NECESSIDADE DE MUDANÇA

Antes de celebrar as Festas de Natal de 2019, a Comunidade Cristã é chamada, durante um determinado período, o denominado  tempo do Advento, a recolher-se um pouco mais e a ponderar seriamente os acontecimentos, internos e externos da sua existência, à luz da Mensagem do Nascimento de Jesus Cristo. Pretende-se, antes de mais, que cada um, livre de tudo o que seja obstáculo à liberdade e transparência do seu coração, possa não só chegar a uma melhor compreensão da presença natural e histórica do Filho de Deus neste Mundo, mas também e consequentemente, conseguir realizar na sua própria vida uma transformação efectiva e coerente com a sua fé em Jesus Cristo. Toda a Humanidade, ousarei  afirmar, é convidada igualmente a viver um encontro mais íntimo com esse Deus que, por amor, se dignou encarnar na natureza humana, sob a forma de um bebé frágil, desprotegido e vulnerável. Isto, na certeza porém, de que se concretizarão as palavras do profeta Isaías quando outrora anunciava aos homens e mulheres, seus contemporâneos, dizendo: «… Ele (o nosso Deus) nos ensinará os Seus caminhos e nós andaremos pelas Suas veredas…».

Este apelo duplo à conversão, primeiramente, do nosso coração e, depois, da nossa maneira de estar neste mundo, que nos é lançado pelos textos sagrados, leva-me a considerar e a estar convencido de quanto é fundamental, necessário e urgente nesta nossa Sociedade actual o ter de efectuar-se uma «mudança» radical das nossas atitudes para o bem da Humanidade, presente e futura. Os nossos comportamentos, tanto pessoais como sociais ou comunitários estão a conduzir-nos para uma catástrofe humanitária e cósmica.

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Dias atrás ouvíamos a declaração  preocupante de um extenso e muito variado grupo de cientistas afirmando que o Cosmos  está a dar sinais de que a destruição ambiental está a ser mais rápida do que o previsto, e que as metas propostas pelos Governantes não estão a ser alcançadas ou não estão  mesmo a ser cumpridas por alguns Estados, incluindo entre os mais poluentes. 

O Secretário-Geral das Nações Unidas, igualmente baseado em inúmeros factos cientificamente provados  e tantos outros relatórios de peritos da maia variada ordem, questionou de forma veemente as consciências dos Chefes de Estado e lançou a todos um desafio dramático, apelando-os a considerar verdadeiramente o futuro dos mais jovens… ‘os nossos filhos e os nossos netos’… 

O Mundo clama por uma « mudança ». São os próprios animais que gemem, são as plantas e árvores que choram, são as flores que se sentem a secar e a  definhar, são aves que já não cruzam o Céu azul ou já não anunciam as estações do ano. Quanta fauna, quanto flora que se extinguiu para sempre!

Mas, algo mais grave está a suceder. A Humanidade está ferida de Morte. São pavorosos  os gemidos lancinantes que brotam dos recônditos profundíssimos do Coração humano. A ‘Angústia de Morte’ e o ‘Desespero da Vida’ dominam cada vez mais e muito subtilmente, o dia a dia da Existência do Ser Humano, Homem ou Mulher, no começo deste Século Vinte e Um. 

O Consumismo, com a tirania do estômago, o Hedonismo, com o prazer instintivo e imediato a tudo dominar, e o Materialismo, em que o possuir coisas, bens ou riqueza é o máximo, são as respostas enganadoras que a Sociedade actual quer muito sibilinamente apresentar…

 Ilusão, Ilusão, Ilusão…Vazio… e nada mais…

Mais doloroso se torna ainda esta questão, quando entramos pela via mais metafísica da compreensão do Ser Humano. Sem perder a Paz, não deixa de ser terrível e atroz o verificar o que vai acontecendo por esse mundo fora. As situações continuam a apresentar-se cada vez mais caóticas e destruidoras. O que é ‘Ser Homem’, o que é ‘Ser Mulher’? ‘Ser Pai’, ‘Ser Mãe’, que significa? Uma criança, filho ou filha, não necessita ou exige um ‘Homem’, ‘Pai’ e  uma ‘Mulher’ ‘Mãe’?

Entrando pela realidade da Sexualidade e Afectividade. Fala-se muito e de maneira muito livresca! Quanto se ignora a dinâmica profunda e íntima da Afectividade, em harmonia intrínseca com a Sexualidade. Quanta conversa, sem capacidade de conhecimento e discernimento entre sentimentos ‘ordenados’ e ‘desordenados e compulsivos’!

