Consolar os Outros  

 

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Uma das características  da actuação de Jesus Cristo após a Sua Ressurreição é consolar os Seus apóstolos e discípulos, homens e mulheres. Todos, de coração destroçado pela Sua Morte,  não entendem o que se está passar. Invade-os a tristeza,  o desânimo e o medo. Assim, tanto veremos o Senhor a consolar, muito particular e pessoalmente,  Pedro,  Maria Madalena, Tomé, como todo o grupo, quando se encontra encerrado em casa, de portas trancadas,  por medo dos judeus.

Neste  Terceiro Domingo de Páscoa, o Evangelho apresenta-nos um admirável exemplo de como consolar alguém em grande aflição. Abatidos pela angústia e dominados  pela confusão das ideias sobre  Jesus,  o Senhor Morto e Ressuscitado, dois dos Seus  discípulos escapam  à situação e fogem para o campo,  para Emaús,  povoação não muito longe de Jerusalém. O texto evangélico constitui, na verdade,  um precioso tratado  sobre a pedagogia a seguir perante uma pessoa devastada pelos acontecimentos dolorosos da vida.

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Um primeiro passo é saber escutar ‘a narração dos factos’ que atormentam a pessoa: «Conversavam entre si sobre tudo o que tinha acontecido. Enquanto falavam e discutiam, Jesus aproximou-Se deles e pôs-Se com eles a caminho». Ouvir respeitosa e atentamente a dor da pessoa é fundamental, ao princípio  Caminhar, em silêncio, pelos meandros da sua história. Não fazer como tantas vezes fazemos, começar logo a dar explicações,  conselhos e a apontar caminhos de solução. Escutemos, em primeiro lugar e com paciência amorosa, a dor que vai na sua alma, perceber o que é que as lágrimas silenciosas querem expressar no fundo do coração dilacerado.

Então, num segundo passo, temos ‘a compreensão dos factos’. Mas, mais uma vez, a pedagogia do Mestre Divino. Ele não entra, à  bruta ou sem cerimónias na conversa. Ele tem consciência que está a falar com gente perturbada e de coração muito sensibilizado com «o que lá se passou em Jerusalém». Por isso, Ele num primeiro momento, faz uma primeira pergunta, como se estivesse a pedir licença para entrar  na discussão : «Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?».  Num segundo momento,  dirige-lhes uma segunda pergunta para estar seguro de que está a ser correcto e objectivo sobre o assunto que os perturba : «O que se refere a Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo;  e como  e os nossos chefes O entregaram para ser condenado à morte e crucificado».  Só num terceiro  momento, é que Ele procura, por fim, explicar o sentido da Cruz, com os seus dois aspectos de  Morte e Ressurreição: «Depois, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito».

O terceiro passo é conseguir perceber ’o coração perante os factos’. A narração é clara ao descrever o estado de ânimo dos díscípulos. Eles apresentavam-se «com um ar muito triste». O Senhor compadece-se deles. Aqui, é notável a pedagogia do Mestre. Ele bem sabe o que se passa no coração dos seus bem-amados discípulos. Não exclamavam  eles: «Não ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?». Eles estão entusiasmados e agradecidos pela ajuda que o Senhor lhes deu e, consequentemente, atraídos por Ele, pelo serviço que lhes fêz. Mas, é isso verdadeiro amor? Para evitar ambiguidades, «ao chegarem perto da povoação para onde iam, Jesus fez menção de ir para diante». O amor funda-se na liberdade e na gratuitidade. Assim, dentro de momentos ouvimos eles a suplicar : «Fica connosco, pois o dia está a terminar e vem caindo a noite». E, finalmente, convidaram-nO para uma refeição íntima.

O quarto passo, segundo este episódio descrito pelo Evangelista S. Lucas, é como que a afimar que a verdadeira amizade nos lança nos horizontes da presença de Deus, Pai e Senhor, revelado em Jesus Cristo,e abre-nos mesmo à experiência do Amor divino.

Ao fim deste dramático episódio, dá-se o quinto passo, o retorno à vida, aceitando a Cruz com outra compreensão e renovada coragem. Lemos no texto : «Os dois discípulos partiram imediatamente de regresso a Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os que estavam com eles, que diziam: ‘Na verdade, o Senhor ressuscitou’».

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Consolar os outros  é uma característica da acção do Senhor Jesus tanto no seu Ministério público, mas  também e, sobretudo, após a sua Ressurreição. Contudo, não parece ser esta a atitude que mais se procura desevolver na sociedade actual. Sociedade tão dominada pelo consumo frenético, pelo egoísmo doentio e por uma sede de ser o maior que toca já a paranóia.  A paciência amorosa de escutar o outro exige grande abnegação interior, grande desprendimento de si mesmo e das suas preferências e grande sensibilidade às necessidades dos outros.

