Jesus Cristo

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Neste Domingo já de Outono, o Evangelho narra-nos a muito conhecida   passagem do ‘Juízo Final’,  em que o critério de avaliação do comportamento de cada um se centra nas atitudes tidas perante aqueles que se lhes apresentaram  em grande necessidade, tais como, o mendigo com fome e sede, o mal vestido, o despido ou nu, o sem abrigo,  o peregrino, o encarcerado, o doente.

A meditação do texto da Escritura e, simultaneamente, a reflexão sobre o  estado actual da nossa Humanidade – sobretudo, no mundo ocidental e nos chamados países desenvolvidos – levam-me, direi eu, a uma outra realidade ainda mais séria. Enquanto que o texto evangélico nos apresenta ‘os pobres entre os mais pobres’, os mais ‘abandonados’ da nossa Humanidade, os mais ‘miseráveis’ do nosso Sistema Social e nos convida a amá-los, a  Sociedade actual, por outro lado, mais não faz que nos fazer cair, dolorosamente, na conta de que, afinal, Ele, o Cristo, o Senhor, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, é Aquele que se apresenta, hoje, como a encarnação real e a cruel manifestação do ‘Desconhecido’, do ‘Abandonado’ entre muitos dos Homens e Mulheres do nosso Tempo. De tal maneira que quase parece paradoxal e contraditório que, neste Último Domingo do Ano Litúrgico, se celebre aquela que é denominada igualmente a Solenidade de Jesus Cristo,  Rei do Universo.

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É exigente e complexo, mas tentar perceber as razões do afastamento de tantíssimos e da apatia de multidões sem fim impõe-se a todo o crente em Jesus Cristo. Como é possível que tantos se afastem de Cristo, o Senhor Jesus, O abandonem e que, por mais incrível que pareça, cheguem até a afirmar, quase orgulhosamente, que não precisam d’Ele ? Ele que é o Criador e Senhor da nossa existência;  Ele que se revela como o Salvador e Redentor das nossas vidas;  e Ele que se afirma, por fim, como o Caminho, a Verdade e a Vida e, capaz de nos orientar e conduzir neste Mundo, onde somos chamados não só a nele viver, como também a desenvolvê-lo e a administrá-lo para o Bem e Felicidade de todos.

O problema, portanto e fundamentalmente, não se encontra no Deus da Sagrada Escritura, nem está na Revelação feita por Jesus Cristo, o Mestre Divino. A questão coloca-se mais directamente no interior da nossa própria ‘prática religiosa’ ou da nossa própria ‘experiência espiritual’,  vivida, durante muitos anos, dentro de uma determinada Comunidade de crentes. É aqui, a nível de vivência pessoal e comunitária,  da experiência de Fé cristã, que poderemos encontrar alguns aspectos que nos permitirão, possivelmente,  fazer perceber o porquê do afastamento de muitos da sua ‘vida espiritual e religiosa’ de crente.

Numa pequena releitura da nossa própria ‘experiência espiritual e religiosa’ e da de tantos outros nossos contemporâneos e com a ajuda suplementar de alguma reflexão mais objectiva e científica que já se vai fazendo sobre o assunto, tiram-se algumas conclusões.

Até que ponto, no Catecismo ou na Formação Catequética, quando criança, adolescente e jovem, o excesso de insistência na parte doutrinária e dogmática contribuiu para um forte racionalismo e intelectualismo da ‘experiência de fé’, acabando por desencarnar essa mesma Fé em Deus e a relacção com Ele torna-se um conjunto de ideias e pensamentos que, como dizia Madre Teresa de Calcutá, tarde ou cedo , se torna ‘morta’.

A situação agrava-se quando ao racionalismo da ‘experiência da Fé’ se junta o ritualismo da ‘prática de Fé’. Mais uma vez, a insistência obrigatória e formal da prática dos sacramentos e, sobretudo, a exigência de acompanhar  muitas e inumeráveis devoções piedosas e ritualistas de nada ajudaram a ‘pedagogia do gostar’ e o gostar de ‘estar com Jesus’.

