A casa de Rex Shelley

[O Ouvidor Ocidental]

 

O padre António Vieira tinha o dom de saber ler o futuro no horizonte. E de perceber o presente quando olhava à sua volta. Percebeu, talvez antes do tempo, que os portugueses eram uma nau que viajava pelo mundo, deixando para trás uma faixa de terra pequenina e com poucos recursos. Não era uma maldição: era o destino de quem tem de se adaptar para sobreviver. Em Roma, no século XVII, disse: “Para nascer, Portugal; para morrer, o mundo”. Talvez o destino dos portugueses seja sempre este: navegar à boleia do vento, das marés e da sorte. Encontrar um porto franco onde cruzam a língua, o passado e o sangue. E sobreviver. Ao longo de séculos os portugueses deixaram pegadas nas areias de todo o mundo. Algumas foram apagadas pelo tempo e pela memória. Outras, contudo, ficaram a pairar, guardadas com uma fé quase religiosa. Descobrimo-las aqui e ali: em Goa ou Macau, em Trinidad e Tobago ou no Japão. Ou, por vezes, na escrita. Basta recuperar os livros de Alfred Mendes ou de Rex Shelley. Este descobri-o, há poucos anos, quando por um acaso qualquer do destino, me caiu nas mãos “The Shrimp People”. Li-o como se tivesse defronte um mapa do tesouro. Shelley, cruzamento de ADN português, inglês e malaio, era um profundo conhecedor da cultura japonesa. Mas quis, aos 61 anos, quando escreveu aquele livro deixar uma impressão digital para a posteridade: a da comunidade euroasiática de Singapura de que fazia parte com orgulho.

Os nomes de origem portuguesa navegam pelas páginas. No prólogo de “The Shrimp People”, Shelley evoca o nascimento do primeiro euroasiático, fruto da relação de um marinheiro português com uma mulher malaia nas praias de Malaca. Dali deslocamo-nos para mais perto de presente, cercados por um grupo de euroasiáticos que emigraram de Singapura para Perth, na Austrália. Falam do futuro, mas sentem que numa Austrália onde buscam uma vida melhor se dissolverão sem nada que os distinga. Algo que os leva a recordar quando eram uma comunidade forte em Singapura e na Malásia britânica. Os nomes que respiram o ar do passado sucedem-se: Pinto, Perera, Machado ou Kraal, Cornelius ou Consigliere. Um caldeirão de culturas que sobrevivem a uma série de eventos fulcrais que se iniciam com a ocupação japonesa durante a II Guerra Mundial.

É a família Rodrigues e o carácter forte e rebelde da filha Bertha que guiam a narrativa. Este mundo de “melting pot”, que sustenta e distingue a comunidade euroasiática, acaba por estar depois presente nos seguintes livros da saga, que depois fui descobrindo: “People of the Pear Tree”, onde o padre católico Furtado, diz a Augustine Perera que podem chamar, quer à Malásia ou a Portugal, a sua “casa”. E onde Joe Perera se defronta com o dilema dos desenraizados como eles: “We have no country. We are only a few and we have no place to call our own”. Ou “Island in the Centre” e “River of Roses”, onde a grandeza épica do passado se cruza com a ambiguidade étnica e um sentimento de contribuição para o país onde estão, no caso Singapura. Em “Island in the Centre”, deparamo-nos com este povo flutuante: “But although I was told when I enquired that it was a Portuguese church, all the prayers were in Latin. At first I tried hard to catch a familiar Portuguese phrase but I couldn’t recognize any sound. They do not say their prayers in Portuguese. Only the padre has a Portuguese accent. After church I met a strange man. He is neither Asian nor European, but has a Portuguese name. He gave me a light and spoke to me”. Lendo Rex Shelley fico defronte de um mundo que não conheço e que, um dia, gostaria de ver com os meus próprios olhos. Antes de desaparecer como uma memória a que não demos atenção enquanto era tempo.

 

Fernando Sobral é jornalista e escritor. É autor de “O Segredo do Hidroavião” e lançou em 2015 “As jóias de Goa”.

