A VIDA NÃO É SÓ DINHEIRO

Deixo-me levar, sem preocupações, pelas páginas do Evangelho e deparo com o episódio do Óbolo da Viúva: «Esta pobre viúva deitou na caixa mais de que todos os outros. Eles (os ricos) deitaram do que lhes sobrava, mas ela, na sua pobreza, ofereceu tudo o que tinha, tudo o que possuía para viver.» 

É difícil de enquadrar e, ainda mais, de encaixar na maneira de viver da sociedade actual uma experiência como aquela descrita pelo texto evangélico. Hoje, quase diria que enfrentamo-nos, exactamente, com a situação oposta. Tirar proveito até ao último ‘centavo’ e não perder um só ‘centavo’ para daí tirar proveito. Tal como aquele anúncio americano. Uma moeda de pouco valor é encontrada no chão de um grande banco, mas desprezada por uma cliente, com um displicente: ‘It is just a penny!’ Tudo para concluir que com um só desprezível ‘centavo’ até se começam fortunas enormes e negócios multi-milionários.

Dar tudo e ficar sem nada é inconcebível na mentalidade moderna. Contudo, estar desprendido ou desprendida… ser capaz de dar e partilhar, continua a ser um critério de vida defendido, repetidamente, por Jesus Cristo ao longo da Sua pregação por terras de Israel. Sim, é um critério paradoxal!  

Porém, nos tempos que decorrem e da maneira como a existência humana se apresenta, com tanta violência, com tanta degradação, com tanta exploração, com a multidão dos ‘pobres entre os mais pobres’ a crescer inexoravelmente, não será, hoje, uma exigência necessária e urgente, de ir mais fundo na compreensão dessa atroz realidade, se queremos chegar a uma harmonia social mais verdadeira e consistente e, construir um Mundo melhor?

Nem todos, é certo, são chamados a viver em pobreza e austeridade. No entanto, aumenta, e de maneira imparável, a exigência na Humanidade de implementar um estilo de vida caracterizado pela simplicidade, frugalidade e partilha de recursos. Eis alguns exemplos. A obesidade aumenta assustadoramente, inclusive entre os mais novos, por um lado. Por outro, diante dos nossos olhos aparecem, cada vez mais frequentemente, crianças esqueléticas, a morrer à fome, no Iémen, na Síria, na Somália… O Secretário Geral das Nações Unidas bem parece «… a voz que clama no deserto…» 

De novo, não conseguimos escapar aos factos. A Alta Finança distancia-se quase vertiginosamente da Economia real dos povos. Os ricos tornam-se cada vez mais ricos e sempre muito poucos, e os pobres cada vez mais pobres e inumeráveis, sem conta. Pior ainda, é quando vemos os políticos e os homens de Estado a serem arrastados nesse lamaçal da corrupção… E tudo, por causa do dinheiro!

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Este texto do Evangelho de São Marcos é pequeno, mas rico em significado. Ajuda-nos, por exemplo, a penetrar um pouco mais na compreensão da ‘experiência de Deus’. Em primeiro lugar, aqueles aspectos em que a natureza humana tem as suas expectativas sobre o comportamento de Deus. Em segundo lugar e ao invés, mostrando como, na pedagogia de Deus, nem sempre os modos e os tempos de Deus coincidem com as inclinações humanas.

O silêncio de Deus constitui um primeiro aspecto que chama a atenção. Todo este episódio da «pobre viúva» desenrola-se no segredo, no escondimento, num movimento discreto e humilde de mulher piedosa, seguramente sem ter sido notada por ninguém no Templo. Contudo, o Mestre Divino capta o momento, tão cheio de virtude e repleto de Deus, e declara: «Esta pobre viúva deitou na caixa mais de que todos os outros…» Só Ele, o Senhor, colheu o momento e nada Lhe escapou… Tantas vezes, na vida espiritual, exclamamos que ‘Deus não me ouve…’ ‘Deus não está a ver…’ ‘Deus parece estar a dormir…’ Será? Insensatos!

Um segundo aspecto, tomo-o pelo lado da ‘piedosa viúva: fazer ou dar esmola sem ter necessidade de ser admirada. Inacreditavelmente, ela executou tudo sem precisar de ser vista por quem quer que fosse. Fez tudo, só e apenas diante de Deus. «Grande é a tua fé», poderíamos nós dizer tal como Jesus exclamou, um dia, mais tarde, perante uma outra mulher de fé exemplar. Todavia, há que reconhecer que esta não é a atitude de muitos de nós. Acreditar de tal forma que não sejam precisos  ‘sinais’ para crer como exigiu São Tomé, tocar, ver, ouvir…. Mas, seguir o Senhor Jesus por Ele mesmo, acreditando na Sua Vida e na Sua Palavra.

