Exigência e inclinações

Continuamos a procurar entender, na Sociedade actual e, concretamente, nesta terra de Macau, desde longa data, chamada Cidade do Nome de Deus, o porquê de muitos se manifestarem tão apáticos, indiferentes ou até mesmo relutantes em fazer qualquer esforço para compreenderem ‘a experiência de Deus’ nas suas vidas. Sobre o assunto deixemo-nos conduzir pelas palavras do Evangelho a ser proclamado na Assembleia Cristã do próximo Domingo, o Décimo Terceiro do Ano Litúrgico.

Neste caminhar para Deus, normalmente lento e pausado, o ensinamento de Jesus Cristo parece chamar a atenção para dois aspectos a terem de ser tidos em consideração. Por um lado, a Exigência do caminho para poder seguir verdadeiramente a Deus, o Senhor Jesus, aqui no texto, o que é bem expresso pelas Suas próprias palavras, ao convidar alguém perto de si, dizendo: «Segue-Me… Deixa… Tu vai…». Por outro lado e complementarmente, as Inclinações  do ser humano, que as observações do Senhor Jesus nos fazem perceber que nem sempre e nem todos os sentimentos e desejos do coração são tão cristalinos, orientados para Deus, só e apenas: «Seguir-te-ei para onde quer que fores…».

                

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A experiência do ‘encontro’ de Deus com o ser humano, seja ele homem ou mulher, tem Exigências. Escutemos as respostas daqueles dois discípulos a quem Jesus Cristo se dirigiu. O primeiro respondeu-Lhe, dizendo: «Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar o meu pai». O outro retorquiu-Lhe no  mesmo sentido: «Deixa-me ir primeiro despedir-me da minha família». 

Reflectindo, com certa argúcia, coragem e perspicácia psicológica, verificamos que quantos adultos baptizados, mas ‘ditos’ não praticantes, se encontram nesta mesma situação e argumentam da mesma maneira. Quer queiram ou não, ou quer gostem ou não… A sua experiência de fé está encerrada  ou fechada nas memórias agradáveis de tempos passados, de Infância, de Adolescência e, talvez, de Juventude. Desse tempo, se recordam do ambiente, do plano de formação e da pedagogia, com catequistas ‘amorosas’, que não mais se esquecerão. Entram igualmente no quadro o pai, a mãe, a avó, o avô, a tia, o tio.  Enfim, tudo está gravado no álbum de família. 

A situação, porém, agrava-se quando constatamos que, no suposto caminho de Fé, se permanece preso à Infância, à Adolescência, à Juventude não só nas recordações mas também na parte afectiva. O Corpo cresce. A Inteligência desenvolve-se.  A Vontade amadurece. Mas o Coração guarda tudo, ‘as coisas de Deus’, como criança, adolescente ou jovenzinho. Onde está ‘a pedagogia do Coração’, que conduz ao crescimento, à maturidade da Fé que transforma o discípulo de Cristo em ‘apóstolo’, capaz de ler, na Fé, os acontecimentos e de, na Fé, transformar a Sociedade e o Mundo que o rodeia?! 

Indo mais fundo e penetrando mais intimamente na experiência humana que nos é descrita nesta passagem da vida de Jesus. Embora, o homem e a mulher sejam intrinsecamente chamados ao encontro, ao diálogo e à intimidade com Deus, percebemos,  pelo texto evangélico, que nem todas as Inclinações que brotam do seu Coração, mesmo aparentemente muito espirituais, nem sempre provêm de Deus. Tomemos os dois exemplos que a narração nos apresenta. 

Perante a falta de hospitalidade dos Samaritanos para com Jesus, que ia a caminho de Jerusalém, os irmãos Tiago e João, também chamados, por sinal, Filhos do Trovão,  exclamaram: «Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu que os destrua?» O Mestre repreendeu-os com firmeza. Não sabiam o que estavam a dizer, apesar de parecerem muito espirituais e zelosos nas suas intenções.  Não passava de um engano muito sibilino, uma ‘máscara espiritual’.