 

 

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O espírito do senhor está sobre mim…

[Olhar ao redor]

«O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres. Ele me enviou a proclamar a liberdade aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos e a proclamar o ano da graça do Senhor.»

Eis a mensagem central do Evangelho deste Domingo, o terceiro do Ano Litúrgico que, surpreendentemente, aparece quando a Diocese de Macau recebe o seu novo Bispo, D. Estevão Lei. Porque não olhar, então para o nosso novo bispo à luz do texto e tendo em consideração a realidade da Diocese tal como a percebemos neste momento ?

Primeiro de tudo, há que compreender que esta ‘missão’ de servir a Comunidade ou a Igreja pelo exercício da autoridade como bispo vem de Deus. Todo o bispo é ‘escolhido’, ‘ungido’ e ‘enviado´ a ‘anunciar a boa nova aos pobres.’ Por isso, todo o processo de discernimento e de escolha deve ser realizado com um grande sentido da presença de Deus e de busca da Sua vontade. Porém, não podemos esquecer que, ao mesmo tempo, esse mesmo processo é realizado por pessoas concretas. Está, portanto, repleto de elementos muito humanos. Entram em jogo personalidades muito variadas, com histórias pessoais muito diferentes e com formações também distintas. São preferências, inclinações ou gostos. Portanto, a escolha de um bispo tem muito de humano e tem muito de divino e todos desejamos que, acima de tudo, seja segundo a vontade de Deus. A propósito deste ponto, Santo Inácio de Loiola recomendava, primeiro de tudo, ‘pôr em ordem os afectos desordenados’ para melhor ver a vontade de Deus e, depois a seguir. Por outro lado, não nos escapa um sorriso, quando vemos a maneira tão terra a terra como os apóstolos escolheram Matias, sucessor de Judas. Simplesmente assim: depois de rezarem a Deus, lançaram os dados … e à maneira de Macau, assim foi escolhido.

Um segundo aspecto que me chama atenção é a Comunhão.

Todos e a todos os níveis estamos a precisar de uma ‘conversão do coração’ para que de dentro de nós – padres, religiosas e leigos, homens ou mulheres – brote ‘o espírito de comunhão.´ Contudo, esse ‘espírito’ tem que ser encarnado numa estrutura. Daí a necessidade de implementar todos aqueles órgãos, comissões e grupos de trabalho que dão vida à Comunidade.

Formado em Direito Canónico, creio que o novo bispo poderá trazer uma boa preparação para construir uma Igreja de Comunhão.

Terceiro aspecto. A Comunidade cristã em Macau não é só portuguesa. É já maioritariamente chinesa. E a comunidade de língua inglesa, sobretudo, graças à comunidade filipina, constitui uma realidade que não pode ser ignorada ou fazer que não se vê.

O povo português com a sua vida, história e cultura, formou aqui a comunidade cristã que deu origem à Diocese do Santo Nome de Deus de Macau. Ao longo de mais de 400 anos foi testemunho da presença cristã na China e plataforma de muitos intercâmbios.

Agora, somos, à maneira bíblica, um ‘pequeno resto’. Pergunto-me não será tempo de a Conferência Episcopal Portuguesa mandar os seus missionários para a Comunidade Portuguesa em Macau?

Quarto aspecto. A Juventude e as Vocações. O problema é profundamente grave. Não há gente nova que queira ‘ser padre’. E ainda o mais penoso é que nem mesmo da Comunidade chinesa aparecem jovens com o desejo de entrar no sacerdócio. O Seminário lá continua, imponente, mas teima em não se impor nos corações dos mais jovens. Uma questão. Têm as famílias cristãs gosto de ter um filho padre?

Quinto aspecto. A Comunidade cristã tem de viver e preparar o seu futro na consciência de que a China entra cada vez mais na geo-politica mundial. Como onde está o nosso impacto como Igreja? Conseguimos entrar no mundo do pensamento e das ideias?» Depois de D. José Lai, somos chamados, agora, a viver estes ‘desafios’com D. Estevão Lei.

