O Sopro de Pak Tai Ecos dos “boat-people” no delta de Mytho

 

Fala-se da ilha de Tan Long, no sul do Vietname, como um paraíso agrícola coberto de palmeiras, coqueiros, bananeiras, árvores de cítricos, ananaseiros, mangueiras e muitas outras fruteiras cuja reputação ultrapassou fronteiras, embora aquilo que mais caracteriza Tan Long é o facto de muitos dos seus habitantes serem construtores de barcos, actividade transmitida de geração em geração.

Passamos, com o motor ao ralenti, a poucos metros das margens dessa luxuriante ilha, onde repousam dezenas de barcos de pesca de madeira em construção, dentro de estaleiros familiares agregados às barracas habitacionais, apontando a proa em direcção a Mytho. Ou quiçá, até mais longe.

“Foi com barcos semelhantes a estes que muitos vietnamitas fugiram do país”, lembra‐se de dizer Kim Hau, o barqueiro de serviço, pescador de profissão. Mytho produziu também a sua remessa de boatpeople, muitos dos quais dariam à costa em Macau, esfaimados e doentes, onde eram acolhidos durante alguns meses, antes de serem transferidos para os grandes centros de refugiados de Hong Kong.

“Muitos dos meus amigos que tentaram a sua sorte vivem hoje nessa cidade ou nas Filipinas. Mas também conheci os que não voltaram a ver terra”, acrescenta o pescador que preferiu ficar por Myhto, a “arriscar a ser comido pelos tubarões ou desaparecer no meio de um tufão”. Agora, “que isto por aqui até está bem melhor”, tem a oportunidade de poder conduzir estrangeiros pelos canais e compensar assim o seu fraco rendimento mensal. A mulher e os dois filhos, infantes ainda, aguardavam que ele chegasse, recolhidos num tugúrio de tiras de bambu, escondido sob densa vegetação, a meia hora de distância do veio principal do Mekong.

O bilhete para uma tarde inteira de navegação fluvial incluía – como fez questão de salientar, num pequeno papel que escreveu, o rapaz com quem tinha fechado negócio – “uma visita a um dos famosos pomares de Mytho”. E foi isso que Kim Hau e a mulher me proporcionaram, acompanhando‐me numa visita um pouco improvisada, mas que não deixou de ser interessante. Fui conduzido de choupana em choupana, por caminhos de terra seca onde frequentemente apareciam sepulturas rústicas. Mesmo depois de mortas, as pessoas continuavam a partilhar com os vivos o mesmo espaço e a desfrutar das generosas sombras concedidas pelas frondosas mangueiras. Ainda pouco habituado a esta forma de turismo alternativo, o pescador tudo fez para que eu desfrutasse aquelas horas passadas em terra, e, findo o passeio, a mulher deixou no ar “cumprimentos à família” e um “please remember us”, frases estudadas com esmero e agora aplicadas de forma automática.

De regresso aos meandros aquáticos, em certos troços totalmente cobertos de fetos gigantescos que quase tapam o céu, formando um tecto de verdura, Kim desliga o motor e deixa o bote deslizar, para que se possa ouvir o chilrear da passarada, pois esse é outro dos pormenores especificados nos cartazes que publicitam a viagem.

Para que o visitante não se sinta de modo algum defraudado, anunciam‐se ainda outros focos de atenção, sendo o mais badalado, e talvez o menos interessante, uma visita à chamada Ilha do Monge Noz de Coco, onde, a troco de 8.000 dongs, acedo a uma espécie de lunapark surrealista que em tempos foi um santuário ao ar livre de uma das mais curiosas seitas religiosas que o Vietname viu nascer. Recordo que este país é bastante pródigo neste tipo de fenómenos.

Até à sua prisão, em 1948, e consequente desmembramento do seu “rebanho”, o Monge Noz de Coco, aliás, Ong Dao Dua, liderou uma pequena comunidade que vivia em Phung (o verdadeiro nome da ilha), a escassos quilómetros de Mytho, e da qual restava apenas um jardim com colunas inscritas com dragões em alto‐relevo com a tinta a estalar, galináceos de ar triste metidos dentro de gaiolas medonhas, lagos artificiais onde nadavam peixinhos vermelhos em busca das últimas bolsas de oxigénio na água saturada, e uma torre com diversas plataformas em diferentes níveis, onde havia um sino, uma balança e um globo terrestre enorme.

