[Tapau no Bufê]

[Tapau no Bufê]

Rodrigo de Matos

No outro dia, dei-me conta de que já era um quarentão. Não que isso seja um grande problema em si. Mas comecei olhar para o facto de diferentes ângulos, evitando lamentar a inevitável perda – o tempo não volta – e dei por mim a esquartejar o número 40, para ver o que ele significava ao certo. Quem era eu a metade do caminho? Aos 20 anos, era um estudante universitário cabeludo e imberbe, sem uma gordura no corpo. Quero acreditar que hoje em dia sou uma pessoa muito mais interessante, com mais para dar ao mundo. Mas olhando bem para o que ganhei nestas duas últimas décadas, que passaram a voar, destacam-se não a experiência e a bagagem de vida, mas os cabelos brancos e uma bela camada de tecido adiposo sob a pele.

Não sei como me deixei chegar a este ponto. Eu que, sempre que posso, pratico natação para manter a forma. Sempre me disseram que nadar era o melhor e mais completo exercício físico. Mas, de repente, lembro-me de que quem também se farta de nadar são as baleias. Não são propriamente uns animais esbeltos. Se não resulta com elas, porque é que havia de dar certo comigo?

Ora, se o problema não é falta de exercício, então deve ser a alimentação. Já me sugeriram que cortasse nos hidratos de carbono… Mas aí penso outra vez nas coitadas das baleias, que só comem plâncton!… Ora bolas! Quando um nutricionista pensa numa dieta excessiva em calorias essa deve ser a última coisa que lhe passa pela cabeça. Digam a um vegano para passar três dias a comer só plâncton e ao fim do segundo: “Ah, que se lixe isto! Dêem-me um bitoque!…”.

As baleias são potencialmente o animal com a mais baixa auto-estima de toda a fauna. Mas eis que, de repente, surge na equação um povo que faz com que a aparência física se transforme na última das preocupações dos grandes cetáceos: os japoneses!

O Japão confirmou anteontem que as suas embarcações de caça à baleia regressam este ano à Antárctida para mais uma chacina, ou melhor, expedição científica. Parece que alegam “fins científicos” para justificar a matança de quase quatro mil baleias-de-minke nos próximos 12 anos. Imagino que estejam a aprimorar o seu método milenar de controlo do peso: “Reparem como estas baleias ficam bem mais leves quando as cortamos às postas”.

Anseio pelo momento em que vão achar que a técnica já está suficientemente desenvolvida para ser testada em humanos. Aqueles lutadores de sumo que eles têm por lá vão aparecer como potenciais candidatos. Eu não, que nem sou tão pesado assim. Tenho só um bocadinho de barriga. Esquartejar por esquartejar, prefiro continuar a fazê-lo com a minha idade.

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s