O Sopro de Pak Tai: Um casamento proibido

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Hong Kong, 1981. À entrada do metro, um euro-asiático de trinta e tal anos, de visita à então colónia britânica para se encontrar com o primogénito que os azares da vida separaram quando tinha apenas dois anos, cruza com um velho que desce as escadarias. Sente um estranho sobressalto. Sem compreender bem porquê, volta-se e segue no seu encalço. As portas do metro quase se fecham nele. Foram necessárias várias paragens para que ganhasse coragem. Dirige-se ao velho e, em inglês, pergunta: “O senhor chama-se José da Veiga”. O velho, estupefacto, tira os olhos do jornal que estava a ler, e responde: “Sim, é verdade. Mas como sabe disso?”. O homem mantem-se, para espanto seu, bastante calmo. “É que eu sou seu filho, o Leonardo”.

Um simples episódio como este levado a película por um produtor de Hollywood seria suficiente para que esta se transformasse em imediato sucesso de bilheteira. Mas este pormenor é apenas o culminar de uma comovente história que percorre variados aspectos da história recente da China.

O mencionado Leonardo é o pianista Leonardo Veiga sobre quem já aqui falei e voltarei a falar em próximas crónicas: “A minha história começa em 1937”, diz. Esse foi o ano em que seu pai, José Rodrigues da Silva Veiga, português nascido no bairro de São Lázaro, Macau, em 1917, jornalista do South China Morning Post e correspondente da Reuters na cidade chinesa de Kunming, trava conhecimento, num bailarico de colectividade, com a jovem estudante Yu Cheng, originária de uma família de intelectuais da capital chinesa.

Do namorico ao casamento bastaram doze meses. Um casamento feito contra todos os padrões tradicionais da antiga China, e cujo registo ficou esquecido nos arquivos de uma pequena igreja da capital da província de Yunnan.

Se casar com um estrangeiro é ainda hoje pecado de lesa pátria, o que não seria naquela altura. Durante todo esse tempo Yu Cheng não visitou a família, mas escreveu por diversas ocasiões.

“A família perdoou a minha mãe”, explica Leonardo, “simplesmente porque segundo a tradição chinesa as mulheres não são assim tão importantes”.

(O casamento de José Veiga com Yu Cheng não é referido no livro «Famílias Macaenses» de Jorge Forjaz. Nessa obra vem indicado que José Veiga  —  na altura em que conheceu Yu Cheng e com ela teve dois filhos — estava casado com Margarida Maria de Sousa, de quem teve três filhos (um deles faleceu com poucos meses de idade) e que viveu com ela em Macau durante a guerra.

Dessa “união interdita” e vida em conjunto de dez anos vieram ao mundo dois seres. Leonardo, em 1946, e a sua irmã, Teresa, aliás Wei Mei, dois anos mais tarde. Depois… Bem, depois foi a longa separação.

Em Cantão, o casal viveu com a mãe de José Veiga, a senhora Bernarda Pópulo de Sousa. Mas a relação desta com a nora foi desde logo conflituosa: “A minha avô deu à luz José Veiga com apenas 15 anos e este tinha pouco mais de um ano quando o seu pai morreu”, recorda Leonardo. “Talvez se explique desse modo o facto da minha avô ser tão possessiva em relação ao filho”.

Possessão que se viria a reflectir irremediavelmente no relacionamento com a nora. Pessoalmente, Leonardo não tem razões de queixa da avó Bernarda. Recorda o encontro que teve com ela, em 1981, na mesma altura em que viu o pai: “Senti que gostava de mim e eu também gostei dela. Lembro-me de ela ter dito que eu era o neto mais parecido com os Veigas. O problema da minha avó, era com as mulheres que andassem em torno do seu filho”, conclui.

Vítima de uma continuada hostilidade por parte de Bernarda Pópulo de Sousa, Yu Cheng, numa manhã de Verão, pegou nos dois filhos e embarcou no aeroporto de Cantão, rumo a Pequim. Fazia-o também porque há já dez anos que não via a família: “A única recordação que tenho do meu pai é de um senhor alto que me levou ao colo até ao avião. Foi a minha mãe que me disse que ele era o meu pai”, recorda Leonardo.

José Veiga, por sua vez, voltou a Hong Kong, ainda como jornalista da Reuters e do SCMP. “Inicialmente queria que eu e minha irmã o acompanhássemos, mas a minha mãe não deixou. Como é que um homem podia cuidar de duas crianças?”, pergunta.

Ainda hoje Leonardo não compreende o porquê da embaixada ter recusado, como comprovativo válido, uma cópia de um documento assinado pelo consulado português de Cantão, em 1948, e destinado ao responsável da representação diplomática em Pequim, pedindo-lhe que “cuidasse das crianças” pois eram “cidadãs portuguesas apesar de estarem acompanhados de uma mãe chinesa”.

“Que mais provas queriam eles?”, pergunta, com toda a legitimidade, Leonardo.

Entretanto o curso da história vem alterar toda a sua vida. Em 1949 é proclamada a República Popular da China. No período revolucionário que se segue, a mãe é incapaz de adquirir bilhete, de avião ou comboio, para voltar a juntar-se ao seu marido em Cantão. Como se isso não bastasse, adoece gravemente. Uma arteriosclerose que a prende ao leito ao longo de três anos. Yu Cheng não tinha ainda 30 anos. Arteriosclerose? Quem via a senhora Cheng não o diria. Parecia respirar saúde apesar dos oitenta quatro anos que já contava no activo. Mas sobre ela, e outros fascinantes contornos desta história,  falaremos no próximo Sopro de Pak Tai.

 

IIM LOGOTIPO - 2015 (17)

Joaquim Magalhães de Castro, Escritor e investigador da Expansão Portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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