Para além…  do imediato e Sensível

Dos diversos encontros de Jesus Ressuscitado com os seus amigos, três são-nos apresentados com especial relevo nestes primeiros domingos de Páscoa. Refiro-me aos de Madalena, Tomé e Pedro. Todos eles constituem um convite a uma nova maneira de estar na vida. Transporta-nos como que a qualquer coisa que vai para além do que é habitual, mais profundo e que nos abre a uma compreensão da realidade, que nos toca e circunda, que ultrapassa em muito a nossa sensibilidade perante as pessoas, as coisas, os acontecimentos, a natureza e até diante do próprio Deus.

Jesus ajuda Madalena a ver com os olhos interiores e a não se deixar levar pelas primeiras  impressões e aparências, «pensando que Ele era o hortelão». Faz o mesmo a Tomé que quer «meter o dedo no sítio dos cravos e a mão no Seu lado», chamando-o à atenção do tocar na fé. Por fim, Pedro, o Chefe dos Apóstolos, no seu diálogo com o Mestre, aprende o ouvir no íntimo do seu coração a voz d’Aquele que lhe diz «apascenta as minhas ovelhas», em vez de se deixar enredar na teia das experiências dolorosas do passado.

 

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Madalena, outrora mulher perdida no turbilhão da vida amorosa, ao entrar em contacto com Jesus Cristo, torna-se uma pessoa bem diferente, paradoxalmente a mensageira do Amor. Com ela aprendemos também que ‘o conhecimento interior’ da pessoa do Senhor Jesus é algo que precisa de ser continuamente trabalhado, purificado. Não é uma realidade acabada uma vez por todas. Cresce em termos de eternidade.

A cena descrita por São João junto ao túmulo vazio mostra que Maria de Magdala, apesar de ter Jesus, transformado pela glória da Ressurreição, mesmo diante de si, não consegue reconhecê-lO. Para ela, Ele é muito simplesmente «o homem da horta». Os olhos interiores estão obnubilados. Não deixam ver…

Aliás, recordemos que ao longo da vida pública de Cristo, há uns que vêem n’Ele o profeta Elias, outros Jeremias e outros ainda João Baptista… Homens de Deus, sem dúvida, mas nenhum deles é o Filho de Deus, o Messias. Os apóstolos chegaram até ao ponto de ver em Jesus  um «fantasma», quando estavam terrivelmente amedrontados na tempestade do mar Tiberíades. Outros houve que se atreveram mesmo a afirmar que «é por Belzebu, príncipe dos demónios, que Ele expulsa os demónios.» Cegos! Eles, de coração roído pela inveja, pelo orgulho e pela sede de poder e prestígio, caiem na ofensa mais grave que possa ser feita a Jesus Cristo, Ele que é o Filho de Deus, Ele que é Um só com o Espírito Santo…

Tomé, por seu lado, com a sua teimosia, revela a imperfeição de uma atitude muito natural na psicologia humana, o tocar para crer.  Jesus desafia esse critério. O tocar interior, através do coração é muito mais real e divino, é tocar as coisas por dentro, na Fé, no Amor, em Deus.

Recordemos a admiração de Jesus Cristo quando aquele centurião que Lhe pedia a cura do seu criado. O militar romano mandou-Lhe dizer por uns amigos: «Não te incomodes, Senhor, porque não sou digno que entres debaixo do meu tecto, pelo que nem me julguei digno de ir ter contigo». Não precisava do tocar sensível. Bastava-lhe o tocar em  Espírito e Verdade. O toque divino do Salvador.

Numa outra ocasião anunciaram a Jesus: «A Tua mãe e os Teus irmãos  estão lá fora e querem ver-te». A resposta foi peremptória: «A Minha mãe e os Meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática».

Ainda noutro momento, alguém grita: «Felizes as entranhas que Te trouxeram e os seios que Te  amamentaram», ao que Ele retorquiu: «Felizes, antes, aqueles que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática». Não é o estar em nossa casa, nem o aconchego dos pais e irmãos, nem mesmo o amor dos seios maternos que, radicalmente, nos fazem felizes. O verdadeiro Amor exige desprendimento. A  nossa necessidade intrínseca e natural de Amor ou, por outras palavras, a nossa angústia existencial de Amor só é transformada em felicidade na experiência íntima do Amor de Deus que vive continuamente na profundidade do nosso coração, do nosso ser.

Pedro só à terceira pergunta de Jesus: « Simão, filho de João, tu amas-Me?» é que consegue descobrir e, ouvir a tristeza que cala ainda no fundo do seu coração, por causa da negação dias antes, durante a  paixão. Cristo sabia que essa experiência amarga continuava no íntimo do coração de Pedro. Sim, pergunta três vezes. Não porque o queira massacrar. Antes, pelo contrário, quer libertá-lo, pois ele não está consciente do seu complexo de culpa. É qualquer coisa de muito bem escondido nas cavernas dos seus pavores. Não ouve…

Ao mesmo tempo que o faz ir ao passado para que ele não fique enredado e permaneça sempre ‘a olhar para trás’, o Senhor repete-lhe o convite: «apascenta as Minhas ovelhas». Porém, Pedro não consegue ouvir o sentido mais profundo dessas palavras. O Mestre não se está a fixar na traição.  Desafia-o positivamente a uma nova missão, como Chefe da Igreja. Simão Pedro, de facto, nem ouvia a dor e a tristeza no fundo de si mesmo nem o novo convite nem a maior intimidade a que Cristo o chamava: «Segue-Me».