O outro caso é ainda mais flagrante: «Seguir-te-ei para onde quer que fores…». À primeira vista, parece um oferecimento de si mesmo deveras genuíno, uma vocação apostólica. Mas, afinal, não passava de uma aparência de um real e verdadeiro chamamento a seguir o Senhor Jesus. Na realidade, faltava-lhe assumir o ser pobre e humilde, critério de vida essencial a toda e qualquer pessoa que deseja seguir a Jesus Cristo: «As raposas têm as suas tocas e as aves do céu os seus ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça».

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‘O Mundo dos Afectos’, na sua compreensão profunda, global e íntima, constitui, no meu entender, a problemática humana mais necessária a ser encarada nestes ‘Tempo Modernos’, que já entraram no Terceiro Milénio. Atrevo-me a dizer que o dom do Século XX, a Psicologia de Profundidade, entendida na sua dimensão humana e existencial e aberta ao espiritual, e não meramente académica e técnico-científica, ainda está por encarnar na Humanidade. A sua integração na Formação Integral do Ser Humano contemporâneo assume cada vez mais uma importância primordial de carácter civilizacional.
Luís Sequeira, sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau

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Jesus Cristo

A tão chamada ‘Cristianíssima Europa’, reunida em Assembleia, anos atrás, recusa que na sua Constituição seja declarado que a sua identidade e formação está intimamente ligada à experiência cristã. Depois deflagram duas polémicas ou controvérsias. Uma a dos crucifixos nas salas de aula. Na outra,  discute-se a justeza de manter na vida de sociedade as festas e feriados relacionados com o calendário cristão…

Ficamos perplexos! Que significa tudo isto? Em traços muito simples e gerais,  os factos parecem revelar  que o Cristianismo,  particularmente a  Igreja Cristã, perde sentido na vida de muitas pessoas. A apatia perante a Religião Cristã cresce a olhos vistos e o consequente abandono da prática cristã é proporcional às Igrejas que se apresentam cada vez mais vazias.

Ao constatar esta realidade, somos como que levados a perguntar se Jesus Cristo tem ainda significado na Humanidade,  no começo do Terceiro Milénio. Ao mesmo tempo e por outro lado, não podemos permanecer indiferentes ao convite do mesmo Senhor Jesus para acreditar n’Ele e segui-Lo. E mais ainda, dar continuidade ao Seu pedido, na hora da despedida: «Ide… Ensinai todas as nações, baptizando-as em  nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo».

Debrucemo-nos sobre Macau,a Cidade do Nome de Deus, também ela Comunidade Cristã de longa data. Creio poder afirmar que a população cristã, e mais exactamente a Comunidade católica, e em particular, aquela que fala português, apresenta, no seu conjunto, as mesmas características das congéneres europeias: o abandono da prática religiosa e a ausência dos valores cristãos no quotidiano da vida pessoal, familiar, profissional, social e política.

 

Tentando compreender a situação. Se, por um lado, podemos afirmar que essas atitudes de abandono, apatia e indiferença perante a vida de fé são consequência de um ‘estilo de vida’ que domina, nestes ‘tempos modernos’, a existência dos crentes. Na verdade, continua a verificar-se um Consumismo compulsivo nos hábitos de viver das pessoas; um Racionalismo técnico-científico muito restritivo e tirano no encarar as soluções da vida; e, finalmente, um Materialismo ausente de sentido espiritual e transcendente da existência humana que asfixia e atrofia o desenvolvimento real e verdadeiro de todo o ser humano.

