A via da humildade

 

1.Luis Sequeira

Falar, nos nossos tempos, de Humildade é corrermos o risco de sermos chamados ’líricos’ ou ‘ingénuos´, para não dizer que seremos gozados, postos de parte e até desprezados e mesmo sermos vítimas de chacota e humilhação pública. Nos ambientes sociais e culturais onde se desenrola o nosso dia-a-dia,  nos meios de comunicação social,  no mundo das Artes, particularmente nas produções cinematográficas,  na política, na economia e até,  por  mais incrível que pareça, na própria Igreja,  comunidade dos crentes, os valores que são mais vincados, tanto no discurso como na prática, passam  pelo ser-se o mais forte,  o mais poderoso, o mais rico, o mais conhecido e aplaudido nas redes sociais ou nas sondagens.

Apesar disso, direi que o Senhor Jesus, como verdadeiro e  legítimo Mestre, continua, na parábola de « o Fariseu e o Publicano», a ser firme nas suas palavras acerca do valor e da necessidade de sermos humildes, dizendo  « … todo aquele que se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado.»

Mas, direi ainda que o Senhor, de forma contundente, vai  mais fundo na denúncia do engano do modo de proceder do orgulhoso. Ele descreve, antes de mais e como sempre, o que se passa no íntimo do coração humano. Põe a claro, de maneira finíssima, os imperscrutáveis caminhos do labirinto de sentimentos que ocupam  o seu interior.  Porque  todo comportamento, seja de homem  ou de mulher, tem o  seu início nos lugares mais escondidos e secretos do nosso ser. É aí que nasce o Bem e o Mal. É aí que têm origem as atitudes de bondade ou de maldade, correctas ou incorrectas, dignas ou vergonhosas. Aí começa o orgulho.

No texto evangélico, o Senhor, muito perspicazmente,  mostra que o convencido, o orgulhoso ou o arrogante, ao contrário do que se ouve dizer à nossa volta, é alguem bastante mais frágil, psicologicamente, do que aquilo que mostra por fora, na presença dos outros. É  como se estivesse a usar uma máscara. É o próprio Senhor que o declara:   « O fariseu, de pé, orava assim: ‘Meu Deus, dou-vos graças por não ser como os outros homens, como este publicano.» Um homem ou mulher que,  para se afirmar,  precisa de andar a comparar-se  com outros é,  estruturalmente,  fraco. Quem  está bem consigo mesmo, confiante do seu valor e, consciente e calmo,  perante os seus próprios defeitos, não precisa de se andar a comparar. Ele é quem é. Está feliz.

Ao seguir Jesus na sua exposição,  reparamos que o fariseu tem duas características que,  ao  tomá-las a sério, nos deixam boquiabertos, por a descrição ser tão penetrante e certeira. O texto sagrado apresenta o fariseu a dizer de si mesmo: «Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de todos os meus rendimentos.»     

Assim, aquele que o Senhor critica, como exemplo de falta de humildade, está, no primeiro caso, entre aqueles que vão ao Templo ou à Igreja, com todas as suas devoções cumpridas. Entre aqueles que pagam as taxas e os dízimos ao Governo, ao Estado, encontra-se a segunda classe de pessoas que o Senhor considera com falta de humildade. Incrivelmente, aqueles que se consideram piedosos e os justos, o Mestre desmascara-os na sua incoerência.

Na verdade, Jesus Cristo é fortíssimo nas suas palavras contra o ‘show off’ e a arrogância espiritual e religiosa dos fariseus, escribas e sumos  sacerdotes. Apenas querem prestígio, aceitação e, ao fim ao ccabo, poder e domínio. Por outro lado e num contexto da vivência do povo judeu, vemos o mesmo Cristo, em  termos bem cáusticos, a insurgir-se com aqueles, escrupulosamente, preocupados com dízimos, leis e costumes, mas sem o verdadeiro sentido de trazer a  liberdade e o bem estar ao povo.

Propor a Humildade,  na sociedade actual,  mais parece não uma ‘utopia’, mas ‘uma estupidez’ ou até  ‘uma loucura’, como  já observava S. Paulo, no seu tempo, quando se falava da Cruz.

Mas,  se não são suficientes o exemplo e o apelo do Senhor Jesus, para escolhermos o caminho da Humildade,  ‘ser humilde’, que sejam os efeitos e e os frutos da actuação dos nossos Chefes de Estados, Presidentes ou Primeiros Ministros, Reis ou Rainhas, nos ajudem a compreender essa tremenda necessidade .

Quem explica as situações calamitosas em que o mundo se encontra?  Por mais sofisticadas que sejam as suas respostas, não escapam a que, no fundo, se encontre sempre a diabólica questão do  ‘ser o maior’, ‘ser o mais poderoso, ‘ser o mais rico’.

São tantas as contradições do sistema político, económico, militar, social e jurídico. Tantas mentiras, em segredo! Descobrem-se tantas maquinações!

Tantos ‘piedosos’ e ‘justos’ que esquecem, escandalosamente, os imigrantes, os refugiados, os explorados, os pobres entre os mais pobres, a destruição da natureza.

Homens e Mulheres deste mundo que é o nosso, temos que fazer o nosso próprio  ‘Caminho Interior’ para entender o que está no profundo do nosso Coração que nos chama à Humildade e à Perfeição.

António Guterres aceitou os tremendos desafios das suas novas  resposabilidades, reconhecendo a necessidade de o procurar fazer «com humildade».

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

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