Verdadeiramente coerente

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«Um homem tinha dois fihos. Foi ter com o primeiro e disse-lhe: ‘Filho, vai hoje trabalhar na vinha.’ Mas ele respondeu-lhe: ‘Não quero.’ Depois, porém, arrependeu-se e foi. O homem dirigiu-se ao segundo filho e falou-lhe do mesmo modo. Ele respondeu: ‘Eu vou, Senhor.’  Mas,  de facto,  não foi.»

O que aqui chama fortemente a nossa atencão é o contraste  das tomadas de posição dos dois irmãos em que o primeiro, ao princípio, diz não ao pai, mas, por fim, acaba por aceder ao pedido paterno. O segundo filho faz exactamente o contrário. Promete que vai, mas, afinal, não aparece.

Mas, ainda o mais assinalável desta parábola é aplicação que dela faz o próprio Jesus Cristo. O irmão que, finalmente, acaba por ir trabalhar para a vinha, depois de uma primeira reacção ter sido negativa é comparavel aos publicanos usurários, às mulheres de má vida, aos criminosos como “o bom ladrão” no alto da Cruz, que, com muita humildade, pedem perdão e se abrem à acção de Deus. Enquanto que, em contra partida, o irmão mais novo é identificado com os escribas, os princípes dos sacerdotes e os anciãos do povo, que, convencidos de que são os perfeitos cumpridores da Lei, não só não se transformam ou convertem interiormente como não acreditam no Filho de Deus, feito homem, revelado no Senhor Jesus.

Indo mais fundo na meditação da parábola, somos levados também a  compreender melhor a nossa natureza humana, a nossa própria pessoa: nós, como homens e mulheres. Descobrimos que todos nós podemos viver – para nosso grande espanto talvez e para além daquilo que possamos imaginar – num ambiente de certa duplicidade e ambivalência.  Em termos simples e directos, podemos aparentar ‘ser maus’ e, na verdade, ‘sermos bons’: isto é, externamente, parecer ser um brutamontes, rude e bronco, mas, no nosso interior, ser ‘uma jóia de pessoa’.

Infelizmente, a parábola transporta-nos igualmente para a situação contrária. Há quem pareça muito ‘boa pessoa’ – até muito ‘espiritual e santa’ –  mas, verdadeiramente, no mais íntimo, não passa de um farsante, um manipulador e o seu coração é como ‘um ninho de víboras’, como dizia um grande escritor da literatura francesa. Quanto perante estes o Senhor Jesus, no seu ministério, se mostra implacável no desmascarar a sua incoerência, a sua hipocrisia e a sua maldade camuflada e serpentina : « Hipócritas!  Raposa manhosa !»

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Creio que neste texto evangélico se nota ainda como que um apelo ao espírito de compreensão e misericórdia para com o homem do primeiro caso, que disse não, ao início, mas, depois, arregaçou as mangas e foi. No segundo, porém, sente-se maior rigor na análise da sua experiência, desmascarando o engano das palavras  e a irresponsabilidade da acção.

No rescaldo do Tufão Hato que deixou a nu as inconsistências e insuficiências das infra-estruturas e a ausência já escandalosa de um plano global urbanístico da «Cidade do Nome de Deus» e de todo o território,  assim como as incompetências de alguns Serviços Administrativos e seus Responsáveis, pergunto que estamos a fazer? As reuniões parecem ser convocadas. Mas, lá dentro diz-se a Verdade? Assumem-se, com humildade e coragem as Responsabilidades? Traçam-se Políticas e Estratégias com visão, rasgo e competência? Os Planos, os Programas, as Acções são coordenados por verdadeiros profissionais? Está tudo a ser trabalhado e organizado para ‘o bem comum’ e de toda a população ou continuam as manigâncias das grandes e costumadas  Companhias da Construção Civil e  Imobiliárias? O Erário Público é usado sério e propriamente?

Terminaram as Eleições. Apareceram caras novas, cheias de Esperança. Será a Assembleia Legislativa capaz de ser mais incisiva nos valores que contribuam para uma sociedade mais igualitária, justa e harmoniosa? Serão eles, deputados, homens e mulheres, defensores da liberdade e da integridade e, ao mesmo tempo, verdadeiros exemplos de competência e de responsabilidade no exercício dos seus mandatos?

 

Pessoalmente, possuímos todos um mundo de inúmeras ‘máscaras’ que cobrem e disfarçam o nosso interior e afectam as nossas atitudes exteriores.  Precisamos, portanto, de maior transparência nos nossos pensamentos, nos nossos sentimentos e nos nossos movimentos. Como, mais uma vez, nos diz Jesus Cristo, o  Mestre : «Que o vosso  modo de falar seja : ‘Sim, sim. Não, não ! » 

Rematando: que as nossas palavras sejam  confirmadas pelos nossos  actos e que os nossos actos nunca contradigam as nossas palavras.

 

Luís Sequeira, Sacerdote e Antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço todas as semanas, sempre às sextas-feiras.

