordo com relatórios de Taiwan, querem diluir o consenso de 1992 sobre como os dois lados interpretam o significado de uma China – uma posição que foi alegadamente aceite por Ma Ying-jeou. A nova liderança do KMT espera que, diluindo tópicos relacionados com as relações entre os dois lados, o KMT tenha um melhor desempenho nas eleições autárquicas de Taiwan em 2022.

Assim, as mudanças em curso na política do KMT em relação às relações entre os dois lados do estreito são correspondidas por coincidência pela popularidade do filme “The Eight Hundred”. Se a popularidade crescente do filme assinala o esforço frontal de união e suavidade feito pelo PCC em relação ao lado de Taiwan, então as próximas conversações entre Wang Jin-pyng do KMT e o lado do PCC vão merecer a nossa atenção.

Sonny Lo Shiu Hing

Autor e Professor de Ciência Política

Este artigo foi publicado originalmente em inglês na Macau News Agency/MNA.

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Todo o tempo do mundo

Macau é uma terra infinitamente pequena. Não é apenas porque está constantemente a aumentar e, mesmo assim, por mais aterros que se construam, continua a ser um diminuto território; há mais de incomensurável (e paradoxal) nesta exígua geografia que se expande e expande, sem deixar, todavia, de ser pouco mais do que minúscula.

Na falta de espaço, tudo se concentra. É a densidade populacional, que raia os limites do suportável, mas também – sobretudo – o tempo. Os tempos. Passado, presente e futuro justapõem-se por toda a parte. São forçados a conviver. A sobreposição, como os contrastes e as contradições, tornaram-se parte da cidade. Tão comuns que já mal se dá pela sua existência.

Talvez por isso, e porque quem vinha de fora estaria mais atento, ou, pelo menos, mais disponível para se deixar impressionar, descobrir os vestígios de outras eras converteu-se no passatempo de incontáveis viajantes. Muitos, que viviam próximo, em Hong Kong, passariam a ser visitas regulares. Especialmente a partir da segunda metade do século XX, foram encontrando em Macau o que já se tinha perdido na antiga colónia britânica, resquícios de tempos lembrados com nostalgia, numa espécie de exotismo deslocado – uma vista e um sabor europeus transplantados na costa chinesa. Aqui, podiam refugiar-se no passado.

Os tempos correram e a cidade que resistia à modernidade foi baixando guardas. Perante as transformações na silhueta secular, multiplicaram-se os lamentos.

O “camartelo do progresso” é talvez o som mais marcante da Macau dos últimos anos (décadas?). Obras, obras, obras por todo o lado. Perde-se a conta (e, pior, perde-se a memória) dos edifícios que foram descaracterizados ou simplesmente desapareceram, dos mais anónimos e genéricos aos mais importantes e característicos, como as “shophouses” do Porto Interior e arredores, os exemplares de inspiração modernista (caso da Escola Lou Kong Chi Tai, de 1952, em frente ao resistente Cinema Alegria), ou, ainda, os velhos casarios abandonados que vão dando lugar a prédios indistintos.

Mas nem tudo está perdido. Mais do que nunca, existe hoje uma preocupação com a defesa do património, já encarado por uma boa parte da população com um sentimento de pertença. Parecem também ser cada vez mais (serão uma minoria, ainda assim) os empresários que compreendem o valor do “antigo”: dos grandes investidores interessados em recuperar os dois históricos hotéis da Avenida de Almeida Ribeiro (Central e Grand Hotel), ou o Teatro Capitólio, até aos pequenos comerciantes que abrem os seus estabelecimentos de comida decorados à moda dos típicos restaurantes de Macau. É certo que o simulacro de uma cidade de outros tempos não é a ideia mais promissora, mas talvez estas iniciativas possam ser entendidas como um passo na direcção certa, se servirem para sublinhar a importância de proteger a herança local. O que nem sempre foi óbvio.

Numa cidade sempre escassa, tudo se acomoda de um modo particular. “É isto: verso e reverso, lustres e casebres, fortunas e misérias, favores e injustiças, despotismo e sorrisos largos – tudo encavalitado, caleidoscópico”, resumiu Henrique Rola da Silva, um dos finos observadores dos anos finais da administração portuguesa. 

Na imaginação popular, cristalizaram-se certos clichés que nos falam de uma Macau dividida, mas estranhamente unida. Mesmo os estereótipos sobre a cidade remetem-nos para terrenos de ambiguidade. De incerteza.

O poeta inglês W. H. Auden disse-o melhor: “A Portugal-cum-China oddity”, “uma esquisitice de Portugal e da China”. Quando por aqui passou, Auden viu mais do que as “imagens rococó de Santos e do Salvador” em solo chinês, e mais do que os bordéis ao lado de igrejas. 