 

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Ver, Tocar e Ouvir interiormente a Realidade é próprio da pessoa verdadeiramente sábia. Ela perscruta as razões que olhos superficiais não alcançam. Toca silenciosamente os corações que gemem sob o peso das angústias desesperantes da vida. Ouve o grito, sem palavras, do ser humano que aspira à Liberdade… ao Amor… a Deus.

 

Luís Sequeira, sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau

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A angústia da nossa existência

É o próprio Evangelho que utiliza o termo «Angústia de Morte» para expressar o sofrimento interior de Jesus Cristo na Sua Agonia, tanto quando prostrado no Jardim das Oliveiras, em oração, como quando suspenso no alto da Cruz. Ele, ao viver, na Sua própria carne, tal experiência, quer afirmar, antes de mais e categoricamente, que a «Angústia» faz parte da existência humana. Se assim não fosse, Ele não passaria por tal tormento. O Senhor Jesus, ao assumir a nossa humanidade, assume de igual modo  toda a nossa fragilidade, «em tudo igual a nós, excepto no pecado». Sim, mas ao fazê-lo, deseja levar-nos, também e acima de tudo, à compreensão e à convicção de que Ele veio a este mundo para nos libertar radicalmente do poder da dor, da morte e, dum modo particular, de todo o mal. Cristo Jesus é, na verdade, o Salvador e o Redentor da Humanidade.

A abordagem da problemática da «Angústia Existencial» tanto pode ser realizada a partir da meditação do ‘Clamor’,  do ‘Grito’, do ‘Gemido’, saído do mais profundo do coração, perturbado, desorientado e ferido da Humanidade actual, como através da meditação dos Passos da Paixão e Morte do Senhor Jesus.  O mais importante, no entanto, continua a ser que os homens e mulheres contemporâneos consigam, pelo menos, entender essa realidade da «Angústia» existente tão real e tão íntimamente no seu próprio ser. Porque, da parte de Deus, revelado em Jesus Cristo, Ele conhece-a e nunca nos faltará com a Sua graça…

Na verdade,  a ilusão sobre a maneira de estar na vida, criada pela ‘indústria do lazer, da diversão e do prazer’; a obsessão cada vez mais grave nos comportamentos humanos como consequência da ‘sociedade de consumo’; e tudo isto agravado ainda pela globalização despersonalisante e escravizante, originada pelas redes sociais e técnicas de informática,  estão a tornar difícil ao ser humano, hoje, tocar aquilo que de mais profundo e pessoal se passa dentro de si, e muito concretamente a dor, a ausência de sentido e o vazio da sua existência neste mundo. O mesmo é dizer, eis a «Angústia  Existêncial».

Neste sentido, recordo vivamente o filme ‘The Passion’ de Mel Gibson. Os artistas, sejam eles poetas, pintores, escritores, actores, realizadores de teatro ou cinema, têm sempre, ouso dizer, ‘um toque de divino’ nas suas intuições, sentem a realidade  para além do imediato! Apesar da crítica feita ao seu filme como sendo muito ‘cruel e dramático’ parece-me, no entanto, que a produção cinematográfica é muito verdadeira e genuína na vivacidade das cenas em que apresenta Jesus Cristo, como «o Servo esmagado pelo Sofrimento». Nós estamoa a precisar de mensagens vigorosas e esclarecedoras, que abram os olhos a tantos adormecidos, embriagados e iludidos por ideias enganadoras de um mundo delicado e fofo, ilusório e cheio de maravilhas.

As pessoas querem evitar o duro da realidade vivida pelo Senhor. No entanto, quer queiramos quer não, a violência dos sofrimentos, interiores ou vindos do exterior,  nos homens e mulheres chamados a viver neste começo do Terceiro Milénio atinge tais proporções que a Falta de Esperança e o Desespero crescem como um Abismo, sem fundo. Jesus Cristo é e continua a ser «o Caminho, a Verdade e a Vida».

Não consigo esquecer um outro homem notável, que procurou remar contra a maré da superficialidade.  Já o grande filósofo existencialista dos países nórdicos, Soren Kierkegaard, o primeiro na Europa e no Ocidente a reflectir sobre ‘O Conceito de Angústia’ e a colocar essa mesma «Angústia» à luz da ‘Problemática de Deus’, tem sido clamorosamente posto de parte na reflexão filosófica sobre Deus.

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Lê-se na narrativa da Paixão do Senhor :

«Cheio de angústia, Jesus pôs-se a orar mais instantemente, e o suor tornou-se-lhe como grossas gotas de sangue, que caíam na terra».

A «Angústia» faz parte da vida, embora poucos, com verdade, o admitam. É uma realidade que pertence à essência do ser humano. Toca o mais fundo do seu ser e do seu existir. Ela apresenta-se como a expressão vivíssima, cheia de sofrimento e dor, das nossas  necessidades intrínsecas de Verdade e de ser apreciado; de Amor e de ser amado; e de Vida e de estar seguro, quando não são correspondidas.

Sem ela, por mais inacreditável que pareça, não crescemos. Experimentá-la é receber um convite à Liberdade. Desapega-nos de inúmeras prisões que nos tornam dependentes dos acontecimentos do passado. Destrói máscaras, figurinos e cenários com que a sociedade hodierna nos procura, primeiramente, enredar… Depois, subtilmente, deseja dominar e controlar… E, finalmente, escravizar… Perante o futuro, ao desmacará-los e ao torná-los mais consciente na nossa vida, a «Angústia» faz desmoronar, implacavelmente,  as nossas torres, os nossos baluartes e os nossos castelos, invadidos de medos, ansiedades pavorosas e fantasmas aterradores.