 

                    

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Fogos-fátuos

1.Eleiçoes

Agora que o fogaréu das eleições entrou em fase de rescaldo e que o natural optimismo  que brotou no encalço da longa noite eleitoral de domingo começa a esmorecer e no seu lugar se abalança uma visão mais desafrontada das novas circunstância políticas do território, importa retomar o fio à meada do pragmatismo e procurar perceber , de facto, o que poderá mudar no hemiciclo. A resposta, dada a natureza subserviente e pouco dinâmica da Assembleia Legislativa, não pode ser outra senão um “POUCO” carregado de um frustrante sentido de incompletude e de vã glória; aceite-se ou não, a entrada de Sulu Sou e de Agnes Lam no hemiciclo dificilmente beliscará  o status quo de uma câmara que se encontra agrilhoada desde logo às suas próprias circunstâncias, de não ser carne, nem ser peixe, antes um misto esquizofrénico de interesses instalados e de associativismo mascarado de vontade popular, temperado de quando em vez por uma ténue, mas genuína vontade de abertura política.

Se de Leong Sun Iok não é legítimo esperar outra coisa senão o reiterar do alinhamento com o Governo – o de Macau e o de Pequim – no quadro das políticas macroestruturas, de Agnes Lam pouco mais se poderá dizer por agora do que o óbvio. E o óbvio é que a académica da Universidade de Macau deverá constituir-se como a maior incógnita do novo hemiciclo. Auto-posicionada ao centro de um espectro político que é eminentemente conservador, Lam já insinuou por várias vezes desde que foi eleita que privilegia a ideia de compromisso, quer com as forças que considera mais conservadoras, quer com os parcos actores que vê como mais progressistas. O que em qualquer outro lado poderia ser visto como um sinal de diálogo e de estabilidade, em Macau é o afirmar de uma fraqueza. Minada por compromissos, mais ou menos evidentes, está a Assembleia Legislativa, a começar pelo pacto de subordinação e inércia que mantém deputados e agentes legislativos reféns de uma massiva preponderância do Governo.

A Sulu Sou, rosto do ímpar protesto que em Maio de 2014 colocou cerca de 15 mil pessoas na rua, cabe o estatuto de “grande lufada de ar fresco” na câmara parlamentar do território, mas mesmo o seu posicionamento e a sua performance estarão incontornavelmente limitados. As regras do jogo, dada a evolução (ou retrocesso, caso prefiram) política registada na vizinha Região Administrativa Especial de Hong Kong, estão viciadas e não o favorecem: movido por uma natural cautela, Sulu Sou dificilmente fará florir na Assembleia Legislativa a irreverência que tantas vezes semeou pelas ruas.

Se a quadratura não se apresenta menos inquinada do que o costume e o novo hemiciclo pouco ou nada trará ao panorama político da RAEM, o que mudou, então com as eleições de domingo? Num território que não morre de amores por eleições e em que tudo foi feito para que o processo eleitoral fosse o mais redutor e adstringente possível, a segunda vida dos movimentos democráticos – e neste particular, em específico da Associação Novo Macau – não pode ser recebida senão como um trunfo da pluralidade e, já agora, como uma pequena vitória de todo e qualquer residente do território, mesmo que insista em demarcar-se de ideias e conceitos como democracia, sufrágio directo ou responsabilização política.

Circunstâncias internas e externas transformaram, ao longo dos últimos meses, estes e outros princípios em assuntos de tal modo incómodos que nem durante o período de campanha eleitoral lhes foi dado o espaço que eventualmente mereciam. Se não bastasse o pavor semeado pelo espectro do enfraquecimento dos princípios democráticos em Hong Kong, em Macau a acção directa de uma certa mão invisível do establishment  – que tudo fez para impedir o sucesso nas urnas de certas candidaturas incómodas, como as de Pereira Coutinho ou as de Sou Ka Hou – tem contribuído para a edificação de paliçadas de silêncio no seio da sociedade civil do território (seja ela lusófona ou chinesa), mesmo quando o que está em risco são os direitos, as liberdades e as garantias de quem visita ou reside em Macau.

A resposta gizada nas urnas pelo eleitorado do território no último domingo foi, quero crer, um grito de protesto contra a insustentável aspereza que se apoderou da gestão da causa e da coisa pública.

Feita a ressalva, não se iluda quem se entusiasmou desmedidamente com o resultado do escrutínio de 17 de Setembro: Pequim é quem segura a cana que embala a cenoura das expectativas de quem vive e trabalha em Macau. O burro? Esse, fica ao diligente critério dos estimados leitores.

 

Marco Carvalho

Director do Ponto Final

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A diferença

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Fotografia: António Mil Homens;

Narra-nos a parábola deste Vigésimo Quinto Domingo do Ano Litúrgico que um grande proprietário contratou  trabalhadores para a sua vinha a diversas horas do dia, pagando, no entanto e surpreendentemente, ao fim da jornada, o mesmo salário a todos. Claro, os da primeira hora começaram a resmungar, pedindo justiça. Mas, o dono da propriedade respondeu-lhes, dizendo : «Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?»

