Coisas que ninguém lê: Um elogio à comida

[Dinâmicas e contextos da pós-transição]

 

Carlos Piteira

Investigador do Instituto do Oriente

Docente do Instituto Superior de Ciências Socias e Politicas / Universidade de Lisboa

 

A avidez pelo imediato é de tal forma contagiante nos dias que correm que aprendemos a dar importância apenas ao que está na moda ou então que é veiculado pelos media dominantes, assim sendo, tenho por vezes a impressão que escrevo coisas que ninguém lê, talvez por não estar na moda ou por não estar alinhado com o discurso dominante.

Porém, o estar fora de moda ou não replicar apenas o que é consensual, também pode ser agradável, até porque nos deixa um espaço de tranquilidade para escrevermos apenas aquilo que nos apetece ou que faz sentido para nós, na esperança que também o faça para mais alguém.

As pequenas coisas do quotidiano são por vezes aquelas que mais importância tem e que, por alguma razão, não damos tanta importância, até porque elas acontecem sem quase darmos por isso, são espontâneas e envolvem o sentido no nosso dia-a-dia.

Por isso, hoje apetece-me falar (escrever) sobre comida, coisa mais banal não poderia ser, comemos porque faz parte do nosso dia-a-dia e porque sem tal ação não sobreviveríamos.

Este simples ato de comer, aparentemente inócuo e banal, carrega simultaneamente consigo um simbolismo atroz, em boa parte é instintivo, no entanto, quase todos nós comemos aquilo que aprendemos a comer, ou seja, a nossa comida é a nossa cultura.

Em prol de um trabalho que sei que está em curso sobre a gastronomia macaense de uma conterrânea que me alheio de citar, trago este tema para esta crónica no sentido de marcar precisamente essa singularidade e essa particularidade, a comida mais do que um ato de sobrevivência ou necessidade, é uma forma de cultura.

A composição gastronómica de um povo ou de um grupo, integra-se no seu património cultural, seja ela de suporte material ou imaterial, representa em boa parte os testemunhos etnográficos ou antropológicos, com valor de civilização ou de cultura e amplia o significado das suas identidades e memórias coletivas.

A alimentação transforma-se assim em padrão cultural, que todos nós reconhecemos, (o nosso e o dos outros), faz parte de processo de aprendizagem e de enculturação que uniformizamos primeiro pelos sabores, depois pela prática e por fim pelo prazer que nos proporciona, tornando-a vulgar e habitual no nosso dia-a-dia como se de uma linguagem se tratasse.

Na valorização e divulgação patrimonial, os conceitos servem de sustentação e a linguagem de entendimento que, não sendo universal, determina a diferença dos povos e dos grupos culturais, assim como do relacionamentos entre as Nações, os Estados ou as Comunidades, basta verificar as etiquetas sociais que cada forma de refeição vai ganhando em cada contexto em que se celebra, desde o informal ou formal, isto para não falar dos ingredientes e da confeção.

Serve assim, esta pequena nota, para estimular a reflexão sobre o que nos rodeia e o que queremos preservar no nosso quotidiano de Macau. O legado gastronómico, vivo e dinâmico, é um direito coletivo, que confere aos seus detentores uma identidade própria, responsabilizando-os, ao mesmo tempo, pela sua partilha como património da humanidade. Trata-se de garantir a vivência das sociedades em função das suas especificidades, dando-lhes a oportunidade de influenciar e deixar a sua marca.

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Hukous e Bluecards

[Editorial]

 

Maria Caetano

 

Os delegados de Macau à Assembleia Popular Nacional partem na próxima segunda-feira para Pequim, onde durante as próximas duas semanas se discutem as reformas nacionais a levar a cabo durante 2015. O céu sobre a capital deverá voltar a estar azul nesta ocasião, e talvez corra uma aragem que permita trazer algumas ideias para usar também em casa – não todas, esperamos. Basta uma.

