Fado, Futebol, Fátima e… sardinhas

[Água mole em pedra dura]

Catarina Mesquita

Ainda inspirada pela bonita festa do fim-de-semana que trouxe vida a São Lázaro, dou por mim a pensar no que é esta coisa de ser uma jovem emigrante e, também, uma emigrante jovem em terras do Oriente.

O conceito de “emigrante” sempre morou dentro da minha casa portuguesa (com certeza) quando os meus avós, nos anos 90, decidiram partir em busca do sonho americano.

Foram várias as vezes que fui visitar os meus avôs aos Estados Unidos da América e durante quase uma década a prenda que levava ao meu avô repetia-se: uma cassete com os últimos êxitos dos cantores populares portugueses, comprada numa daquelas torres giratórias à porta das mercearias.

O meu avô, contente, passeava-nos de carro ao som de Marco Paulo, Quim Barreiros, Tony Carreira e companhia enquanto eu – que já tinha recebido um discman com álbum das Spice Girls – me enterrava no assento de trás com vergonha que alguém nos visse dentro daquela discoteca popular em movimento.

Para mim, ser um verdadeiro emigrante português estava directamente relacionado com gostar de música com assinatura de Marante ou dos Diapasão.

Anos mais tarde não pensei que também eu me viesse a tornar uma emigrante e que, nas festas dos santos populares, neste caso em Macau, ficasse em ansiedade à espera do momento em que alguém sacasse do microfone e começasse a cantar “O baile de Verão”, do José Malhoa.

Apesar da música “pimba” não ter chegado este fim-de-semana ao bairro de São Lázaro, não faltou a imperial fresquinha, as bifanas e, a rainha da festa: a sardinha.

As belas sardinhas estão por todo o lado e juntamente com o fado, com o futebol e com Fátima têm conquistado um lugar significativo de representação do país que não passa só pela gastronomia.

Em tempos um professor contava-me uma história tão deliciosa como uma sardinha suculenta em cima de uma fatia de pão.

Falava-me de Adolfo Simões Muller, um grande nome da divulgação da literatura juvenil e de banda desenhada em Portugal e que, foi responsável pelas primeiras publicações do Tintim em terras lusas há muitos anos, muitos anos.

O académico que tinha conhecido pessoalmente Adolfo Simões Muller contava que este pagava a Hergé os direitos de autor de uma forma peculiar: em sardinhas de conserva. Não porque Hergé já tivesse sucumbido às modas portuguesas mas porque no início dos anos 40, durante a Segunda Guerra Mundial, o autor de banda desenhada tinha um irmão que estava num campo de concentração alemão e tinha acesso às latas de conserva através da Cruz Vermelha.

As latas de sardinha marcaram a amizade dos dois. E, pelos vistos, continuam a marcar as nossas, que caminhamos em romaria a São Lázaro quando há sardinhada para pôr a conversa em dia.

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MEIA VIDA ENCAIXOTADA

[BAGAGEM DE MÃO]

Sara Figueiredo Costa

Num dos muitos textos belos e precisos que escreveu sobre a memória e o modo como a sua construção nos define, o filósofo alemão Walter Benjamin falou do processo de voltar a arrumar os livros depois de uma mudança. Sem beleza nem precisão, também eu tenho a biblioteca encaixotada, à espera da mudança para uma casa maior que irá, finalmente, acomodar páginas e lombadas sem o aperto da actual. Quando se anunciou o Prémio Camões deste ano, atribuído à escritora portuguesa Hélia Correia, quis regressar aos seus livros e deparei-me com uma prateleira vazia. Olhei para os caixotes onde se acomodam os autores portugueses e não tive coragem de os voltar a abrir, arruinando umas quantas horas de trabalho. Queria voltar a ‘Lillias Fraser’, o primeiro livro da autora que li. Não podendo fazê-lo, lembrei o modo como chegou à minha estante e o quanto está ligado ao ofício que me ocupa os dias.

