O momento próprio

[Olhar ao redor]

A tão conhecida narrativa das «Bodas de Canãa» aparece no Evangelho deste Segundo Domingo Comum do Ano Litúrgico. Nada nos espantaria, portanto, que o texto nos levasse muito naturalmente a reflectir sobre o tema candente do «casamento» na Igreja e no mundo de hoje.

No entanto, sinto-me muito mais inclinado a focar a meditação por uma outra perspectiva. Considerar, de preferência, todo aquele outro caminho que levou à transformação da água em vinho pelo poder divino de Jesus. Percurso esse que deixou os esposos, no final do banquete, a manifestar, com o aparecimento do inesperado «vinho bom», de melhor qualidade, a sua grande alegria em companhia dos seus convidados, particularmente, dos seus familiares e amigos.

Contudo, mesmo aqui, deixo-me centrar mais não tanto no ‘milagre’ que acontece pela força portentosa e única do Senhor Jesus, mas sim nos aspectos mais humanos, nas atitudes concretas das pessoas intervenientes, que precedem, e conduzem e, enfim, nos ajudam a compreender a actuação divina. Vejo-me mais inclinado a considerar, com maior seriedade, os diferentes momentos que levaram à realização do milagre do que ficar estupefacto e preso pelo mesmo sinal extraordinário de Deus. Por outras palavras, creio que é salutar e pedagógico ter em conta, concretamente, as circunstâncias variadas em que os acontecimentos se desenvolvem, reparar nos comportamentos dos seus distintos personagens e, finalmente, perceber a dinâmica interna dos passos que levam ou podem levar alguém a acreditar num ‘milagre’ ou qualquer experiência espiritual profunda. Estou mais interessado, através da experiência do Evangelho, a perceber como Jesus conduz a pessoa humana ao ‘acto de crer’ ou, pelo lado inverso, como o ser humano, homem ou mulher, se move para ‘o acto de fé’.

As «Bodas de Canãa», um dos primeiros milagres de Jesus!

Desde as palavras, um tanto ásperas, de Jesus a Sua Mãe que intercedia pelo jovem casal, a ver o vinho a esgotar-se – «Mulher, que temos nós com isso? Ainda não chegou a minha hora.» – até ao final , com a transformação da água em vinho, dão-se uma série de factos que, sem eles ‘o milagre’ não teria lugar. Ao mesmo tempo, pela cadência da sua execução humana eles caiem na ‘hora’ de Deus

Maria, Nossa Senhora, embora a mais perfeita criatura criada por Deus, não significa que ela é perfeita como Deus. Assim como na Anunciação ela aceitou o plano de salvação, pela Encarnação de Jesus no seu próprio ventre, não queria isto dizer, portanto, que ela sabia os pormenores desse mesmo plano. Não! Ela aprenderá, aos poucos, com o desenrolar dos anos. Por isso, é que lemos no texto sagrado que «Maria ponderava todas estas coisas no seu coração.»

Aqui nas «Bodas de Canãa», ela tem igualmente que aprender o que é ‘hora’ de Deus. E, como Nossa Senhora, também os outros. Constatamos que, depois de Maria ter preparado o seu coração, seguiram-se-lhe os serventes da mesa que se deviam preparar também: «Fazei tudo o que Ele vos disser.» Em seguida, aí estão eles a prepar as seis talhas de pedra. Finalmente, às ordens de Jesus, encheram-nas de água até cima.

Tudo preparado, isto é, o coração de Maria, os serventes, as talhas, a água… e o ‘milagre’ dá-se no tempo e na ‘hora’ de Deus.

 

De novo, esse diálogo tão profundo quanto íntimo na nossa natureza entre o divino e o humano. Deus actua em nós pelo amor que Ele nos tem para além da nossa compreensão e imaginação e sempre na sua ‘hora’, no seu tempo. Ainda assim, nunca prescinde da nossa participação, em liberdade e no uso pleno das nossas capacidades inatas: a racionalidade, a afectividade e a vontade. O corpo, físico ou inconsciente. É, por fim, aí onde o nosso ser tem ‘ sede de Deus.’

 

Luís Sequeira

 

 

 

 

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