Ébola e as novas prioridades da China para África

Um quê de quoi

Cláudia Aranda

O olhar parado mas penetrante da menina de quatro anos deitada imóvel no chão coberto de excrementos, sangue, urina, suor, não me sai da memória desde o dia em que esta imagem me agarrou à capa do The New York Times. A imagem é do fotógrafo Samuel Aranda (não é nenhum familiar, não) que a colheu no hospital de Makeni, na Serra Leoa, um dos centros de acolhimento de pessoas infectadas pelo vírus do ébola.

Desde Março que a doença já infectou mais de 15 mil pessoas na Guiné Conacri, Libéria, Mali, Nigéria, Senegal e Serra Leoa, e matou pelo menos 5400, de acordo com a Organização Mundial de Saúde e os dados estatísticos actualizados regularmente na página do The New York Times.

Os países africanos afectados pela epidemia do ébola tornaram-se entretanto no novo campo de batalha entre Estados Unidos da América e a República Popular da China (RPC) na disputa por quem “dá mais” ajuda para África.

Em Setembro o presidente norte-americano Barack Obama anunciou um aumento da ajuda: três mil pessoas para África mais de 175 milhões de dólares para combate da epidemia.

Da parte da China, terão sido enviados 160 profissionais para a Libéria, estão prometidos mais. No total a ajuda rondará os 81 milhões de dólares norte-americanos. Um dos aspectos mais visíveis dessa ajuda é a clínica inaugurada agora na capital liberiana, Monróvia, noticiou ontem o South China Morning Post, de Hong Kong.

Perante a urgência de uma intervenção rápida, a China parece estar a prosseguir com aquilo que tem sido o modelo chinês de cooperação, que é construir infra-estruturas a custo zero ou com taxas de juro de baixo custo. O princípio é garantir vantagens win-win: o parceiro beneficiário da ajuda ganha infra-estruturas e as empresas chinesas ganham presença no terreno para facilitar o acesso a futuros contratos – mais gordos – com os Governos locais. Tem sido assim e assim continua a ser mesmo em tempo de epidemia. A Libéria agradeceu. Em tempo de guerra não se limpam armas e toda a ajuda é pouca para travar a doença.

Estima-se que haja hoje um milhão de chineses em África. Até ao espoletar da epidemia, a China e maior parceiro comercial de África tinha à volta de 20 mil trabalhadores nos países endémicos, Serra Leoa, Guiné Conacri e a Libéria, países onde a RPC tem fortes interesses económicos no valor de muitos milhares de milhões dólares para a exploração de minério de ferro.

Por essas razões a China é apontada por alguma da imprensa americana como o país com “mais obrigações” para prestar ajuda como contrapartida dos fortes interesses económicos em África.

No terreno as pessoas continuam a morrer. Ontem a notícia era que essas equipas de limpeza na Serra Leoa estavam a largar os corpos nas ruas em protesto por falta de pagamento de um subsídio de risco.

Feitas as contas, os números da ajuda, os milhões de que se fala, sejam muitos ou poucos, tornam-se irrelevantes quando essa ajuda é mal direcionada ou desviada para esquemas de corrupção. Educação, saúde, hospitais, sistemas de rastreio de doenças vão continuar a ser prioridades naqueles países e são a única maneira de evitar surtos como estes. Devem ser prioridades na agenda de cooperação da RPC, dos EUA, da União Europeia.

Depois de anos de relações com África focadas na construção de infra-estruturas para extracção das riquezas nestes países, com forte impacto nas populações locais e no ambiente – a desflorestação é um dos aspectos visíveis – está na hora de Pequim repensar nas suas prioridades de desenvolvimento para África. Espera-se que o ébola e o possível impacto que esta epidemia possa ter nos interesses económicos da China façam pelo menos Pequim reavaliar os seus objectivos para África numa perspectiva mais de feição com os princípios humanistas.

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É preciso ter azar

Editorial

Maria Caetano

Durante esta semana, Sou Chio Fai, coordenador do Gabinete de Apoio ao Ensino Superior (GAES), prestou declarações ao jornal Ou Mun, indicando que o Governo pretende emitir instruções para que as instituições de ensino superior de Macau adaptem os seus períodos de exame às necessidades dos portadores de deficiência e recebam formação pedagógica em igual sentido.