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A Vida não é só dinheiro… A Vida para além do imediato é a questão de fundo. O homem e a mulher de hoje estão a ficar presa fácil do imediatismo, pragmatismo e tecnocracismo. Tudo, direi ironicamente, parece não passar da  consideração das coisas apenas a um palmo à frente do nariz. Em termos mais modernos, as pessoas parecem não ir mais além do seu compulsivo celular, dos anúncios publicitários ou do que dizem os outros nas redes sociais…

Há que ir mais fundo, ultrapassar aquilo que é meramente material que nos circunda e involve. Sair do imediato da nossa sensibilidade, muito corporal, emocional e de prazer. Precisamos muito seriamente de saber penetrar na profundidade do nosso próprio ser, de desenvolver um pensamento mais especulativo, mais poético e místico, de últimas causas… Não deixar que a técnica, tão metálica e fria, nos venha a dominar…

E, por fim, ter a coragem de se abrir à transcendência… E, porque não, colocar o problemática de Deus?

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus de Macau

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O PRÓXIMO… QUEM É ?

«Quem é o meu próximo?», perguntou um doutor da lei a Jesus. Lê-se no Evangelho deste Décimo Quinto Domingo do Ano Litúrgico. Tal como ele, todos nós, na sociedade actual, podemos fazer a mesma pergunta. Sobretudo, quando assistimos continuamente às atrocidades por que passam tantos seres humanos, espalhados pelo mundo fora. São aqueles que, atravessando rios e mares profundos; montanhas rochosas, frias de enregelar e cheia de abismos; desertos ardentes; selvas perigosas, procuram um lugar seguro para si e para os seus.  São aqueles que escapam à violência e ao terror de guerras intermináveis. São aqueles milhões e milhões que, impotentes e mudos, vêem a natureza a ser destruída. São aqueles que, como ‘cordeiros’ silenciosos ou silenciados, são triturados e esmagados na sua dignidade pela indústria do entretenimento, da diversão e do prazer. É aquele número, quase incontável, de vítimas da tirania política e económica. «Quem é o meu próximo?».

 A questão a ser colocada a nível global e à escala universal, é também para ser considerada por mim, como indivíduo, e por todos nós, como comunidade e no contexto da Região Administrativa Especial de Macau. A história daquela que é apelidada «a Cidade do Nome de Deus» não nos deixa esquecer que esta terra sempre foi um lugar de Acolhimento. Que falem os refugiados! A Santa Casa da Misericórdia, fundada há exactamente 450 Anos por D. Melchior Carneiro, o primeiro Bispo, em exercício, em Macau, continua a ser, por outro lado, a contínua memória dessa ajuda ao próximo e, como diria Madre Teresa de Calcutá, os pobres entre os mais pobres.

                        

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O texto do Evangelho, no entanto, desperta a nossa atenção para aspectos do que é ser o próximo deveras interessantes e até com grande originalidade.

O primeiro de todos é inverter a maneira habitual de falar e de se comportar das pessoas, quando se referem ao próximo. Comummente, denominamos como o próximo,  aquele outro que, fora de nós mesmos, está em necessidade. Contudo, Jesus, o Mestre Divino,  dá uma reviravolta completa a essa interpretação e, à atitude consequente. O próximo é, afinal, aquele que se aproxima, se avizinha, que se vai pôr ao lado e a estar junto daquele que se manifesta necessitado.

Se eu sou o próximo, se eu sou aquele que se faz  próximo de quem precisa de ajuda ou auxílio, então, o meu comportamento tem de sofrer uma mudança profunda e radical. Se esta fosse a realidade da Comunidade Cristã e da População  a residir aqui neste pequeno território do ‘Grande Delta’, quantos problemas sociais seriam mais rapidamente resolvidos. Se esta mudança de compreensão de quem é o próximo se desse, quanto o Mundo e a Humanidade seriam bem diferentes!  Mais Paz, mais Justiça e Igualdade, mais Harmonia.

O segundo aspecto deste diálogo com o doutor da lei está ligado àquela frase da parábola do «Bom Samaritano» em que Jesus Cristo menciona aquele que  « viu… (um homem meio-morto)… e passou adiante…».  Quem é ele? Chocante! Escandaloso! Num caso, o sacerdote. No outro, o levita. Ambos pertencentes à ordem sacerdotal… Em tempos de ‘mea culpa’, a Igreja reconhece, embora lentamente, que a atenção e o serviço aos mais pobres, aos mais abandonados e aos mais carenciados é característica fundamental do verdadeiro discípulo de Cristo. Assim, se compreende o apelo e a ardente súplica dos Papas a chamar toda a Igreja Universal à ‘Reforma de Vida’ de, se ela quer ser ‘sinal eficaz’ de Salvação e Reconciliação para o Mundo.