Pouco depois de ter rebentado a segunda Guerra Sino-Japonesa, numa altura em que já se sabia que o mundo era um lugar perigoso, em Macau, os pecados que se cometiam eram todos passíveis de perdão. “Nada de grave aqui poderá acontecer”. Se era um porto de paz ou de águas estagnadas que Auden viu em Macau, não sei dizer com certeza. Talvez ambos.

É essa síntese que tem tanto de atraente como de esquiva que Macau vai, pacientemente, actualizando. É verdade que já não há muralhas a repartir a cidade entre o burgo cristão e o bazar chinês, mas também é verdade que outros muros se levantaram – alguns no interior das mentes, os mais difíceis de derrubar. Macau, no entanto, continua a desafiar ideias feitas e a provar que é maior do que a soma das suas muitas partes. 

Por vezes, contudo, faz-se a cidade ainda mais pequena do que ela já é. Por exemplo, quando se reduz a história e as memórias a uma mera passeata nostálgica, sentimental e edulcorada, de preferência exclusivamente entre amigos. 

Entre quem faz investigação em Macau – jornalística ou historiográfica –, é comum exasperar perante os múltiplos obstáculos nos quais frequentemente se esbarra. Não são só os serviços públicos e as instituições, incluindo as privadas, que se recusam a colaborar; faltam vozes, testemunhos, fontes disponíveis para contar, até, as histórias mais inócuas – do presente ou do passado. Não são apenas livros e artigos que ficam por escrever; é a memória e a história que ficam mais pobres se o silêncio vai pesando como um pisa-papéis, assegurando que nada voa e se extravia.

Por mais tempo que aqui passemos e por mais que aprendamos sobre a cidade, continua a ser motivo de espanto descobrir o que havia e desapareceu, ou o que se planeou e não se cumpriu, os lados da história em que se esteve e deixou de estar, as curiosidades que perduraram, os sentidos que se fizeram. 

Também o passado, em Macau, com tudo o que ainda tem para nos dizer, deve ser encarado como um espaço de liberdade – tem a distância e a profundidade que nem o presente nem a geografia infelizmente possuem. Permite-nos viajar.

É fácil compreender que o apelo do futuro é inescapável. Chama por todos. No entanto, mesmo em terra de bonzos, não há maneira de saber com certeza o que aí vem; não há nada a que nos possamos agarrar. Excepto, talvez, o passado. E se há coisa que não falta em Macau é passado.

Hugo Pinto

Jornalista

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Um destino demasiado distante: A Política da Evasão de Hong Kong para Taiwan

A detenção de 12 pessoas de Hong Kong numa lancha pela guarda costeira da China continental a 26 de Agosto deixou em evidência não só as dificuldades de alguns activistas de Hong Kong em conseguirem a fuga da Região Administrativa Especial de Hong Kong (RAEHK) para Taiwan, mas também a resposta cautelosa do governo de Taiwan.

A polícia marítima chinesa continental revelou que às 9 horas da manhã de 23 de Agosto, um dos seus navios patrulha interceptou uma lancha que transportava 12 pessoas de Hong Kong, incluindo Andy Li e outros onze jovens que tentaram ser levados ilegalmente para longe da RAEHK. Os meios de comunicação de Hong Kong noticiaram que os 12 jovens, incluindo onze homens e uma mulher, eram activistas que tinham sido antes detidos pela polícia pelo seu envolvimento no movimento anti-extradição de 2019. Foram agora detidos pela polícia marítima do continente a 78 quilómetros da ilha de Hong Kong e a 600 quilómetros de Taiwan.

Aparentemente, estes jovens fugiram de Hong Kong para tentarem escapar à implementação da lei de segurança nacional, que foi promulgada pelo Comité Permanente do Congresso Nacional do Povo a 30 de Junho de 2020. Para eles, Taiwan representava um destino “livre” e “democrático”.

Andy Li fora anteriormente acusado de violar a nova lei de segurança nacional e libertado sob fiança. Em Novembro de 2019, de acordo com relatórios de Hong Kong, terá feito lobby junto de alguns políticos estrangeiros para visitarem Hong Kong e observarem a sua evolução política. Dos outros onze jovens detidos, dois eram suspeitos de fabrico de explosivos; quatro eram suspeitos de terem cometido fogo posto; dois ainda eram acusados de motim; e três outros eram acusados de causarem danos corporais. Dos 12 activistas detidos, oito deles não estavam autorizados a sair de Hong Kong. Um deles não compareceu a julgamento em tribunal e sobre si pendia um mandado de captura.

A reacção do Conselho de Assuntos do Interior do governo de Taiwan foi cautelosa. O seu vice-ministro Chiu Chui-cheng observou que, se a população de Hong Kong e Macau quiser a ajuda de Taiwan por motivos políticos, deverá seguir o mecanismo existente ao abrigo da lei que rege as relações com Hong Kong e Macau. Acrescentou que os residentes de Hong Kong deverão seguir os canais legais se desejarem mudar-se para Taiwan.