Luís Sequeira, sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

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Sesta chinesa em Ceuta

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Se Macau tem sido apresentada ao mundo como “uma cidade europeia na China”, Ceuta é hoje ainda mostrada como “uma cidade europeia em África” ou até “a âncora para uma imaginária ponte entre dois continentes”. Pode dizer-se que o coração de Ceuta – urbe com mais de dois mil anos – está na Plaza de Africa, onde a Igreja de Nossa Senhora de África substituiu a mesquita principal da cidade, na qual D. João I armou cavaleiros dois dos seus filhos após a batalha que alterou o rumo da nossa história. A resistência de Ceuta, à época, parte integrante do reino de Fez, demorou um só dia.

Às muralhas originais da cidade, que remontam ao século X, os portugueses acrescentar-lhe-iam um fosso com escarpa e contra escarpa. O portão da entrada principal, originalmente acessível por uma ponte levadiça, passou a ter capela e ainda hoje há quem se benza quando por lá passa – agora mais frequentemente de automóvel do que a pé. A ponte seria, entretanto, substituída por uma outra em betão. O terreno contíguo à muralha – onde durante décadas se resistiu às repetidas investidas dos mouros, que legitimamente tentavam reconquistar a sua antiga cidade – é hoje ocupado por um hotel de luxo e um comissariado militar. Não deixa de ser interessante ver ali uma dedicatória à estátua do soldado “muerto por la Patria”, encimada com o brasão português!

Apesar da escolha feita, Ceuta, de certa forma, é ainda portuguesa. Ao contrário de Macau, que durante o domínio dos Filipes de Augsburgo se manteve fiel à Coroa portuguesa, Ceuta optaria por permanecer espanhola após a Restauração de 1640, numa altura em que Castela se confrontava também com revoltas na Catalunha. A notícia da independência chegou em finais de Dezembro, e embora o governador D. Francisco de Almeida simpatizasse com a causa da Casa de Bragança, o ambiente geral, sobretudo entre as famílias mais influentes, era favorável à Casa de Áustria, obrigando-o a ceder, acabando por ser até destituído do seu cargo, em 1641. Filipe IV atribuiria à cidade, em 1656, o título La Fidelissima Ciudad de Zeuta. O processo de “castelhanização”, no entanto, tinha-se iniciado muito antes, na sequência da derrota de Alcácer Quibir e subsequentes momentos de incerteza vividos nas praças portuguesas de Marrocos. Para travar os intentos da mourama, Filipe II (Filipe I de Portugal) ordenou que as tropas andaluzas prestassem auxílio, passando, pouco a pouco, a guarnição da cidade a incluir contingentes espanhóis. E assim ficaria.

Mais do que as palavras, valem as evidências. E a vivência lusa, quando visitei a cidade, sentia-se não apenas nos monumentos, mas também em realidades hodiernas, como o trabalho da estilista Ana Sousa, com loja recentemente inaugurada, ou o concerto de Dulce Pontes nesse Verão, no auditório das Sete Colinas, a principal sala de espectáculos de Ceuta.

Ao longo do passeio marítimo, na zona ribeirinha atlântica, junto à marina e aos cais aonde chegam e de onde partem as embarcações (há quem se desloque a Ceuta de helicóptero), são bem visíveis secções inteiras da antiga muralha, ainda com as seteiras, das quais destaco a Porta de Santa Maria, onde se ergue a estátua do célebre geógrafo e cartógrafo árabe Al-Idrisi, autor dos mapas que fizeram sonhar Henrique e os seus nautas. Certamente muita da informação sobre o Oriente chegou a Portugal via esse ilustre marroquino, que incorporou na sua obra o conhecimento de África, do Oceano Índico e do Extremo Oriente adquirido no terreno pelos incansáveis comerciantes e viajantes árabes. A respeito da China, por exemplo, diz-nos Al-Idrisi que os juncos chineses carregavam couro, espadas, ferro e seda”, não esquecendo de mencionar “os vidros da cidade de Hangzhou” e a “seda de Quanzhou”, considerada a melhor de todas.

Preparado para o primeiro dia de descoberta, saí à rua de manhã bem cedo e, num repente, véus e jalabas (túnicas masculinas) dominaram o cenário circundante. Reparei ainda nos inúmeros estabelecimentos comerciais, museus e ruas com nomes (alguns inscritos em placas de azulejos) que me soavam familiares, e, certamente, indicavam funções e valências de outrora. Ali era o Mercado Viejo, acolá o Mercado da Lana, mais adiante a Rua da Misericórdia ou a Rua Central.

O marroquino que me saudou por diversas ocasiões com um “hola portu!” (como adivinhou ele a minha nacionalidade?), cedo revelaria as suas reais intenções, ao mostrar-me um colar de ouro falso e uma pedra de haxixe.

