O Fórum e a língua

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1.No lugar de Chui Sai On faria o mesmo que têm feito os Papas para enganar o rebanho da Cristandade: perdia uns meses a aprender com afinco o alfabeto fonético para, de vez em quando, assinar um ou outro brilharete que muito certamente o fariam cair em graça junto da comunidade macaense e portuguesa que encontram poiso e (cada vez menos) tranquilidade no cândido reflexo do Espelho da Baía.

Por mim falo. Acho que se me marejariam os olhos no dia em que o Chefe do Executivo, com o afã que lhe é habitual sempre que sai à rua ou visita as criancinhas das escolas do território, apadrinhasse a inauguração do Festival da Lusofonia e perguntasse, num português foneticamente impecável: “Então, a bifanazinha está boa?”.

Exageros e lirismos à parte, era menino para aplaudir de pé Chui Sai On se, por exemplo, no final da mensagem de Natal que a TDM transmite todos os anos, o Chefe do Executivo se despedisse – com bom ou mau português, não importa – com um breve e simples “Feliz Natal e Bom Ano Novo”. Ou, se a meio da manhã de hoje, na mais importante das cerimónias realizadas este ano no território, Fernando Chui Sai ON acolhesse as delegações e os dignitários oriundo dos países lusófonos com um breve, mas significativo “Sejam bem-vindos a Macau”. Seria sinal de que há vida e consideração para além das prerrogativas políticas e que a aposta na língua portuguesa ultrapassa os predicados da missão confiada a Macau pelo Governo Central.

Foram necessárias quatro conferências ministeriais e bem mais do que uma década para que a Língua Portuguesa – o elemento fulcral de diferenciação na pomposa nomenclatura oficial (Fórum de Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa) pelo qual é conhecido o Fórum Macau – se alçasse, pelo menos de um ponto de vista teórico, a um patamar de importância comparável ao que sempre foi assacado às noções de cooperação económica e comercial. Ainda que os frutos de uma tal visibilidade tardem a amadurecer, nunca como agora se falou – e, aparentemente, se investiu tanto – no ensino do português no território, numa aposta que, mais do que politicamente acertada, se prefigura tão empiricamente natural que se torna difícil entender porque razão não foi tomada mais cedo.

Não é necessário ser-se doutor em letras – para se utilizar uma expressão de antanho – para se compreender que uma língua, qualquer que ela seja, não subsiste no vazio, cristalizada em diplomas legais e com a itinerância mínima que lhe é concedida pela circulação, também ela institucionalizada, dos títulos dos jornais. Para que vingue e se fortaleça, um idioma tem, necessariamente, de ser cultivado nas escolas e semeado nos espíritos, se possível pela construção de pontes sólidas entre a componente linguística e a envolvente cultural. No caso de Macau, este casamento ter-se-á de fazer necessariamente pela inserção nos currículos escolares de textos de quem escreveu, em português, sobre o território, se possível no território: o cultivo da língua (mais do que o ensinar o idioma, importa cultiva-lo), para que vingue, terá também de ser feito pela mão de Henrique de Senna Fernandes, de Deolinda da Conceição, de Wenceslau de Moraes, de Maria Ondina Braga e de tantos outros que ao longo de quase cinco séculos testemunharam e registaram o pulsar de um território que sempre foi maior do que si mesmo.

Ensinar, porém, não basta. Há que zelar também pelas manifestações visíveis da língua e acarinhar a sua aplicação para que a propalada fortaleza aparentemente em construção não tenha alicerces de Taipa. Um erro ligeiro, uma pequena distracção – como “O Feliz Fiesta de La Luna”, no portal do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais – têm o condão de transformar o mais robusto dos baluartes num castelo de cartas. Deixar que certos erros passem incólumes é limitar, desde já, o potencial da língua, numa altura em que, paradoxalmente, chegam de Pequim sinais contraditórios em relação à importância da língua portuguesa como activo estratégico. A nomeação de Xu Yingzhen, especialista na América Latina e proficiente em castelhano, para a liderança do Fórum Macau não será um mero detalhe, dado o anúncio, que hoje deverá ser formalizado, de que o Governo Central deseja ver as competências de Macau com plataforma alargadas à promoção dos mecanismos de internacionalização do renminbi.

 

  1. Cumprida que está a primeira etapa da deslocação de António Costa ao Oriente, é por mais evidente que a missão do primeiro-ministro português por estes dias passa sobretudo pela captação e canalização do maior volume possível de investimento chinês para a ainda frágil e mui depauperada economia lusa. O porto de Sines voltou a entrar na equação do Governo português e deverá tornar-se um entreposto mais na estratégia de mercantilização da economia global a que Pequim deu o nome de “Uma Faixa, Uma Rota”. Das Lajes não consta de que se tenha falado na capital chinesa, mas custa a crer que a questão não tenha estado sobre a mesa, conhecido que é o interesse das autoridades chinesas num entreposto atlântico a meio termo entre a Europa e a América.

Aparentemente, Costa chega a Macau sem coelhos na manga e sem a promessa de grandes concretizações que tenham como denominador o território. A comunidade portuguesa cá radicada agradece. No passado, noutras visitas da índole, foram anunciados com certa pompa e circunstâncias projectos e infra-estruturas que nunca saíram do papel. Tornaram-se, isso sim, dragões de fumo que volta e meio assombram quem por cá vive e lembram que os interesses da República quase nunca se coadunam com as perspectivas de quem fez de Macau a sua casa. Em 1998, um ano e meio antes da transferência de soberania, o território foi palco, pela voz do então primeiro-ministro António Guterres, do anúncio do maior investimento até então feito por uma empresa portuguesa na República Popular da China, a construção por parte da Somague de uma ponte no Continente. O projecto nunca saiu do papel.

O mesmo fadário conheceu o Centro de Distribuição de Produtos Portugueses, anunciado há seis anos por José Sócrates. A estrutura, que deveria nascer em Zhuhai, afirmava-se como um entreposto avançado de colocação de produtos portugueses no maior mercado do mundo, mas a imperatividade do projecto rapidamente se dissipou por entre as brumas do esquecimento. O que em Macau se diz em Lisboa não se escreve e se António Costa não traz promessas, também não semeia desilusões.

Obrigado pela visita, Sr. Primeiro-Ministro. E boa viagem.

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