Ao mesmo tempo, a avalanche de corrupção descoberta no mundo da política, da finança e economia e do grande capital é dramática e pavorosa. Confirma-se, com cada vez maior  rigor científico, que decisões são tomadas contra toda a decência, a moralidade e o bem comum. Apenas conta o lucro. 

O terceiro aspecto está directamente relacionado com « o Bom Samaritano». O acto de verdadeiro amor foi executado, nesta parábola, por aquele que, socialmente, não é tomado em consideração.  De facto, é uma constante da pregação de Cristo dar exemplos de autêntica virtude, utilizando a atitudes dos que são postos de parte, os que não possuem estatuto social, os esquecidos, ‘ os pecadores públicos’, os humildes‘, ‘os mais pequenos’, Por exemplo, Jesus, o Senhor e Mestre, toma a figura de um outro publicano, aquele que orava no fundo do templo, para mostrar a grandeza da oração humilde… O cúmulo dessa realidade é Mateus.  Sendo publicano, fui chamado a ser Apóstolo.

Aqui não posso deixar de mencionar o elogio tão fino de Jesus Cristo, o Filho de Deus, ao ‘óbolo da pobre viúva’ no silêncio do templo, sem ver observada por ninguém. Só Deus e ela..

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Termino com as palavras da Carta de S. João: «Se alguém disser ‘Eu amo a Deus’, mas odiar o seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama o seu irmão, ao qual vê, como pode amar a Deus, que não vê?».

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus de Macau

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E… Algo Mais

Temos vindo a constatar, ao longo destas últimas semanas,  que ‘a experiência de Deus’ tem exigências que se mostram, com alguma frequência, contrárias às inclinações imediatas e instintivas da natureza humana. Umas, mais de carácter pessoal;  outras tocando mais as nossas relações com os outros. O Evangelho deste Décimo Quarto Domingo do Ano Litúrgico parece confirmar esta conclusão, quando escutamos as palavras do Mestre, ao enviar em missão, dois a dois, os seus discípulos. 

O ‘caminho espiritual’ e, muito concretamente, a ‘experiência pessoal com Deus’ não se compatibiliza  com a pessoa que só pensa em si e tudo gira à volta dela. Em pouco tempo, cai inexoravelmente num egocentrismo e narcisismo, fechando-se morbidamente em si mesma, o que a incapacita não só de se abrir a Deus como também a bloqueia na sua relação com os outros, sejam eles homens ou mulheres. O consumismo constitui uma manifestação muito polifacetada desse egoísmo obsessivo que se está a apoderar do ser humano, hoje, e que grassa perniciosamente na sociedade actual, sobretudo nos países mais abastados. Perante as suas necessidades básicas e elementares de  ser vivo neste mundo terrestre, como o comer, o beber, o vestir, o dormir e o ter um abrigo, o homem e a mulher contemporâneos perdem, aos poucos mas consistentemente, a sua liberdade interior e a sua capacidade de aspirar aos grandes valores da sua existência como a Verdade, a Paz e o Amor, a Justiça, a Solidariedade e a Harmonia, a Beleza, e, enfim, de deixar-se interpelar pela Transcendência…. e de não ter receio da questão de Deus.

O ser humano precisa urgentemente de repensar o seu modo de viver. Na prática, parece estar só e exclusivamente a pensar em si e nos bens materiais.´ Fecha-se irremediavelmente aos outros. E Deus não passa, mais uma vez,  de um ‘ilustre desconhecido’.

 

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O texto evangélico,  pelas palavras do próprio Jesus Cristo, apresenta um critério de vida imprescindível de ser vivido por todo aquele que quer ser Seu discípulo e tornar-se missionário capaz de anunciar o Reino de Deus: «Não leveis bolsa, nem alforge nem sandálias…». Eis a liberdade e o desprendimento interiores, como condição necessária.  Parece muito claro que o Caminho de Fé não está ligado ao dinheiro, nem à riqueza nem ao estatuto social. Livre perante a riqueza e o conforto. Há que reconhecer, no entanto, que, décadas atrás, em certos sectores da Sociedade, ser cristão ou católico estava fortemente identificado com a riqueza e o nome de família. A humanidade precisa de voltar, com coragem e imaginação e convicção, à simplicidade e sobriedade de vida… e abrir-se a Deus.