Absorto nas surpresas que a cidade parecia ter guardado para mim, pouco faltou para que pedisse uma sandes de presunto serrano ao balcão de mármore de um dos muitos tascos muçulmanos da baixa da cidade, onde o cardápio é mais chá de menta (que ali se denomina “chá verde”) e sopa de mariscos, quando muito, pois tudo deve ser obrigatoriamente halal, sendo que, ao dito chá, servem-no sempre açucarado. Aliás, havia por ali um gosto muito acentuado pelo doce e até nos quiosques de jornais e revistas se vendiam golosinas, o mesmo é dizer, guloseimas.

E já que falo em chá verde… Sinto de imediato a sua falta quando inicio nova viagem. Estive quase para entrar num restaurante chinês, só para emborcar umas quantas taças da deliciosa bebida dos deuses. Também em Ceuta se instalaram, com restaurantes e lojas, os mais laboriosos dos asiáticos, adaptados até à afamada siesta castelhana.

São muitas as similaridades entre Ceuta e Macau. O jogo é apenas uma delas. Na Casa dos Dragões, interessante projecto de um arquitecto valenciano do século XIX, funcionou a primeiro estabelecimento de jogos de fortuna e azar da cidade, o Casino Africano. A jogatina desenrola-se actualmente no interior de um forte, parte integrante de um parque temático idealizado por reputado artista plástico. Poderia falar ainda das sete colinas, da península, da exiguidade do território, da multiculturalidade, da simbologia lusitana, das ligações marítimas, da areia preta da praia, da memória de Luís Vaz de Camões, etc, mas o melhor é deixarmo-nos ficar por onde começamos: Ceuta, cidade europeia em África. Como esperemos que Macau continue a ser, durante muitos e bons anos, uma cidade europeia na China.

IIM LOGOTIPO - 2015 (17)

Joaquim Magalhães de Castro, escritor e investigador da Expansão Portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

 

 

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O mundo da manga

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A manga japonesa, tal como a Banda Desenhada franco-belga ou os “comics” norte-americanos, abriu novas janelas para a imaginação e para a arte. Nos últimos anos tem-se assistido a uma nem sempre feliz transposição destas artes para o cinema. Nalguns casos, como no que Hollywood fez a muitas sagas de super-heróis, o resultado é mesmo deprimente, reforçando a ideia de que há um constrangedor défice criativo em Los Angeles. O que se ganha em hipnotismo técnico perde-se em densidade intelectual. Quando, há dias, fui ver a adaptação de “Ghost in the Shell”, com a diva dos tempos modernos, Scarlett Johansson, senti esse fosso. Nada tem a ver com as duas obras que Mamoru Oshii fez da manga original de Masamume Shirow, onde as potencialidades filosóficas desta não se diluíam num caleidoscópio muito frugal de técnica e velocidade. Oshii criou uma obra de culto para a espiritualidade pós-humana, onde parece que recuperamos parte do idílio original do movimento “cyberpunk” (Bruce Sterling, Wiilliam Gibson) com a tecnologia do futuro. A história da crise existencial de um ser que é quase sintético (e que nos abre os olhos para o futuro robotizado que está aí a bater à nossa parte, apesar da distracção de muita elite política e económica), num mundo onde estão a tornar-se muito ténues as fronteiras entre o humano e o artificial, é tentadora. Mas o filme perde o imaginário do que Shirow nos queria transmitir. Película à parte, tudo nos remete para este universo em que a densidade humana começa a ser minoritária na voragem tecnológica. Ou seja, a humanidade está a tornar-se obsoleta nesta folha de Excel de resultados e de rapidez, onde o tempo para contemplar e compreender deixou de ser rentável.

Se os “comics” americanos foram, no início do século XX, uma língua franca de divertimento para emigrantes de todas as nacionalidades que chegavam aos EUA, com o tempo definiram-se como arte (basta lembrar Alex Raymond, Milton Caniff, Hal Foster, com os seus X-9, Steve Canyon ou Príncipe Valente, entre outros). Foram, com o cinema, uma frente cultural global durante décadas, tornando hegemónica a cultura americana no mundo. Isso também aconteceu com a manga japonesa a partir de finais da década de 1980, quando se tornou a mais poderosa exportação cultural japonesa. Mas tem de ser compreendida no contexto da grande crise económica do Japão dos anos 80, que colocaram os mais jovens num mundo de trabalho precário e de poucos horizontes de futuro. O universo mágico da manga (tal como sucedeu com os Super-heróis americanos da década de 1930, durante a Grande Depressão) foi um escape perfeito: todos poderiam ser heróis, num mundo mais ou menos virtual, já que o real poucas opções oferecia. No Japão estes “anos perdidos” coincidiram com a emigração dos mais jovens para o universo da manga, dos jogos virtuais e do “anime”.