Neste ano, os representantes na reunião magna vão ouvir dos líderes centrais os detalhes da reforma do sistema de registo de residência da população, o chamado sistema de hukou, que tem até aqui funcionado, entre outras valências, como meio de controlo da mobilidade nacional. Facto é que, independentemente dele, a migração para as grandes cidades tem sido uma torrente imparável e, segundo muitos, insustentável, ao impor um sistema discriminatório que aprofunda as desigualdades no país.

A ideia passa agora por mudar as regras do registo de residência, para que as famílias deslocadas possam aceder, em pé de igualdade com as famílias urbanas, à escolaridade, aos cuidados de saúde, à propriedade imóvel, às oportunidades de emprego. Pequim e Xangai têm liderado experiências nas quais o tempo de permanência em migração permite aceder a um estatuto próximo do residente efectivo – aparentemente, à semelhança do que sucede na atribuição de BIR temporário em Macau.

No entanto, os críticos apontam os baixos números de atribuição deste tipo de estatuto a quem está deslocado no país e fazem notar que também há muitas cidades que vêem com maus olhos a possibilidade de terem de fazer maior despesa na garantia de serviços sociais a uma população mais alargada.

Transpondo as ideias que se avizinham na reforma nacional, podemos com alguma razoabilidade compará-las ao que acontece em Macau. Extrapolando para uma aplicação prática, seria como garantir aos trabalhadores não-residentes locais igualdade no acesso à escolaridade, aos cuidados de saúde, à propriedade imóvel, às oportunidades de emprego, terminando a prática discriminatória que trata uns por população ao abrigo das leis e outros por blue cards sujeitos à lei de contratação de não-residentes e a muita arbitrariedade.

A arbitrariedade está, por exemplo, na concepção mesquinha de que os cuidados de saúde gratuitos previstos por lei se aplicam à “população”, como um equivalente de residente validado administrativamente. E, pela mesma lógica, podemos olhar a ementa de direitos e liberdades fundamentais da Lei Básica e, um a um, negá-los todos a quem não tem o precioso BIR – incluindo, por exemplo, um turista que nos visita.

Imagine-se, no absurdo, um turista detido pelas autoridades, sem qualquer motivo, levado para uma cela, sujeito a tortura, e encarcerado sem acesso à justiça. Porquê, caros leitores? Porque, “a liberdade pessoal dos residentes de Macau é inviolável”, segundo a lei, e a dos outros não. Pelo menos, à luz da aplicação da lei que está a ser feita em muitos domínios da vida quando estão em causa os trabalhadores não-residentes.

Argumente-se que não é esse o espírito da lei, a básica e as outras, e que a extrapolação é de má-fé. Então, por coerência, igualdade e boa-fé, assumamos de uma vez que há práticas administrativas discricionárias e premeditadas contra os trabalhadores que não têm BIR e que não, não, a lei não é nada igual para todos na próxima reunião com organizações internacionais. Ou, ainda, reforme-se o sistema, dando mais garantias a 172 mil pessoas que cá vivem e trabalham.

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Olá, o meu nome é TNR

O que há em comum entre os partidos políticos, a Região Administrativa Especial de Macau e as grandes instituições internacionais? Se disse “partilham os processos democráticos” podia ter acertado (apesar de Macau não ter partidos políticos e a existência destes num país não ser sinónimo de democracia – basta olhar para o outro lado da fronteira), mas a resposta certa seria: todas as entidades têm direito a ser nomeadas como uma sigla. A sigla parece ser portanto sinónimo de algo importante – todos sabemos o que é a OCDE ou a RAEM – por isso os trabalhadores não residentes, que também são nomeados com uma sigla, deviam estar felizes. Afinal de contas, quantas pessoas podem invocar para si ser conhecidas com uma sigla? Dois ilustres exemplos que encheriam de orgulho todos os TNR: os cronistas RAP (Ricardo Araújo Pereira) e MEC (Miguel Esteves Cardoso).