Um outro elemento no ‘caminho espiritual’. Seguir a Jesus Cristo não significa que, de seguida, todos nos aceitem ou admirem. Ou de que, ao anunciar a Sua Mensagem, haverá um reconhecimento espectacular da minha pessoa, uma aceitação muito carinhosa. Ao contrário, pode provocar, primeiramente, a antipatia e o desprezo e chegar até à perseguição:  «Eu vos envio como cordeiros para o meio de lobos», avisa-nos o Senhor. Neste momento, recordo, com profunda admiração, a jovem nigeriana Lea Sharibu que foi feita refém do grupo terrorista Boko Haram até agora, por ser cristã.  Sim, «a Cruz de cada dia» é parte integrante da ‘experiência espiritual’,  da relação com Deus.

Em seguida e complementarmente, o Senhor Jesus aborda o nosso ‘Caminho espiritual’ ou de fé em Deus na sua correlação com os outros, mas de uma perspectiva diferente: «Não vos demoreis a saudar alguém  pelo Caminho». A experiência de Deus não se constrói fundada no medo. É verdade. Porém, também não se constrói na dependência imatura de outros. Quantas saudações, quantas manifestações e quantas cenas com os outros que não passam de um extravasar de necessidades afectivas escondidas,  originadas na infância. A relação com Deus, Pai e Senhor, transporta-nos para além de todas e quaisquer insuficiências da nossa história pessoal. Ele basta. Ele tudo transforma. A intimidade de amor com Deus implica, antes de mais e sempre uma liberdade profunda perante os outros. 

Acrescentando algo mais ao apelo de Jesus Cristo «Não vos demoreis a saudar alguém  pelo Caminho». Podemos acrescentar que a relação de amor com Deus também não está relacionada nem com o sucesso das relações públicas de cada um nem com a multidão dos membros das suas redes sociais nem com o seu bem falar ou com a sua exuberância retórica. O encontro é um encontro de um a um, de coração a coração. Eu e o meu Deus…

 

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Cresce entre aqueles que chegam à idade da maturidade, pelos quarenta ou cinquenta e até um pouco mais, que se interrogam, íntima e seriamente, pelo ‘sentido da sua vida’. Com grande surpresa e espanto descobrem que a raiz da ‘falta de sentido’ está na falta de um conhecimento profundo e verdadeiro de si mesmos.

 

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo superior da Companhia de Jesus de Macau

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O aroma da flor de lótus

O Jardim Lou Lim Iok tem, para mim, um encanto muito especial. São muitos os factores que levam a este deslumbramento mas, o primeiro de todos, assenta na sua serenidade. É um lugar situado no meio do turbilhão da cidade de Macau, onde reina a paz. 

Outrora campesina, arrebalde da cidade cristã, afastada do mundo dos homens, viu aproximar-se-lhe os cogumelos de cimento. Cercou-se de muros altos para preservar a  intimidade pessoal.

Quem nele entra, encontra caminhos dedáleos, ora orlados de vegetação vigorosa e verde ora ladeados de robustas e inamovíveis rochas de aspecto grotesco, animalesco e humanóide, num emaranhado de luz e sombra, em constante transmutação entre o Yin e o Yang. São as áleas labirínticas da vida cercadas dos parceiros que acompanham o ser vivo, nesta caminhada terrena. Não faltam as encruzilhadas, onde a decisão de seguir em frente ou virar à direita ou à esquerda, ou mesmo retroceder, é tomada consoante o objectivo da visita ou o atractivo de sedução irresistível, a menos de dois palmos do nariz. Há ainda recantos, esconderijos e pavilhões que convidam à reflexão, quiçá um encontro com os filósofos da China Antiga… e porque não os da China moderna e contemporânea, e porque não os ocidentais,  mesmo os vivos, em carne e osso?

Depois, há o pavilhão no meio do Grande Lago, que surge escondido entre as ramagens dissimulantes das árvores e do colmo perfilado das poáceas que refrescam à beira da água. É o paraíso prometido, no firmamento divino, ocultado pelas nuvens rosadas de um crepúsculo veranil? Não, no seu solo não nascem escadas dirigidas ao céu mas as suas paredes albergaram figuras ilustres da história de Macau, com destaque para um espírito iluminado pela ânsia da liberdade – o médico Sun Yat-sen, o pai da República Chinesa. Suponho que ele tenha aí residido, em contemplação harmoniosa consigo e com a Natureza valorizando a essência humana, por influência da acalmia espirituosa das águas que serviram e ainda servem de alimento à flor de lótus que, uma vez por ano, surge magnânima, exuberante, irrompendo do lodo sujo do leito lacustre.

