‘Não tenhais medo …’

 

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«Não tenhais medo dos homens» são as primeiras palavras de Jesus no Evangelho deste Décimo Segundo Domingo do Ano Litúrgico. Se aqui se refere mais propriamente à  proclamação da Verdade de Deus,  penso não ser incorrecto, afirmar que o mesmo se espera no que se refere à Verdade  da realidade humana.

Esta leitura da Palavra de Deus ou esta compreensão do texto sagrado ou ainda esta aplicação da exortação de Jesus, da minha parte, é motivada por algo que aconteceu durante a semana.  Refiro-me  ao  debate da noite do passado Domingo, na televisão, no programa “Contraponto”. Os comentadores, em termos simples, vincavam  a ideia da necessidade imperiosa e urgente da comunidade portuguesa ganhar maior ‘consciência de si mesma’. Consciência  inspirada num passado rico e reconhecido como ‘património mundial’. Consciência capaz de assumir a realidade presente, no quadro da vivência do princípio ‘um país, dois sistemas’. Consciência de um futuro em que China se vai tornando, paulatinamente, particicipante real da geo-política mundial  e Macau chamado a continuar a ser Lugar de Encontro de Povos, Culturas e Religiões,  plataforma de Encontro dos Povos de Língua Portuguesa e centro de inovação e criatividade. E eu acredito veementemente, que Macau continuará também a ser ‘A Cidade do Nome de Deus’, na China.

Mas, somos nós ‘velhos do Restelo’, retrógados, sem horizontes de esperança ou descendentes dos ‘descobridores de novos  mundos’?

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Quase vinte anos se passaram depois da ‘transição’ da Administração de Macau.    Vivemos numa nova  realidade política, a ‘Região Administrativa Especial de Macau’ e uma sociedade rejuvenescida e diferente está-se a formar. O Delta do Rio das Pérolas tornar-se uma Zona de notável desenvolvimento. A China, na comunidade internacional,  assume um estatuto nunca antes imaginado. Perante tal situação, tão cheia de acontecimentos surpreendentes,  torna-se oportuno e prudente, escutar as palavras do Senhor Jesus, que nos diz : «Não tenhais medo dos homens».

Novas situações,  novas circunstâncias,  novas realidades provocam sempre, no ser humano,  momentos de perplexidade e medo. Em termos de histórias pessoais, todos nós  presenciamos experiências, algumas delas até dramáticas, neste pequeno território nas costas do Mar do Sul da China.  Porém, é  tempo de perdermos o medo, de não nos deixarmos  levar ainda por desconfianças e preconceitos, de não continuarmos  presos ao antigamente. Precisamos de homens e mulheres e, sobretudo, de jovens, de coragem e rasgo para abrir horizontes de uma nova  humanidade … e do Macau do futuro.

«Nao tenhais medo dos homens», insisto e continuo a insistir na chamada de atenção de Cristo. A Palavra de Deus proclamada todos os Domingos é sempre actual e actualizante. Diz coisas para o momento de que, tantas e inúmeras vezes, nem sequer nos apercebemos ou vislumbramos. Afirmo que, na comunidade  portuguesa,  há muito medo escondido, encoberto por exuberância de palavras e racionalização muito eloquente e de cátedra. Mas, no fundo, ainda temos medo de ser e de afirmar quem somos. Temos receio e medo do nosso passado, o mais genuíno, aquele que é expressão da nossa contribuição civilizacional. Há que reconhecer erros e disparates. Têmos um rol. Mas quase quinhentos anos de história neste pequeno recanto do Delta do Rio das Pérolas  e em que a autoridade  que o concedeu  e consentiu na sua existência, durante séculos,  pede para que este ‘historic Macau’ seja reconhecido como ‘património cultural da humanidade’, não são factos mais que suficientes para termos a honra de pertencer ao povo a que pertencemos ?

Direi também que a comunidade chinesa tem também necessidade de se libertar de tantos fantasmas e medos perante a História de Macau.  Isto assim seja, particularmente, quando um dos seus maiores líderes, Deng Xiaoping, a soube compreender sob a fórmula genial de ‘Um Pais, dois Sistemas’.