Luís Sequeira, Jesuíta

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O Amador e a Coisa Amada: considerações acerca da edição do livro “Cartas de Amílcar Cabral a Maria Helena: a outra face do Homem”

[Olho Mágico] 

 

Márcia Souto

 

Transforma-se o amador na cousa amada,

Por virtude de muito o imaginar;

Não tenho logo mais que desejar,

Pois em mim tenho a parte desejada.

Luís Vaz de Camões

 

 

Há alguns meses, senti algo estremecer e este estremecimento, compartilhado com meu companheiro de vida e de lida, tornou-se enternecimento.

Confiadas pela historiadora Iva Cabral, tivemos, eu e Filinto Elísio, a grande honra de poder trabalhar, enquanto Editores, as cartas inéditas de Amílcar Cabral à sua primeira esposa, Maria Helena Vilhena Rodrigues. As missivas datam de 1946 a 1960.

Pelo facto, compreende-se o estremecimento e a emoção, bem como a responsabilidade que nos coube em editar tão valiosos textos. Desde o dia da generosa prenda, legada pela primogénita do casal Amílcar Cabral e Maria Helena, dormimos e acordámos envolvidos numa atmosfera de encanto. Já disse Guimarães Rosa que as pessoas não morrem, ficam é encantadas; assim, ressuscitados, senão mesmo transformados pelas cartas escritas por um Amílcar Cabral colega, amigo, namorado e marido de Maria Helena, estas passaram a habitar muito do nosso trabalho, da nossa casa, do nosso corpo, do nosso pensamento.

Do encantamento ao labor. Tratava-se de um livro de 53 missivas de/com amor, em que fomos vendo o desfiar de um belo romance  nascendo, tomando corpo e caminhando firme, não só no tempo, mas no espaço, posto que por terras portuguesas, cabo-verdianas, bissau-guineenses e angolanas.

São cartas em que se vão descortinando aos poucos o Homem por trás do Mito, assim como a Mulher, companheira e camarada, que, por meio do afeto e da confiança, permite-se estar na História. O amor  a mover o mundo… O amor entre duas pessoas a metonimizar o amor pela Humanidade.

Superados os estremecimentos, arraigado o enternecimento, surgiu-nos um pudor estranho (“Mineira é Fogo!”): como tornar públicas letras tão íntimas? Ato contínuo, percebemos que a importância de se compreender Amílcar Cabral, uma das grandes figuras da nossa contemporaneidade e um dos arautos da luta anticolonial e anti-imperialista no século XX, superaria quaisquer sensações de invasão da privacidade. É que muito da intimidade de Amílcar, pelo teor germinal, explica o tanto do “homem do mundo” em que se tornara Cabral. Embora “amilcariano”, como o próprio intitula seu estilo epistolar, não se pode fechar os olhos ao “cabralismo”, já  patente, então, no jovem estudante de engenharia agronómica ou consolidado, mais tarde, no competente engenheiro,  que se compromete, por inteiro e com coerência, à luta pelo direito à autodeterminação e à independência dos povos africanos.

Ao invés dos frios e longínquos anexos, tomámos, na edição do nosso labor, a decisão de destacar os textos fac-similados (razão de ser do livro), acompanhando cada transcrição com o seu respetivo original, de modo a propiciar aos leitores não só o acompanhamento, no calor da leitura, do texto manuscrito (o papel, a letra e os estados de alma, elementos que possam vir a revelar mais acerca do autor no momento da feitura da carta), mas também para facilitar alguma atenção especial que os mesmos possam ter em relação a alguma passagem e facilitar o contato mais próximo com o texto autógrafo.

Nesta edição da Rosa de Porcelana, amadora transformada, consoante a semântica camoniana, creio que operámos a tão barroca e moderna transubstanciação: vivemos, com alegria e consciência, como editores, parceiros, companheiros e amantes, um pouco da vida de Amílcar e Lena, com a certeza de que o mesmo pode acontecer aos muitos leitores que desejamos para esta obra.