Contudo, por outro lado, não podemos deixar de afirmar que, do mesmo modo, uma ‘formação’ ou uma ‘pedagogia’ insuficiente pode não conseguir igualmente ajudar os crentes ainda crianças, adolescentes ou jovens a alcançar uma vivência madura, empenhada e responsável da fé. Neste aspecto, sou bastante crítico. A formação à fé parece focar-se excessivamente na mente e na racionalidade e, consequentemente, privilegiar o saber a doutrina. Complementarmente, dá-se  de igual modo uma ênfase muito forte à prática dos das devoções, dos sacramentos, por exemplo,  ir à missa ao Domingo, à Confissão… Mas onde está, então, a ‘pedagogia do coração’. Saber ele ou ela colocar o seu mundo íntimo, o das emoções, sentimentos e afectos, diante de Deus. Educar, portanto, o jovem ao ‘encontro pessoal’ com Deus, ao ‘estar a sós’ com Deus, falar de ‘coração a coração’ parece fundamental. Assim, se abre o caminho à  `oração de intimidade’ e não ficar apenas  no ‘recitar orações’, por mais belas que sejam!

A insensibilidade do ser humano, hoje, à presença e à relação com Deus está profundamente ligada ao facto de se dar maior importância à ’formalidade’, externa e racional,  da vida de fé e  menos à relação de `intimidade’ com esse mesmo Deus.

Creio que o Papa Francisco, como notável líder espiritual, está a tentar fazer compreender a todos, homens e mulheres deste século, o sentido profundo da nossa ‘humanidade’ e aí saber encontrar igualmente a presença inefável da ‘divindade’, ‘à imagem e semelhança’ do Senhor Jesus Cristo.

 

 Renovação Espiritualimpõe-se na Comunidade Cristã da Cidade do Santo Nome de Deus de Macau.Muitos continuam longe dos Templos de Deus, porque a experiência de Deus não lhes toca o âmago das suas vidas, nem o coração se sente sensível à presença íntima desse mesmo Deus. Outros muitos vivem levados por um certo bem-estar do redopiar das suas recitações e devoções.

Torna-se cada vez conhecida na Igreja Universal e Local a chamada dos Papas à necessidade premente de uma Nova  Evangelizaçãopara enfrentar o Mundo actual.  Algo, ao mesmo tempo,  diferente, mas eficaz. Mais uma vez, procurando fundamentalmente que a Mensagem Divina seja feita humana e carne, à maneira de Jesus Cristo encarnado, e o Ser Humano entenda que ‘o seu Coração só em Deus poderá definitivamente descansar’.

Surgem já Sinais de Esperança. Jovens empenhados na Fé e no Serviço aos Outros crescem em número e multiplicam-se.Entre os mais jovens, há mártires pelas grandes causas, como a Justiça, a Liberdade, a Protecção da Natureza Encontram-se, com mais frequência, nas gerações mais novas de casados, de profissionais, homens e mulheres capazes de levar até às lágrimas o verdadeiro sentido do Amor, da Família, da Vida, da Moralidade, da Ética, da Dignidade Humana, da Beleza, de Deus.

 

Luís Sequeira

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O Espírito Santo e os maus espíritos…

Era uma promessa de Jesus Cristo. Ele enviaria, mais tarde, o Espírito Santo: «Eu rogarei ao Pai e Ele vos dará outro Consolador, para estar convosco para sempre, o Espírito de Verdade, que o mundo não pode receber, porque não O vê nem conhece, mas que vós conheceis porque habita convosco e está em vós… O Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em Meu nome, Esse ensinar-vos-á todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito». De facto, cinquenta dias depois da Sua Ressurreição, assim acontece. A Igreja celebra este acontecimento naquele que é chamado «O Domingo de Pentecostes».

No entanto, algo surpreendente Se realiza em nós. Tornámo-nos,  efectivamente, «templos do Espírito Santo»,como o próprio Senhor Jesusafirmou  aos seus discípulos mais íntimos, os Apóstolos,«O Espírito Consolador… o Espírito da Verdade… o Espírito Santo… Ele habita convosco e está em vós».