Ong Dao Dua – aliás, Nguyen Thanh Nam, seu verdadeiro nome de baptismo – fundou a religião Tinh Do Cu Si, uma mistura de budismo com cristianismo, algum tempo depois de ter regressado de França, onde estudou físico‐química durante sete anos. Nessa tentativa ecuménica – com fracas repercussões sociais, diga‐se de passagem – o vietnamita combina Buda com Cristo e a Virgem Maria, sempre acompanhada de figuras budistas femininas de destaque, e tanto a cruz como a suástica budista são símbolos utilizados com frequência. Pude ver ainda uma flor de lótus e dois dragões desenhados numa porta ferrugenta, com uma placa proibindo a entrada a uma espécie de monumento incrustado com fragmentos de cerâmica, sustentado por uma tartaruga de cimento, onde estava a pequena fotografia do controverso personagem, acompanhada da data do seu nascimento e da sua morte.

“Ong Dao Dua foi preso inúmeras vezes por sucessivos governos sul‐vietnamitas. Não lhes agradava que espalhasse as suas ideias subversivas, preconizando a reunificação do país através de meios pacíficos”, informa Kim Hau. Chamavam‐lhe Monge Noz de Coco porque se diz que, durante três anos, permaneceu sentado numa laje de pedra, em profunda meditação, debaixo do mastro com a bandeira nacional desfraldada, alimentando‐se apenas dos cocos que caíam das árvores.

Tirando o máximo proveito “dessa armadilha para tolos”, como ouvi alguém comentar, os ilhéus de Phung aproveitavam para vender aos turistas bonitos utensílios feitos à mão com madeira de coqueiro (colheres, pauzinhos), nogado de amendoim e deliciosos caramelos à base de leite de coco.

Para descansar e, eventualmente, compensar o fiasco (foi a sensação com que fiquei depois de visitado o parque), disponibilizam‐me uma cadeira numa mesa instalada à sombra do arvoredo onde passo a bebericar diversos sumos de frutas, café servido dentro de uma caneca de alumínio com um filtro, e, para terminar, uma chávena de chá vietnamita com aquele leve travo a guache. No Vietname, é sagrado: depois do café, serve‐se sempre o chá.

Joaquim Magalhães de Castro, escritor e investigador da expansão portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

 

 

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Poética do quotidiano Arte: Expressão da Inteligência

 

É inegável a necessidade de a educação dialogar com diversas tecnologias para ampliar o interesse dos estudantes pelas informações. Porém, mesmo com tantos artifícios pedagógicos, muitas salas de aula têm formado repetidores de ideias, e não verdadeiros pensadores, visto que muitos profissionais possuem a dificuldade de entrar na vida do aluno e não ser apenas professores, mas mestres, educadores.

É uma verdade lastimável a desvalorização dos profissionais de educação e a desmotivação consequente do desrespeito que os professores têm sofrido, mas certamente os troféus são significativos – ainda que insuficientes e mínimos – para aqueles que se debruçam sobre o nobre ofício de leccionar, sendo estes os verdadeiros arquitectos do futuro, aqueles que não perdem a esperança apesar dos ventos contrários.

O fato de o porvir ser construído pela geração que actualmente está nas escolas demonstra o quão delicada é a situação: observa-se a importância de os educadores desenvolverem não apenas o conhecimento de cada estudante, mas também as emoções, ou seja, é necessário entrar na vida do aluno como uma peça fundamental para que este possa desenvolver suas capacidades cognitivas. Afinal, um indivíduo que consegue expressar e administrar o que sente é um indivíduo com maior capacidade de desenvolver ideias e analisar criticamente a realidade.

Por isso, ressalta-se a importância do ensino da arte nas escolas. Não a arte baseada em regras e formas, mas a arte que desenvolve o potencial do aluno e o faz sentir-se satisfeito com o resultado de seus trabalhos, a arte que faz o aluno entender que o conhecimento é uma parte da bela e apaixonante paisagem da vida, por meio de palavras, músicas, desenhos, pinturas, leituras ou dinâmicas – que façam o aluno dialogar consigo. Fazer arte é desenvolver habilidades e capacidades, é consolidar o entendimento sobre o mundo onde se vive. Ao praticar a arte, desenvolvem-se as principais áreas do conhecimento e se evolui no campo dos sentimentos: aprimora-se a inteligência.

