A prática da política Um País, Dois Sistemas

Maria Caetano

 

Assistimos diariamente, em Hong Kong, à prática da política Um País, Dois Sistemas, tal como ela é, informada por quem dela participa. Mais do que o manual de utilização da Lei Básica editado há pouco pelo Governo Central – e, ao conhecimento do leitor, com leitura em português, embora claramente direccionada ao ‘mercado’ da região vizinha – as última semanas reflectem o essencial do que há a perceber: uma Administração especial da China está, desde sempre, predestinada a falhar.

C.Y. Leung quererá, no seu íntimo, demitir-se, tal como exigem as vozes dos manifestantes nas ruas. Não admira. Cabe-lhe fazer o impossível: alinhar os astros e as disposições para que a população que administra se convença que, efectivamente, governa a cidade – tal como faz pressupor a Lei Básica –, e suceder em manobra tal que o Conselho de Estado, o partido e os seus satélites saiam rigorosamente tranquilizados de que são eles que, efectivamente, governam a cidade – tal como faz pressupor a Lei Básica. A Lei Básica, esse objecto de culto clássico, está para os nossos amplos desígnios como a primeira matéria elástica. A sua aparência estática deve fazer-nos desconfiar.

Cometida a suprema das heresias de questionar, de uma assentada, Lei Básica e princípio Um País, Dois Sistemas – Deng Xiaoping terá mais do que fazer do que inquietar-se na eternidade com o assunto –, venho aqui manifestar o princípio da desobediência pessoal e civil a qualquer tipo de ideia mal explicada. É que, todos o dizem, afinal a natureza do sacrossanto princípio que salvaguarda a soberania nacional e as autonomias é coisa para primeiras, segundas, terceiras e incontáveis interpretações. A questão será a de saber qual delas a mais legítima? Ou, com os tempos, a mais justa e mais adequada ao presente? Ou mesmo, vejamos, a mais adequada às aspirações do povo (ah, cidadãos)?

Como em muitos casos de emergência, não basta quebrar o vidro, socorramo-nos com a etimologia – coisa útil e intuitiva da era pré-acordo ortográfico. Pois, constituir é tarefa complexa e moderna. Exige da parte de todos nós, primeiro, um sentido de comunhão e participação. Em segundo lugar, exige do Estado, seus representantes, o reconhecimento da expressão da convicção de bem nacional comungado para que esta seja fixada em texto. E de todos exige o seu cumprimento.

Sabendo que não foi bem assim que nasceram as leis básicas das regiões administrativas especiais, tal como os bebés não vêem de Paris, isso não nos deve deter de pensar que ainda é assim que elas podem ser. Como nas línguas e todos os códigos, o significado é tão móvel quanto os seus utilizadores queiram que sejam, conquanto se entendam todos entre si – o que não vem para o caso, já que nos desentendemos todos.

O Governo Central vem pretender fixar os sentidos permitidos no caso de Hong Kong – Macau por arrasto – e a questão está em que, do lado de cá, e pelo menos na região vizinha, há vários milhares de pessoas na rua que não sabem do que está a falar. Ou se perdeu a chave do código, ou alguém mudou a fechadura. Para quem está hoje na rua, autonomia significa uma coisa outra do que Pequim pretende dizer, e sufrágio universal está longe do que o Comité Permanente da Assembleia Popular Nacional pretende representar.

O engulho é que, aparentemente, a República Popular da China não terá avançado tão rapidamente nos desígnios constitucionais que pôs a ela própria e às regiões que estão sob o seu chapéu quanto seria de prever inicialmente, e, assim, surge uma operação de redução semântica com um novo caderno de significados. No Continente, o movimento pelo progresso constitucional nos significados inicialmente acordados – ou, quiçá, sonhados, já não sabemos – terminou amenamente com a detenção de Liu Xiaobo e outros signatários da Carta 08. Ganhou-se tempo para lá chegar, claro está.