Mas as coisas tornam-se mais baralhadas e confusas, quando o mundo afectivo entra ou tenta entrar na ‘experiência de Fé’ de uma maneira pouco amadurecida, pouco esclarecida e pouco saudável. Porque o racionalismo e o ritualismo procuram sempre controlar e mesmo reprimir as emoções,  os afectos e os sentimentos, estes vão forçar penetrar na ‘experiência espiritual’ através de formas e modalidades muito pouco ortodoxas e, pior ainda, finamente enganadoras e deformativas, como sejam, o Sentimentalismo no interior do coração e o Pietismo no comportamento exterior. Atitudes estas que não conduzem ‘uma prática religiosa’ sã, equilibrada e progressiva.

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Concluindo.

O racionalismo, o ritualismo e o sentimentalismo que tão fortemente marcaram a nossa Formação e Prática Cristãs  estão, no meu entender, na base  do bloqueio, do afastamento e da apatia no ‘Caminho Espiritual’ de muitos. Já o Senhor Jesus proclamava no Seu ministério a visão integrada da ‘Experiência de Deus’:

« …Amar a Deus com todo o teu Coração, com  toda a tua Mente, com toda a tua Alma,  e com todas as tuas Forças …»

 

Luís Sequeira, Sacerdote e Antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço todas as semanas, sempre às sextas-feiras.

 

 

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Entre Lutero e as Fraternidades

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Este ano comemoram-se dois eventos importantes: os quinhentos anos da afixação, por Lutero, na porta da capela de Wittemberg das suas 95 teses e os trezentos da criação da Grande Loja de Londres e Greenwich. O primeiro acontecimento tem sido assinalado, por conferências, um pouco por todo o mundo que recordam a importância do movimento da Reforma para a história do cristianismo e da nossa cultura europeia. Registam um mundo em que o proselitismo religioso, a pluralidade das crenças, a prática da tolerância vulgariza-se como realidade vivenciada, sobretudo por força da expansão do protestantismo. O segundo foi comemorado, no passado dia 30 de Outubro, no Royal Albert Hall, em Londres, com um belíssimo espectáculo coreográfico e musical alusivo à história da maçonaria a que presidiu o Grão-Mestre da Grande Loja Unida de Inglaterra, o Duque de Kent e que fez culminar um conjunto de festividades que se tem multiplicado um pouco por todo o mundo.

As duas comemorações estão por alguma forma ligadas pois reflectem a identidade das nações do Norte da Europa e a sua tradicional identidade religiosa em que a procura da iluminação é um caminho individual, interior, de elevação ao divino, de diálogo directo do crente com a divindade sem a necessidade de intermediação de um clero que se assuma como o único intérprete da mensagem dos Evangelhos. E se a procura da fé é para os protestantes, nas suas várias denominações, uma questão de chamamento e assim de crença, a assunção de uma ética pessoal condizente com o empenhamento religioso ou no que ela releva para a vida profana é uma questão premente de identidade para a imensidade de organizações fraternais que se revêem no paradigma e na filosofia da Grande Loja Unida de Inglaterra. Não há um caminho sem o outro e por isso é normal que em Inglaterra e noutras partes do mundo que foram do Império Britânico, a participação dos clérigos e dos pastores na prática iniciática e simbólica da maçonaria seja absolutamente corrente.

Muitas vezes se pergunta se não há um esgotamento da mensagem do protestantismo e se a Igreja Romana não terá por alguma forma interiorizado (e aprendido) com as principais críticas de Lutero à prática adulterada da Igreja do seu tempo, à mercantilização da Fé, à instrumentalização da tecnoestrutura da Igreja para fins menos próprios. De certa forma o movimento da Contra-Reforma foi uma resposta a essa perversão e procurou levar a Igreja Romana para o caminho que fora definido pelos seus fundadores no começo do cristianismo. Mas isso não evitou que os países de orientação católica e protestante se envolvessem inúmeras vezes em guerras de enorme violência que produziram elevado número de vítimas. A mensagem hoje é de apaziguamento. Uma sondagem recente efectuada pelo Pew Research Centre e divulgada a 31 de Agosto de 2017, revela que a visão comum entre católicos e protestantes na Europa Ocidental é que as duas religiões são mais parecidas do ponto de vista religioso que dissemelhantes. Essa é a perspectiva dominante na Alemanha, Holanda, Noruega, Grã-Bretanha, Suécia, Finlândia, Suíça, Dinamarca, Irlanda, ou Itália, tanto nas comunidades católicas, como nas protestantes.