Tomando a «Palavra de Deus » como primeiro ponto de referência e critério de orientação das  nossas vidas, pergunto, então: que sentido têm ou que conexão pode existir  entre essas palavras com um acontecimento tão importante como foi a Eleição dos Deputados para a Assembleia Legislativa de Macau?

Outro grande momento se está a viver: a realização da primeira Assembleia Geral das Nações Unidas, sob a presidência do português António Guterres e com a presença de Donald Trump, o recém-eleito Presidente dos Estados Unidos da América.  Uma vez mais, como ler este facto político de importância primordial para a harmonia da Comunidade das Nações, à luz da «Palavra de Deus» ?

Como entender ainda a  experiência destruidora do Tufão Hato, quando já  estamos a viver o rescaldo de uma catástrofe de que há só memória ter acontecido  apenas cinquenta anos atrás ?

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O comentário de Jesus Cristo, dizendo: «Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?» parece deixar claro que, positivamente, há uma « diferença » entre a perspectiva do «reino dos Céus»,  representada aqui pelo dono das vinhas, e a maneira de pensar e sentir dos trabalhadores da terra. Percebe-se que o Senhor Jesus, o Mestre, põe, em evidência, o contraste entre o critério divino e aquela que é a reacção imediata da sensibilidade humana.

Esta contínua tensão entre o humano e o divino na nossa humanidade, homens e mulheres de carne e osso, é, de facto, algo de que não só não nos podemos descartar, mas, antes pelo contrário, temos que aprender  a saber viver com ela. 

Mais. Temos que aprender como Nicodemos, aquele que, à noite,  foi falar com  Jesus e que lhe explicou o que é  ‘ser carne’ e ‘ser espírito’.  Fê-lo cair na conta que, como humano, feito de ‘carne’ e de ‘espírito’, deve tentar crescer sempre, pela acção do Espírito, deixando de parte aquilo que pertence à sensilidade primária e imediata da ‘carne’ e aos valores fáceis e superficiais do ‘mundo’.

Nesta mesma ordem de ideias, do humano e divino em nós, há ainda um outro diálogo esclarecedor. Certo dia, Pedro começa a repreender Jesus,  por Este lhe ter dito que Ele, o Senhor  « tinha de ir a Jerusalém e sofrer muito, ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar.»  Jesus Cristo responde de imediato e muito serimente ao seu interlocutor: «Afasta-te de mim, Satanás! Tu és para mim um estorvo, porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens! ». Pedro não entende o valor libertador e salvador da ‘Cruz’. A sua sensibilidade humana e natural percebe-a apenas como um mal.

Há que ir, portanto, mais fundo na compreensão da realidade para, assim,  poder encontrar as verdadeiras vias de solução. Muitas e muitas vezes, não são as primeiras reacções da nossa sensibilidade que trazem o bom resultado. É, antes, a realidade que está para além das primeiras impressões, escondida a maior profundidade das aparências e muito mais dentro da situação caótica que a vida nos apresenta.

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Quanto àqueles que foram eleitos pela população de Macau é seu dever e obrigação porem-se, inteiramente, ao serviço da Comunidade, na construção de uma sociedade mais igualitária, e sempre pronta a assistir os mais frágeis, os indefesos e ‘os mais pobres entre os mais pobres.’

Não podemos esquecer, no entanto, que, entre os que já se sentaram ou ainda por lá estão no hemiciclo legislativo, vários tornaram-se  escândalo social, pela sua notória sede de proeminência, predomínio e poder. Outros houve que tudo fizeram  para ganhar maior influência nos lobbies da sociedade de Macau. Por fim, é vergonhoso os que se aproveitáram da posição política e legislativa para fazer render os seus próprios negócios, muito concretamente, no sector imobiliário… Quanto lamento entre os casais jovens! Coloane já treme, ouvindo as escavadoras e outras máquinas insurdecedoras a destruir ‘os seus espaços verdes’.

Se nos voltamos para as Nações Unidas: será defender arrogantemente os interesses nacionais, embandeirados de fervor patriótico,  mas ameaçando a existência dos outros, o caminho para a Paz, Solidariedade e Harmonia entre nações? Lançar, irreverentemente, Acordos e Protocolos  sobre as mesas das Conversações,  apelidando-os, irónica e sarcasticamente, de ‘obsoletos’ e inúteis, ajudará  a melhorar a compreensão entre os povos e a levar à partilha de recursos naturais? Impor, continuamente, exigências aos outros, sem humildade de reconhecer as inúmeras contradições diplomáticas recentes e os erros históricos flagrantes que já lá vão … É esse o caminho da Esperança de uma nova Ordem mundial?

A união do povo de Macau, pobres e ricos, nas operações de limpeza e reanimação da ‘Cidade do Nome de Deus’ permanece e permanecerá na memória de todos, novos e velhos, idosos ou crianças.

Mas será este ‘caos’ princípio e fundamento e de uma nova ‘criação’, a  ‘Cidade de Macau do Século 21’ ? Apesar da dor e de tanta destruição, somos chamados a redescobrir um manancial de novas possibilidades que nos projectará num futuro mais risonho. Vivemos, direi, um momento previlegiado.