Sem me alongar, diria que igualmente na situação presente, se nota, na comunidade portuguesa e perante dificuldades concretas e reais, medo e muita lamentação. Falta de ‘consciência’ de sermos ‘a comunidade’ que somos, com um ‘designio  nacional’, tendo definido um ‘projecto’capaz de contribuir, na medida das suas capacidades,  para o desenvolvimento daquela que será uma das super-potências do mundo nos tempos que se avizinham.

O medo do futuro, ele aí está. Quem se atreve a pensar no tempo até ou para lá de 2049? O futuro é o presente da nossa Juventude .

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«Nada há encoberto que não venha a descobrir-se,  nada há oculto que não venha a conhecer-se».  Este é um outro ensinamento que o Mestre nos deixa  neste Domingo. Constitui um forte e vigoroso apelo a dizer, única  e exclusivamente a Verdade. Mais afirma, a Verdade, tarde ou cedo, virá ao de cima, à luz.

A construção da nossa comunidade portuguesa no futuro tem de ser cada vez mais baseada na Verdade e no Conhecimento. Dizer a Verdade, com coragem e até passar por vicissitudes e até humilhações, evitando toda e qualquer mentira, porque do pequeno se chega ao grande.

Que o Conhecimento seja verdadeiro, competente e professional. Sobressair por valor, não por esquemas, influências  ou canudos universitários recheados de ignorância e pedantice.

Tal nível moral das nossas atitudes transporta-nos, infalivelmente, a uma outra dimensão, a espiritual, onde as faculdades do Espírto nos abrem caminhos de compreensão da pessoa humana para além da matéria, do imanente e do imediato e nos lança nas sendas das ciências, das artes, da cultura. Este Humanismo  é constitutivo e característico do nosso ‘ser português´ e, portanto, do nosso estar em Macau.  O intrínseco universalismo  que domina o nosso ‘ser’ abre a nossa alma a todos povos e raças. Eis a razão última da existência da Comunidade Portuguesa em terras do ‘Celeste Império’.

Ainda um último ponto que me chama a atenção nas  palavras de Cristo: «Mas àquele que me negar diante dos homens, também Eu o negarei diante de meu Pai que está nos Céus».  Ao fim e ao cabo, por mais sofisticado que sejam os argumentos contra ou a favor, Cristo e a Sua Igreja, chamemos o Cristianismo,   foi o extraordinário ‘Dom’ que ‘a Civilização Portuguesa’ trouxe ao Império da China.

 

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve nestes espaço todas as semanas, sempre às sextas-feiras.

 

 

 

 

 

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O país de Pedrógão Grande

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O país realiza um enorme exercício de consciencialização colectiva face ao que aconteceu na tragédia de Pedrógão Grande. E pede apuramento de responsabilidades, não se contentado com a invocação do caso fortuito, da acção implacável e indomável da  Natureza, como deflagradora da tragédia. É natural que o faça; é bom que o faça. É um exercício de cidadania activa sermos capazes de nos interrogarmos onde falhámos naquelas circunstâncias para a próxima vez minorarmos as consequências mais gravosas de casos idênticos. Uso a primeira pessoa do plural com alguma solenidade porque não existem neste caso – como noutros – culpas solitárias.

Devíamo-nos despir de preferências partidárias ou corporativas nesta reflexão. Bem como não cedermos à tentação de apontar a dedo ao alvo que mais se adapta à lógica de decapitação. Não precisamos de cordeiros ou de animais racionais para a pira sacrificial. Não é essa a melhor forma de sermos dignos da memória dos que morreram, dos que sofrem nos hospitais com queimaduras terríveis, das famílias que choram a partida dos seus entes queridos. Não podemos descer tão baixo; não somos assim.

Vamos permitir que os inquiridores façam o seu trabalho de investigação ao circunstancialismo da tragédia de uma forma serena, aprofundada e livre de pressões. Aliás como o Primeiro-Ministro no seu despacho de segunda-feira o exigiu. Saber se o sistema de comunicações do Estado [o chamado SIRESP] falhou, saber porque não foi encerrada a estrada nacional [EN 236-1] quando as autoridades perceberam a propagação do incêndio. Será, depois, o tempo do Parlamento procurar fazer uma leitura dos factos e das responsabilidades, caso venham a ser apuradas.