Ou seja, é possível ampliar o potencial do estudante em diversas disciplinas e áreas da vida ao fazê-lo descobrir a beleza das coisas com o aprimoramento de sua aptidão artística, o que torna necessário que o educador tenha sensibilidade para despertar nos indivíduos a inteligência e a capacidade de fazer análises, lançando mão da mais pertinente forma de lapidar consciências para formar opiniões: a retórica da perspectiva, por meio da qual podem ser apresentadas as faces de uma mesma verdade, gerando esperança e concedendo autonomia intelectual.

O educador é, portanto, uma figura indispensável no processo de formação de pensadores, pois educar é uma arte que exige amor aos seres humanos e o comprometimento com trabalho emocional para que se alcance o desenvolvimento. Dessa forma, é necessário que os professores saiam de sua área de conforto para se doar completamente à arte que praticam de ano a ano, leccionando diariamente saberes que muitos livros não trazem em suas páginas repletas de conhecimentos mastigados e, às vezes, obsoletos: a vida que está acerca de todos nós, repleta de sensações com as quais muitos não sabem como lidar pelo fato de não tomarem conhecimento de quem são antes de viver.

De nada adianta desenvolver o raso conhecimento horizontal, que não se aprofunda e não se aplica. É necessário mais. É necessário dar a liberdade de criar para que o aluno alcance sua libertação. É necessário – valendo-me da fala de um educador que marcou meu processo de formação na faculdade de Direito, professor Helio de Freitas Coelho – que atentemos para o que está nos livros, mas não tiremos os olhos da vida. É necessário que a tecnologia mais complexa seja a expressão humana.

Destarte, nota-se o quão insuficiente é leccionar frios conceitos, fazer alunos decorarem textos e cumprirem as tarefas sem desenvolver o que o indivíduo sente, pois deve o saber manifestar-se da descodificação de impulsos por meio dos princípios intrínsecos àquele que se deixa guiar pelo autoconhecimento na extensa e resplandecente caminhada do saber.

 

Ronaldo Henrique B. Junior

Brasileiro do Rio de Janeiro, é bacharelando em Direito e escritor académico da Academia Pedralva Letras e Artes (Campos de Goytacazes – RJ)

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O OUVIDOR OCIDENTAL Estátuas de ouro

 

A obrigação de ganhar sempre tornou os Jogos Olímpicos a última etapa da velocidade e da globalização. Michael Phelps, Usain Bolt ou, agora, Simone Biles são os deuses que Filippo Marinetti sonhava ao escrever o seu Manifesto Futurista: “Nós queremos exaltar o movimento agressivo, a insónia febril, o passo de corrida, o salto mortal, o bofetão e o soco”. Ou a globalização do bom senso e da paz que movia Pierre de Coubertin quando desenhou, agarrando no pó da antiguidade e na memória das provas com que os mortais seres humanos tentavam concorrer com os poderes dos deuses, os Jogos Olímpicos da modernidade. Numa era em que a globalização económica define a paz em nome das vantagens comerciais (tal como sucedeu no mundo antes da Primeira Guerra Mundial), o desporto continua a ser o grande postal ilustrado do sucesso das nações. Não admira a aposta das grandes e pequenas potências no desafio de criarem deuses que os comuns mortais veneram através dos plasmas. Por detrás das vitórias está, sobretudo, dinheiro. São os grandes investimentos das nações que geram mais deuses. De resto, como sucedeu outrora com os portugueses Carlos Lopes ou Rosa Mota, tudo era obra de um acaso, sobretudo quando a globalização ainda não estava afinada e as fórmulas para vencer ainda não se tinham tornado hegemónicas. Phelps, Bolt ou Biles têm características naturais para serem seres voadores, aqueles que desejamos poder ser durante um segundo apenas.

Vemos os Jogos Olímpicos na televisão, o definidor social por excelência na idade em que o diálogo foi substituído por sensações rápidas. Vemos lá desportos que só encontramos de quatro em quatro anos. Ficamos deslumbrados com a beleza da natação sincronizada ou com a velocidade alucinante do ténis de mesa. Já não há quase vestígio do “desporto amador” que outrora era vendido como a alma das Olimpíadas. Os jogos estão salpicados de atletas que fazem do desporto uma vida. Tudo é feito em prol de uma medalha de ouro. De um estatuto único. Do reconhecimento da supremacia de uma nação, que assim tenta provar, através do desporto que o seu “sistema” é o melhor. O dinheiro gasto hoje no desporto de elite é, a nível global, uma enorme caixa-forte do Tio Patinhas.