Temos nós a humildade e a coragem, de todos juntos,  redesenhar e reconstruir a ‘Macau Século 21 ’, onde se irmanam moderno e antigo,  ocidente e oriente,  chinês e português ?

 

Luís Sequeira, Sacerdote e Antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço semanalmente, sempre às sextas-feiras.

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O Perdão

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O texto do Evangelho deste Domingo, o Vigésimo Terceiro do Ano Litúrgico, apresenta-nos Jesus Cristo a explicar o sentido mais profundo do ‘perdão’. Num primeiro momento, Ele expressa um critério de vida, sobre o ‘perdoar’: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete».  Num segundo momento, descreve-nos  um homem ‘incapaz de perdoar’. Por um lado, estabelece um princípio extremamente generoso na compreensão e vivência do ‘perdão’ e, por outro, faz compreender que a pessoa humana pode chegar à situação escandalosa de não conseguir ‘perdoar’ mesmo depois de «ter sido perdoado»  magnanimamente. É o caso daquele que foi perdoado de uma dívida de dez mil talentos e, logo de seguida, não é capaz de se compadecer do seu companheiro que não lhe tinha ainda pago uma conta de cem denários.

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Tanto uma como outra posição desafiam a nossa sensibilidade imediata. Na primeira instância, ‘perdoar, uma e outra vez,  repetidamente, quase parece um contra-senso, uma ‘utopia’, algo contra a natureza. Num mundo onde todos querem medir forças,  em que cada um quer ser o mais poderoso e a retaliação é a ameaça que constantemente se profere à mesa das conversações, nas conferências de imprensa e, agora, de maneira mais moderna e sofisticada, no ‘twitter’,  o  princípio «perdoar… até setenta vezes sete» torna-se, nos homens e mulheres de poder, uma autêntica ingenuidade.

Contudo, Cristo Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem,  no alto da Cruz, nu e trespassado pela dor que O levará à morte, grita, suplicando : «Pai, perdoai-lhes…». Gesto e palavras que muitos, na época actual e em diversos continentes, seguiram, dando eles também as suas vidas pela Liberdade,  pela  Justiça, pela Defesa e Protecção da Natureza e por Deus.

Na segunda instância, a de não conseguir ‘perdoar’ mesmo depois de ‘ter sido perdoado, constatamos que a natureza  humana, quando passa por momentos dolorosos e de grande carência de bens básicos, tem a tendência a fechar-se e a tornar-se muito mais egocêntrica, egoísta e agressiva, até ao ponto de perder a capacidade  de escuta,  aceitação e compaixão para com os outros que lhe estão mais próximos em grande necessidade. Ela torna-se mesmo incapaz de partilhar os seus muitos bens. Brada aos céus como ela possa levar, homem ou mulher, a estrangular as hipóteses de sobrevivência do seu  irmão, ‘o mais pobre entre os mais pobres’, de o  meter na prisão e até de o liquidar !

O Senhor Jesus e Mestre Divino é muito claro para todo aquele que, apesar da experiência de «ter sido perdoado»,  incrívelmente, não consegue ter «compaixão» por aqueles que lhes pedem clemência para as suas dívidas. O Senhor, peremptoriamente, chama-o :  «Servo mau, perdoei-te tudo… Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro».

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A atitude empedernida daquele homem da parábola, de recusar             «…perdoar e compadecer-se…» do seu colega de trabalho que lhe implorava compreensão,  é  bastante mais comum,  entre nós,  na nossa sociedade actual, daquilo que imaginamos. Quantos que, no exercício das suas responsabilidades de Governo ou, simplesmente,  administrativas, se manifestam  tão rigorosos e intransigentes com os pobres dos bairros de lata ou das zonas residenciais populares, com os imigrantes,  com certas etnias e, que, afinal, se descobre que eles cresceram  e progrediram a partir dessse mesmos estratos sociais que eles antagonizam.

Atrevo-me a tentar compreender este comportamento tão contrário ao espírito do «perdão», tão marcadamente assinalado por Jesus Cristo, e que, sem sombra de qualquer dúvida,  é condição essencial e necessária para construção de uma Humanidade mais justa, mais harmoniosa e mais feliz.

Fundamentalmente, direi que aquele «perdão», concedido pelo «Rei» da história de Jesus,  àquele «servo… um homem que lhe devia dez mil talentos» foi recebido por um  coração mal preparado. Faltava-lhe a humildade de aceitar a sua realidade,  a insuficiência de capital e a sua incapacidade financeira para pagar as enormes dívidas. Mas, pior ainda. O seu coração estava ainda ferido de vergonha e humilhação.  Sentimentos de baixa estima,  sentindo-se não apreciado pelos outros,     sentimentos de rejeição e de ser posto de parte pelos seus mais próximos e sentimentos de estar diante de um estrondoso fracasso económico-financeiro, dominavam  o seu íntimo.