Mais importante que apontar culpas e sobrevalorizá-las é corrigir o mal, o deficiente, a omissão e isso exige calma e presença de espírito. Disse-o, por outras palavras, o Presidente da República na forma calma mas emocionada como se dirigiu ao país e procurou, in loco, acalmar as populações em sobressalto. Precisamos também de abraços, senhor deputado Helder Amaral; fazem parte da nossa cultura, daquilo que nos distingue.

Quase uma semana depois, temos de constatar que o país reagiu em uníssono, a uma só voz, ao pedido de socorro como se fosse um grito colectivo que nos impulsionasse a mexer-nos da nossa letargia e acorrermos. Fui lendo pela imprensa e pelas redes sociais esse movimento extraordinário de solidariedade. Só me lembro de algo igual no cordão de solidariedade por Timor, em Lisboa, em 1999. É um sinal que a sociedade civil que causticamos usualmente como apática se levanta e acorre quando urge.  É isso que nos faz diferentes – e a nós, portugueses que estamos na diáspora – ter orgulho na Pátria portuguesa.

Seja-me permitido ainda deixar dois alertas. Era importante que não cedêssemos à tentação das explicativas conspirativas. Como se fossemos marionetes teleguiadas por lobbies poderosos e intocáveis que se movimentam na sombra. Não digo que eles não existam. A vida humana é mais complicada do que isso. Há sempre uma margem de imponderável que agrava crises humanitárias como esta. Deus não dorme, mas às vezes passa pelas brasas.

Era importante, também, que a comunicação social desempenhasse o seu papel, de uma forma responsável e contida. Assistimos a um incidente, nada abonatório, de uma repórter de um canal televisivo a fazer um directo junto a um cadáver carbonizado, gesticulando no meio das cinzas e dos escombros. Há coisas que não se devem fazer em televisão. Violam os princípios da dignidade e da decência, da protecção da imagem, desrespeitam as famílias na sua dor e sofrimento. Henrique Monteiro chamava-lhe, na sua página numa rede social, a substituição da emoção pela lógica da notícia e da reportagem, a perda da ética em nome do espectáculo. Acho que é mais do que isso. É a perda da vergonha, o abandalhamento da comunicação social e da profissão de jornalista.

Hoje, dia 21, em que escrevo esta crónica, é dia do solstício de Verão. É o momento que no hemisfério norte marca o início do Verão. O tempo em que o Sol atinge a maior declinação em latitude, calculada a partir do equador. Era um tempo, nas culturas celtas, das celebrações e dos rituais em que se agradeciam aos deuses todas as energias do Verão, os frutos. O evento é ainda celebrado em locais sagrados como Stonehenge em rituais que datam dessa tradição milenar e pagã e que representam a adoração do Sol e das forças da natureza. Precisamos desse espírito positivo em Portugal.

Arnaldo Gonçalves é jurista e professor de Ciência Política e Relações Internacionais. Escreve neste espaço quinzenalmente, sempre às quintas-feiras.

 

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O tigre da Malásia

 

 

1.Sandokan

Emilio Salgari nunca foi à Malásia. Não precisou. A sua impetuosa imaginação, num tempo em que as viagens demoravam meses e poucos conheciam a diversidade do mundo, fez com que criasse um herói sem destino. Sandokan, o tigre da Malásia, foi um dos meus primeiros contactos com o Oriente e com os seus mistérios e maravilhas. As aventuras contra os Thugs, os temíveis seguidores da deusa Kali, eram suficientes para preencher os sonhos de qualquer jovem ocidental nos idos das décadas de 1960 e 1970. Vi a série televisiva com Kabir Bedi e deliciei-me com os livros de Salgari. Só mais tarde descobri Joseph Conrad, contemporâneo de Salgari, de “O coração das Trevas” e, sobretudo, de “Vitória”. Não custa perceber porque Sandokan surge nas últimas duas décadas do século XIX e luta contra o Império Britânico e a Companhia das Índias, esta símbolo maior do imperialismo marítimo (e capitalista) de Londres. Por essa altura dividia-se África e, no Oriente, a China e o Japão eram transformados em portos francos. E, nos círculos culturais e mesmo populares da Europa, o exotismo oriental preenchia os sonhos. Na península italiana, Salgari criou, com Sandokan, um lutador destemido contra o poder e um herói do misticismo e do exotismo.