Na Natureza, segundo Antoine Lavoisier, nada se perde tudo se transforma. De igual modo, a lei da impermanência, no budismo, possibilita a renovação do Universo e a transformação do mal pelo bem ou, melhor ainda, o arrependimento do danado na progressão de benemerência. Este foi o pensamento que me ocorreu ao fotografar esta mística flor, da Ponte de Ziguezague que atravessa o Lago dos Nenúfares, mais correctamente o Lago das Flores de Lótus. Há-os em grande abundância, tanto aqui como por toda a Macau península e insular. Na cidade decorre o 18º Festival da Flor de Lótus de Macau, promovido pelo Instituto para os Assuntos Municipais de Macau . O slogan é: O Aroma de Lótus Perfuma a Cidade. 

Macau está a transformar-se, passou de simplesmente Macau a RAEM e depressa integrará a Grande Baía Guangdong – Hong Kong – Macau. Já existe uma ponte que une estas três parcelas do território chinês. Uma ponte física definida como construção que liga pontos separados por um curso de água ou depressão de terreno. Além disso, pretende-se que a união seja estabelecida também nas áreas cultural, intelectual, moral, nas dimensões que integram a totalidade do espírito humano. As manifestações, em Hong Kong, contra uma proposta de lei de extradição, mostram que há um longo caminho a percorrer para a completa harmonização das gentes do delta do Rio das Pérolas. Pudesse o aroma de lótus que perfuma a cidade de Macau e transformou a inóspita Praça do Tap Seac numa florida China e tornou a urbe num Paraíso da Flor de Lótus, espalhar-se pela Grande Baía e miraculosamente beneditar o mal… Utopia? 

Nenhuma oração é utópica. Um desejo ganha força pela comunhão das partes. A união faz a força. Se o elo for o perfume de lótus, há por aí alguém que me diga como cheira a flor de lótus? Ela é flor que se cheire?

A minha mulher diz: “Todas as flores têm cheiro”. É possível que o perfume da flor de lótus seja tão subtil que não estimule as papilas olfactivas do homem. Há raios ultra-violetas e um espectro infra-vermelho de luz que são invisíveis aos olhos humanos. Há ultra-sons imperceptíveis aos nossos ouvidos. Por que razão não poderá haver cheiros, bons ou maus, insensíveis ao olfacto do homem? Vês as abelhas a labutarem à volta destas flores? Elas sentem o que nós não cheiramos.

Palavra puxa palavra e as ideias sucedem-se. Os escanções aprendem a reconhecer o gosto e os aromas dos vinhos, os perfumistas especializam o nariz para a detecção de aromas e combinam as diferentes fragrâncias para criar sensações emotivas com promessas libidinosas. Haverá no mundo alguma coisa que não se aprenda? Alguém me ensinará a cheirar o que presentemente não detecto e in extremis, a apreciar o que hoje abomino. O primeiro passo é ter a mente receptiva, capaz e aberta para estabelecer conexões. Venha a mim o aroma da flor de lótus.

 

Shee Va

Médico e escritor

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Exigência e inclinações

Continuamos a procurar entender, na Sociedade actual e, concretamente, nesta terra de Macau, desde longa data, chamada Cidade do Nome de Deus, o porquê de muitos se manifestarem tão apáticos, indiferentes ou até mesmo relutantes em fazer qualquer esforço para compreenderem ‘a experiência de Deus’ nas suas vidas. Sobre o assunto deixemo-nos conduzir pelas palavras do Evangelho a ser proclamado na Assembleia Cristã do próximo Domingo, o Décimo Terceiro do Ano Litúrgico.

Neste caminhar para Deus, normalmente lento e pausado, o ensinamento de Jesus Cristo parece chamar a atenção para dois aspectos a terem de ser tidos em consideração. Por um lado, a Exigência do caminho para poder seguir verdadeiramente a Deus, o Senhor Jesus, aqui no texto, o que é bem expresso pelas Suas próprias palavras, ao convidar alguém perto de si, dizendo: «Segue-Me… Deixa… Tu vai…». Por outro lado e complementarmente, as Inclinações  do ser humano, que as observações do Senhor Jesus nos fazem perceber que nem sempre e nem todos os sentimentos e desejos do coração são tão cristalinos, orientados para Deus, só e apenas: «Seguir-te-ei para onde quer que fores…».

                

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A experiência do ‘encontro’ de Deus com o ser humano, seja ele homem ou mulher, tem Exigências. Escutemos as respostas daqueles dois discípulos a quem Jesus Cristo se dirigiu. O primeiro respondeu-Lhe, dizendo: «Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar o meu pai». O outro retorquiu-Lhe no  mesmo sentido: «Deixa-me ir primeiro despedir-me da minha família». 