Ele tinha, primeiro de tudo o mais, de aceitar a sua fraqueza,  o seu nada,  para daí partir para uma nova atitude. Ficar preso à angústia do seu insucesso, com toda a sua energia negativa, poderosa e  tortuosa, é estar a preparar para breve uma explosão de agressividade e violência  e são os mesmos com as características semelhantes às suas –  isto é, os pobres, os  imigrantes, os mais desfavorecidos da sociedade – que pagarão as fúrias do furacão afectivo.

 

Luís Sequeira, Sacerdote e Antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço todas as semanas, sempre às sextas-feiras.

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Assembleia Legislativa de Macau: desafios e absurdos eleitorais

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A RAEM elege no próximo fim-de-semana os deputados à sua câmara legislativa. Estão em disputa 33 lugares de deputados, catorze a preencher pelo sufrágio directo, doze pelo sufrágio indirecto e sete a serem nomeados pelo Chefe do Executivo entre cidadãos da sua confiança pessoal.

Trata-se da quinta eleição para o órgão legislativo depois da transferência de administração de Macau para a RAEM e o primeiro comentário que importa fazer é que o sistema (misto) de representação está estabilizado e não urge mudanças significativas. Pouco a pouco foi alargado o número de deputados para corresponder ao alargamento da base eleitoral e populacional e isso é algo significativo. Mudanças revolucionárias ditadas pelas melhores intenções tornam muitas vezes os sistemas inoperativos.

É uma opinião dominante que os deputados representam segmentos de opinião e sensibilidades político-funcionais que importa ter em conta por quem tem responsabilidades de Governo na RAEM. Durante algum tempo disse-se haver uma excessiva concentração de responsabilidades políticas no Chefe do Executivo, desvirtuando a câmara legislativa. Essa acusação é neste momento vazia de conteúdo. O que poderá se dizer é que o Governo toma em tal conta a opinião do órgão legislativo que a proficiência na actuação governativa embatuca muitas vezes na multiplicidade das opiniões. Argutos daqueles que em Dezembro de 1999 acharam que a multiplicação das sondagens de opinião – e audições públicas –  poderia gerar um negócio muito lucrativo.

O segundo comentário é que o número de listas concorrentes tem por alguma forma estabilizado, partindo das quinze em 2001, passando pelas dezoito em 2005, as dezasseis em 2009 e as vinte em 2013.  Temos este ano em compita vinte e cinco listas, vinte e quatro depois da desistência de uma das candidaturas. Tal número corresponde também ao alargamento do número de eleitores de 149 000 em 2009, para 151 800 em 2013 e muito provavelmente 153 000 em 2017. A verificar-se a tendência de eleições anteriores de cerca de 50 por cento dos inscritos nos cadernos eleitorais exercem o seu direito de voto. No futuro iremos assistir a um baixa do número de votantes acompanhando a tendência de democracias representativas de sufrágio directo e universal e de economias de mercado de sistema político dirigido.

A terceira observação prende-se com o alinhamento político das candidaturas e dos candidatos. Quando em 1999 pensávamos na evolução do sistema político da RAEM parecia-nos claro que o sector político pró-Pequim perderia representação e que o sector pan-democrata adquiria maturidade e mais tarde ou mais cedo seria o dominante em termos da preferência dos eleitores. Tal previsão falhou redondamente. Deixou de fazer qualquer sentido a divisão entre eleitorado pró-Pequim e anti-Pequim. O eleitorado de Macau refez a sua identidade numa identificação total com o arquétipo chinês que é representado pelo Executivo de Pequim e pelo regime socialista da República Popular da China. Regime do qual o eleitorado se vê parte integrante e inseparável.

A quarta observação é que as lealdades eleitorais passaram a exprimir-se numa perspectiva regionalista e grupal e não tanto pela liderança das forças tradicionais compostas pelas associações empresariais e pela organização comunista da Federação das Associações de Operários e dos Kaifongs. No quadro dos resultados de 2013, os “regionalistas” colheram 42 676 dos votos expressos e os tradicionalistas 37 778, o que dá uma vantagem de doze por cento. Por “regionalistas” entendo a Associação de Cidadãos Unidos de Macau, formada por eleitores oriundos da província de Fujian e a União Macau-Guangdong, constituída por eleitores oriundos da prefeitura de Jiangmen.

Por tradicionalistas entendo a União Promotora do Progresso (Kaifongs), a Nova União para o Desenvolviomento (Ângela Leong-SJM), a União para o Desenvolvimento de Macau (FAOM), a Aliança para a Mudança (Sector Jogo – Melinda Chan). Significa isto que a possibilidade de Macau “ser governado pelas suas gentes” é remota uma vez que são migrantes internos da Republica Popular da China a contribuírem significativamente para o aumento da população da RAEM.

A quinta observação é que o sector pró-democrata tem cada vez menos penetração nos eleitores e a sua visibilidade deve-se ao lobby que fazem junto de jornais e órgãos de informação em língua portuguesa. As listas alinhadas com a Associação Novo Macau Democrático tiveram nas eleições de 2013, 19 814 votos, o que correspondeu a um “trambolhão eleitoral”  tendo em conta os 28 589 votos que tiveram nas eleições de 2009. É de prever que nas eleições deste ano os “velhos e novos democratas”percam ainda maior aderência do voto popular, tendo aliás em atenção que o seu partido/associação se fracturou ao longo de linhas geracionais e revela-se incapaz de ultrapassar o cisma. O seu espaço natural é de 16 000 votos.