Sou Chio Fai diz-nos que “os deficientes de Macau não têm sorte na educação, pois mais de 70 por cento das pessoas portadoras de deficiência só têm nível de educação de escola primária ou inferior”. “Apenas 20 por cento completaram o nível secundário e apenas 3,7 por cento frequentaram o ensino superior”, acrescenta, segundo citação no jornal Hoje Macau na última terça-feira.

É fácil, de uma análise do discurso local, extrair que ‘responsabilidade’ e ‘solidariedade’ são termos pouco comuns. ‘Responsabilidade social solidária’ será então um achado. Temos que anda no marketing das empresas e nas contrapartidas às concessões de jogo, mas, fora quem se sinta em tais termos obrigado sob penas, é uma espécie de expressão exótica. Sentimo-lo na dificuldade de se negociarem aumentos nas contribuições para a Segurança Social, de se negociar o salário mínimo e em tudo o que imponha concertação social. Também o sentimos, por oposição, no uso abusivo dos termos ‘caridade’ e ‘beneficência’ e nas políticas de distribuição de apoios sociais às quais os nossos governantes se referem com o eufemismo de quem faz “um carinho” – ao actualizar o valor da pensão de idosos, por exemplo.

Não surpreende, por isso, que para assumir a responsabilidade do Governo em ter falhado completamente ao longo dos últimos anos na promoção de condições de acessibilidade aos portadores de deficiência o ‘mea culpa’ nos chegue através do código sugestivo de ‘não ter sorte’.

Afinal, é preciso ter azar ao viver-se num sítio onde parece que a obrigação de garantir oportunidades iguais para quem está em situação diferente é vista como ‘dar um jeitinho’ ou algo que não é minimamente prioritário. Dir-se-á que não é exclusivo local, mas direi que nunca tive conhecimento directo de uma realidade onde fosse tão difícil viver quando se está em desvantagem.

Na prática, quem nasce ou se torna portador de uma deficiência está condenado a viver sem autonomia e a conter aspirações. Os exemplos são muitos e injustificáveis. Uma pessoa invisual continua a não ter acesso a transportes públicos em Macau. Alguém com dificuldades motoras vê-se impossibilitado de aceder a muitos edifícios e a passeios públicos, além dos transportes também. Ambas estas pessoas são obrigadas a frequentar o ensino especial, porque o ensino regular não está capacitado para as receber. Nas universidades, não há tempo especial de exames para quem é portador de deficiência. Os Serviços de Saúde, os Serviços para os Assuntos Laborais, os Serviços de Educação e o Gabinete de Apoio ao Ensino Superior não prescrevem ajudas técnicas – como impressoras Braille, por exemplo, ou software adaptado – que são essenciais para colmatar desvantagens adquiridas ou com as quais se nasceu e garantir efectiva igualdade de oportunidades. Ajudas que, de resto, em muitos países e regiões do mundo são integralmente comparticipadas pelos Estados e de acesso universal.

É efectivamente preciso ter azar para se viver com tantos obstáculos: os das deficiências e os que, para além destes, são ainda levantados por esta sociedade – que continua a adiar as suas obrigações.

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Agora ou nunca

Com os meus botões

Lou Shuo

Há poucos dias, numa conversa com um responsável de uma agência imobiliária local em que falámos sobre os seus negócios de agenciamento com promotores imobiliários de Zhuhai, uma frase ficou na minha cabeça: “vendemos casas sem garantias na mesma, porque não queremos deixar os nossos grandes clientes de Zhuhai perder a ‘mianzi’ [significa face, ou cara em chinês]”.

O dilema do agente releva um fenómeno cultural chinês que é o conceito sociológico ‘mianzi’. E a palavra ‘mianzi’ talvez tenha um significado mais complicado para os estrangeiros que não conhecem muito bem a nossa cultura.

Amamos a ‘mianzi’ como se ela fosse a nossa bandeira nacional. Dizemos sempre “ter mianzi”, o que quer dizer ganhar honra e ser valorizado pelas outras pessoas. Em suma, é o segredo para manter uma boa relação interpessoal entre os chineses, também a regra comum na sociedade chinesa.