 

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O momento próprio

[Olhar ao redor]

A tão conhecida narrativa das «Bodas de Canãa» aparece no Evangelho deste Segundo Domingo Comum do Ano Litúrgico. Nada nos espantaria, portanto, que o texto nos levasse muito naturalmente a reflectir sobre o tema candente do «casamento» na Igreja e no mundo de hoje.

No entanto, sinto-me muito mais inclinado a focar a meditação por uma outra perspectiva. Considerar, de preferência, todo aquele outro caminho que levou à transformação da água em vinho pelo poder divino de Jesus. Percurso esse que deixou os esposos, no final do banquete, a manifestar, com o aparecimento do inesperado «vinho bom», de melhor qualidade, a sua grande alegria em companhia dos seus convidados, particularmente, dos seus familiares e amigos.

Contudo, mesmo aqui, deixo-me centrar mais não tanto no ‘milagre’ que acontece pela força portentosa e única do Senhor Jesus, mas sim nos aspectos mais humanos, nas atitudes concretas das pessoas intervenientes, que precedem, e conduzem e, enfim, nos ajudam a compreender a actuação divina. Vejo-me mais inclinado a considerar, com maior seriedade, os diferentes momentos que levaram à realização do milagre do que ficar estupefacto e preso pelo mesmo sinal extraordinário de Deus. Por outras palavras, creio que é salutar e pedagógico ter em conta, concretamente, as circunstâncias variadas em que os acontecimentos se desenvolvem, reparar nos comportamentos dos seus distintos personagens e, finalmente, perceber a dinâmica interna dos passos que levam ou podem levar alguém a acreditar num ‘milagre’ ou qualquer experiência espiritual profunda. Estou mais interessado, através da experiência do Evangelho, a perceber como Jesus conduz a pessoa humana ao ‘acto de crer’ ou, pelo lado inverso, como o ser humano, homem ou mulher, se move para ‘o acto de fé’.

As «Bodas de Canãa», um dos primeiros milagres de Jesus!

Desde as palavras, um tanto ásperas, de Jesus a Sua Mãe que intercedia pelo jovem casal, a ver o vinho a esgotar-se – «Mulher, que temos nós com isso? Ainda não chegou a minha hora.» – até ao final , com a transformação da água em vinho, dão-se uma série de factos que, sem eles ‘o milagre’ não teria lugar. Ao mesmo tempo, pela cadência da sua execução humana eles caiem na ‘hora’ de Deus

Maria, Nossa Senhora, embora a mais perfeita criatura criada por Deus, não significa que ela é perfeita como Deus. Assim como na Anunciação ela aceitou o plano de salvação, pela Encarnação de Jesus no seu próprio ventre, não queria isto dizer, portanto, que ela sabia os pormenores desse mesmo plano. Não! Ela aprenderá, aos poucos, com o desenrolar dos anos. Por isso, é que lemos no texto sagrado que «Maria ponderava todas estas coisas no seu coração.»

Aqui nas «Bodas de Canãa», ela tem igualmente que aprender o que é ‘hora’ de Deus. E, como Nossa Senhora, também os outros. Constatamos que, depois de Maria ter preparado o seu coração, seguiram-se-lhe os serventes da mesa que se deviam preparar também: «Fazei tudo o que Ele vos disser.» Em seguida, aí estão eles a prepar as seis talhas de pedra. Finalmente, às ordens de Jesus, encheram-nas de água até cima.

Tudo preparado, isto é, o coração de Maria, os serventes, as talhas, a água… e o ‘milagre’ dá-se no tempo e na ‘hora’ de Deus.

 

De novo, esse diálogo tão profundo quanto íntimo na nossa natureza entre o divino e o humano. Deus actua em nós pelo amor que Ele nos tem para além da nossa compreensão e imaginação e sempre na sua ‘hora’, no seu tempo. Ainda assim, nunca prescinde da nossa participação, em liberdade e no uso pleno das nossas capacidades inatas: a racionalidade, a afectividade e a vontade. O corpo, físico ou inconsciente. É, por fim, aí onde o nosso ser tem ‘ sede de Deus.’