É a vingança que move o tigre da Malásia. Filho do último dos príncipes do Bornéu, massacrados pelos ingleses para ocuparem o trono e o território, Sandokan luta contra a hegemonia militar e comercial da Coroa britânica. Torna-se um pirata, ou seja, o outro lado da lei e da ordem definidas pelo poder. Não tem pátria: apenas inimigos e o instinto de sobrevivência. Tem uma paixão, como não poderia deixar de ser, porque só o amor pode curar algumas das velhas feridas. E um amigo forte que é português de Goa, Yanez de Gomera (que virá a ser o Rajá de Assam). Derrotado pelos ingleses, regressa para libertar os seus homens e deixa a pirataria para reencontrar o amor nos braços de Mariana. Mas a sua saga não termina. Os inimigos sucedem-se e ele, para encontrar o seu destino, tem de os derrotar a todos. Os heróis só desaparecem quando se cansam.

Sandokan é distinto. Veste roupas orientais de boa qualidade e bom gosto. É galante, num mundo onde isso era algo anormal. Rude com os inimigos, é fiel aos amigos. Yanez surge sempre como o contraponto de sensatez e pragmatismo (atitude tão portuguesa no Oriente) à sua natureza impulsiva. O mais fascinante é que Salgari escreveu as aventuras de Sandokan sem alguma vez ter ido ao Oriente. De resto convém lembrar que o escritor italiano também foi o autor de outros livros de aventuras passados em lugares tão díspares como as Antilhas, a África, o Árctico ou a América do Sul. Sem sair de Itália, num tempo em que não havia imagens do mundo, Salgari criou um poderoso imaginário que prendeu adolescentes do seu país e dos países à volta. Excepção feita a Inglaterra: os ingleses traduziram muito pouco Salgari talvez porque surgiam como “os maus da fita”. Para Salgari era mais importante escrever que navegar. O oposto, talvez, do que escreveu Fernando Pessoa: “Navegar é preciso; viver não é preciso”. Mas esse talvez seja a forma de encontrarmos o que une Sandokan ao português Yanez. Sem viajar, Salgari fez-nos percorrer um mundo de aventuras que não se esgotaram no tigre da Malásia. E que continuam, bem mais de um século depois, a ser um tesouro para quem gosta de soltar a imaginação. E a pensar que a curiosidade é o grande valor da vida.

 

Fernando Sobral, jornalista e escritor. Autor de “O Segredo do Hidroavião” e de “As Jóias de Goa”, escreve neste espaço uma vez por mês.

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Quando Lisboa arder

1.Crónica

Como é que um país que é tido como tão sagazmente exemplar na resposta que dá à toxicodependência e à reabilitação de toxicodependentes se revela tão inepto no combate ao flagelo dos incêndios? Será por se tratar, um, de um fenómeno essencialmente de natureza urbana e, o outro, de uma manifestação essencialmente rural? Excepção feita ao incêndio que em Agosto do ano passado levou o medo e a angústia às ruas do Funchal e às labaredas que há quase trinta anos destruíram os Armazéns do Chiado, falar de incêndios em Portugal é falar de tragédias essencialmente rurais: num país que vende uma imagem impante de modernidade para consumo externo, Verão após Verão repetem-se as imagens de aflição, os mesmos recursos estilísticos gastos na boca de jornalistas mal preparados e as mesmas palavras brandamente condescendentes na dos políticos. Invocam, qualquer que seja o espectro partidário em que se movimentam (ou até o cargo institucional que ocupam) falsa surpresa perante uma realidade que, desconhecendo, não iludem: a de que Portugal é cada vez mais um país assimétrico, que vota os seus cidadãos a direitos e sortes distintas consoante o local onde vivem.

