Poemas pós-Auschwitz

Márcia Souto

Escritora

Estive chocada demais, triste demais a ponto de não ter podido escrever sobre as atrocidades que andam a ocorrer e que nos fazem pensar que estamos em marcha a ré na História.

Impossível ficar indiferente à expansão do terror. No meio dos nossos inúmeros afazeres domésticos, torna-se impensável dizer “estou sem cabeça para isso…” A indiferença perante a realidade, ela própria nos parece uma atrocidade.

O filósofo alemão Theodor Adorno, em 1949, afirmara que escrever um poema após Auschwitz era um ato bárbaro, tornando impossível a escrita de poemas. Era como dizer que a literatura havia morrido e que não se poderia mais escrever, traumatizado o mundo pelo Holocausto.

E têm sido tantos holocaustos, que o mundo se tornaria num paradoxal silêncio, não fosse a coragem de artistas como, por exemplo, o poeta brasileiro Castro Alves, que, em 1869, escreveu Navio Negreiro, versos onde brame contra a escravidão e o êxodo de mulheres, crianças e homens negros.

O testemunho de um ato bárbaro ou viver numa época de atrocidades inacreditáveis talvez sejam tão traumáticos que nos calem a voz. Passada a angústia silenciante e silenciada, tento escrever… tentemos ao menos…

Humilhados por muito tempo, cozendo o ódio em banho-maria, tecendo a vingança com fria paciência. Esta receita de como se fazer um homem e uma mulher frustrados, que todos conhecemos, não poderia ser jamais ignorada. Mas foi… e agora o horror não nos sai mais da mesa da sala, do sofá, da mente.

Meninos e meninas, jovens de todo o mundo, horrorizados da cantiga do “bulling nosso de cada dia” (massacre a varejo), veem na propaganda do terror uma alternativa para se emergirem da vergonha.

Os novos dados estão lançados. Cerca de 12 jovens portugueses, segundo reportagem da TVI, tornaram-se jihadistas e “combatem nas fileiras do Estado Islâmico”. Acredita-se ser inglês o carrasco dos dois cidadãos americanos e do seu compatriota David Haines. Quiçá nos venha isso dizer que os holocaustos individuais estão a se recompor um tanto por todo o mundo e a criar uma grande onda de medo, vingança, terror…

E não adianta mudar o canal da televisão, desligar o rádio ou evitar a internet. O Auschwitz, com mais ou menos intensidade, mas com requintada desumanidade, acontece de forma omnipresente. Sendo esta a mais globalizada das realidades. Num mundo onde ainda as pessoas morrem à fome e os países são cercados pela epidemia do ébola, bem como seres humanos fazem novas travessias em jangadas do desespero, sabemos que há requintes do inferno no decapitar dos seres humanos.

Todavia, adiantará sempre o não silenciamento dos nossos poéticos gritos. Saiamos da nossa zona de “conforto” para o poema ainda necessário.

Na linha de Adorno, escrever pode não muito ajudar. Talvez sejam mesmo impossíveis poemas pós-traumáticos, mas tento, afinal: “E a canção é tudo. / Tem sangue eterno e asa ritmada. / E um dia sei que estarei mudo: / – mais nada.” (Cecília Meireles).

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