A vida no jornal

Hélder Beja

A primeira redacção de jornal em que entrei para me sentar a um computador e escrever foi a do Público, na Rua Viriato, em Lisboa, corria o mês de Março de 2007. Tinha então 20 e poucos anos, alguns ideais e muitos mais sonhos que agora.

Passaram sete anos, passaram umas quantas redacções e passaram duas cidades – Lisboa e Macau. A vida trouxe-me aqui e não posso culpá-la, como não vou bendizê-la. Cheguei para trabalhar neste jornal. Era 2010 e tinha então muitos mais sonhos do que agora (sim, os jornalistas também se repetem).

O PONTO FINAL abriu-me as portas da cidade. Primeiro deixou-me ser curioso como são os que chegam a um lugar novo e escrever sobre isso; depois deixou-me ser criativo e fazer acontecer páginas que não poderiam ter nascido de outro modo; também me deu espaço para ser teimoso e travar microscópicos combates jornalísticos por temas que valiam a pena.

Com as limitações de um jornal que opera nas circunstâncias deste, para uma audiência reduzida, numa cidade difícil de ler, com uma redacção pouco numerosa como são as redacções de Macau, o PONTO FINAL acontece todos os dias com o esforço de uma equipa quase invisível (como deve ser) e de muita qualidade.

Não é fácil fazer jornais em Macau. Trabalham-se muitas horas, o ritmo é acelerado, a massa crítica é pouca, as fontes são difíceis, a barreira da língua é aquela montanha que todos desejam escalar mas que muito poucos conseguem.

Os três jornais (quase) diários de língua portuguesa de Macau têm modos diferentes de olhar o território e, depois, de informar sobre ele. Não podia ser mais saudável do que isto, nesse aspecto. Têm, também, a liberdade de que necessitam para fazer o seu trabalho, as condições que o ofício exige e um bom número de profissionais capazes.

Mas os jornais de Macau (e a televisão, e a rádio) também sofrem de males, sendo o maior deles um apego que chega a ser obsessivo à agenda oficial da RAEM. O jornalismo de conferência de imprensa, o jornalismo de estar à espera que caia mais um comunicado do Governo, tem aqui uma força e, acima de tudo, uma predominância difícil de encontrar noutras paragens.

Para um repórter português, fazer um jornal local em Macau não é igual a fazer um jornal local em Braga ou em Santarém. A incapacidade de comunicar com a rua, que pode ser atenuada através do trabalho em equipa com repórteres locais bilingues (tão importantes), constrange todos os movimentos. Claro que isto está ligado ao que vem antes, à necessidade sentida de seguir a agenda, de ‘alimentar a máquina’.

A realidade local, da esfera política à económica, é complexa, com muitas zonas negras. Importa e muito acompanhá-la, escrutiná-la, revelar problemas, conluios, injustiças, casos de corrupção. Há quem o faça muito e bem. Mas a realidade – aquilo que há lá fora e nos enche os dias, que aguça a curiosidade, que mata essa sede de conhecimento que vamos tendo – essa realidade não tem de acabar nas Portas do Cerco.

A imprensa local, numa cidade como Macau, não tem de ser uma imprensa fechada ao resto do mundo. Potencialmente, todas as pessoas estão à distância de um telefonema ou de um email, aqui ou na Estónia. O critério de proximidade deve valer, mas não pode ser o único. E mesmo essa ideia de proximidade pode incluir Hong Kong, Taiwan, o Sul da China, todo o Continente, o Sudeste Asiático, os países de expressão portuguesa. À distância de um telefonema ou de um email. Ou, quando possível, de uma viagem de avião.

Não faz sentido que nenhum dos jornalistas dos diários de Macau tenha estado no Japão depois de Fukushima. Não faz sentido que nenhum jornalista tenha estado nas Filipinas depois do tufão Haiyan. Não faz sentido que quase nenhum jornalista acompanhe os grande acontecimentos regionais in loco, dos momentos políticos como o que a Tailândia atravessa (e não apenas aqueles para os quais o Governo da RAEM convida), aos eventos culturais mais importantes do continente asiático, que marcam e de que maneira uma das cenas artísticas mais efervescentes do globo.

Os constrangimentos orçamentais e de falta de pessoal não podem justificar tudo. Há investimentos que podem não ter retorno palpável (o dinheiro, o dinheiro) mas que nem por isso deixam de compensar. Os jornais de Macau deveriam procurar fazê-lo.

Este é o derradeiro editorial que escrevo nestas páginas e por isso decidi alinhavar algumas ideais sobre a imprensa local. Valem o que valem e não seria justo fechar sem dizer que se fazem óptimos trabalhos jornalísticos em Macau, que os jornais estão melhores hoje do que em 2010, quando cheguei.