Ora, apesar de tantos companheiros cheios de prestígio, não concordo que os trabalhadores não residentes tenham direito a uma sigla. Pronto, já disse. Será inveja, admito. O meu nome não é citado vezes suficientes para ser encurtado pelos jornalistas, nós, que somos mestres no primado da eficácia comunicativa.

Aliás, o que eu gostaria mesmo é que a sigla TNR fosse substituída por

“estrangeiro”. Acho que soaria muito melhor em todos os discursos em que não falamos da sua condição específica de imigrante. Acho que, no fundo, “estrangeiro” seria mais correcto (e menos simpático). A inveja tem destas coisas – só se está bem com a desgraça alheia.

Ora façamos o teste de substituir as expressões: “Estrangeiro perde residência por conduzir embriagado”; “Estrangeiro morre em acidente de trabalho no porto de Ká Hó”; “Vítimas de loja da Rua do Tarrafeiro morreram devido a inalação de fumo. Estrangeiros pagavam renda”. Não soa melhor?

Um sítio como Macau, que nos últimos anos é uma torneira aberta de dinheiro, atrai muita gente que quer enfiar uns trocos no bolso (de forma lícita e não tanto). Também é normal que o número de estrangeiros, sobretudo de países ou locais em dificuldades financeiras, acabem por vir parar a locais de abundância. Macau, com a sua tradição de receber estrangeiros, também conhece o sabor agridoce da diáspora, portanto deveria estar ciente disso.

Surpreende-me por isso que a sigla TNR surja em Macau com tanta facilidade. Em termos gerais não gosto de siglas para nomear pessoas. Siglas são para entidades e as pessoas, como sabemos, são muito mais do que isso. Ao mesmo tempo, ao atirarmos expressões como “os TNR”, “os chineses”, “os portugueses” ou “os americanos”, quando não está em causa a sua condição de estrangeiro, isso é perpetuar uma diferença baseada no local de nascimento das pessoas. Se um operário morreu numa obra tanto faz se é estrangeiro. Se uma empregada foi maltratada, a nacionalidade é um detalhe na sua apresentação. São pessoas. Uma sigla só é humana em casos de excepção. Quando se fala em TNR, isso não diz nada das pessoas a não ser uma coisa: são estrangeiras. E usar essa expressão com ânimo leve só perpetua algo que todos condenamos quando se refere a nós mesmos: xenofobia. Uma pessoa é uma pessoa. Não é a sua nacionalidade.

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A propósito do declínio do falante nativo

Ana Paula Dias

Doutoranda na Universidade Aberta

A autora escreve ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa

David Graddol é um linguista britânico das áreas da linguística aplicada, análise do discurso e sociolinguística. Já em 1997, no livro “O futuro do Inglês”?, publicado pelo British Council, o autor antecipou como se processaria a evolução do inglês como língua mundial, sugerindo que os falantes nativos de inglês estavam ou estariam brevemente em desvantagem relativamente aos falantes de inglês como segunda língua e língua estrangeira. Posteriormente, num artigo intitulado “The decline of the native speaker”, de 2003, o autor afirmou que esse declínio, então verificado em termos numéricos, poderia também vir a associar-se a uma mudança de perspetiva sobre a centralidade das normas de uso do falante nativo. Efetivamente, um número cada vez maior de pessoas aprende inglês como língua estrangeira no século XXI e para isso são precisos professores, dicionários e gramáticas. Mas será que essas pessoas continuam a olhar para o falante nativo em termos de modelo normativo?

As atuais tendências demográficas e económicas decorrentes da globalização ameaçam a hegemonia das normas britânica e americana, pelo que Graddol afirma que deve ser reavaliada a maneira como o inglês é ensinado. As conclusões de dois estudos recentes encomendados pelo British Council a este investigador referem que, ao invés do que o senso comum sugere, o melhor professor de língua estrangeira não é o nativo, mas sim aquele que fala também a mesma língua do aluno; a vantagem de um profissional com tais caraterísticas está, entre outras, na sua capacidade de interpretar significados no idioma daqueles que ensina.