Surpreendentemente, através dela, podemos ir ainda mais longe.  Compreendemos também que «a Angústia»  é ‘a porta’ e ‘o caminho’ estreitos de que, tempos a tempos, Jesus fala  como via necessária para experiência de Deus. Dá acesso ao santuário íntimo do nosso ser, onde o humano e o divino se encontram. Aí mesmo,  ela nos chama, com veemência, a ir ao encontro de Jesus, o Homem-Deus e Ele, como frescura de manhã calma, nos fará despontar para horizontes novos no insondável Amor da Trindade Santíssima que tem a Sua morada na intimidade do nosso ser.  Alguém sintetizava este ‘Caminho Interior’ dizendo: ‘é como passar do fogo da Angústia ao fogo do Amor Divino’.

Reparemos que, na experiência da «Angústia,» Jesus orienta-se, em primeiro lugar, para Deus. Depois, ao amigo íntimo. Só, por fim, vai buscar o pequeno grupo ou a comunidade. Com muitíssima frequência fazemos exactamente o oposto. Vamos desabafar ao grupo de amigos e conhecidos. Em seguida, entramos em intimidades com amigos próximos. E… tão frequentemente, vamos a Deus só ao fim.

Não! Primeiro Deus… e só Ele… Então, saborearemos o Amor

Luís Sequeira, sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau

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Gestão Patrimonial e transparência

Confluências no Delta 5Foram recentemente lançados em Macau alguns concursos para grandes obras públicas que suscitam algumas reflexões complementares que trago aqui à consideração dos leitores.

Nestes concursos os cadernos de encargos, vulgo CE, são uma peça chave de todo o processo pois presidem à realização dos mesmos e estão na origem das soluções apresentadas.

Os CE apresentam exigências várias que abordam questões processuais,  prazos que devem ser respeitados nas diversas fases, necessidades funcionais com indicação de áreas que devem ser cumpridas, obrigações resultantes da legislação em vigor e outras recomendações relacionadas com convenções internacionais, designadamente quando se está perante edifícios que se inserem em contextos patrimoniais, como nos casos que irei abordar.

Por vezes a previsão de áreas funcionais é tão exigente que obriga a uma verdadeira “ginástica” espacial para que seja possível cumprir com tudo o que é solicitado. Mas são essas as premissas do concurso e é obrigatório o seu cumprimento. As condições são estabelecidas no início, iguais para todos os concorrentes, e por isso mesmo devem prevalecer até que o trabalho, neste caso o projecto de execução, seja completado e entregue.

Dois concursos lançados nos tempos recentes pelo Governo de Macau, pela sua dimensão e complexa inserção urbana – em ambos os casos estamos perante edifícios em áreas patrimoniais -, lançam algumas dúvidas quanto à forma como estão a decorrer.

Falo no caso do edifício para alojar o Centro Juvenil de Actividades Culturais, Recreativas e Desportivas do Tap Seac, a localizar no espaço ocupado pelo malogrado Hotel Estoril, cujo concurso foi lançado em 27 de Outubro de 2017, e no edifício para a Nova Biblioteca Central de Macau, a erigir no espaço preenchido pelo Antigo Tribunal e antigo Edifício da Polícia Judiciária, concurso lançado em 1 de Março de 2018.

Chegados aqui, convém fazer uma declaração de princípios: concorri a ambos os concursos, não fui selecionada, não me move qualquer interesse pessoal, mas conheço demasiado bem os programas base de um e de outro concursos, para poder questionar os resultados, as propostas e o cumprimento, ou não, do planeamento e dos objectivos fixados, por parte das equipas vencedoras.

Estou atenta, sei por experiência própria que ambos os concursos eram extremamente exigentes e estou na expectativa de ver como foram resolvidos tantos problemas com que os concorrentes se defrontaram ao longo do processo, alguns deles praticamente inexequíveis, e para ver que respostas foram dadas nas propostas apuradas.

Contudo, as respostas tardam em surgir. Vi recentemente num jornal local uma referência ao atraso que já se estava a registar na entrega da proposta referente ao Centro Juvenil e, na verdade, convinha que a situação fosse esclarecida: a entrega da proposta está atrasada? Haverá dificuldades na concepção? Como e porquê? Que cedências terão que ser feitas?

Porque a ser assim, a situação que resultou na atribuição de um trabalho, com aquela envergadura, à equipa vencedora deve ser convenientemente escrutinada por uma comissão independente.

Se a empresa vencedora apresentou uma melhor proposta para um projecto daquela dimensão, uma proposta que satisfez o júri quando comparada com outras, por que razão ainda não foi entregue, nem é apresentada ao público para apreciação?

Tem havido demasiados atrasos em obras públicas significativas que não devem repetir-se.

Por outro lado, a dimensão das obras em causa deve exigir a realização de um Estudo de Impacto Ambiental que ponha em evidência possíveis conflitos e que leve os projectistas a adoptar medidas que ajudem a mitigar essas situações.

No caso do Centro Juvenil, onde o programa é explicito quanto à necessidade de introduzir um parque de estacionamento de 900 a 1000 lugares, em 3 caves em subsolo, deve incluir-se a obrigatoriedade de realizar um estudo de tráfego para averiguar da bondade da existência de um estacionamento com esta magnitude, numa zona já fortemente congestionada da cidade, sob pena de se estar a contribuir para a criação de mais problemas na gestão do tráfego citadino. Nos pisos acima do solo a piscina olímpica coberta traz um peso estrutural acrescido que sobrecarrega a cave obrigando, eventualmente, a aprofundar a construção. Estas são questões que moldam o resultado final, sem esquecer as múltiplas salas de aula, auditórios e teatros a que o programa obriga. E o painel de Oseo Acconci? Onde será reinstalado? Questões que gostaríamos de ver respondidas de uma forma consensual.