Numa altura em que o continente tem conduzido frequentemente exercícios militares, e quando o Presidente de Taiwan Tsai Ing-wen disse explicitamente a 27 de Agosto que está preocupado com quaisquer incidentes militares entre Taiwan e Pequim, Taipé não quis antagonizar a liderança chinesa continental apoiando abertamente os dissidentes de Hong Kong que fugiram ou tentaram fugir para Taiwan.

O artigo 18 da Lei que rege as relações com Hong Kong e Macau estabelece que, “se os residentes de Hong Kong ou Macau puderem ter a sua segurança e liberdade ameaçadas urgentemente por razões políticas, poderão receber a ajuda necessária”. Esta estipulação permite algum espaço de manobra ao governo de Taiwan no tratamento dado aos dissidentes políticos de Hong Kong.

A tentativa de fuga falhada dos 12 jovens de Hong Kong deveu-se à intercepção da sua lancha pela polícia marítima do continente, na manhã de 23 de Agosto. Em resultado disso, uma organização de Taiwan que os assistia perdeu o contacto com a mesma lancha às 22 horas na noite de 23 de Agosto.

Segundo consta, havia três rotas marítimas para os activistas de protesto de Hong Kong fugirem para Taiwan. Primeiro, podiam utilizar lanchas rápidas para irem directamente de Sai Kung até Kaohsiung. Em segundo lugar, podiam utilizar lanchas rápidas para se dirigirem a regiões costeiras da China continental, onde mudariam para transporte terrestre a fim de chegarem a Xiamen, em Fujian. De Xiamen, poderiam ser contrabandeados para Kinmen – uma rota que combina rotas marítimas e terrestres, com enormes riscos. Em terceiro lugar, poderiam ir para a ilha de Dongsha em Taiwan, situada a cerca de 300 quilómetros de Hong Kong, e daí ser transferidos para Pingtung, em Taiwan. 

Foi antes noticiado que, em Julho, dois grupos de activistas conseguiram escapar de Hong Kong para Taiwan, um através da rota marítima para Kaohsiung e o outro usando a rota para Pingtung. O primeiro grupo era composto por cerca de uma dezena de activistas, que conseguiram chegar a Kaohsiung. Um outro grupo era composto por cinco activistas, cuja lancha acabou por ficar sem gasolina e foi desviada para Dongsha, onde a administração da guarda costeira de Taiwan os recolheu.

A passagem marítima de Hong Kong para Pingtung foi o caminho escolhido pelo cabeça de cobra (nome dado aos contrabandistas envolvidos em operações de imigração ilegal) que lidava com os 12 manifestantes agora detidos; a sua lancha foi interceptada pela polícia marítima continental, em boa parte devido ao reforço do patrulhamento resultante das relações militares tensas entre a China continental e Taiwan. Talvez os activistas de Hong Kong detidos tenham escolhido um mau momento para fugir de Hong Kong para Taiwan – revelou-se “uma ponte demasiado distante” para eles. Com a promulgação da lei de segurança nacional para Hong Kong, as forças policiais na RAEHK e no continente aumentaram a sua vigilância e as patrulhas navais para evitar que activistas sejam contrabandeados para Taiwan. 

Desde Junho de 2019, pelo menos 200 activistas de Hong Kong refugiaram-se em Taiwan. Alguns deles sentem saudades de Hong Kong. Mas outros estão a adaptar-se gradualmente à vida em Taiwan. E a maioria tem sido assistida por activistas religiosos e de direitos humanos de Taiwan, que são solidários com a sua situação difícil.

Lam Wing-kee, que era proprietário da Livraria Causeway Bay em Hong Kong e que foi “enviado” de Shenzhen para a província de Zhejiang em Outubro de 2015 no âmbito de uma investigação sobre livros politicamente sensíveis publicados pela sua empresa, decidiu migrar para Taiwan em Abril de 2019, antecipando já a introdução da lei de extradição na RAEHK. Reabriu, entretanto, a Livraria Causeway Bay em Taipé. O seu exemplo talvez tenha encorajado alguns jovens dissidentes de Hong Kong a escaparem também para Taiwan.

Advogados envolvidos no caso disseram que os doze jovens agora detidos em Shenzhen serão julgados no continente, onde podem enfrentar penas de prisão por passagem ilegal da fronteira. Se condenados, só serão reenviados para Hong Kong depois de cumprirem as suas penas na China continental. A sua detenção revela os enormes riscos subjacentes à rota marítima de fuga de Hong Kong para Taiwan – uma operação de contrabando ilegal que, de acordo com notícias recentes, pode envolver pagamentos de dezenas de milhares ou mesmo 500 mil ou 1 milhão de dólares de Hong Kong, dados os perigos associados a este tipo de empreendimento.