Mas, se assim é, como se compreende que nós, homens e mulheres do Terceiro Milénio, não consigamos perceber essa presença do Espírito de Deusdentro de cada um de nós!? A situação agrava-se ainda mais, quando, noutros momentos, particularmente, nas situações difíceis, de crise e caos, acabamos,  tantas vezes por imaginar as pessoas com que nos deparamos como se fossem ‘lobos ou raposas’, ‘tigres ou leões’, ‘monstros ou vampiros’. Pior. Até chegamos ao ponto de, nalgumas ocasiões de aflição e amargura, afirmar cegamente que vimos ‘fantasmas’, ‘espíritos’ e  ‘demónios’ na realidade do nosso dia a dia. Então, aqui, em Macau, este aspecto atinge todos os escalões da sociedade, desde dos mais pobres aos mais abastados e ricos. Perguntem aos ‘mestres’ do ‘feng shui’ quem os vai consultar e em casa de quem eles se apresentam para dar a ‘reviravolta’ às salas!

Eis «Templos de Deus»que bem precisam de uma boa vassourada do Espírito Santo de Deus para limpar toda a tralha malsã que se acumula nas profundezas do seu coração humano.

E… isto acontece, muito secretamente, nas vielas e nas avenidas da «Cidade do Nome de Deus»…!

Todas estas situações do homem e mulher modernos perante a questão da  presença de Deus’ no íntimo si mesmo e no Mundo estão essencialmente ligadas à sua própria natureza humana, à sua estrutura psicoafectiva, ao seu Coração de carne, cheio de emoções, sentimentos e afectos. Não constitui, primariamente, uma dificuldade ‘espiritual’. Jesus Cristo é cristalino no Seu ensinamento: «O Espírito Consolador… o Espírito da Verdade… o Espírito Santo… Ele habita convosco e está em vós». O problema situa-se ao nível ‘humano’. Por isso, é necessário tentar entendê-lo.

A insensibilidade do ser humano, hoje, à presença de Deus na sua vida  está fortemente radicada no estilo de vida que ele está a assumir como seu próprio, e julgando ser capaz de lhe dar felicidade.Ilusão, ilusão, ilusão! Jamais uma vida dominada pelo Consumismo compulsivo,  tiranizada por um Racionalismo técnico-científico e subtilmente manipulada por um Materialismo ausente do sentido espiritual e transcendente da existência humana trará alguém, a longo prazo e intimamente,  à plenitude do seu desenvolvimento e à alegria de viver.

Quanto ao ver os outros como ‘lobos’, ‘raposas’, ‘víboras’ não parece ser uma atitude muito própria de quem é possuído pelo «Espírito Santo». Contudo, é o próprio Jesus, o Mestre Divino, que chama atenção dos seus discípulos, dizendo que eles, na Missão, serão como «…cordeiros entre lobos…». O mesmo Senhor chama «raposa»a Herodes.  E «raça de víboras» aos escribas e doutores da lei. Aqui o que Jesus Cristo deseja afirmar é a importância de um coração livre e cheio da força de Deus que não se atemoriza perante nenhum homem ou mulher, quando está em causa a obra de Deus.

Por fim, há que reconhecer que, nos momentos de maior angústia, onde parece que até Deus desapareceu e nos abandonou, facilmente toda a nossa estrutura psicoafectiva parece ver vividamente «fantasmas»e «maus espíritos».De novo, somos chamados à confiança total em Deus que é Pai e que em Jesus Cristo, Morto e Ressuscitado, venceu todo o Mal.

Lembremo-nos que, quando Jesus apareceu aos Seus Apóstolos, durante a tempestade do Mar Tiberíades, eles gritaram aterrados, pensando que era um «fantasma».

 «Não tenhais medo… Não se perturbe o vosso coração…».Estas são as palavras consoladoras que Jesus disse naquela altura, mas que nos repete, hoje, quando nos invade «a Angústia mortal».

«O Espírito Santo… Ele habita convosco e está em vós».