No caso da Nova Biblioteca Central de Macau, a alojar num edifício datado, classificado, e que revela tantos condicionalismos, a questão da acessibilidade deve ser uma prioridade, enquanto que o reforço estrutural exigido para suportar as novas áreas em pisos superiores incluídas num novo corpo volumétrico de 6 a 7 andares não deve pôr em causa as pré-existências, tal como vem indicado no Caderno de Encargos.

A solução encontrada não pode desviar-se do que foi preconizado no programa do concurso. Essa era a condição igual para todos os concorrentes, por isso deve manter-se e ter tradução espacial. A não ser assim, o concorrente eleito estará a ter um tratamento que o beneficia e isso é questionável.

Faz falta uma avaliação independente que acompanhe o processo.

Faz falta a monitorização das soluções encontradas e também faz sentido que os Estudos de Impacto Ambiental sejam concretizados, para que sejam aferidas as potencialidades das soluções encontradas. As zonas de inserção de ambos os complexos já se encontram demasiado congestionadas, com acessibilidade difícil e as novas estruturas serão bastante exigentes.

Já que estas intervenções se realizam em zonas patrimoniais (num dos casos estamos na zona do corredor visual entre a Praça do Tap Seac e a Fortaleza de Nossa Senhora da Guia e Farol; noutro caso estamos perante um edifício de interesse arquitectónico ao abrigo da lei nº11/2013), sugere-se que, em ambas as situações, os estudos de impacto ambiental sejam acompanhados de um HIA – Heritage Impact Assessement (Estudo de Impacto Patrimonial) – conforme preconizado no Plano de Salvaguarda e Gestão, recentemente posto a consulta pública, sendo este um processo adoptado pela UNESCO e pelo ICOMOS em todos os locais patrimoniais, como já é habitual fazer-se em muitos países vizinhos.

Estamos perante operações urbanas significativas em zonas sensíveis da cidade e as soluções encontradas devem ser avaliadas na sua globalidade, os estudos devem ser feitos antes que seja tarde demais, as soluções encontradas devem dar respostas aos problemas e não afectar os valores consignados aos edifícios e espaços circundantes, pois só assim estaremos perante uma gestão transparente da cidade que cuide do património existente e o valorize.

É essa a gestão patrimonial global de que Macau precisa.  

Será que o Plano Director de Macau, cuja entrega nos foi prometida para Março de 2019 (?) traz alguma indicação sobre esta problemática?

Ou será este mais outro concurso a verificar?

Maria José de Freitas

 Arquitecta | ICOMOS-SBHSG

 Doutoranda DPIP3-UC.PT

 mjf@aetecnet.com

 

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100 anos de Fernando Namora

capa 2A propósito dos 100 anos do nascimento do escritor Fernando Namora vai ter lugar uma sessão evocativa na Livraria Portuguesa na próxima segunda-feira, dia 15 de abril, às 18h, por iniciativa da Associação Amigos do Livro em Macau, que contará com uma exposição bibliográfica e leitura de excertos de vários livros do autor. Seguir-se-ão outras sessões na Escola Portuguesa de Macau e no Instituto Português do Oriente.

Esta sessão evocativa do centenário de Namora pretende destacar e promover a releitura da sua obra, relembrando o percurso biográfico do autor e a sua atividade intelectual. Com extensa produção literária e uma pouco conhecida obra como artista plástico (chegou a receber em 1938 o prémio Mestre António Augusto Gonçalves de artes plásticas), o autor reuniu géneros tão diversos como o romance, a poesia, a novela e a biografia, tendo alguns dos seus livros sido adaptados ao cinema (Retalhos da Vida de um Médico, Domingo à Tarde e O Trigo e o Joio foram adaptados para o cinema e o primeiro também para a televisão) e traduzidos para castelhano, catalão, alemão, inglês, italiano, romeno, checo, sueco, esperanto, holandês, búlgaro, russo – mas é sobretudo como ficcionista que o nome de Fernando Namora marca a literatura portuguesa contemporânea, tendo recebido, entre outros, os prémios Ricardo Malheiros (1953), Medalha de Ouro da “Societé d’Encouragement au Progrés” (1979), Grande Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1979) e o Prémio D. Dinis (1982).

Fernando Gonçalves Namora nasceu em Condeixa-a-Nova, a 15 de Abril de 1919, e faleceu em Lisboa, a 31 de Janeiro de 1989. Foi médico e escritor, sendo a sua obra das mais divulgadas e traduzidas nos anos 70 e 80. Licenciado em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, pertenceu à geração de 40 (a geração do neorrealismo português), grupo literário que reuniu personalidades como Carlos de Oliveira, Mário Dionísio, Joaquim Namorado ou João José Cochofel. Estreou-se aos 18 anos com um livro de poesia, Relevos (1937), embora já tivesse publicado conjuntamente com Carlos de Oliveira e Artur Varela um livro de contos intitulado Cabeças de Barro, tendo Almas sem Rumo (1935), uma colectânea de novelas, permanecido inédito. Em 1938 publicou o romance Sete partidas do mundo, que obteve o prémio Almeida Garrett.

