O fim do império

ULTIMATUM

Isadora Ataíde

Em 24 de Setembro de 1973, em Madina do Boé, a Guiné-Bissau declarou a sua independência e o império português chegou ao seu fim. Ainda haveria meses de guerra em Angola e Moçambique e 1975 seria o ano da “transição”. Mas o facto estava consumado. Os colonos davam os seus últimos suspiros e o colonialismo europeu, enfim, agonizava.

As independências africanas foram conquistadas em longas guerras de libertação. Há 40 anos, quando discursou sobre o êxito do processo revolucionário em Moçambique, Samora Machel assinalou que “a vitória da independência é feita do sangue do povo”. Foi sobretudo simbólico o significado das negociações e dos acordos de independência entre os cinco países africanos e Portugal. Não havia cedências a serem feitas, era a hora do adeus para o colonizador.

As guerras não começaram em 1963-64 na então África Portuguesa. A resistência dos africanos à exploração colonial europeia foi contínua ao longo dos séculos. O enfrentamento de Gungunhana, rei de Gaza, no século XIX foi seguido pela resistência de João Albasini e consagrada nos combatentes da Frelimo, em Samora Machel.

Se não houve guerra em São Tomé e Príncipe e Cabo Verde, também nestes arquipélagos foram contínuos os enfrentamentos ao longo dos séculos. O rei Amador persistiu em Eugénio de Andrade, que foi continuado por Aristides Pereira. Confrontos entre populares e forças policiais que destruíram vilas, a exemplo do Paul; revoltas que decretaram a morte de centenas de homens, como o massacre de Batepá; e protestos silenciosos, nos quais a população deixava de comprar nos estabelecimentos portugueses, foram constantes nos séculos de ocupação.

Na Guiné, em Moçambique, em Cabo Verde, em São Tomé e Príncipe e Angola, depois de séculos a lutar, os povos africanos que conquistaram a sua independência não tinham dúvidas e não precisavam de referendos. Com excepção de Angola, havia em cada território um único movimento de libertação nacionalista, e por isso não se justificava uma transição prolongada ou processos eleitorais. Em Angola foi a força maioritária que assumiu o poder.

Depois de 400 anos a explorar os recursos naturais e o homem africano, fazem apenas 40 anos que emergiram nações nas antigas colónias portuguesas. Em 2017, o Gana completa 60 anos de independência, a primeira em África. No continente onde a espécie humana emergiu há 3,2 milhões de anos, o meio século das independências africanas é um capítulo que agora se inicia.

Quarenta anos depois África continua pobre, como a América Latina e a Ásia em geral continuam, também elas vítimas do colonialismo europeu. Há corrupção em África, como nos Estados Unidos, em Portugal ou na FIFA. Há guerras em África, como tem havido guerras no Médio Oriente e na Europa, que enfrentou sua última batalha na década de 1990. As crianças africanas estão desnutridas e morrem em jangadas no Mediterrâneo, como passam fome e naufragam as crianças asiáticas.

Não foram as guerras de libertação ou as independências que lixaram África. Os danos do colonialismo europeu no século XIX e XX continuam a se fazer sentir. Os danos do neocolonialismo – que concilia nação, empresa e organizações multilaterais no esforço de exploração económica e humana – mal começaram.

África – as suas nações, os seus líderes e o seu povo – sem dúvida é protagonista do seu presente. Mas o protagonismo africano continua condicionado pelos impérios e ducados contemporâneos.

“Esvazia-me os olhos e condena-me à escuridão eterna… –
que eu, mais do que nunca,

Dos limos da alma,
Me erguerei lúcida, bramindo contra tudo: Basta! Basta! Basta!”

Noémia de Sousa

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