O período na direcção do PONTO FINAL, conforme já fora acordado de antemão, foi curto e de esforço para consolidar um projecto que necessita de estabilidade. Fez-se o melhor que se pôde.

O jornal continuará bem entregue à sua directora, Maria Caetano, e a uma equipa levemente redesenhada. Eu permanecerei por aqui, na mesma redacção, atrás do mesmo computador, eventualmente até a escrevinhar umas páginas de Cultura para este mesmo jornal, mas desta feita concentrado na revista Macau CLOSER, no Festival Literário de Macau e em outros bons projectos que esta empresa fará nascer.

Trabalhar com o Ricardo Pinto e com muitos daqueles que o rodeiam é, sei-o bem, um privilégio. A vida nem sempre é madrasta. Ainda sobram alguns sonhos.

Advertisements
Standard

As mãos das obras

Hélder Beja

Eu e o Néu fomos trolhas por alguns dias durante um verão. O Néu era o meu vizinho da frente e o meu amigo da frente. Centenas, milhares de vezes nos separámos naquele bocado de alcatrão da Vila da Marmeleira, para entrarmos em portas que nos conduziam a dois mundos em tudo diferentes.

Mas as obras. Pagaram-nos para destruir e construir em seguida. Ele tinha alguma experiência, eu não. Éramos cachopos da aldeia e a senhora da casa acabada de comprar era da cidade. Pagava mil escudos à hora e tudo aquilo nos pareceu esplêndido. Pedia-nos primeiro que destruíssemos – e destruir sempre foi mais fácil. Eu já era grande aos 15 ou 16 anos. Eu já tinha força. De marretas e picaretas nas mãos, eu e o Néu demos cabo das paredes velhas e do chão carcomido daquilo que teria em tempos sido arrecadação ou quarto de criadagem.

O Néu dizia-me que usasse luvas, que os dedos mimosos não iriam resistir. Eu não fazia caso. Ao terceiro dia tinha as mãos em sangue e estava tão bom para trabalhar de trolha como para gerir uma instituição financeira. A partir daí fiquei-me pela picareta. Levantava-a bem alto e deixava-a cair, partindo o que podia com o balanço. Fazer força era impossível, as feridas não deixavam.

Aquilo passou e chegou o momento de construir. Era preciso levantar uma parede e teríamos, disse a senhora da cidade, a ajuda de um pedreiro. Seríamos então serventes, que era o nosso lugar. A gente estava ali era para servir. Mas o pedreiro, o Vasco, que hoje está junto com a tia do Néu, a Luísa, embebedou-se ou lá o que foi, e a senhora perguntou-nos se conseguiríamos avançar sozinhos. Lembro-me que olhámos um para o outro – com aquela cara reguila de quem se está a divertir com as necessidades dos outros e o pequenino poder que tem sobre elas – e dissemos que sim, dona, a gente trata de amontoar o tijolo.

Muito verticais nas intenções (porque a parede tinha de crescer para cima), lá nos pusemos de joelhos para assentar a primeira fiada, quais mestres do cimento. O Néu era mais novo e mais habilidoso. Ele trabalhava com as mãos (ainda hoje), eu com as ideias (até agora). Por isso assumiu o ofício e eu fiz de servente de servente, sempre com brio.

Ao fim do dia tínhamos fechado a casa. Mal ou bem, com mais ou menos curvas, a parede ali estava. Feita por um pedreiro que podia fazer de servente. E por um servente que só podia fazer força e torcer, que neste caso eram coisas bem diferentes.

 

Lembrei-me deste episódio a propósito da manchete de ontem do PONTO FINAL, dando conta de que há cada vez mais trabalhadores não-residentes nos estaleiros desta cidade de hotéis principescos e casas em ruínas. Gente que vem à procura do pão que comer, para si e para a família que deixa na China Continental, porque é de lá que chega a maioria.

À hora de ponta, é vê-los, homens secos e empoeirados, a correrem para os autocarros que enchem em segundos nas paragens do Cotai e de Coloane, que são cada vez mais uma e a mesma coisa no que toca à proliferação de cimento armado.

Muitos deles dormirão em apartamentos partilhados na zona norte do território, descansarão os ossos para o dia seguinte de trabalho, provavelmente ligarão para casa para não dar conta de nada a não ser de que continuam vivos.

Estes números gordos de homens magros vindos do Continente não representam qualquer perigo para Macau. São aliás as suas mãos calejadas e mal pagas que em parte permitem a proliferação dos grandes empreendimentos – e dos casinos e do jogo e do dinheiro e do estilo de vida garboso de muitas das pessoas que habitam a cidade.

Se perigo há, esse está no avanço desgovernado da construção, cuja responsabilidade cabe ao Executivo, e não naqueles que, a contar patacas, tornam possível a execução de mais um projecto de milhões.