Cada chinês deve ter uma explicação própria para a sua ‘mianzi’. Eu diria que a ‘mianzi’ refere a imagem virtual de uma pessoas, tanto para si, quanto para outrem. Na história referida, a ‘mianzi’ dos clientes de Zhuhai, para a tal agência local, é algo com maior importância do que os regimes legislativos, sendo que algumas dessas casas sem garantias podem tornar-se um investimento de risco para os compradores de Macau no futuro.

Mais um exemplo: como o provérbio português diz, a galinha da vizinha é melhor que a minha; os pais chineses são assim também. Falam sempre bem dos filhos dos seus colegas ou vizinhas para “provocar” os seus filhos. Mais: se os filhos não se comportarem bem na escola, assim os seus pais ficam sem ‘mianzi’.

Então, pergunto: porque é que os chineses ainda se preocupam tanto com as suas imagens e impressões para as outras pessoas (no trabalho ou na família)? E, ao contrário, qual é a importância dessas imagens das pessoas para mim?

Lembro-me de dois amigos chineses que são homossexuais, ambos estão a sofrer por não terem coragem de se declarar em frente das famílias. A resposta é igual: não querem prejudicar a imagem da família. Os dois sentam-se sempre juntos e discutem sobre as suas futuras “misérias”: conseguir dinheiro, comprar casa e carro, e depois casar com uma mulher.

Sei que é impossível para a geração dos meus pais aceitar o facto de que os seus filhos são homossexuais. Isso tem que ver com a questão da ideologia tradicional oriental, mais uma vez, com a questão da ‘mianzi’.

A economia está a crescer rapidamente no meu país, sinto-me orgulhosa com isso, e quando haverá evolução da mentalidade do meu povo? Somos individuais e independentes, temos direito de amar e desamar. Tal como eu costumava a dizer aos meus amigos: Libertem-se, agora ou nunca.

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Muito “à frente”…

Territórios da Língua

Ana Paula Dias

O South China Morning Post (SCMP) publicou recentemente um artigo cujo título, em português, será qualquer coisa como “Detenhamos o declínio inegável dos padrões de inglês em Hong Kong”. São pelo menos três as considerações que suscita: que existe um padrão de inglês em Hong Kong, que ele é percebido como um ativo e que a opinião pública reflete e se preocupa com a questão.

O artigo refere que de acordo com um estudo efetuado anualmente pela EF (Education First), a proficiência da população em inglês caiu para o 31º lugar, ou seja, desceu nove posições no ranking global e que Hong Kong ficou apenas um pouco à frente da Coreia do Sul, do Japão e da Indonésia no ano passado, tendo sido ultrapassada por Shanghai, Pequim e Tianjin este ano. Acrescenta que quem tem experiência direta desses lugares provavelmente chegaria conclusões diferentes e que este tipo de estudos deve ser encarado com cautela, pois os resultados poderão ter sido desviados pelas amostras – mas o facto de eles provocarem um debate aceso diz muito sobre as preocupações das pessoas de Hong Kong sobre a sua proficiência na língua.

O artigo do SCMP sublinha ainda que a competitividade das empresas locais depende da sua capacidade de comunicar eficazmente na língua internacional e alerta que a própria Câmara de Comércio Americana observou que competência em inglês enfraqueceu visivelmente. O texto termina sublinhando a necessidade de maiores esforços para manter o padrão de inglês num nível satisfatório.

Esta questão do “padrão” é importante porque, se a transportarmos para Macau e estabelecermos um paralelo, verificamos que embora as estatísticas (Censos, 2011) indiquem que 2,4% da população fala português como língua estrangeira, essa proficiência não é qualificada e os dados empíricos disponíveis sugerem que a língua falada está longe de um “padrão” satisfatório. São disponibilizados regularmente dados numéricos relativos ao número de pessoas a aprender a português na região, mas esses não são acompanhados de uma caraterização que permita entender o que isso significa realmente, nem de uma avaliação que vise validar modelos e aperfeiçoar a qualidade das aprendizagens.