Historicamente, falar uma língua estrangeira era um sinal de estatuto, mas é hoje incontornável que o inglês passou a ser encarado como uma necessidade e que muitos países estabelecem relações e fazem negócios entre si através desta língua, sem que nenhum deles a tenha como língua materna; por isso, deixou de ser ensinado como língua estrangeira na Malásia e na Índia, por exemplo, e passou a ser considerado uma competência básica. Nesses países, os alunos começam a aprender o idioma nos primeiros anos de escolaridade, este faz parte da sua alfabetização primária. A ideia é que mais tarde, quando chegarem ao ensino secundário, passem a ter aulas de outras disciplinas em inglês. Os alunos que presentemente frequentam o ensino básico e aprendem o idioma vão chegar ao ensino secundário ou superior já proficientes em inglês e em alguns países da Europa, quando atingem esse nível, passam a ter aulas de diferentes disciplinas em língua inglesa – ou seja, deixam de ser alunos de inglês e passam a utilizadores da língua. Já não têm um professor de inglês, mas sim um professor de geografia, por exemplo, que dá aulas em inglês. Por outro lado, a universalização do inglês não advém apenas do ensino de e em língua inglesa na educação primária e secundária, mas também dos estudantes internacionais que se matriculam em universidades inglesas, americanas ou ainda naquelas que disponibilizam cursos em inglês. Em suma, o inglês está a deixar de ser uma língua estrangeira para ser uma língua global.

Os cenários delineados por Graddol no caso do inglês são paradigmáticos e podem servir de referência para o português, em relação ao qual, aliás, não se tem verificado grande investimento na investigação sistemática sobre este tipo de assuntos por parte das instituições portuguesas ligadas ao seu ensino e promoção no estrangeiro. As perceções sobre as formas como o ensino da língua deve ser levado a cabo e as políticas linguísticas (ou a sua ausência) em relação a esse ensino estão a anos-luz do panorama descrito em relação à língua inglesa.

Na verdade, quando se fala em internacionalização de uma língua, o discurso não se pode limitar a uma questão de aumento ou diminuição do número de aprendentes ou de retórica estafada sobre a sua presença geográfica disseminada por cinco continentes, sob pena de não se chegar a lado nenhum. Questões como o quem, o como e o para quê – quem são os falantes nativos, qual o estatuto da língua, qual(ais) a(s) normas(s), que professores e que formação inicial e contínua para estes, qual o papel da língua e da cultura portuguesas na vida dos aprendentes, quais os efeitos da globalização na procura do português e quais as suas vantagens económicas competitivas ou que impacto as línguas francas, a Internet e a televisão por satélite podem ter na sua real difusão são apenas alguns dos factores a ter em conta no planeamento das abordagens ao seu ensino pois, como refere Graddol, “those who wish to influence the future must prepare for it”.

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Até que enfim!

Sandra Lobo Pimentel

Mais um Ano Novo Lunar passou e, mais uma vez, a cidade rebentou pelas costuras. Sejamos francos, não é só por esta altura que tal acontece, e para quem trabalha ou vive perto do centro, há algumas semanas que já se sentia o aproximar do caos.

Mas falarmos apenas nesta semana, sempre mais concorrida, é esconder um problema que existe durante quase todo o ano. Desde logo, no que aos transportes diz respeito.

Começa a ser repetitivo, é verdade. Inúmeras vezes se repete nos jornais, em artigos de opinião ou mesmo de informação, o eterno problema da sobrelotação dos transportes, a falta de planeamento das rotas de autocarros, os abusos dos taxistas, mas… pelos vistos têm sido poucas as alusões ao problema.