Que gente simples deixe a sua casa e venha legalmente ganhar a vida para outro lugar, trabalhar duro e fazer aquilo que por cá já poucos quererão fazer, é qualquer coisa que deve ser notada – porque espelha o crescimento acelerado de Macau, a alteração dos paradigmas laborais, o impacto que tudo isso pode ter no tecido social – mas que não deve preocupar quem cá vive.

Se o território mudará com a chegada de cada vez mais continentais? Provavelmente sim. A repetida frase de que Macau se está a tornar em mais uma qualquer cidade chinesa está muito relacionada com esta ideia. Importa não esquecer, no entanto, que tais mudanças são e serão sempre fruto de decisões que cabem aos poderes político e económico da RAEM. Decisões que definem um modelo de cidade (goste-se ou não dele) e que criam necessidades, muitas delas relacionadas com a importação de mão-de-obra.

Temer que mais gente chegue e ponha as mãos na massa é desejar contrariar o próprio caminho escolhido para o território. Neste caso, os desejos não se tornarão realidade.

Standard

As necessidades do ensino especial

Os alunos com necessidades educativas especiais são um pequeno grupo de estudantes normais que requerem uma forma de ensino especial. Sob o impulso especial do Governo nos últimos anos, a “Educação Inclusiva” tem crescido de forma vigorosa e recebeu o apoio dos professores nas escolas normais. O autor deste artigo visitou diversas escolas que aderiram ao projecto “Educação Inclusiva” para compreender o alcance do trabalho dos profissionais na linha da frente e trocar ideias com responsáveis de diferentes níveis, tais como directores de escolas. O autor gostaria de partilhar as suas impressões e sugestões sobre o trabalho realizado nestes poucos anos de “Educação Inclusiva”.

A Direcção dos Serviços de Educação e Juventude (DSEJ) tem feito todos os possíveis para promover a “Educação Inclusiva”. Além de elevar o subsídio para a educação todos os anos, a DSEJ também deu início à formação multiplex de ensino [diferentes unidades educativas dentro de uma mesma escola], para melhorar a implementação da educação inclusiva e aumentar o conhecimento profissional dos professores. No entanto, o autor entende que a “Educação Inclusiva” é contrariada por uma série de elementos. As dificuldades abrangem as vagas em número insuficiente para as necessidades especiais, o conhecimento superficial dos professores sobre “Educação Inclusiva”; e, mais importante, o grau de aceitação por parte dos responsáveis das escolas não é tão grande quanto o público esperaria.

Em primeiro lugar, há lugares insuficientes para os alunos com necessidades especiais. Esta falha surge porque nem todas as escolas em Macau participam neste projecto. O autor acredita que as próprias escolas devem assumir a total responsabilidade sobre esta questão.

Comparativamente, as escolas públicas devem ter mais responsabilidades sobre a admissão de alunos com necessidades especiais. No entanto, nem sempre é o caso: as escolas públicas não só rejeitam os alunos com necessidades especiais, como persuadem os pais das crianças com inteligência normal a inscreverem os seus filhos em turmas para aqueles que têm necessidades de ensino especial.

Os responsáveis das escolas defendem que os alunos com necessidades especiais devem ser deixados a defenderem-se sozinhos. Isso intensifica a segregação e provoca a animosidade, mas os pais mais desfavorecidos estão inabilitados para alterar a situação.

Em segundo lugar, os professores apenas têm um conhecimento limitado de “Educação Inclusiva”, o que depois prejudica as necessidades especiais dos alunos e das suas famílias. Apesar de haver grande quantidade e diversidade de cursos de formação organizados pela DSEJ, isso só muda o nível exterior de conhecimentos das pessoas, mas não muda a compreensão inerente.

Em terceiro lugar, os responsáveis das escolas são centrais para darem um impulso à “Educação Inclusiva”. Apesar da imensa quantidade de subsídios atribuídos pela DSEJ, eles não têm competência para regular as escolas subsidiadas. Os responsáveis não têm poder de requerer às escolas o número de matrículas para os alunos com necessidades especiais, apenas podem sugerir e encorajar as escolas a procederem à implementação. Este fenómeno lamentável está, talvez, relacionado, com o legado histórico.

Por último, o autor gostaria de agradecer a todos os dedicados profissionais na linha da frente a sua devoção altruísta que beneficia substancialmente os alunos. É um facto que, aceitemos ou não, as necessidades de ensino especial existem entre nós e nunca serão dissipadas pela atitude pessoal. O que os alunos de ensino especial precisam, realmente, é de um direito imparcial à educação, um ambiente de ensino inclusivo e professores atentos. Não podemos viver no passado e é provável que passem ainda muitos anos até Macau decidir resolver os problemas sobre a “Educação Inclusiva”.

Se existe alguma esperança em termos do que os alunos com necessidades especiais  podem esperar, é que todos os professores e responsáveis das escolas reavaliem o significado de educação, respondam com urgência ao apelo do público e ajudem a acelerar as coisas na direção certa. Vamos começar a reformular esta situação começando pelas etapas mais básicas!