A resposta cautelosa do governo de Taiwan, liderado pelo Partido Democrático Progressista (DPP), terá porventura ilustrado o seu actual dilema. Recentemente, o ex-Presidente, Ma Ying-jeou, do Kuomintang (KMT) criticou a liderança do DPP não só por não reconhecer o consenso de 1992 entre a República Popular da China (RPC) e a República da China (ROC) sobre Taiwan, mas também por colocar as relações Pequim-Taipé numa atmosfera militarmente tensa. Ma avisou que qualquer ataque militar continental a Taiwan seria provavelmente “o primeiro e o último”. As elites pró-PDPP criticaram as observações de Ma, classificando-as de “antipatrióticas”. 

O súbito ressurgimento de Ma põe em evidências as rivalidades entre facções no seio do KMT, que tem sofrido com o afastamento do antigo presidente da câmara de Kaohsiung, Han Kuo-yu, e com a pesada derrota sofrida pelo seu candidato seguinte, Jane Lee, face ao candidato do DPP, Chen Chi-mai, nas eleições parciais de 15 de Agosto. O mau desempenho eleitoral de Jane Lee é testemunho da fraca liderança do KMT e parece estar a levar a velha guarda a tentar a redenção política do ex-Presidente Ma Ying-jeou.

Hipoteticamente falando, se o KMT estivesse hoje no poder em Taiwan, o seu tratamento dos dissidentes políticos de Hong Kong poderia ter sido bastante diferente das cautelas e da falta de jeito reveladas pelo DPP. O KMT poderia ter feito uso dos dissidentes de Hong Kong como moeda de troca potencialmente valiosa para negociar com o Partido Comunista Chinês (PCC) em quaisquer discussões sobre as futuras relações entre Taipé e Pequim. 

Os decisores políticos da RPC, na sua abordagem dura às questões de Hong Kong, poderão não ter calculado inteiramente que, se o KMT puder um dia voltar ao poder nas eleições presidenciais de Taiwan, provavelmente utilizará a situação dos dissidentes de Hong Kong em Taiwan como moeda de troca para obter algumas concessões do PCC. 

Rejeitando o consenso de 1992 em que tanto o PCC como o KMT reconheceram que existe apenas uma China, embora deixando a definição de uma China para interpretações diferentes de ambos os lados, o DPP é ironicamente prejudicado pela sua oposição tanto ao PCC como à própria RPC. Talvez por isso, a resposta relativamente fraca do DPP à fuga dos activistas de Hong Kong para Taiwan acaba por ser compreensível.

Em suma, desde os protestos de 2019 na RAEHK, a fuga de dissidentes políticos de Hong Kong para Taiwan tornou-se um marco nas relações Hong Kong-Taipé. A resposta do regime do DPP em Taiwan continua aparentemente cautelosa e substancialmente fraca, e a recente fuga falhada dos doze activistas torna claro que Taiwan é hoje um destino demasiado distante para os dissidentes de Hong Kong, ao mesmo tempo que revela as profundas clivagens políticas internas em Taiwan e o crescente antagonismo entre o Partido Comunista chinês e o partido no poder em Taipé. 

 

Sonny Lo Shiu Hing

Autor e Professor de Ciência Política

Este artigo foi publicado originalmente em inglês na Macau News Agency/MNA.

 

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Mais por contar

Há quem diga, de forma bem filosófica e profunda, que morremos sozinhos. Pois, para os que ainda não se deram conta: é mentira! Nascemos talvez com menos “companhia”. Mas durante toda a nossa vida ficamos cada vez mais longe dessa solidão filosófica. Na maioria das vezes somos até indiferentes aos nossos “companheiros de viagem”, um pouco como o senhorio de um prédio em relação aos seus inquilinos. Esperamos que tudo seja gerido de forma funcional, mas não nos damos ao trabalho de conhecer os ocupantes. Se considerarmos que nós somos o dono do prédio, sendo o prédio o nosso corpo, na verdade os nossos inquilinos são tantos que nem com muito boa vontade os conseguiríamos conhecer a todos. E mais, conhecê-los não nos permitiria nenhum tipo de interação que nos fizesse sentir algum companheirismo.

Para termos uma noção da vida que nos acompanha diariamente, convém percebermos de que tipo de vida estamos realmente a falar – microorganismos. Esses seres de escala reduzida, que também chamamos de micróbios e que normalmente só conseguimos ver com a ajuda de microscópios. A variedade destes nossos vizinhos e inquilinos é tanta que existem nas mais variadas formas (algumas que achamos tão estranhas que nos parecem alienígenas) e tamanhos. E é quando nos começamos a dar conta da enormidade de diferentes formas de vida que nos acompanha, que alguns de nós (nos quais eu me incluo) desenvolvem uma enorme admiração e fascínio por todas essas criaturas que nos acompanham sem que reparemos.