Fruto da lendária arte sequencial japonesa, a manga ganhou estatuto próprio com um dos grandes artistas do século XIX, Katsushika Hokusai. A produção de novelas gráficas baratas, a par da grande tradição de ilustração erótica japonesa, contribuíram para o modelo que se disseminou nas últimas décadas. Na imprensa isso foi notório desde o início do século XX, onde a popularização da manga encontrou um veículo poderoso. Já na década de 1940 os trabalhos de Osamu Tezuka para os adultos tornaram-no no “avô” da manga. E essa cultura tornou-se transversal à sociedade, conquistando gerações muito diferentes. De um nicho de mercado passou a ser influência decisiva noutros universos como os jogos de vídeo. A globalização tecnológica tornou a manga uma paixão sem fronteiras. Cheia de referências e repleta de ideias e contradições. Tal como toda a Banda Desenhada.

 

Fernando Sobral, jornalista e escritor. Autor de “O Segredo do Hidroavião” e de “As Jóias de Goa”, escreve neste espaço uma vez por mês.

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Rufam os tambores

Turkey's President Erdogan speaks during a news conference in Riga

Vivemos tempos perturbantes. Os sinais acumulam-se. Anuncia-se uma trovoada cujos contornos não conseguimos antecipar, mas fica a quase certeza que aí vem.

Temos vivido – confirmam-nos inúmeros autores – num estado de prolongada paz na vida internacional. Nunca existiu na história da humanidade um período tão longo sem guerras regionais ou mundiais. Ou seja a excepção tornou-se uma espécie de regra.

Tal facto introduziu um torpor que é mau conselheiro. Porque nos leva a assumir coisas como adquiridas que foram conquistadas por vezes penosamente ou a desvalorizar sinais. As Nações Unidas, os tratados internacionais, os padrões internacionais em matéria de direitos humanos, a interdição do uso de armas químicas em operações de guerra, a condenação do ataque e aniquilamento de populações civis, o diálogo entre superpotências em situação de tensão. E por aí fora.

Esse quadro está a mudar drasticamente. Na Coreia do Norte temos um regime estridente, maníaco, que difunde uma ideologia de ódio e de expansão, anunciando-se capaz de volatilizar adversários, quaisquer que eles sejam. E que realiza todas as semanas ensaios de mísseis de longo e médio alcance que projecta nas águas que o separam dos seus vizinhos. Todas as iniciativas de contenção e dissuasão lançadas pela comunidade internacional – Estados Unidos, Rússia, União Europeia – falharam redondamente. Como as sanções. É uma questão de tempo até que Pyongyang adquira a capacidade de disparar mísseis que atinjam o Japão, os Estados Unidos ou,  mais a sul, a Austrália ou a Nova Zelândia. É uma questão de tempo até que Pyongyang tenha a capacidade de transportar, nesses mísseis, ogivas nucleares e fazerem-nas rebentar nos alvos.

A ameaça, esta ameaça tem sido menosprezada. De um lado, pelos que acham que isso acontece pelos culpados do costume, os Estados Unidos, país que – entendem – se deveria remeter a um estado de letargia, retirar a sua esquadra do Pacífico e cancelar os exercícios navais com o Japão e a Coreia do Sul. Do outro, estão os que, simpatizando com a posição chinesa, confiam que ela intervirá e evitará o pior, desde que as posições não se radicalizem, de lado a lado. O equívoco aqui é duplo. Por um lado quanto à natureza do regime: Kim Jong Un não é igual ao pai ou ao avô. É um maníaco que odeia ser contrariado e que se vê numa missão patriótica de eliminar o ‘imperialismo norte-americano’.  Por outro os que ignoram que o único objectivo da República Popular da China é manter a estabilidade na sua fronteira norte, conter a fuga de norte-coreanos para o seu território. Não tardará muito tempo até que Kim Jong Un tome a iniciativa de mandar o seu exército avançar pela zona desmilitarizada e sequestrar território à Coreia do Sul.

Provavelmente já o estará a planear. As declarações do Presidente norte-americano e do seu vice sobre Pyongyang terão, provavelmente, a ver com isso.

Na Europa, temos uma Turquia toldada pelo fervor nacionalista e islamista. A vitória de Erdogan no referendo é muito mais que o canto do cisne de uma sociedade laica, tolerante, inclusiva, multirreligiosa. É o “Salat Fajr “ de uma ambição desmedida de liderança do Islão contra o mundo cristão e helénico, mas também contra as demais vias do Islão devoto. É um fascismo teatralizado de discursos exaltados, de ‘nós sozinhos contra os outros e o mundo’, de uma mar de bandeiras ondulantes que sugerem força mas são apenas cegueira.  Um líder forte, auto-investido num propósito messiânico, inspirado no sonho de um novo império bizantino pós-1453, única potência dominante no Mediterrâneo oriental e nos Balcãs.