*Docente de ensino especial

Standard

Telhados de vidro, mas vidro lusófono

Inês Santinhos Gonçalves, em Goa

Muito se tem dito da organização dos Jogos da Lusofonia em Goa. Serei a primeira a admitir problemas: não é aceitável que os próprios atletas só saibam quais vão ser as suas provas na noite anterior, e muitas vezes na própria manhã. Nem se justifica que muitas equipas tenham sido mudadas de hotel várias vezes. E nem volto a falar da mudança de datas, que levou a que a maioria das delegações não trouxesse os seus melhores atletas.

É tudo verdade. Como também é verdade que, mesmo sendo Goa o Estado mais rico da Índia, faz parte de um país com elevadíssimos níveis de pobreza, numa sociedade multilingue (com 23 línguas oficiais) e multiétnica. Sabemos que em Goa nunca nada remotamente semelhante em dimensão foi aqui organizado. E, perante isto, confesso algum pudor em erguer um dedo acusatório.

Faria sentido, em todas as edições dos Jogos da Lusofonia e ainda mais nesta, que fosse a Associação dos Comités Olímpicos de Língua Oficial Portuguesa (ACOLOP) a exportar a estrutura organizacional, para garantir coerência e funcionalidade. Como não é, cabe a cada país fazer o melhor que pode – e mais não é obrigado.

A ACOLOP poderia ter um papel essencial para ultrapassar as dificuldades da língua. Sim, é verdade que já ouvimos dizer “Senhoras e senhoros” e que equipa A ia “brincar” com equipa B. Em alguns momentos, até, fala-se apenas em inglês. Mas aqui os patrioteiros que me desculpem. É que eu venho de um território onde o português é atropelado diariamente, em contextos oficiais. Onde nas ruas ninguém domina o idioma, excepção feita a um punhado de privilegiados. Perdoem-me, mas sempre me ensinaram que quem tem telhados de vidro não atira pedras.

Para Portugal – e excelentíssimos senhores como Artur Lopes – é fácil. Nunca no país se falou outra língua, não foram invadidos, divididos, conquistados. Ninguém lhes veio dizer que língua deviam falar. Em Portugal, os filhos falam a mesma língua que os pais e que os avós. Na Índia, não.

Podemos discutir se Goa devia fazer parte dos Jogos da Lusofonia. Mas se a aceitamos – e sou da opinião que devemos aceitar – então urge compreendermos que, tanto em Goa como em Macau, a ausência de domínio da língua é uma responsabilidade portuguesa. O que acontecerá se o Sri Lanka acolher os Jogos? Ou esperamos que a ACOLOP aprenda e envie uma trupe de tradutores e outros profissionais, ou aceitamos as coisas como elas são e tentamos ver a ‘bigger picture’ (olhem para mim, herege, a utilizar uma expressão estrangeira): que é também assim, no encontro e na partilha, que nos aproximamos e reforçamos a identidade lusófona.

Estar aqui não é fácil. É preciso calma e paciência. É preciso entender que as coisas se movem a um ritmo diferente e que quando nos pedem para esperar 15 minutos, podemos estar realmente a falar de uma hora de espera. A Internet falha, e falha nos sítios mais essenciais. O mesmo se passa com a rede de telemóvel. Por outro lado, não houve até agora um único voluntário ou membro do ‘staff’ (lá estou eu outra vez) que não tenha feito todos os possíveis para nos ajudar. Toda gente se tem esforçado, não só para nos facilitar o trabalho, como para nos acolher.

Dou apenas um exemplo. Este fim-de-semana fui obrigada a regressar ao hotel mais cedo devido a uma ligeira indisposição. Como não consegui encontrar um táxi, pedi a um rapaz, com quem apenas tinha trocado duas ou três palavras, se não me poderia ajudar a arranjar transporte. Em 10 minutos estava tudo resolvido e ele fez questão de me acompanhar, não fosse eu não saber explicar bem onde o hotel fica (tinha razão). Pelo caminho, para me distrair dos solavancos da estrada, começou a listar-me as palavras em português que já tinha aprendido desde o início dos Jogos. Os números, para começar, já os sabia de cor. Vendo que eu me animava com a conversa, pediu-me que lhe ensinasse uma expressão idiomática. Como já andava a magicar esta crónica, optei por uma difícil. “Quem tem telhados de vidro, não atira pedras”. Pediu-me que a escrevesse num papel e soletrou cada palavra, satisfeito. E eu, ao sair do carro, ainda enjoada, nem tive a gentileza de lhe dirigir as únicas palavras que aprendi em concani: dev borem korum, obrigada.