A estratégia do Estado português para as zonas rurais – ou a completa ausência dela – envergonha Governos, autarquias e sociedade civil, mas também nos deslustra a nós, o colectivo disforme e tantas vezes autista que se apropria do esforço individual dos seus e os transforma em triunfos do todo, mas que se revela incapaz de uma catarse conjunta, de um mecanismo de expugnação dos vícios e das faltas que o fragilizam e o desonram. Quando o Verão acabar, ainda com tições a fumegar entre barrancos e valados, uma única certeza restará: a de que Portugal vai voltar a arder, a de que os Telejornais vão voltar a abrir com imagens dantescas, de pinhais e montes transformados nas portas do Inferno e a única incógnita – porventura a mais trágica – prende-se com o número de vidas que inevitavelmente serão ceifadas e destruídas pelo fogo e pela incúria de quem tem responsabilidade para agir.

Mesmo a mais de dez mil quilómetros de distância, escrevo sobre uma realidade dolorosa e que conheço bem. Em Agosto de 2005, menos de dois meses depois de colocar pé em Macau pela primeira vez, vi pela RTP Internacional o pânico transformado em lágrimas no rosto dos meus vizinhos à medida que as chamas avançavam, indiferentes, sobre matas e campos de cultivo, numa marcha devastadora apenas refreada por uma decisão providencial, tomada ao nível local, por autarquia e bombeiros: a de rasgar, onde quer que fosse possível, corta-fogos improvisados para retardar a cavalgada do fogo.

Há um ano, na noite de 7 para 8 de Agosto, o Inferno voltou a tomar conta do horizonte, numa catástrofe amplamente anunciada: em onze anos, num interior onde só sobram idosos e onde durante anos se multiplicaram os incentivos apadrinhados por Bruxelas aos cortes na produção, a vegetação voltou a cerrar fileiras sobre os montes e a tornar velhos caminhos intransitáveis.

Às primeiras horas da madrugada soou o alarme: um tsunami de chamas ameaçava engolir a aldeia. O canto que entoavam, jamais o esquecerei: um assobio lânguido e estridente, como se o vento tórrido cuspisse fúrias e maldições e as árvores chorassem enquanto se desfaziam em cinzas. Do meio do lugarejo chegava a notícia de um campo em chamas. No extremo da aldeia, as labaredas lambuzavam os beirais de uma vivenda. Do céu laranja vivo choviam faúlhas incandescentes, pirilampos irregulares empurrados pela ventania por entre um espesso lençol de fumo. Meios de socorro? Chegaram pelas 18 horas do dia 8, dezasseis horas depois do alarme ter sido dado, quando pouco ou nada restava para arder.

O tratamento não apanhou, de resto, de surpresa os menos incautos. Horas antes, tinha sido dado a um grupo de três centenas de comensais, num restaurante situado a alguns quilómetros, uma amostra do que aí vinha: o grupo teve de deixar a refeição a meio depois das chamas se terem abeirado perigosamente do local onde almoçavam. Com o centro de coordenação operacional deslocado para Aveiro, onde o incêndio não seria mais do que um negro borrão coroando o horizonte, a ordem era para “deixar queimar até estarem habitações em risco”, ouvi-o eu da boca de um estupefacto bombeiro.

Dez meses depois, a Natureza fez o seu trabalho (os montes, indiferentes, reverdecem), mas o mesmo não se pode dizer do Homem. Não se discutem estratégias de reflorestação, não há planos para a valorização ambiental e turística das áreas ardidas e cada um curou como pode as cicatrizes abertas por uma noite de Inferno que se repetiu vezes sem conta durante quase um mês na mancha de serra que vai de Arouca a Vouzela e de Vale de Cambra a São Pedro do Sul.

Nem sequer um ano se passou e a agónica retórica do fado dos incêndios volta a abrir Telejornais, com a mesma fórmula submissa e desumana. Que não haja condescendência de qualquer tipo: na noite de sábado, o que aconteceu no concelho de Pedrogão Grande foi – é –  a maior tragédia da história recente de Portugal. Uma tragédia exponenciada por um incompreensível véu de inevitabilidade, dada a solidão e o abandono a que o interior do país está votado. Mas que não restem, também, ilusões: os incêndios vão continuar a abrir noticiários enquanto o descuido e o desinteresse foram as únicas respostas que Lisboa dá ao depauperado e eucaliptado mundo rural.  Honrar as vítimas do Pedrogão é garantir que quando o Outono chegar, não serão choradas apenas por quem sente a dor da sua ausência. É, sobretudo, evitar novas e tão trágicas mortes. Ou será que um tal desígnio só se tornará tangível quando Lisboa voltar a arder?

