60 dias depois

Um quê de quoi

Cláudia Aranda

Tentar romper uma barreira policial durante um protesto dá direito a acusação por desobediência qualificada, a ver pelo que está acontecer com os dirigentes da associação dos trabalhadores de casinos Forefront of Macau Gaming.

Os acusados dizem em sua defesa que se a polícia achava que os manifestantes estavam a cometer algum crime que os deveria ter “detido e acusado naquele próprio dia”.

A polícia, por sua vez, disse à agência Lusa que junto à Rua de Sintra, onde se encontrava a barreira os manifestantes “ficaram muito agressivos e tentaram romper o cordão da PSP”. Apesar de, os manifestantes terem voltado ao seu circuito original, terão “violado a lei”. Mas, afinal, os manifestantes furaram ou não furaram o cordão policial?

Há pouco mais de uma semana estes dirigentes já haviam referido que estavam a ser interrogados pela polícia e que já tinham sido avisados quanto à possibilidade de poderem vir a ser acusados por suspeitas de terem furado o cordão policial num protesto realizado a 25 de Agosto, quando foi realizado o primeiro protesto geral que juntou trabalhadores das seis operadoras de jogo. À agência Bloomberg alguns dos dirigentes falavam mesmo de intimidação, já que a polícia terá contactado os pais das pessoas em questão, deixando-os em sobressalto, em vez de os notificarem pessoalmente. A acusação confirmou-se esta semana.

Recuando ao dia 25 de Agosto, e consultando o arquivo de telejornais da TDM, é possível aceder a imagens dessa que foi a primeira vez que trabalhadores de todas as concessionários se juntaram para pedir aumento de salários. Vê-se que há muita gente, que ostentam cartazes e faixas com dizeres reivindicativos, muitos parecem bastante jovens, todos parecem tranquilos, não se vê nunca momentos de crispação de ânimos que pudessem levar a situações de agressividade. Não há entre as imagens transmitidas nenhum incidente de rompimento de barreiras. O incidente também não é mencionado em relatos jornalísticos, na rádio e jornais da altura.

A manifestação de 25 de Agosto foi a quinta em que trabalhadores dos casinos se juntaram em protesto. Antes, a 5 de Agosto, trabalhadores do Galaxy haviam saído à rua a exigir melhores salários. A 30 de agosto, os trabalhadores da Sociedade de Jogos de Macau (SJM) não foram trabalhar, numa “greve de zelo”. Em finais de Julho, funcionários do Venetian Macau – da concessionária Sands China – também já haviam saído à rua. Perfazem-se agora 60 dias desde os primeiros protestos.

Espero estar muito errada na minha interpretação dos eventos. Mas, a versão da história disponível ao comum dos cidadãos sobre os acontecimentos de 25 de Agosto, não permite outra ilação senão a de que houve um “excesso de zelo” por parte das autoridades ao acusarem os dirigentes da Forefront of Macau Gaming de tentarem furar o cordão.

Gostava de acreditar que esta não se trata de uma acção “exemplar” para “intimidar” e “desencorajar” os trabalhadores dos casinos a continuarem a lutar por aquilo que consideram ser o seu direito a melhores salários.

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