Para além de uma ou outra louvável iniciativa pessoal já desenvolvida neste sentido, seria importante que também as entidades oficiais ou privadas, locais ou não locais, ligadas ao setor levassem a cabo estudos deste tipo em Macau, para avaliar o impacto e a qualidade de projetos ou medidas destinados a promover e ensinar a língua portuguesa. Fala-se constantemente dela como um activo, da sua importância e relevância para “os mercados lusófonos”, do “grande interesse” pela sua aprendizagem, do aumento de iniciativas e financiamentos destinados à sua promoção e ensino, do “crescente número” de pessoas a aprendê-la, multiplicam-se cursos e formações… e a opinião pública congratula-se e boa nova partilha-se e difunde-se convicta e alegremente. Mas o que a experiência de quem por cá vive permite constatar não é brilhante e seria importante, para não dizer essencial, avaliar qual é a real competência, proficiência e qualidade daqueles e daquilo que fazem a matéria dessas notícias.

Se as pessoas de Hong Kong são menos competentes em inglês do que antes continuará a ser discutido por lá, onde a discussão já vai muito “à frente”- por cá, seria bom iniciá-la, começando por definir qual o “padrão” que se pretende atingir …

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O filósofo sempre tinha razão

Água mole em pedra dura

Catarina Mesquita

A detenção de José Sócrates é a nova novela a que os portugueses passaram a assistir em prime-time a partir deste fim-de-semana. Uma “novela da vida real” nacional que precede a ficção brasileira que há anos faz parte da grelha de programação das televisões portuguesas.

Para esta trama escolheram para protagonista José Sócrates que calmamente chegava a Portugal, certamente ostentando o sorriso que sempre usa seja nas situações mais ou menos dramáticas. O cenário para o primeiro episódio foi uma noite no aeroporto ao invés de uma convocação em casa para um interrogatório. Isto prende o espectador no primeiro episódio.

Os realizadores: uma cadeia de televisão que estava de câmara de filmar em punho aquando passagem do carro, onde no seu interior, lá está, Sócrates seguia sorrindo.

Mas tal como nas novelas também se quis saber o que ia acontecer no episódio seguinte e as publicações encheram-se de detalhes pouco fundamentados. Deram-se informações que deveriam ser segredo de Justiça e se ela já pouca credibilidade tinha então, a meu ver, mais suspeitas me levanta.

E tal como uma nova novela começa propositadamente no final do Verão, também esta não parece ter sido lançada ao ar em tempo despropositado. Na véspera do Congresso do Partido Socialista e da consagração de António Costa como novo secretário-geral do PS que diz que o partido assumirá toda a história.

Transferência elevadas, património e contas secretas, corrupção, 20 milhões de euros e, essencialmente a primeira vez que um ex-primeiro ministro é detido, são alguns dos elementos do guião desta história da qual só se pode esperar um final feliz. Mas esse final só assim será se a Justiça portuguesa revelar credibilidade e se os media deixarem de ser, mais uma vez, o palco de disputas eleitorais de um país que se desintegra a cada dia que passa.

Já acredito em muito poucas coisas que não vejo e penso que agora só nos resta esperar.

A verdade é que por agora só me ocorre recorrer a outro Sócrates mais credível, o filósofo, pois ele acertadamente dizia que “só sei que nada sei” e eu subscrevo… principalmente nesta novela da qual ainda não sabemos nada.

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Uma medida inestimável

Maria Caetano

Não acredito que não haja projecções calculadas, e não apenas meros palpites, quanto ao impacto que a medida de abertura da fronteira por 24 horas deverá ter em diversos aspectos da vida de Macau: trânsito, transportes, comportamento do imobiliário, segurança, frequência turística nos espaços de jogo do Cotai. Não é simplesmente possível. É possível admitir prudência na divulgação dos cenários, mas não é admissível que, publicamente, não haja um número, um conjunto deles, para apresentar.

Macau anda há meses, há anos, a falar na abertura das fronteiras em permanência. Andamos há anos a preparar-nos para isto, a falar sobre isto, a interceder junto do Governo central a cada reunião da Assembleia Popular Nacional, a reunir com as mais relevantes instâncias do Governo Central, a conjecturar benefícios. No plano pessoal dos cidadãos, a hipótese elevou-se ao campo das certezas: há investimentos, casas compradas em Zhuhai, crianças e jovens a estudar na província vizinha, muita gente que já faz uma vida transfronteiriça.