 

Marco Carvalho, Director do Ponto Final

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Um mundo desorientado

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Vivemos tempos conturbados. Não há quase semana que passe sem que notícias de um novo atentado terrorista irrompam pelos media e revelem quanto a nossa existência é “frágil”. Lembrava-o Sting, no concerto que deu a semana passada em Hong Kong, quando tocou o tema homónimo que dedicou às vítimas de Manchester e às suas famílias. Não se sabia, então, que outro atentado tivera lugar em Londres.

Todos os argumentos sobre as causas da actual vaga de terrorismo foram ditos e reditos. Não vale a pena repisá-los; faltam é as soluções. O que é importante é dizer que não devemos e podemos alterar a nossa maneira de viver porque há uma pequena minoria que a quer pôr em causa. Não faz sentido; seria fazer o jogo dos terroristas, colocar-nos numa intranquilidade permanente. O alvoroço é sempre mau conselheiro e o actual ocupante da Casa Branca presta um mau serviço ao seu país e ao Ocidente em insistir no alvoroço e no alarido permanente. Ninguém lhe diz “basta”?

O terrorismo combate-se com calma, de forma planeada, recolhendo informações, reflectindo e tomando as acções necessárias. Não insultando quem parece hesitar por medo. O que não precisamos agora é de uma guerra religiosa, de uma “kristallnacht”, que eleja bodes expiatórios para os nossos insucessos como civilização e cultura.

Temos de ter muito cuidado com os populistas. Têm o pé ligeiro e o discurso fácil e não cuidam das consequências da sua retórica exaltada e dos ódios que espalham como fogo em campina seca. São naturalmente irresponsáveis. Ao mesmo tempo, temos de ser críticos das nossas instituições democráticas quando se deixam tomar pelo laxismo e pela impotência. Precisávamos de uma liderança forte e afirmativa e ela não existe.

Receio ainda mais os homens providenciais. Não foi inocente a minha referência à “noite dos cristais”. Parece-me por vezes que estamos a reviver os tempos conturbados dos anos 1920 e que pela calada da noite se organizem os “camisas negras” que avancem sobre quem pensa diferente, veste de outra forma ou ora a um deus a que dá outro nome.

Temo que se isso acontecer nos iremos virar uns contra os outros. E os que ameaçam o nosso modelo de sociedade ganharão, ipso facto.

Gostaria que nesta conjuntura se afirmasse uma lúcida e inovadora liderança europeia. Donald Trump terá feito um favor à Europa quando afirmou que os Estados Unidos irão agora tratar dos seus próprios interesses e que é tempo da Europa tratar dos seus. Digo isso, por outras palavras, há vinte anos. Perdemos, neste interim, a oportunidade de avançarmos para um processo de integração mais avançado. Deixámo-nos dividir pelos nossos nacionalismos grosseiros, pelos ódios e rivalidades. O fracasso da Constituição Europeia revelou-o; os recuos da construção europeia confirmam-no.  Criámos uma Torre de Babel de burocracia europeia que não serve para nada; os problemas continuam.

Não creio que o modelo de sociedade autoritária que vemos a Oriente seja uma alternativa serena ao modelo de sociedade liberal e democrática cujas fragilidades apontei. Desde logo, porque as gerações que viveram sob ditadura ou sob ocupação nazi, na Europa, não estão disponíveis para repetir a experiência com novos tutores e novas regras espartanas. O anúncio da felicidade na terra por graça de amanhãs cantantes revelou-se uma farsa miserável. E já nem as notícias de mais uma detenção por corrupção e abuso de poder, no círculo mais exclusivo do poder comunista, nos surpreende. Porque é o carácter tirânico da máquina do poder que o favorece e multiplica. Até ao dia em que o poder monolítico irá rebentar com estrondo. Não tenho qualquer dúvida que isso acontecerá mais tarde ou mais cedo. Porventura no tempo dos meus filhos e netos.

Deixo um nota positiva final lembrando as palavras avisadas de Karl Popper na última parte do seu “A sociedade aberta e os seus inimigos”: “A democracia oferece campo de maior valia para qualquer reforma razoável, dado que permite reformas sem violência. Se porém a preservação da democracia não se tornar a preocupação principal de qualquer batalha travada neste campo, então as tendências anti-democráticas latentes, que estão sempre presentes, podem conduzir ao derrube da democracia”.