Relativamente a tamanhos, consideramos normalmente que os micróbios não são visíveis a olho nu. No entanto, há excepções. As espécies microbianas Epulopiscium fishelsoni ou Thiomargarita namibiensis são bactérias gigantes, especialmente quando comparadas com todas as outras. Cada célula destas espécies pode ser tão grande quanto o ponto final de uma frase deste jornal.

Mas não se confundam, os microrganismos não são só nossos inquilinos, eles não precisam de nós para existir. Muitos deles são apenas nossos vizinhos, “moram” em locais perto de nós. Outros habitam locais onde nós jamais conseguiríamos viver (temperaturas acima dos 120 °C). Notem que nós não conseguimos sobreviver com temperaturas corporais acima dos 42 °C. Esses, que vivem em condições mais exóticas e extremas (os extremófilos), têm normalmente características que atribuímos aos super-heróis e que achamos que só a Marvel ou a DC tornam reais. Mas, não são só o Hulk ou o Super-Homem que sobrevivem a elevadas fontes de radiação (radiação gama e radiação da kriptonite, respectivamente). A bactéria Deinococcus radiodurans está listada no livro de recordes mundiais do Guiness como sendo a bactéria mais forte e resistente que se conhece; apelidada como bactéria Conan em referência a Conan – o bárbaro, é capaz de sobreviver a elevadas doses de radiação gama (doses mil vezes superiores ao que nós humanos conseguimos suportar e que nem existem naturalmente no nosso planeta) e luz ultravioleta, assim como frio, vácuo e outras condições extremas.

Há sempre bons ocupantes e maus ocupantes, e bons e maus vizinhos. Como qualquer senhorio, às vezes não somos muito atentos e facilitamos a ocupação por maus inquilinos. Outras vezes, azar do destino, eles ocupam os espaços contra a nossa vontade ou sem nos darmos conta disso. A estes, costumamos chamar de patogénicos. São autênticos vilões que provocam doenças ou infeções. Mas não nos afectam só a nós. Eles podem infectar outros animais, plantas, e até outros microorganismos.

Mas dos que nós gostamos mesmos, são dos bons ocupantes. Aqueles simpáticos que contribuem para que tenhamos uma vida mais agradável e alegre. Não pensem que conseguiríamos ter iogurtes, vinho, cerveja, pão ou queijo (entre muitos outros produtos) sem estes seres maravilhosos. Sabiam que alguns até são capazes de produzir electricidade? E, quantos deles são responsáveis por produzir substâncias que nos ajudam a combater doenças? Muitos antibióticos (contra bactérias), antivirais (contra vírus), antimicóticos (contra fungos) e outros, são produzidos por eles.

Mas, quem são estes microorganismos? Eles podem ser simples ou complexos, podem ser apenas uma célula, ou serem formados por várias células. Estes nossos vizinhos e inquilinos podem ser: vírus, bactérias, fungos (bolores e leveduras), protozoários (onde se incluem os causadores da malária ou da doença de chagas), e microalgas (como a spirulina, muito usada como suplemento alimentar). Dentro de cada um destes grupos, existem inúmeras espécies. E estamos só a falar do que já conhecemos, já estudámos e já descrevemos. Porém, estamos longe de conhecer todas as espécies microbianas que existem no nosso planeta. Ainda temos muito por explorar.

E quanto aos nomes… o que não falta são cientistas que se especializam a trabalhar com determinadas espécies de microorganismos mas que depois não os sabem chamar pelos seus nomes científicos. Ou melhor, na maioria das vezes não sabem pronunciar esses nomes da forma mais correcta. Eu mesma, quando conheço novas pessoas aqui em Macau, acontece-me muitas vezes ter dificuldade em pronunciar alguns nomes. Mas, com algum convívio vou melhorando a minha pronúncia (ou assim acho eu). Os nomes dos microorganismos, que são sempre em latim, conseguem ser impronunciáveis. Têm sempre dois nomes, o primeiro refere-se ao género de que fazem parte, equiparável ao nosso nome de família, e o segundo que é relativo à espécie. Os nomes de espécie podem ser escolhidos com base no nome da pessoa que os descobriu, outras vezes na localização de onde foram descobertos. E quanto a esta, tanto pode ser de um pedaço de gelo de uma zona recôndita na Antártida como de uma maçã podre. Por exemplo, a bactéria Bacillus macauensis, foi isolada de amostras de água em Macau, e a bactéria Fangia hongkongensis foi descoberta no mar ao largo de Hong Kong e baptizada em honra do Professor Xinfang Fang (microbiólogo fundador do Instituto de Microbiologia da Academia de Ciência Chinesa). Também podem ter um nome associado à cor que formam quando se agrupam em colónias. Por exemplo: Aspergillus niger, um fungo que forma colónias negras; ou Streptomyces albus, uma bactéria que forma colónias brancas. Estes nomes farão mais sentido para quem souber latim e reconhecer que niger significa negro e albus significa branco. Mas existem regras definidas para “baptizar” os microorganismos e os nomes escolhidos têm que ser aprovados por um comité antes de serem oficialmente usados. Está longe de ser simples como dar nome a um cão ou um gato.