Parece-me essencial que pensemos bem porque é que valorizamos a lusofonia. Para territórios que não a dominam, como Goa e Macau, o domínio da língua pode ser uma forma de os distinguir do resto do país, e será certamente uma competência útil e enriquecedora. Mas porque é que Portugal se interessa pela lusofonia de outros países? Afinal porque é que queremos tanto que se fale português? Serão certamente motivos estratégicos, políticos e económicos, mas para mim são motivos afectivos. Porque a língua nos aproxima e quem é próximo briga menos e aprende mais. Quando um velhote em Macau me dirige uma palavra inusitada em português, sorrio enternecida. Porque me comove que aquela pessoa, em tanta coisa distinta e distante de mim, partilhe comigo algo de tão essencial como é a linguagem.

No momento em que vos escrevo esta crónica, um jornalista goês acaba de me oferecer um íman da cidade, uma prenda para os amigos portugueses. E isto, para mim, vale bem mais que um português correcto.

 

DESTAQUE

 

No momento em que vos escrevo esta crónica, um jornalista goês acaba de me oferecer um íman da cidade, uma prenda para os amigos portugueses. E isto, para mim, vale bem mais que um português correcto.

Standard

Nem rústico nem ´à la carte´

Paulo Rego

O negócio em torno dos terrenos da Taipa, que envolve o enriquecimento dos suspeitos do costume – incluindo o irmão do Chefe do Executivo – reacende uma discussão que tarda fazer em Macau sobre os limites que não existem e os privilégios excessivos da oligarquia governante. É preciso contudo fazê-lo sem a demagogia e o preconceito das teses que acreditam que tudo é venal e ilícito sempre que mete a mão de quem tem dinheiro ou poder. Uma sociedade que se quer justa e desenvolvida tem de combater e travar a corrupção e a ilusão de impunidade, encontrando contudo o equilíbrio e a racionalidade do desenvolvimento e da gestão de oportunidades.

Ao contrário do que se passa com a construção desenfreada e sem sentido que ameaça o pulmão de Coloane – que deve ser liminarmente travada, doa a quem doer e indemnizando quem tenha eventualmente direitos de construção que lesam o ambiente – a ideia de reservar terrenos agrícolas em pleno coração da Taipa faz parte de um mundo que já não existe – se é que alguma fez sentido. Pelo que hoje se percebe terá também havido no tempo da velha senhora um problema de tradução, pois o termo rústico não quer propriamente dizer agrícola, que é o que se lê na versão chinesa. Mas essa é outra questão.

Quando um grupo de investidores compra por um preço decente – que é coisa que já não existe – um terreno onde não pode nessa altura construir fá-lo naturalmente com a perspetiva de que a dinâmica da modernidade e a pressão urbanística promoverá mais cedo ou mais tarde a alteração das circunstâncias e a oportunidade de valorizar o investimento. Não há nada de estranho nisso, nem aqui nem em Portugal ou no Brasil. Por outro lado, o fato de ser primo deste e ter o dinheiro daquele também não impede direitos comerciais nem diaboliza necessariamente uma operação em concreto. O problema é que os processos nunca são transparentes, o acesso às oportunidades é restrito e tribalizado e a multiplicação de grandes negócios feitos sempre pela mesma gente cria obviamente a sensação de injustiça e adensa todas as suspeitas. Só investe quem pode e ganha dinheiro quem sabe. Mas não é da ordem natural das coisas que o milagre da concentração seja eterno. A contestação é natural e tem razão de ser.

Concordo com José Rocha Dinis quando no seu comentário televisivo deixou no ar este aviso: nada será como antes e a população de Macau estará cada vez mais atenta a quem faz os negócios, com que critérios e em que condições. Porque agora é a população chinesa residente que está a vigiar os seus próprios governantes; já ninguém se pode escudar no colonialismo nem em putativos excessos do Continente. Macau governado pelas suas gentes exige uma cultura de transparência; por um lado, não impedindo a liberdade de fazer negócios – seja a quem for – nem a oportunidade do desenvolvimento; por outro, garantindo que uma e outra coisa seguem princípios de equilíbrio, legalidade, transparência e prossecução do bem comum.

O primeiro passo e o mais simples de todos é o de redefinir os planos urbanísticos com velocidade, argúcia, bom senso e perspetivas de médio e longo prazo, incluindo a redefinição dos critérios de adjucação direta, que só pode ser verdadeiramente excecional e, por maioria de razão, consensual. Esse é outro problema que urge resolver: o da velocidade das decisões e o da capacidade de projeção.

Todos se lembram da eterna discussão em torno dos critérios da globalização e da regulação de leis internacionais sobre a circulação de bens, serviços e pessoas. Décadas e décadas de discussões estéreis e argumentos vazios foram no fundo servindo interesses perversos escudados por teses mais ou menos bacocas em defesa do liberalismo e da autorregulação dos mercados. A questão essencial é a se perceber que a ausência de regulação e de critérios claros, nomeadamente nos sistemas financeiros, serviu sobretudo para permitir que a globalização fosse mais selvagem do que era necessário e mais desequilibrada do que seria desejável.