A esse facto não será estranho o facto, de acordo com o mesmo estudo, de que os níveis de prática religiosa sejam fracos e muito semelhantes quer no mundo protestante, quer no mundo católico. No mundo protestante, apenas na Holanda cerca de 43 por cento dos inquiridos revelou frequentar semanalmente o serviço religioso, enquanto nos demais países de orientação protestante a percentagem oscilou entre os 6 e os 9 por cento. No mundo católico apenas em Portugal, Itália ou Espanha cerca de 21 a 28 por cento dos inquiridos revelou ir semanalmente à missa. Em outros países esse segmento variou entre os 5 por cento ( Holanda) e os 15 por cento na Suíça.

Se colocarmos a questão da afirmação da orientação religiosa na prática diária da oração os valores são igualmente reveladores. Apenas na Holanda cerca de 58 por cento dos inquiridos revelaram rezar todos os dias. Nos demais países protestantes essa percentagem cifrou-se entre os 6 e os 9 por cento. Entre católicos a percentagem dos que rezam diariamente apresenta o maior valor em Portugal com 28 por cento dos inquiridos , 25 por cento em Itália e 21  por cento em Espanha e na Irlanda. Nos demais países católicos essa percentagem situou-se entre os 5 e os 15 por cento. Em termos da média apenas 8 por cento no mundo protestante e apenas 14 por cento no mundo católico revelaram cumprir aquele que é um dos sacramentos mais importantes do cristianismo: a frequência da homilia semanal.

Como explicar estes resultados?

De certa maneira os valores que eram firmados pela prática periódica e quotidiana da Igreja Romana transformaram-se em regras essenciais da vida em sociedade: o amor pelo semelhante, a prática do bem comum, a solidariedade para com os mais desfavorecidos, o aprimoramento dos valores morais pela educação republicana. Os valores difundidos pelas Igrejas e denominações tornaram-se deveres de política no estado democrático e social e aspectos pelos quais os governos são julgados nas urnas. Poderá haver uma diferença de ênfase, mas na essência os programas sociais são os mesmos à direita e à esquerda. Será que a Europa Ocidental se tornou mais ateia e anti-religiosa? Os dados não permitem comprová-los. Provavelmente as comunidades tornaram-se mais apáticas quanto ao fenómeno religioso e se o percepcionam como um dever de consciência não fazem alarde disso.

É curioso, por isso, a renovação a que as maçonarias de inspiração britânica metem ombros. A Grande Loja Unida de Inglaterra contratou a empresa Bondy Consulting para melhorar a imagem da organização procurando corrigir ideias preconcebidas acerca do secretismo dos seus rituais, da falta de transparência da organização ou da dissimulação dos seus membros. A abertura do Freemasons’Hall – a sede da Grande Loja – a eventos sociais como passagens de modelos, lançamento de livros e jantares faz parte da campanha de marketing que intenta combater ideias vulgarizadas que a maçonaria é uma organização ultrapassada, constituída por velhos e misógina. O espectáculo de encerramento das comemorações no Royal Albert Hall em Londres evidenciou esse esforço de abertura. Outras grandes lojas e grandes orientes em Espanha, França, Itália, Austrália e Portugal desenvolvem idêntico esforço de sublinhar que o caminho desenvolvido pela maçonaria se materializa no aperfeiçoamento moral, no reforço dos laços de solidariedade, no aprimoramento do sentido de responsabilidade social.

Dir-se-ia que apesar do muito que a ciência e a tecnologia têm trazido em termos do melhor conhecimento do mundo que nos rodeia e do funcionamento do ser humano subsistem lacunas de vivência que explicam que as pessoas escolham vias menos tradicionais para a sua demanda da felicidade possível. De um lado as espiritualidades inorgânicas, de outro as Fraternidades.