Mas ainda há muito mais por contar.

 

Marta Filipa Simões

Cientista

 

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Marte: Entre o Imaginário e a Realidade

As últimas semanas de Julho trouxeram-nos um frenesim pouco habitual de notícias sobre o espaço, com o sucesso do lançamento de missões de três agências espaciais que vão agora a caminho de Marte. Também alvo de destaque na imprensa local, Macau tem um papel a desempenhar nesta nova corrida espacial, estando investigadores da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (MUST) directamente ligados à actual missão chinesa, e esperando-se o seu envolvimento no planeamento de futuras missões e na eventual análise de dados e amostras na busca de sinais de vida.

Convém realçar que o interesse da Humanidade por este planeta não é recente; Marte sempre foi uma fonte de fascínio. Parte deste fenómeno poderá ser atribuído à sua invulgar cor avermelhada. Esta sua característica levou, na era clássica, a que o planeta fosse baptizado com o nome do deus da Guerra da mitologia Greco-Romana. A consolidação de Marte como terreno fértil para a nossa imaginação ocorreu bastante mais tarde. No final do século XIX, o italiano Giovanni Schiaparelli observou e desenhou a superfície de Marte, identificando várias linhas na sua superfície, que designou de canali. No seguimento deste investigador, o americano Percival Lowell publicou várias obras e gravuras sobre Marte em que, provavelmente inspirado pelas grandes obras de engenharia da altura como os canais do Suez e do Panamá, defendia que estas estruturas na superfície do planeta eram artificiais. Segundo a sua convicção, os canais teriam funções de irrigação e seriam essenciais para uma civilização marciana.

A expectativa de encontrar uma civilização tecnologicamente avançada em Marte teve um impacto marcante e duradouro no nosso imaginário colectivo, e foi responsável por inspirar várias obras de referência da cultura popular. Entre vários clássicos da ficção científica e da literatura encontramos obras de HG Wells (A guerra dos mundos, 1897), Edgar Rice Burroughs (Série Barsoom- John Carter de Marte, 1912), Ray Bradbury (Crónicas marcianas, 1950), Robert Heinlein (Um estranho numa terra estranha, 1961), ou Andy Weir (O Marciano, 2011), entre muitíssimas outras. Várias destas obras foram adaptadas por Hollywood, que retorna a este tema com alguma regularidade. Quem não se lembra de sucessos como “Total Recall-Desafio Total”, com Arnold Schwarznegger, ou de “Marte ataca” de Tim Burton? Ainda dentro das artes, nem mesmo o mundo da música escapa a esta febre marciana. Sem dúvida que o caso de maior sucesso continuado será o fantástico “Life on Mars” do inesquecível David Bowie.

No entanto, as primeiras missões trouxeram-nos imagens bem diferentes daquilo que esperávamos: nem “homenzinhos verdes”, nem canais. Marte era um planeta aparentemente árido e sem sinais de vida aparentes… Apesar do sucesso científico das missões Mariner e Viking da NASA (entre os anos 60 e 70), o aparente defraudar de expectativas resultou num afastamento do interesse do público e num arrefecimento da euforia e do ímpeto de exploração espacial que se vivia então. O eventual colapso da União Soviética em 1991 traduziu-se numa redução clara da relevância política e geoestratégica do sector e resultou num desinvestimento adicional.

Mas Marte nunca esteve ausente dos nossos radares por muito tempo. A análise microscópica de um meteorito marciano em 1996, e a descoberta de aparentes micro-fósseis que poderiam ser um vestígio de possíveis micróbios marcianos, reanimou a discussão sobre a procura de vida fora da Terra. Estes resultados não são a prova definitiva da presença de micróbios em Marte mas, apesar da controvérsia que a sua análise gerou, centraram a discussão na busca de vestígios microbiológicos e na necessidade de explorar Marte.

A presente vaga de renovado interesse por Marte deve-se em muito à possível existência de vida (passada ou presente) neste planeta. Sabemos agora que o planeta vermelho teve uma grande quantidade de água líquida no seu passado, e teria condições bem mais hospitaleiras para a vida do que agora. Mesmo actualmente, as condições em Marte parecem não ser tão inóspitas quanto se pensava originalmente. Há indícios da existência de água líquida no subsolo e alguns locais em que poderá chegar à superfície de modo sazonal. Esta água será bastante salgada, o que contribuirá para que se mantenha no estado líquido mesmo quando exposta a temperaturas negativas. A existência de água líquida é vital para a existência de Vida como a conhecemos, renovando assim a esperança de que Marte possa suportar vida. 