Assim enriqueceu quem pôde e soube aproveitar o vazio legislativo e a falta de consenso entre Estados. Na maior parte dos casos, até de forma legal, pois nem sequer legislação havia. Mas em muitos casos também de forma no mínimo imoral e em claro prejuízo de um modelo de sociedade justo e equilibrado. O liberalismo radical, a ausência de regulação e de controlo e o acesso privilegiado das oligarquias ao dinheiro e ao poder de decisão está muito longe de ser um problema exclusivo de Macau. A boa notícia é que o debate por cá é agora público e apontando o dedo a disfunções são tão evidentes geram enorme desconforto a todos quantos pretendiam que o silêncio fosse eterno em torno do que era tão óbvio. Mas não vai ser assim, o que é bom para Macau.

 

A arte de dar Cavaco 

Meu caro. Cavaco Silva afinal existe, como insistentemente o meu amigo tem tentado convencer-me, embora sem grande sucesso. A verdade é que o Presidente português tem pecado pela incapacidade de fazer a prova cabal da sua existência, antes resumindo-se a servir de câmara de eco de uma visão de sociedade corporativa e bem comportada, agenciando uma governação cinzenta e um futuro com a cor do passado. À velocidade a que o mundo hoje rola, consideram os investidores que represento que esses eram sinais de decadência e minavam a capacidade de exercer poder. Eis senão quando surge nos últimos dias a prova de que eu estava errado. Afinal, não é bem assim.

O homem apareceu corretamente comovido a liderar o séquito que chorou a morte de Eusébio, dando-se mesmo ao trabalho de publicar no facebook fotografias suas a abraçar a estrela benfiquista em ambiente de festa em família. E também não perdeu tempo em flashes e comendas agarrando a janela que se abriu com a Bola de Ouro ganha por Cristiano Ronaldo. Afinal, o homem está vivo e recomenda-se, fazendo parangonas na imprensa internacional e sorrindo nos ecrãs da CNN.

Há quem comente que o papel do Presidente seria antes o de se fazer sentir quando é preciso defender a Constituição, promovendo equilíbrios políticos ou modernizando o país. Mas essa é que é uma visão do passadista da arte de fazer política. Um líder que se preze tem de ser o mais famoso possível, demagógico quanto baste e mediático até à exaustão; seja numa festa seja num funeral.

Há muito que não via em Portugal uma consciência tão clara de como se mostra o poder que se tem. Afinal, dá comendas quem pode e toma conta do espaço mediático quem sabe. Peço por isso desculpas por me ter enganado nessa matéria. Não sei, nem quero saber, o que faz o Presidente quando não há circo nem funerais. Mas é bem claro nesta altura que sabe o que fazer quando eles lhe aparecem pela frente. Transmita por isso ao Sr. Presidente o meu apreço pela agilidade que demonstrou nestes dois casos, provando ao mundo que Portugal não é só futebol e também um Presidente que não fica a ver a bola passar. Pena é que não tenha aproveitado para aparecer com um boné daquela marca que bem sabe qual é que tanto jeito nos tinha dado aparecer no telejornal. Mas tenho a certeza de que outras oportunidades haverá. Mantenha-o assim disponível para se mostrar ao povo, que nós a partir daqui vos daremos o apoio que for necessário.

Envie ao Sr. Presidente o meu abraço

O amigo de Macau

Standard

Problema de expressão

Hélder Beja

O chefe de missão de Portugal nos Jogos da Lusofonia, Artur Lopes, recusa falar em inglês com os jornalistas indianos que tentam entrevistá-lo. A nova tornou-se pública ontem e foi confirmada pela jornalista do PONTO FINAL que anda por terras indianas a cobrir o evento.

“Como é que se chamam os Jogos? Pronto, tenho dito.” Foi assim, com elevados níveis de preparo e análise semiótica, que Lopes despachou o assunto quando confrontado com os relatos de repórteres do Indian Express e do The Goan, que contaram ter cometido a desfaçatez de tentar entrevistá-lo sem dominarem a língua de António de Oliveira Salazar e de outros ‘grandes portugueses’ que teriam porventura aplaudido o gesto do chefe de missão.

É difícil comentar com seriedade uma atitude deste género ou perceber que um representante de Portugal aja assim numa competição desportiva internacional. Seria bom poder acreditar que Artur Lopes, como uma qualquer personagem da série Lopes dos Gato Fedorento, é apenas um homem enrascado com estas modernices da língua inglesa, envergonhado por não saber conjugar o verbo to be (or not to be) e que disfarça, com uns quês de patrioteiro, a parte fraca a que às vezes se dá o nome de ignorância. Mas depois Lopes diz: “Não podemos estar nuns Jogos da Lusofonia como se estivéssemos nos Jogos da Commonwealth. Foi por isto que Portugal lutou pela lusofonia”.