 

Arnaldo Gonçalves é jurista e professor de Ciência Política e Relações Internacionais. Escreve neste espaço quinzenalmente, sempre às quintas-feiras.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Macau na rota das Rotas 

 

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Macau (ou a RAEM se preferirem), como não poderia deixar de ser, recoloca-se e reposiciona-se na estratégia de Pequim designada por «Uma Faixa, Uma Rota», trazendo como elemento essencial a sua inclusão na grande estratégia económica da Republica Popular da China.

Na reunião do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, realizada em Outubro de 2016, foi preconizada a articulação do funcionamento do Fórum Macau com o desenvolvimento da Iniciativa «Uma faixa, uma Rota», sendo este o percurso que se espera de Macau, no futuro que se avizinha.

A vocação tradicional de Macau como entreposto e a sua afinidade com os países de língua portuguesa, consagrada pela liderança central da República Popular da China ao atribuir ao território a missão de se assumir como plataforma de cooperação entre a China e aqueles países, passa agora também a estar estreitamente ligada ao desenvolvimento da iniciativa «Uma Faixa, uma Rota». Ou seja, os desígnios da portugalidade e da lusofonia são absorvidos por este lema mais abrangente.

Para quem acreditou (situação em que de algum modo também me coloco) que a criação do Fórum Macau para o intercâmbio com os países de língua portuguesa, em 2003, se baseava numa acção de cordialidade e simpatia suportada pelo reconhecimento da herança secular da presença portuguesa, bem se enganou.

A estratégia de Pequim trazia já antecipadamente esta formula que permitiria focalizar a extensão do principio «Uma Faixa, uma Rota» para a ocupação do espaço do Sudeste Asiático, a África subsariana, o Mediterrâneo e a costa ocidental do oceano atlântico.

A iniciativa chinesa “Uma Faixa, uma Rota” proporcionará a Macau muitas novas oportunidades de desenvolvimento e de relacionamento económico e comercial, e reforçará o seu papel como grande Centro Mundial de Turismo e Lazer, disso não temos dúvidas.

A este propósito, espera-se também uma forte diluição do primado da herança secular dos portugueses, passando a dominante económica a sobrepor-se à dominante social e cultural, situação esta já visível na forma como a maioria dos Países de Língua Portuguesa (Portugal incluído) se começam a posicionar no Fórum Macau, dando primazia e cada vez mais importância, aos acordos comerciais e à dinâmica de negócios em prol da preservação das memórias e do legado secular.

São outros os tempos e outros os “ventos”. Pessoalmente também “aplaudo” os benefícios dessa integração na vasta “família” dos que estão na rota da Rota. Já afectiva e emocionalmente não me sinto tão seguro, nem tão pouco extasiado com o compromisso assumido, afinal gostava apenas que Macau continuasse a ser a Macau singular na ordem local de um mundo global.

 

 

Será porventura Macau capaz de resistir à tentação de se tornar em mais um espaço cosmopolita, descaracterizado e uniformizado por uma modernidade que a tornará por certo numa cidade multifacetada e economicamente atraente? Presumo que não.

A contrapartida, porém, será a de que provavelmente deixará de ter algo de peculiar e de singular para oferecer, ou seja, um espaço sem identidade local reforçada, onde a dinâmica do mundo moderno se espalha nos centros de lazer dos casinos e o turismo passa a ser marcado pelas compras alucinantes em centros comerciais iguais em todo o mundo. Só o tempo o dirá. Para já a dinâmica e o percurso que se antevê para aí apontam.

Por enquanto ainda nos vão restando algumas palavras dos poetas, isto a propósito da recente obra de Jorge Arrimar – que por acaso se intitula de «Rotas Circulares» – onde as rotas não são, nem económicas, nem comerciais mas, apenas e só de memórias, saudades e apego à terra que nos fez (faz) ser felizes.

 

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Carlos Piteira

Investigador do Instituto do Oriente. Docente do Instituto Superior de Ciências Socias e Politicas / Universidade de Lisboa. Escreve neste espaço uma vez por mês.

