Voltando ao tema dos «macaenses»

[Dinâmicas e contextos da pós-transição]

 

O que mais me impressiona na temática sobre os «macaenses» é a multiplicidade de leituras e narrativas que o próprio tema tem suscitado, mesmo após o período da pós-transição da RAEM.

O “cordão umbilical” que os (nos) liga à terra não se desvaneceu. Pelo contrário, alargou-se e expandiu-se a outras “gentes” que pelos afectos e referências vivenciais, ou mesmo de memórias contadas e transmitidas, se reclamam hoje também como macaenses.

Este nova postura identitária revela uma dinâmica adaptativa e de “sobrevivência” que só o tempo poderá (ou não) vir a provar. Continuam (continuamos) a querer ser macaenses pela particularidade e pela singularidade de um «modo de vida» que se estrutura numa malha volátil, indefinível e imperfeita, assumindo o recurso à “âncora” da sua história mas, admitindo novas configurações.

O mais recente Colóquio da Comunidade Macaense, subordinado ao titulo «O testemunho para o futuro», levado a cabo pela Associação dos Macaenses (ADM) em Dezembro do ano passado é disso um exemplo. Diversidade, pluralidade e controvérsia foram as tónicas de realce, demonstrando, por um lado que a comunidade existe e se posiciona na sua perpetuação através da continuidade da afirmação identitária (mesmo que receosa) e por outro, levantando a necessidade de alargar a malha de “acolhimento”. Já pouco interessa saber quem pode ou não ser «macaense» mas, quem se identifica e se revê no modo de ser macaense e quer fazer parte do processo de manutenção dessa particularidade que polvilha a sociedade de Macau e a diáspora dispersa pelo mundo.

Esta posição, ou em rigor, esta análise, pode provocar rupturas e desavenças, ou até mesmo o desmembramento da comunidade a curto, médio prazo, como é natural em qualquer processo de mudança. A questão que se (nos) coloca é a de saber se essa é a via mais razoável e que alternativas existem para que se mantenha a afirmação identitária quando esta geração (que carregou a história) se desvanecer.

A realidade da RAEM é incontornável nos seus mecanismos de aglutinação da matriz chinesa em termos de dinâmica e processo social, o espaço da diferenciação far-se-á pela capacidade de reposta dos grupos minoritários se posicionarem como membros da sociedade civil de Macau, entre eles os portugueses e os macaenses, para além de outros, terão uma palavra a dizer, com a diferença de que aos primeiros ainda lhes resta a História, as memórias e os antepassados.

Nesta encruzilhada de indefinições, reformulações e readaptações em que nos encontramos, não é fácil encontrar respostas, se é que as há. A única nota digna de registo é a de que no presente ainda é possível identificar uma comunidade macaense – quer pelos seus elementos dispersos, quer pelo movimento associativo e institucional que os aglutina – mesmo que seja em torno de parâmetros diferenciados.

 

No futuro não sabemos mas, a vontade e as manifestações desse desejo são óbvias, aceitamos o rumo da história, mas queremos fazer parte dela.

 

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(o texto não segue o acordo ortográfico em vigor)

 

Carlos Piteira

Investigador do Instituto do Oriente

Docente do Instituto Superior de Ciências Socias e Politicas / Universidade de Lisboa

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