Reflectindo, com certa argúcia, coragem e perspicácia psicológica, verificamos que quantos adultos baptizados, mas ‘ditos’ não praticantes, se encontram nesta mesma situação e argumentam da mesma maneira. Quer queiram ou não, ou quer gostem ou não… A sua experiência de fé está encerrada  ou fechada nas memórias agradáveis de tempos passados, de Infância, de Adolescência e, talvez, de Juventude. Desse tempo, se recordam do ambiente, do plano de formação e da pedagogia, com catequistas ‘amorosas’, que não mais se esquecerão. Entram igualmente no quadro o pai, a mãe, a avó, o avô, a tia, o tio.  Enfim, tudo está gravado no álbum de família. 

A situação, porém, agrava-se quando constatamos que, no suposto caminho de Fé, se permanece preso à Infância, à Adolescência, à Juventude não só nas recordações mas também na parte afectiva. O Corpo cresce. A Inteligência desenvolve-se.  A Vontade amadurece. Mas o Coração guarda tudo, ‘as coisas de Deus’, como criança, adolescente ou jovenzinho. Onde está ‘a pedagogia do Coração’, que conduz ao crescimento, à maturidade da Fé que transforma o discípulo de Cristo em ‘apóstolo’, capaz de ler, na Fé, os acontecimentos e de, na Fé, transformar a Sociedade e o Mundo que o rodeia?! 

Indo mais fundo e penetrando mais intimamente na experiência humana que nos é descrita nesta passagem da vida de Jesus. Embora, o homem e a mulher sejam intrinsecamente chamados ao encontro, ao diálogo e à intimidade com Deus, percebemos,  pelo texto evangélico, que nem todas as Inclinações que brotam do seu Coração, mesmo aparentemente muito espirituais, nem sempre provêm de Deus. Tomemos os dois exemplos que a narração nos apresenta. 

Perante a falta de hospitalidade dos Samaritanos para com Jesus, que ia a caminho de Jerusalém, os irmãos Tiago e João, também chamados, por sinal, Filhos do Trovão,  exclamaram: «Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu que os destrua?» O Mestre repreendeu-os com firmeza. Não sabiam o que estavam a dizer, apesar de parecerem muito espirituais e zelosos nas suas intenções.  Não passava de um engano muito sibilino, uma ‘máscara espiritual’.

O outro caso é ainda mais flagrante: «Seguir-te-ei para onde quer que fores…». À primeira vista, parece um oferecimento de si mesmo deveras genuíno, uma vocação apostólica. Mas, afinal, não passava de uma aparência de um real e verdadeiro chamamento a seguir o Senhor Jesus. Na realidade, faltava-lhe assumir o ser pobre e humilde, critério de vida essencial a toda e qualquer pessoa que deseja seguir a Jesus Cristo: «As raposas têm as suas tocas e as aves do céu os seus ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça».

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‘O Mundo dos Afectos’, na sua compreensão profunda, global e íntima, constitui, no meu entender, a problemática humana mais necessária a ser encarada nestes ‘Tempo Modernos’, que já entraram no Terceiro Milénio. Atrevo-me a dizer que o dom do Século XX, a Psicologia de Profundidade, entendida na sua dimensão humana e existencial e aberta ao espiritual, e não meramente académica e técnico-científica, ainda está por encarnar na Humanidade. A sua integração na Formação Integral do Ser Humano contemporâneo assume cada vez mais uma importância primordial de carácter civilizacional.
Luís Sequeira, sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau

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Jesus Cristo

A tão chamada ‘Cristianíssima Europa’, reunida em Assembleia, anos atrás, recusa que na sua Constituição seja declarado que a sua identidade e formação está intimamente ligada à experiência cristã. Depois deflagram duas polémicas ou controvérsias. Uma a dos crucifixos nas salas de aula. Na outra,  discute-se a justeza de manter na vida de sociedade as festas e feriados relacionados com o calendário cristão…

Ficamos perplexos! Que significa tudo isto? Em traços muito simples e gerais,  os factos parecem revelar  que o Cristianismo,  particularmente a  Igreja Cristã, perde sentido na vida de muitas pessoas. A apatia perante a Religião Cristã cresce a olhos vistos e o consequente abandono da prática cristã é proporcional às Igrejas que se apresentam cada vez mais vazias.

Ao constatar esta realidade, somos como que levados a perguntar se Jesus Cristo tem ainda significado na Humanidade,  no começo do Terceiro Milénio. Ao mesmo tempo e por outro lado, não podemos permanecer indiferentes ao convite do mesmo Senhor Jesus para acreditar n’Ele e segui-Lo. E mais ainda, dar continuidade ao Seu pedido, na hora da despedida: «Ide… Ensinai todas as nações, baptizando-as em  nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo».