E a Família? O Matrimónio? O Amor? Aqui abunda tanto Racionalismo e Intelectualismo, que apenas esconde a imaturidade afectiva. Muito poucos têm a humildade e a coragem de aceitar esta realidade… e começar com nova  compreensão e aberto a um Amor nunca antes experimentado…

 

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus de Macau

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JESUS CRISTO

Cristo Rei é a Solenidade que, segundo o Calendário Litúrgico, se celebra neste Domingo. Se séculos atrás, a palavra «Rei» possuía uma força de significado que arrebatava muita gente a seguir o Senhor Jesus, não estou tão seguro, se o mesmo vocábulo atrairá da mesma maneira os homens e as mulheres  deste século que inicia o Terceiro Milénio. A Monarquia, com os seus reis e rainhas, princesas e príncipes continua a diminuir em importância na sociedade contemporânea e a perder, definitivamente,  a capacidade não só de liderar um povo como conduzi-lo ao progresso e ao bem estar que todos aspiram. Esta realidade não esconde, por outro lado, a fragilidade do sistema político actual com as ditas cujas ‘democracias’ que começam a dar sinais flagrantes de estarem gastas e a mostrarem a incapacidade de responder às aspirações mais fundamentais do povo a quem são chamados a servir. A percentagem elevada de abstenções nas eleições, por toda a Europa, por exemplo, é  um sintoma desse mal estar. 

A aplicação do termo «Rei», nos tempos de hoje,  pode suscitar algumas considerações não muito positivas, contudo, num caminho de Fé,  todo o cristão é intrinsecamente convidado a crescer no conhecimento de Jesus Cristo e, sobretudo, na intimidade d’Aquele que se apresenta como o Deus e Senhor do sua existência.  Diria que as tão recordadas palavras de Tomé «Meu Senhor e meu Deus», ao tocar com o dedo as chagas das mãos de Cristo Ressuscitado e com a sua própria mão tocar também o Seu lado trespassado, são como que uma afirmação, em moldes diferentes, dessa soberania ou realeza de Cristo Jesus sobre nós, como «Rei.». Título, aliás, repetidamente usado, na Sagrada Escritura, tanto no Antigo como no Novo Testamento.

Ao fim e ao cabo e simplesmente, todos nós, cristãos, somos chamados a reconhecer nas nossas vidas Jesus Cristo como «Meu Deus…meu Senhor…meu Rei…» A questão fundamental está em discernir a melhor maneira de interiorizar essa realidade tão íntima, tão profunda e tão pessoal, entre Cristo Jesus e  o ser humano.

             

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Esta afirmação de Jesus Cristo como «Meu Senhor e meu Deus» ou como meu « Rei » está divinamente confirmada pela obra da Encarnação e da Salvação realizada pelo mesmo Jesus Cristo, ao  revelar-se não só como verdadeiro Filho de Deus, mas também como verdadeiro Homem. A propósito, eis o que diz o Apóstolo Paulo ao escrever aos cristãos filipenses: «Sendo Ele de condição divina, não se prevaleceu de Sua  igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz. Por isso, Deus o exaltou soberanamente e lhe outorgou  o nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho no céu, na terra e nos infernos. E toda a língua confesse, para a glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é Senhor».

Embora Cristo Jesus ao declarar a Sua Divindade nos leve, sem dúvida nenhuma,  a reconhecê-lO como «Meu Senhor e meu Deus» ou como meu « Rei », no entanto, sou mais inclinado a reconhecê-Lo pela via da meditação da Sua  Humanidade.

Ele é o «Meu Senhor e meu Deus», o meu «Rei», porque  assumiu, por Amor a cada um de nós,  no Seu corpo de Homem toda a fragilidade humana.  Ele sobre o qual foi afirmado «em tudo igual a nós, excepto no pecado…». Mas há que reconhecer que, pela Sua Ressurreição alcançou a vitória sobre o Sofrimento, a Morte e o Mal, revelando Ele, assim, ter poder sobre toda a fraqueza e debilidade do ser humano.  

Ele  é o «Meu Senhor e meu Deus», o meu «Rei» , porque  até se submeteu ao normal desenvolvimento da natureza humana, desde a concepção e nascimento até aos últimos momentos da sua existência para afirmar categoricamente e mais uma vez, que a Vida e a História de cada um a Ele lhe pertence. Não há momento, situação ou estádio da vida que Lhe escape. A Vida Eterna é que é o fim, mas só a Ele pertence compreender plenamente. Nós aguardamos na Esperança…

Ele  é o «Meu Senhor e meu Deus», o meu «Rei», quando se deixa identificar com um Povo, uma História e uma Cultura. O Povo escolhido é judeu. Percorre  com eles o caminho lento, penoso e dramático da formação de toda e qualquer nação ou o país. Acompanha os seus através das catástrofes políticas, triunfos e glórias, invasões, perseguições, exílios… ou retornos à terra prometida. Sempre com outros espaços de acção ou novas possibilidades. Ele nunca nos abandona.