 

Luís Sequeira

 

 

 

 

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Voltando ao tema dos «macaenses»

[Dinâmicas e contextos da pós-transição]

 

O que mais me impressiona na temática sobre os «macaenses» é a multiplicidade de leituras e narrativas que o próprio tema tem suscitado, mesmo após o período da pós-transição da RAEM.

O “cordão umbilical” que os (nos) liga à terra não se desvaneceu. Pelo contrário, alargou-se e expandiu-se a outras “gentes” que pelos afectos e referências vivenciais, ou mesmo de memórias contadas e transmitidas, se reclamam hoje também como macaenses.

Este nova postura identitária revela uma dinâmica adaptativa e de “sobrevivência” que só o tempo poderá (ou não) vir a provar. Continuam (continuamos) a querer ser macaenses pela particularidade e pela singularidade de um «modo de vida» que se estrutura numa malha volátil, indefinível e imperfeita, assumindo o recurso à “âncora” da sua história mas, admitindo novas configurações.

O mais recente Colóquio da Comunidade Macaense, subordinado ao titulo «O testemunho para o futuro», levado a cabo pela Associação dos Macaenses (ADM) em Dezembro do ano passado é disso um exemplo. Diversidade, pluralidade e controvérsia foram as tónicas de realce, demonstrando, por um lado que a comunidade existe e se posiciona na sua perpetuação através da continuidade da afirmação identitária (mesmo que receosa) e por outro, levantando a necessidade de alargar a malha de “acolhimento”. Já pouco interessa saber quem pode ou não ser «macaense» mas, quem se identifica e se revê no modo de ser macaense e quer fazer parte do processo de manutenção dessa particularidade que polvilha a sociedade de Macau e a diáspora dispersa pelo mundo.

Esta posição, ou em rigor, esta análise, pode provocar rupturas e desavenças, ou até mesmo o desmembramento da comunidade a curto, médio prazo, como é natural em qualquer processo de mudança. A questão que se (nos) coloca é a de saber se essa é a via mais razoável e que alternativas existem para que se mantenha a afirmação identitária quando esta geração (que carregou a história) se desvanecer.

A realidade da RAEM é incontornável nos seus mecanismos de aglutinação da matriz chinesa em termos de dinâmica e processo social, o espaço da diferenciação far-se-á pela capacidade de reposta dos grupos minoritários se posicionarem como membros da sociedade civil de Macau, entre eles os portugueses e os macaenses, para além de outros, terão uma palavra a dizer, com a diferença de que aos primeiros ainda lhes resta a História, as memórias e os antepassados.

Nesta encruzilhada de indefinições, reformulações e readaptações em que nos encontramos, não é fácil encontrar respostas, se é que as há. A única nota digna de registo é a de que no presente ainda é possível identificar uma comunidade macaense – quer pelos seus elementos dispersos, quer pelo movimento associativo e institucional que os aglutina – mesmo que seja em torno de parâmetros diferenciados.

 

No futuro não sabemos mas, a vontade e as manifestações desse desejo são óbvias, aceitamos o rumo da história, mas queremos fazer parte dela.

 

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(o texto não segue o acordo ortográfico em vigor)

 

Carlos Piteira

Investigador do Instituto do Oriente

Docente do Instituto Superior de Ciências Socias e Politicas / Universidade de Lisboa

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A Procura de Sentido

[Olhar ao redor]

Natal de 2015! Ano Novo de 2016! Celebrações e festas não faltaram. Por iniciativa dos responsáveis do município, vimos, este ano, ser acrescentado ‘o Festival das Luzes’ para abrilhantar os lugares mais significativos da cidade, concretamente, as igrejas mais antigas. À noite, os seus largos estavam repletos de gente. Eram as famílias com os mais pequenos, irrequietos, extasiados por tanta luz. Eram os jovens que tiravam fotografias. Eram os mais idosos que, bem aconchegados, sorriam perante a vivacidade e a alegria das gerações mais novas.