E, deste lado, é possível que se trate de convencer multidões de que as suas expectativas estão mal fundamentadas e que Pequim nunca teve a intenção de criar falsas esperanças. Em Macau, a tarefa parece estar quase concluída.

Em Hong Kong, porém, poderá ser mais difícil. Os jovens que estão nas ruas não parecem ser grandes tributários da grande herança histórica da criativa fórmula Um País Dois Sistemas nem muito reverentes com uma dádiva formal de liberdades e garantias que não existem no contexto da China Continental. Esses são para eles pontos assumidos, perspectivados de um ponto de vista global e onde a ideia de participação e representação se naturalizou há muito tempo. Não há um agradecimento humilde pelos direitos que encontram uma origem natural e não no Estado – concepção última que é antes, muito e cada vez mais celebrada em Macau.

O princípio Um País, Dois Sistemas, perante a realidade, deixa de dever apenas à sua trademark. Sendo um original de Pequim, não deixa de ser de Hong Kong e de Macau – o que, por enquanto, não é o mesmo que dizer Pequim.

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Nuvens negras sobre o Império do Meio (III)

Fernando Dias Simões

Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Macau

 

O conceito de “civilização ecológica” foi recentemente adicionado ao léxico do Partido Comunista da China enquanto fórmula desenhada para prolongar o milagre económico chinês sem comprometer o equilíbrio ambiental do país. Atingir este desígnio implica uma redefinição profunda das políticas públicas. Governos um pouco por todo o mundo têm fracassado no propósito de alterar o comportamento dos cidadãos porque conhecem mal as razões por trás desses comportamentos. Muitas políticas públicas tradicionais foram desenhadas assumindo que os indivíduos agem de uma forma previsível e racional. A teoria económica neoclássica baseia-se no postulado de que o indivíduo – visto enquanto homo economicus – é racional na medida em que é capaz de usar da razão e empregar a lógica nas suas decisões e escolhas. O indivíduo procura alcançar o seu próprio interesse, escolher racionalmente entre resultados identificáveis, e agir de forma independente com base em informação completa e relevante. Muitas políticas governamentais no passado expressaram a convicção de que, se as informações prestadas aos cidadãos fossem precisas e directas, estes fariam uso da sua racionalidade, considerando cabalmente os custos e benefícios das suas acções e respondendo apropriadamente.

No entanto, a verdade é que em muitas situações as pessoas agem de formas que são incompatíveis com a teoria neoclássica. Estudos realizados pelas Ciências do Comportamento, nomeadamente a Psicologia Cognitiva, demonstram que as escolhas dos indivíduos numa ampla gama de contextos desviam-se das previsões do paradigma do homem racional. Alguns destes desvios são sistemáticos e previsíveis. Na década de quarenta do século passado Herbert Simon desafiou com sucesso o modelo do “puro actor racional” que conformava as políticas públicas, argumentando que os cidadãos são tomadores de decisões limitados por uma “racionalidade limitada”. Esta teoria inovadora introduziu uma profunda mudança de perspectiva. Tendo em conta os limites das suas capacidades cognitivas e a complexidade do mundo que os rodeia, os indivíduos têm dificuldades em processar informação, entender uma situação e determinar as suas consequências. Frequentemente decidem com base em hábitos de pensamento, em “regras de ouro” ou em emoções, e não com base num raciocínio ponderado. Muitas destas conclusões foram incorporadas pela Economia Comportamental, um ramo emergente da Economia que visa beneficiar das lições da Psicologia Social e da Psicologia Cognitiva, de modo a melhor compreender e prever as escolhas económicas das pessoas. A Economia Comportamental afasta-se das previsões de modelos de escolha racional, incorporando ideias das Ciências do Comportamento e dando mais peso aos motivos irracionais que estão na base de muitos comportamentos. Vários padrões fundamentais de comportamento foram identificados pela Economia Comportamental, ajudando-nos a entender por que motivo os cidadãos não decidem do modo mais “racional”.