Pelo menos (e até que enfim!) neste novo Ano Lunar, ouviu-se um discurso político pelo qual muitos (todos?) ansiávamos: serão propostos ao Governo Central limites à entrada de visitantes. Sim! Aleluia! Parece que finalmente se percebeu o óbvio mas, já dizia o outro, “o óbvio é a verdade mais difícil de enxergar”…

E, mais uma vez, o inevitável Alexis Tam, que já começa a ser uma espécie de “super secretário”, quando os restantes, e permitam-me a gíria futebolística, continuam a chutar para canto. O pior desta actuação dos governantes, até agora, tem sido, em minha opinião, a inércia no que à incompetência de algumas direcções de serviços diz respeito. Até parece que alguns directores vão passar a ser expeditos de um dia para o outro.

Voltando ao exercício do excesso de pessoas em circulação, com mais três por cento ou menos três por cento de visitantes, o que é facto é que os problemas existem ao longo dos 365 dias do calendário. Onde está um plano para os transportes? E não incluam na equação projectos futuros, como o metro ligeiro, já que nos interessa resolver um problema no imediato, aliás, que já podia e devia ter sido resolvido. Ontem.

Perdoem-me que aqui não apresente um plano científico com a solução para tudo, mas, ainda que não possa dispor do tempo e da informação que os senhores da Direcção para os Assuntos de Tráfego têm, desde logo, parece líquido que acabar com o serviço de táxis amarelos e, espante-se, até agora, nada se saber sobre como suprimir essa falta quando, mesmo existindo, já havia carência de serviço, não foi boa ideia…

Ou para quem circula nos autocarros, perceber a carência de veículos ou as rotas pouco simplificadas para servir os principais pontos, com paragens apinhadas de gente a ver passar autocarros também eles cheios sem conseguir deslocar-se para lado algum. Sim, porque táxis, até os vemos, mas tornou-se um serviço de luxo, pelo desfasamento entre a oferta e a procura, só ao alcance de alguns.

Com isto, dizer, em jeito de “dedo no ar” para relembrar, que estão à porta as Linhas de Acção Governativa e mais do que saber como vai ser o plano de comparticipação pecuniária para 2015, queremos saber como se resolvem os problemas de uma cidade que se dá ao luxo de andar aos encontrões todo o santo dia.

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O tempo das tangerinas

Inês Santinhos Gonçalves

Naquela manhã chuvosa, parei junto ao cemitério para deixar passar os carros. Seguem por ali dezenas, centenas, milhares de veículos, sendo, por isso, vulgar suster a respiração. Naquele dia, porém, talvez devido à humidade, não havia fumo e o que senti foi um intenso aroma a tangerina.

Com o fim das festividades de Ano Novo, as lojas desfazem-se das frutas auspiciosas. Algumas escapam aos contentores e rolam pelo chão, são esmagadas pelos passos apressados, pelos carros, por nós.

O fim da festa cheira a tangerinas, nunca pensei. Uma aqui, outra ali, pequenas esferas douradas da prosperidade, molhadas da chuva, a cheirar a doce.

As tangerinas naquela manhã fizeram-me sorrir porque me lembraram da relação amor-ódio que tenho com esta cidade.

Durante metade dos dias do ano odeio visceralmente Macau. Odeio a poluição, os engarrafamentos pedonais, a maledicência, a invejinha, a pequenez (geográfica e humana), o compadrio, a cobardia. Odeio que a cidade se deixe apodrecer assim.

Mas as tangerinas lembraram-me como adoro Macau nos restantes 182 dias, quando sei que nunca me vou cansar dos mistérios eternos, dos símbolos, das palavras que não percebo. Macau será sempre um lugar estranho, onde espreito para dentro das casas, onde fotografo os mercados, onde decoro carateres que não sei o que significam.