‘Lillias Fraser’ publicou-se em 2001, e lembro-me de o ter comprado movida pela sinopse da contracapa. Nunca tinha lido nenhum livro de Hélia Correia e pareceu-me que era altura. Avançando pelas páginas, fui tomando notas e acabei por escrever uma curta recensão que publiquei na ‘Storm Magazine’, uma revista digital que existia na época, dirigida por Helena Vasconcelos. Seguiram-se outros livros da autora, entre emprestados por amigos ou encontrados em livrarias. O anúncio do Prémio Camões fez-me recordar tudo isto, mas o livro que realmente queria voltar a ler por estes dias era ‘A Terceira Miséria’, poemas publicados em 2012, pela Relógio d’Água, que guardam entre os seus versos uma lucidez implacável sobre os dias que vamos vivendo nesta Europa à beira do colapso. Sem o livro, recordo apenas versos soltos: “De que armas disporemos, senão destas/ que estão dentro do corpo”, a miséria “de quem já não ouve nem pergunta./ A de quem não recorda.” São versos que não permitem reconstruir os poemas, mas que desencadeiam as sinopses necessárias para fazer ecoar na memória o livro completo, a convocação da velha Ágora como espaço público e comunitário onde temos de nos entender para podermos viver, o resgate de uma certa ideia de Pólis que afaste de vez a burrice dos que dizem “eu de política não quero saber”, como se não querer saber do modo como nos organizamos para viver não importasse.

‘A Terceira Miséria’ é um livro fundamental para os dias que correm e será um livro duradouro no futuro incerto que nos espera. Com ele vêm os ‘Estudos de História da Cultura Clássica’, de Maria Helena da Rocha Pereira, ‘A República’, de Platão, e talvez o ‘Manual do Guerrilheiro Urbano’, de Marighella, com as devidas relativizações. E vêm, de certo modo, todos os livros que depois da Grécia, a antiga, fizeram o cânone do nosso continente a caminho do abismo. Os livros que se guardam são redes onde uma ideia chama por outra, numa deambulação que só gente com perfil para dirigir ministérios das finanças acredita ser inútil. “A produtividade, ora aí está, quero dizer, não ando aqui a brincar, não há tempo a perder”, canta José Mário Branco no ‘FMI’. Uma biblioteca também guarda discos. E filmes. E pedras. Com excepção dos sobrinhos ainda pequenos, creio que nunca ninguém me perguntou se já tinha lido todos os livros da minha biblioteca. Seria uma pergunta tonta.

Os livros que guardo nas estantes, e que se espalham por toda a casa como uma praga bíblica, roubando espaço, criando pó e obrigando à mudança para uma casa maior, são parte fundamental da minha vida, claro. A memória ainda permite traçar a origem de cada um deles, quem mo ofereceu, onde o comprei, se o li, para que artigo ou trabalho o anotei. Se um incêndio, um terramoto ou outra espécie de catástrofe mos fizesse desaparecer, não sei bem que pessoa passaria a ser. Mas sei que não deixaria de ser. Sem meninges capazes de fixarem longos trechos de livros como as personagens de ‘Fahrenheit 451’, o romance de Ray Bradbury onde uma rede de cidadãos que tiveram a inteligência de não pensarem que a política não lhes interessava memoriza passagens dos livros que a ditadura manda queimar, lembraria com detalhe um ou outro verso, algumas passagens, algumas imagens. O resto, o que permanecesse com menos precisão, mas ainda assim com alguma constância, seria uma espécie de biblioteca sobrevivente. Sem caixotes nem fita-cola castanha, o que sobrasse da maldita catástrofe explicaria aos meus sobrinhos pequenos o porquê de ser tonto perguntar se li todos os livros da biblioteca. E a alguns adultos sem desculpa etária também.

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A persistência da memória

[Editorial]

Marco Carvalho

A culpa, asseguram filósofos e pensadores de esquerda, é do dinheiro. Com a erosão progressiva de modelos alternativos de organização política e económica, os imperativos financeiros alçaram-se ao estatuto de principal prioridade em termos de governação e de estruturação da causa pública, ao ponto da orquestração de conflitos entre nações se fazer cada vez menos ao nível das balas trocadas e cada vez mais à custa da desconstrução argumentativa dos valores tidos como centrais pelos principais actores em contenda nos cada vez mais complexos meandros do xadrez internacional.