Reconhecer as limitações da racionalidade do indivíduo pode ajudar, naturalmente, a desenhar novas políticas públicas. Os formuladores de políticas públicas devem olhar para os cidadãos como homo sapiens e não como homo economicus. Eles devem ir além do paradigma de cidadão enquanto processador de informação racional para uma perspectiva que se baseia em diferentes Ciências Sociais e reconhece o indivíduo como decisor imperfeito. Os governos têm de desenvolver novas perspectivas sobre como abordar o indivíduo e dar maior ênfase a formas de compreensão que têm sido negligenciadas. Eles precisam de melhorar os seus conhecimentos sobre os micro-fundamentos do comportamento humano. As Ciências Sociais e do Comportamento fornecem lições preciosas mas muitas vezes subestimadas para atingir uma verdadeira mudança de comportamento em diferentes áreas de intervenção pública.

Nos últimos anos, novas políticas, inspiradas pelos ensinamentos da Economia Comportamental e da Psicologia Comportamental, surgiram como uma alternativa no campo da protecção ambiental. Essas políticas – muitas vezes rotuladas de “políticas de mudança pró-ambiental” – foram concebidas para alterar as normas de comportamento em vigor na nossa sociedade de consumo em massa e incentivar os indivíduos a reduzir a pressão que exercem sobre o meio ambiente. A política ambiental pode tornar-se mais eficaz se não ficar refém do modelo de escolha racional e reconhecer a racionalidade limitada do indivíduo. Estas ciências podem ajudar os agentes públicos a entender as consequências ambientais dos comportamentos individuais e a reformular as políticas públicas na área do ambiente, promovendo novos processos de tomada de decisão que se traduzam num real benefício para o meio ambient

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Gás contra guarda-chuvas

Cláudia Aranda

Como vai terminar o braço de ferro dos manifestantes pela democracia em Hong Kong com a polícia, o Governo da região administrativa especial vizinha, o Governo Central?

Ontem, à hora de fecho deste jornal, os manifestantes continuavam nas ruas. O sentimento de revolta em relação à violência da polícia era grande nas redes sociais: “Somos “Hong Kongers, não nos ajoelhamos”, dizia uma mensagem.

Há uma semana 13 mil foram para as ruas num boicote às aulas feito pelos estudantes e alguns funcionários de instituições de ensino superior.

O Governo de Hong Kong, liderado pelo Chefe do Executivo, representante do Governo Central, Leung Chun-Ying, disse na altura que a contestação estudantil era ilegal e prometeu acção “firme” contra os manifestantes liderados pelo movimento Occupy Central, que exige que o Governo cumpra o prometido: que o Chefe do Executivo seja eleito em 2017 pelo voto livre e directo da população.

Ora bem, a promessa de acção vigorosa de Leung não se fez esperar. Nos protestos do fim-de-semana, que terão reunido cerca de 80 mil pessoas nas ruas, pelo menos, 78 pessoas foram detidas, incluindo líderes dos grupos organizadores dos protestos. A polícia lançou gás lacrimogéneo e gás pimenta, os organizadores advertiram os participantes que a polícia poderia vir a usar balas de borracha, e os manifestantes foram-se defendendo como puderam: protegendo-se com guarda-chuvas, capas e óculos de plástico, aguentando-se “firmes”.

Estes manifestantes só querem que o mundo saiba o que se está a passar em Hong Kong, como dizia um estudante de 19 anos. Nas ruas, enquanto manifestantes e polícias mantêm-se frente a frente, telemóveis, câmaras fotográficas e de televisão registam cada momento mais tenso e publicam de imediato nas redes sociais.

O Governo Central, que já se mostrou descontente com os actos ilegais que estão a pôr em causa a ordem social, não tem como controlar esta divulgação desenfreada dos acontecimentos, que tanto estrago faz à imagem harmoniosa de Hong Kong.