Se prestamos, por outro lado, um pouco de atenção às cerimónias religiosas e, muito particularmente, às leituras dos Evangelhos, ao longo deste período, não podemos de deixar de concluir que o centro da narrativa é Jesus. É-nos dado a conhecer a intimidade de Maria, grávida do menino, por acção do Espírito de Deus. As cenas tão duras quanto comoventes do seu nascimento são-nos contadas com grande vivacidade de pormenores. Os primeiros anos da infância de Jesus, por fim, apresentam-se cheios de dramatismo e tragédia.

Se admitimos que a nossa maneira ‘tradicional e burguesa’ de celebrar a quadra do Natal e do Ano Novo nos podem deixar insatisfeitos e até com algum peso na consciência pela superficialidade com que expressamos o ‘espírito’ da mensagem natalícia! Se acrescentamos ainda a situação actual do mundo em que vivemos, onde os focos de violência e guerrra proliferam a um ritmo aterrador e os refugiados crescem, aos milhares de milhares, por mar e por terra, procurando um abrigo de paz e segurança! Então, é de se perguntar o que é que, neste mundo, significa, para a Comunidade Cristã, celebrar o Natal? Ou que significa para a Humanidade e para o Mundo, o nascimento do Menino Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem ?

  1. Paulo, o Apóstolo, proclama e explica esse mistério do amor de Deus para com os homens, dizendo: «Ele ( Cristo Jesus ), apesar de sua condição divina, não fez alarde de ser igual a Deus, mas se esvaziou de si e tomou a condição de escravo, fazendo-se semelhante aos homens. E mostrando-se em figura humana, humilhou-se, tornou-se obediente até à morte.» Por outras palavras, Jesus vive em si, na sua única pessoa, a divindade do Filho de Deus e, de igual modo, a humanidade do Filho do Homem, o filho de Maria.

Como consequência, para nós, a nossa humanidade, em Jesus homem, tem sempre a certeza de poder, como criatura, ser transformada e crescer para a perfeição de Jesus Cristo, verdadeiro Deus. A humanidade e a divindade que, em Jesus, se vive em harmonia perfeita e divina, em nós, experiencia-se ‘à imagem e semelhança’ do Senhor Jesus.

Em termos mais simples e a partir de nós mesmos, os humanos, podemos afirmar, assim, que não há nenhuma realidade humana capaz de escapar à força transformadora e criativa do amor de Deus, encarnado em Jesus Cristo. Mais uma vez, tomemos, a propósito, as palavras de S. Paulo aos cristãos de Roma: «Quem nos afastatará do amor de Cristo:tribulação, angústia,perseguição, fome,nudez, perigo, espada?Em todas essas circunstâncias, somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou. Estou convencido de que nem morte nem vida, nem anjos nem potestades, nem presente nem futuro, nem poderes nem altura nem profundidade, nem criatura alguma nos poderá separar do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus Senhor nosso.»

É Natal. Celebramos o nascimento de Jesus. Ele, verdadeiro homem, tal como nós, também passou pela experiência de um parto de nove meses. Sentiu o frio de Inverno e a aspereza das palhas da manjedoura. Percebeu , através da aflição dos pais,do bater apressado do coração de Maria que Herodes queria matá-lo. A sua sensibilidade não esqueceu o balancear constante e durante muitos dias

do seu corpito frágil na fuga para o Egipto. Jesus, Deus feito homem, neste período da vida chamada infância, experimentou, tal como nós, as angústias e os sofrimentos, as alegrias e as consolações.

Ele, hoje, quer afirmar, acima de tudo, que toda e qualquer experiência humana – de modo particular a dolorosa – jamais escapará ao seu amor. A uns confirma já neste mundo, a outros na eternidade

 

Jesus tem um nome, tem uma família com antepassados e uma geneologia, pertence a uma raça, é educado no contexto próprio, é formado por uma cultura, expressa-se através de uma língua concreta, o seu povo tem uma história.