A preponderância dos interesses económicos sobre os imperativos de natureza política tornou-se nos últimos anos o único elemento detractor verdadeiramente preponderante na hora de se avaliarem estratégias de contenção na eminência de um eventual conflito: poucos são os analistas que acreditam abertamente na possibilidade de um conflito de grande escala na bacia do Pacífico, ainda que Pequim continue a atiçar as brasas da discórdia no Mar do Sul da China e Washington tenha tirado da cartola uma nova “Parceira Trans-Pacífico” que se prefigura abertamente hostil aos interesses da República Popular da China.

O relativo isolamento de Pequim na região e o pouco entusiasmo com que iniciativas como a “Nova Rota da Seda” – sobretudo na sua versão marítima – têm sido acolhidas deixam o Governo central com poucas opções: uma passa pelo fortalecimento das sempre incertas relações com Moscovo. A outra encontra expoente no reforço das sinergias já esboçadas com países e nações em vias de desenvolvimento, numa aposta que é e será sempre impreterivelmente minada pela questão da distância. A transferência de matérias-primas de África e da América do Sul para a China não se faz sem custos e, para uma economia assombrada pelo espectro firme da contracção de receitas, o romantismo das relações à distância poderá não ser nem o mais prático, nem o mais conveniente.

O sucesso das políticas de reajustamento económico anunciadas por Pequim depende em muito da manutenção de uma imagem e de um discurso de força, vedado que está, por imperativos financeiros, o recurso a estratégias marciais. Poucos domínios se ressentiram tanto da consolidação da “pax pecuniaria” como o universo dos direitos humanos. A valorização da lei e do discurso da força no âmbito das relações internacionais abriu caminho à reformulação das normas e premissas internacionais de comportamento de forma a adequar valores, outrora tidos como intocáveis, às circunstâncias, necessidades e prioridades de cada um. A “dessacralização” de enunciados como a Declaração Universal dos Direitos do Homem ou da Declaração dos Direitos da Criança tornou lícitas iniciativas que, de um ponto de vista empírico, constituem um atentado ao próprio espírito humanista de ambos os documentos. A alegada candidatura da Arábia Saudita à liderança do Conselho dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas – um estado que aplica a pena de morte, que reprime à chibatada a liberdade de expressão e que afasta por completo as mulheres da vida pública e de quaisquer responsabilidades cívicas e políticas – é disso um exemplo.

Mais flagrante ainda é a leitura seleccionada que os Estados fazem de premissas supostamente universais tendo em conta os seus próprios interesses, por um lado e os seus “handicaps” por outro. A necessária sublimação da defesa dos direitos humanos desapareceu por completo do discurso oficial da União Europeia face à China na sequência da crise financeira internacional e a opção privou Bruxelas de um dos poucos aspectos em que ainda se podia arrogar legitimidade moral.

Se no caso da Europa, o silêncio – a troco da estabilidade nas relações económicas e comerciais – se confunde com conivência, no âmbito da frágil entente entre Pequim e Washington a questão dos direitos humanos é elevada ao estatuto de arma de arremesso entre os dois países, com os Estados Unidos a colocarem ênfase na questão das liberdades e a República Popular da China a responder com as conquistas económicas das últimas décadas. No entender do Governo central, a harmonia étnica – mau grado os problemas graves registados no Tibete e em Xinjiang – e o combate à pobreza e ao analfabetismo são vitórias no campo dos direitos humanos que importa sublinhar. A escolha não é inócua e toca em dois domínios em que o orgulho norte-americano sai abertamente ferido: por um lado, o aumento desmedido do número dos que vivem em condições de pobreza na primeira economia do mundo e por outro o indisfarçável mal-estar com que as questões de natureza racial continuam a confrontar os Estados Unidos.

Setenta anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, a adopção de estratégias de erosão da dimensão universalista dos Direitos do Homem – seja por Pequim, seja por Riad, seja por Washington ou pelo incómodo silêncio da União Europeia – não pode ser vista senão como um recuo e como um atentado à persistência da memória. A desumanização começa quando Auschwitz, Nanquim, My Lay, Batepá ou o Tarrafal deixam de ser infortúnios, vergonhas e desdouros de uma humanidade partilhada para passarem a ser as dores e as cicatrizes só de alguns.

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A Idade da Seclusão?