O mundo está a olhar para Hong Kong. A cidade está agora sob vigilância internacional. Qualquer acção da polícia e das autoridades locais contra os manifestantes ficará para sempre registada nas câmaras fotográficas e na memória universal das pessoas.

Para os manifestantes, a importância que as autoridades dão à “imagem” de Hong Kong no exterior poderá ser a sua arma mais valiosa.

Os protestos vão continuar, dizem os organizadores, e as imagens vão continuar a passar nas televisões e no twitter do mundo. Pode ser que os manifestantes consigam convencer as autoridades a recuar na sua decisão e a relançarem a reforma política em Hong Kong a troco do fim dos protestos e do regresso à harmonia social.

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Do respeito entre instituições

Maria Caetano

 

Ao autor e académico Tolentino de Mendonça, colaborador habitual do semanário português Expresso, nunca lhe foi colocada a questão, provavelmente, de ter de abandonar funções enquanto dirigente de uma instituição universitária, a Universidade Católica Portuguesa, em razão da sua intervenção pública. Certamente, o facto, se sabido, motivaria extrema controvérsia e muitos se colocariam ao seu lado contra a indignidade de tal limitação à liberdade de expressão.

Tolentino de Mendonça, também religioso, diz-nos que “a verdade chega-nos através de múltiplos caminhos”, ideia sucinta passível de múltiplos usos e aplicações, quer procuremos o transcendente, quer meramente a verdade factual de todos os dias – o que acontece e o que deixa de acontecer.

Estamos perante um homem, autor interessante com obra fruível, sem dúvida um religioso com boas intenções que merece em Portugal a reputação de um religioso um pouco “fora da caixa”. Não se trata aqui de fazer juízos de carácter, mas estamos também perante o primeiro representante da Universidade Católica Portuguesa que vem a Macau – precisamente, nessa capacidade, a de vice-reitor – e do qual esperaríamos uma abertura aos múltiplos caminhos que permitiriam perceber se o afastamento do professor Eric Sautedé foi de facto uma opção justa ou censurável por parte da Universidade de São José.

O dirigente da Católica – que sendo uma instituição parceira, é também participante na São José – devia atender não apenas aos motivos alegados à reitoria de Lisboa, de uma eventual falha de currículo académico por conta de um doutoramento não concluído, mas também às próprias declarações do reitor da Universidade de São José, Peter Stilwell, primeiro e desabridamente invocadas para justificar a saída de Eric Sautedé: “Se há um docente com uma linha de investigação e intervenção pública [política], coloca-se uma situação delicada. Ou a reitoria pressiona e viola a sua liberdade, ou cada um segue o seu caminho”, explicou-se.

E a leitura da imprensa, com declarações nunca descontextualizadas, bastaria para que esta verdade factual revelada pelo próprio não passasse incógnita aos olhos da Universidade Católica Portuguesa – que, tanto quanto se sabe, nunca vedou o acesso dos seus académicos à esfera pública.

O respeito institucional entre Católica e São José, alegado para a contenção de qualquer declaração de juízo sobre os acontecimentos deste último Verão, não é compreensível. Naturalmente, ninguém esperaria uma admoestação pública. Mas tratava-se de ajudar a restaurar a confiança na idoneidade académica da Universidade de São José com a garantia de que a intervenção pública ou política não deve jamais ser condição para a promoção ou despromoção de professores da instituição. Não olhar para as águas que passaram e pretender olhar em frente apenas faz-nos temer a repetição de cenas como as que se passaram este Verão, absolutamente lamentáveis em quem se arroga procurar a verdade – universidades e igrejas.

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60 dias depois

Um quê de quoi

Cláudia Aranda

Tentar romper uma barreira policial durante um protesto dá direito a acusação por desobediência qualificada, a ver pelo que está acontecer com os dirigentes da associação dos trabalhadores de casinos Forefront of Macau Gaming.

