Politicamente choninhas

[Tapau no Bufê]

Rodrigo de Matos

Gostaria de atribuir a medalha de mérito do Tapau no Bufê aos inventores da linguagem politicamente correcta. A vida é cheia de problemas e alguns, às vezes, não têm solução. Se amaciarmos as palavras com que os descrevemos, esses problemas não parecem tão graves, ou é como se não existissem. Brilhante!

Em rigor, não existem palavras ofensivas. O que acontece é que as pessoas, em dado momento, começam a usar certos termos de forma a ofender ou agredir outras. Em vez de lutarmos contra esse comportamento, banimos as palavras usadas para ferir. Problema resolvido.

Desde sempre, as minorias foram vítimas de discriminação. Os cegos, por exemplo, eram vistos como indivíduos incapazes e indignos do mesmo respeito que os cidadãos sem esse problema. Entretanto, a sociedade evoluiu e descobriu que essas pessoas até tinham algo a oferecer e podiam perfeitamente desempenhar um papel útil. Em vez de passarmos a respeitar os cegos, vamos promovê-los a invisuais, que assim já passam a ser dignos de respeito. É como se eles até passassem a ver qualquer coisa.

Reparem como já não existem surdos também. Há pessoas com deficiência auditiva. De repente, passaram a ser “pessoas”. E é bom chamar-lhes outra coisa, mais pomposa do que “surdos”, porque eles agora podem ouvir. Assim soa mais importante e eles não se ofendem.
Também já não há deficientes. Há pessoas portadoras de deficiência. Como se a deficiência não fosse verdadeiramente delas e estivessem apenas a carregá-la. “Vou só ali levar esta deficiência e já venho”.

E os deficientes mentais passaram a ser pessoas com dificuldade de aprendizagem. De súbito, um rapaz que precisava de acompanhamento especial e era olhado de lado pelos outros meninos passou a estar basicamente ao nível do meu primo Zé Carlos, que chumbou o ano três vezes. Tinha claras dificuldades de aprendizagem o Zé Carlos.

Os gordos também se sentem mais leves se passarmos a utilizar a nomenclatura clínica: obesos. De pesados comilões que não gostavam de fazer exercício, passaram a ser vistos como pacientes a sofrer de uma enfermidade, da qual se podem livrar se tomarem medicação. E os velhos até sentem passar o reumatismo se forem chamados de idosos.

Questões de discriminação racial também ficam resolvidas com algum exercício de linguagem. Um preto transforma-se num cidadão de origem africana (não importa onde ele tenha nascido) e um cigano passa a ser um indivíduo de etnia cigana. Ele não é cigano, a etnia dele é que é. Assim, vira uma pessoa mais respeitável e, quem sabe, até passa a ser menos cigano. Essa nova maneira de nomear as coisas até ajuda a esbater problemas sociais que afectam particularmente algumas comunidades. Ajuda a reduzir a violência, por exemplo. “Chefe, um cigano espetou uma faca num preto”. Chamem uma ambulância! “Comissário, um indivíduo de etnia cigana feriu um cidadão de origem africana com uma arma branca”. Alguém tem um penso rápido?

Quem ler esta crónica pode achar que sou um idiota. E até têm uma certa razão. Bem, talvez idiota seja um exagero. Sou, digamos, um portador de estupidez. Esta parvoíce não é minha, é emprestada. Vou devolver assim que acabar de usar.

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