Ele,  o «Meu Senhor e meu Deus», o meu « Rei » é, acima de tudo, fiel à sua Aliança.

 

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus de Macau

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Le Jardin Majorelle e a explosão da cor

Maria José de Freitas

FOTOGRAFIA: MARIA JOSÉ DE FREITAS

O grupo científico ISC SBH do ICOMOS, que estuda o património partilhado, promoveu recentemente uma visita de estudo a Marrocos, em que estive presente. Relutante no princípio, acabei por aceitar o desafio pois inseria-se no âmbito do património de influência portuguesa no mundo, que tanto prezo e sobre o qual, desde que me encontro em Macau, me tenho debruçado.

A visita teve início em Marraquexe, uma cidade que me deixou vivamente impressionada. Uma verdadeira explosão de cores, ritmos, odores, sons e, sobrevoando tudo, um céu de um azul que inebriava. Não é fácil descrever o que os sentidos experimentaram, nem é fácil descrever o encantamento permanente e a amabilidade dos marroquinos.

Foram dias cheios de visitas, encontros com colegas, conferências e palestras para verificar que as associações locais prezam o património e as suas origens. Falou-se da origem histórica de muitos edifícios e monumentos com naturalidade, estes foram erguidos e construídos no passado e agora procuram-se soluções para a sua recuperação. Nesse contexto as opiniões, estudos, sensibilidades e aproximações de outros colegas são importantes e tudo converge numa certeza: está em causa património partilhado e há que aproveitar técnicas e ciências já experimentadas noutros locais que possam contribuir para a sua preservação. Sem reservas.

Foram atitudes que me agradaram, tanto mais que por vezes se sente, e sinto, que nalguns locais há práticas, pouco recomendáveis, de manter secretismo onde deveria haver cooperação e transparência. Devo assinalar que em Marrocos a cordialidade e o companheirismo imperaram.

A cidade de Marraquexe foi o sinal de partida para uma viagem enriquecedora não só para os participantes e organizadores, mas também para os colegas que nos acolheram ansiosos por partilhar as suas soluções, pesquisas, dúvidas e resultados, fazendo-nos sentir que o património é um bem precioso e deve ser transmitido às gerações futuras na sua integridade, pois seja qual for a sua origem faz parte de uma passado comum, que absorveram e de que se orgulham. A associação de protecção do património Casa Mémoire com a qual tivemos ocasião de reunir tem realizado um excelente trabalho de inventariação de edifícios históricos com vista à sua preservação e posterior reutilização.

Depois da influência portuguesa patenteada em tantos fortes e fortalezas existentes ao longo da costa marroquina, de que falarei mais tarde, nos anos mais recentes, já no século XX, a partir de 1912, com o estabelecimento do protectorado francês (1912-1954), a influência francesa fez-se sentir de forma intensa contribuindo para a criação de uma sociedade vibrante e cosmopolita que em Marraquexe, ainda hoje, encontra eco.

Para além da antiga cidade fortificada, cuja medina se encontra incluída na lista classificada da UNESCO desde 1985, Marraquexe transporta em si a riqueza colonial, na cor ocre das paredes e no sábio planeamento urbano protagonizado por Henri Prost, o arquitecto designado em 1914 como Diretor of the Special Service for Architecture and City Maps, que veio a planear a expansão da cidade completamente separada da cidade histórica,  marcadamente islâmica, pré-existente. 

As novas zonas urbanas foram criadas à luz dos princípios mais sofisticados do urbanismo existente à época. Em Gueliz (corrupção de eglise, igreja em francês) os edifícios patenteiam ainda o estilo Art Deco, seguido pelo Modernismo nos anos seguintes, ao longo de boulevards ao estilo europeu.

Apesar da independência de Marrocos ter ocorrido em 1956, a cidade de Marraquexe manteve uma expressão cultural muito ligada à influência francesa e, nos anos 60 e 70 do século XX, tornou-se uma grande atracção turística, recebendo a visita de muitas personalidades pertencentes ao meio cultural e artístico, entre os quais se salientam os Beatles, Rolling Stones e Yves Saint Laurent. Este último acabou por adquirir em 1980 uma grande propriedade: Le Jardin Majorelle, que restaurou, constituindo um dos mais belos jardins que até hoje visitei.