Os acusados dizem em sua defesa que se a polícia achava que os manifestantes estavam a cometer algum crime que os deveria ter “detido e acusado naquele próprio dia”.

A polícia, por sua vez, disse à agência Lusa que junto à Rua de Sintra, onde se encontrava a barreira os manifestantes “ficaram muito agressivos e tentaram romper o cordão da PSP”. Apesar de, os manifestantes terem voltado ao seu circuito original, terão “violado a lei”. Mas, afinal, os manifestantes furaram ou não furaram o cordão policial?

Há pouco mais de uma semana estes dirigentes já haviam referido que estavam a ser interrogados pela polícia e que já tinham sido avisados quanto à possibilidade de poderem vir a ser acusados por suspeitas de terem furado o cordão policial num protesto realizado a 25 de Agosto, quando foi realizado o primeiro protesto geral que juntou trabalhadores das seis operadoras de jogo. À agência Bloomberg alguns dos dirigentes falavam mesmo de intimidação, já que a polícia terá contactado os pais das pessoas em questão, deixando-os em sobressalto, em vez de os notificarem pessoalmente. A acusação confirmou-se esta semana.

Recuando ao dia 25 de Agosto, e consultando o arquivo de telejornais da TDM, é possível aceder a imagens dessa que foi a primeira vez que trabalhadores de todas as concessionários se juntaram para pedir aumento de salários. Vê-se que há muita gente, que ostentam cartazes e faixas com dizeres reivindicativos, muitos parecem bastante jovens, todos parecem tranquilos, não se vê nunca momentos de crispação de ânimos que pudessem levar a situações de agressividade. Não há entre as imagens transmitidas nenhum incidente de rompimento de barreiras. O incidente também não é mencionado em relatos jornalísticos, na rádio e jornais da altura.

A manifestação de 25 de Agosto foi a quinta em que trabalhadores dos casinos se juntaram em protesto. Antes, a 5 de Agosto, trabalhadores do Galaxy haviam saído à rua a exigir melhores salários. A 30 de agosto, os trabalhadores da Sociedade de Jogos de Macau (SJM) não foram trabalhar, numa “greve de zelo”. Em finais de Julho, funcionários do Venetian Macau – da concessionária Sands China – também já haviam saído à rua. Perfazem-se agora 60 dias desde os primeiros protestos.

Espero estar muito errada na minha interpretação dos eventos. Mas, a versão da história disponível ao comum dos cidadãos sobre os acontecimentos de 25 de Agosto, não permite outra ilação senão a de que houve um “excesso de zelo” por parte das autoridades ao acusarem os dirigentes da Forefront of Macau Gaming de tentarem furar o cordão.

Gostava de acreditar que esta não se trata de uma acção “exemplar” para “intimidar” e “desencorajar” os trabalhadores dos casinos a continuarem a lutar por aquilo que consideram ser o seu direito a melhores salários.

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A expansão da lusofonia

Ricardo Jorge Pereira

Antropólogo

 

O volume económico das trocas comerciais entre a República Popular da China e os países que partilham a língua portuguesa equivaleu, em 2012, a cerca de 15% de toda a economia mundial, ou seja, a 95 mil milhões de euros.

Nos primeiros seis meses de 2014 o valor destas trocas comerciais atingiu os 48,4 mil milhões de euros que traduzem um aumento de 6,8% face ao período homólogo do ano que passou.

O Brasil – que tem, por estes dias, a primeira economia da América do Sul e uma das maiores do mundo (apesar de estar a passar por uma recessão) – é o principal parceiro comercial lusófono da China (só entre a China e o Brasil o fluxo comercial ascendeu, em 2013, a 61 mil milhões de euros).