Outro contributo essencial nesta discussão, foi a evolução da nossa visão sobre os limites da vida e sobre a resiliência dos seres vivos, que ocorreu nas últimas décadas. Avanços na área da microbiologia e o uso de novas ferramentas de biologia molecular demostraram que várias espécies de micróbios têm uma capacidade excepcional para sobreviver e prosperar em diferentes tipos de condições extremas. Vários desses ambientes no nosso planeta têm condições que se aproximam às que encontramos em Marte e têm apesar disso uma enorme biodiversidade microbiológica. Se a vida é possível neste tipo de locais na Terra, por que não em Marte? 

A história do nosso fascínio por Marte entra agora num novo capítulo e está longe de terminar.
André Antunes – Cientista

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Garantir a Segurança Alimentar na China

Se a segurança nacional inclui o fornecimento adequado de alimentos à população, a China recentemente tem feito grandes esforços para garantir a segurança alimentar.

Em 23 de Julho, a agência de notícias Xinhua publicou as principais declarações do presidente Xi relacionadas com o tema. 

Em primeiro lugar, Xi disse que a China deve controlar o seu próprio abastecimento de alimentos, estabilizar a agricultura e garantir a segurança da produção de cereais e de bens alimentares não tão essenciais. 

Em segundo lugar, o presidente Xi sublinhou que a segurança alimentar “é uma base importante da segurança nacional” e que “precisamos inovar na produção de alimentos, optimizar a tecnologia de produção, implementar políticas de apoio, estimular a dedicação dos agricultores ao seu trabalho e melhorar os rendimentos resultantes da actividade agrícola.

Em terceiro lugar, as regiões do nordeste da China desempenham um papel estratégico na salvaguarda não apenas da segurança alimentar, mas também da defesa nacional, ecologia, energia e indústria. Consequentemente, a garantia da segurança alimentar é a base de todas as outras esferas da segurança nacional. 

Em quarto lugar, o presidente Xi defende que a produção de cereais pode ser apoiada por um melhor sistema de conservação de água e pela melhoria contínua da ciência e da tecnologia, daí resultando a necessidade da China controlar as inundações de forma mais eficaz e eficiente. 

Em quinto lugar, Xi sublinhou que a segurança alimentar é de grande importância por influenciar o desenvolvimento nacional da China e o bem-estar das pessoas. Como tal, é “imperativo estudar e melhorar as políticas de segurança alimentar, assumir o desenvolvimento da produção como uma tarefa fundamental e aproveitar o potencial da produção de cereais combinando a terra e a tecnologia”.

Os comentários do presidente Xi desencadearam respostas e acções imediatas das autoridades agrícolas a vários níveis do aparelho governativo. Em 31 de Julho, Han Changfu, ministro da Agricultura e ex-governador da província de Jilin, reuniu-se com outros responsáveis agrícolas e membros afectos ao Partido Comunista Chinês para estudar os comentários do presidente Xi. Han disse aos quadros do Partido que os três vectores do mundo rural  –agricultura, aldeias e agricultores – teriam que trabalhar juntos no controlo das inundações para salovaguardar as colheitas do Outono. Han apelou aos seus colegas para realizarem um trabalho de prevenção contra o surto de peste suína e para garantir o fornecimento estável de carne de porco.

Em 7 de Agosto, Han reuniu-se com responsáveis agrícolas de dez províncias ao longo do rio Yangtze através de uma videoconferência, sublinhando a necessidade de prender, proibir e ajudar os pescadores que pescavam ilegalmente no rio Yangtze. Muitos pescadores pareciam enfrentar dificuldades depois do surto de Covid-19 e as enchentes do rio Yangtze, correndo grandes riscos para pescar ilegalmente. Han revelou que 110.000 barcos pesqueiros e 230.000 pescadores estão envolvidos na pesca ilegal, mas todos os governos provinciais envolvidos devem fornecer subsídios e pacotes de assistência a esses pescadores, incentivando-os a constituir cooperativas e a adoptarem uma nova forma de criação piscícola através da aquicultura.

Han escreveu um comentário importante no Diário do Povo em 7 de Agosto, referindo-se novamente aos comentários do presidente Xi Jinping na sua visita a Jilin, em 23 de Julho, de que o Partido atribuía grande importância à segurança alimentar. Durante sua terceira visita a Jilin – a primeira em Julho de 2015 e a segunda em Setembro de 2018 – Xi inspecionou uma zona de demonstração da produção de alimentos verdes no condado de Lishu e ficou a conhecer as medidas tomadas para proteger o solo negro, a melhoria da qualidade do solo chernozem, e o crescimento do milho. A prática Lishu de utilizar a palha do milho em terras agrícolas para fins de protecção pode aumentar a matéria orgânica do solo e prevenir a erosão do solo pelo vento e pela água. O presidente Xi elogiou esse modelo e defendeu a sua promoção.