Desenhado pelo pintor Jacques Majorelle (1886-1962) o jardim demorou 40 anos a ser edificado. Constitui um oásis azul e verde no meio da cidade ocre, incluindo plantas de diferentes origens, exóticos cactos sobressaem junto a flores de lótus que pontuam os lagos em tom azul que abundam. Os revestimentos das superfícies envolventes em degradé azul cobalto forte, mais acentuam o carácter encantatório e luxuriante do conjunto que os pavilhões Art Deco valorizam.

Actualmente o complexo aloja o Museu Berbere, bem como uma colecção das pinturas de Majorelle. Mais à frente no Musée Yves Saint Laurent (Studio KO, 2017) uma mostra de modelos de Yves Saint Laurent chama a atenção para a vibração da cor que o estilista passou a introduzir nas suas criações como reflexo da vivência em Marraquexe.

 

O Jardin Majorelle e a explosão da cor que desperta os sentidos!

 

Maria José de Freitas

  Arquitecta | ICOMOS-SBHSG

  Doutoranda DPIP3-UC.PT

  mjf@aetecnet.com

 

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A CORAGEM DE SER DIFERENTE

Prevendo a destruição de Jerusalém pelos Romanos, Jesus Cristo chama a atenção das atitudes que muitos, na altura, facilmente serão inclinados a  tomar e adverte-os, dizendo:; «Tende cuidado; não vos deixeis enganar,  pois muitos virão em meu nome e dirão: ‘Sou eu’; e ainda: ‘O tempo está próximo.’ Não os sigais. Quando ouvirdes falar de guerras e revoltas, não vos alarmeis;  é preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim. Há-de erguer-se povo contra povo e reino contra reino. Haverá grandes terramotos e, em diversos lugares, fomes e epidemias. Haverá fenómenos espantosos e grandes sinais nos céus… Hão-de perseguir-vos… Mas nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá…».

As situações de crise, são sempre momentos privilegiados. Aí se revelam os homens e as mulheres de valor. Essas circunstâncias, aparentemente, caóticas, dão, tantas e inúmeras vezes, origem a novas realidades, ainda mais ricas, mais variadas e mais promissoras.

Num mundo, onde tantas coisas estão a acontecer, em que convulsões sociais e políticas se tornam cada vez mais frequentes; desastres e cataclismos rolam diante de nós em noticiários sem interrupção e sempre renovados; e gemidos dos mais pobres chegam às nossas costas e batem às nossas portas,  precisamos de algo que nos ajude a ultrapassar essa avalanche de acontecimentos aflitivos e nos transporte para horizontes de maior esperança.

Não negando que temos de ir às razões  mais profundas que explicam todos estes fenómenos que desestabilizam a harmonia na Humanidade e o equilíbrio do Cosmo e do Universo. Considerando igualmente que há, na verdade, aspectos científicos, sociais, económicos e financeiros, políticos, históricos, filosóficos, morais, religiosos necessários de serem abordados, com rigor e objectividade, para conseguir chegar às causas de tanta dor e miséria. Contudo, permanece uma condição imprescindível para que soluções sejam encontradas e implementadas que ‘o coração ‘ do ser humano, homem ou mulher, esteja livre e disposto a lançar-se nessa aventura em prol de um Mundo melhor.

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Voltando ao texto do Evangelho dominical…        

Cristo, o Senhor e Mestre, ao descrever a futura catástrofe da Cidade Santa, remata com conselhos que expressam exactamente o contrário daquilo que a maioria das pessoas, amiúde e instintivamente, estão inclinadas a fazer nessas situações críticas, isto é, acreditar e seguir aquele que, muito mediática e ardilosamente, se pavoneia, afirmando que ‘Sou eu’, aquele que será capaz de solucionar os problemas da Sociedade contemporânea. Assim, Cristo Jesus declara sem rodeios: «Tende cuidado; não vos deixeis enganar…».

Indo mais longe. Revelando-se deveras penetrante no conhecimento da natureza humana e, particularmente, do líder egocêntrico, narcisista e tirano, o Senhor desmascara-o como um enganador, arrogante e estupidamente convencido, ainda por cima, de que tem a visão quase profética do futuro e, sem vergonha, afirma que ‘o tempo está próximo.’ Jesus é peremptório e categórico na atitude a ser tomada, perante eles: «Não os sigais».