Ainda estudante e com outros colegas de geração fundou a revista Altitude e colaborou com várias outras publicações periódicas, como Sol Nascente, O Diabo, Seara Nova, Mundo Literário, Presença, Revista de Portugal, Vértice, entre outras. A sua iniciação literária fez-se sob o signo presencista, mas depressa foi atraído pela estética neo-realista. Envolveu-se ativamente no projeto do Novo Cancioneiro (1941), coleção poética de 10 volumes que se inicia com o seu livro-poema Terra, “uma verdadeira carta de alforria da geração” segundo Alexandre Pinheiro Torres, e que assinala o advento do neorrealismo em Portugal. Não obstante, a sua obra progrediu no sentido de um amadurecimento estético do neorrealismo, o que o levou a enveredar por caminho mais pessoal: não desconsiderando a análise social, a sua prosa ficou sobretudo marcada pelos aspetos do burlesco, por observações naturalistas e alguns traços do existencialismo (O Homem Disfarçado e Cidade Solitária). Em Domingo à Tarde assiste-se a uma integração desse existencialismo com um neorrealismo amadurecido. Nos anos 60 e 70 do século XX a ficção cedeu lugar à crónica e impressões, e além da ficção e da poesia, cultivou também uma espécie de crónica romanceada, em que se fundem a reportagem e o ensaio.

capa 1No posfácio da biografia de Fernando Namora, refere a ensaísta Nelly Novaes Coelho que não é fácil encontrar uma diretriz estética única na obra do autor, dada a diversidade de linguagem, técnicas, temas e matizes nela presentes ou até mesmo enquadrá-la num único movimento, dada a ausência de um claro denominador comum que as englobe a todas. No entanto, embora não imediatamente percetível, esse denominador comum existe – é uma certa “tomada de consciência” face à problemática social portuguesa, expressa em termos de arte. A ficção de Namora, desde Sete Partidas do Mundo a Diálogo em Setembro, desenvolve-se com sóbrio equilíbrio entre o plano transfigurador da arte que lhe dá voz e o plano da realidade vivida que lhe justifica a existência. Projetada no processo histórico de uma geração (que viveu um importante papel renovador), a obra de Fernando Namora surge como uma presença densa, fiel à terra, de onde recebe a inspiração, e às raízes que lhe determinaram o ser.

capa 3A citada biografia de Fernando Namora, publicada na Coleção “A Obra e o Homem” (Ed. Arcádia, 1968), escrita pelo médico e ensaísta Mário Sacramento, seu companheiro de geração e de faculdade, e a Autobiografia de Fernando Namora (Ed. O Jornal, 1986) oferecem um retrato do autor no qual o plano da sua vida pessoal assume uma dimensão especial em relação à essência de sua obra literária. Existe também um blogue dedicado à divulgação do autor, que disponibiliza uma ampla colecção de elementos gráficos e escritos, com destaque para as 1ªs edições de juventude, fotografias de várias épocas, e outros dados biográficos, marcantes do seu percurso literário (de 1937 a 1988). De notar ainda a existência da Casa- Museu Fernando Namora, sita em Condeixa-a-Nova, que contém o núcleo de pintura do autor, uma coleção de manuscritos, apontamentos originais, provas tipográficas, livros publicados, assim como um conjunto de documentos e objetos pessoais do escritor.

A título complementar, note-se que em Macau foram publicados dois textos sobre Namora, no Notícias de Macau, um em 4/5/1958 e outro em 11/5/1958, intitulado “Ainda ‘O Homem Disfarçado’ de Fernando Namora”, este último da autoria de Graciete Batalha.

 

Ana Paula Dias

Investigadora do CEMRI – Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais da Universidade Aberta de Lisboa

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A Cruz… Tem algum sentido ?

Aproximando-se a «Semana Santa», ninguém se pode furtar à questão da Cruz, particularmente, quando é proclamado que Jesus Cristo nela morreu para Salvação da Humanidade. Embora seja uma verdade fundamental e central da Fé de todo o cristão, não deixa de ser surpreendente a experiência do Apóstolo  Pedro, o amigo íntimo de Jesus e o escolhido para ser o chefe e autoridade máxima da Comunidade Cristã Primitiva.

Tendo Simão Pedro deixado já o pai e a profissão de pescador do Lago Tiberíades para seguir o Mestre, a determinada altura, Este pergunta-lhe: «Quem dizeis vós que Eu sou?». Como normalmente acontecia, Pedro responde de imediato e antes de qualquer outro, afirmando: «Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo». Para surpresa de todos, Jesus Cristo prossegue o Seu discurso, anunciando que «tinha de ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas, ser morto e ao terceiro dia ressuscitar». Ao ouvir tais palavras, Pedro sai de si e começa a repreendê-Lo. O Senhor, sem demora, reage forte e feio: «Afasta-te, Satanás! Tu és para Mim um estorvo, porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens!».

O tempo passa. Num segundo momente, o Senhor Jesus menciona o mesmo assunto, não parecendo, porém, que tenha tido grande efeito nos seus discípulos… Assim sendo, mais tarde, não é de admirar que Pedro, quando Cristo vivia já a Sua Paixão, acabe por O negar vergonhosamente… E isso acontece depois de ter afirmado, quase a rondar a basófia: «Eu não te negarei, mesmo que tenha de morrer…».

Isto teve lugar com o discípulo predilecto. E nós? Admiramo-nos de ter dificuldade em compreender o significado da Cruz?

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A Cruz na Vida e na História da Humanidade é uma realidade constante que ninguém consegue escapar,  por mais que tente. Todo o ser humano, embora com a tendência inata para a Perfeição, tem de reconhecer, com humildade, que a sua existência neste Mundo é tocada pelo imperfeito o que origina, nele e consequentemente, os momentos difíceis da transição, da transformação e da superação dos acontecimentos, provoca a crise  e o ter que levar, por fim, aquilo que popularmente apelidamos ‘a Cruz de cada dia.’