Arnaldo Gonçalves é jurista e professor de Ciência Política e Relações Internacionais. Escreve neste espaço quinzenalmente, sempre às quintas-feiras.

 

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Dos equívocos sobre os bilingues, trilingues & etc.

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Porque em Macau constantemente se ouvem referências, quer na esfera privada, quer na pública ou na institucional, aos “quadros “, aos “talentos” e às “turmas” bilingues conviria, porventura, clarificar conceitos e perceber efetivamente de que se fala quando se fala de bilinguismo e de outros conceitos associados.

Os termos língua materna, língua estrangeira e língua segunda remetem para conceitos polissémicos que não correspondem a uma definição linear. A definição de “língua materna”, mesmo em contextos monolingues, é frequentemente ambígua; em contextos plurilingues, como Macau, é ainda mais complexa. O conceito apela ao de língua da socialização, aquela que transmite à criança a mundividência de uma determinada sociedade, e cujo principal transmissor é geralmente a família; é a língua que um ser humano aprende na infância até aos 5/6 anos. Quanto ao entendimento de “língua estrangeira”, esta facilmente se define como a língua que não faz parte dessa socialização primária. É possível distinguir a primeira da segunda língua (uma língua diferente da língua materna, usada com um propósito específico, por exemplo, na educação, no governo) e esta distingue-se por sua vez da língua estrangeira (a qual não tem qualquer estatuto especial). “Língua estrangeira” pode definir-se basicamente como uma língua estudada na escola, num contexto em que não é língua oficial, referindo-se este conceito a uma comunidade de falantes fora das fronteiras nacionais ou territoriais.

É de notar que em Macau o mandarim/ pǔtōnghuà e o português têm um estatuto de facto que implica algumas contradições relativamente à definição proposta; sendo o português língua oficial, é aprendido na escola e não é a língua materna da maioria da população; por outro lado, na Lei Básica de Macau a variante do chinês decretada como língua oficial não é especificada.

Para alguns, ser bilingue significa comunicar em duas línguas, mesmo que uma delas tenha sido aprendida mais tarde e se desvie um tanto da naturalidade falada da outra. Outros têm como referência falar sem erros gramaticais e com pronúncia perfeita. Simplificando, o bilinguismo é a capacidade de usar duas línguas. No entanto, esta definição é problemática porque indivíduos com diferentes caraterísticas bilingues podem ser classificados como bilingues. As definições de bilinguismo variam de uma proficiência mínima em duas línguas, para um nível avançado de proficiência que permite funcionar como um falante nativo de duas línguas. Uma pessoa pode descrever-se como bilingue, mas isso pode significar apenas a capacidade de conversar e de comunicar oralmente; outras podem ser proficientes em ler em duas ou mais línguas (ou bi-alfabetizados). Uma pessoa pode ser bilingue por ter crescido aprendendo e usando duas línguas simultaneamente (bilinguismo simultâneo). Ou pode tornar-se bilingue aprendendo uma segunda língua nalgum momento após a primeira língua (bilinguismo aditivo). Ser bilingue significa coisas diferentes para pessoas diferentes.

O bilinguismo engloba uma variedade de capacidades e contextos. Um indivíduo pode ter um bom nível de alfabetização em determinada língua, mas ser incapaz de a usar num contexto formal, por exemplo. Em termos de competência, um bilingue pode ter níveis muito elevados de proficiência em ambas as línguas ou pode ter pouca proficiência numa e ser muito mais proficiente na outra. Disto podemos tirar uma conclusão: bilinguismo é um rótulo relativo, uma questão de grau e não de dicotomia.

Quanto à questão dos alunos de língua em programas de imersão (por exemplo, em turmas bilingues), para os quais a compreensão é anterior à produção, importa reter que o bilinguismo principia quando uma pessoa começa a entender enunciados numa segunda língua antes de ser capaz de produzir os próprios enunciados. A imersão linguística é um método de ensino de línguas, geralmente de uma segunda língua, em que a língua-alvo é usada tanto como conteúdo curricular como língua de instrução. Os programas de imersão visam proporcionar a quantidade e a qualidade de envolvimento no uso da língua-alvo que assegure o desenvolvimento de um nível elevado de proficiência e são disponibilizados em vários níveis do sistema educativo, do ensino pré-primário ao terciário, sob diversas formas.