A primeira parte da frase anterior compreende-se e faz sentido. A hegemonia da língua inglesa é tremenda por toda a parte – Macau que o diga. Em competições desta natureza (lusófona), é não só saudável como exigível que o idioma português exista e seja bem tratado. Já a segunda parte da frase – “foi por isto que Portugal lutou pela lusofonia” – anexada à atitude obtusa de exigir que repórteres de jornais indianos, onde o português não se fala, se expressem na língua de todos os Albuquerques, faz acreditar que Artur Lopes talvez desejasse viver noutras épocas.

Como se numa máquina do tempo, Lopes talvez gostasse de ter chegado a Goa e gozado da possibilidade de esbofetear um daqueles desgraçados militares portugueses que, em Dezembro de 1961, decidiram render-se para não serem exterminados pelas tropas indianas.

Entretanto, em Lisboa, “Salazar, fremindo de raiva, mandava constantes ordens pela rádio ao Governador Geral de Goa para resistir até ao último homem”. As palavras são de Telo de Mascaranhas, escritor e jornalista que lutou pela libertação de Goa, e foram escritas na prisão de Peniche, onde fora encarcerado pelo regime salazarista. “Mas o Governador-Geral e o Comandante Militar não obedeceram às ordens do seu patrão Salazar, e renderam-se ao Comandante das tropas indianas para evitar o holocausto de inocentes vidas humanas, tanto dos militares portugueses como dos civis goeses para poupar Goa de ser reduzida a destroços e a terra queimada como Salazar sempre ameaçara nos seus discursos, caso os portugueses tivessem de sair de Goa.”

Talvez que Artur Lopes, agora já não personagem humorística mas feroz guerreiro em desfavor da autodeterminação dos povos, tivesse gostado de chegar à Goa ainda parte integrante do Estado Português da Índia. Ou talvez todas estas assumpções sejam injustas – mas nunca mais injustas do que o modo como o chefe de missão de Portugal tratou jornalistas indianos que tentavam fazer o seu trabalho falando a língua que tinham de falar.

Que a missão de Portugal esteja irritada com uma organização que aparenta a todos os níveis uma grande falta de profissionalismo, é mais que entendível – mesmo em matéria linguística. Os erros devem ser expostos e as críticas devem fazer-se ouvir.

Primeiro os Jogos foram adiados. Depois, foram agendados para este mês, sem o aval de boa parte dos países e territórios participantes. O resultado são comitivas de qualidade menor, sem qualquer desprimor pelos atletas presentes mas, sejamos francos, com pouquíssimos nomes verdadeiramente excitantes no que toca a desporto de alta competição. Há ainda modalidades nas quais vários países nem sequer participam, outras que contam com meia dúzia de competidores. Tudo parece um pequeno disparate lusófono.

Acresce que, ao longo de todo o processo de preparação dos Jogos, vários governantes indianos se mostraram contra a realização do evento em Goa. Terá provavelmente sido uma má decisão fazê-lo ali. Mas é a própria viabilidade e o nexo de Jogos desta natureza no futuro que deve ser ponderada. A decisão tomada terá de partir das respostas encontradas para as muitas maleitas que parecem assolar esta edição da prova.

Sim, a imagem que chega da competição organizada em Goa é má. Mas nada justifica actos e palavras como as de Artur Lopes, o chefe de missão de um país que um dia colonizou Goa.

Standard

A simbologia do Cavalo na cultura chinesa


Geng-wu* foi um dia de sorte. Selecionamos os nossos cavalos

Dia Auspicioso, em Livro das Odes

 

Rui Rocha*

 

O Cavalo possui um relevante significado simbólico não apenas na cultura chinesa, mas também na história cultural da humanidade. Apenas o Cão poderá rivalizar nos tempos modernos com o Cavalo na sua íntima e preciosa relação com o ser humano.

Na verdade, o Cavalo foi sempre o fiel, diligente, corajoso, inteligente e leal companheiro do homem, tanto na paz, como na guerra. Na paz foi o animal de tração, por excelência, para transporte de pessoas e bens. Bastará recordar na história da China o papel central que teve o Cavalo na antiga Tea-Horse Road que ligava a província de Yunnan, a partir da antiga cidade de Dali, à India, à Birmânia (via Índia) ao Centro da China (via Sichuan) e ao Tibete. Esta rota de comércio teve o seu inicío no séc VI e foi primeiramente designada por Rota da Seda do Sul. O percurso era feito a cavalo, sendo transportados seda, jade, lã, peles, tabaco, sal, prata e chá. Posteriormente foi rebatizada como Tea Horse Road (chá mǎ gǔdào 马古) quando o chá, especialmente o chá Pǔ‘ěr (普洱茶,Po Lei, em cantonês) passou a ser a mercadoria mais procurada nos diferentes destinos de passagem e de chegada.