Esta ameaça tem sido também desvalorizada. Pelos que na União Europeia, mas também num plano nacional na França ou na Alemanha acham que há um lugar cativo para a Turquia na União, sem entenderem que nela reside uma coabitação usualmente serena, mas agora confusa entre uma dimensão cristã, ocidental e renascentista e uma dimensão árabe, piedosa mas também bélica.  Como tem sido desvalorizada pelos que entendem que a integração da Turquia na NATO é o bastante para manter a Turquia obediente à lógica da aliança ocidental. A legitimação de um poder pessoal, solitário e autoritário como o que Erdogan favorece levará a Turquia a interpelar o seu vizinho ortodoxo do Norte pelo controlo do acesso aos planaltos da Ásia Central e ao espaço do Médio Oriente.

Mas a porta aberta para o diálogo deve manter-se aberta. E a calma prevalecer. Como escreve Tzvetan Todorov em La Peur des barbares (Edições Robert Laffont, 2008) “o choque de civilizações, seria: as democracias ocidentais, de um lado, o Islão, do outro. Dois mundos, cristalizados nas suas diferenças históricas, culturais, religiosas, e, portanto, condenados ao conflito. Diante da ameaça, novo espaço para o diálogo ou para o equívoco. Não há outra alternativa senão a firmeza. Mesmo a guerra. Por todos os meios. Podemos realmente ter certeza, quando raciocinamos assim, que a barbárie e a civilização continuarão a estar dos lados que visualizamos? Se é essencial defender a democracia, é também crucial não se deixar dominar pelo medo e ser tomado por reacções extremas. Porque a história ensina-nos que a cura poderá ser pior que a doença. “ Palavras sábias.

 

Arnaldo Gonçalves é jurista e professor de Ciência Política e Relações Internacionais. Escreve neste espaço quinzenalmente, sempre às quintas-feiras.

 

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O Sopro de Pak Tai: Os carpinteiros da ribeira

 

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No primeiro andar do vetusto mosteiro de São Bento, em toda a área do claustro, funciona a maior biblioteca da América Latina, “não em número de livros, mas de títulos’, como ressalva o monge beneditino Silvério, que tem a amabilidade de me conduzir numa visita guiada. Entramos no edifício propriamente dito, através do corredor onde estão as celas dos monges, com nomes de santos gravados na ombreira da porta. “Esta pertencia ao padre Estêvão, o nosso maior teólogo, homem muito capaz”, informa Silvério, apontando para uma das celas.

O frade abre depois a porta que dá acesso a uma varanda com vista sobre a Baía de Guanabara e a Ilha das Cobras. Outrora “uma das senzalas da nossa ordem”, a ilha foi aterrada e tem hoje um desenho quase rectangular. Uma das pontes liga-a à cidade e a outra, em forma de esquadro, à pequeníssima Ilha Fiscal. Há guindastes por todo o lado e um grande edifício do século XIX. Testemunho de outros tempos, uma pequeníssima mancha verde, “o Castelinho”. Era ali que andariam as cobras, o justificativo da designação da ilha. Duvido que sobreviva alguma, mas nunca se sabe.

Concentremo-nos antes no tal edifício do século XIX, pois aí ficaram temporariamente alojados, em 1814, várias dezenas de chineses originários de Macau, como o comprova um documento guardado numa das gavetas do Arquivo Histórico Ultramarino e intitulado “Relação nominal dos chinas que se acham aquartelados na Ilha das Cobras”.

Mas, afinal, quem eram esses chinas? Diz-nos o documento que totalizavam 68, um deles se chamava Assan e teriam ali chegado a bordo do navio Luconia. Alguns seriam “carpinteiros de machado” ou “carpinteiros da ribeira”, ou seja, construtores de barcos. A ideia do envio de carpinteiros navais chineses para o Brasil partiu de Ouvidor Manuel de Arriaga, visionário neste como noutros capítulos (o da introdução do chá é exemplo sobejado), que um ano antes informara quem de direito da chegada a Salvador da Baía a bordo do navio D. Maria (com destino a Mucuri, conhecido mais tarde como São José de Porto Alegre), da habitual remessa de plantas de chá, pois as sementes das anteriores tinham germinado com sucesso, e alguns carpinteiros destinados aos estaleiros locais, onde desde o século XVII se construíam naus, galeões e fragatas, admiráveis embarcações de alto-bordo prontas a enfrentar as mais alterosas vagas. No mesmo documento dá-se notícia ainda do envio para o Brasil de outros cento e quarenta trabalhadores, alguns deles operários navais distribuídos pelos navios Nossa Senhora da Luz e Maria Primeira, que ficariam alojados na Real Fazenda de Santa Cruz, antiga residência de jesuítas e refúgio de verão para a exilada família real, onde provavelmente foram também parar os que temporariamente habitaram a Ilha das Cobras.

