Solfejo na soleira da porta

Filinto Elísio

Poeta e cronista cabo-verdiano

 

 

Hoje, o Pranchinha mandou-me este bilhete e, aqui baixinho para que não se entre em paranoias, vai um cheirinho:

 

(…)

 

“Não me considero afiliado a nenhum partido, ainda que tenha minhas legítimas preferências de cidadania e saiba, com assumida lucidez, que as verdades da vida são plurais e, de tão relativas, nem sempre chegarem à soleira da minha porta. Militante partidário de carteirinha, assim como ser desta ou doutra igreja, deste ou doutro time, me incomoda solenemente. Diria que me sufoca ajoelhar, ter de rezar, dar vivas e fazer o coro de abaixos. Ficava – opinião muito pessoal – mais pobre que já sou se me persignasse a tudo aquilo. E se me convocassem aos comícios nos dias em que quero voar? Ou se houvesse congresso e/ou convenção quando me apetecesse estar ao crepúsculo? Ou mesmo se à hora de votar tivesse eu ganas de teus olhos versejar? Já nem digo deste ir para a Pasárgada sem pedir licença ao bom pastor. O outono que já faz bulir o vento e cair as folhas faz requerimentos para acontecer? E tantas outras razões, bem como suas razões nenhumas, para o sossego, senão mesmo para a pensativa solidão, a solfejarem à minha porta.”

 

(…)

 

Choquei, como o dito daquela telenovela. Esse Pranchinha!

 

 

Escandaloso nome de Deus 

 

Tenho acompanhado, enojado e indignado, quão suja é a propalada guerra santa. A forma como seus promotores, diabólicos até à medula, matam em nome de Deus. O absurdo como tudo se esboça e toma corpo deixa a nu o frágil da ordem do mundo, amiúde no comando dos mais ricos, mais fortes e mais lunáticos. As pessoas, sob o delírio dos porcos triunfantes, ficam à mercê dos donos do mundo, não mais que cangaceiros, de parte a parte afinal, sustentados estes por máquinas de matar. Pela televisão, a orgia das cabeças decapitadas e os mísseis destroem escolas, pois as crianças, de repente, viraram alvo da perfídia. Uns e outros puxam as suas razões hermafroditas e pecaminosas para a berlinda dos grunhidos. Enquanto isso, o ébola, já sendo desastre humanitário, também ajuda na limpeza étnica e, neste mundo de patrões, sacerdotes e califas, capazes e régulos das novas casas grandes, um ser humano, em cada 10, padece de fome nas senzalas. Em nome de Deus? Que escândalo…

 

 

Tempo 

 

De repente, estamos horas a falar sobre o Tempo. O factor Tempo, mais precisamente. Em grande plano, passeamos pelas eras – a Era do Fogo, a Era do Gelo, tantas heras e outras deusas do antanho. E, em plano fechado, as horas e seus decantares por minutos, segundos e seus lapsos diminutos. Não saberemos se a Eternidade vem (ou vai) do infinitamente grande ou do infinitamente pequeno. De repente, estamos no mato sem cachorro e o Big Ben badala as 24 horas, não se sabendo se tal espavento repõe o começo incessante do novo dia ou se resvala o momento para a vigésima quinta hora. O intervalo do míssil disparado, enquanto ainda não destrói uma creche e o olhar que não se demora na faísca dos amantes. Sábio era o poeta Francisco Sa-Carneiro, angustiosamente lúcido, no testamental poema “Fim”:

 

(…)

 

Quando eu morrer batam em latas,

Rompam aos saltos e aos pinotes,

Façam estalar no ar chicotes,

Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro

Ajaezado à andaluza…

A um morto nada se recusa,

Eu quero por força ir de burro.

 

(…)

 

Ou, então, não mais que a vertigem dos Rubaiyat, de Omar Khayyam, em voleios e volteios, adiantando tempo a Ricardo Reis, porquanto:

 

(…)

 

Tão cedo passa tudo quanto passa!

Morre tão jovem ante os deuses quanto

Morre! Tudo é tão pouco!

Nada se sabe, tudo se imagina.

Circunda-te de rosas, ama, bebe

E cala. O mais é nada.

 

(…)

 

O mais somos nós nesta cidade. E o Persa, também sábio (será que brindava diante da televisão?), sem arquétipos do Tempo, diria Não vamos falar agora, dá-me vinho. Nesta noite/a tua boca é a mais linda rosa, e me basta…

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