[Olho Mágico]

Eric Sautedé

É bastante constrangedor reparar que o recente (segundo) rascunho da “Lei de Gestão de ONG’s Ultramarinas” da República Popular da China (中华人民共和国境外非政府组织 管理法) quase não suscitou discussão na nossa Região Administrativa Especial. Ao fim e ao cabo, trata-se de uma lei que vai não só aplicar-se a ONG’s (Organização Não Governamentais) “estrangeiras” mas também a um vasto número de organizações, instituições e associações sediadas em Hong Kong, Macau e Taiwan, como se sugere pelo uso da expressão 境外 (jingwai, literalmente fora das fronteiras de um país). O segundo esboço da lei foi apresentado no final de Abril no Comité Permanente da Assembleia Popular Nacional e o articulado da segunda proposta publicado a 5 de Maio com a possibilidade dos cidadãos se pronunciarem sobre a questão até 4 de Junho.

Se a lei estava originalmente orientada para “regular e definir as actividades das Organizações Não Governamentais na China, garantindo os seus direitos legais e benefícios e promovendo o intercâmbio e a cooperação” – o que se prefigura como suficientemente claro e razoável – o texto que foi revelado no início de Maio conta uma história completamente diferente, dado o seu âmbito de abrangência e a forma como está redigido, tendo provocado calafrios a muito boa gente, tanto dentro como fora das fronteiras da República Popular da China.

Considere-se primeiro o âmbito de abrangência: a lei, como atrás se referiu, regulamenta a acção de organizações dentro das fronteiras chinesas e abrange ONG’s estrangeiras, mas também os organismos com sede na Região Administrativa Especial e na República Popular da China. Estas organizações são, de um modo muito genérico definidas como “organizações sociais de cariz não governamental e não lucrativo” que actuam “em domínios como a economia, a educação, a ciência e a tecnologia, a saúde, a cultura, o desporto, a protecção ambiental e a caridade”. Como foi referido por muitos observadores, são não apenas os “suspeitos do costume” que estão na mira das autoridades chinesas – as organizações activamente envolvidas em matérias legais, ambientais ou sociais – mas, de forma factual, qualquer entidade não lucrativa é visada: uma escola, um hospital, uma câmara de comércio ou uma instituição cultural, uma associação de estudantes de cariz não lucrativo ou uma associação científica internacional, bem como uma banda de uma escola internacional ou um grupo de voluntários médicos que queiram organizar ou participar em qualquer tipo de iniciativa organizada em solo chinês. Para que tal aconteça, têm necessariamente de se associar a um patrocinador que possa registar legalmente um escritório de representação (um único para toda o território chinês) ou encontrar um parceiro que se disponibilize para os ajudar a obter uma autorização temporária. O registo, em qualquer dos casos, teria que ser feito junto das forças de Segurança Pública, ao contrário do que acontece com as Organização Não Governamentais chinesas, que efectuam o registo junto do Ministério para os Assuntos Cívicos.

Este último detalhe é, por si, só revelador: o registo junto das autoridades de segurança pública pressupõe que o envolvimento de ONG’s ultramarinas na China seja perspectivado como uma questão do fora da segurança nacional, como foi, de resto, assinalado por um professor de Lei da Universidade de Tsinghua. A questão tornar-se ainda mais clara quando lemos o artigo 59, que estipula que uma organização de cariz ultramarino seja banida e proibida de operar em solo chinês se enveredar por acções vagamente definidas tendo por origem directivas emanadas dentro ou fora das fronteiras da China. Os representantes de tais organismos podem sofrer consequências sérias se forem considerados culpados de procurar subverter o poder do estado, de minar a solidariedade étnica e de fomentar o separatismo ou de incitar à resistência contra a aplicação das leis e os regulamentos administrativos do Estado. Entre as questões que poderão criar problemas às ONG’s estão ainda a recolha de segredos de Estado, a difamação e a disseminação de rumores, a publicação e divulgação de informações nocivas que possam colocar em risco a segurança do Estado ou prejudicar interesses nacionais, a organização e o financiamento de actividades políticas e religiosas de ou qualquer outras iniciativas que possam colocar em causa os interesses da República Popular da China ou da sociedade civil em geral. Como Ira Belkin e Jerome Cohen assinalam e bem: “se um grupo de alunos de uma universidade americana protestarem contra a forma como o Governo chinês trata os Tibetanos, a Universidade pode ser proibida de desenvolver actividades na China e os seus representantes no país poderão vir a ser detidos e julgados”.