O trilinguismo, por sua vez, é usualmente tratado como um outro tipo de bilinguismo. É muitas vezes explicado como um fenómeno peculiar deste e é frequentemente assumido que as teorias e os resultados dos estudos sobre o bilinguismo são aplicáveis aos trilingues por extensão. No entanto, o princípio da educação trilingue não se descreve facilmente porque não se confina a uma aceção única, dadas as diferentes possibilidades na sua organização. Embora existam muitas semelhanças entre o bilinguismo e trilinguismo, ser trilingue não é o mesmo que ser bilingue, na medida em que as três línguas se podem manifestar na produção com maior visibilidade do que apenas duas. Em princípio, a educação trilingue é a educação em que os estudantes são ensinados em três línguas diferentes, mesmo que duas delas sejam apenas disciplinas no currículo da escola. A educação trilingue também pode encarada como a que prepara os alunos para falar ativamente três línguas e, nesse caso, todas as três são utilizadas como meio de instrução.

O grande equívoco sobre os bilingues (e trilingues, por extensão) é que devem ser igualmente proficientes em todas as línguas e que devem falar, ouvir, escrever, ler e ter um conhecimento perfeito das respetivas culturas… De tudo isto importa reter que os bilingues geralmente não falam as línguas ao mesmo nível porque usam cada uma em diferentes contextos, atividades e domínios (casa, escola, trabalho…) e que, portanto, é o contexto da proficiência e a finalidade linguística que determinam o grau de exigência a ter para com os bilingues e respetivos programas de formação.

 

Ana Paula Dias, Doutorada em Educação e Interculturalidade

 

* o presente texto foi escrito de acordo com as regras e especificações relativas ao novo Acordo Ortográfico.

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Os difíceis critérios de exigência

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Na reflexão deste Domingo, o Trigésimo Primeiro do Ano Litúrgico, começo pelo fim do texto. «Disse-lhes, então, Jesus: ‘Vós quereis passar por justos aos olhos dos homens, mas Deus conhece os vossos corações’».

A procura infantigável e a sede insaciável de Verdade, Amor e  Perfeição é, sem dúvida,  estrutural e intrínseca  ao coração humano. Ele não consegue descansar sem aí chegar e viver! Contudo, há que reconhecer, por outro lado, que nem tudo o que se movimenta no seu íntimo é, moralmente, assim tão bem ordenado e correcto. No ser humano nem todas as suas inclinações, nem todos os seus pensamentos e nem todos os seus sentimentos aspiram à «excelência».

São essas primeiras reacções da nossa sensibilidade humana perante uma realidade da vida que, tantas e inúmeras vezes, bloqueiam o nosso progresso – moral e espiritual – de  homem ou mulher. Apesar de as pessoas afirmarem com seriedade, convicção e sinceridade que ‘senti muito fortemente… pensei longamente… experimento uma inclinação irresistível…’, isso não quer dizer, no mais profundo e a longo prazo, que esse  movimento interior de fazer esta ou aquela acção seja o mais verdadeiro,  o melhor, o mais perfeito e o de maior felicidade e beleza para aquele ou aquela que, assim, sente.

É uma realidade muito comum entre os que começam a entrar mais profundamente dentro de si mesmos, ou a crescer para uma maior  plenitude de si mesmos ou até a iniciar um ‘caminho’ mais espiritual, considerarem eles que aquilo que, num primeiro momento, pensam, sentem ou sentem inclinados a praticar,  é o mais certo, o melhor e o mais perfeito. Quando na verdade, isto constitui apenas um primeiro passo numa longa caminhada em que, pouco a pouco, se vão sentir, ao contrário,  mais ‘vazios  de si mesmos’ e mais abertos a algo de nível superior e, acredito,  capaz até chegar ao divino.