Ao invés, todo acto criativo de excelência, beleza ou perfeição do Ser Humano não surge sem abnegação, sacrifício e dor. Esse é o caminho de todo o atleta de alta competição, do artista, do verdadeiro profissional, do cientista ou literato, do mestre espiritual. Recordo aquele amigo das nossas Beiras que dizia: ‘Oliveira que não sofre não dá bom azeite’.

Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, quando fala da Cruz,  transporta-nos para um nível mais profundo e transcendente. Contrariamente ao que a natureza humana seria inclinada a fazer como, por exemplo, evitar, pôr de parte, deitar fora a Cruz, Ele delara:  «Renegue-se cada um a si mesmo, tome a sua Cruz, dia após dia, e siga-Me». Ele que levou a Cruz até às últimas consequências, amando-a e morrendo nela.

Na verdade, Jesus Cristo não se limita a conselhos. Ele testemunha na sua humanidade, na sua carne de Homem, o peso, a violência e a dor da Cruz que lhe foi imposta. Paulo, que leva a Mensagem de Cristo Jesus a outras culturas, não deixando que ela seja limitada ao povo judeu, afirma, de maneira sublime, na Carta aos Filipenses: «Ele, que era de condição divina, não reivindicou o direito de ser equiparado a Deus; mas despojou-Se a Si mesmo, tomando a condição de servo, tornando-Se semelhante aos homens. Tido pelo aspecto como homem, humilhou-Se a Si mesmo, feito obediente até à morte e morte de Cruz».

Mas não só. Ele encarnou também todos os momentos críticos naturais da história pessoal de todo o nascido neste nosso planeta. Experimentou o estar no ventre materno, sentindo a fragilidade de bebé, e viveu o Nascimento, em circunstâncias extremamente precárias. A perseguição de morte e ter de emigrar e viver em país estrangeiro caracterizaram a Sua Infância. Iniciou a Sua Adolescência, com pais, embora santos, mas não compreendendo que, aos doze ou treze anos de idade, os filhos começam a preparar o seu futuro e a deixar o aconchego da casa dos pais. A Juventude e o crescimento para a Maturidade e Adultez foram completados ainda com um tempo longo de Formação, em Nazaré; Finalmente, teve de enfrentar os desafios de uma Vida Adulta e as consequências duma Missão, assumida sempre na fidelidade a Deus, Criador e  Pai, mas tão cheia de antipatias, maledicência e calúnia, e perseguição da parte das autoridades civis e religiosas…

Não há ninguém, homem ou mulher, neste mundo que na dor ou na angústia, na crise ou no caos, no fracasso ou na calamidade que não possa erguer os olhos para a Cruz de Cristo e ver aí a sua própria situação e aí encontrar conforto e consolação!

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A Sociedade actual procura a todo o custo evitar tudo o que seja ‘a Cruz de cada dia’. Mais concretamente, não quer nem deseja enfrentar os contratempos, a adversidade, o difícil e doloroso,  a contrariedade, o momento crítico, o fracasso. Parece só querer aceitar tudo seja parte integrante da ‘indústria do lazer e prazer’, completada pela enganadora e obsessiva dinâmica da tão publicitada ‘sociedade de consumo’… comer, beber, dormir, vestir e viver no conforto….

Ilusão, ilusão, ilusão… Vazio…

Luís Sequeira, sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau

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O baixíssimo nível da política

Os Antigos gostavam da ideia que a causa pública, o exercício da governação deveria ser destinado aos mais capazes, aos íntegros, aos que tivessem vocação para a exercer. Washington dizia que os lugares de liderança na ‘nova república’ deveriam ser desempenhados pelos melhores, sem remuneração, mantendo-se os titulares no exercício dessas funções apenas por um ano.

Naturalmente a ideia não vingou, pois não era exequível. O singrar dos tempos mostrou que não eram os mais capazes, habilitados ou competentes a ascender a cargos de governo mas os mais sagazes, demagogos e habilidosos, fixados na conquista do poder e sem quaisquer contrições morais ou problemas de consciência. A correnteza de políticos que temos tido no Velho e no Novo Mundo mostra a tristeza desta verdade, inúmeras vezes repetida.

Não é que a política não seja uma actividade nobre. É-o no sentido que Platão, Aristóteles ou Cícero a visionavam como um serviço dedicado e apaixonado à ‘res publica’, um dever de cidadania, uma entrega. Mas para que isso fosse possível os Antigos tinham quem se encarregasse das tarefas domésticas para que estivessem livres para os assuntos sérios e elevados da Cidade. A democracia grega e a cidade romana não se compreendem sem uma classe dos escravos e de servos que assegurava que a vida quotidiana não parava e que ao cidadão não faltava nada.

Esse sentido aristocrático da política e do seu exercício manteve-se nos séculos seguintes até que a Revolução Francesa trouxe uma nova “verdade”. Os ‘sans-coulotte’ tinham tanto direito quanto a nobreza a serem consultados e opinar nos assuntos da nação. Rousseau deu a estocada final no velho paradigma do ‘governo dos melhores’ quando escreveu que a democracia mediatizada por representantes eleitos para a câmara legislativa era a falsificação do ideal democrático do povo a governar-se  a si próprio. Contrapôs a esse sistema a democracia directa, exaltada, do povo reunido na ágora a tomar as grandes decisões dirigido por uma Vontade Geral que o comprazia, mesmo contra a sua vontade, a ‘ser livre’. E se devemos a Rousseau a ideia do voto da maioria, o regime que defendia era o inverso da democracia.