Angola ocupa a segunda posição neste capítulo (vendendo à China cerca de metade dos produtos por si exportados: petróleo e café, sobretudo) e Portugal aloja-se no último lugar do ‘pódio’ (Portugal é, para além de um dos cinco países europeus com quem a República Popular da China rubricou um acordo de parceria estratégica global, o país que, na Europa, concentra um maior volume de investimento chinês: relembre-se que o anterior presidente da República Federativa do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, numa entrevista à Rádio e Televisão de Portugal no fim do passado mês de Abril, explicou que as empresas do seu país deveriam ter intervindo mais nas privatizações empresariais que, até então, se verificaram em Portugal para impedir que capital chinês que, assim, foi investido tivesse, de facto, acontecido).

A dinâmica económica tecida em torno dos países que, na América, em África, na Europa e na Ásia, têm na língua portuguesa o seu idioma oficial tem levado outros países e, por isso, milhares de pessoas espalhadas pelo mundo a juntarem-se à lusofonia.

Por isso, sugiro ao leitor que me acompanhe no esforço de recordar alguns exemplos, recentes, que o demonstram:

  1. na Argentina chegou a ser aprovada uma lei segundo a qual passaria a ser obrigatória a existência (mas não de frequência compulsiva) da disciplina de Português em todas as escolas de ensino secundário e mesmo nas do primário nas províncias próximas da fronteira com o Brasil;
  1. no Senegal, na Namíbia, na África do Sul ou nas regiões espanholas da Catalunha e da Galiza se vieram a verificar, entretanto, ‘movimentações’ desse género, mais ou menos semelhantes, envolvendo uma aproximação institucional à língua portuguesa (por exemplo, há cerca de dois meses, a Indonésia – cujo presidente, em fim de mandato, Susilo Bamgbang Yudhoyno esteve, por estes dias, em Lisboa – desejou formalizar o pedido de observador junto da Comunidade de Países de Língua Portuguesa – a CPLP) ;
  • a adesão da Guiné Equatorial à CPLP comprovou, uma vez mais, a notoriedade política, económica e cultural da lusofonia e abriu-lhe também, apesar dos reparos que lhe foram apontados, justa e injustamente, a propósito dessa ‘união’, novas oportunidades na área dos negócios, do comércio, do turismo, do emprego, do …;
  1. de entre os 254 alunos da disciplina de Português inscritos no Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, na Universidade de Lisboa, representando 36 nacionalidades (desde a norte-americana, a mexicana ou a paraguaia no continente americano à argelina, a marroquina e a camaronesa em África, entre outras), 96 (ou se se preferir, perto de 38%) são chineses.

Língua portuguesa também chamada (de forma incorrecta) de língua de Camões.

Porque se é um facto que ela começou por ser, apenas, falada em Portugal, a verdade é que, a partir do momento em que, também, começou a ser falada no Brasil, em São Tomé e Príncipe, em Cabo Verde, em Angola, na Guiné Bissau, em Moçambique, em Timor, em Macau, em Goa (e, igualmente ajudada por movimentos migratórios, em muitos outros lados…), ganhou novos intérpretes, sim, mas também novos sons, novas grafias e, por fim, novas palavras.

Assim, esta “evolução linguística” (embora alguns, reconhecendo o ‘fenómeno’, lhe prefiram chamar “involução linguística”…) estará assegurada enquanto houver quem fale Português.

Se a língua portuguesa é, hoje, falada por cerca de 250 milhões de pessoas no mundo e muitas delas vivem em alguns dos países mais pobres e menos bafejados pela fortuna, prevê-se que, em 2050, sejam 335 milhões os falantes de Português.

Confiemos, no entanto, que esta previsão de crescimento esteja em sintonia com a melhoria das condições de vida dos actuais “pobres da lusofonia” e que seja sinónima de prosperidade, de desenvolvimento e de dignidade.

Para todos.

Elogio ao Oriente

 

Após a destruição, pelos guerrilheiros taliban, das estátuas dos budas da Bamiyan, no Afeganistão, em 2001, o comendador Joe Berardo decidiu, em boa hora, homenagear o património da humanidade então arrasado.