No mundo da globalização, dos acordos trans-pacífico e das novas rotas da seda, o desporto olímpico é apenas uma das vias dessa uniformização de ideais. Como é o futebol. Ou as roupas que compramos nas grandes cadeias internacionais, iguais em todas as latitudes. Ou os móveis, lapidados pela Ikea, iguais em todas as longitudes. As séries e concursos televisivos são hoje quase iguais em todo o globo. O dinheiro é, no meio de tudo isto, a grande língua franca. Porque é isso que permite que os melhores treinadores, independentemente da sua nacionalidade, sejam contratados para esculpir os melhores talentos. Pesquisa e inovação são as palavras de hoje para a estratégia desportiva. Não há lugar para amadorismos. Só há espaço para heróis. O desporto une e aproxima-nos. Quem não recorda, no Europeu de Futebol de 2016, jovens franceses de origem francesa, que não sabiam uma palavra de português, com a camisola da selecção nacional, puxando por Ronaldo? Os Jogos Olímpicos terminaram e recolocaram deuses no pódio. Phelps e Bolt garantiram a unanimidade global. São estátuas de ouro que ficarão na memória de gerações. Todos os vislumbrarão, milhões, triliões de vezes, na internet, nesse território que se tornou a última fronteira da imaginação humana e também da distração global. Onde tudo está e tudo se vê num relance. Sem tempo para reflectir. Afinal, num mundo onde o que importa é ser mais veloz, a calma não gera dinheiro.

 

Fernando Sobral

 

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O Sopro de Pak Tai Senhora de inúmeras virtudes

Joaquim Magalhães de Castro

 

Longe de ser o paraíso na terra, como reza a máxima chinesa, não deixa de constituir um dos recantos mais aprazíveis da China. Hangzhou, destino turístico por excelência, surpreendeu-me pela positiva, apesar de a encontrar envolta em nevoeiro.

A história de Hangzhou, que Li Bai, o grande poeta da dinastia Tang, descreveu como “a mais memorável cidade a sul do rio Yangtsé”, remonta ao início da dinastia Qin (221 AC). A China atravessava na altura um período de grande prosperidade com um activo comércio inter-regional que gradualmente transformou os aglomerados populacionais em grandes urbes que provocavam espanto e admiração em quem as visitava. Artistas, militares, funcionários, mercadores, todos se congregavam ali. Em 1275 a população perfazia já um milhão e 750 mil. Tão elevado número de pessoas associado à proximidade com o oceano levou a que o comércio marítimo e fluvial, a construção naval e indústrias do género se desenvolvessem a níveis nunca antes imaginados.

Hangzhou foi pormenorizadamente descrita por Marco Polo e por ali também terá estado Fernão Mendes Pinto, anos antes dos jesuítas de Macau terem fixado residência nessa cidade. António Gouveia, autor da “Ásia Extrema”, atesta a “firmeza da residência de Ham Cheu”, por onde passariam os padres Celestino da Silva, João Fróis e João da Rocha, o irmão, natural de Macau, Francisco de Lagea, e ainda, o mais conhecido de todos, o padre Manuel Dias (Júnior) que acompanhou os sete artilheiros portugueses de Macau que, em 1622 e por solicitação dos mandarins cristãos, partiram para Pequim com o objectivo de participarem na defesa da cidade ameaçada pelo manchus. Tal acto, permitiu que nos anos imediatos novos missionários europeus partissem para a China e novas residências fossem abertas nas diversas províncias do império.

Em meados do século XIX, com a rebelião dos Taipings e a sua feroz luta contra os exércitos imperiais, Hangzhou atravessou o período mais negro da sua existência. Mais de meio milhão de habitantes pereceu devido a doenças, fome e batalhas. A cidade ficou reduzida a cinzas, desvanecendo-se assim a sua importância comercial. Os raros edifícios e monumentos que sobreviveram à devastação seriam arrasados no século seguinte, durante a Revolução Cultural. O que se hoje vê em Hangzhou é de construção relativamente recente.