De acordo com Han, todos os quadros do Partido nos departamentos de agricultura aos mais diversos níveis do governo devem estudar o “espírito” das declarações do presidente Xi e implementar as medidas estabelecidas pelo Partido e pelo Conselho de Estado, especialmente os objetivos de garantir a realização da sociedade “xiaokang” (afluente), “manter e aumentar a capacidade de protecção do abastecimento de alimentos” e “tomar nas próprias mãos o poder de pugnar pela segurança alimentar”. As frases-chave usadas por Han mostram que a China deseja alcançar a auto-suficiência no abastecimento de alimentos, embora também se tenha referido ao comentário do presidente Xi de que “as importações devem ser feitas a um nível apropriado”.

Han acrescentou que o presidente Xi dá grande importância ao conceito “as nossas mãos sustentam as tigelas de arroz do povo chinês e as nossas tigelas devem ser enchidas com alimentos chineses”, para que “a estratégia de segurança alimentar do país possa permanecer firme, internamente, garantir capacidade produtiva, importar adequadamente, e utilizar a tecnologia como suporte. ” 

Claramente, os comentários do presidente Xi em Jilin deram um novo ímpeto à mobilização dos departamentos agrícolas e de funcionários em todos os níveis para se atingir o objectivo último da segurança alimentar na China.

Han revelou que a produção de alimentos da China alcançou 132,7 milhões de cestos com todo o tipo de cereais. Mesmo depois do início da Covid-19, a China consegue ainda garantir 28,5 milhões de catties de alimentos durante as colheitas do Verão de 2020. Esses rendimentos saídos da terra tornam-se um elemento “estabilizador”, agindo como “uma pedra que é depositada num armazém”.

Ainda assim, no início de Agosto surgiram notícias de que, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, a China aumentou as suas aquisições de milho ao fechar um negócio de 1,9 milhões de toneladas. Embora alguns jornais tivessem especulado que a China estaria já a enfrentar uma “crise alimentar”, talvez tenham negligenciado um movimento calculado das autoridades chinesas para importar mais cereais dos Estados Unidos por anteciparem uma guerra comercial e tecnológica mais séria entre os dois países.

Outras notícias revelam que agricultores chineses vêm acumulando reservas de cereais de 20% a 30% da produção, um fenómeno que mostra que, embora a crise alimentar não esteja iminente no Continente chinês, os riscos no sector do abastecimento alimentar estão em crescendo. No entanto, dada a tendência e a tradição da maioria dos chineses de armazenarem alimentos como forma de prevenção para tempos de crise, incluindo a Covid-19 ainda em curso e as inundações em muitas áreas ao longo do rio Yangtze, esse armazenamento de mais cereais do que no passado acaba por ser normal. Na verdade, muitos agricultores e comerciantes chineses não têm certeza se a crise do Covid-19 não continuará a prolongar-se ao longo de toda a segunda metade de 2020.

No seu comentário, Han admitiu que enchentes e pragas de gafanhotos minaram a produção agrícola da China. Apelou, por isso, para a necessidade de todos os funcionários agrícolas atingirem a meta declarada do Presidente Xi, ou seja, garantir bons resultados na colheita do Outono de modo a que o total da produção chegue aos 130 mil milhões de cestos. Ainda não se sabe se essa meta será atingida, mas a determinação das autoridades agrícolas chinesas é manifesta.

Han também reconheceu que os gafanhotos migratórios minaram os campos de milho e as terras agrícolas da China. Enquanto os Spodoptera frugiperda constituem uma ameaça para o milho, as cigarrinhas e os rolos de folha do arroz minaram os campos de arroz. Como tal, fortalecer as barreiras para prevenir e controlar os ataques desses gafanhotos é e continuará a ser necessário.

Além disso, o preço do milho na China atingiu o seu valor máximo nos últimos cinco anos, fazendo com que muitos agricultores optassem pelo trigo como opção para alimentar os animais. Essa flexibilidade dos agricultores chineses mostra que estão sintonizados com o Estado chinês, tentando garantir a estabilidade das rações animais.

Em suma, garantir a segurança alimentar tornou-se, sem dúvida, uma das principais prioridades e uma pedra angular dos esforços da China para alcançar várias dimensões da segurança nacional. Os comentários do presidente Xi em Jilin e as acções de acompanhamento dos responsáveis agrícolas estão claramente a estabelecer as bases para o 14º Plano Quinquenal da China, a aprovar já em Outubro. Apesar das inundações em muitas regiões da China, o estado chinês permanece relativamente forte na sua determinação e nas ações para manter a estabilidade e a adequação do abastecimento de alimentos em todo o país, durante o difícil ano de 2020.

 

Sonny Lo Shiu Hing

Autor e Professor de Ciência Política

Este artigo foi publicado originalmente em inglês na Macau News Agency/MNA.

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