O planeamento económico, na sua dependência externa, nunca foi o forte das sucessivas governações de Macau. O comportamento do jogo, por exemplo, continua a ser uma variável mais ou menos imprevisível, fruto das restrições à atribuição de vistos individuais. É quase compreensível que se viva numa espécie de corda bamba, embora o relacionamento do Governo local com as autoridades centrais devesse permitir muito maior coordenação.

Neste caso, a medida de abertura permanente de fronteiras tem vindo a ser discutida estreitamente – supomos nós – com as autoridades do Continente. A própria renitência em avançar com ela faz pressupor que alguma conjectura a travava até aqui. Não será possível traçar cenários e prever hipóteses de modo algum?

Por exemplo, não se está propriamente perante um mercado livre do lado de lá da fronteira e o comportamento dos operadores turísticos terá a sua dose de previsibilidade e acordo. Como não saber se os autocarros de turismo vão de facto recorrer ao circuito da Ilha da Montanha para dar entrada no Cotai? Há infra-estruturas para isso? Incentivos?

Um dos efeitos muito genericamente equacionados é o da descompressão do mercado imobiliário de Macau. Mas quantas pessoas poderão efectivamente mudar para o lado de lá da fronteira? Que efeito tem o novo horário de fronteira para quem compra habitação por investimento e não para morar?

Até aqui, a zona do Porto Exterior tem condensado muita das actividades – lícitas e ilícitas – relacionadas com visitante-jogador que permanece por um dia e aguarda o último barco nocturno ou o primeiro barco do dia para um regresso a casa. O que será do ZAPE e do movimento do Porto Exterior? Como deverá ser mobilizado o dispositivo de segurança local a pensar no atravessamento permanente do Cotai?

Quero acreditar que estes mínimos ponderáveis que nos ocorrem em cinco minutos de conversa foram alvo de reflexão pelo Governo e que, algures, nas gavetas dos gabinetes, há estudos, projecções e planos B para todas as situações. Caso contrário, com uma Administração que tanto estuda as suas matérias, será uma decepção assistir a este vazio de expectativas. E, tarde ou cedo, andaremos em medidas de remediação calculadas a olho.

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Ken-san, o “estranho” e bem-amado ator

Arqueologia da Memória

Rui Rocha*

“Ken-san, ‘awkward’ lovable actor” – assim se referia o Yomiuri Shimbun, no dia 18 de novembro deste ano, a Ken Takakura e à sua morte com a idade de 83 anos, àquele que é considerado por muitos o último verdadeiro ator de cinema do Japão.

No dia 10 de novembro morreu no Hospital de Tóquio porventura a última grande e cintilante estrela do cinema japonês do século XX, Ken Takakura. A par de Toshiro Mifune, foi o ator japonês que maior admiração e respeito mereceu por parte de milhões de admiradores dentro e fora do Japão.

A imprensa mundial recordou a notável carreira cinematográfica de Ken, os variadíssimos prémios nacionais e internacionais que lhe foram atribuídos pela qualidade das suas interpretações, tendo expressado unanimemente um forte sentimento de pesar pela sua morte. Mas, para além do Japão, onde era chamado afetuosa e respeitosamente por amigos e fãs “Ken-san”, foi na China que mais foi sentido com grande pesar o apagar desta brilhante estrela que inspirou tantos jovens e adultos do continente chinês.

Ken era um actor amado por milhões de chineses e respeitado pelo governo chinês. A agência de notícias Xinhua escreveu on-line no dia 19 de novembro, em título de primeira página: “Os Chineses lamentam a morte do icónico ‘tough guy’ do cinema japonês”, designando-o como “legendary Japanese actor” e detalhando ainda a sua longa carreira. Também nesse mesmo dia, o jornal do Partido Comunista Chinês, o People’s Daily, anunciou a morte do ator em título de caixa alta: “Farewell Ken Takakura”, apresentando seis fotografias da filmografia do ator. O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China afirmou: ”Ken Takakura é um ator japonês sobejamente conhecido do povo chinês que deu um importante e positivo contributo para o intercâmbio cultural entre a China e o Japão. Estamos de luto pela sua morte”.