A sexta observação é da perda de acutilância e peso eleitoral da candidatura associada à ATFPM de Pereira Coutinho. Nas eleições de 2009 a lista Nova Esperança teve 12 980 votos e nas de 2013, 13 130 votos, o que permitiu à lista ter dois deputados no hemiciclo dos Lagos Nam Van. Apresentando-se como porta-voz das comunidades macaense e portuguesa, a lista de Pereira Coutinho confronta-se este ano com a multiplicação de candidatos macaenses em outras listas. Isso prenuncia uma muita provável derrota eleitoral com a sua votação a cifrar-se um pouco abaixo dos 10 000 votos. A ser assim haverá que buscar outras explicações para além da falta de identificação da comunidade macaense com o seu candidato “natural”. O estilo truculento e agressivo do candidato no ataque sistemático ao governo e às suas políticas fez-lhe perder a “chama” numa base eleitoral que é conservadora e que está envelhecida. Mas mudanças importantes estão a ocorrer no tecido laboral da RAEM. O funcionalismo público tem cada vez menor peso nas estatísticas em favor dos trabalhadores dos casinos, das empresas de serviços e culturais. A lógica do sindicalismo vertical e de classe deixou de fazer sentido a uma pequena burguesia em ascensão social.

Com o surgimento de listas ligadas aos trabalhadores dos casinos (Linha da Frente dos Funcionários do Jogo e Ajuda aos Trabalhadores de Macau) a ATFPM perdeu a guerra da sua sindicalização e quedou-se como uma lista que representa um cada vez menor número de funcionários públicos.

A última observação tem a ver com o impacto da renovação geracional em listas associadas aos interesses tradicionais e à divisão dos interesses ligados ao sector do Jogo entre listas empresariais e sindicais. Tenho a sensação que essa renovação das listas tradicionais vai trazer frutos em ganhos eleitorais. Ainda assim, é minha convicção que as listas regionalistas serão as ganhadoras do sufrágio. O que terá consequência enormíssimas na eleição do próximo Chefe do Executivo daqui a pouco mais de dois anos.

Em conclusão, o sistema de representação de Macau entrou num tempo de maturidade mas importaria assegurar a profissionalização e a qualidade técnica dos deputados que forem eleitos. Faz cada vez menos sentido que a AL funcione como uma câmara de revisão literária das propostas legislativas apresentadas pelo Executivo. O tempo que se leva a ultimar qualquer projecto legislativo é medonho.

Pergunto-me, aliás, se a administração portuguesa de Macau não tivesse tido o sentido de responsabilidade política de preparar os principais códigos do sistema jurídico local onde estaríamos hoje se esta fosse a tarefa da actual Assembleia Legislativa de Macau.

Arnaldo Gonçalves é jurista e professor de Ciência Política e Relações Internacionais. Escreve neste espaço quinzenalmente, sempre às quintas-feiras.

 

 

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A guerra que não tem fim

1.Korean War

Há feridas que nunca cicatrizam. E há guerras que nunca acabam. A 27 de Julho de 1953, há 60 anos, foi assinado o cessar-fogo que terminava os combates entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul. Mas a guerra nunca se transformou em paz, como se prova nos dias de hoje. No universo de George Orwell, “a guerra é paz, a liberdade é escravatura, a ignorância é força”. O mundo de ficção da Coreia do Norte, seis décadas após as armas se terem calado, continua vivo. O Paralelo 38 que divide as duas Coreias simboliza esta ambiguidade que faz com que, ciclicamente, os olhos se voltem para este lado do mundo onde tudo é efémero. As duas Coreias estão divididas. Uma fechou-se ao mundo, a outra tornou-se um símbolo de criatividade e eficiência. Como escreve Michael Breen no seu recente e extremamente interessante “The New Koreans”, “Até recentemente os coreanos referiam-se ao seu país como um camarão, historicamente amachucado enquanto os seus vizinhos parecidos com baleias lutavam. Nos período do último quarto de século do século passado, a imagem mudou. A Coreia tornou-se um tigre, às vezes um pouco dragão, num clube com Taiwan, Singapura e Hong Kong”. Ler os livros de Han Kang, especialmente o último “Actos Humanos”, também nos ajuda a perceber melhor a mentalidade dos sul-coreanos. E a imaginar como evoluíram, num contexto diferente, os seus irmãos do Norte.

