Navegando em águas pouco transparentes

maria josé freitas (1)

Fotografia: Maria José de Freitas

Em Macau está a ser difícil exercer profissionalmente a arquitectura, quando se trabalha em profissão liberal. Não há encomenda privada porque não há novas concessões e os investimentos vão-se fazendo ao nível das remodelações e renovações.  Entretanto, o Governo vai organizando concursos para a classe, na sua maioria concursos de concepção/construção em que as melhores ideias são subestimadas em função dos custos mais baixos e dos prazos mais curtos. Consegue-se o resultado mais depressa, dizem, e avançam por aí, esquecendo que a má qualidade das obras é o reflexo visível do custo mais baixo das empreitadas!

A classe profissional sofre e vai-se acomodando, trabalha por preços inferiores, cada vez com prazos mais curtos, até chegar a valores irrealizáveis e impossíveis e com isso a qualidade dos projectos também se vai reduzindo.

Quantos dos concursos depois de realizados são aferidos e fiscalizados? Quando se confere se o projecto A ou B afinal foi concretizado naquele período, se o programa foi integralmente cumprido e se o custo indicado foi mesmo respeitado?

Todos temos assistido ao descalabro existente em muitos casos no que diz respeito a preços e prazos, relativamente à qualidade das obras, relativamente à protecção ambiental, resiliência dos materiais e por aí fora. A um projecto feito sobre pressão, a um custo inferior ao que seria expectável para a qualidade que se pretende, nunca pode corresponder uma boa solução técnica e jamais resultará numa obra marcante. Será, uma vez mais, um “objecto” em estado de supervisão permanente, e a requerer cuidados de manutenção ao longo da sua existência. O Governo já teve, e continua a ter, essa experiência. Os casos abundam e ouvem-se reclamações diariamente. Contudo, a sua actuação continua, paulatinamente, a manter-se e, numa cegueira sucessiva, vai premiando o mais barato, o mais rápido, o menos rigoroso.

Em Macau a cultura do edificado e da construção nunca foi muito exigente. O resultado é a realidade que temos feita de materiais perecíveis, construções sem chama, prédios que se repetem. Quando há concursos, as exigências são tantas que muitas vezes são difíceis de cumprir, algumas com requisitos tão cirúrgicos e detalhados que têm claramente a função de criar a aparência de uma democratização de oportunidades que verdadeiramente não existe.

Neste contexto os arquitectos mais parecem atletas numa corrida de obstáculos, mas desta vez sem prémios, para além do primeiro lugar que poderá vir a ser reconhecido e elegível, ficando o trabalho dos outros concorrentes pelo caminho, num limbo de ignorância e esquecimento… Tantas noites mal dormidas, tantas ideias trabalhadas e, no fim, quando chega a hora da negação, nem uma mostra se faz, as ideias não se discutem, não há criticismo na classe e nem os promotores a sustentam.

O Governo fecha os olhos e segue numa campanha implacável com imposições cada vez mais complexas, mesmo em concursos de ideias lá vêm os requisitos de preço e prazo, burocracias, exigência de certificados reconhecidos notarialmente, filmes de apresentação, powerpoints, cd’s, várias coleções de desenhos, curriculum dos concorrentes, prémios obtidos, quantos anos na profissão, tudo escrutinado: o quê, o como e o quando de cada documento, prémios, concursos, o que se ganhou, quem foi e por quanto??? E nós, arquitectos, numa azáfama imensa a coligir a informação, a compatibilizar ideias, a consolidar a equipa, a discutir preços, a descrever, a procurar provas, a pesquisar dossiers com contratos  antigos, que agora já não se fazem, e tudo num alvoroço até ao dia da entrega.

De seguida vem a abertura das propostas e …

E não, não fomos classificados em primeiro lugar. E depois vem o vazio sem que a proposta apresentada venha a ser divulgada, tudo delapidado numa burocracia castradora. O resultado da asfixia que nos consumiu na véspera e nos dias anteriores fica a perdurar, com o tempo a passar e os papéis que não se arranjavam, as ideias que se discutiram e que finalmente tomaram uma forma e passaram a constituir um espaço criado para servir um propósito.

Mas não, ninguém vai saber disso, porque as ditas provas de que somos arquitectos a trabalhar há dez, há vinte, há trinta anos, são mais importantes. E se não chegam somos desclassificados porque afinal o trabalho era como consultor, não era como arquitecto, mesmo que o trabalho fosse de arquitectura, e lá vai a participação para o lixo, lá fica a ideia arquivada num caixote onde ninguém a vai ver mais, nem falar, nem discutir.

Aquele objecto que criámos com dedicação e empenho, com uma equipa colegial, aquele objecto que fomos alimentado durante meses, é depois desperdiçado e passa a fazer parte dum anonimato que nunca vê a luz do dia, nem é exposto a par dos trabalhos de outros colegas, nem merece um agradecimento, nada, porque a entidade promotora se reserva o direito de não dar prémios, de não dar satisfações, nada. Pois, mas há que respeitar os critérios do júri, muitas vezes mal explicados, enrolados em nebulosas justificações de protecção de privacidade sobre informações que deveriam ser públicas, ou ancoradas no superior interesse público, que não é explicado.

E quem são os membros do júri? Numa sociedade pequena como Macau há tantas cumplicidades e por mais anonimato que se pretenda há sempre um traço, um risco que se reconhece, uma amizade que se premeia. Quem é o júri? Alguém que conhece alguém, e que brinca com as pontuações, mais aqui e menos ali, às vezes porque sim, e tudo fica no secretismo das entidades oficiais.

Para que haja mais transparência quanto aos critérios de selecção adoptados será bom que as decisões do júri sejam conhecidas e possam ser aferidas, comentadas, comparadas, será igualmente saudável que as diferentes propostas sejam expostas ao público. Há que incentivar o criticismo em arquitectura, pois é a imagem urbana que está em causa, certamente seremos beneficiados com isso e a cidade de Macau também.

 

Maria José de Freitas

Arquitecta | ICOMOS-SBHSG

Doutoranda DPIP3-UC.PT

mjf@aetecnet.com

 

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