Um terceiro aviso que nos dá o Mestre: «Quando ouvirdes  falar de guerras e revoltas, não vos alarmeis…». Em situações difíceis, torna-se comum dramatizar ou fazer tragédia. Todavia, deixar a senilidade à solta, sem um mínimo de controle ou consciência e até confundir empatia com choradeira é a via mais rápida para perder a compreensão  do problema e, pior ainda, fazer desaparecer a capacidade de encontrar soluções para o momento doloroso. Por isso, compreende-se o ter Jesus Cristo dito o que disse: «Não vos alarmeis».

«A coragem de ser diferente» é assim, diria, a consequência e a exigência inquestionável que se impõe a todo aquele ou aquela que se quer afirmar como ser livre. Não estão sujeitos ao líder sofisticadamente manipulador, insinuoso e controlador, possuidor de uma retórica ardente, mas falaciosa. Conseguem manter uma mente crítica, autónoma e fiel a si mesmos. Gozam, acima de tudo, de um coração equilibrado nas suas emoções, nos seus sentimentos e nos seus afectos. Decide pelo melhor, não pelo mais agradável.

«A coragem de ser diferente» significa também a qualidade daquele ou daquela que não se deixa levar por qualquer ‘Paraíso de Alice das maravilhas’ ou ‘Utopia mirabolante’ ou ‘Promessas Virtuais’ fantásticas. É característico daqueles que não se deixam ludibriar por ‘slogans’, porque ‘está na moda’, ‘todos dizem que…’, ‘a sociedade actual e moderna aceita…’ São próprio aqueles, homens e mulheres, que assumem, com verticalidade e sem medo ou vergonha, ‘os Valores Transcendentes da Humanidade’… Verdade, Amor, Vida, Beleza, Perfeição… Seguramente que é uma qualidade que não se encontra naqueles que andam sempre ‘ao sabor dos ventos’, como os cataventos, ou que se manifestam obsessivamente dependentes do que os outros dizem, pensam, sentem.

«A coragem de ser diferente», por fim, deseja expressar uma atitude a que todo o ser humano é chamado a assumir corajosamente em todos momentos da sua existência,  e muito em particular, diante da ‘Cruz de cada dia’, dos sofrimentos e das contrariedades da vida, e não fazer dessas situações ‘um vale de lágrimas’, uma ‘ladainha de lamentações’ ou entrar em desespero.

Todo aquele que leva o nome de cristão, ser discípulo de Cristo, deve ter «a coragem de ser diferente,» ser ‘sinal de esperança’ num Mundo tão cheio de fragilidades.
Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus de Macau

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Jorge de Sena, itinerâncias

euWe die. That may be the meaning of life.

But we do language. That may be the measure of our lives”

 

Toni Morrison (Nobel da literatura 1993)

 

Por ocasião da evocação do centenário do nascimento de Jorge de Sena pela associação Amigos do Livro em Macau, é exibido hoje no auditório do Consulado Geral de Portugal em Macau, pelas 18h00, o filme “Sinais de fogo”, adaptado do romance homónimo do autor. Numa carta a Mécia diz que com este livro pretende “dar a decomposição desorientada de um povo e a opressão da sua juventude” e numa outra carta, a Eduardo Lourenço, que o livro era um vasto fresco que visava dar um panorama da sua geração, “cobrir, através das experiências de um narrador, a vida portuguesa desde 1936 a 1959”. Trata-se de um dos romances mais importantes do século XX português – retrato ácido da educação sentimental dos jovens adultos de 1936, com a Guerra Civil espanhola em pano de fundo, onde desvenda o Portugal salazarento e um conjunto de interditos que vão da inscrição política à hipocrisia dos costumes. Tudo se passa no ambiente da burguesia bem instalada da Figueira da Foz, que fazia vista grossa à arrogância do Estado Novo, à atuação da Pide e a questões de natureza sexual. Este romance, no qual é possível vislumbrar uma conexão entre o Jorge protagonista e o Jorge autor, é uma obra-mestra que nos dá a ver o tempo e o modo de fazer-se um poeta.