Entre essa extensão de terra e o pontão de Mauá, num estaleiro naval, avisto dois submarinos e dois navios de guerra, entre várias outras embarcações. Com a ajuda da lente de 200 milímetros da minha máquina fotográfica posso ler-lhes os nomes pintados no casco: Tupi e Tamoio, S30 e S31, respectivamente. Estes são os nomes de duas das tribos com maior expressão no Brasil.

“Tudo aquilo era propriedade nossa que ao longo do tempo nos foi retirada pela Marinha”, queixa-se o frade, referindo-se a uma época em que tudo o que se escutava no mosteiro era o marejar das águas. Hoje, é preciso fechar todas as janelas e só a extrema grossura das paredes evita a entrada contínua dos ruídos do trânsito.

O aterro permitiu a construção de mais uns edifícios com telhados de zinco e de um viaduto movimentadíssimo. Ao longe, avista-se, quase junto à ponte de Niterói, uma ilhota, com um aspecto artificial, que reúne um conjunto de bonitos edifícios coloniais rodeados por árvores. “Igualmente pertence à Marinha brasileira”, informa o meu anfitrião.

Também os registos da Marinha, que o investigador Juvenal Greenhalgh tem vasculhado, revelam dados esclarecedores. No seu livro “O Arsenal da Marinha do Rio de Janeiro na História, 1776-1822”, o investigador dá-nos conta da “cópia das condições em que vieram os chinas que de Macau foram remetidos com destino para o serviço do Arsenal Real da Marinha”, encaminhado para o inspector do mesmo, José Maria de Almeida, por expressa ordem do Príncipe Regente.

Em Petrópolis, no Arquivo Histórico do Museu Imperial, dois documentos referem a presença de um indivíduo chinês nos escaleres do Arsenal Real da Marinha. Trata-se de um tal João António, que enviaria uma petição ao Príncipe Regente solicitando que – por motivos de saúde, e por o “capitão do distrito” o ter acusado de compadrio com os índios tinha-o remetido, como castigo, para os trabalhos no arsenal – lhe desse “baixa” e a possibilidade, “quando houver ocasião”, de regresso ao seu país natal. O atestado médico anexo ao documento data de 1809, sinal de que se tratava, de facto, de alguém ali empregado contra a sua vontade e não traduzia qualquer política de integração de trabalho braçal chinês na economia local.

Joaquim Magalhães de Castro, escritor e investigador da Expansão Portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

 

 

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Medo de Tocar ‘A Angústia’

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Embora se celebre,  séria e intensamente, os Sofrimentos e a Morte de Jesus Cristo durante a Semana Santa,  permanece, no entanto, a questão sobre a profundidade de compreensão que deles se tem e o impacto que eles, verdadeiramente, revelam na nossa própria vida. É que, com muito maior frequência do que pensamos ou admitimos,  a vivência da Paixão do Senhor limita-se, afinal, ao desenrolar das Cerimónias ‘lá no altar’ da Igreja ou ‘lá fora’ na Procissão do Senhor dos Passos ou na Procissão do Enterro do Senhor. O que se passa dentro de nós mesmos e qual é a transformação que essas mesmas celebrações trazem  ao nosso  viver quotidiano revelam-se ser uma realidade bem diferente.

O que aconteceu a Jesus durante a Paixão foi bárbaro, cruel  e terrível. Está para além das nossas capacidades. Um  filme como o de  Mel Gibson ‘The Passion of the Christ’, como toda a obra de arte,  poderá ajudar-nos a ter uma certa compreensão.  Contemplar todo sofrimento de homens e mulheres, mas, sobretudo, crianças, pelo mundo fora,  na guerra na Síria, na perseguição étnica e religiosa no Dafur, na nudez e na fome da Somália e Etiópia … aí se manifesta também o Sofrimento de Cristo. Contudo, humildemente,  temos de reconhecer que compreendê-lo estará sempre para além das nossas capacidades, porque entra no mistério do Amor Divino. Santo Inácio de Loiola, o grande místico e mestre da Vida Espiritual, escreve no seu livrinho dos ‘Exercícios Espirituais’, quando apresenta as meditações de ‘Cristo Nosso Senhor’ na sua Paixão: ‘Considerar como a divindade se esconde, a saber, como poderia destruir a seus inimigos e não o faz, e como deixa padecer a sacratíssima humanidade tão crudelissimamente.’

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Ao mesmo tempo, sou levado a meditar a Paixão e Morte do Senhor por uma outra perspectiva – a do seu ‘coração’ – se assim me é permitido expressar. O Evangelho narra-nos que o Senhor entrou em «angústia mortal». Deixo, portanto,  os Sofrimentos meramente físicos e corporais.