Debrucemo-nos sobre Macau,a Cidade do Nome de Deus, também ela Comunidade Cristã de longa data. Creio poder afirmar que a população cristã, e mais exactamente a Comunidade católica, e em particular, aquela que fala português, apresenta, no seu conjunto, as mesmas características das congéneres europeias: o abandono da prática religiosa e a ausência dos valores cristãos no quotidiano da vida pessoal, familiar, profissional, social e política.

 

Tentando compreender a situação. Se, por um lado, podemos afirmar que essas atitudes de abandono, apatia e indiferença perante a vida de fé são consequência de um ‘estilo de vida’ que domina, nestes ‘tempos modernos’, a existência dos crentes. Na verdade, continua a verificar-se um Consumismo compulsivo nos hábitos de viver das pessoas; um Racionalismo técnico-científico muito restritivo e tirano no encarar as soluções da vida; e, finalmente, um Materialismo ausente de sentido espiritual e transcendente da existência humana que asfixia e atrofia o desenvolvimento real e verdadeiro de todo o ser humano.

Contudo, por outro lado, não podemos deixar de afirmar que, do mesmo modo, uma ‘formação’ ou uma ‘pedagogia’ insuficiente pode não conseguir igualmente ajudar os crentes ainda crianças, adolescentes ou jovens a alcançar uma vivência madura, empenhada e responsável da fé. Neste aspecto, sou bastante crítico. A formação à fé parece focar-se excessivamente na mente e na racionalidade e, consequentemente, privilegiar o saber a doutrina. Complementarmente, dá-se  de igual modo uma ênfase muito forte à prática dos das devoções, dos sacramentos, por exemplo,  ir à missa ao Domingo, à Confissão… Mas onde está, então, a ‘pedagogia do coração’. Saber ele ou ela colocar o seu mundo íntimo, o das emoções, sentimentos e afectos, diante de Deus. Educar, portanto, o jovem ao ‘encontro pessoal’ com Deus, ao ‘estar a sós’ com Deus, falar de ‘coração a coração’ parece fundamental. Assim, se abre o caminho à  `oração de intimidade’ e não ficar apenas  no ‘recitar orações’, por mais belas que sejam!

A insensibilidade do ser humano, hoje, à presença e à relação com Deus está profundamente ligada ao facto de se dar maior importância à ’formalidade’, externa e racional,  da vida de fé e  menos à relação de `intimidade’ com esse mesmo Deus.

Creio que o Papa Francisco, como notável líder espiritual, está a tentar fazer compreender a todos, homens e mulheres deste século, o sentido profundo da nossa ‘humanidade’ e aí saber encontrar igualmente a presença inefável da ‘divindade’, ‘à imagem e semelhança’ do Senhor Jesus Cristo.

 

 Renovação Espiritualimpõe-se na Comunidade Cristã da Cidade do Santo Nome de Deus de Macau.Muitos continuam longe dos Templos de Deus, porque a experiência de Deus não lhes toca o âmago das suas vidas, nem o coração se sente sensível à presença íntima desse mesmo Deus. Outros muitos vivem levados por um certo bem-estar do redopiar das suas recitações e devoções.

Torna-se cada vez conhecida na Igreja Universal e Local a chamada dos Papas à necessidade premente de uma Nova  Evangelizaçãopara enfrentar o Mundo actual.  Algo, ao mesmo tempo,  diferente, mas eficaz. Mais uma vez, procurando fundamentalmente que a Mensagem Divina seja feita humana e carne, à maneira de Jesus Cristo encarnado, e o Ser Humano entenda que ‘o seu Coração só em Deus poderá definitivamente descansar’.

Surgem já Sinais de Esperança. Jovens empenhados na Fé e no Serviço aos Outros crescem em número e multiplicam-se.Entre os mais jovens, há mártires pelas grandes causas, como a Justiça, a Liberdade, a Protecção da Natureza Encontram-se, com mais frequência, nas gerações mais novas de casados, de profissionais, homens e mulheres capazes de levar até às lágrimas o verdadeiro sentido do Amor, da Família, da Vida, da Moralidade, da Ética, da Dignidade Humana, da Beleza, de Deus.

 

Luís Sequeira

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O Espírito Santo e os maus espíritos…

Era uma promessa de Jesus Cristo. Ele enviaria, mais tarde, o Espírito Santo: «Eu rogarei ao Pai e Ele vos dará outro Consolador, para estar convosco para sempre, o Espírito de Verdade, que o mundo não pode receber, porque não O vê nem conhece, mas que vós conheceis porque habita convosco e está em vós… O Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em Meu nome, Esse ensinar-vos-á todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito». De facto, cinquenta dias depois da Sua Ressurreição, assim acontece. A Igreja celebra este acontecimento naquele que é chamado «O Domingo de Pentecostes».