São muitos os que associam a filiação da proposta de lei com os “sete conceitos hostis” do Documento No. 9 dado a conhecer em Abril de 2013 (que inclui a ideia de “sociedade civil” entre os sete valores, sobretudo propalados pelo Ocidente, que deverão ser completamente rejeitados) ou com a Lei de Segurança Social que se encontra actualmente sob discussão. Muitos analistas, dentro e fora das fronteiras da China acreditam que a proposta apenas reflecte a visão ultraconservadora de uma facção no seio do partido e foram, por isso, muitos os intervenientes que decidiram aproveitar a oportunidade conferida pela consulta pública promovida pela Assembleia Nacional Popular para avançar com comentários e sugestões. Um grupo de 30 advogados chineses caracterizaram o diploma como arbitrário, sugerindo que constitui uma violação tanto à política nacional, tida como fundamental, de “reforma e abertura”, quanto ao espírito reformista do Conselho de Estado de “racionalizar a administração e delegar poderes”. Os causídicos consideram ainda que a proposta irá ter um impacto contrário ao que se propõe e vai prejudicar o propósito de garantir a segurança pública.

Funcionários de ONG’s chinesas enviaram à Assembleia Popular Nacional uma lista com comentários e sugestões para que possam ser incorporados na revisão. A Amnistia Internacional e a Human Rights Watch deram a conhecer preocupações partilhadas sobre cinco aspectos da lei: as vagas e amplas limitações que se aplicam a Organizações Não Governamentais estrangeiras que operam temporaria ou permanentemente na China; a estrutura de supervisão demasiado onerosa para as ONG’s; o papel cada vez mais lato da polícia na aprovação e monitorização do trabalho das ONG’s; as restrições impostas à contratação de funcionários e às operações e o castigo para actividades vagamente definidas. Os reparos foram ainda feitos por câmaras de comércio estrangeiras, por embaixadas estrangeiras e pela delegação da União Europeia na China, que tornaram as suas preocupações públicas.

Em última instância, o que parece estar em jogo o futuro das relações da China com o mundo exterior. Neste sentido, uma dúvida se coloca: será que o período de “abertura” que tanto beneficiou o país ao longo dos últimos 35 anos está a chegar a um fim, pelo menos no que toca ao plano das ideias? O capitalismo é bem-vindo, o liberalismo nem por isso. Não há dúvida que os primeiros a sofrer se a lei for aprovada serão os milhares de funcionários chineses que dependem de entre 1000 a 6000 organizações e fundações estrangeiras para financiamento, formação e conhecimento para servir milhões de cidadãos da República Popular da China.

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O fim do império

ULTIMATUM

Isadora Ataíde

Em 24 de Setembro de 1973, em Madina do Boé, a Guiné-Bissau declarou a sua independência e o império português chegou ao seu fim. Ainda haveria meses de guerra em Angola e Moçambique e 1975 seria o ano da “transição”. Mas o facto estava consumado. Os colonos davam os seus últimos suspiros e o colonialismo europeu, enfim, agonizava.

As independências africanas foram conquistadas em longas guerras de libertação. Há 40 anos, quando discursou sobre o êxito do processo revolucionário em Moçambique, Samora Machel assinalou que “a vitória da independência é feita do sangue do povo”. Foi sobretudo simbólico o significado das negociações e dos acordos de independência entre os cinco países africanos e Portugal. Não havia cedências a serem feitas, era a hora do adeus para o colonizador.

As guerras não começaram em 1963-64 na então África Portuguesa. A resistência dos africanos à exploração colonial europeia foi contínua ao longo dos séculos. O enfrentamento de Gungunhana, rei de Gaza, no século XIX foi seguido pela resistência de João Albasini e consagrada nos combatentes da Frelimo, em Samora Machel.

Se não houve guerra em São Tomé e Príncipe e Cabo Verde, também nestes arquipélagos foram contínuos os enfrentamentos ao longo dos séculos. O rei Amador persistiu em Eugénio de Andrade, que foi continuado por Aristides Pereira. Confrontos entre populares e forças policiais que destruíram vilas, a exemplo do Paul; revoltas que decretaram a morte de centenas de homens, como o massacre de Batepá; e protestos silenciosos, nos quais a população deixava de comprar nos estabelecimentos portugueses, foram constantes nos séculos de ocupação.

