Fado, Futebol, Fátima e… sardinhas

[Água mole em pedra dura]

Catarina Mesquita

Ainda inspirada pela bonita festa do fim-de-semana que trouxe vida a São Lázaro, dou por mim a pensar no que é esta coisa de ser uma jovem emigrante e, também, uma emigrante jovem em terras do Oriente.

O conceito de “emigrante” sempre morou dentro da minha casa portuguesa (com certeza) quando os meus avós, nos anos 90, decidiram partir em busca do sonho americano.

Foram várias as vezes que fui visitar os meus avôs aos Estados Unidos da América e durante quase uma década a prenda que levava ao meu avô repetia-se: uma cassete com os últimos êxitos dos cantores populares portugueses, comprada numa daquelas torres giratórias à porta das mercearias.

O meu avô, contente, passeava-nos de carro ao som de Marco Paulo, Quim Barreiros, Tony Carreira e companhia enquanto eu – que já tinha recebido um discman com álbum das Spice Girls – me enterrava no assento de trás com vergonha que alguém nos visse dentro daquela discoteca popular em movimento.

Para mim, ser um verdadeiro emigrante português estava directamente relacionado com gostar de música com assinatura de Marante ou dos Diapasão.

Anos mais tarde não pensei que também eu me viesse a tornar uma emigrante e que, nas festas dos santos populares, neste caso em Macau, ficasse em ansiedade à espera do momento em que alguém sacasse do microfone e começasse a cantar “O baile de Verão”, do José Malhoa.

Apesar da música “pimba” não ter chegado este fim-de-semana ao bairro de São Lázaro, não faltou a imperial fresquinha, as bifanas e, a rainha da festa: a sardinha.

As belas sardinhas estão por todo o lado e juntamente com o fado, com o futebol e com Fátima têm conquistado um lugar significativo de representação do país que não passa só pela gastronomia.

Em tempos um professor contava-me uma história tão deliciosa como uma sardinha suculenta em cima de uma fatia de pão.

Falava-me de Adolfo Simões Muller, um grande nome da divulgação da literatura juvenil e de banda desenhada em Portugal e que, foi responsável pelas primeiras publicações do Tintim em terras lusas há muitos anos, muitos anos.

O académico que tinha conhecido pessoalmente Adolfo Simões Muller contava que este pagava a Hergé os direitos de autor de uma forma peculiar: em sardinhas de conserva. Não porque Hergé já tivesse sucumbido às modas portuguesas mas porque no início dos anos 40, durante a Segunda Guerra Mundial, o autor de banda desenhada tinha um irmão que estava num campo de concentração alemão e tinha acesso às latas de conserva através da Cruz Vermelha.

As latas de sardinha marcaram a amizade dos dois. E, pelos vistos, continuam a marcar as nossas, que caminhamos em romaria a São Lázaro quando há sardinhada para pôr a conversa em dia.

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s