No entanto, algo surpreendente Se realiza em nós. Tornámo-nos,  efectivamente, «templos do Espírito Santo»,como o próprio Senhor Jesusafirmou  aos seus discípulos mais íntimos, os Apóstolos,«O Espírito Consolador… o Espírito da Verdade… o Espírito Santo… Ele habita convosco e está em vós».

Mas, se assim é, como se compreende que nós, homens e mulheres do Terceiro Milénio, não consigamos perceber essa presença do Espírito de Deusdentro de cada um de nós!? A situação agrava-se ainda mais, quando, noutros momentos, particularmente, nas situações difíceis, de crise e caos, acabamos,  tantas vezes por imaginar as pessoas com que nos deparamos como se fossem ‘lobos ou raposas’, ‘tigres ou leões’, ‘monstros ou vampiros’. Pior. Até chegamos ao ponto de, nalgumas ocasiões de aflição e amargura, afirmar cegamente que vimos ‘fantasmas’, ‘espíritos’ e  ‘demónios’ na realidade do nosso dia a dia. Então, aqui, em Macau, este aspecto atinge todos os escalões da sociedade, desde dos mais pobres aos mais abastados e ricos. Perguntem aos ‘mestres’ do ‘feng shui’ quem os vai consultar e em casa de quem eles se apresentam para dar a ‘reviravolta’ às salas!

Eis «Templos de Deus»que bem precisam de uma boa vassourada do Espírito Santo de Deus para limpar toda a tralha malsã que se acumula nas profundezas do seu coração humano.

E… isto acontece, muito secretamente, nas vielas e nas avenidas da «Cidade do Nome de Deus»…!

Todas estas situações do homem e mulher modernos perante a questão da  presença de Deus’ no íntimo si mesmo e no Mundo estão essencialmente ligadas à sua própria natureza humana, à sua estrutura psicoafectiva, ao seu Coração de carne, cheio de emoções, sentimentos e afectos. Não constitui, primariamente, uma dificuldade ‘espiritual’. Jesus Cristo é cristalino no Seu ensinamento: «O Espírito Consolador… o Espírito da Verdade… o Espírito Santo… Ele habita convosco e está em vós». O problema situa-se ao nível ‘humano’. Por isso, é necessário tentar entendê-lo.

A insensibilidade do ser humano, hoje, à presença de Deus na sua vida  está fortemente radicada no estilo de vida que ele está a assumir como seu próprio, e julgando ser capaz de lhe dar felicidade.Ilusão, ilusão, ilusão! Jamais uma vida dominada pelo Consumismo compulsivo,  tiranizada por um Racionalismo técnico-científico e subtilmente manipulada por um Materialismo ausente do sentido espiritual e transcendente da existência humana trará alguém, a longo prazo e intimamente,  à plenitude do seu desenvolvimento e à alegria de viver.

Quanto ao ver os outros como ‘lobos’, ‘raposas’, ‘víboras’ não parece ser uma atitude muito própria de quem é possuído pelo «Espírito Santo». Contudo, é o próprio Jesus, o Mestre Divino, que chama atenção dos seus discípulos, dizendo que eles, na Missão, serão como «…cordeiros entre lobos…». O mesmo Senhor chama «raposa»a Herodes.  E «raça de víboras» aos escribas e doutores da lei. Aqui o que Jesus Cristo deseja afirmar é a importância de um coração livre e cheio da força de Deus que não se atemoriza perante nenhum homem ou mulher, quando está em causa a obra de Deus.

Por fim, há que reconhecer que, nos momentos de maior angústia, onde parece que até Deus desapareceu e nos abandonou, facilmente toda a nossa estrutura psicoafectiva parece ver vividamente «fantasmas»e «maus espíritos».De novo, somos chamados à confiança total em Deus que é Pai e que em Jesus Cristo, Morto e Ressuscitado, venceu todo o Mal.

Lembremo-nos que, quando Jesus apareceu aos Seus Apóstolos, durante a tempestade do Mar Tiberíades, eles gritaram aterrados, pensando que era um «fantasma».

 «Não tenhais medo… Não se perturbe o vosso coração…».Estas são as palavras consoladoras que Jesus disse naquela altura, mas que nos repete, hoje, quando nos invade «a Angústia mortal».

«O Espírito Santo… Ele habita convosco e está em vós».

 

Luís Sequeira

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