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O texto evangélico, a certo momento, com as próprias palavras do Senhor Jesus, o Mestre, avança na exposição da problemática do mundo interior. Dá-nos alguns exemplos, cheios de sabedoria, que são um convite a todos nós de ir mais fundo na nossa maneira de  agir no nosso quotidiano. Há neles, sem dúvida, um «critério de exigência».

«Quem é fiel nas coisas pequenas,  também é fiel  nas grandes. Quem é injusto nas coisas pequenas, também é injusto nas grandes. Se não fostes fiéis  no que se refere ao vil dinheiro,  quem vos confiará o verdadeiro bem ?»

Não nos deixemos cair nem nas aparências do imediato, do meramente exterior, do propotente, do colossal, do vaidoso e do orgulhoso nem nos primeiros fulgores do coração

Ao mesmo tempo, Jesus Cristo denuncia, sem apelo nem agravo, as atitudes camufladas, enganadoras e falsas dos fariseus. Desmascara o comportamento de fachada. Eles que querem aparecer como «justos»,  os incontestáveis cumpridores da Lei, mas que não passam, afinal,  de «amigos do dinheiro e que roubam as viúvas » e provocam escândalo entre «os simples e pobres» de Israel.

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Mas, neste pequeno Discurso, o Senhor Jesus torna-se ainda mais incisivo e radical ao proclamar aquilo que denomino «o critério de  excelência». Se critica asperamente os fariseus no modo como O receberam,  «escarneciam», d’Ele, no entanto, Jesus Cristo continua sempre a convidar os seus discípulos – particularmente os Doze que o vão seguir –  consciente que estão em formação e, portanto, a aprender e a assimilar os Seus «difíceis critérios de exigência e excelência ».

 

Não há meios termos, ambiguidades ou ambivalências na doacção pessoal a Deus, a Cristo. A entrega tem de ser total e plena de confiança: «Nenhum servo pode servir a  dois  senhores,  porque, ou não gosta de um deles e estima o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro».

Mais. Tem de ser em desprendimento, em simplicidade e vivida em meios simples, austeros e pobres. Apegado ao dinheiro e dominado pelos cuidados e confortos deste mundo não vai longe. O ‘material’ sufoca o ‘espiritual’ : «Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro».

Eis a verdade mais fundamental, por último. Deus é único, superior a quem quer que seja neste mundo criado. Ele é Senhor, Pai e Criador. O  Seu Amor revelou-se absoluta e divinamente em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, que na Cruz morreu miseravelmente por nós.

Os caminhos de Deus em nós são imperscrutáveis e insondáveis : «O que vale muito para os homens nada vale aos olhos de Deus».

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço uma vez por semana, sempre às sextas-feiras.

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As razões escondidas

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É uma constante da pregação de Jesus Cristo, a denúncia das «razões escondidas» dos seus interlocutores, particularmente, se se trata de escribas, sacerdotes ou doutores da Lei,  sempre à procura de O deixar mal parado. Eles que se querem apresentar como o exemplo mais fidedigno do cumprimento da Lei  e da Moralidade! O Evangelho deste Trigésimo Primeiro Domingo do Ano Lúrgico é  disso, apenas, mais uma prova.

O que se está a passar pelo mundo fora mostra quanto a Palavra de Deus continua a ser não só actual, mas também perscrutante, tal espada afiada, de gume finamente cortante, a chegar ao mais profundo. Descobrem-se continuamente quer na vida política,  na economia e finança, no desporto, nas artes e no mundo do espectáculo – quer na vida consagrada, religiosa, sacerdotal – comportamentos desviantes e viciados, vergonhosamente, cheios de mentiras, manipulação, engano, exploração, violência e… até morte.

Viver em sociedade, partilhar a nossa existência com outros, tocando em todos os diferentes níveis da nossa relação humana – social, político, écológico, económico,  familiar,  religioso,  educacional,  artístico, desportivo, lúdico e cósmico –  exige que o ser humano, homem ou mulher, seja capaz de entrar no mais profundo de si mesmo, no ‘íntimo’ do seu coração e do seu ‘Ser’  e conseguir ouvir e entender ‘a voz da consciência’ e também, creio firmemente, escutar ‘a voz de Deus.’