Jesus, Deus feito homem, assume plenamente a nossa humanidade.

O Natal desafia, asperamente, a nossa sociedade, dominada pelo consumo, o prazer e o fácil.

A Humanidade, em grande dor, geme.

São os pobres, os sem abrigo, os refugiados.

Os governos continuam preocupados pelo «ter» e não pelo «ser»

Esquecem, criminosamente, o valor da pessoa humana.

 

Luís Sequeira

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O Cubo Mágico

[Poeira das Estrelas]

Filinto Elísio

O mundo dos de baixo

Tempo de acordar quem anda a dormir na forma, pois os sinais não são encorajadores. Nem os prognósticos são de feição. Como permutar os oito vértices do cubo mágico? A diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI) previu para 2016 um crescimento económico “dececionante e desigual”, mercê dos efeitos desestabilizadores nalguns países do aumento das taxas de juro nos Estados Unidos. Igualmente, apontou o arrefecimento da economia chinesa como uma das razões de sua apreensão. Outros aspetos que parecem contribuir para que as perspetivas sejam sombrias são a fragilidade no sistema financeiro de numerosos países e os problemas com a baixa do preço do petróleo, sobretudo para os países produtores. Tudo isso, como se pouco fosse, relacionada à fraca produtividade, à população envelhecida e à continuação da crise financeira mundial, que trava o crescimento na maior parte dos países e impõe, por desvio ao paralaxe, o terror em novas formas, especialmente com a campanha de execuções (ora, com bombas, ora com drones), também se impõe à escala global (cada um na sua máscara política, ideológica, religiosa, filosófica). Quo vadis? Os homens e as mulheres centrados apenas nas trajetórias macroeconómicas, com as suas previsões e deduções, bem como os políticos que olham para as alternativas a pensar em conspiração e os editoriais inflamados do pessimismo, esquecem-se que as soluções aparecem no mundo dos de baixo. E se os “condenados da terra” resolvem baralhar as mão e dar as cartas de novo. Afinal, o anagrama do FMI pode, virando o cubo mágico, ser uma espécie de FIM. E, por isso, de recomeço

Regionalização (girando todas todos os vértices do cubo)

 

Olhamos para a insularidade, a interioridade e a ‘diasporicidade’ de Cabo Verde e inferimo-nos da complexidade nacional. Confrontamo-la com algum discurso que não destrinça Regionalização do Regionalismo e que não centra o foco no direito/dever do cidadão, onde quer que se posiciona na Nação Global, à plena cidadania cabo-verdiana. Enquanto persistir o pensamento regionalista (algo arreigado na mente das elites e engana-se quem pense o contrário), de certa forma bairrista, continuaremos subdesenvolvidos. Seria mais inteligente aumentarmos a produtividade do país estimulando a escala centrífuga do todo, a competitividade das ilhas e a interação sinérgica entre as regiões, reduzindo disparidades políticas, económicas, sociais e até culturais. A rutura com o subdesenvolvimento não se basta com a meta (pouco ambiciosa, diga-se) de crescimento mais acelerado, mas sim com o incremento (mais efetivo e aqui está o desafio) da melhoria do Índice do Desenvolvimento Humano e com a educação (lato senso e para além do ensino) de qualidade. Regionalização? Porque não? Com causa e consequência, como direito e dever da cidadania; senão mesmo uma das formas de projetar Cabo Verde para o Desenvolvimento. Tudo isso, requer a reconversão das elites para o real patamar da produtividade e do conhecimento. Aliás, os moldes em que, historicamente, se processa “o mundo que o cabo-verdiano criou” deixaram pelo caminho cicatrizes cauterizadas e que ainda permanecem no imaginário das elites. Requer que as mesmas, não reduzidas à memória preconceituosa e à herança colonial e pós colonial, nem aquelas artificializadas por hegemonias endógenas, tenham hoje consciência crítica da complexidade nacional.

 

– O autor escreve ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico.

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