Mas porquê, então, tanta excitação em torno da cidade? É mesmo assim tão agradável e bonita? Garanto que sim. E mais. Se tivesse que escolher um local para viver na China, Hangzhou estaria definitivamente na lista dos casos a ponderar, apesar dos sucessivos grupos de turistas que ao longo do ano a ela arribam. Não é por acaso que é considerada a cidade com os mais felizes habitantes de toda a China.

A principal razão de ser de Hangzhou chama-se Xi Hu, Lago Oeste, símbolo citadino por excelência. Na China há dezenas de lagos – mais exactamente 36 – chamados Xi Hu. Mas o de Hangzhou é o autêntico, onde todos os outros se inspiraram. Su Dongppo, eminente escritor da dinastia Sing, comparava o lago do Oeste a Xishi, “senhora de inúmeras virtudes”.

Duas vias dividem Xi Hu em outras tantas secções. Ambas ornamentadas com pequenas pontes de pedra cujos arcos permitem a passagem de pequenas embarcações apenas. Os locais de interesse turístico encontram-se espalhados pelo lago, em pequenas ilhas, num aglomerado de jardins, pontes e pavilhões com sugestivos nomes, tais como “Lua de Outono”, “Tanque das Carpas Douradas”, “Três Loucos a Olharem a Lua” e “Pagode das Seis Harmonias”. Este último pagode, servia simultaneamente de local de culto e de farol. Supostamente teria o poder mágico de estancar o revoltoso macaréu que cada final de verão acordava o rio Qiangtang.

Muitas desses locais foram imortalizadas em poemas e textos literários. Tendo ficado associados a intelectuais que ali viveram, imperadores (Hangzhou era bastante popular junto da elite no poder) ou mesmo a patriotas de épocas mais recentes.

Numa das secções do que foi outrora o palácio de férias do imperador Qianlong, na ilha da Colina Solitária, a mais larga de todas, está sediada a Sociedade de Selos e Gravuras Xiling. Mas o representante da dinastia Qing interessava-se sobretudo pelo chá da região, o chá Lojiang. Não só o bebia, como lhe fazia poemas e visitava o local onde crescia, acompanhando depois o processo de torrefação. Desde então, o chá Lojiang não parou de se popularizar. Também o manchu seu antecessor, Kangxi, era visitante regular de Hangzhou. Numa das paredes de Ligyin Si, “templo da alma em retiro”, podemos apreciar uma copla da sua autoria, ao que se diz inspirada pela “visão do templo envolvido pelas árvores e pelo nevoeiro”. Kangxi, espírito curioso, teve como confidente e tutor musical, outro ilustre residente de Macau: o jesuíta Tomás Pereira.

Mao Zedong, na boa tradição imperial, fez de Hangzhou cidade predilecta. A terceira, depois de Pequim e da Changsa natal. Visitou-a sempre que pode. Hoje, os panfletos turísticos garantem que “figuras de estado como Nixon e Thatcher, assim como pessoas ordinárias” renderam-se publicamente “à beleza e ao charme de Hangzhou”.

Da antiga cidade, como já se disse, pouco resta. E mesmo o quarteirão que subsistia na área ribeirinha, desapareceu para dar lugar a uma série de edifícios de arquitectura moderna e bem equilibrada. Com o Grand Hyatt como referência, o bairro tem nome a condizer: Euro Street. A baixa de Hangzhou é, provavelmente, a mais europeia de toda a China. E com isso espera continuar a atrair hordas de visitantes. Nacionais e estrangeiros.

 

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A realidade não basta

Fugaz, a sinóptica perturbadora que alcança o mundo atual é pungente, em inexpressivos monossílabos escassos de buscas.

Em meio a um vazio desassossegado, acostumados com a parcimônia – a alma cega de alienação -, poucos são os que se importam com as expressões. Poucos são os que se dissipam pelo ar dispostos a deixar-se levar pela imaginação. Poucos conhecem a si próprios além das informações deixadas em seu perfil numa rede social qualquer.

Imprescindível é ter olhos para ver por dentro. Pois a cegueira que fecha os olhos para o mundo – gerando desencontros – é a cegueira da alma incapaz de sentir. Não adiantam as palavras: expressar quão belo está o dia não traz enlevo algum, a menos que as palavras saiam na espontaneidade da apreciação, ao contrário da dissimulação geralmente usada para guardar indiferenças.