Cristo, verdadeiro homem, vai experimentar e sentir no seu ‘coração’ o que existe de mais  tenebroso e doloroso na existência humana, ‘a Angústia’,  consequência do Maldade  e do Pecado que entrou no Mundo,  para que, depois, como Filho de Deus possa oferecer,  pela graça divina,  a liberdade, a salvação e a santificação a todos,  quer homens quer mulheres. Assim, meditar  a ‘Angústia’, em Cristo, direi, tanto toca o muito ‘humano’ como o muito ‘divino’. É este o mistério do Amor de Deus: o Senhor Jesus carrega toda a violência destruidora e mortífora da ‘Angústia’ para nos oferecer sempre novos caminhos de liberdade e salvação, quando ela surge na nossa vida.

Por outro lado, em nós, todo Sofrimento ou Dor dilacerante leva-nos de igual modo, com maior ou menor profundidade, a tocar  a ‘Angústia’ da Alma, a ‘Angústia’ de Ser quem somos.  Aqui as Ciências Humanas, particularmente, a Psicologia de Profundidade ajuda-nos  a compreender a dinâmica interna dessa ‘Angústia’. Nesses momentos, tocamos como que o vazio e o nada de nós mesmos. A estima pessoal e a consciência do nosso valor são baixíssimas. O sentimento de ser apoiado, querido e amado parece não existir. A confiança na vida desvaneceu-se por completo. E Deus mais parece estar adormecido, para não dizer, surdo e mudo.

Jesus com a sua «angústia mortal », também  reza dizendo : «Pai , perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem». Eles que, sem qualquer respeito,  O  gozavam  por Ele se apresentar como «Filho de Deus» e ter vindo a  «salvar os homens».

Do ponto de vista afectivo,  tanto no Horto como na Cruz, Jesus, o Senhor das Dores, como sente a necessidade de consolação. Até Deus lhe manda um anjo, expressamente,  para O «consolar» e,  junto à Cruz,  tem Maria, Sua Mãe, em lágrimas.

É Ele também que grita: «Pai, se é possível, afasta de mim este cálice».  Sente, na Sua própria carne, a dificuldade de aceitar a morte, tal como todos nós.

Finalmente, o mais dramático e o mais divino, o Filho de Homem e Filho de Deus,  em lágrimas,  deixa escapar  um  clamor lancinante «Meu Deus, Meu Deus, porque me abandonaste?»

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Jesus, na sua humanidade, na sua própria carne de Homem, vive a nossa experiência humana da ‘Angústia’ e, no mistério insondável do seu Amor,  liberta-nos dos grilhões da Dor e da Morte e transporta-nos para além do nosso existir normal e natural neste mundo.  Oferece-nos uma Vida nova, cheia de várias outras posssibilidades  Alargam-se os horizontes de Esperança.  Abre-nos ao divino.

Temos medo  do ‘Caminho Interior’, de entrar e tocar as nossas dores mais íntimas, aquela ‘Angústia’ que reside connosco. Porém, ninguém, escapará a ter  de enfrentar-se, tarde ou cedo, com aquela ‘Angústia Existêncial ‘que já o filósofo das terras do norte da Europa nos descrevia, tempos atrás, e o pintor da muito famosa pintura‘ O Grito’ expressava de uma maneira mais plástica.

A minha ‘Angústia’ é a de Cristo,  a’Angústia’ de Cristo é a minha.

 

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

 

 

 

 

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O Pavilhão Chinês e a proposta de Arriaga

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A destruição do centro histórico do Rio de Janeiro teve lugar no início do século XX. Começou pela descaracterização do Morro do Castelo, onde existia o “bairro chinês”, sedimentado ao longo do século XIX no antigo Beco dos Ferreiros, e o derrube da igreja onde está agora a estação Central Brasil (que é título de filme muito premiado). O processo teve o seu momento mais sombrio com o abate de 540 edifícios históricos para dar lugar à Avenida Presidente Vargas. Num mapa da cidade ela surge-nos como uma verdadeira cicatriz cortando cerce ruas e ruelas de traçado irregular, grande parte delas inspiradas nas artérias da velha Lisboa: Rua da Alfândega, Rua da Conceição, Rua do Carmo, Rua do Ouvidor, Rua da Glória, Rua da Lapa, Rua do Teatro, Rua da Misericórdia, Rua de São Bento, Rua Luís de Camões. É toda uma Lisboa aqui exposta. Não fosse essa régua colocada na perpendicular da capital carioca, a gigantesca Presidente Vargas.