Seis décadas de ténue paz trouxeram prosperidade e liberalismo (misturada com tempos de ditadura) à Coreia do Sul, mas no Norte a revolução apenas trouxe uma fadiga mascarada de festa militante. A reunificação da península continua longe, até porque nos últimos anos sucessivas declarações bélicas e alguns confrontos militares têm mostrado que a ferida está viva e activa. Até porque o Norte tem tecnologia nuclear. Ela não terminará enquanto a saga da família Kim não acabar. A guerra da Coreia, que durou de 1950 até 1953, foi um dos momentos críticos da Guerra Fria e de rivalidade entre dois blocos políticos, económicos e ideológicos. Tudo começou a 25 de Junho de 1950 quando as forças do Norte lançaram um ataque de surpresa contra o Sul, na altura dirigido pelo presidente Syngman Rhee. Pouco tempo depois forças das Nações Unidas, lideradas pelos EUA (e com tropa da Commonwealth britânica, da Grécia, da Bélgica, da Tailândia, das Filipinas ou da Turquia), desembarcaram no sul para ajudar as tropas deste país a repelir o ataque. A Coreia do Norte contava então com o apoio notória da China e, mais distante, da então União Soviética. Durante 37 meses a guerra foi devastadora: cerca de três milhões de soldados e civis pereceram. Os norte-americanos chegaram a ter no terreno 1,3 milhões de soldados. Os helicópteros tornaram-se um dos meios mais utilizados, algo que viria a ser reproduzido na guerra do Vietname. Os duelos no ar entre caças F-86 e MiG-15 ficaram célebres. O napalm começou a ser utilizado para apoio das forças terrestres. A capital do Sul, Seul, mudou de mãos quatro vezes entre 1950 e 1951. Muitas famílias coreanas foram separadas para sempre.

A guerra na Coreia foi também um símbolo de propaganda entre dois sistemas ideológicos que usavam a guerra para atingir outros fins. A guerra também trouxe muitos dilemas: a liderança americana dos presidentes Harry Truman e Eisenhower (aconselhada pelo general Douglas MacArthur e pelo falcão John Foster Dulles, o secretário de Estado a partir de Janeiro de 1953) pensou seriamente na possibilidade de usar armamento nuclear para derrotar as tropas chinesas. Mas a guerra teve origens mais remotas, que podem ser encontradas na rendição do Japão em 1945. A península coreana, que esteve sob domínio japonês durante 35 anos, foi dividida entre duas zonas de influência: o Norte, controlado pelos soviéticos, e o Sul (que tinha a maior parte da área agrícola), pelos EUA. Dean Rusk, outra figura cimeira da política americana desses tempos, propôs como linha de divisão o paralelo 38. Algo que tinha sido sugerido pela primeira vez pela Rússia czarista em 1896 mas que a anexação japonesa de 1910 atirara para os confins da história. Os soviéticos concordaram com Rusk.

Todos na altura estavam mais preocupados com o novo mapa político da Europa. Enquanto isso, na Coreia, os EUA asseguravam-se que Syngman Rhee se tornava presidente da Coreia do Sul e Josef Estaline colocava Kim il-sung como líder da Coreia do Norte. A ONU falhou a tentativa de reunificar o país em 1949. Os EUA estavam, na altura, mais preocupados em conter a nova República Popular da China de Mao Tsé Tung (declarada de 1949) e em preservar Taiwan. Em 1950 o secretário de Estado, Dean Acheson, dizia publicamente que a questão coreana não era prioritária para os EUA. E, na península, as tensões cresceram. A “teoria do dominó” norte-americana foi posta à prova após a invasão “relâmpago” de 25 de Junho de 1950. Truman mandou tropas para a Coreia. A ONU apoiou a iniciativa americana. MacArthur foi enviado para comandar as forças da ONU, numa altura em que, a 28 de Junho, as forças do Norte já tinham ocupado Seul. A contra-ofensiva americana e a conquista da capital da Coreia do Norte motivaram a entrada em cena das tropas chinesas em Novembro de 1950. A guerra ganhava dimensão. MacArthur, que defendia a acção nuclear e um ataque à China, foi afastado em 1951. Como pano de fundo a guerra decorreu entre extremos climáticos únicos (40 graus positivos e 40 negativos), o que mostra ainda mais a violência do ambiente. O armistício haveria de ser assinado em Panmunjom a 27 de Julho de 1953. O Paralelo 38 voltava a dividir a Coreia. A Ásia seria, desde então, marcada por esta guerra. Se a família Kim tomaria conta do Norte, o Sul seria marcado pelo longo período de liderança de Park Chung-hee, entre 1961e 1979. Os dois países seguiriam trajectórias diferentes. O sentimento anti-chinês nos EUA só terminaria após a visita de Richard Nixon à China em 1972, abrindo uma nova fase nas suas relações políticas. Mas a Guerra Fria nunca abandonou a Coreia. Afinal o passado está vivo, sem cicatrizar. E a guerra surge como um fantasma que nunca desapareceu.