 

Luís Sequeira

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A ruptura nos modelos de organização do trabalho na dinâmica identitária de Macau

O trabalho configura-se como uma das principais dimensões da vida do homem. Influencia a sua inserção na sociedade, configura os espaços de mobilidade social e consolida-se com um dos factores constitutivos da identidade e identificação dos indivíduos, interferindo tanto no sentido da sua valorização e inserção na sociedade quanto, no sentido de sua desvalorização, podendo até potencialmente contribuir para a sua exclusão social.

Ora os modelos organizativos do trabalho na actual dinâmica que a sociedade macaense vai impondo, vão cada vez mais sendo absorvidos pelos “tiques” da modernização e consequentemente pela vaga da modernidade, apelo este que está a ser reforçado cada vez mais pela conjuntura de uma China moderna que se reflecte em Macau nos discursos inerentes à grande missão da Grande Baía.

O reflexo a médio e longo prazo será, porventura, da ruptura do trabalho como elemento social dos “modos de vida” para o inserir como actividade integrada num modelo organizativo que proporcione um “salário” (rendimento) que nos permita optar por um determinado “estilo de vida” proporcional aos ganhos auferidos.

Este paradigma está, como é óbvio, alicerçado numa conjuntura dos modelos do capitalismo e enraizado num padrão cultural que deu e dá sentido à civilização Ocidental reforçado por um processo de globalização que se diz universal.

O resgate histórico do significado do trabalho na sociedade apresenta duas visões ou perspectivas aparentemente contraditórias e que me merecem destaque. Na primeira acepção, a palavra trabalho deriva etimologicamente do termo “tripalium” (instrumento de tortura), que remete para a sua associação a fardo ou sacrifício. Contudo, trabalho também pode ser entendido como “labor” ou “laborare”, remetendo-o para as tarefas inerentes às actividades agrícolas enquanto única actividade económica conhecida até ao surgimento da revolução industrial, portanto, com o sentido de obter os bens necessários para o nosso sustento, cultivar para se realizar. Na primeira, a concepção está relacionada à punição e castigo, na segunda como ocupação e realização.

Assim sendo, a organização do trabalho integrada no contexto social, pode configurar quer um sacrifício, quer uma realização, apontando até a possibilidade de possíveis nexos entre os distúrbios causados pelo exercício de certas actividades profissionais específicas daí decorrentes.

No contexto actual da dinâmica da sociedade macaense a conjuntura aponta cada vez mais para o trabalho como actividade desassociada dos “modos de vida”, oferecendo, em alternativa, a inserção em modelos organizativos que fraccionam os elementos constitutivos de pertencer a uma comunidade de trabalho para catalisar a afirmação do individual nas fórmulas que vai oferecendo, ou seja, nesta acepção o trabalho desloca-se do sentido de vida que o mesmo preenche na estrutura social para edificar o trabalho como fonte de rendimento.

Tal concepção anula a ideia primordial de que o trabalho configurava uma das principais dimensões da vida do homem, interferindo na sua inserção na sociedade e destacando-se como um dos factores constitutivos da identidade dos indivíduos.

Nessa concepção, o trabalho significava mais do que uma ocupação ou um acto de produzir, traduzia também o desenvolvimento e o preenchimento da vida das pessoas. O trabalho é por si só uma actividade intencional, ou seja, tem como finalidade a produção de valores por meio do uso e da apropriação de elementos da natureza. O indivíduo produz para se reproduzir, reproduzindo tanto as suas relações com a comunidade como a própria comunidade em si, ou seja, o trabalho é também simbólico, produzindo significados sociais que fazem parte do modelo cultural onde nos inserimos.

A ruptura a que vamos assistindo na sociedade macaense, como advento da modernização e da modernidade, irá por certo acentuar as reformulações identitárias dos seus protagonistas, que passarão também a assumir novos valores e novas ambições num quadro que enfatiza o individualismo em prol do colectivo ou do comunitário. Como lidar com esta mudança de paradigma será, porventura, um dos maiores desafios com que a China vai ter de se confrontar, já que o processo económico está imparável.

 

Carlos Piteira

Investigador do Instituto do Oriente

Docente do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas / Universidade de Lisboa

 

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