De que vale viver oculto em uma tela de computador, se não é possível sair de si mesmo e sentir a liberdade da vida?

Saramago, em sua experiência literária de idealizar uma cegueira que assola desenfreadamente os seres humanos, põe o leitor para refletir sobre a distância do sentimento de humanidade, sobre o fato de os olhos do corpo não serem suficientes para sentir-se vivo. Na voz de um de seus personagens, Saramago expõe uma verdade que fala à atual geração: “Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem“.

A cegueira a que se refere o autor nascido na província portuguesa de Ribatejo não se trata de problema das vistas enquanto órgãos que transmitem imagens para o cérebro decodificar, mas de um problema que alcança as pessoas e as despersonaliza: retira a humanidade, que, enquanto sentimento, diz respeito ao homem que se basta sobre a Terra, considerando mazelas e sonhos.

Pois o homem acaba por perder-se em meio ao mundo cibernético em que vive, trocando diariamente a realidade pela uniformidade de vivências que é a inexpressiva tradução da sociedade atual: a ilusão de uma realidade virtual, numa ficção que não gera vida, aprisiona.

Enquanto fonte de inspiração, a ficção é espaço em que o homem se inventa e recria suas imagens. Espaço de sonhar e sentir, na fantasia de viver a fuga, o outro lado da existência, pautado na imaginação – infinita.

Todavia, percebe-se a divergência entre abdicar da realidade e abdicar de si: não há reconhecimento das lacunas da existência na ficção buscada pelas massas. A vida virtual enrijece, arrefece, traz amnésia das origens e cria falsas ideologias, pois distancia o homem de sua própria essência, cria distâncias e mantém a alma incólume – sem lacunas.

Pois as lacunas são necessários meios para o autoconhecimento: indagações deixam rastros que amadurecem a inquietude da existência, enquanto dinâmica que é. A vida não é pautada nas respostas, mas nos vazios deixados pelo que não se deixa entender com os olhos pragmáticos.

Então penso que o homem se enxerga pleno em contato com sua alma por meio de seus próprios eufemismos e convergências, pensando ter conhecimento de sua identidade sem saber sentir a própria alma.

A literatura, enquanto arte, deixa o desejo, acende as consciências para aquilo que não se pode enxergar com os olhos. Então vejo que as palavras – limitadas ao dizível – são fonte geradora do mundo. São alimento para o tempo histórico e elemento construtor do eu – enquanto personalidade no mundo real.

As palavras podem ser contaminadas com a frivolidade de uma área de lazer e até de um estudo aprofundado capaz de tornar técnica a literatura, mas jamais perderão seu poder de alcançar o âmago do indivíduo, criando lacunas capazes de gerar a poesia e estimular o latente mundo onírico. Fonte de expressão, a arte é a localização do homem em seu mundo, com os olhos voltados para a existência – não apenas para as aparências.

A literatura, exatamente por isso, é capaz de fazer transcender o homem ao seu próprio universo, pois consegue encontrar num texto emoções que já experimentara sem exprimir. José Castello, em uma publicação de 2012 no site do jornal O Globo, faz reflexões sobre a arte das palavras em contato com o indivíduo no texto “O poder da literatura“:

[…] leia Dostoievski, leia Kafka, leia Pessoa, leia Clarice – e você verá que rombo se abre em seu espírito. […] Vivemos imersos em um grande mar que chamamos de realidade, mas que – a literatura desmascara isso – não passa de ilusão. A “realidade” é apenas um pacto que fazemos entre nós para suportar o “real”. A realidade é norma, é contrato, é repetição, ela é o conhecido e o previsível. O real, ao contrário, é instabilidade, surpresa, desassossego. O real é o estranho.”

Por isso, é possível perceber a necessidade de uma leitura clara da vida – e das palavras -, no que é possível enxergar um pensamento do escritor francês André Gide: “a arte começa quando viver já não é suficiente para exprimir a vida”. É preciso impavidez para lançar os olhos e ler as entrelinhas, deixar-se alcançar por seus próprios significados, sentir a liberdade de sonhar.

Assim, a literatura não pode ser resumida em um conjunto de análises feitas em sala de aula, mas em objeto de libertação da sensibilidade, por isso a necessidade de o livro não ser mais uma das obrigações escolares para as crianças, mas um amigo para acompanhar o crescimento. Um amigo para o indivíduo entender que ele próprio é capaz de produzir arte, de irradiar sua alma em expressões de beleza, de vivificar seus dias em plena liberdade.