O famoso realizador contemporâneo chinês, Zhang Yimou, que convidou Ken em 2005 para desempenhar, no filme “Riding Alone for Thousands Miles”, o papel de um velho pai japonês que viaja pela China rural na província de Yunnan em direção a uma aldeia, Li (李家村), próxima da cidade de Lijiang, para satisfazer o último desejo do seu filho que se encontrava às portas da morte, expressou também na rede social chinesa Sina Weibo a sua grande tristeza com a morte de Ken: “Não posso acreditar nisto, o meu velho amigo partiu. Apenas desejo expressar as minhas profundas condolências e desejar-lhe felicidade no céu”. Zhang Yimou disse igualmente aos media que desde sempre idolatrou Takakura e que o filme “Riding Alone for Thousands Miles” foi especialmente concebido para ele.

Wang Zhongyi, editor-chefe da revista People’s China, especialista em filmografia japonesa afirmou também, a próposito de Ken: “Ele conquistou os corações de muitos chineses porque apresentava caraterísticas de pessoa reservado e paciente que os povos do Oriente atribuem a um homem ‘cool’, diferente do estereótipo de Hollywood.”

Este ideal de caráter humano é comum às culturas chinesa e japonesa e expressa-se pelo carater 忍 (rěn), composto pelo carater “xin” (心, coração), que representa o significado do carater e pelo carater “ren” (刃, lâmina de faca), que representa o seu som.”Ren” significa, assim, paciência, sacrifício, reserva, mas também conota a autocontenção e o autocontrolo. Metaforicamente, uma personagem “Ren” é aquela que é capaz de colocar sempre uma “faca sobre o coração”, o que implica um elevado espírito de sacrifício, disciplina, abnegação e vontade.

Foi nos filmes sobre os yakusa que Ken se tornou famoso nos anos 60, tendo participado em 10 filmes por ano. Tratava-se de um estilo cinematográfico popular no Japão, conhecido por ninkyo eiga (任侠映画) (filmes cavalheirescos de yakusa), inaugurado em 1963 pela Toei Production, em que o yakusa dissidente luta pela justiça a favor das pessoas comuns, algo semelhante à personagem dos ronin do filme “Sete Samurais” de Kurozawa.

Em agosto de 2013, numa entrevista cooncedida ao Japan Subculture Research Center, Ken explica a razão da sua popularidade: “Acho que a razão pela qual o público em geral se identifica com os papéis que interpreto, resulta do facto de se sentirem tocados pela minha postura de homem que inexoravelmente se levanta contra injustiças absurdas. Não se tratava apenas de enfrentar uma luta de espadas, mas a vontade de apresentar uma personagem disposta a sacrificar-se para proteger as pessoas importantes para ele”.

A filmografia japonesa de Ken Takakura é muito vasta (mais 200 filmes; ver http://www.imdb.com/filmosearch?role=nm0847264&sort=year&explore=title_type). Ken foi o ator principal do filme Antarctica, de Koreyoshi Kurahara (1983), que obteve o maior recorde de audências durante 15 anos.

Mas Ken tornou-se também famoso nos EUA pelas suas soberbas interpretações de yakusa dissidente no filme Yakusa, de Sydney Pollack (1974), de polícia no filme Black Rain, de Ridley Scott (1989) e de capitão de uma equipa japonesa de basebol em Mr. Baseball, de Fred Schepisi (1992). A imprensa ocidental designou Ken Takakura como o “Clint Eastwood do Japão”, ambos ícones culturais da masculinidade, mas Ken foi muito mais do que isto, pois representou para o público japonês e chinês “o estoicismo abnegado e generosidade de espírito”. Como afirmei no artigo que dediquei a Toshiro Mifune por altura da sua morte em Dezembro de 1997, “Macau não conhece ou conhece mal o que se fez e o que se vai fazendo na Ásia, em geral, e, muito particularmente, no Japão, em matéria cinematográfica” (para além de algumas erráticas sessões de cinema japonês onde são ditas banalidades por uns quantos autopromovidos críticos). Só assim se pode explicar a ausência de uma simples notícia sobre a morte de Toshiro Mifune” e, hoje, 16 anos depois, continua tudo na mesma…Adeus, Ken-san! (Sayōnara, Ken-san! (さようなら健さん!)

*Diretor do Departamento de Língua Portuguesa e Cultura dos Países de Língua Portuguesa, Universidade Cidade de Macau

(O autor escreve segundo o Novo Acordo Ortográfico)

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