TER CONSCIÊNCIA DE NÓS MESMOS

 

1.Luis SequeiraNão param de surgir os segredos que a política e a economia, tão ciosa e hipocritamente, escondem nesses ´paraísos fiscais´ ou em ‘meetings’ de máxima importância. Há decisões que foram tomadas baseadas em falsas informações ou mesmo mentiras. Morrem centenas de  milhares de pessoa em consequência de jogos políticos de líderes bem escondidos nos seus palácios ou em edifícios de alta segurança.

Talvez estranhamente, vem isto a propósito da cena do Evangelho deste Vigésimo Oitavo Domingo do Ano Litúrgico. Duma maneira tão penosamente contrastante, ali se encara a experiência de um  homem  em péssima situação,  prisioneiro da lepra, mas que, pelo conhecimento,  honesto e objectivo, de si mesmo consegue chegar  à  transformação do seu terrível  estado de vida quando olha para Jesus e exclama, em alta voz: ‘Mestre, tem compaixão de mim’.

Aqui afirma-se a transparência interior como caminho de transformação e realização pessoais.  Ele, o leproso,  reconhece o mísero estado em que está e ao estar, verdadeiramente consciente dele, avança, com coragem e determinação, para a solução, e, assim,  aproxima-se,  grita,  pede compaixão, acreditando que Jesus é o Senhor e Salvador de toda a Humanidade.

Somos todos convidados, pela Palavra de Deus, a tocar, com verdade e  humildade, os cantos da nossa pestilência, os nossos cancros, a nossa fragilidade, os aspectos menos agradáveis da nossa vida, as angústias se queremos ser livres das amarras da nossa fraqueza humana e conseguir desenvolver as riquezas insondáveis da nossa natureza, criada ‘à imagem e semelhança de Deus’.

Só com homens e mulheres de grande Verdade é que a Sociedade se transformará. A Política ou a Economia só construirão um Mundo melhor se os políticos e economistas, empresários e governantes, homens de negócios e altos funcionários forem mais transparentes, verdadeiros e coerentes nos seus comportamentos.

 

No final desta passagem do Evangelho, vê-se Jesus a questionar os seus ouvintes, dizendo:  ‘Não foram dez os que ficaram curados ? Onde estão os outros nove? Não se encontrou quem voltasse  para dar glória a Deus senão este estrangeiro ?’

Se, por um lado, temos dificuldade de consciencializar o lado negro, o doloroso ou o imperfeito do nosso ser, mas, quando enfrentamos essa verdade,  tornamo-nos  mais livres, vigorosos e criativos; por outro, vezes sem conta, deparámo-nos com o contrário. As pessoas manifestam  grande incapacidade de ‘saborear’ e meditar, com  gosto, as coisas boas que lhes sucedem.  Até o Senhor Jesus, neste caso concreto, exclamou como um lamento: Não foram dez os que ficaram curados ? Onde estão os outros nove ?’ Nenhum ‘para dar glória a Deus?’

Sim, quando algo bom nos sucede, ficamos, naturalmente, com uma enorme satisfação, com uma alegria tão esfusiante que até nem  nos deixa dormir. Mas, se não reflectimos, ponderamos e meditamos sobre o sucedido, tudo se torna em ‘sol de pouca dura’. Em pouco tempo,  tudo se esquece. O efeito que se espera que se venha a prolongar  na vida que continua, esmorece aos poucos, definha, e desaparece brevemente.

Há que se entender as razões de tal sucesso, de tão bom resultado , de tal consolação e alegria. Perceber por dentro. Que passos me levaram a este final tão consolador? Para que deste modo possa crescer em maturidade. Confirmar cada vez mais a minha identidade, lançar-me mais decididamente no caminho da perfeição.

Mais ainda: consciencializar estes momentos de consolação tem  também um valor muito pedagógico, humana e espiritualmente falando. Entender mais profundamente as consolações leva-nos a enfrentar melhor e a ultrapassar a desolação, o desespero e a angústia que, de tempos a tempos, impreterivelmente nos assaltam.

Precisamos de homens e mulheres capazes de mergulhar  nas profundezas da alma humana, no mais recôndito do nosso Ser. Eles que, sem medo e com sabedoria, entram  no fogo ardente da angústia da nossa existência de seres imperfeitos e nos ajudam  a descobrir, por fim, a aspiração radical e intrínseca do coração humano à Verdade, ao Amor e à Perfeição.

Eu creio que, no mais profundo de si mesmo, o ser humano,  homem ou mulher , tem ‘sede’ de Deus.

 

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

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