Apesar dos estragos muito se mantém preservado. Se nos limitarmos ao jardim do Campo de Santana e à zona ribeirinha em frente à Ilha das Cobras, podemos enunciar os seguintes locais de interesse: Arcos da Lapa, Arquivo Nacional, Casa da Moeda, Real Gabinete Português de Leitura, Paço Imperial, Palácio Tiradentes, casarões vários que albergam importantes museus, e, claro, muitas igrejas. As igrejas de São Francisco de Paula, da Candelária, da Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, de Santo António, da Nossa Senhora do Carmo e a antiga Sé. Curiosamente, no Brasil as igrejas mais importantes, independentemente da sua situação geográfica, têm similar designação. Quase sempre são dedicadas a São Francisco da Penitência, à Nossa Senhora do Carmo, a Santo António ou então a São Bento. Neste país, os jesuítas, que chegaram tardiamente, não edificaram muitas igrejas dedicadas a São Paulo, como acontece no Oriente.

Claro que se sairmos do perímetro atrás definido e seguirmos ao longo da Avenida Infante Dom Henrique, que se esconde por detrás da Praia do Flamengo, e continuarmos rumo à praia do Botafogo, seguindo pela reentrância que parece querer voltar a fechar a Baía de Guanabara (e fecha mesmo), culminando nesse marco de referência que é o Pão de Açúcar, estaremos a percorrer as origens da cidade, presentes ainda hoje no bairro de Urca, à guarda da pouco acessível Praia de Fora e do Forte de São João.

Não há melhor local para apreciar o Pão de Açúcar que a zona envolvente ao monumento a Estácio de Sá, fundador da cidade, e ao museu dedicado a Carmen Miranda, a portuguesa que os brasileiros, com toda a propriedade, consideram deles.

Flamengo, Botafogo, Vermelha, Fora. Nomes de praias que encerram em si um período conturbado de lutas pela posse desta cidade tão abundantemente cantada, filmada, descrita, poetizada, sonhada. Como se vê, não falta história ao Rio de Janeiro.

Outra das vistas privilegiadas da icónica cidade, e que, no caso, relevante se torna para a prosa desta semana, é o denominado Pavilhão Chinês, porventura o mais representativo sinal da presença de povos orientais nesse país sul americano.

Miguel de Arriaga Brum da Silveira, mais conhecido como Ouvidor Arriaga, é o grande incentivador de uma vaga imigratória que tem origem no dealbar do século XIX, como, de resto, o comprova uma carta do seu punho enviada ao Príncipe Regente, a 6 de Março de 1809, ou seja pouco tempo após a chegada da corte ao Brasil. Ciente da endémica falta de mão-de-obra braçal, agora que urgia estabelecer uma Nova Capital, Arriaga, alegando a vantagem de serem os chineses “activos e industriosos”, e, por isso mesmo, de todas as classes operárias, “sem dúvida alguma a mais útil e proveitosa”, dispôs-se a enviar para o Rio o necessário número de trabalhadores de tal casta, que mais tarde saldariam com o seu suor os gastos de tão longa e sofrida viagem, ficando na debilitada situação de assalariados “por conta da Real Fazenda até preencherem os seus débitos”, sob o olhar de atentos e exigentes capatazes. Adivinha-se aqui, porventura, um prenúncio do futuro tráfico de cules. Porém, há na proposta de Arriaga uma contrapartida, digamos, humanitária, já que apela à tolerância pelos costumes chineses, isto é, “tenham certas fraquezas em alguns dos seus usos que não podem deixar de respeitar”.

Pelos vistos – e segundo admite o próprio Arriaga –  a prática não era nova, pois usual se tornara nos domínios ingleses, “com enormes vantagens para essa nação”, aproveitando o ensejo para alertar para a esperada relutância dos chineses, que bem sabiam que muitas das cláusulas dos contratos não eram cumpridos, pois, embora lhes prometessem acesso aos portos do Brasil livres de taxas, obrigavam-nos, os angariadores, a pagá-las, uma vez atingido o destino.

Essa decisão seria, no entender do Ouvidor, de mútuo interesse  para o Brasil e para Macau.

O plano, pelos vistos, foi de imediato posto em prática, pois a 22 de Março de 1809 dá-nos conta Arriaga, em carta endereçada ao Secretário da Marinha e Domínios Ultramarinos, D. João de Almeida Melo e Castro, da partida para o Brasil de residentes de Macau acompanhados por trabalhadores agrícolas chineses, missiva essa que trazia anexa a carta por ele enviada ao Princípe Regente dezasseis dias antes.

Miguel de Arriaga Brum da Silveira seria ainda o responsável pelo envio das primeiras plantas e sementes do chá para o Brasil, mas essa é matéria que, pelos curiosos episódios que acarreta, dará com certeza pano para futuras mangas.

 

Joaquim Magalhães de Castro, Escritor e Investigador da Expansão Portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

 

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