 

 

Fernando Sobral, Jornalista e Escritor. Autor de “O Segredo do Hidrovião” e de “As Jóias de Goa”

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Dizer a verdade…

1.Eduardo Martins

Fotografia: Eduardo Martins

Dizer a verdade a alguém,  corrigi-lo ou corrigi-la,  exige de quem o faz ter personalidade, grande honestidade e a coragem para, em seguida, actuar. O Evangelho deste Vigésimo Terceiro Domingo do Ano Litúrgico, ao colocar esta mesma questão, vai ainda mais longe. Deixa entender também que dizer a verdade ou corrigir uma pessoa num grupo de amigos, companheiros, colegas ou, num contexto mais amplo, dentro da comunidade a que se pertence é, igualmente e de modo semelhante, uma situação de forte exigência moral. Lê-se no texto evangélico: «Vai ter com o teu irmão e repreende-o a sós. Se te escutar, terás ganhado o teu irmão. Se não te escutar,  toma contigo uma ou duas pessoas,  para que toda a questão fique resolvida pela palavra de duas ou três pessoas. Mas se ele não lhes der ouvido, comunica o caso à Ìgreja… »

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Dizer a Verdade como comportamento habitual é o que se espera de um homem ou de uma mulher dignos.  Contudo, avassala pelos inúmeros meandros da nossa sociedade actual e a todos os níveis do exercício de poder e das  responsabilidades, fora ou dentro da estrutura dos Governos, o critério permissivo, enganador e corrosivo de que  ‘ é só uma mentirita’,  ‘não faz mal a ninguém’ ou ‘é uma coisa sem importância.’ Que engano mais serpentino e diabólico! Parece que esquecemos aquilo que a simples ‘experiência da vida’ nos mostra: o mentiroso e o ladrão começam sempre por ‘coisas pequenas.’

Nesta ordem de ideias, serei mais radical. Para além de mencionar ‘as coisas pequenas’ contra Verdade que não devem ser praticadas em particular, às escondidas ou muito privadamente,  chamo também a atenção de que não podemos também ignorar ou deixar passar despercebido tudo aquilo que se passa no mais ‘íntimo’ de cada um, antes de tomar qualquer iniciativa, em nome da Verdade.

É que sentimentos, por exemplo, de inveja, vitimização, solidão, tristeza, ou medo conseguem perturbar o equilibrio emocional de uma pessoa a tal ponto que ela não consegue sentir, ver e decidir-se pela Verdade. De igual modo, pensamentos de orgulho, auto-suficiência, superioridade, megalomania e menosprezo dos outros podem levar a ocultar, rebaixar ou exagerar a Verdade. Por fim, reconhecer em si inclinações movidas por impulsos de ser o primeiro e o mais poderoso, de vingança, vaidade, exibicionismo … podemos estar seguros que não conseguiremos chegar às atitudes correctas e próprias , segundo a verdade, o respeito e o amor.

Eis uma outra dimensão sobre a Verdade que toca a todos. Apresenta-se como um factor de importância primordial para o verdadeiro progresso civilizacional da nossa sociedade do Terceiro Milénio crescer, em todos e cada um, a capacidade de denuncia da Verdade e a coragem do profeta, capaz de defender os grandes Valores da Humanidade como sejam a Justiça e a Paz, a Harmonia e a Solidariedade entre os Povos,  o Respeito pela Natureza e pelo Cosmos e contribuir para que os homens e as mulheres do nosso tempo se abram à Transcendência e a Deus.

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Dizer a Verdade aos amigos…

Aqui limito-me a denunciar um argumento falacioso que corre célere pelos corações de muito boa gente. Em nome, supostamente, de ‘uma grande amizade’  pedem-se favores que são um  atentado grave  e vergonhoso à Verdade.  Isso é, pura e simplesmente ‘chantagem afectiva’ e uma ‘falsa amizade’. Tal como fazem, por vezes, os  miúdos adolescentes: ‘se és meu amigo, deixa copiar.’  Acrescento o outro lado da moeda: é de notar, triste e dolorosamente, que muito, muito, muito frequentemente, os amigos não são capazes de «dizer a verdade» aos seus amigos. Em Macau, estes casos são aos montes…

Dizer  a Verdade na Comunidade, na «Cidade do Nome de Deus »…

 Depois do Tufão ‘Hato’, com todas as suas consequências devastadoras e mortíferas, não seria aconselhável e necessário lançar, em Verdade e com Objectividade, um grande debate sobre «Macau»? As fragilidades, as insuficiências e  os  erros  na construção da Macau moderna, nestes últimos 50 anos são mais que  evidentes. Uma imagem de desolação.

Por um lado, à superfície, ‘o muito bonito’ das alamedas calcetadas e cheias de árvores e verdes a ser completamente destroçado, a desaparecer num instante. Por outro, as próprias infra-estruturas da cidade, construídas para proteger e dar consistência ao ‘muito bonito’, são elas mesmas a  destruí-lo.

Como é possível a coexistência de uma superfície ‘bonita’ e bela,  airosa e agradável de viver, assente em infra-estruturas bem planeadas, consistentes e seguras ?

Notável foi a entre-ajuda entre as gentes de diferentes povos, culturas e religiões, aqui a  viver,  como a silenciosa confirmação de que Macau continua a ser a «Cidade do Nome de Deus ».

 

Luís Sequeira, Sacerdote e Antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço todas as semanas, sempre às sextas-feiras.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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