Na Guiné, em Moçambique, em Cabo Verde, em São Tomé e Príncipe e Angola, depois de séculos a lutar, os povos africanos que conquistaram a sua independência não tinham dúvidas e não precisavam de referendos. Com excepção de Angola, havia em cada território um único movimento de libertação nacionalista, e por isso não se justificava uma transição prolongada ou processos eleitorais. Em Angola foi a força maioritária que assumiu o poder.

Depois de 400 anos a explorar os recursos naturais e o homem africano, fazem apenas 40 anos que emergiram nações nas antigas colónias portuguesas. Em 2017, o Gana completa 60 anos de independência, a primeira em África. No continente onde a espécie humana emergiu há 3,2 milhões de anos, o meio século das independências africanas é um capítulo que agora se inicia.

Quarenta anos depois África continua pobre, como a América Latina e a Ásia em geral continuam, também elas vítimas do colonialismo europeu. Há corrupção em África, como nos Estados Unidos, em Portugal ou na FIFA. Há guerras em África, como tem havido guerras no Médio Oriente e na Europa, que enfrentou sua última batalha na década de 1990. As crianças africanas estão desnutridas e morrem em jangadas no Mediterrâneo, como passam fome e naufragam as crianças asiáticas.

Não foram as guerras de libertação ou as independências que lixaram África. Os danos do colonialismo europeu no século XIX e XX continuam a se fazer sentir. Os danos do neocolonialismo – que concilia nação, empresa e organizações multilaterais no esforço de exploração económica e humana – mal começaram.

África – as suas nações, os seus líderes e o seu povo – sem dúvida é protagonista do seu presente. Mas o protagonismo africano continua condicionado pelos impérios e ducados contemporâneos.

“Esvazia-me os olhos e condena-me à escuridão eterna… –
que eu, mais do que nunca,

Dos limos da alma,
Me erguerei lúcida, bramindo contra tudo: Basta! Basta! Basta!”

Noémia de Sousa

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Será esta a verdadeira plataforma?

[Activo Estratégico]

Patrícia Silva Alves

O termo é caro a Macau e aparece sob várias formas. Tanto pode ser Macau como plataforma entre Ocidente e Oriente ou como plataforma entre a China e os países de língua portuguesa. Agora, sabemos que há mais um conceito de plataforma em Macau e, esperemos sinceramente, que cumpra e dê melhor significado à dita. Trata-se da “plataforma de serviços”.

O termo foi introduzido na semana passada pelos responsáveis do Fundo para as Indústrias Culturais (FIC) quando apresentaram as 50 empresas que receberam dinheiro do fundo que atribuiu até agora quase 80 milhões de patacas.

Ora entre estas 50 companhias há sete plataformas de serviços, que não são mais do que espaços de divulgação dos trabalhos dos outros artistas. Ou seja, receberam apoio para apoiar outras empresas e são uma prioridade para o Governo. Pelo menos é isso que parece quando olhamos para o dinheiro que as plataformas de serviços receberam: apesar de serem uma minoria dos projectos (sete) concentraram mais de metade dos fundos atribuídos (42 milhões de patacas).

Ora, com isto o que se deduz é que o Executivo dá preferência à divulgação das indústrias culturais sobre a sua produção. Por outras palavras, a plataforma que revela as indústrias culturais é mais importante do que os projectos que está a divulgar.

Habituada a perguntar mais do que a responder e, não estando habilitada a analisar ou criticar o trabalho destas plataformas de serviços, pois não conheço o seu trabalho, detenho-me apenas nos factos. É que entre estas sete empresas está uma companhia criada há cerca de um ano e outra que é detida pelo irmão do vogal do FIC afastado precisamente por suspeitas de corrupção quanto à atribuição de fundos neste concurso.

Quanto ao primeiro caso basta ver o prazo de entrega de candidaturas ao FIC para identificar algo de curioso: o concurso para receber financiamento do Fundo das Indústrias Culturais decorreu entre 6 de Junho e 18 de Julho de 2014 e a empresa em causa iniciou operações a 20 de Junho de 2014 – precisamente a meio desse período.