Jorge de Sena nasceu em Lisboa, a 2 de Novembro de 1919, e faleceu em Santa Barbara, na Califórnia, a 4 de Junho de 1978. O seu corpo foi recebido em Lisboa em Setembro de 2009, por iniciativa do então ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro. Estas datas balizam o vasto trabalho daquele que é considerado um dos grandes poetas de língua portuguesa e uma das figuras centrais da cultura do século XX. Mécia de Sena, sua esposa, não esteve na Basílica da Estrela, onde foi celebrada uma homenagem ao professor, poeta, dramaturgo, ensaísta, crítico e tradutor, com a presença do ex-Presidente da República Portuguesa, António Ramalho Eanes, amigo de longa data de Sena. Mécia não viajou para Lisboa “por causa do impacto” que lhe causariam as cerimónias, mas da sua casa em Santa Barbara disse que o regresso de Jorge de Sena à terra natal era muito significativo para ela, tanto quanto teria sido para ele. E acrescentou que esperava que fosse decisivo para o reconhecimento do marido como escritor e como cidadão. 

Sena estreou-se na escrita em 1942 com “Perseguição” e licenciou-se em Engenharia Civil (1944) no Porto. Trabalhou nessa área até 1959, ano em que se exilou no Brasil, receando as perseguições políticas decorrentes duma tentativa gorada de golpe de Estado em Março, na qual participara. O exílio permitiu-lhe uma viragem profissional: passou a ensinar literatura, fez o doutoramento em Letras, em 1964, e naturalizou-se brasileiro para obter o título de Livre-Docência, então requisito para ser professor titular.

Os anos de Brasil (1959-65) foram talvez os mais férteis: completou o conjunto de poemas “Metamorfoses”, escreveu os inovadores “Quatro sonetos a Afrodite Anadiómena”, a novela “O físico prodigioso”, iniciou o romance “Sinais de fogo”, investigou e publicou sobre Luís de Camões e o maneirismo, trabalhou na edição do “Livro do Desassossego”, de Fernando Pessoa, escreveu para teatro, etc. O golpe militar de 1964 no Brasil fê-lo recear um regresso ao passado, pelo que em 1965 se mudou para os Estados Unidos, com Mécia de Sena e os seus nove filhos. Nesse ano integrou o corpo docente da Universidade de Wisconsin, onde foi nomeado professor catedrático efetivo (1967) e em 1970 transitou para a Universidade da Califórnia, em Santa Barbara. Lá permaneceu até ao fim da vida, como diretor do Departamento de Espanhol e Português e do Programa de Literatura Comparada. 

A vasta e multifacetada obra de Jorge de Sena inclui mais de vinte coletâneas de poesia, uma tragédia em verso, várias peças em um ato, contos, uma novela e um romance, e cerca de quarenta volumes de crítica e ensaio (sobre Camões e Pessoa, poetas com quem “dialogou”), à história e à teoria literária e cultural, ao teatro, ao cinema e às artes plásticas de Portugal, do Brasil, da Espanha, da Itália, da França, da Alemanha, da Inglaterra e dos Estados Unidos, para além de traduções de poesia e de teatro.

A par da criação literária teve intensa atividade intelectual e cultural como conferencista, crítico de teatro e de literatura em diversos jornais e revistas, comentador de cinema, diretor de publicações (destacam-se os “Cadernos de Poesia”), coordenador editorial na revista “Mundo Literário” e consultor literário dos Livros do Brasil (Lisboa) e da Editora Agir (Rio de Janeiro). Foi ainda cofundador de um grupo de teatro em 1948, e colaborador de António Pedro, nesse mesmo ano, num programa de teatro radiofónico do Rádio Clube Português, adaptando contos de Chesterton, Hammett, Maupassant, Poe, entre outros.

Foi igualmente notável a intervenção de Jorge de Sena no domínio social e cultural no Brasil, onde reforçou a sua ação cívica como opositor ao Estado Novo. Foi cofundador da Unidade Democrática Portuguesa e integrou o conselho de redação do jornal Portugal Democrático até 1962, participando ainda em atividades do Centro Republicano Português de São Paulo. Nos Estados Unidos, a atividade cultural de Sena restringiu-se aos círculos académicos e da emigração (na Califórnia empenhou-se no esclarecimento das comunidades portuguesas sobre o 25 de Abril). Nessa época encetou uma vasta e rica correspondência com outros escritores e intelectuais portugueses e brasileiros e fez várias viagens de trabalho à Europa, a Moçambique e Angola, falando de Camões no IV Centenário de “Os Lusíadas”.