Pois o desenvolvimento, ao contrário do que se pensa, não pode ser pautado tão somente na lógica e na linguagem, mas na vida e nos sonhos: no pulsar da humanidade.

Resumo: Não é possível alimentar anseios sem sonhar a vida de olhos abertos.

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Rio 2016 e o Foooooora Temer

Márcia Souto

 

Os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, desde o seu anúncio, há anos, têm sido rodeados por polémicas, devido sobretudo à crença de que a cidade seja incapaz de acolher de modo digno os atletas e torcedores esportivos.

A crise política que se instaurou no Brasil veio aumentar mais ainda os ceticismos, e a desconfiança de que a coisa não andaria bem passou de boca em boca.

Mas chegaram as Olimpíadas e, tal qual a Copa do Mundo de Futebol, em 2014, as previsões catastróficas não se concretizaram, mas nem tudo foi/está sendo “às mil maravilhas”.

Como era de se esperar, houve vaias na abertura, que se reverberaram em protestos durante competições. Segundo é sabido, a Presidente eleita foi afastada e tem seu mandato em risco de perda. Contra Dilma Rousseff, uma mídia elitista apoiou um golpe constitucional engendrado por uma classe política de base retrógrada, racista, homofóbica e machista, liderado pelo presidente interino Michel Temer. Assim, vimos o já famoso bordão “Fora Temer” virar marca constante nas audiências dos Jogos. Coerente com os princípios pelos quais reza, o Governo interino proibiu manifestação política durante as Olimpíadas e rodaram mundo as imagens de pessoas sendo retiradas de dentro de estádios ou lhes sendo confiscados cartazes em que expressavam pacificamente a revolta pela ditadura que pisca olho ao Brasil atualmente.

Neste clima de crispação e angústia, a resistência toma o Brasil e a vitória da judoca Rafaela Silva, primeira medalha de ouro brasileira neste Rio 2016, tem um sabor muito especial. Vindo de todas as margens possíveis e imagináveis (mulher, pobre, negra, lésbica), o Ouro da Rafaela parece dizer que o melhor do Brasil são os brasileiros que lutam contra as opressões visíveis e invisíveis que cada vez mais, infelizmente, tomam o lugar do poder político atual.

O beijo gay protagonizado pela jogadora da seleção brasileira de rugby e a sua namorada que a pediu em casamento, após a cerimónia de entrega das medalhas às campeãs australianas, também é um belo modo de manifestar resistência pacífica e olímpica à Idade das Trevas que teima em apagar o brilho da chama da liberdade no Brasil.

Como era de se esperar, são inúmeras as notícias de assaltos, problemas de infraestrutura ou desorganizações nos Jogos do Rio 2016, assim como a quebra de incríveis recordes, vitórias espetaculares, emocionantes competições, mas, sem dúvida, o que marca indelevelmente estas Olimpíadas brasileiras é o sorriso de quem acredita que, tal qual Chico Buarque canta em “Apesar de você”, amanhã há de ser outro dia.

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Sopro de Pak Tai Augustin, rei do kung fu

Joaquim Magalhães de Castro

 

Enquanto o ICA, RTP e congéneres continuam a financiar projectos de certos lisboetas neuróticos, enviesados, crónico-depressivos com trejeitos de falsos poetas que produzem trabalhos que depois pouca gente tem pachorra para ver, talvez porque ninguém neles se consiga identificar (sim, porque em Portugal nem tudo se resume a fado e Lisboa), na Europa há quem se lembre de personagens nacionais capazes de servir de excelente matéria para as suas obras. É o caso da cineasta francesa Anne Fontaine que em 2000 realizou Augustin, King of Kung Fu. Um filme belo e despretensioso que nos conta a história de Dos Santos, um solitário e introvertido emigrante português que, entre outros pequenos trabalhos, faz de figurante em filmes, mas cujo sonho é vir um dia a participar numa película de artes marciais. Para isso mergulha a fundo na cultura e tradição chinesas passando a frequentar, encavalitado na sua “pasteleira”, fiel companheira, o Chinatown de Paris.