Macau será sempre a Rua Camilo Pessanha com a Carvoaria e a Rua das Estalagens que vende tecidos brilhantes. A Rua dos Mercadores com as loiças poeirentas e os Três Candeeiros com comidas irreconhecíveis. O Lou Lim Ieoc dos namorados e o Camões dos desportistas. Macau será sempre templos mágicos, com adivinhos e incenso, será sempre ‘chau min’ de lamber os dedos e crianças rosadinhas de uniforme escolar. Macau são velhinhas de camisas floridas, apressadas no autocarro e com pulmões aguçados. São homens em horas a fio de ‘mahjong’, que vendem tralhas indizíveis e levam os pássaros a passear nas gaiolas. São cemitérios azuis, com imagens de outros tempos e outras paragens.

Macau é das tangerinas e eu sou de Macau. Pelo menos naquela metade do ano em que o fumo não me impede de respirar a cidade.

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A Ovelha Choné

Água mole em pedra dura

Catarina Mesquita

Na primeira viragem do calendário gregoriano que passei em Macau estranhei a ausência de pessoas na rua para ver o fogo-de-artifício já que o “countdown” tinha vindo a ser fortemente anunciado.

Sabia que aquela passagem de ano pouco dizia aos locais que, cerca de um mês e meio depois, estariam a celebrar em grande a entrada no “seu” novo ano. No entanto, a ingenuidade levou-me a pensar que a curiosidade pudesse vir a encher a Avenida dos Jogos da Ásia Oriental, junto à linha de água, de máquinas fotográficas, copinhos e petiscos.

A poucos minutos da meia-noite a estrada continuava vazia como nos outros dias “normais” e, apenas no alto da montanha da Taipa Pequena, encontrei um grupo de jovens, silenciosos e concentrados, que fotografavam os foguetes lançados junto à Torre de Macau.

Embebida pelo espírito da entrada num novo ano em que tudo era realmente novo para mim, estendi um copo para brindar com o grupo que timidamente aceitou a minha oferta e que, com algum receio, deu um trago na bebida.

Em Portugal, estender um copo ao vizinho do lado era motivo para ficar horas em amena cavaqueira. Já se sabe como é: palavra puxa palavra, palavra puxa copo, copo puxa copo e lá arranjamos ainda mais motivos para festejar como se a entrada num novo ano não chegasse.

Porém, aqui não foi o que aconteceu. Não pela barreira linguística mas porque o grupo simplesmente não viu motivo para tanta algazarra. Por momentos pensei que, tendo em conta que estávamos na noite de maior celebração do ano, aquele grupo estava descontextualizado: boa disposição contida, ausência de brindes e silêncio não casavam com uma noite de festa.

Um mês depois o Ano Novo Chinês chegou em força e percebi quem é que estava realmente fora de contexto. Numa das noites de celebração comprei um foguete para, segundo os supersticiosos, espantar os espíritos. No entanto, foi ao ver algumas pessoas a carregarem paus de incenso com o dobro da sua altura ou a comprarem caixas com 188 mil panchões – número auspicioso – que percebi que eu comprar o foguete mais pequeno que havia à venda tinha a mesma proporção que aceitar a medo o copo de um desconhecido na noite do “countdown”. Era ridículo.

O ano da cabra chegou e com ele os sorrisos, o barulho dos panchões a estalar, a dança do dragão e a algazarra toda… E porque não estava eu embebida agora por esse espírito de festa? Percebi que injustamente julguei a cultura oriental pouco “festeira”. Mas Macau surpreendeu-me mais uma vez com as celebrações de vários dias e noites.

Ainda assisto a discussões se este é o ano da cabra ou da ovelha. Seja como for, a verdade é que inspirada ou não pelo novo animal que agora sobe ao trono eu me sinto uma ovelha negra ou melhor uma ovelha choné (como a personagem de ficção da moda) quando percebo que ainda tenho tanto para aprender numa lista infindável de rituais de ano novo. Choné, o mais possível, quando vejo que a celebração do Ano Novo Lunar dá dez a zero à simplicidade de apenas ver fogo-de-artifício à meia-noite e brindar com os amigos de sempre e com os novos que se fazem talvez nessa noite.

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