Quanto ao segundo caso, trata-se da empresa do irmão de Chao Son U, vogal do FIC afastado por Alexis Tam por suspeitas de favorecimento durante o concurso, mas que foi ilibado pelo Comissariado Contra a Corrupção (CCAC) por falta de provas. Em termos legais parece não haver nada a apontar a esta empresa, tanto mais que a investigação do CCAC foi arquivada. Mas quando se fala de um Governo, não falamos apenas da dimensão legal: o Executivo tem o dever de dar o exemplo e não deve permitir situações ambíguas como esta. Macau é pequeno e pode ser complicado estabelecer fronteiras entre interesses públicos e privados. Ainda assim, Macau só tem a perder com situações como esta em que há uma tão clara proximidade entre quem avalia e é avaliado. Há a possibilidade de essa proximidade resvalar para promiscuidade, sobretudo quando não se entende com clareza qual é a função da companhia de Chao Chong U, o irmão.

Segundo a descrição do Governo, a companhia tem como atribuições ser uma bolsa de contacto comercial, prestar consultoria geral e dar apoio de materiais/sugestão de materiais, entre outras. Para fazer isto, a empresa do irmão de Chao Chong U recebe 3,8 milhões de patacas.

Ora se a companhia em causa já estava sob o escrutínio público por ser detida por alguém com acesso privilegiado ao poder, ao menos que se percebesse o que faz. Não se percebe. E só tenho a lamentar por isso porque, no final, em vez de informar, o Governo deixa mais perguntas do que respostas.

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[Tapau no Bufê]

[Tapau no Bufê]

Rodrigo de Matos

No outro dia, dei-me conta de que já era um quarentão. Não que isso seja um grande problema em si. Mas comecei olhar para o facto de diferentes ângulos, evitando lamentar a inevitável perda – o tempo não volta – e dei por mim a esquartejar o número 40, para ver o que ele significava ao certo. Quem era eu a metade do caminho? Aos 20 anos, era um estudante universitário cabeludo e imberbe, sem uma gordura no corpo. Quero acreditar que hoje em dia sou uma pessoa muito mais interessante, com mais para dar ao mundo. Mas olhando bem para o que ganhei nestas duas últimas décadas, que passaram a voar, destacam-se não a experiência e a bagagem de vida, mas os cabelos brancos e uma bela camada de tecido adiposo sob a pele.

Não sei como me deixei chegar a este ponto. Eu que, sempre que posso, pratico natação para manter a forma. Sempre me disseram que nadar era o melhor e mais completo exercício físico. Mas, de repente, lembro-me de que quem também se farta de nadar são as baleias. Não são propriamente uns animais esbeltos. Se não resulta com elas, porque é que havia de dar certo comigo?

Ora, se o problema não é falta de exercício, então deve ser a alimentação. Já me sugeriram que cortasse nos hidratos de carbono… Mas aí penso outra vez nas coitadas das baleias, que só comem plâncton!… Ora bolas! Quando um nutricionista pensa numa dieta excessiva em calorias essa deve ser a última coisa que lhe passa pela cabeça. Digam a um vegano para passar três dias a comer só plâncton e ao fim do segundo: “Ah, que se lixe isto! Dêem-me um bitoque!…”.

As baleias são potencialmente o animal com a mais baixa auto-estima de toda a fauna. Mas eis que, de repente, surge na equação um povo que faz com que a aparência física se transforme na última das preocupações dos grandes cetáceos: os japoneses!

O Japão confirmou anteontem que as suas embarcações de caça à baleia regressam este ano à Antárctida para mais uma chacina, ou melhor, expedição científica. Parece que alegam “fins científicos” para justificar a matança de quase quatro mil baleias-de-minke nos próximos 12 anos. Imagino que estejam a aprimorar o seu método milenar de controlo do peso: “Reparem como estas baleias ficam bem mais leves quando as cortamos às postas”.

Anseio pelo momento em que vão achar que a técnica já está suficientemente desenvolvida para ser testada em humanos. Aqueles lutadores de sumo que eles têm por lá vão aparecer como potenciais candidatos. Eu não, que nem sou tão pesado assim. Tenho só um bocadinho de barriga. Esquartejar por esquartejar, prefiro continuar a fazê-lo com a minha idade.

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