Começou com ele a deturpação da ideia da ‘liberdade’ que levaria ao cadafalso e à guilhotina, no Grande Terror de Robespierre, os inimigos do povo que discordavam do Cidadão número 1. Depois de ter mandado executar os seus companheiros de revolução, Robespierre seria vítima da fogueira que acendera. Precisou-se de um jovem tenente, nascido na Córsega e oriundo de famílias da pequena nobreza rural para que esse fogo a céu aberto fosse apagado e, sob uma lógica imperial, a França reencontrasse a serenidade e a ordem que provêm da previsibilidade das instituições.

As baixas origens sociais do jovem tenente francês não tranquilizaram as monarquias de direito divino europeias. Aliadas à Igreja de Roma, não desistiram enquanto não puseram as nações europeias sob a tutela absolutista dos Habsburgos. A derrota de Napoleão em Waterloo e a desastrada campanha da Rússia mostraram que não bastava coragem, valentia e sentido de comando para triunfar na política europeia, era preciso pedigree.

Teríamos de esperar um século para que a ideia do poder popular dos novos ‘sans-coulote’, os operários analfabetos das fábricas dos primórdios do capitalismo, se impusesse como ideologia libertadora e causa da revolução. Foi seu profeta um medíocre estudante da Universidade de Berna, de origem judaica, forçado a converter-se ao protestantismo luterano. Inebriado pelos calores da revolução que adivinhava vingar nas principais capitais europeias, Karl Marx imporia a ideia de um Apocalipse necessário em que sobre as cinzas da sociedade burguesa e os corpos das classes possidentes se ergueria um Novo Amanhã. Uma nova era sem divisões de classes, sem pobreza e desigualdades, em que os produtores deteriam as rédeas do poder aos diversos níveis.

Naturalmente esta construção utópica apenas seria exequível se os homens fossem santos ou semi-deuses. Não, como ensinara Hobbes, lobos enraivecidos capazes das maiores barbaridades por uma fatia suculenta do poder. Nas prisões e campos de trabalho forçado de Lenine, Estaline, Mao e Pol Pot esse sonho de amanhãs cantantes, emancipador, feneceria entre histórias de sofrimento e fuzilamento.

Sobraria para o mundo burguês o projecto da democracia possível em que a rotatividade dos partidos e das soluções de governação, num sentido mais socialista ou igualitário num tempo, ou mais individualista e amiga do mercado noutro, cativava as simpatias de um eleitorado ignorante dos meandros do poder, mas ávido da abastança e das benesses de uma vida fácil, farta e variada. A Europa construir-se-ia neste equilíbrio instável e pouco verdadeiro.

Naturalmente que um eleitorado acomodado à media das soluções fáceis e indolores é presa fácil de políticos desonestos, habilidosos, fingidos nas promessas mas inesgotáveis nos recursos. E daqui nasceram os populismos de esquerda e direita que marcam as nossas últimas décadas. De Sócrates a Berlusconi, de Le Pen a Orban, de Lula da Silva a Wilders, para nomear alguns.

Há uma faceta curiosa nesta evolução. Tem a ver com a baixa origem social de muitos dos populistas, a sua ruralidade, a sua aversão ao internacionalismo e à modernidade, bem como o seu ódio a uma imprensa livre e acutilante. Olhando para a realidade portuguesa, durante parte significativa do século XX os políticos foram escolhidos numa cintura urbana que ia de Lisboa até Cascais e em que se conheciam uns aos outros. Com o 25 de Abril e o acesso generalizado das classes desfavorecidas à escolaridade obrigatória e à universidade assistiu-se a um fenómeno sui generis.

Se até aí o filho do pedreiro, do canalizador ou da porteira tinham acesso ao ensino técnico – a chamada escola comercial – com a pressão da democratização, a queda das propinas nas universidades, a pulverização de cursos e a diminuição de exigências académicas, eles passaram a ter acesso a cursos que até aí eram destinados às classes mais favorecidas. Daí o salto para a política partidária foi um ápice. Multiplicaram-se os casos de jovens políticos que das juventudes partidárias passavam para os gabinetes de ministros e daí para o Parlamento sem que se lhes conhecesse mérito académico, traquejo profissional e experiência no sector público ou no privado.

O actual escândalo das ligações familiares entre membros do governo de António Costa e respectivos gabinetes é a demonstração cabal de um tempo de verdadeiro anormalidade democrática em que o xico-espertismo, a latosa e a falta de vergonha procuram nos convencer que ter num governo 40 pessoas ligadas por laços familiares de amizade próxima é algo normal, transparente e ajustado aos princípios da legalidade e imparcialidade que incumbe a um Estado de Direito acautelar.

A persistência deste amiguismo saloio não é, ao contrário do que pensa António Costa, coisa de somenos. Se olharmos para a história do século XX, os regimes autoritários e fascistas brotaram em catadupa quando os povos se cansaram da demagogia e da mentira e apoiaram quem lhes arrumasse a casa. Lembra Steven Levitsky num livro recente (“How democracies die? What history reveals about our future”) que as democracias podem morrer não às mão de generais mas de líderes eleitos, presidentes e primeiro-ministros que subvertem o processo que os trouxe ao poder. Essa é uma verdade incontornável. Naturalmente que esse desenvolvimento é sempre de evitar. Para isso seria indispensável que o eleitorado mostrasse o cartão vermelho a uma classe política que é relapsa e abusadora.

 

Arnaldo Gonçalves, jurista e professor de Ciência Política e Relações Internacionais

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ENTRAR… DENTRO  DE NÓS MESMOS

Perante a Lei de Moisés, uma mulher apanhada em flagrante adultério deveria ser apedrejada. Confrontado com tal situação, Jesus Cristo responde assim aos escribas e fariseus que impiedosamente denunciam o facto:  «Quem de entre vós estiver sem pecado atire a primeira pedra». Em pouco tempo, um após outro, a começar pelos mais velhos, abandonam o local. Por fim, a sós com a mulher, Jesus pergunta-lhe: «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?». Timidamente, ela ousa responder, dizendo: «Ninguém, Senhor». Jesus termina o diálogo do modo mais surpreendente, afirmando:  «Nem Eu te condeno. Vai e não tornes a pecar».