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O sentido da eternidade

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A Ascensão é a Solenidade Litúrgica que celebramos neste último Domingo de Maio. A narração do acontecimento pode ser  lida como um todo na pena de S. Lucas. O texto começa no final do Evangelho do mesmo S. Lucas e termina no princípio dos Actos dos Apóstolos, livro esse de que ele também é o autor. O Senhor Jesus, depois de descer dos Céus e assumir a forma humana, para lá volta, terminada que foi a Sua Missão de Salvação,  para aí  gozar a Glória de Deus. Esta uma manifestação divina que somos convidados  não só a crer como a proclamar : «Ide e ensinai todas as nações. »

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Três realidades sobressaem na leitura desta passagem da Escritura.

A primeira é aquela que eu chamaria ‘o sentido da eternidade’. Não podemos viver  neste planeta ou neste cosmo com um horizonte de vida limitado pela matéria, pela terra ou pela estratosfera que nos circunda. A estrutura mais profunda e intrínseca do ser humano  abre-o ao que está para além do imanente e material e lança-o  na busca do transcendente e do espíritual.  Iluminados pelas palavras de Jesus Cristo podemos ir ainda mais longe na comprensão das aspirações humanas. Constitui uma verdade fundamental da mensagem cristã afirmar que : «espero na Ressurreição dos mortos e no mundo que há-de vir…’

A todo o cristão é pedido,  na sua vida de cada dia,  que não se deixar dominar pelas necessidades básicas da natureza humana que, tarde ou cedo, o levam a cair clamorosamente no consumismo, no hedonismo e no materialismo e a terminar sem horizontes de esperança. As palavras, e, sobretudo, o exemplo de Cristo são um contínuo recordar da importância primordial das ‘coisas do alto.’ Somos chamados a viver, entre os homens e as mulheres deste mundo que é o nosso,  com ‘a consciência do Céu’, e  com um ‘sentido de Deus’, e como fim, ‘a Eternidade em Deus.’

 

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O texto de S. Lucas coloca-nos ainda perante uma segunda realidade, quando ouvimos os dois homens vestidos de branco a dizer : «Homens da Galileia, porque estais a olhar o Céu? Esse Jesus, que do meio de vós foi elevado para o Céu, virá do mesmo modo que O vistes ir para o Céu.»

Esta, quase parece o contrário de tudo aquilo que foi afirmado a propósito da primeira realidade!  Parece,  mas não é.  Antes,  pelo contrário, apresenta-se  como uma realidade e um pensamento muito complementar. Enquanto que naquela se defende ‘o sentido da eternidade, o sentido do Céu’, nesta segunda afirma-se ‘o  princípio da realidade’, o ‘ter os pés na terra.’ Embora vislumbrados pela subida aos Céus do Senhor Jesus, estupefactos pelo fenómeno portentoso que estava a acontecer e dominados por acontecimento tão extraordinários e fixados os seus olhos no Céu, os anjos sacodem-lhes as mentes e chamam-lhes a atenção de que a vida continua.

Aqui, percebe-se  como que uma crítica muito fina, muito súbtil ao espiritualismo. Ser excessivamente  espiritual, muito celestial … mas, na prática, tanto narcisismo e complacência. Sim, e há que dizer com clareza e coragem, ‘ser espiritual’ é uma coisa. O espiritualismo é outra coisa muito diferente. Revela-se como uma atitude pessoal  diabolicamente enganadora É uma ‘máscara’ muito mais frequente entre os crentes de quanto se imagina. Utiliza-se a prática espiritual, supostamente muito ‘celestial’ pra buscar o proveito próprio, ser apreciado, honrado, sentir-se seguro.

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Por fim, a terceira realidade : « Ide e ensinai todas as nações. »

Estabelecendo, em nós, no nosso coração, o equilíbrio ‘entre céu e terra’ permanece,  sempre e indubitavelmente, a obrigação de ‘anunciar ‘ Jesus Cristo, Filho de Deus e Salvador da Humanidade e do Mundo. Contudo, que acontece? Falta, por um lado,  gente de garra e convicção de assumir a sua Fé. Por outro, não se sabe falar ao homem e à mulher contemporâneos.

Luís Sequeira, Sacerdote e Antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

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