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Acompanhando o ensinamento do Senhor Jesus, descobrimos no texto que nos é apresentado este Domingo uma leitura do coração humano muito acertada e esclarecedora. No coração humano existe, no entanto, um ‘mundo de afectos’, com inclinações muito variadas e nem sempre muito ordenadas, até mesmo, direi, com dinâmicas muito negativas, àcerca dos quais somos extremamente ignorantes.  Pior ainda, nem conscientes estamos da sua existência!

O Mestre, antes de mais, chama-nos a atenção da existência de uma força instintiva da natureza humana pela qual todo o ser humano deseja ‘ser apreciado’, reconhecido, admirado, estimado e valorizado. Caso contrário, nasce, cresce e desenvolve-se  nele uma dor tão penetrante que se transformará, aos poucos, naquela realidade que, filósofos, psicólogos e místicos, apelidam de ‘Angústia Existêncial’. O Senhor Jesus expressa essa inclinaçao instintiva, definindo-a como «tudo o que fazem é para serem vistos pelos homens». E acrescenta, descrevendo as suas manifestações externas : «alargam os filactérios e ampliam as borlas; gostam do primeiro lugar nos banquetes e dos primeiros assentos nas sinagogas». Encobrem-se, portanto, debaixo de certos comportamentos, supostamente correctos e até muito espirituais, mas, no fundo, continuam a desejar,  intensa e compulsivamente, «serem vistos pelos homens». O que aparece são apenas ‘máscaras’. O sentimento real e verdadeiro está reprimido. As motivações, afinal, são « razões escondidas».

Num segundo momento, o Senhor Jesus revela a existência de uma outra dimensão da natureza humana sobre a qual devemos estar também conscientes. Todo o ser humano, para além de desejar, intrinsecamente como homem ou como mulher, ‘ser apreciado’,  deseja, de igual modo e também instintivamente, ‘ser amado.’  Consequentemente, um coração não equilibrado afectivamente pode ser causa de comportamentos incorrectos e imaturos.  Assim se expressa Jesus sobre tal necessidade : «Gostam das saudações nas praças públicas e que os tratem por ‘Mestres’, … Doutores … Pai …».

Aqui temos um novo filão para originar aquilo que denomino «razões escondidas». Aquela necessidade psico-afectiva estrutural da nossa natureza que reclama que todo o ser humano tenha a experiência de  ‘ser amado’ pode levar -nos a comportamentos exagerados, obsessivos e compulsivos de necessidade contínua dos outros, de dependência afectiva excessiva, tais como: sensibilidade extrema  à presença dos outros ou à atenção que nos é dada pelos outros ou à sua ausência;   necessidade premente do aplauso e do elogio;  tendência forte a sempre agradar os outros, subserviência inconsciente;  altos e baixos muito acentuados no seu estado de espírito;  compulsividade a falar,  a dramatizar os acontecimentos da vida,  e a cair, por outro lado, em longas lamentações, tristezas, apatias.

 

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Por fim, o Senhor Jesus faz-nos cair na conta de quanto, viver prisioneiro das nossas « razões escondidas », no fundo do nosso coração,  poderá vir a afectar o nosso comportamento moral até ao ponto de ele se tornar, inacreditavelmente,  uma autêntica contradição: «Eles dizem, mas não fazem.  Atam fardos pesados e põem-nos  aos ombros dos homens, mas eles nem com o dedo os querem mover.

Não é isto que assistimos na sociedade actual ? Tantas «razões escondidas», nos homens e mulheres contemporâneos: políticos, financeiros, industriais, gestores, investigadores e cientistas, agentes sociais, educadores, animadores culturais e desportivos !

Contemplemos o Mundo… Onde está a Moralidade ? Onde está a Justiça, a Solidariedade e a Harmonia entre os Povos ?

Luís Sequeira, sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço uma vez por semana, sempre às sextas-feiras.

 

 

 

 

 

 

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