A Cigarra e a Formiga

[Água Mole em Pedra Dura]

Catarina Mesquita

O calendário diz-nos que entrámos oficialmente na primeira semana de Verão. E o sol que se fez sentir na última semana em Portugal oficializou a chegada da estação do ano pelo qual todos aguardavam ansiosamente num país em crise até de bom tempo.

As fotografias nas redes sociais assim o comprovam. Imagens de corpos ao sol carregadas de optimismo.

A ciência assim o explica: a exposição ao Sol activa a vitamina D, o cálcio e uma lista imensa de coisas. Porém, acredito que a estrela-mãe tem ainda mais poderes como o de tornar as pessoas em seres melhores, mais sorridentes e educados, mais tolerantes e felizes e, acima de tudo, ajuda os portugueses a esquecerem a crise.

Há nos meses de calor fenómenos sociais cíclicos que me deixam a esta distância impressionada.

A “silly season” permanece apesar da crise. Os políticos deixam “oficialmente” de exercer funções e continuam a encher as revistas cor-de-rosa de fotografias nas praias do Algarve e nos “lugares da moda”.

A qualidade da televisão nacional vai enfraquecendo, enfraquecendo como uma lanterna quase a ficar sem pilhas para obrigar as pessoas a saírem à rua e quem sabe a aparecerem num desses programas da manhã a mandar beijinhos para os primos emigrados em Macau.

O preço da gasolina é esquecido, o trânsito na Ponte 25 de Abril em direcção à Costa da Caparica e na A2 rumo a Sul não causa nervos e a renda da casa de verão na Costa Vicentina é despreocupante.

Economia em baixa? Eleições? Emigração? Para quê estar sempre a sofrer quando há Gin e Caipirinhas para acompanhar os caracóis e as sardinhadas? Em Setembro voltaremos ao choradinho.

Gosto particularmente do Verão até porque também eu fico mais bem-disposta, mas a inversão da história da Cigarra e da Formiga faz-me alguma confusão.

O português canta no Verão como a cigarra e no Inverno só lhe resta o triste fado porque migalhas para juntar já são poucas e os dias de desemprego com chuva custam mais a passar.

Em Macau o calor já se faz sentir há vários meses e mesmo com chuva cá continuamos nós a tentar amealhar o que conseguimos.

O Verão aqui não se resume só aos meses de Julho, Agosto e Setembro. E o mesmo acontece com a “silly season”, com o trânsito, com o preço da casa onde se passa o bom tempo que se estende aos restantes meses do ano.

Continuamos a viver de forma igual seja em que época for porque os políticos mexem-se ao ritmo das cigarras, o trânsito para qualquer ponto da cidade é crescente e o preço das casas teimam em não baixar.

Atrevo-me a dizer que, em Macau, o Sol não nos deixa mais bem-dispostos porque afinal de contas andar sem ar-condicionado torna-se insuportável e andar apertado num autocarro quando está frio é bem mais agradável do que quando está calor.

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