Jorge Fazenda Lourenço, especialista em Jorge de Sena, refere que o autor foi construindo a sua obra com toda esta vasta experiência no exílio, daí que sempre tenha entendido a sua escrita como testemunho de si e das suas circunstâncias, sem menosprezar a organização estética das emoções e dos sentimentos, ancorados na observação, na meditação e na rememoração de uma experiência de mundo concreta, no plano individual e coletivo. E dessa experiência fazem parte as mundividências que as obras de arte vão cristalizando e codificando no decurso da história humana, entendida como uma peregrinação secular – o que, por sua vez, faz dessas obras de arte metamorfoses, objeto de experiências poeticamente meditadas. Assim, a obra de Sena, em que a ética e a estética se confundem, e em que o lirismo se mescla com um forte pendor especulativo e narrativo, deve ser lida, nas suas palavras, como uma “meditação sobre o destino humano e sobre o próprio facto de criar linguagem”.

Ana Paula Dias

Investigadora do CEMRI – Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais da Universidade Aberta de Lisboa

 

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A NOSSA HUMANIDADE

No Evangelho, ouvimos Jesus Cristo proclamar que Deus «não  é um Deus de mortos, mas de vivos…». Esta afirmação é feita quando se discute certa situação no Matrimónio. 

Por associação de ideias, sou levado a pensar, mais uma vez, quando a experiência de Deus está intimamente ligada à nossa humanidade, a homens e a  mulheres de carne e osso, com uma personalidade, com uma história, sempre muito particular e original. Homens e mulheres que fazem parte de um povo e se formam existindo dentro de um contexto cultural. A própria natureza que os circunda influencia o seu modo de ser. 

Extrapolando um pouco e aplicando esse mesmo modo de pensar, isto é, a intrínseca união do divino com o humano, à realidade muito específica do casamento, como o texto evangélico de alguma maneira apresenta, sou levado a determinadas considerações que não parecem ser fáceis de expor perante a mentalidade de muitos na Sociedade actual. Se a Sagrada Escritura, e Cristo Jesus muito concretamente, declara que «não separe o Homem o que Deus uniu » e acrescenta ainda, «…e eles deixarão a casa dos pais para se unirem numa só carne…», então, como explicar aquilo que se torna atrozmente tão frequente nos tempos que correm, o assistir ao desfalecer da união dos casais e das famílias?!

Fundamentalmente, a estrutura intrínseca da nossa natureza humana confirma aquilo que a Palavra de Deus nos expõe e, pela nossa fé, somos convidados  a acreditar e a expressar no nosso viver.                        

Deus não engana. De igual modo,  a natureza humana nas suas dimensões mais profundas, na essência do seu próprio ser como pessoa também não nos ludibria. 

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Então, como entender, tanto ‘divórcio civil’ ou ‘separação definitiva’? Deixando as muitas outras questões sobre o valor e a validade dessas decisões, concentro-me mais e apenas na procura da razão última que, quase infalivelmente, leva tantas pessoas, homens e mulheres, ao tão praticado ‘divórcio civil’ ou à ‘separação definitiva’. Podemos nós, na verdade, entender o movimento interno daqueles que se sentem tão inclinados ao afastamento um do outro? A questão está, portanto, em descobrir o motivo que impele as pessoas à separação, e não tanto na forma, mais legal ou menos legal, como se efectua essa separação.

A experiência mostra, de maneira quase inacreditável, que, afinal, o porquê da dita ‘crise do matrimónio’ e consequentes ‘divórcio civil’ ou ‘separação definitiva’ se encontra na falta da tão necessária maturidade psicoafectiva de ambos, para que, assim,  possam decidir em liberdade o companheiro ou companheira e se, ele ou ela, é verdadeiramente o escolhido ou a escolhida para concretizar a união.

Sendo mais directo. Muitos e muitos são aqueles que possuem um corpo de adulto, são inteligentes, estudaram e até possuem uma boa formação académica e se revelam também gente de notável capacidade de acção e de iniciativa, e de chefia. Contudo e surpreendentemente, ao nível afectivo, são como crianças, imaturas. Acreditem ou não, mas isto é uma constante… e atinge uma multidão, para além da nossa consciência e imaginação.

Mais ainda. Embora, seja uma evidência quase, para não dizer, verdadeiramente científica, essa blocagem afectiva, com altíssima frequência, tem a sua raiz, espantosamente, ao apego muito subtil, profundamente delicado, mas extremamente possessivo aos nossos próprios pais. Tantas e inúmeras pessoas, muito convencidas, que se consideram ‘maduros’, pela via da racionalidade e da actividade e criatividade, mas que continuam a manifestar uma bem funda imaturidade a nível da afectividade. Nos seus afectos e nas suas necessidades afectivas não disseram ‘adeus aos país’. E a Escritura Sagrada continua a declarar como água cristalina e repleta de humanidade: «não separe o Homem o que Deus uniu», mas, vai mais longe e afirma com divina lucidez: «…e eles deixarão a casa dos pais para se unirem numa só carne…».