O episódio da «Mulher Adúltera» a ser proclamado neste Quinto Domingo da Quaresma traz consigo uma mensagem de extrema actualidade. Convida a todos nós a não perdermos a capacidade de ‘entrar dentro de nós mesmos’, a fim de que o nosso pensar seja sempre guiado por critérios de Verdade e Justiça,  o nosso sentir seja sempre vivido na Transparência interior e o nosso agir seja motivado única e exclusivamente pela Bondade e pelo Amor.

Cresce, porém e dramaticamente, na sociedade contemporânea a incapacidade das pessoas de se recolherem e de entrarem dentro de si mesmas.  Pior ainda. Verifica-se que, para elas, se apresenta cada vez mais difícil escutarem o que se está a passar no interior de si mesmas. Mais grave se revela ainda a  situação, quando tantas dessas mesmas pessoas parecem já nem sequer conseguir discernir o que é Bem e o que é Mal, o que constitui uma questão de princípio ou o que não passa duma dimensão secundária.

Mais em concreto. Na situação actual da Humanidade, torna-se atrozmente manifesto que a Verdade não é, com muita frequência, assumida como a força orientadora do seu caminhar neste Mundo que se deseja sempre cada vez melhor. Tal acontece tanto a nível pessoal, mais restrito, como se pode descobrir igualmente nos foros internacionais em que se discute a geo-política mundial ou nos círculos muito privados e exclusivos da alta finança e dos grupos económicos multinacionais,  ou ainda nos ultra secretos centros de estratégia militar. Mesmo as Igrejas estão a constatar, com pena e vergonha, quantos dos seus pastores silenciaram a Verdade. E isto, para a angústia e destruição dos mais pequenos, dos mais vulneráveis, enfim, dos inocentes.

Ao mesmo tempo, como se caminhássemos para um abismo de insensibilidade moral, deparamos que, hoje, está também a aumentar,  e em subida vertiginosa, o número daqueles que se mostram incapazes de penetrar, com conhecimento e sabedoria, no mundo caleidoscópio e riquíssimo dos sentimentos. Indo mais fundo, perguntamos mesmo, onde estão aqueles com o ‘dom’ de compreender a natureza e a dinâmica do mundo afectivo, capazes de discernir o valor dos afectos e serem, acima de tudo, mestres a acompanhar e a guiar os outros a fim que sejam livres, perante as suas próprias emoções, os seus próprios sentimentos e os seus próprios afectos, e criteriosos nas suas decisões.

Se, por um lado, os princípios e critérios de Verdade não têm uma base sólida, não passam de uma realidade que rodopia como catavento, ao sabor dos ventos da ocasião, da moda e do ‘politicamento correcto’…; se, por outro, os sentimentos não passam de árvores de um qualquer bosque ou pinhal consumido por labaredas incontroláveis, onde não se é capaz de distinguir sentimentos profundos dos superficiais e levianos;  equilibrados dos exagerados e excessivos; ordenados dos desordenados; verdadeiros dos enganadores; destrutivos dos construtores de esperança; bons dos maus…; será de espantar o ter de contemplar ao nosso redor as desigualdades cruéis entre as nações, a hipocrisia dos países cristãos a venderem armas para sustentar lutas fratricidas intermináveis e o globo terrestre a ser cinicamente destruído…?!

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É chocante ler no Evangelho aquilo que, no seu íntimo, pensavam os líderes do povo e os mestres das Escrituras Sagradas e formadores da Moralidade pública, quando apresentam a Jesus aquela pobre mulher: «Falavam assim para Lhe armarem uma cilada e terem pretexto para O acusar.» Vergonhoso! E gente investida em autoridade… Aparentemente muito ‘santos’, mas não passam de lobos rapaces, que procuram esquartejar os ‘frágeis’ e os vulneráveis. Escondem a sede de poder! Onde está a Verdade,  a Justiça, o Respeito pela Pessoa Humana? Mas que diferença fazem os chefes da política, da religião, das finanças, os senhores do conhecimento e da lei , que a passagem evangélica descreve daqueles que exercem as mesmas funções na actualidade? Dizem uma coisa e fazem outra. Não testemunham a Verdade. Enganam. Matam, quando não lhes agrada enfrentar a Verdade…. Jesus Cristo não acabou por ser trucidado por causa da Verdade?!

A cena apresentada pelo Evangelista João leva-nos mais longe. Transporta-nos para um outro nível de compreensão da experiência humana e divina. Faz-nos descobrir que a Racionalidade no ser humano pode fechar-se muito narcisisticamente em si mesma,  convencida da supremacia do seu conhecimento até ao ponto de perder a capacidade de sentir e entender o outro em dificuldade e dor, esvaziar-se do sentido de compaixão.

A prática pastoral de acompanhar muitos no seu ‘Caminho Interior’ faz-me chegar a uma outra conclusão dramática, porque muitos não a atingem ou simplesmente a negam. A Racionalidade,  por mais incrível que possa parecer, pelo seu excesso de afirmação, consegue, a certa altura da história de cada um, bloquear e congelar a Sensibilidade e a Afectividade… e mesmo cerrar, por um tempo, as portas  à compreensão do seu Ser mais íntimo e até do próprio Deus que nele habita..

 

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