Começou a edificar, por isso, pouco depois, o espaço Buddha Éden (que se tornaria, entretanto, o maior jardim na Europa dedicado ao Oriente).

Localizado nos arredores da vila do Bombarral, situada a pouco mais de oitenta quilómetros de Lisboa, o Buddha Éden (o ‘Paraíso dos Budas’) é um espaço de 35 hectares que evoca, em cada uma das dezenas de estátuas que o preenchem, a espiritualidade, a grandiosidade e a harmonia que se vê – e se sente… – no Oriente.

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A acção é mais importante que as palavras

Iris Lei

Nunca duvidei de que o Chefe do Executivo fosse receber novamente um despacho de nomeação pelo Conselho de Estado. Sabia que isso acontecer desde que Chui anunciou a intenção de concorrer a um novo mandato, há seis meses, à partida para a capital para participar na reunião da Assembleia Popular Nacional. Não apenas eu, mas toda a gente já sabia: ia concorrer sem rivais.

Não sou a única a ter a capacidade de prever o futuro, mas acredito que aquele que conhece o passado consegue prever o futuro. Refiro-me àqueles sentados à mesa de jantares inconspícuos, a beber Tsingtao. O grupo de homens de meia idade é presença constante nos jantares tradicionais a que vou. Discutem um pouco de tudo: a reforma política de Hong Kong, a eleição do Chefe do Executivo, os casos de corrupção de dirigentes de Hong Kong, os candidatos a secretários, parentes de algum alto governante conhecido de algum leitor de informação mais atento ou de algum jornalista experiente – é esta a imagem vívida das pessoas de Macau que tenho comigo.

Criticam o Governo por causa dos transportes, do preço da habitação e do excesso de pessoas na cidade, mas também não gostam dos protestos e movimentos organizados pelo campo pró-democrata, que consideram “inúteis”. Acusam os estudantes de serem “ingénuos”, ao mesmo tempo que vêem um “óbvia” restrição à reforma política. Condenam o regime de garantias dos ex-titulares de altos cargos, mas nunca os vimos entre a multidão de 20 mil pessoas em t-shirts brancas.

Então, o que é que estas pessoas, da geração mais velha, querem? Carpe diem, serem génios em retrospectiva, esperar por oportunidades que caem do céu, tal como aquela que em 2003 permitiu a entrada de grandes casinos estrangeiros, a autorização de vistos individuais, mais turistas, ou apenas organizar reuniões internacionais designadas pelo Governo Central?

“Ter uma consciência tem nesta era mais valor do que ter conhecimento”, diz-nos um estudante de Hong Kong disposto a participar no boicote às aulas. Apontei a frase para que me lembre de nunca me perder e para que nunca desobedeça à minha consciência. Mas uma recente entrevista com associações de estudantes sobre este boicote fez-me reflectir sobre o que é mais importante nestes tempos: coragem, reputação, conhecimento ou consciência?

Quis acreditar que os estudantes têm mais a dizer da sua consciência, mas sentem o fardo da “censura social” – os representantes das associações de estudantes têm sempre lugar nas associações tradicionais.

Acredito que nesta grande era é mais valioso transferirmos a nossa consciência para as acções. Uma sociedade como esta não precisa de génios em retrospectiva, não precisa de auto-censura, não precisa de heróis, não precisa de espectadores à margem, mas de pessoas de acção. Não é necessário ser-se activista, basta sermos leais connosco próprios em qualquer altura e em qualquer posição.

Talvez não consigamos mudar nada no fim de contas, nem os taxistas, nem os altos governantes que decidem nas salas com ar condicionado, nem o Governo Central, mas seremos capazes de provar a nós próprios quem somos, persistindo, sem ceder.

Antecipemos o que a acção fará pela sociedade a 1 de Outubro, Dia Nacional.

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