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Há que ser humilde para tocar o mundo íntimo do nosso coração, como dizem os autores de língua inglesa ‘my in most self’.

Há que ter a coragem de repensar o que é ser Homem, o que é ser Mulher.

Há que aprofundar o conhecimento da Psicologia de Profundidade, dom do século XX, e sabê-la integrar na Formação dos Homens e Mulheres do século XXI.

Há que ir mais longe na compreensão integral da Sexualidade, do Amor e da Família. 

Há que ter a audácia de abrir a nossa Humanidade à Transcendência e a Deus. 

  

 

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus de Macau

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O Encontro das Comunidades Macaenses: “…Só se lembra dos caminhos velhos quem tem saudades da terra…” 

A propósito das várias comemorações que por aqui se vão realizando sobre o canta-autor Zeca Afonso que faria 90 anos a 2 de Agosto e entre o trautear das várias melodias que nos deixou, chamou-me a atenção uma passagem do seu tema «Natal dos Simples» (um tema popular) que evoca as memórias do lugar em que nascemos e/ou crescemos, “… só se lembra dos caminhos velhos quem tem saudades da terra…” antecipando um pouco a imagem dos vários “patrícios” que rumarão a Macau em finais de Novembro para mais um encontro de macaenses.

Apesar da carga saudosista que estes encontros envolvem podemos também extrair daí a “vitalidade” da comunidade em se posicionar decorridos que estão 20 anos da fórmula da transição para a RAEM.

A presença de Macaenses vindos das diásporas para reviverem e reencontrarem pessoas e “velhos caminhos” em Macau, já por si só, seria de exaltar como marca distintiva da singularidade de Macau, dando relevo e importância a esta comunidade que mesmo mitigada pela presença reduzida dos actuais residentes se vê, de tempo em tempo, reforçada pela presença dos que continuam a reclamar a identidade macaense fora do território.

 

Nostalgia e saudosismo serão talvez os adjectivos que muitos utilizarão para classificar esta mobilização, para não falar em meras incursões pontuais e conjunturais que animam estas deslocações onde também se pauta pela oportunidade oferecida de usufruir dos subsídios atribuídos e das refeições e viagens que a complementam. Porém, no âmago da sua substancia, os valores enraizados serão porventura bem maiores, mesmo que se manifestem de forma inconsciente, o que os move é por certo a “alma” de ser (ou querer ser) macaense.

O património tangível e intangível que se vai salvaguardando é a marca distintiva dos traços herdados de gerações anteriores, sem dúvida muito importantes, mas o principal activo são as pessoas hoje que se mobilizam para lhes dar “voz” e “rosto”, é nelas que reside a capacidade de perpetuar e de reinventar se necessário, a marca dessa diferenciação. 

Neste sentido, o Encontro das Comunidades Macaenses cumpre os seus desígnios ao congregar e, de alguma forma ampliar, a visibilidade da identidade macaense com os que aí vivem e aqueles que estão espalhados pelo mundo fora, permitindo que se possa continuar a vincular a importância deste legado no contexto da RAEM.

Apesar da data de 2019 ser marcante nos desígnios da RAEM por enquadrar o aniversário dos 20 anos da pós transição, para nós (macaenses e portugueses) torna-se também importante, não tanto por se tratar de um aniversário, apesar de o podermos incluir como tal mas, por nos permitir exaltar a manutenção de uma presença edificada e renovada nos pressupostos de uma Macau que agora se designa por RAEM como realidade concreta que se festeja no quotidiano dos actores que nela participam.

Em boa hora, ou por coincidência, quis o tempo fazer coincidir os 20 anos da existência da RAEM com mais um Encontro das Comunidades Macaenses, o 6º do período da pós transição o 9º desde a sua criação, pois que seja também uma data onde possamos afirmar a “vitalidade” da identidade macaense em terras de Macau.

Fico então na expectativa que todos os participantes possam usufruir de mais um momento de são convívio que caracteriza estes encontros com esta mensagem de fundo de que só se lembra dos caminhos velhos quem tem saudades da terra”, ou seja, por mais que Macau seja modificada ou transformada no futuro que se avizinha teremos sempre as lembranças da infância, da adolescência e das demais experiências vivenciadas, perpetuadas nos registos que vamos deixando e nas histórias que os nossos avós, pais e conterrâneos nos vão contando (Macau sã assim).

 

Carlos Piteira

Investigador do Instituto do Oriente

Docente do Instituto Superior de Ciências Socias e Politicas / Universidade de Lisboa

 

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