À excepção de um professor de francês fluente em mandarim e o gerente de uma loja de quinquilharias onde Augustin passa a trabalhar e com quem estabelece uma relação de amizade, todos os actores e figurantes de Augustin, King of Kung Fu são chineses da província de Cantão (escutamos o cantonense com frequência), a tal ponto de nos chegarmos a questionar se a acção se passa, de facto, na capital francesa. Uma dessas figuras é inclusive identificada como residente de Macau.

Hóspede de uma pequena pensão com quartos de paredes de contraplacado que tanto serve noites de sono como de amor a pagantes, freguês dos tascos de min e de yam cha e aplicado aluno de aulas de mandarim e de kung fu – até então, o nosso herói apenas ensaiara golpes de pés e movimentos de mãos inspirados pelo som que gravava nas salas de cinema meio vazias das quais era frequentador assíduo –, Augustin encarna na perfeição o verdadeiro espírito do período das Descobertas.

Como se não bastasse, o nosso emigrante, encarnado pelo actor Jean Chretien Sibertien-Blanc, na qualidade de paciente trava conhecimento com a acupunturista Ling, nada menos nada mais que a imensamente bela e talentosa Maggie Cheung. Esta, através dessa ciência milenar chinesa desperta-lhe sensações que ele julgava inexistentes, pois, apesar da generosidade e simpatia, Augustin tem um problema quanto ao seu relacionamento com as outras pessoas. Quiçá, parte dessa intrínseca lusa forma de ser e estar que muitos dos cineastas portugueses apenas conseguem retratar de uma forma deprimente mas que certos estrangeiros logram captar na sua essência – veja-se o Lisbon Story de Wim Wenders e A Cidade Branca de Alain Tanner.

Ling apaixona-se por Augustin e este, como não podia deixar de ser, por ela. Porém, o emigrante ocidental leva mais tempo a revelar a sua paixão do que a congénere oriental, e quando aquele o decide fazer vai encontrar Ling, em crise de identidade, nos braços do professor de francês, um gesto de simples desabafo imediatamente mal interpretado pelo tímido Augustin que logo assume existir entre a acupunturista e o professor algo mais do que simples amizade. O imenso equívoco leva-o à partida. Era o destino que estava traçado.

Num misto de fuga e de desejo de uma maior integração na cultura que o fascinava desde a infância, Augustin parte para a China. E na China o vemos, anos depois, em Pequim, pedalando agora uma outra bicicleta, uma Golden Pigeon, regressando do mercado ao seu novo lar, onde o espera uma mulher chinesa e um filho dedicado a fundo à aprendizagem dos segredos das artes marciais. A Ling estava-lhe reservada a integração no mundo ocidental. O argumento diz-nos que abrira um consultório em Paris e que o seu encontro com Augustin ainda lhe povoava as recordações.

Resta acrescentar que o filme foi produzido por quatro indivíduos, um deles chamado António Bazaga, que constituem o núcleo duro do Bocaboca Productions. Talvez a lusofonia do vocábulo explique a escolha de Fontaine.

Após o visionamento de Augustin, King of Kung Fu (procurem-no nas lojas de DVDs) perguntei a mim próprio: por que razão não se produzem em Portugal filmes assim?

Augustin tem muito a ver connosco, os que aqui estamos essencialmente porque gostamos do Oriente e não porque aqui auferimos de salários mais generosos.

Seremos nós esses Augustins que insistem em ficar apesar do acéfalo poder em Lisboa teimar em ignorar esta parte do mundo? Augustins do século vinte um que à semelhança dos lançados, homiziados, aventureiros seiscentistas operam revoluções por conta própria? Augustins que não esperam subsídios nem viagens pagas nem decretos-leis para mudar o rumo às coisas e tornar realidade os seus sonhos? Augustins que não soltam queixumes de traseiro preso a cadeiras de café enquanto o sol brilha num céu azul que quem dera a muitos o terem todos (ou quase) os dias à distância de uma persiana? Augustins que avançam, emigrantes da dinâmica e não desgraçadinhos escravos do “oui, Monsieur”?

Augustin, King of Kung Fu traz-nos uma visão da emigração que raramente nos foi dada por um cineasta português (Mortinho por chegar a casa, co-produção luso-holandesa é a honrosa excepção). Uma imagem de portugueses-matéria-preciosa, pois não estão no mundo ao serviço de terceiros, outrossim por conta própria.

 

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