Segundo Sian Yan Yun, “(…) this road carried much more than tea; it was as much a cultural thoroughfare, blending ethnic groups, art, music, religion and folklore”.

Tratava-se de uma rota de comércio muito árdua, principalmente o percurso Yunnan-Sichuan-Tibete, que muitas vezes foi designado por “Rota do Céu”, pois de acordo com uma lenda Kham (da região do Tibete), a rota do céu é a passagem por onde as divindades tibetanas e Tsempo, o líder religioso mais elevado do reino de Tubo (séc. II a.C.), descem à terra e sobem ao céu. O Cavalo teve neste cenário um papel decisivo de ligação e de transporte de mercadorias, através de troços perigosos, acidentados e a elevadas altitudes, e sem ele não teria sido possível o comércio.

Na paz o Cavalo foi também o veículo de mensageiros e de mensagens. Ele é, para a cultura da China, o animal que contribuiu para a introdução do Budismo na China. Ling, e também Cochini, referem a este propósito que o Imperador Hàn Míngdì (汉明帝, 57-75) da dinastia Han do Leste enviou uma delegação de 18 pessoas à Índia com o objetivo de recolher informação sobre o pensamento budista.

No regresso, acompanharam-na dois eminentes monges budistas, Dharmaraka e Kaśyapa Mātaga, trazendo algumas imagens de Budas e sutras budistas transportados em cavalos brancos. No ano de 68, o imperador mandou edificar na capital do império, Luoyang (província de Henan), o primeiro templo budista que designou por Templo do Cavalo Branco (马寺: Báimǎ), em reconhecimento daqueles cavalos que transportaram as imagens e os sutras budistas.

Na guerra, e ao longo da história militar da China, os cavalos são, como disse Ma Yuan (14 a.C- 49), um general Han, “as fundações do poder militar, um grande recurso do Estado que, se faltarem, o Estado cairá”. De facto, sem cavalos adequados para incursões militares nas estepes ocidentais e orientais e na Ásia Central, teria sido impossível à China construir o seu grande império e manter o poderio militar para combater os inimigos externos. Os cavalos foram, inclusivamente, símbolos políticos sob a forma de homenagens e de oferendas do império chinês, designadamente no período da dinastia Tang, quando o imperador chinês ofereceu vários cavalos a Bayanchur Khan (747-759), imperador do império Uighur, por ter ajudado a China a derrotar a Rebelião de An Lushan (em 763), dos Tibetanos (em 794) e outras.

Para a cultura chinesa o Cavalo simboliza a competência/talento/energia realizadora e também a santidade. A expressão chinesa diānlǐmǎ (千里馬), literalmente um cavalo capaz de galopar mil li (500 km), é metaforicamente utilizada designar uma pessoa extraordinariamente talentosa e tal imagem foi extraída do livro Estratégias dos Reinos Combatentes (Zhàn Guó Cè, : 3º – 1º séc. A.C.).

O Cavalo, a par do Dragão, simboliza igualmente a espiritualidade. Na tradição Indiana é dito que Buda deixou o mundo físico num cavalo branco, da mesma forma que na tradição budista é muitas vezes representado um cavalo alado branco carregando os discursos e sermões de Buda – a Tripitaka (Sūtra Piaka; a Vinaya Piaka, Abhidharma Piaka), simbolizando a pureza e a lealdade.

Também na pintura clássica chinesa o Cavalo é um tema recorrente. Han Gan (韩干 706-783), um famoso pintor da dinastia Tang, Zhao Mengfu (赵孟頫, 1254-1322), Xu Beihong (徐悲鸿, 1895-1953) e tantos outros pintores tiveram como tema favorito o Cavalo. Na dinastia Tang o polo equestre foi o desporto favorito, tanto de altos dignatários imperiais como de plebeus.

Como curiosidade, acrescente-se que a Agência Nacional de Turismo da China é simbolizada no seu logotipo pelo Cavalo.

Seguindo a tradição chinesa, e utilizando uma expressão auspiciosa de melhores votos para o ano novo chinês, desejo um Ano Novo do Cavalo com um espírito enérgico zhù nǐ zài xīn de yī nián lǐ lóngmǎ jīngshén (祝你在新的一年里龙马精神), em que lóngmǎ jīngshén (龙马精神) significa literalmente “espírito vigoroso do dragão e do cavalo”.

 

(*) A hora wu, na mitologia chinesa, é o período de troca yang-yin em que os cavalos então no auge do seu vigor.

 

*Director do Departamento de Língua Portuguesa e Cultura dos Países de Língua Portuguesa da Universidade Cidade de Macau

Standard